Ontem à noite participei de uma mesa sobre QUADRINHOS e LITERATURA no ITAÚ CULTURAL, prédio moderno na AVENIDA PAULISTA. Parte da batizada SEMANA MÁRIO BORTOLOTTO.
Que ainda bem que não é um tributo, pois o cara sobreviveu ao “incidente”, como ele chama os 3 tiros no peito e um no pescoço de raspão que levou.
Hoje debaterão CINEMA com BETO BRANT. E haverá exibição do inédito GETSÊMANI, peça filmada pelo próprio autor, MARIÃO.
Ele também quem conduz as mesas de debates. É o curador da MOSTRA.
Me lembro que o evento começou a ser organizado na semana em que ele ainda estava entre a vida e a morte na UTI da SANTA CASA. E mal sabe ele da emoção que era estar ali, rindo e debatendo, com as mesmas piadas de sempre.
4 grandes amigos faziam parte do debate, eu, JOTABÊ MEDEIROS, que o conhece há 23 anos, QUITAGAWA, autor de CHAPA QUENTE, peça que o MARIÃO montou, e REINALDO MORAES, quem abriu as portas para a renovação literária brasileira promovida nos anos 80 pela editora BRASILIENSE, nosso guru.
Na plateia estava (quase) toda a turma que trabalha e acompanha o MARIÃO [LINGUINHA, PICANHA, MUTARELLI, FÁBIO BRUM]. Até uma das RAQUELZINHAS estava lá. Músicos, atores, autores, quadrinistas…
E sobre isso falamos, como a arte hoje em dia é uma soma de todas as linguagens, que se misturam e roubam uma da outra as influências.
E como é fundamental fazermos do palco ou papel uma extensão da mesa do bar. Que é para aonde fomos, depois do debate.
Só que eu tinha ido ao evento de metrô. Porque não sou otário. E gasto dez minutos da minha casa até a Paulista. Gastaria mais de uma hora se tivesse ido de carro no horário previsto.
Como sempre faço hoje em dia, porque já dei com a cara na parede muitas vezes, ligo antes para a central do Metrô e falo com cada estação, perguntando se os elevadores para cadeirantes estão OK. Só assim vou.
Sentamos numa mesinha na PAULISTA mesmo. Cerveja rolando. Eu de olho no relógio, já que o Metrô fecha à meia-noite. A supergirl PAULA COHEN voltaria comigo.
Eu havia descido na estação BRIGADEIRO. Mas agora estávamos mais próximos da TRIANON-MASP, depois de caminharmos com toda a gangue do ITAÚ até o barzinho.
Em cima da hora, nos despedimos, caminhamos até a estação TRIANON com CAROL e LUIZA, duas garotas que estavam no debate, e, catso!, elevador em manutenção.
Pelo relógio, faltavam 6 minutos para fechar o Metrô. Pensei rápido. “Meninas, descem vocês pela escada, que vou voar até a outra estação.”
Programei a minha cadeira de rodas para a velocidade máxima e voei. Por uma PAULISTA semi deserta por causa do frio.
Há tempos eu não corria tanto, atravessava ruas cruzando carros, planejava à distância o movimento a tomar, via um farol aberto para pedestre e cruzava, assustava pedestres e funcionários de serviço público que faziam a manutenção da avenida.
Minha cadeira já foi a mais rápida do mercado. Quando a comprei, foi para isso mesmo. Pedi: “Quero a mais rápida.”
Seu centro de gravidade é baixo. Dificilmente capota. Faz 13,5 km/h. É mais rápido que um cara correndo. Talvez por isso eu nunca tenha sido assaltado. Equivale a uma bicicleta numa tocada normal.
Há tempos eu não usava a velocidade máxima. Desde quando quebrei a perna ao bater numa coluna do meu ex-prédio a toda. Quebrei em duas partes, fui operado e herdei uma placa de titânico de mais de 30 cm. Uma ironia para um cadeirante.
Cheguei na estação BRIGADEIRO bufando. 0h03. Elevador desligado! Por 3 míseros minutos.
Poderia chamar o táxi para cadeirantes. Tem mais de 20 agora em São Paulo. Mas poucos deles funcionam tarde da noite. Táxi comum? Difícil. Pois eu estava com a minha pequena Ferrari, que não dobra e pesa mais de 80 quilos.
Então, segui a minha militância. Fui ao ponto de ônibus. A maior parte da frota paulistana é adaptada agora. Graças a mim e aos meus parceiros militantes, depois de atravessarmos décadas em reuniões frustrantes com as autoridades.


Só eu fiz reuniões com MALUF, PITTA, SERRA, FHC, até com o LULA, exigindo que leis garantissem o transporte público para deficientes, que a frota, ao ser renovada, o que é exigência de muitas prefeituras, viesse já com elevadores ou rampas, o que hoje se torna re

alidade em muitas cidades brasileiras.
No ponto, eu nem sabia qual ônibus tomar. Outros passageiros me informaram. Uma moradora de rua me deu o nome da linha.
Que apareceu em dez minutos. Um ônibus que lembra os americanos e europeus, câmbio automático, e uma rampa dobrável por onde se entra pela frente. Bem, lá é automática. Aqui, o cobrador a estica manualmente. E ainda me encaminha para o espaço reservado.
Seguimos a viagem tranquilamente. E eu via a paisagem noturna de São Paulo pela janela, sorrindo feliz. Quando eu morrer, quero ser lembrado por isso, pelo cara que desde a década de 80 luta para que haja ônibus como aquele.
Quando a PAULA me ligou, para perguntar se estava tudo OK, à 0h28, eu entrava em casa.
Vale a pena militar.
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Resquícios da CARNAVAL.
O coco no Rio sobe de R$ 2,30 para R$ 3
Uma caipirinha em Trancoso estava R$ 25 na praia.
Mas em Olinda, inovaram. Sumiram os cigarros da cidade. Vendedores ambulantes os vendiam por R$ 6 o maço.
Esperteza brasileira.
Imagine durante a COPA de 2014…
Matéria do Ubiratan Brasil no ESTADÃO de ontem deu um desânimo danado em quem trabalha com cultura neste PAÍS.
Uma pesquisa realizada pela Fecomércio do Rio de Janeiro descobriu que o brasileiro hoje aumentou a sua ida ao cinema e manteve o mesmo índice de visita ao teatro e shows que em 2007, mas lê menos livros, visita menos exposições de arte e assiste a menos espetáculos de dança.
O levantamento feito em mil domicílios de 70 cidades procurou detectar a visão do brasileiro sobre atividades culturais e o que o leva a procurá-las.
60% das pessoas responderam não ter praticado nenhuma das atividades como ler um livro, assistir a um filme, visitar exposições, ir ao teatro ou a espetáculos de dança. Em 2007, eram 55%.
Problema deles, penso indignado com meus botões.
Apenas 23% disseram ter lido um livro. Em 2007, eram 31% das pessoas consultadas. 60% responderam não ter o hábito da leitura, e 22% afirmaram não gostar de ler.
“A restrição econômica não aparece como determinante, uma vez que apenas 6% confessaram não ter como pagar pelos livros”, escreveu Bira.
38% das pessoas disseram não ter o hábito de frequentar as salas de teatro, e 27% afirmaram não gostar de assistir a uma peça teatral.
Os números de 2009:
23% leu um livro
20% foi a um show
18% foi ao cinema
6% viu uma peça de teatro
4% visitou uma exposição de arte
4% assistiu a um espetáculo de dança
Qual o hábito cultural mais praticado?
68% responderam televisão.
Precisa comentar?
Lembrei-me de um amigo brasileiro que mora em PARIS há anos, reclamando que para xavecar as francesas é preciso ter lido tudo, visto todos os filmes. Que o portfólio cultural é analisado nos primeiros encontros. E que elas são muito cabeça. Precisa de muita concentração nos primeiros encontros. Meu amigo sofre um estresse. Está sozinho há meses.
O que adiantaram as diversas feiras de livros e bienais, investimento pesado que mobiliza todo o mercado na missão de formar público no Brasil?
E as milhares de palestras que dei em escolas e faculdades, sem cobrar cachê? E as linhas gastas em revistas, jornais, blogs, indicando livros, peças, filmes? Qual o papel das escolas, das professorinhas de literatura?
A cultura do brameiro e do abadá predomina. “Vamos pular, sai do chão! Joga este livro fora, deixa de ser nerd!”
Eu desisto. Jogo a toalha. Que fiquem ignorantes os que assim desejam. Que ler, leu.
E vou continuar lendo.
Hoje mesmo, vou ao lançamento do livro do meu amigo MARCELO MIRISOLA.

Quarta, tem estreia do Timão na LIBERTADORES. Lá vou eu, favelado-maloqueiro-sofredor, para o estádio!
Quinta, debaterei literatura com MÁRIO BORTOLOTTO e J B MEDEIROS no ITAÚ CULTURAL. Depois tem show do INSTITUTO no STUDIO SP. Se eu aguentar…
E no findi pegarei um cineminha, uma peça e terminarei FILHO DA MÃE, livro do BERNARDO CARVALHO indicado pela MANU, que estou adorando.
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Mas há uma esperança. Como a campanha iniciada pelo amigo baiano ROBÉRIO.
Que queimou o primeiro abadá no FAROL DA BARRA logo depois do CARNAVAL.


A peça CORTE SECO, lotando no SESC ANCHIETA, graças ao boca-a-boca, é uma experiência teatral daquelas que marcam e nos leva a refletir sobre a relação palco-platéia-, verdade-representar, personagem-nós mesmos, histórias-mentiras.
É como um teatro IPod, repleto de histórias curtas ligadas no shuffle.
A luz de serviço [da plateia] permanece quase todo o tempo acesa. Os atores começam o espetáculo na plateia, com roupas comuns, que trazem de casa.
Cadeiras no palco indicam: DIÁLOGO, NARRAÇÃO, INTERIOR. E a equipe técnica está no palco, conduzindo a peça, orientando, mandando os atores randomicamente trocarem de cena, cortarem, começarem outra, através de senhas [números].
Cada espetáculo é um espetáculo diferente. Atores trocam de papel, de fala. Somem do palco, vão embora do teatro, voltam.
Televisores os mostram no camarim, na rua, pelos corredores do teatro. Por vezes, eles se chamam pelo nome verdadeiro.
No entanto, por trás de toda a armação, histórias são contadas, com a emoção a pino: o filho homossexual que tenta revelar ao pai a sua opção, pai que o repele; o irmão que cobra a desaparecimento do outro, enquanto cuida do pai moribundo; o casal que se separa justamente quando a adoção tanto esperada de um filho é aprovada; o aluno abusado sexualmente pelo professor; a mãe alcoólatra; a morte interrompendo projetos, e por aí vai.
É difícil ver uma peça desconstruir todas as regras e encantar.
E seduz por uma razão muito simples, e que há milênios se mantém como regra fundamental de qualquer espetáculo: contam-se ótimas histórias.
LEPAGE sabia disso há muito, como BRECHT. Não basta inovar a carpintaria teatral. É preciso partir do básico e falar o que interessa, comover, seguir uma linha dramática que prenda.
Contar histórias.
Falei aqui há uma semana das peças em cartaz que nos colocam e nos tiram do palco, avisando: escuta, estamos apenas representando uma peça, somos atores.
PLAY, IN ON IT, A NOITE MAIS FRIA DO ANO e CORTE SECO aproximam e afastam o público para a “realidade” da mentira.
Conversei sobre isso com a CHRISTIANE JATAHY, diretora [e idealizadora] de CORTE SECO. Será que o teatro vive uma crise tão grande que nos faz afastar dele fazendo-o? A linguagem se desgastou, por isso a desconstruímos? O público brasileiro, sufocado pela teledramaturgia, precisa de reeducação dramática?
Pode ser. No fundo, estamos é jogando com o público, que é o que nos interessa.
A obra da Cia Vértice de Teatro, que encerra a trilogia da diretora [Conjugado, de 2004, e A Falta que nos Move, de 2005], fica mais poucas semanas no SESC ANCHIETA. Mas deve continuar em outro teatro.
Uma peça dessa não deveria sair de cartaz tão cedo.
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Vou chamar DDdrim Dddrim
E os passeios da barata pela casa vão ter fim
Vão ter fim.
DDDrim, DDDrim. …

na noite de terça-feira marcelo mirisola lança seu grande livro de contos MEMÓRIAS DA SAUNA FILANDESA na praça roosevelt, no espaço parlapatões.
vão ter leituras.
pedi pelo amor de deu para ler o conto OS GORILAS DE SUMATRA [que se deprimem], que o próprio MM me recomendou, como uma narrativa impiedosa da função de um escritor, sua rotina besta, e a fé de que a gente acha que aquilo que fazemos serve para alguma coisa.
trecho: “se você for um escritor de verdade, desista. a derrota é um bom começo e provavelmente será o seu fim mais açucarado… ou irremediável. caso contrário, existem o sesc e o senac e uma infinidade de cursos profissionalizantes por aí…”
mas estarei atento à leitura do conto SOBRE OS OMBROS DOURADOS DA FELICIDADE, uma obra prima, conto que abre o livro e que retrata como a felicidade de um casal da Barra pode ser destruída por um detalhe que não para de crescer: uma bolota no ombro da mulher.
MM para mim é um dos maiores escritores contemporâneos. muitas vezes tenho inveja da sua produção e capacidade de narrar com crueldade e ironia o vazio do homem comum.
seu sarcasmo é alta literatura.
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e MARIO BORTOLOTO ganha uma semana no ITAÚ CULTURAL de que aliás faço parte.
aqui vai o release:
Ele está de volta!
Mário Bortolotto é homenageado por sua trajetória de quase 30 anos pelo teatro, cinema, música e literatura. Não perca!
, Maria Manoela e Martha Nowill,
e André Kitagawasexta 26
Cinema

Debate com Beto Brant
Seguido da Exibição do longa inédito Getsêmani (80 min), de Bortolotto - filme de baixo orçamento.
Getsêmani
e participação da banda Saco de Ratos
e Sergio Mello
(poetas que Bortolotto admira) lerão poemas de autoria própria. Ainda haverá pocket show com leitura de poemas do próprio Mário, acompanhada da banda de rock e blues Saco de Ratos e participação especial do gaitista Flávio Vajman
.

e Diego Basanelli

Não tem jeito, dependendo do bairro, choveu, acaba a luz, mesmo em ano de eleição.
Em janeiro, mais de mil árvores caíram na cidade, levando junto a fiação. Por que não as podam, não escoram as mais frágeis ou corroídas por cupins? Porque nem a queda de mil árvores é suficiente para comover um burocrata municipal.
Por que não enterram a fiação? O ex-vereador Nabil Bonduki passou quatro anos do mandato tentando entender e organizar a ocupação do solo. Enviou um projeto de lei propondo aterrarem os fios e criarem galerias subterrâneas, para garantir a livre circulação de pedestres. Não recebeu apoio.
Matou a charada: não interessa às concessionárias de exploração de serviço público a fiação subterrânea.
Simples. A prefeitura passou a alugar o espaço aéreo para a Eletropaulo instalar os postes, que por sua vez aluga os totens de concreto para as telefônicas, tevês a cabo, redes de transmissão de dados e de fibra ótica. Ninguém quer abrir mão do dinheirinho que corre à vista de todos.
A concessionária entrou com uma liminar, defendendo que o aluguel passou a ser cobrado depois da privatização. Portanto, ela teria o direito adquirido de não pagar. E não paga. Mas cobra dos outros.
Enfeia a cidade, interrompe os serviços temporariamente, porém dá lucro. É o símbolo do desprezo.
Quinta-feira, dia 4, eu tomava um café na esquina com um amigo, quando começou a chover às 17h. Sugeri de imediato subirmos para o meu apê, antes que acabasse a luz.
Dito e feito. Entramos em casa e, bum, explodiu algum transformador perto, caiu alguma árvore ou um meteorito, ou um gato se abrigou no lugar errado, e lá se foi a luz.
Cacei as velas pela casa. Separei alguns livros. Semanas antes, eu ficara cinco horas no escuro, sem velas. Desta vez, me preparara.
Não segui os conselhos do Kiko, com quem passei o blecaute de 2009, que tem um verdadeiro kit de sobrevivência em casa, lanternas de emergência, lampiões e violão acústico à mão. Mas comprei velas de reza, aquelas que duram sete dias.
Meu amigo se foi. A chuva, idem. Até apareceu um disparatado pôr-do-sol. E depois a lua. Eis que descubro que não se consegue ler com velas de reza. Nem em braile. A luz é muito fraca.
Encontrei tocos de velas de outros apagões. Entendi o mecanismo delas. Não é a grossura do rolo de cera que garante a luz de que um leitor precisa. É a do pavio. Ele é o rei do candelabro.
Sugestão: que se informe nas embalagens a duração de uma vela (além das de reza), pois as minhas duraram poucas horas, e, descobri, não se lê à luz da lua. Restou a chama infeliz de algumas velas de reza, que iluminam apenas os espíritos.



FOTOS JORDANA PAIVA
Passei a noite brincando com Hugo, o gato. Ao ponto de ele se entediar. Nunca ninguém brincara com ele por tanto tempo. Esses humanos são muito instáveis, deve ter pensado, ou me ignoram, ou me estressam.
Nem telefonei para a Eletropaulo. Imaginei a atendente fazendo as unhas e, lendo a Contigo, respondendo blasé: “Previsto para daqui a duas horas”. Elas sempre respondem isso. Talvez seja uma voz gravada quem nos atende.
Imaginei os funcionários da concessionária jogando truco, esperando a chuva passar, o trânsito melhorar, o jogo acabar, para irem a campo. Sentem-se pequenos deuses neste mundo de mandachuvas.
Não foi o primeiro gesto d’Ele dar a luz? Se vocês pensam que o cara da Net, da banda larga, da configuração do roteador, o técnico da geladeira, da bateria arriada são os tais, pois agora aprendam, cristãos: somos o messias que os salvarão do tédio e devolverão suas rotinas, tenham fé.
No escuro, me restou a varanda, a vista da cidade. Vejo toda a zona oeste. E parte da norte. Só a minha quadra estava sem luz. E como estamos dependentes dela…
Planejo comprar uma extensão longa e instalar pelo céu até uma casa próxima. Se acabar a minha luz, empresto a do vizinho, e vice-versa.
Então, meia-noite, escuto um caminhão circular o meu condomínio. Chegaram. Me deem a redenção, sou um pecador, quero a salvação!
Ele parou. Encontrou o problema. Eu via apenas luzes piscando. Ouvia suas vozes. Deviam estar dizendo: “Isso é moleza”. Mais barulho. E se foram. Sem nos darem a luz de que tanto precisamos. Voltem, voltem, não desistam, nós acreditamos! Em vão. Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha.
Minutos depois, outro caminhão. O mesmo procedimento. Isso, tenham fé. Mas, desta vez, esticando o pescoço, consegui ver. Não era aquele com quem Deus se comunica mesmo num blecaute. Eram os caras recolhendo as caçambas, com seus caminhões potentes e a eficiência de dar inveja a muito serviço público.
Então, refleti. Vamos dar para eles a tarefa de administrar a cidade: destemidos, pontuais, acostumados ao trabalho pesado. Serão eles os salvadores?
Sim, a luz voltou na manhã seguinte, às 10h15. Mais de 15 horas sem luz. Dessa vez se superaram. Restaram a poça de água na cozinha (degelo do congelador), mistura estragada e as malditas velas de reza ainda acesas. Heresia!
Então tá, né?
Vou lá para esta praia, pegar uma brisa, passear de carro de boi, nadar num mar limpo, circular por estas ruas tranquilas. Descansar bastante, esquecer o estresse da vida moderna.
Quem sabe rola um bloquinho de Carnaval familiar. Bom Carnaval pra você também. Até a volta.
Muita gente me pergunta do MÁRIO BORTOLOTTO.
O cara está bem. Milagrosamente, depois pelo que passou. Está igual, o mesmo humor refinado, os mesmos ideais, o mesmo coração aberto para os amigos, nos chamando pelos mesmos apelidos.
Bebe suco agora. Mais magro, evita baladas.
Faz fisioterapia diariamente. Ironia, o que mais o atrapalha é o braço esquerdo. Ele caiu sobre ele, quando levou os 3 tiros e quebrou o osso do ombro, que foi deslocado para uma cirurgia em que implantaram uma placa de titânio, o que dói demais.
Não consegue digitar com as duas mãos, o que é uma tortura para um escritor.
Mas está tocando a vida, com duas peças para estrear. De tipóia.
Evita aglomerações. E tem ido ao teatro, ao PLANETAS, à casa de amigos.
O problema é que, aonde vai, todos perguntam sobre os tiros. Ele tem que contar, e, pior, cumprimentam encostando exatamente no seu ombro operado, o que dói. Falei para ele ficar sempre com o lado esquerdo encostado numa parede. Evita as pessoas de o abraçarem.
Portanto, campanha: NÃO ENCOSTEM NO OMBRO ESQUERDO DO CARA!
E pesquisem no GOOGLE ou no seu blog sobre os tiros. Para que possamos ter o MARIÃO mais à vontade pela noite.
http://atirenodramaturgo.zip.net/
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Vale a pena a peça PLAY, em cartaz terças e quartas em São Paulo [Teatro Nair Bello], de Rodrigo Nogueira, que também atua e é um ótimo ator. Com Daniela Galli, Maria Maya e Sérgio Marone.
Inspirada no filme “Sexo, Mentiras e Videoteipe” [Steven Soderbergh], tem uma dramaturgia sofisticada, que nos coloca e nos tira da peça, como IN ON IT, espetáculo imperdível de Kike Diaz [no Teatro Faap], com Emílio de Mello e Fernando Eiras [texto: Daniel Maclvor], como A NOITE MAIS FRIA DO ANO.
Interessante como a necessidade de nos distanciarmos daquilo que estamos contando se tornou uma linguagem, uma forma de provocar no espectador o sentimento de que tudo pode ser mentira, de que a verdade confunde, de que há coisas por trás do fato de estarmos ali, fazendo uma peça.
Brecht já tinha pensado nisso décadas antes. Com a intenção de comover e mobilizar ideologicamente o seu público.
Outros tempos. Fim das ideologias. A gente não quer doutrinar ninguém.
Talvez jogar com a linguagem, mostrar como a vida anda confusa, o limite entre falso e verdadeiro se foi faz tempo, e que somos todos atores neste mundo pós-moderno, ou talvez nem saibamos mais o que somos, que papel representar numa relação amorosa, num casamento, no trabalho.
Nos photoshopamos diariamente. Não sabemos mais o que queremos. Procuramos, apenas, não nos metermos em confusão.
Nogueira, que foi indicado ao prêmio Shell por esse texto, anunciou que o final de PLAY, que é pontuado por depoimentos sobre sexo de desconhecidos em vídeo, alguns verdadeiros, outros falsos, agora terá outro desfecho.
Por isso teatro fascina, é uma obra em construção permanente. Sem limites que engessam o resultado. Já mudei também o final de peças minhas, como MAIS-QUE-IMPERFEITO, que no Rio tinha um final, e em São Paulo, outro.
É o único gênero em que você testa sua comunicabilidade constantemente. Às vezes, somos mal sucedidos. Mas que a gente se diverte, ah, ninguém duvida.
Já que não podemos mudar o final das histórias que vivemos, de que nos arrependemos das decisões tomadas, mudamos num palco.
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E PORNÔ, espetáculo baseado no livro de IRVINE WELSH, estreou numa boate, o VEGAS [Rua Augusta, 765], também às terças e quartas. Direção de Gustavo Machado.
São os mesmos personagens de TRAINSPOTING, dez anos depois. Ainda viciados. Ainda bem enrolados. Frequentando o balcão de um pub. Que decidem entrar para o mundo do filme pornô.
Usam todos os cantos da boate, e o público fica em cadeiras no meio, cercado pelos personagens. Ótimos atores.
Coincidentemente, falei de WELSH no ESTADÃO de domingo.

SE VOCÊ GOSTOU DA ESCOLA, VAI ADORAR TRABALHAR é o seu novo livro, escocês mais conhecido pelo filme Trainspoting, de Danny Boyle, adaptação da sua obra, e pela sua continuação, Pornô, ambos pela Rocco, do que pelas narrativas curtas, gênero com o que começou- e em que não se embrenhava desde 1990.
Foram os ingleses quem melhor cunharam as distinções entre conto, novela e romance. Práticos, definiram “novel” como um gênero intermediário.
O parâmetro é o tamanho: maior que um conto, menor que um romance. Não é uma narrativa de um tiro, como um conto, nem um gênero que se aprofunda numa pequena tese, como um romance. Fica no meio termo, mas não necessariamente deve ser inferiorizado.
O Alienista, de Machado, assim como Memórias do Subsolo, de Dostoievski, são exemplos de como com poucas palavras, ou melhor, menos páginas do que um romance, é possível descrever com grandeza os limites da loucura e do autocontrole que se exige do novo homem.
Welsh juntou cinco novelas distintas numa mesma publicação, com tipos semelhantes (beberrões, excêntricos, cínicos, engraçados e amadores no amor) que contém uma recorrente incapacidade de adaptação a um ambiente em que não pretendiam estar, se tivessem organizado as suas vidas de outra maneira e não escorregado pelos atalhos que se apresentaram.
O cinema fez bem a Welsh. Suas narrativas ganharam um clima digno de um bom filme, com reviravoltas, surpresas e ação.
Como na primeira história, Cascavel, provavelmente escrita em homenagem ao precursor Hunter Thompson, que se matou há cinco anos.
Talvez inspirado em MEDO E DELÍRIO EM LAS VEGAS, dois amigos e uma garota se drogam, viajam alucinados num Dodge Durango por tempestades de areia pelo deserto do Arizona e se estrepam feio.
Na verdade, a droga, um elixir peruano, não batera em Eugene, quem dirige, ex-atleta que perdeu o rumo da carreira e deseja a passageira ao seu lado, Madeline, uma garota que conhecera e que deseja Scott, no banco de trás, o melhor amigo de Eugene.
Prestando mais atenção nas curvas da passageira do que na estrada, acaba capotando o carro. Os três, perdidos no meio do nada. “Estamos na América. Aqui você nunca está a mais de um quilômetro de alguém tentando vender alguma coisa”, ironiza o escritor escocês.
E não estavam. Foram flagrados por bandidos chicanos religiosos numa cena difícil de explicar: Eugene fora picado por uma cascavel no pênis, e o amigo obrigado a “sugar” o veneno. Algo que só para um amigo muito íntimo se pode pedir.
Miss Arizona também se passa no mesmo deserto. Desta vez, é um cineasta frustrado, que vive de publicidade e resolve ir atrás da viúva de seu grande ídolo, diretor que, por não ser comercial, optou pela indústria do filme pornô. E, evidente, o narrador se envolve com a enigmática e sedutora viúva, que tem melhores histórias para contar do que as do falecido.
SE VOCÊ GOSTOU DA ESCOLA, VAI ADORAR TRABALHAR é talvez a melhor história das cinco, apesar de seus personagens declaradamente machistas. Não sei dizer por que é a melhor história. O editor também achou, pelo visto.
Os capítulos têm nomes de mulheres. E elas aparecem para ser amadas e odiadas.
Depois de discutir com a ex-mulher sobre a educação da filha adolescente, debate narrado como se fosse uma luta de boxe, Mickey, dono de um bar nas Canárias, explode:
“Alguns de nós têm uma droga de vida para viver, muito obrigado! Como o velho Wiston [Churchill, deve ser] disse uma vez: ‘Embora preparado, prefiro que meu martírio seja adiado’.”
O papo de bar, ou melhor, de pub é a fonte inesgotável da narrativa:
“Cyhth é divertida, e essa é a qualidade que todo mundo aprecia numa mulher. É claro, algumas só agem assim até conseguirem o que chamam de compromisso, e estão viram umas éguas escrotas.”
Mickey descreve o tipo de mulher “boa de pegar”: “Há algo nas magricelas chegando aos quarenta. Se elas não despencaram até então, devem ter algum vício grande. A experiência me ensinou que esse vício é, incrivelmente, trepar.”
Calma. Não odeie Mickey. No fundo, é um apaixonado pelas mulheres. Nunca superou a separação. Tem carinho pelas conquistas. Dá conselhos, ajuda. E até leva a filha para morar com ele, Em, que abaixa a guarda do pai e lhe arranca algumas convicções.
“Odeio a escola”, ela diz. “Meu velho, seu avô, costumava dizer: ‘Se você gosta da escola, vai adorar trabalha e depois viver feliz para sempre’.” Feliz? Sim, se estiver acompanhado pelo velho e eficiente Jack & Daniels, afirma nas entrelinhas.
Falei uma besteira aqui dias atrás.
São Paulo está cheia de blocos de carnaval. Só na Vila Madalena, neste fim de semana, saíram 4. Um deles com o sugestivo nome NU INTERESSA.
Os ACADÊMICOS DO BAIXO AUGUSTA, fundado há 1 mês, arrastou milhares de pessoas pela Bela Cintra e Rua Augusta no domingo.



FOTOS: FRÂNCIO HOLLANDA E EDER CHIODETTO
O clima estava ótimo. Muitos conhecidos, muitos foliões casuais, gente da “comunidade” [adoro esta palavra, que sempre reaparece em carnavais].
E, como diz o refrão do samba, apavoramos, mas não assustamos.
A banda tocava clássicos: só marchinhas. Nada de axé! E eu, de porta-estandarte, portei o estandarte como um profissional, com a responsabilidade de dar o andamento do bloco: parar quando se adiantava, correr quando as pessoas se espremiam.
De olho no céu, na chuva que se anunciava, recebendo ordens da diretoria, do DSV, de aspones e alguns folgados.
A chuva não veio. E, como dizem todos que desfilam, passou tão rápido…
Claro. Me embebedaram rapidinho. Eu tinha de corresponder e agradar a folia e experimentar todas as latinhas e garrafas que me ofereciam. Como um ritual de batismo.
Não, os Avatares não apareceram. Não tinha uma árvore para eles dançarem em torno.
Mas ainda quero ver aquele bloco que só toca rock. Deveria sair na Pompéia, bairro de tradição, cuja “comunidade” ama o gênero. Nada contra as marchinhas, que nos remetem à infância e são cantadas há quase 1 século.
Detalhe. Perdi a chave do carro na Bela Cintra [desconfiei], o que só descobri horas depois.
Fiz o percurso contrário do bloco de olho nas sarjetas e no asfalto. E a encontrei solitária, amassada, ainda na concentração, no meio da rua. Passou um bloco por cima e muitos carros, mas ela ficou ali, me esperando. Provado: era um bloco light, não assustava ninguém.
+++
E diretamente da Salvador, onde paradoxalmente se encontra a maior comunidade contra o axé deste País, ROBÉRIO, baiano, baixista do CAMISA DE VÊNUS, que voltou e tocou na cidade, começa a campanha:

Tô dentro.

Segunda-feira. Ele acordou e, do nada, como se tivesse desistido, decidiu não ter mais opiniões. Sobre nada.
Já no café da manhã, não soube responder se o pão estava passado, e o queijo, coalhado. Comeu apenas uma fatia de mamão. E não decidiu entre adoçante ou açúcar. O café desceu amargo.
Ao trabalho. O taxista perguntou se ele preferia pela Marginal ou por dentro, pela Lapa. “Qual caminho o senhor sugere?”, perguntou, simulando um contato rotineiro. O helicóptero da rádio informara que a Marginal estava parada, avisou o motorista: “Vamos por dentro?”.
Ele não respondeu. Não sabia responder. Não achava nada. O taxista repetiu: “Pela Lapa?”. Nada. Nenhuma resposta.
O cara deu a partida, engatou a primeira, foi percorrendo devagar, esperando a decisão do passageiro, que não vinha, e ele mesmo, o taxista, decidiu pela Lapa, mas sempre alerta, esperando a ordem de desviar para a Marginal, que não veio.
No elevador do escritório. “Sobe ou desce?”, escutou. Nenhuma resposta. A ascensorista perguntou o andar. Nada. Ele entrou e ficou no canto, parado. “O andar?”, repetiu. Ele gaguejou apenas: “Não sei…” Ela, surpresa, esperou.
Até outro passageiro entrar e pedir: “Sobe”. E ele foi, subiu. E desceu. Pois não pararam no seu andar. Só quando coincidiu de alguém pedir o seu andar, ele pode sair do elevador.
Ao entrar no escritório, a secretária logo mandou um: “Bom-dia.” Ele olhou e: “É? Não sei. Pode ser. É, pode ser. Você acha?”
Nem sentou em sua mesa, o telefone tocou. Um instituto de pesquisa. Queriam saber em quem ele votaria.
“Não sei”, respondeu.
“Ah… O senhor não se decidiu entre o governo e a oposição?”
“Não sei.”
“Vai votar em branco?”
“Acho que não.”
“Nulo?”
“Claro que não! Nunca votei nulo!”
“Muito bem, então, o senhor é um indeciso, deixa eu marcar, in-de-ci-so.”
“Veja bem, não sou um indeciso, não sou nada, eu não acho nada.”
“Mas quem não acha nada é indeciso.”
“Não. Indeciso é um cara hesitante.”
“Hesitante?”
“É quem ainda tem dúvidas, não escolheu. Eu não vou escolher, nunca mais, porque não tenho mais opiniões, não acho nada.”
“Não? Por quê?”
“Porque não consigo.”
“Coitado…”
Foi almoçar. Mas pela escada. Evidentemente, não conseguiu escolher a promoção do quilo. O fato de não ter mais opiniões dificultava o de tomar decisões.
Ficou minutos diante do balcão. Até colocar todas na bandeja, da promoção 1 àquela mexicana apimentada. Como não sabia por qual começar, comeu só batatas fritas.
Na volta, a secretária panicou. O telefone não parara. A notícia vazou: descobriram que ele era um homem que não achava nada.
Deu a primeira entrevista. Para uma rádio: “Como se sente não tendo opiniões? O acha de não achar nada?”.
A secretária apontava para fotógrafos que escalavam o prédio em frente para flagrá-lo sem opiniões. O porteiro avisou que equipes de TVs. queriam subir.
Naquele dia, não se falou de outra coisa. E ele foi a chamada de muitos telejornais: “Daqui a instantes, um homem afirma não ter opinião sobre nada.”
Sua semana foi tumultuada. Revistas de famosos queriam fotografá-lo com o look de quem não tem opinião. Apareceram muitos convites para palestras em departamentos de marketing de grandes empresas. “Mas o que vou dizer, se não tenho nada a dizer, não acho nada?”. Era isso que queriam, apontar que havia falhas no sistema, havia um indivíduo que não era absorvido pela propaganda.
Entidades o criticavam. Um alienado. Foi acusado de mau exemplo à juventude e um estorvo na sociedade de consumo. Mas algumas ONGs ligadas ao movimento antiglobalização passaram a apoiá-lo.
Organizaram uma passeata diante do seu escritório. “Pelo direito de não achar nada”, gritavam, auxiliados por membros do movimento contra a intolerância sexual, anarquistas, punks, chavistas, movimento em defesa do Teatro Oficina, da Mata Atlântica e dois bebuns.
Diante de sua janela, ele apareceu. Aplaudiram. Pediram para se pronunciar. Pararam para escutar. Ele gritou:
“Melhor vocês apertarem o passo! Acho que vai chover!”


Já falei diversas vezes aqui das garotas do Colégio Andrews, do Rio, onde estudei dos 6 aos 12 anos.
E me pergunto sempre o que havia de mágico nelas, além de ciceronearem com carinho um paulistinha recém-chegado, tímido, sotaque italianado, e ainda sem uma identidade carioca.
Um, não, dois. Edu também chegara de São Paulo. 1 ano antes.
Pois elas nos adotaram, já que éramos vítimas da ira bairrista dos veteranos. Mostraram a lanchonete, os rituais, a usar o uniforme, a se esconder na hora do hino.
Roberta [primeira da esquerda] e Isabel [primeira da direita] dividiam mesas conosco, trabalhos, ajudavam nas aulas de música e nos defendiam dos pequenos vândalos.
O que fascina nesse tempo de escola é que as garotas são tão ou mais fortes que os garotos. É um mundo temporário de igual para igual, com pequenas amazonas.
Submissão feminina? Espere a gordinha aparecer no recreio e dar bofetadas em todos.
Na infância, vivemos uma utopia em que os gêneros se unem. Há correlação de forças. Um grupo não domina o outro na porrada. Garotos e garotas são uma coisa só. E tem garota que joga mais bola que muito marmanjo.
Até o sexo aparecer e estragar todo o equilíbrio. Sei lá, aos 12, 13, 14 anos? Então, Isabéis e Robertas se fecham e se apaixonam pelo garoto mais velho, mais esportista, mais rico, e os babacas paulistinhas se deprimem.
Ou se trancam e passam dias olhando o poster do pequeno astro, escutando músicas de pequenos astros, escrevendo no diário “eu amo rick martin” centenas de vezes.
Sexo é uma merda.
Paradoxalmente, afastam as pessoas, isolam as garotas, aterrorizam os garotos. Elas se trancam nos quartos. Nós, nos banheiros.
Tudo passa a ter sub texto. Interesse entra no vocabulário. Nossas amigas agora andam com os caras mais fortes, ameaçadores. Nem dá pra chegar perto.
Jogo, charme, vaidade, ego, insegurança, complexos surgem no universo das antes puras criaturas que só queriam dividir uma mesa com a garota bacana, fumar um cigarro escondido no recreio, fugir e rir da gordinha irada.
Então me mudei pra Santos e nem te conto.
Ah, as santistas… Já te falaram delas?

NÃO SOU O DA FLECHA
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