Todos da classe teatral estão um pouco engasgados pela forma como o noticiário, especialmente as TVs, tratou o tiroteio dentro dos PARLAPATÕES e fez uma associaçao rasa entre a obra do BORTOLOTTO e a violência.
Muitas das suas peças falam de amor.
Todas as suas músicas falam de uma mesma coisa: a dificuldade de manter relações amorosas.
Compará-lo a PLINO MARCOS é interessante, mas não preciso.
A não ser por algumas coincidências na vida pessoal: enquanto Plinio morava numa kiti do Copan, Marião mora numa kiti na vizinha Avanhandava; enquanto Plinio rangava de graça no Gigetto, Marião tem cadeira cativa no Planeta’s, ao lado; ambos aparentam ser durões, agressivos, mas são as pessoas mais doces e sensíveis, e absolutamente fiéis aos amigos; ambos não abrem mão de seus princípios e torcem os olhos para a veia comercial do teatro.
Aliás, pouco antes de morrer, nessa foto abaixo, PLINIO nos abraçou e disse, para uma plateia que lotava o SESC POMPÉIA: “São meus herdeiros…”
Sim, todos nós somos seus herdeiros. E somos mesmos. Como somos herdeiros de Machado, Nelson e tantos outros.

OK, as TVs não são obrigadas a conhecer o teatro do Marião, seus repórteres pouco estudam, pouco saem, fazem pautas variadas, falam para um público que tem um repertório cultural baixo, querem audiência, sensacionalismo.
Não são?
Não sei nem se esses telejornais têm editorias de cultura. Ou consultores.
E é um paradoxo, pois na cadeia profissional são os mais bem pagos. Provavelmente, pagam-se por suas vozes e rostinhos bonitos, seus penteados caprichados e a pele bem hidratada.
Por sorte, aparecem os talentos para didaticamente contextualizar a obra do meu amigo. E Beth Néspoli acordou hoje cedo e escreveu este texto brilhante abaixo mesmo sem ter sido pautada. Movida pelo sentimento de justiça.
Valeu Beth.
Mario Bortolotto e violência: uma falsa associação
Título do blog ‘Atire no dramaturgo’ é homenagem ao livro ‘Atire no Pianista’, de David Goodis
Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo
A inquietação mais intensa diz respeito ao equívoco envolvendo o nome do blog de Bortolotto, intitulado Atire no Dramaturgo. Muitos se preocuparam em esclarecer a origem desse batismo, homenagem ao livro Atire no Pianista, do David Goodis. Trata-se de um romance policial que, por sua vez, remete ao cartaz NÃO ATIRE NO PIANISTA que podia ser lido nos saloons do Velho Oeste.
Outra fonte de equívoco talvez tenha vindo das imagens publicadas no blog de Bortolotto da peça Brutal, em cartaz no Espaço dos Parlapatões na madrugada do assalto. Sobretudo uma imagem, respingada de sangue, da atriz Maria Manoella. Mulher do ilustrador Carcarah, que também foi baleado, ela enfatiza: “a peça é um manifesto contra a violência.”
Ainda assim, o tom de Brutal é quase exceção na vasta obra desse dramaturgo. Os personagens de Bortolotto costumam portar mais copos do que armas; há mais outsiders do que bandidos. Editadas, são 19 peças, em três livros de coletâneas. Quem se der o trabalho de ler verá que mesmo os bandidos, em sua maioria, como no velho oeste, orgulham-se de um código de honra no qual não cabe o ataque covarde.
Há quem compare Bortolotto ao Plínio Marcos, mas se há algo em comum, é apenas a compaixão pelo ser humano desgarrado. E só. São universos diferentes. Os personagens de Plínio Marcos lutam para se integrar. Gostariam de ter família, casa e carro, mas têm um impedimento de origem: a pobreza extrema. Por isso são trágicos, nascem marcados por um destino imutável. Querô, filho de uma prostituta que se matara tomando querosene e é criado num bordel, não pode conquistar nada na vida. Seu meio ambiente e seus recursos não permitem, ainda que ele tente.
Já os protagonistas de Bortolotto tornam-se marginais – no sentido de estar à margem, na periferia do sistema econômico – por conta de sua escala de valores. Eles recusam a ideia da conquista de um carro 4×4, roupas de grife, casa na praia e celular último modelo como sinônimo de sucesso. São marginais porque preferem a liberdade de não produzir em série numa esteira industrial, coisa antiga, ou de “serem produzidos em série”, expressão talvez mais pertinente ao jovem trabalhador na atual sociedade de consumo digital. Uma dramaturgia assim nada tem a ver com o estímulo à violência, pelo contrário. Hoje em dia mata-se e morre-se por um “vai passando o celular” como disse o assaltante que atirou em Bortolotto, no testemunho de seu amigo Carcarah, também baleado. E Bortolotto, que não dá a mínima por um celular, reagiu, provavelmente pelos amigos.
Fiel ao que prega, ele não tem muitos bens materiais, apenas uma quitinete no centro da cidade, comprada com os direitos autorais pagos pelo ator Raul Cortez por duas de suas peças, seus livros e sua obra, essa última um bem ‘apenas’ simbólico, imaterial. Tem muitos amigos e de boa cepa. “Cuidado com a vaidade da dor”, foi uma frase ouvida pela reportagem do Estado no sábado, na Santa Casa de Misericórdia. Havia ali um acordo tácito de não se gravar entrevistas para a televisão. Assim, evitou-se o espetáculo da comiseração e da solidariedade forçada. Carcarah, ilustrador, autor dos desenhos de capa de dois livros de Bortolotto, um deles Atire no Dramaturgo, compilação de textos do blog, hesitou em dar entrevista ao Estado depois de ter alta do hospital. “Pode dar a impressão de que estou querendo aparecer. Quem tem de falar é ele, quando estiver bom.” Bortolotto pode não ter muito a esclarecer, mas vai saber que os valores de seu teatro têm ressonância. No mínimo, entre seus amigos, que não são poucos.
Um texto realmente elucidativo para quem não conhece a verdadeira obra de Bortolotto. Tomara que muitos o leiam. Tanto o seu quanto o da Beth. Beijo.
caramba, não gosto muito de vc pra ser sincero, prefiro o Bortolotto. É mais sincero, desligado das coisas materiais, não age por vaidade, é pura arte. Mas, comparações à parte, foi muito bom alguém ter se manifestado neste sentido.Fiquei emputecido com as matérias sensacionalistas que circularam pela tv e o pior, um próprio amigo de vcs ai, andou declarando que ele é intolerante e não suporta um pisão no pé. Bortolotto é o que ele é, vive o que pensa, uma figura.Por isso, o Bortolotto não se deixou morrer, precisava tapar a boca desta midiazinha hipócrita.
eu tb prefiro ele, é mais autêntico
Quando li, achei que tivesse dedo seu, por ser do estadão…
Hj a “redação” da Abril.com publicou uma matéria sobre o evento da próxima sexta…colocaram uma foto da peça Brutal, onde diz que o ator do centro é o Bortolotto…só pq o cara é grisalho!?
Falta de informação e de interesse pelo que tá fazendo total…
Maravilhoso o artigo da Beth Néspoli. Estive no domingo à noite, no ato público organizado no Parlapatões. Gostaria de parabenizar a todos os amigos e envolvidos no problema, pela maneira como vcs têm conduzido a situação. Na era da espetacularização do ínfimo, vcs estão dando um belíssimo exemplo de como se tratar de um grave problema com muita dignidade.
E VIVA O MARIÃO!
era mesmo necessário… e ela disse tão bem dito. e eu gosto tanto do universo do Bortolotto. e sou de tão longe. o q pode confirmar: “Bortolotto pode não ter muito a esclarecer, mas vai saber que os valores de seu teatro têm ressonância.” e ele não precisa dizer nada mesmo, só ficar bom e continuar a escrever.
era mesmo necessário… e ela disse tão bem dito. e eu gosto tanto do universo do Bortolotto. e sou de tão longe. o q pode confirmar: “Bortolotto pode não ter muito a esclarecer, mas vai saber que os valores de seu teatro têm ressonância.” e ele não precisa dizer nada mesmo, só ficar bom e continuar a escrever.
Texto BRILHANTE, mesmo, Marcelo. Captura bem a (grande) pessoa que parece ser o Bortolotto. Também achei nada a ver assossiarem na TV o nome do Blog, “Atire no Dramaturgo” ,com a violencia por ele sofrida.
MUITO fã do Bortolotto. Da pessoa que ele é, do artista e da força de carater que parece ter. Nao vejo a hora de te-lo postando de novo (unica maneira que tenho de conviver com um “amigo” tao especial).
Texto BRILHANTE, mesmo, Marcelo. Captura bem a (grande) pessoa que parece ser o Bortolotto. Também achei nada a ver assossiarem na TV o nome do Blog, “Atire no Dramaturgo” ,com a violencia por ele sofrida.
MUITO fã do Bortolotto. Da pessoa que ele é, do artista e da força de carater que parece ter. Nao vejo a hora de te-lo postando de novo (unica maneira que tenho de conviver com um “amigo” tao especial).
Imprensa mal informada tá virando pleonasmo…é uma furada atras de outra. Bons os tempos que a imprensa dava furos, não furadas.
No mais, acho que o Bortolotto é um dramaturgo de valor.Gosto desse universo marginal que ele se propõe relatar. Mas… ao mesmo tempo me parece um cara “preso” ao personagem que criou pra si próprio.Esse figurino”sou-assim-mesmo-e-quero-que-o-mundo-se foda” enche o saco as vezes.Por mais que ele não se importe com isso.
Um cara cantando alto na rua tambem ta na dele. E tambem aporrinha.
Mas ele vai sair dessa, e a arte agradecerá.
abs!
Muitas vezes que se critica o que é feito para a massa, alguém diz que é inveja. Como quando você comentou sobre o filme Crepusculo, ou como faz agora sobre o teatro. Que sentimento que te leva a fazer uma crítica? Abraço
não entendi
Deixei de acreditar e me importar com “os de pele hidratada e penteados montados” faz tempo.
Você disse, pautas variadas e etc. Damos um desconto, senão enlouquecemos.
Reparou quantos deles anunciou a agressão ao Mario BErtolotto ?
Abraço pros herdeiros e força pro Mario
Sempre achei q a identificação rolava com a obra e não com o autor dela. Embora seja delicioso quando vem o pacote completo. Não compreendo o q seja pura arte. Ou é arte ou não é. Se é boa ou não, se gosta mais de um do q de outro aí tem a ver com as suas idiossincrasias. Com o q ela te diz e com o q te sacia. E é um outro assunto. Totalmente subjetivo e longe do sujeito-autor. Tem a ver com paladar. Acho uma grande bobagem qualquer tentativa de escalonamento. Acho pobre mesmo, superficial e nada mais antiarte q esse resquício academicista e mercadológico de se etiquetar as coisas. Acho Bortolotto du caralho, como ele mesmo gosta de dizer. O Marcelo, um desbunde. Adoro os dois mundos, distintos e q por assim ser se complementam. Eu sou enlouquecidamente fascinada pelo Marcelo. Mas nem mesmo assim seria capaz de fazer hierarquia. Os dois saciam as minhas miríades, junto de tantos outros.
Até que enfim alguém escreve algo decente sobre o acontecido…Esperar que nossos jornalistas tenham informação é pedir muito, o negócio deles é achar um rótulo e pronto. Alguém disse a eles que as peças do Mario falam de violência, pronto. Viram o cartaz da peça, tem sangue, pronto. Olha o nome do Blog dele! O cara é violento, só pode ser…É de um reducionismo incrível. Mas é assim que essa gente trabalha. A mediocridade impera.
Enquanto isso, nós, leitores espectadores fãs amigos do Bortolotto torcemos por sua reecuperação a mais rápida possível…
texto perfeito. desengasgou não só a classe teatral, mas também os admiradores do grande mário. obrigada, marcelo. obrigada, beth.
Gosto muito de ler sua crônica no Estadão Marcelo! e fiquei muito triste com o que aconteceu, frequento os teatros da Praça.
Outro dia meu filho sofreu um sequestro relampago, felizmente ele ficou tranquilo e conversou com os ladrões e deu tudo certo, eles levaram só dinheiro! Todos nós,temos uma história pra contar de violéncia,até quando vamos continuar a construir este mundo assim? Somos responsáveis por tudo isto!bjs Bom, felizmente o Mário Bortoloto está se recuperando e bem!!!Assim espero!
Marcelo, leio sempre a sua cronica no Estadão e curto muito. Fiquei muito triste com o que aconteceu com o Mario, frequento os teatros da Praça. Estou torcendo pra que ele fique bem! bjs
Desde o evento sexta passada fico lendo a FSP esperando o artigo seu que “mandaria a real”. que explicaria o que sentimos coletivamente pelo Mario e pelo que representou para nós simbolicamente um tiro dentro de um teatro…Uma coisa absurda demais para alguém sem o jeito que você tem com as palavras explicar. Mas a Beth mandou bem, você também claro aqui. Importante que saibam quem o Marião é – e não só uma tag de manchete tablóide no uol. Muito mais importante é ele estar melhorando, e o desespero vai amainando. Ele resiste como nossa teimosia, que domingo se reuniu para marcar o território de ARTE que o teatro e a praça vão continuar sendo. beijo e valeu.
As tvs não estão interessados em pessoas, independentes quem estas sejam, querem a notícia como grandes expositores de pseudo informações… não entendem nem de bom teatro, nem de boa música, nem de filmes de qualidade, enfim … não estão preocupados com qualidade e conteúdo, mas com audiência e comércio… isso eu não me espanto, pois como profissional da Educação (área esquecida pelos meios de comunicação de massa) vivencio isso todos os dias num combate quixotesco… porém, felizmente, não solitário… pela cultura, reflexão e espanto social…
Sempre assim. Tentam fazer virar moda, ou pior: mundo cão. Coisa de chacal daquele deserto que é a midia pública. O dramaturgo Bortolotto não são a sua obra por um simples motivo. Ele é um ser humano.
Essa confusão patrocinada pela má TV, pelos amigos de ocasiao, por recalcados em geral é uma das bases do absurdo da situação. Muito bons e importantes os textos teu e da Beth.
abraço
Mauricio
É emocionante ver que os herdeiros continuam a luta iniciada por seus pais no jornalismo , Marcelo e no teatro , Dionisio. A foto é linda.
Podem tentar matar o homem , até matar o homem mas não suas idéias.
A luta contra a violência continua. celia brandao
Esclarecedor o texto para todos os que só acompanharam pela tv…
O problema é que, provavelmente, estes só ficarão atrelados ao que vêem na tv, sem procurar segunda opinião… a tv acomoda, não é?
Ótimo ver que nossas boas vibrações tem dado bons resultados.
Adorei o texto. Incrível. Encaminhei para todos que, em uma roda de conversa em conhecer o Mario disseram “ah, mas ele não deveria ter reagido, pediu, né?”. Humpf.
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