Neste ano, faz 40 anos da prisão e morte do meu pai, no porão do I Exército do RJ.
A Secretaria dos Direitos Humanos me procurou no ano passado, para perguntar como poderíamos homenageá-lo.
Tive a ideia desta exposição, que abre amanhã.
Inspirada numa exposição que vi do Marighella no mesmo lugar, o MEMORIAL DA RESISTÊNCIA, museu que funciona no antigo prédio do DOPS.
Foram meses de preparo, scanners, abertura de arquivo familiar, fotos e documentos que nem sabíamos que estavam guardados.
Coincidentemente, corríamos paralelo ao livro sobre o meu pai, que o Jason Terson finalizava, SEGREDO DE ESTADO.
A abertura é amanhã às 11h e fica até julho.
Com lançamento do livro.
Todos convidados.
Minha missão, desde os 11 anos, foi denunciar, lutar, participar de movimentos civis contra a ditadura, ajudar, dar informações e, depois, usar um pouco da fama de escritor para denunciar e lutar.
Mas a arma mais barulhenta que tive nas mãos foi escrever.
Como este texto:
Caros generais, almirantes e brigadeiros
Ei ia dizer “caros milicos”. Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?
Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.
Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.
Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.
Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do cinema novo?
Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.
Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação?
Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.
Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha cinco anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.
Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?
Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.
Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de cinco anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia…
Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de “gorilas”. Ri muito quando a recebi.
Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.
Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador.
Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores- ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.
A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.
Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram.
Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais.
Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.
Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa [a de que ele tinha fugido] e não se falou mais no assunto.
Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do Segundo Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.
Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para “desaparecido”. Deixei em branco.
Levei uma dura do oficial. Não resisti: “Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo.” Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, “dispensado”, e saí de lá com a alma lavada.
Então, só em 1996, depois de um decreto lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.
Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o Brigadeiro Burnier lhe disse: “Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças.”
Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.
Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.
cara marcelo, sou um fã seu e através de seus olhos vivi um pouco a sua historia lendo o seu livro “feliz ano velho” e ao saber que seu pai será homenageado me sinto feliz,e muito mas por saber que que a sua luta não foi em vão e que o Brasil que ele queria de justiça e liberdade é Real e não mais somente útopia da Geração do pessoal dos Anos 60.um forte abraço e força sempre
Oi Marcelo, ainda estou aguardando uma resposta sua sobre o meu recado anterior. De qualquer forma, vou dar uma passada na exposição amanhã, quem sabe batemos um papo pessoalmente.
Obrigada,
Carla
Poh Marcelo…..
Sinceramente pensei que o Dilmão de alguma forma promoveria uma caça a esses assassinos, mas pelo jeito, foi só mais uma ilusão política.
É revoltante que os que ainda estão vivos não sofram nenhuma punição.
E que os mortos virem nome de rua.
Oi Marcelo,
Puxa… até me emocionei. Que oportunidade maravilhosa poder contar através desta exposição a tragetoria (triste e real infelizmente), de tantos anos de luta da sua familia. Uma de suas irmãs, foi professora da minha mãe na faculdade. Ela contou algumas passagens do sofrimento e luta de vcs, o que sempre comovia à todos.
O seu texto é incrivelmente tocante e certamente fara muita gente pensar no assunto.
Infelizmente moro no exterior e não poderei estar amanhã com vcs. Estarei em férias em SP no mês de julho. Até que dia vai a exposição?
Ah! So para constar, conservo “a 7 chaves” e com muito carinho, a primeira edição do Feliz Ano Velho, que foi autografada por vc em 1986 ou 1987 (não tenho certeza do ano), na Bienal do Livro no Ibirapuera.
Mais uma vez, obrigada por nos presentear com esta exposição e com todos os seus trabalhos.
Forte abraço
Luciana
Oi Marcelo,
Puxa… até me emocionei. Que oportunidade maravilhosa poder contar através desta exposição a tragetoria (triste e real infelizmente), de tantos anos de luta da sua familia. Uma de suas irmãs, foi professora da minha mãe na faculdade. Ela contou algumas passagens do sofrimento e luta de vcs, o que sempre comovia à todos.
O seu texto é incrivelmente tocante e certamente fara muita gente pensar no assunto.
Infelizmente moro no exterior e não poderei estar amanhã com vcs. Estarei em férias em SP no mês de julho. Até que dia vai a exposição?
Ah! So para constar, conservo “a 7 chaves” e com muito carinho, a primeira edição do Feliz Ano Velho, que foi autografada por vc em 1986 ou 1987 (não tenho certeza do ano), na Bienal do Livro no Ibirapuera.
Mais uma vez, obrigada por nos presentear com esta exposição e com todos os seus trabalhos.
Forte abraço
Luciana
Esse pessoal tem mais medo do que todos, pois se encondem atras da farda e de uma arma…
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Resistência
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1959-1960-1961-1962-1963-1964-1965-1966-1967-1968-
1969- 1970- …
1971-1971-1971-1971-1971-1971-1971-1971-1971-1971
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Rapaz, te acompanho desde já não me lembro mais, antes da facul eu sei. Li tanta coisa, estudei tanto a respeito sobre a ditadura, AI-5 etc. E somente esta parte sobre seu pai eu nãi sabia. Bem, sabia do “desaparecimento” por sempre procurar vc em entrevistas e tal. Cheguei até mandar uma carta para a Editora Brasiliense, mas pelo visto vc não recebeu…rsrsrsr…
Bem, enfim, estou sem palavras pela sua carta. Se eu não morrase tão longe amanhã antes do horário combinado eu estaria na porta do museu.
Bjs, meu caro, fique bem….
Estou passando um tempo em Buenos Aires e presenciei ontem as manifestações sobre os 35 anos do golpe argentino. Emocionante ver as pessoas envolvidas na luta pela liberdade e justiça. Lamentei que no Brasil a coisa seja muito mais fria. Mas cada vez que leio um destes seus textos ganho um novo ânimo e mais esperança. Parabéns por não desistir. Infelizmente não sei bem como posso apoiá-lo, e limito-me a repassar os links para amigos. Mas fico na torcida e pronto pra agir no que puder colaborar, se eu descobrir como.
eu sei que nem começou a exposição ainda, mas vcs poderiam correr as cidades do interior com ela.. seria uma boa.. nao, seria uma ótima ideia, ja que nao sei se consigo para a capital antes do término e amo o tema…
fica a dica, e o pedido
Irei com todo prazer,visitar a exposição,não neste fds mas no próximo.
Abraços e saudações corinthianas!!
Caro Paiva,
Já que faz 40 anos de prisão e morte de seu pai, dá uma olhada na manchete do jornal de maior circulação aqui de MT.
http://www.folhadoestado.com.br/jornal/paginas/grd/5_1125.pdf
É pra acabar com qualquer tesão, né?
dá. lamentavel…
responder este comentário denunciar abusoah vá, fala que essa matéria é fake. e a gente ainda tem coragem de falar mal de argentino. parei.
responder este comentário denunciar abusoPior que não é fake, Mirian.
Pelo contrário esse tipo de manifestação é COMUM por aqui. Existe um endeusamento-amenésico enojante.
É pra acabar!
responder este comentário denunciar abusoEstou lendo o livro sobre seu pai – Segredo de Estado. Já conhecia a história, mas só agora consigo ter um pouco mais de noção do absurdo que foi esse desaparecimento. Quão terrível deve ter sido (e ainda deve ser) pra você e sua família, sobretudo, sua mãe.
Estou quase no final da leitura, mas, de vez em quando, volto ao ínício, numa esperança meio maluca de tentar mudar o final. Mas não muda, né?
Essa exposição, esse livro e tudo o mais que seja feito pra trazer à tona os horrores daquela época são mais do que importantes: são necessários. Se não dá pra mudar o que já passou, pelo menos dá pra tentar evitar que aconteça de novo.
Muito emocionante seu texto; aliás, como tudo o que você escreve.
Pô Marcelo, fiz uma saknagem cuntigo!
meio sem querer, mas fiz!
Criei uma página pra vc no facebook, só q agora a galera ta falando cumigo, pensando q é com vc!
Por ser muito ocupada, (não que vc não seja, mas cabe muito mais a vc do que a mim, a dignidade de responder aos seus fans amados) não tive como te passar isso antes!
Quem me mostrou vc foi eu namorado, com o “Feliz Ano Velho”, que inclusive fez eu me apaixonar por vc do mesmo jeito q por ele!
o seguinte: a página no face é:
http://www.facebook.com/pages/Marcelo-Rubens-Paiva/152116588170594
adorei te ver por aqui!
um bjao!
eu vi. pediria q vc deletasse, eu ja tenho o meu, obrigado
responder este comentário denunciar abusoTapar os olhares em relação a um assunto desastroso, senão catastrófico, é concordar com a tortura e carregar o peso eterno de todo sofrimento dos familiares! Obviamente, como relatado aqui, alguns situações sooam como pessoais – que desfacela ainda mais o regime nojento deles! Enquanto o governo não punir os responsáveis, nenhum brasileiro que se preze, dará por satisfeito sua alma ‘lavada’. Pensei que o presidente Lula, iria bater de frente com os generais, mas não foi isso que ocorreu. Até quando será necessário guardar esse mar atônito?
Excepcional o seu texto! Mas acredito que a mudança só existirá se partir da sociedade. Dos quartéis, não se pode esperar nada… nem do Governo.
O Jobin nomeou o Genuíno para assessor especial. Imagine como estão os generais…
Só nossa mobilização poderá forçá-los a mudar a lei. Tivemos a condenação na OEA, mas o STF já disse que não tá nem aí pra Corte Americana…
Segue uma matéria interessante sobre como foi a votação que culminou na Lei de Anistia. Artigo de Maria Inês Nassif, publicado no Valor. A coisa foi simplesmente vergonhosa. Eu iria colocar o link, mas é área exclusiva de assinantes, então tive que copiá-lo.
Embora texto extenso, essas informação têm que circular, compor nossa mobilização.
Um acordo em que a ditadura resolveu tudo
Maria Inês Nassif
06/05/2010
O “acordo histórico” feito pela sociedade brasileira, segundo o STF, foi decidido solitariamente pelo poder militar
Era o dia 22 de agosto de 1979. No plenário da Câmara, onde o Congresso se reuniria mais tarde para examinar a proposta de anistia do governo do general João Figueiredo – famoso por ter pedido para ser esquecido, depois de ter deixado o governo, e ter sido obedecido – 800 soldados à paisana ocuparam quase todos os 1200 lugares das galerias. Os manifestantes que ainda tentavam mudanças no projeto de anistia do governo – que perdoou só os crimes de sangue cometidos pelos próprios militares – ganharam os lugares de volta quase aos gritos. Às 14 horas, os soldados bateram em retirada.
As cadeiras no plenário para assistir ao espetáculo de imposição militar dos termos da anistia – que era mais auto-anistia do que qualquer outra coisa – talvez tenha sido a única conquista efetiva dos movimentos que se mobilizavam para restituir os direitos políticos dos adversários da ditadura. Desde o envio do projeto ao Congresso, em 27 de junho, até sua aprovação, 56 dias depois, imperou o ato de vontade dos militares, acatado pelos civis que formavam, no parlamento, uma maioria destituída de coragem e vontade.
Em tese de doutorado defendida em 2003 no Departamento de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), intitulada “Dimensões Fundacionais da Luta pela Anistia”, Heloísa Amélia Greco reconstitui, passo a passo, a aprovação da lei. O texto do projeto do governo foi enviado ao Congresso sem que ninguém da oposição consentida, o MDB, pelo menos oficialmente, tenha sido consultado. Na cerimônia convocada por Figueiredo, no Palácio do Planalto, para oficializar o envio do projeto, estavam presentes todos os ministros e toda a bancada de deputados e senadores do partido do governo, a Arena. O MDB boicotou a cerimônia para marcar uma posição contra um projeto que excluía setores importantes da oposição à ditadura de seus benefícios.
A Comissão Mista do Congresso Nacional que analisou a proposta foi escolhida a dedo. Dos 23 integrantes, 13 eram incondicionalmente fiéis ao governo. O presidente da Comissão, o arenista Teotônio Vilela, dissidente e partidário de uma anistia ampla, somente exerceria o seu voto no caso de empate, o que jamais aconteceu. O relator, Ernâni Satyro, seguiu à risca o roteiro traçado para ele. As emendas aceitas em seu substitutivo foram definidas no Ministério da Justiça, em reuniões com o ministro Petrônio Portela, o líder da maioria no Senado, Jarbas Passarinho, o líder da maioria na Câmara, Nelson Marchezan e o presidente do partido, José Sarney. Todas as votações da comissão cravavam um inevitável placar de 13 a 9.
Por maioria governista, entenda-se um Congresso plenamente constituído pelo Pacote de Abril do governo anterior, do presidente-general Ernesto Geisel. O pacote, baixado por força do AI-5, em 1974, criou os senadores biônicos (o terço do Senado escolhido indiretamente por colegiados estaduais) e redefiniu a composição da Câmara de forma a dar mais peso ao eleitorado do Norte e do Nordeste, regiões onde a Arena mantinha prestígio por meio de lideranças tradicionais de caráter patrimonialista. Produziu seus resultados na eleição de 1978. Em 1979, a Arena tinha 231 deputados, contra 189 do MDB; no Senado, eram 41 senadores arenistas – destes, 22 eram biônicos – e 26 pemedebistas.
O projeto do governo, aprovado pelo Congresso em 22 de agosto, foi uma obra solitária do governo militar, referendada por uma maioria parlamentar bovina, totalmente submissa ao poder. Mesmo o voto final do MDB ao substitutivo de Satyro não pode ser colocado na conta da concordância, ou da negociação – foi apenas o voto naquilo que sobrou. O substitutivo do MDB foi rejeitado no plenário, mesmo com a ajuda de 12 parlamentares arenistas; a emenda do deputado Djalma Matinho (Arena-RN), vista como uma opção menos pior que o projeto do governo, também foi rejeitada, mesmo com a ajuda de 14 dissidentes. O MDB entendeu que antes o substitutivo de Satyro do que nada – ainda assim, com a abstenção de 12 de seus 26 senadores e o voto contrário de 29 dos 189 deputados, que preferiram marcar posição contra a anistia limitada dos militares.
A anistia de agosto, aprovada pelo Congresso, perdoou torturadores. Beneficiou também os adversários do regime que pegaram em armas mas não tiveram sentença transitada em julgado. Os presos políticos condenados por luta armada, no entanto, cumpriram penas – depois reduzidas -, mas não foram anistiados. A ditadura designava os adversários que optaram pela luta armada como “criminosos de sangue”. Não consta que tenham considerado da mesma forma os que torturaram e mataram a mando do Estado.
A anistia foi essa. Na última hora, na promulgação da lei, o general Figueiredo vetou a expressão “e outros diplomas legais” – passaram a ser anistiados só os punidos por atos institucionais. O veto a quatro palavras excluiu do benefício os militares, os sindicalistas e os estudantes punidos por sanções administrativas, pelo decreto 477 e por outras determinações legais impostas pela ditadura.
Este é, segundo o Supremo Tribunal Federal (STF) em decisão proferida na semana passada, o “acordo histórico” feito pela sociedade brasileira: de um lado, a sociedade civil mobilizada em comitês que pleiteavam anistia ampla, derrotada; de outro, baionetas e maiorias forjadas por atos institucionais e Pacote de Abril. A autora da tese de doutorado cita, a propósito, uma frase do jornalista Aparício Torelly, o Barão de Itararé: “Anistia é um ato pelo qual os governos resolvem perdoar generosamente as injustiças e os crimes que eles mesmos cometeram”. Foi isso.
O Brasil vai sentar no banco dos réus da Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos por conta dos crimes cometidos pela ditadura. A OEA pode condenar o país a anular a sua lei de anistia, a exemplo do que já fez com o Chile e o Peru, para punir os que torturaram e mataram. O STF que explique direitinho para a OEA esse complicado pacto em que a ditadura resolveu tudo sozinha.
nunca achei esta história muito bem contada, não entendo bem, acho que uma minoria de estudantes lutava pela liberdade de expressão movidas pela febre da
não acredito que ricos quisessem defender interesses humanos e
acho estranho uns certos “mitos” da luta pela liberdade de expressao serem
tão alienados agora, nesta história toda acho que alguém não deu a parte de
alguém,devia ter rabo preso, sei lá
Parabéns, Marcelo. Seu pai merece essa homenagem e muitas outras.
Não sabia que tinha sido o psicopata do Burnier o responsavel pela tortura do seu pai.
Entre outras que ele aprontou, depois que ele foi desligado por cola do ITA fez tudo para perseguir a instituição e seu fundador, o Marechal do Ar Casemiro Montenegro Filho
Belo texto. Me emocionei. Imagino, ou melhor, não consigo imaginar o tamanho da dor. Assim que for ao Rio irei à exposição.
Devo dizer que acabei resolvendo um recente dilema: um trabalho de Filosofia aparentemente (apenas aparentemente!) simples – Ações para mudar o mundo. Colocá-las em prática.
Gastei dias pensando e agora vi que a desinformação é uma das armas mais letais. Há muitas coisas que devem ser ditas.
Aliás, Rio não, São Paulo. Um pouco mais complicado para mim, mas espero ter a oportunidade de visitar.
responder este comentário denunciar abusoOlá Marcelo,
Meu marido foi ao lançamento do livro, e sabiamente o comprou! Chegando em casa, ontem (sábado), já dei umas folheadas… percebi que irei lê-lo rapidamente… pelo interesse que possuo pelos anos de ditadura, e também pela admiração que nutro por você… imagino a luta que todos vocês tiveram e ainda a possuem, suplicando, ao menos, o direito em saber onde está o corpo do seu pai… Meu marido adorou ir ontem ao memorial e veio me contando como foi… emocionante! não pude ir, pois fiquei com meu filho, Theo, de 1 ano, e acho que realmente não seria uma boa ideia levá-lo: ele ficaria irritado com muitas pessoas e não seria o “centro das atenções”… risos! Queria ter ido para melhor compreender a luta de vocês e também, aproveitaria o momento e para dar-lhe um abraço, pela luta que correm e pela importância que você teve na minha adolescência. Seu livro: “feliz ano velho”, foi o primeiro livro interessante que li aos 12 anos, ( hoje tenho 30 anos)emprestado por uma amiga… depois li “Blecaute”, “Bala na Agulha”… ficava impressionada com a sua capacidade atual e intrigante de escrever… não conseguia desgrudar do livro um minuto!
Bem, era isso o que lhe diria, se tivesse ido ontem ao Memorial, mas de qualquer maneira, irei visitar a exposição qualquer dia desses…
Sinta-se abraçado,
Com carinho,
Michelle
Na época da ditadura, eu escrevia cartas para o SP Pergunta do JT escondido sob vários pseudônimos, criticando os governos militares.
Usava um endereço falso, rg falso, etc e eles sempre publicavam.
Até hoje não sei se eu os enganava, ou se eles fingiam que eram enganados.
Oi Marcelo, tô doida pra ir à exposição!
Tô esperando um amigo que vem do interior só pra isso e iremos juntos.
Ontem participei da blogagem coletiva sobre o desarquivameto dos arquivos da ditadura e mencionei seu nome.
A história da sua família mexe comigo desde que eu tinha uns 10 anos de idade e soube o que vocês passaram e, claro, quando o assunto é “ditadura”, impossível não lembrar de vocês.
Gostaria muito que você fosse no meu blog e ler meu humilde texto sobre o assunto. Não sou tão boa nas palavras como você, mas gosto de escrever um pouco.
Ficarei lisonjeada e feliz, se passar por lá e mais ainda, se deixar um comentário que poderá ajudar a enriquecer ainda mais o texto, com seus relatos.
O endereço é http://fla-fernandes.blogspot.com
Obrigada e um beijão,
Flávia
[...] Texto do Marcelo Rubens Paiva publicada em 25/03/2011, em seu blog no Estadão. [...]
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