Eu ia dizer “caros milicos”. Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?
CABELO PARA TRÁS, SOLDADO!
Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.
Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.
Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.
Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do cinema novo?
Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.
Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação?
Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.
Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha cinco anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.
Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?
Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.
Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de cinco anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia…
MEU PAI CERCADO POR 3 FILHAS E PELA MÃE, AVÓ CECY, NA EMBAIXADA
NA EMBAIXADA. FESTÃO DE 5 ANOS. COM OS FILHOS DE OUTROS EXILADOS, PREPARADO PARA COMBATER A DITADURA [AO MEU LADO, GLAUCIA, FILHA DE ALMINO AFONSO]
Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de “gorilas”. Ri muito quando a recebi.
Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.
Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador.
Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores- ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.
A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.
EU E EDU GASPARIAN, QUE FOI PRO EXÍLIO E DEIXOU TODAS AS GAROTAS DO COLÉGIO ANDREWS – RJ PRA MIM. QUE NÃO ME DAVAM A MENOR BOLA. DEVE SER A GOLA. OU A FRANJA
Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram.
Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais.
Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.
Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa [a de que ele tinha fugido] e não se falou mais no assunto.
Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do Segundo Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.
Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para “desaparecido”. Deixei em branco.
Levei uma dura do oficial. Não resisti: “Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo.” Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, “dispensado”, e saí de lá com a alma lavada.
Então, só em 1996, depois de um decreto lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.
Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o Brigadeiro Burnier lhe disse: “Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças.”
Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.
Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.
O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, deu um parecer contrário à revisão da Lei da Anistia [de 1979], e o encaminhou ao Supremo, que analisa ação da OAB que contesta o seu primeiro artigo- que considera como conexos e igualmente perdoados os crimes “de qualquer natureza”.
Ele defende a abertura e o livre acesso dos arquivos da ditadura. Mas avalia que a lei foi votada depois de um debate nacional promovido por setores da sociedade civil. A revisão seria “romper com o compromisso feito naquele contexto”.
“A sociedade civil brasileira, para além de uma singela participação neste processo, articulou-se e marcou na história do País uma luta pela democracia e pela transição pacífica e harmônica, capaz de evitar maiores conflitos”, escreveu Gurgel.
“Com perfeita consciência do contexto histórico e de suas implicações, com espírito conciliatório e agindo em defesa aberta da anistia ampla, geral e irrestrita, é que a Ordem saiu às ruas, mobilizou forças políticas e sociais e pressionou o Congresso Nacional a aprovar a lei da anistia”, afirmou.
Ou o procurador-geral desconhece a história ou, que pena, agiu influenciado por princípios ideológicos. Acontece.
A Lei da Anistia foi aprovada durante a ditadura. Não houve um debate democrático.
Primeiro, porque parte considerável da liderança política estava no exílio [e voltou justamente depois da anistia].
O Congresso vivia estrangulado por um sistema bipartidário criado pela ditadura. Nas campanhas, ARENA versus MDB, mostravam-se apenas os rostos dos candidatos, não suas ideias, planos.
Senadores biônicos compunham parte da bancada. Partidos tradicionais foram cassados. Parte da imprensa ainda vivia sob a pressão e o trauma da censura. Os sindicatos não eram livres. As organizações estudantis, como a UNE, estavam sendo refundadas naquele ano.
Não se debatiam tais ideias, pois a Tropa de Choque caía matando nas ruas e praças, dispersando passeatas com bombas e cassetetes, e nas universidades, como na invasão da PUC.
Não, procurador, a lei não é democrática.
Os ministros da STF terão que decidir se cabe punição para quem praticou tortura durante o regime militar, e se a mesma seria um crime imprescritível.
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O jornalista e deputado estadual, João Melão Neto [que foi ministro do Collor e secretário do Maluf], também se declara contra a revisão, no artigo A REVANCHE, publicado na página A2 do ESTADÃO de sábado.
Ele relembra a sua participação no movimento estudantil do final dos anos 70, que defendia a Anistia, e afirma que “não existia nenhuma corrente de pensamento, ao menos nos meios acadêmicos, que tivesse como bandeira a redemocratização”.
“Todos sabiam que o grupo x respondia ao MR-8, que o grupo y tinha laços com o PC do B”.
Mais ou menos. Sim, o grupo Caminhando tinha laços com o PC do B. O MR-8 não tinha laços com ninguém.
Os maiores grupos [e dominantes], Refazendo e Libelu, não tinham laços com as organizações que participaram da luta armada.
Ao contrário, eram contra a “geração meia oito”, como chamavam, propunham um debate democrático e saíam às ruas carregando as faixas PELAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS e ANISTIA AMPLA, GERAL E IRRESTRITA.
Na verdade, como em qualquer movimento democrático, tinha de tudo, anarquistas, trostskistas, comunistas, socialistas, direitistas, até pousadistas, corrente que defendia que deveríamos nos preparar para o contato com ETs.
Era um movimento dividido, múlti ideológico, mas que se unia fortemente sob a única bandeira: exatamente a da redemocratização. E as decisões eram tomadas em assembleias, congressos e pelo voto.
Alguns sugeriam que gritássemos ABAIXO A DITADURA. Os mais moderados preferiam PELAS LIBERDADES DEMOCRÁTICAS, para não assustar setores que se engajavam aos poucos.
No final das contas, depois de anos de luta, virou ABAIXO A DITADURA.
Tais grupos, chamados de “tendências”, surgiram no vácuo político, renegavam a opção armada e alguns até faziam campanha para candidatos do antigo MDB. Líderes estudantis, como Geraldo Siqueira e Marcelo Barbieri, foram eleitos pelo MDB.
A inspiração não era Lenin, apesar da repressão afirmar que sim, mas os tropicalistas, Gandhi, flower power, Woodstock e, sim, a democracia acima de tudo.
Mais informações: http://reconstrucaodaune.blogspot.com/
Mellão concluiu: “Deixemos que os mortos, de ambos os lados, descansem em paz”.
Se conseguíssemos…
Mas como? Que mortos? Onde eles estão? Eles até podem descansar, nas valas anônimas, esquartejados, mas a consciência descansa?
A História é revista todos os dias. A História não descansa.
A História tem insônia.
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