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bastards!

Marcelo Rubens Paiva

19 agosto 2010 | 12:33

scotland yard

 

Soube ontem de mais detalhes sobre o caso do post abaixo, do grupo paulista, TEATRO NA CURVA, barrado e extraditado de Londres.

Desde o desdembarque, invocaram com eles.

O caso revoltou até os funcionários da TAM, que filmaram tudo.

Foram 8 horas de terror.

Os agentes ameaçaram “arrebentar” com os atores, se não colabrassem.

O festival mandou 2 advogados e 1 representante. Em vão.

Os passageiros brasileiros protestaram e fotografaram.

Revistaram cada ator 3 vezes.

Na revista que sofriam agressões e safanões.

Não deixaram ligar para a embaixada brasileira.

Os colocaram numa cela, com 1 telefone público, com instruções apenas em português de como ligar para o Brasil.

O que se deduz que é uma cela para brasileiros.

Alguns, para não perderem a viagem, queriam ser deportados para Paris.

Não deixaram.

Foram escoltados pelos agentes até o voo da TAM que saía 8 horas depois.

Cada ator era escoltado por 3 agentes, que não falavam português; a maioria era indiana.

Na porta do avião, os agentes levaram uma dura da tripulação da TAM, que dizia: “Aqui é território brasileiro, vocês não mandam, aqui.”

Os atores entraram no avião e foram aplaudidos.

E as comissárias diziam: “Bem-vindos ao Brasil”.

E os trataram como reis.

O caso não para aqui.

O grupo entrará com representação na embaixada inglesa e soltará um manifesto.

Só há uma dedução possível: O caso JEAN CHARLES está entalado na polcía britãnica, que revelou a sua incopetência e abalou o prestígio da SCOTLAND YARD.

E a reação é a mais insana, perseguir brasileiros.

Nem o divã salva.

Hoje, CELSO MELEZ, um dos atores deportados, que faz a minha peça O PREDADOR ENTRA NA SALA, estará de volta no palco dos PARLAPATÕES.

Foi substituído ontem dignamente pelo ator FÁBIO OCK.

Que seja bem-vindo, CELSINHO.

Aqui, para nós, você é o príncipe da PRAÇA ROOSEVELT.

 

 _DSC0062

 

Aqui vai a carta que o grupo soltou oficialmente:

Queridos amigos

Há aproximadamente 6 meses, a nossa Companhia – Teatro da Curva – recebeu um convite do Camden Fringe Festival , de Londres, para apresentar o espetáculo “Otimismo”, de Voltaire, adaptação de Ralph Maizza. Estreamos esse espetáculo em 2008 e ao longo de 2 anos fizemos 3 temporadas. Esse convite representou a expansão e coroação de um espetáculo realizado com poucos recursos, mas com muita dedicação, profissionalismo e amor. Durante esses 6 meses, trabalhamos continuamente e intensamente no levantamento de recursos afim de financiar a nossa viagem, visto que não haveria remuneração financeira, e sim apenas o intercâmbio cultural.  Levantamos a verba necessária e adaptamos o nosso espetáculo para atender às necessidades do público inglês, de forma a proporcionar uma ampla compreensão do texto encenado, sem que o mesmo perdesse a sua essência.

Enfim, reunimos toda a documentação necessária de acordo com a legislação da imigração inglesa e seguindo orientação do Festival, que inclusive nos enviou uma carta convite, constando o nome de todos os envolvidos, para que a mesma fosse apresentada na imigração. Nos endividamos, recebemos o apoio de amigos, familiares e classe artística, e embarcamos rumo à concretização dos nossos sonhos e expectativas. Após uma longa viagem de 12 horas, chegamos cansados, porém muito empolgados e felizes, em solo inglês. Num primeiro momento, fomos recebidos cordialmente pelos agentes da imigração inglesa. Apresentamos todos os documentos necessários, demos as devidas explicações e fomos sinceros e claros quanto aos nossos objetivos em território inglês. Entregamos ao oficial nossos passaportes, a carta convite, as passagens de ida e de volta, o endereço no qual ficaríamos hospedados com carta de acomodação e informamos o quanto possuíamos em libras, quantia essa mais do que suficiente para bancar a nossa permanência em Londres durante os 10 dias de viagem.

Enquanto o oficial da imigração checava toda a documentação apresentada, fomos conduzidos a outra sala, onde nos revistaram e também as nossas bagagens, tudo de maneira cordial, porém, com algumas perguntas evasivas e atitudes invasivas (como, por exemplo, pedir para traduzir a carta de “boa viagem” da mãe de um dos atores, entre outras violações). Após 5 horas de espera, sendo ludibriados pelos oficiais da imigração, que nos diziam tudo aquilo se tratar de procedimento padrão para que pudéssemos entrar em território inglês, fomos comunicados (sem justificativas plausíveis) da nossa inadmissão naquele país. A imigração alegou que não poderíamos entrar, pois não se tratava de um festival que possuía registro oficial e, portanto, o mesmo não tinha o direito de nos convidar. Sendo assim, necessitávamos de um visto de trabalho.  No entanto, segundo cláusula do site de imigração londrina, é permitida a entrada no país de turistas e artistas para mostrarem o seu trabalho temporariamente, num período de 10 dias, não necessitando do visto de trabalho, já que não há remuneração. Mesmo sem o direito da palavra, dissemos isso ao oficial da imigração que, com muito cinismo e prepotência, nos replicou que poderíamos sim entrar dessa forma, porém não naquele dia e, se quiséssemos, poderíamos voltar no dia seguinte. Ainda assim, manifestações, advogado e pessoas do festival estavam no aeroporto tentando falar com a imigração para confirmar a veracidade das nossas informações, a falha de um documento complementar por parte do festival, bem como explicar que a nossa situação era completamente legal. A imigração, com seu radicalismo e xenofobia, não permitiu que essa comunicação fosse efetuada.  A partir desse momento, a cordialidade dos oficiais ingleses transformou-se em uma hostilidade injusta e inadequada, já que estavam lidando com artistas (turistas) com documentação legal, que não haviam cometido nenhum delito. Digitais (mãos inteiras) e fotos foram tiradas de todos, e o direito de réplica nos foi negado de maneira estúpida e ameaçadora. Nos revistaram novamente, mas dessa vez  de maneira agressiva. Nenhuma explicação.  Agentes da segurança foram chamados para impedir qualquer manifestação da nossa parte, que apenas desejava conversar e entender o ocorrido. O pedido de tomar banho, trocar de roupas ou mesmo de fumar um cigarro foi negado rudemente, bem como a comunicação com a nossa produtora local. Os celulares foram apreendidos para que não tirássemos fotos. Em seguida, fomos escoltados por um grupo de seguranças até o momento de entrada no avião, cuidando para que não abríssemos as bagagens. Nos cercaram na zona de embarque na frente de todos os passageiros, até que os mesmos entrassem no avião.             Nos sentimos envergonhados e acuados, e enquanto embarcávamos de volta, os seguranças ingleses nos davam um “tchauzinho” cínico e um sorriso sarcástico.

É importante registrar o quanto foi saudosa a recepção da tripulação da TAM, assim como a reação dos passageiros a nossa volta, bem como a calma e solidariedade da Policia Federal ao chegarmos no Brasil.

Com relação à falha da documentação complementar que não foi emitida pelo festival, o grupo já está tomando as devidas providências. Vale ressaltar que tal falha não tornava a nossa condição ilegal para que pudéssemos entrar em solo “shakespeareano”.

Escrevemos essa carta para o esclarecimento dos fatos, para que não haja dúvidas e tampouco distorções a respeito do ocorrido. Sobretudo, colocamos aqui que o objetivo não é o ressarcimento financeiro, e sim a expressão de nossa tristeza, indignação e sensação de impotência, visto que nos sentimos envergonhados sem termos feito nada de errado, bem como nos sentimos fracassados e humilhados sem termos falhado. Não é possível descrever o sentimento de rejeição e injustiça gratuita que experienciamos. No mais, acima de tudo, queremos fazer jus a nossa dignidade. Chegou a hora de lutarmos efetivamente contra a xenofobia, bem como reivindicar nossos direitos de cidadãos do mundo e artistas.

Abraço a todos,

Teatro da Curva

Celso Melez, Didio Perini, Flávia Tápias, Leandro D’Errico, Mariana Blanski, Ralph Maizza, Reynaldo Thomaz, Ricardo Gelli, Tadeu Pinheiro e Walter Figueiredo.