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Entender junho de 2013

Marcelo Rubens Paiva

04 junho 2014 | 12:17

 

 

 

 

Você entendeu o que aconteceu em junho de 2013?

COMEÇOU com protestos contra o aumento das passagens do transporte público de SP, organizados pelo MPL [Movimento Passe Livre].

Foram protestos (des)organizados de forma horizontal, sem uma liderança convencional, que levou junto os identificados como vândalos e arruaceiros de movimentos anarco-punks, entre eles o mais conhecido, Black Blocs.

No começo, editoriais da imprensa pediam a intervenção policial imediata.

Da Europa, Alckmin deu carta branca.

A ação violenta da PM teve efeito contrário, aumentou a adesão ao movimento, que não parou nem quando governo e prefeitura voltaram atrás e congelaram as passagens.

O movimento se espalhou e, em dias, o inacreditável aconteceu: tentaram invadir a Prefeitura de SP, o Palácio dos Bandeirantes, a Câmera de Vereadores de SP, botaram fogo na Assembleia Legislativa do Rio, tomaram os arredores do Congresso, sitiaram deputados e senadores, ameaçaram invadir o prédio e botaram fogo no Itamaraty.

Colocaram fogo em carros da imprensa, cercaram as sedes da Globo aqui e no Rio.

Até o prédio da Abril foi atacado.

Black blocs de um lado, ativistas contra PEC 37 de outro, nacionalistas, ativistas de direita, ativistas que nem sabiam que defendiam causas da direita, como manifestações “sem partido”, jornalistas voltando atrás… Foi uma confusão.

Manifestantes gritavam: “Ih, fodeu, o povo apareceu!”

O gigante adormeceu. Mas e aí?

Entendeu o que aconteceu em junho de 2013?

Amanhã estreia o filme JUNHO, do grande fotógrafo João Wainer, produção de FERNADO CANZIAN, TV Folha com O2 Play.

Serão 15 cópias na rede ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA e, novidade, no iTune [para mais de 90 países], experiência inédita por aqui que, se der certo, abre um leque gigantesco para o mercado.

 

 

Imagens de dentro de fora das manifestações e da repressão policial dão a dimensão do clima das ruas.

Vê-se de dentro a tentativa de invasão da Prefeitura, o terror dos servidores sitiados, o esforço para impedir a invasão e a depredação do Itamaraty, em cujo saguão obras de Tarsila do Amaral, Di Cavalcanti e Portinari dão as boas vindas.

Vladimir Safatle e Marcos Nobre, grandes nomes da nova filosofia política brasileira, junto com Boris Fausto, conseguem situar o movimento, as suas contradições e o racha, num País cujo debate político é ausente e, por isso, confuso.

Mas o melhor é a participação do poeta Sérgio Vaz, que organiza há quase 20 anos a Cooperifa, encontro de poetas da quebrada (da zona sul), atualmente no Jardim Ângela, e nos explica:

“Quantas mães da periferia não desejaram que as balas da PM aqui fossem de borracha.”

“A perifa nunca dorme.”

“Todos os dias deveríamos nos chicotear, porque deixamos acontecer o que acontece com o Brasil, merecemos este governo.”

“Esse movimento foi uma ejaculação precoce, quando ia tomar o Congresso, parou.”

Bem me lembrou Adhemar Oliveira, do Espaço Itaú: “Revolução é isso, se o Guillotin foi guilhotinado…”

Bem pensado.

A Revolução Francesa tinha um foco, destronar o rei. Porém seus líderes racharam e foram mortos pela invenção de Joseph Ignace Guillotin, a guilhotina, de Danton a Robespierre.

Até a restauração de uma monarquia exoesquelética sob a liderança de Napoleão.

Os efeitos da Revolução Francesa foram sentidos só muitas décadas depois.

No Brasil, JUNHO DE 2013 talvez seja o começo de algo mais amplo, uma reforma profunda das instituições, que virá com o tempo.

Provou que algo tem que ser feito. E que com o povo não se brinca.

Depois de 3 anos de atraso, Congresso aprovou ontem os 10% do PIB para educação.

Vai quase dobrar o investimento do país em educação.

Olha aí o começo das mudanças.

Outubro tem mais.

 

+++

 

Sábado lanço meu primeiro livro infantil.

7 de JUNHO DE 2014.

Parceria com Jimmy Leroy, PEQUENO CIDADÃO e Companhia das Letras.

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