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Marcelo Rubens Paiva

24.dezembro.2010 19:47:54

Zarif (1960-2010)

A noite de São Paulo está mais triste sem ele, que morreu hoje.

O amigo querido, divertido, boêmio profissional, artista plástico anárquico.

Acompanhado dia e noite por uma taça de Martini.

Sempre de preto, risonho, carinhoso e provocador.

Numa entrevista para a FOLHA, disse:

“A arte atual é materialista histérica; eu sou materialista histórico, abri o útero de minha despensa, usei coisas que guardava sem valor algum; sou marxista, e os quadros são meus capitais.”

“Há um grande engano neste século, que é o movimento modernista. ‘Movimento’ e ‘modernista’ são redundantes, é o mesmo que dizer ‘deserto’ e ‘Saara’. Busco uma volta ao moderno da Idade Moderna, quero Newton e Darwin.”

Neste Natal, vale um porre de Martini.

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23.dezembro.2010 14:43:37

CORLEONICES

Agora que aprendi a baixar filmes, revejo muitos daqueles que marcaram a minha vida. Afinal, entre a chuva e o trânsito de Natal, a melhor coisa é ficar em casa.

Claro que parto do princípio de que é melhor rever obras de diretores na sequência.

Kieslowski, Sokuroc e Antonioni já foram revisitados.

Continuo achando THE PASSANGER com Jack Nicholson [foto acima] o melhor filme de ANTONIONI. Sem contar o plano sequência de 15 minutos sem cortes no final, das melhores cenas já produzidas.

E descobri que o roteiro de ZABRINSKI POINT é também de SAM SHEPARD. Trilha de uma banda ainda desconhecida na época chamada PINK FLOYD.

Aliás, em 1995 fui para o DEATH ALLEY com a ex-mulé, só para conhecer as locações.

Depois de ver TETRO no cinema, de Francis Ford COPPOLA, e odiar, apesar dos elogios, decidi rever sua fase anos 80, como ONE FROM THE HEART, RUMBLE FISH e THE OUTSIDERS, uma espécie de acerto de contas com a sua juventude.

OUTSIDERS [VIDAS SEM RUMO] tem o melhor casting teen já reunido. Música do seu pai. E lançou atores que são os ícones da indústria e que deixaram as menininhas passadas. Olha a lista:

MATT DILLON

BOB LOWE

EMILIO STEVEZ

PATRICK SWAYZE

RALPH MACCIO

TOM CRUICE [num papel secundário]

Todos jovenzinhos rebeldes.

Até TOM WAITS aparece numa ponta com duas falas.

A história é de duas gangues, os “greasers”, garotos pobres que moram na parte norte de uma cidade, e os “social”, os riquinhos que têm carros e as melhores garotas.

São duas gangues que se enfrentam numa luta com mortes. Numa evidente simulação da luta de classes teen de uma sociedade radicalmente competitiva.

Interessante que o elenco que se destacou [acima] era dos greasers, bad boys. O casting dos socials continua desconhecido.

Já TETRO é insuportavelmente longo.

Bobo, chato.

Fala de um filho de um famoso pai compositor, sufocado pela fama do mesmo. Seria autobiográfico?

COPPOLA morou em BUENOS AIRES para fazer o filme, mas envergonha a qualidade do cinema argentino. Em que 2 irmãos ficam famosos por escrever uma peça de teatro que era exibida num teatro menor que o SATYROS 2. Já que ALONE [CARMEN MAURA], a crítica “mais poderosa da América do Sul”, uma BARBARA HELIODORA mais jovem, os descobre.

Incrível como COPPOLA perdeu a mão.

E como a Argentina [com seu ótimo cinema] não o inspirou.

É uma pena…

Pelo menos deixou a filha para continuar a sua saga corleônica.

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22.dezembro.2010 15:12:04

boa causa

Pela criação do PARQUE AUGUSTA

No terreno que fica no Baixo Augusta, na Rua Augusta com a Caio Prado.

24 mil metros quadrados com Mata Atlântica.

Assine se vc concordar

No abaixo assinado eletrônico:

http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=P2010N4173

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21.dezembro.2010 14:07:47

cv

Escritor, dramatrurgo e colunista, em férias, se oferece para fazer bico de PAPAI NOEL.

Sempre sentado, tem a barba branca naturalmente.

E sabe manejar pacotes e embrulhos.

Pode vir em versão turista acidental.

Contatar este blog.

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17.dezembro.2010 13:32:20

40 anos

E estreia nacional dia 28/01

O filme MALU DE BICICLETA

+++

E relanço o livro de 1990

Agora em janeiro

Reeditado

Revisitado

UA:BRARI

+++

E…

A todos os companheiros/ companheiras; amigos e amigas   A Secretaria de Direitos Humanos , em parceria com a OAB RJ, com a Comissao de Anistia do MJ e dos deputados Alessandro Molon e Marcelo Freixo  convida a tod@s“Habeas Corpus” e da abertura da exposição dedicada ao Rubens Paiva .    O evento contará com a presença do ministro Vannuchi assim como como os familiares de Rubens e será realizado na Assembléia Legislativa do Rio  de Janeiro na próxima terça-feira , dia 21 a partir das 10 da manhã

Maurice Politi

Coordenador  Projeto de Promoção de Direito à Memória e à Verdade

Secretaria de Direitos Humanos/Presidência da República



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26.novembro.2010 17:44:14

em férias

Adios muchachos.

Vou sair por aí e volto só em janeiro.

Não levarei computador.

De trem?

Provavelmente de carro.

Não sei ainda em qual.

Posso ir de busão também.

Ou organizar o trânsito.

Chega de estreias de peças.

De filmes.

De livros.

Este ano foi carregado, mereço um desacanso.

Numa piscina.

Ou numa de água corrente.

Ou numa praia. Enfiar os pés na areia.

As rodas.

Ou em pedrinhas.

Posso fazer novas amizades.

Ou rever as antigas e ser flagrado por um paparazi.

Não me casarei. Nem serei padrinho

Nem visitarei o Papa se for para Roma. Talvez Bertolucci, e saber se ele leu meu livro.

Não passarei frio com a irmã.

Quem sabe visito a estação de metrô,  que tem o nome do meu pai.

Ou fico apenas coçando.

Trabalhar, não.

Posso até fazer um programa de índio.

Mas nada de ficar preso.

Ou evitar emoções fortes. Nos vemos em breve. Quem sabe num palco.

Ou numa plateia.

Virão relançamentos.

Capa

E novidades.

Boas festas pra vcs tb. Bom verão. Aproveitem.

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23.novembro.2010 13:28:39

crescei e multiplicai

Não existe prazo de validade.

Ninguém sabe ao certo quando começa e por quê.

Pode vir acompanhado de um grande trauma ou uma decepção irrevogável.

O imbróglio simplesmente aparece e desespera alguns casais.

Não há lei que o impeça.

Foram alertados na cerimônia religiosa.

Sede fecundos, prolíficos, crescei, multiplicai e enchei a Terra.

“Que o marido cumpra seu dever em relação à mulher, e igualmente a mulher em relação ao marido. A mulher não dispõe do seu corpo, mas sim o marido. Igualmente o marido não dispõe do seu corpo, mas sim a mulher. Não se recusem um ao outro. Coríntios sete”, alertou o padre.

No entanto, para alguns casais, surge uma indisposição noturna: os corpos não estão dispostos, um recusa o outro.

Se a exceção vira rotina, a crise se instala.

Os primeiros informados são os amigos mais próximos. Com um questionamento aparentemente banal, entre o prato e a sobremesa:

“Qual a frequência para um casamento saudável?”

Depois do café, ao pedir a conta, vem o desabafo que coloca pingos nos is:

“Nós não transamos mais.”

Os amigos sempre partem para a defesa da transparência:

“Vocês já conversaram sobre isso?”

Sim, já conversaram, se perguntaram, procuraram explicações, deram até um Google, em busca da cura, estatísticas e palavras de especialistas tarimbados em revistas online.

Já conversaram sobre isso antes de dormir, depois de acordar, durante o café da manhã, o jantar, no Natal, Carnaval, Páscoa, férias.

E já tentaram fantasias óbvias, como a de se pegarem em espaços públicos e espaços alternativos- debaixo do chuveiro, na escada de emergência, dentro do carro.

Já compraram apetrechos de todos os formatos em sexy-shops.

Já se escravizaram, algemando o outro na cama.

Já se lambuzaram de mel, de sorvete.

Tentaram outras posições.

Chegaram a assistir a vídeos pornôs, com o pacto de imitarem tudo aquilo que era exibido na tela.

Ambos queriam solucionar o entrave. Queriam um casamento com sexo constante. Se amavam mais do que tudo. Não entendia por que de repente não conseguiam se concentrar. Ou por que riam, quando deviam sentir prazer.

Pensaram até em procurar o padre que os casou. Mas como um homem celibatário, que segue as palavras de Deus, daria dicas que apimentassem a relação?

Seguiram o conselho número dois dos amigos: terapia de casal.

Ele não levou a sério quando se viu, na primeira sessão, ao lado da mulher, diante de um cara numa mesa de escritório com sotaque argentino.

Pois enquanto ela falava sem parar da relação pai e filha, ele só pensava em perguntar se realmente o psicanalista acreditava que Maradona era melhor do que Pelé.

Chegou a desconfiar que o profissional ria internamente das queixas do casal, e se dizia:

“Incompetente. Se fosse jo, com esta guapa…”

Não voltaram para a segunda sessão, a que começaria a ser paga.

Casa de swing, aconselhou um amigo mais rodado. Demoraram semanas para ir. Ouviram experiências alheias. De casamentos que melhoraram e outros que acabaram depois de uma visita.

Se perguntaram como deveriam se comportar. Se seriam apenas espectadores da proposta inusitada ou se mergulhariam fundo e visitariam todos os ambientes. Juntos ou separados? E o ciúmes?

Foram.

Vestiram roupão. Esperaram na sala principal. Observaram casais mais atirados e os contidos, como eles.

Conversaram com um gerente de banco casado com uma operadora de telemarketing, piloto e copilota de avião, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogas e um síndico. O síndico do condomínio deles, que agarrou todas as mulheres, bebeu cinco uísques e os intimidou.

Foram embora, quando um sushiman elogiou as pernas de mulher dele e passou a analisá-las, como se fossem uma tira de salmão cru.

Riram muito na saída. Concordaram que casa de swing é mais broxante do que obra de vizinho. Chegaram em casa, e cada um dormiu no seu canto da cama, como de costume.

Decidiram relaxar. Se amavam. Não se importavam com as consequências daquele celibato que, esperavam, torciam, seria temporário. Decidiram aproveitar o tempo de sobra e frequentar cinemas de arte, exposições de vanguarda e peças de teatro em locais não convencionais.

Jogaram sinuca, dançaram dança de salão, comeram sanduíche grego, se embebedaram, se perderam em estradas de terra, participaram de cultos africanos, se benzeram e nunca foram tão felizes, apesar da falta de sexo.

Falavam sobre isso com tranquilidade. Há no mundo de hoje uma pressão forte para uma vida sexual intensa e, por isso, vazia, concluíram. O hedonismo tira o charme de um casamento, se justificavam, o da cumplicidade sem tamanho.

E viajaram para fora. Israel, Egito, Madagascar, Tailândia. Visitaram safaris, casas de massagem, exibições de técnicas de pompoarismo, daquelas em que expelem dardos e furam balões.

Em Las Vegas, depois de ganharem uns trocos num cassino, entraram numa casa de peep show. O cardápio oferecido: show com aeromoça, enfermeira, colegial, sadomasoquista, dona de casa. Escolheram o último.

Foram encaminhados a uma saleta escura. Enfiaram uma nota de 50 dólares na máquina. Abriu-se a cortina. O cenário, do outro lado do espelho falso, era uma cozinha simples.

Apareceu Susan, uma loirinha que parecia figurante de Bay Watch. Que, animadinha, começou a cozinhar e a rebolar. A tirar a roupa e se esfregar em colheres de pau, pepinos e cenouras, se lambuzar com azeite e vinagre. Até parar.

Estranhou o silêncio dos pagantes.

Olhou pela fresta do espelho.

E viu um casal se amando loucamente.

Como se não se encostassem há anos.

Como se o mundo fosse acabar em segundos.

Foi Susan quem assistiu e se excitou, sem pagar.

+++

Polêmica papal.

Depois negada.

Comentou em entrevista que está liberado o uso de camisinha para casos de prostituição.

A Igreja não quer que se multipliquem filhos-da-p%t$

+++

No princípio, Deus criou o céu e a terra, e depois a luz.

Chamou a luz de dia, e as trevas de noite. Meio óbvio, não? Por que chamaria a luz de noite e a escuridão de dia?

No mesmo período, separou a tarde e a manhã.

A pausa para o almoço e a siesta foram criadas por nós.

Depois, segundo as Escrituras, criou um firmamento no meio das águas.

Separou águas de águas, chamou o firmamento de céu, o elemento seco de terra, e o ajuntamento das águas de mares.

Ainda bem que foi no segundo dia, em que estava ainda atento, concentrado, que Ele colocou o céu e os mares em seus devidos lugares. Imagine colocar o céu nos mares, e os mares no céu?

Nos dias seguintes, Ele produziu a relva, as ervas que dão semente e as árvores frutíferas. Criou as estações, os dias e anos. Fez também as estrelas, os cardumes de seres viventes, as aves acima da terra, e os abençoou, ordenando “frutificai e multiplicai-vos”. Garanto que muitos pássaros e peixes apressados já estavam se multiplicando antes de serem criadas as estações.

Deus criou o gado, os animais domésticos, os répteis, os animais selvagens e, exausto, só no sexto dia, criou o homem à sua imagem, e a mulher. A ordem da criação é textual.

Está escrito: lagartixas, cobras e sapos foram criados antes da gente.

Ele nos abençoou e repetiu “frutificai e multiplicai-vos, enchei a terra”. E ainda ordenou “dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.” Para isso, nos deu a fome.

Valeu, Deus.

Tivemos então que ir à luta, colocar a mão na massa e inventar o fogo, a roda, o arado, a vara de pescar, o anzol, o fogão, a panela, o azeite, o caldo de carne e de frango, a mistura, o catchup, o prato, os talheres e a etiqueta.

Deus nos fez com muita pressa e em uma jornada de trabalho.

Sem contar que nos projetou só no final do turno de seis dias. Há muitas partes do corpo e da alma do ser criado à Sua semelhança que aparentam ter defeitos de fabricação e mereciam um design mais elaborado.

Para que sisos, amídalas, vesícula, divertículo, hemorróidas, pêlos nas orelhas e cera de ouvido? Para que caspas, gases, pedras nos rins, joanetes, calos, unhas encravadas? E de onde ele tirou a idéia para criar estrias, culotes, celulite, rugas e flacidez, só para afligir as mulheres? E a miopia? E o estigmatismo?

As montadoras de carros fazem com freqüência campanhas para chamar clientes para corrigir defeitos de fabricação de seus veículos e substituir componentes que podem causar danos ao produto, os recalls: eficiente peça de propaganda e marketing da indústria automobilística, que evita processos de órgãos de defesa do consumidor ou de um grupo grande de compradores.

Só neste ano, no Brasil, mais de 800 mil proprietários de veículos foram convocados pelos fabricantes para consertos; o triplo de todo o ano passado. Uma das explicações é o incrível aumento de produção automobilística, causado pela demanda e crédito fácil.

O recall divino está mais que na hora, já que a humanidade chega a impasses que resultam em dúvidas niilista, como se Ele está vivo ou morto, e a demanda agregada é enorme.

Poderia nos fazer com brânquias e barbatanas, para nadarmos com mais facilidade, e com chifres, para colocarmos casacos, guarda-chuvas, cabides e bilhetes- garçons poderiam enfiar as comandas e as contas em nossos chifres, e as mulheres, as bolsas.

Poderia nos fazer com joelhos retráteis, para evitar contusões nas peladas. Com visão noturna, para economizarmos energia. E poderia afinar para sempre as sobrancelhas femininas, aumentar os lábios e criar válvulas que aumentassem e diminuíssem seus seios.

Poderíamos vir com códigos de barras-  não precisaríamos carregar tantos documentos.

Deus poderia imitar a indústria automobilística, que tem como norma trocar gratuitamente as peças que ameaçam a segurança e o conforto do condutor.

Poderia instalar airbags em nossas pélvis e culotes, para evitar trombadas. Capacetes acoplados, para não quebrarmos a cabeça. Pára-choques reforçados, em caso mde atropelamentos. E luzes de alerta, como a que inventou para os vaga-lumes.

Dados indicam que as montadoras fabricam apenas 25% das peças, e que o resto vem de terceiros. Reduziram os custos, o que resultou em perda de qualidade.

Não há informações de que Ele tenha terceirizado os serviços da linha de montagem humana. Sabemos que Ele nos fez na solidão de Seu atelier. Também não há informações de que órgãos de defesa do consumidor se mobilizam para entrar com uma ação coletiva de perdas e danos contra o Senhor dos Céus.

No entanto, a prova de que nascemos com defeito de fabricação é que atravessamos milênios sem encontrar respostas para perguntas tão triviais como “de onde viemos?”, “para onde vamos”, “por quê?” e “existe vida após a morte?”.

Deus poderia trabalhar melhor o nosso órgão mais rebelde, o cérebro, deixá-lo já programado para agir com calma em situações de conflito, com noções de ética, inglês, francês, boa educação no trânsito e piadas de salão. Poderia eliminar a TPM, a menopausa e a dor de cabeça.

Não é justo um recall?

Ele poderia nos explicar com mais clareza a contradição entre crescei e multiplicai e a sua fórmula, a relação a dois. Tem dado certo.

Mas como é difícil mantê-lo sem discussões, provam as estatísticas. Ou foi o Diabo que inventou os argumentos?

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19.novembro.2010 12:54:19

cega e burra

O Tribunal de Justiça – SP divulgou ontem liminar que proíbe a distribuição do livro OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO a alunos de escolas públicas do Estado.

Pois o livro possui conteúdo sexual com “descrições de atos obscenos, erotismo e referências a incestos”, e, por isso, seria inapropriado para estudantes do ensino fundamental e médio.

O conto OBSCENIDADES PARA UMA DONA DE CASA, do meu colega de coluna, IGNÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO, pode ter sido o causador da obscura proibição.

Mas é 1 juiz quem deve indicar o que pode ou não ser lido nas escolas?

Ele entende de LITERATURA?

Seguiu um gosto pessoal, a intuição?

Vai proibir ou sugerir riscarem as palavras e trechos obscenos?

Por que não arrancarem as páginas  “inapropriadas” a garotos e garotas que não veem nada disso na TV e internet?

Não vão recolher as obras já distribuídas. Mas as escolas que ainda têm exemplares não entregues devem devolver à secretaria. E está proibida uma nova distribuição do livro. Caso a decisão não seja cumprida, a multa será de R$ 200 para cada exemplar distribuído.

A Secretaria de Educação do Estado de SP disse que ainda não foi notificada da decisão e comentou que, ao contrário do que diz a liminar, a obra foi entregue apenas para alunos do Ensino Médio.

Seleção do professor Italo Moriconi lançada pela Editora Objetiva com 100 melhores textos do gênero ao longo do século, OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO deixou de lado critérios acadêmicos e pautou pela qualidade de obras-primas produzidas no Brasil entre 1900 e o fim dos anos 90.

Uma antologia dividida em 6 momentos, segundo o professor Douglas Wisniewski:

“De 1900 aos anos 30 / Memórias de ferro, desejos de tarlatana”

O autor situa corretamente os contos deste momento com o Pré-modernismo, deixando claro que os contistas deste período experimentam os mais variados estilos, não havendo exatamente um padrão. Temos um Machado de Assis ainda a questionar certas atitudes da sociedade da época, João do Rio falando sobre o carnaval e aventuras extravagantes, Lima Barreto fazendo as pessoas desenterrarem os ossos de seus falecidos parentes para fazerem ouro e, assim, criticando a ganância e estupidez da sociedade brasileira e outros.

“Anos 40/50: Modernos, maduros, líricos”

Representando um momento em que o Modernismo já se havia estabelecido na cultura brasileira, mas em que a poesia e o romance tinham maior espaço no mundo literário. Não obstante isso, teremos maravilhosos contos dessas décadas a nos mostrar as dificuldades das relações afetivas entre os brasileiros. Temos “O Peru de Natal”, de Mário de Andrade, mostrando a onipresença de um falecido e sovina pai no seio de uma família que se reúne para cear, José J. Veiga coloca dois irmãos que nem se conheciam frente a frente, tentando quebrar o gelo da distância que os separava apesar de terem o mesmo sangue, o maravilhoso Drummond vendo o mundo com os olhos de uma garotinha de 3 anos e outros.

“Anos 60: Conflitos e desenredos”

A década de todas as revoluções também é retratada por Moriconi como um momento em que escritores consagrados como Clarice Lispector e Orígenes Lessa explorarão mais os campos da psicologia humana em contos marcados pelo fluxo da consciência do narrador e finais surpreendentes.

“Anos 70: Violência e paixão”

O país vive um contexto de violência política e social até então inédito e o conto afirma-se como instrumento adequado para a expressão artística do ritmo nervoso e convulsivo desta década passional. Rubem Fonseca destila o famoso “Passeio noturno” narrando a “tara” do personagem que tinha como hobby atropelar pessoas, enquanto Luiz Vilela põe um barbeiro experiente e um jovem assustado para fazerem a barba de um cadáver e filosofar sobre a morte.

“Anos 80: Roteiros do corpo”

A sexualidade é exacerbada no início desta década, como consequência das revoluções culturais ocorridas nas décadas anteriores e o conto terá como cenário as grandes metrópoles. A mídia ditará as regras e começará a explorar o erotismo. O homossexualismo ganhará vulto na literatura oficial. Mas tanta concentração nas energias sexuais poderão terminar com uma sensação de vazio, que parecerá anunciar um fim de século melancólico, marcado pelo afastamento das pessoas através do uso da camisinha (isolante sexual) e o medo da AIDS. Sérgio Faraco, Caio Fernando Abreu, Ignácio de Loyola Brandão e João Ubaldo Ribeiro são alguns dos representantes desta fase.

“Anos 90: Estranhos e intrusos”

Momento de nova agitação cultural e diversidade de temas e tipos será marcado pelo final do século XX. “Década de estranhos e intrusos” como afirma o Dr. Moriconi, época que celebra a diferença, combinando o humano ao animal e ao tecnológica. Um novo período de transição, como aquele marcado pelo Pré-modernismo no início do séc. XX se anuncia para o início do séc. XXI, confirmando a máxima de que “a História se repete”. O destaque é dos contistas Moacyr Scliar, Silviano Santiago e Luís Fernando Veríssimo.

Primeiro proíbem MONTEIRO LOBATO. Agora, contos.

Justiça cega e burra.

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18.novembro.2010 23:16:53

programation

Há tempos que não via algo na TV aberta tão bom quanto AFINAL, O QUE QUEREM AS MULHERES?

Além de JUNTO E MISTURADO.

É a GLOBO mandando bem. Apesar de perder em audiência para A FAZENDA [sem negrito]. Que deprê…

De LUIS FERNANDO CARVALHO, o diretor das minisséries caprichadas [e caras].

Poderia ser uma bobagem amontoada de clichês.

Mas é aí que está a graça.

Sim, joga com conceitos e preconceitos.

E poesia.

Fala de amor e separações.

“Quem nunca escutou ‘toca a sua vida’ numa separação?”

Foi aí que o programa me pegou. Sim, já escutei!

Baseada na obra de JOÃO PAULO CUENCA, tem um ar felliniano de DOLCE VITA. Uma trilha e direção incríveis. Cenário e figurinos exóticos.

MICHEL MALAMED faz um nerd, ANDRÉ, que escreve uma tese de doutorado em Psicologia, que pretende responder a pergunta freudiana “Afinal, o que querem as mulheres?”

Ele mistura a pesquisa à sua própria vida. Sua dedicação é tanta, que ele é abandonado por seu grande amor, LÍVIA [PAOLA OLIVEIRA]. Mas a tese vira livro, que vira um bestseller. E sua vida passa a ser rodeada de mulheres.

Mas ele não consegue esquecer Lívia, que fica com o homem perfeito, JONAS [DAN STULBACH, o 'vai curintia', meu colega de arquibancada laranja]. Tipo descrito no post abaixo, o supersuper-homem: cozinha, dança, canta, fala várias línguas, sedutor, elegante.

É ele que elas querem?

O escritor ganha fama, uma russa tarada e uma série baseada nele, interpretada por RODRIGO SANTORO, que faz um galã idiota, surfista fútil, que cola no personagem que interpretará, ANDRÉ, absorvendo seus trejeitos.

E comemora, quando chega ao número de 1 milhão de seguidores no twitter.

No fundo, poderia se chamar também o que vocês querem da gente?

Pois são eles que narram.

Auto-ironia de primeira.

Todas as quintas, 23h30.

+++

Vamos lá.

Sexta e sábado, 23 h, no SATYROS 1, a peça que dirigi: LÁ FORA, UM PÁSSARO DÁ BOM DIA.

Monólogo lindo e revelador da princesinha da Praça Roosevelt, a autora PRISCILA NICOLIELO, com GABRIELA ROSAS.

Ensaiamos durante 40 dias.

O texto sobre uma garota de 15 anos que flerta o carteiro, que vai longe demais. Surpresas da loucura feminina estão nas entrelinhas. A peça é de uma densidade delicada.

E mostra que nem sempre é possível prever a reação de uma donna.

Cada gesto foi calculado. Minunciosamente.

Afinal, aprendi, num monólogo todos os olhos estão apontados para a atriz.

O movimento de seus dedos é ampliado.

Acredito que está mais para um balé do que para uma peça.

Não ensaiávamos apenas. Coreografávamos também.

+++

Nesta sexta estarei na BALADA LITERÁRIA, evento organizado pelo boeta [poeta boêmio] MARCELINO FREIRE, que rola todo o ano.

Falaremos de dramaturgia e literatura na LIVRARIA DA VILA, da VILA MADALENA mesmo, às 14h30.

Eu, SÉRGIO ROVERI e BETH GOULART.

Aproveitaremos para homenagear o falecido e querido ALBERTO GUZIK.

Veja toda a programação, que começou hoje.

E é grátis.

PROGRAMAÇÃO

18 DE NOVEMBRO (QUINTA-FEIRA)

14h30 – Livraria da Vila:

Um bate-papo sobre teatro e literatura


SÉRGIO ROVERI [dramaturgo] conversa com BETH GOULART
[atriz - na foto abaixo, no papel de Clarice Lispector]
e
MARCELO RUBENS PAIVA [escritor e dramaturgo - acima]

Na ocasião, haverá uma homenagem
ao escritor, ator e crítico literário
ALBERTO GUZIKcom a participação
dos atores
CLÉO DE PARIS

+++

Bem, e vem aí PLANETA TERRA [PAVEMENT!], LOU REED e PAUL!

Ah, este dólar barato…

Faz a festa dos amantes da música.

Tem um mega show toda a semana.

De bandas que só conhecíamos de longe.

Fode a econonia, mas que é bom ter acesso à boa cultura, é.

+++

JON FOSSE é um caso sério.

Ou amam, ou odeiam.

Ninguém fica insensível a ele.

Dramaturgo norueguês, que escreve em norueguês e  quase não sai de casa, neurótico de primeira, que prova o quanto a dramaturgia contemporânea está pulsando.

Está em cartaz no PARLAPATÕES, sob direção do meu parceiro de J&D e Heineken, MARIO BORTOLOTTO.

Que, como entende tudo da coisa, soube dedilhar as pausas e vazios deste texto tão marcante, NOTURNOS.

Sobre um casal incrivelmente familiar, entediado, sem diálogo e sem saída, que não consegue apagar o incêndio de sua rotina.

Os diálogos repetitivos, que irritam alguns, são a sua marca.

Incomodam.

Não a mim. Ao contrário, provam o quanto numa vida a 2 repetimos e repetimos as mesmas fraquezas e dúvidas. O quanto 1 casal se perde, na maioria das vezes, na mesma queixa, como um LP riscado. E o quanto é difícil fazer a agulha pular.

Comprove.

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15.novembro.2010 12:25:44

supersuper-homem

Uma amiga brasileira teve uma relação com um americano e se surpreendeu. Defendeu:

São os melhores.

Era educado, gentil, carinhoso. Narrou:

“Ele me pedia licença para tudo. Perguntava: Posso te beijar? Sim, eu respondia. Posso abaixar a alça do seu vestido? Sim. Posso beijar o seu pescoço? Sim. Posso segurar? Sim. Posso abraçá-la mais forte? Sim…”

Comecei a rir, enquanto ela enumerava a trajetória de propostas e permissões por etapas.

Até, curiosa, me perguntar por que eu ria tanto.

“Ele segue o manual”, expliquei.

“Que manual?”

No começo dos anos 90, os Estados Unidos acompanharam o julgamento de Mike Tyson com atenção redobrada.

Não era apenas mais uma disputa racial.

Questionava a prática sexual de toda a sociedade.

Ele era acusado pela ex-miss América Negra, Desiree Washington, de assédio e estupro. A única prova era o testemunho dela contra o dele, um dos maiores ídolos do boxe, imbatível no tablado, mas com queixo de vidro na vida pessoal.

O caso ganhou a dimensão de um ringue em que se luta com conceitos.

Mas definiu enfim as regras que os novos tempos pediam: afinal, o que é juridicamente assédio sexual.

A resposta foi dada pela Corte. A partir do momento que um homem escuta um “não” de sua parceira, deve parar. E para aqueles que defendem que um não pode ser um charminho, inerente ao jogo de corte, e requer mais talento do sedutor, lembrem-se: pode dar em cana se prosseguir.

Como deu para Tyson, que viu por quatro anos o sol nascer quadrado.

O caso deu munição à guerra dos sexos.

Juízes, professores, empregadores, atletas, colegas de sala de aula passaram a ser processados por assédio sexual. Até uma grande rede de supermercados recebeu um processo milionário coletivo de suas funcionárias. E perdeu.

Normas foram criadas.

Numa universidade de Chicago, determinou-se que professores e alunas se reunissem com as portas abertas. Se um professor estivesse num elevador, e uma aluna entrasse, ele deveria sair, para não levantar suspeitas.

A paranoia se estendeu.

Não se sabia mais o que era xaveco ou abuso.

Nos bares, homens evitavam olhar para as mulheres. Tinham os olhos fixos em livros e revistas, ou no vazio, temendo escutar: “Tá olhando o quê?!”

A taxa de natalidade deve ter despencado naqueles anos de submissão ao politicamente correto.

Quando me inscrevi para estudar na Universidade de Stanford em 1994, recebi um formulário a ser preenchido e um manual do significado de assédio sexual. Ilustrado.

Folheei curioso quando cheguei em casa.

Dizia que cada passo da sedução deve ser consensual. Que se deve pedir permissão para acariciar, beijar, tirar a roupa, abraçar, amar. E que, se em determinada etapa, escutarmos um “não”, a corte deve ser interrompida imediatamente. Pois não deve existir um segundo não. Seria assédio, caso ele fosse proferido.

Foi o erro de Tyson, que lhe custou a liberdade.

Por isso, informei a minha amiga, que ficou decepcionada:

“Talvez os americanos sejam prudentes e preservam a sua liberdade. Por isso ele perguntou se podia abraçar, beijar, abaixar a alça do vestido etc. Deve conhecer o manual.”

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Quem acompanha a série de TV Mad Men, vencedora do Globo de Ouro e do EMMY de 2008 e 2009 (Melhor Série Dramática), que se passa no começo dos anos 60, surpreende-se com o ambiente em que a tensão sexual contaminava e ainda contamina muitas repartições.

O título é uma corruptela de homens da Madson, avenida em que se concentravam as agências de publicidade de Nova York.

Mas retrata também a loucura de um universo dominado pelos homens, em que quem manda são eles. A elas, o cargo de secretárias e telefonistas.

E o assédio entre patrões e empregadas é rotina, num explícito jogo de poder.

Ainda é na maioria dos locais de trabalho.

Chefes paqueram subalternas.

As novas estagiárias viram alvo de toda a munição masculina.

E a gata do escritório vive o drama de provar que, além de gostosa, tem cérebro.

Na primeira temporada da série, a mulher do protagonista, Betty, “tem tudo”: uma boa casa, um bom marido, Don, publicitário bem pago, filhos saudáveis. No entanto, inexplicavelmente, sente pânico. Vai ao psiquiatra, inconformada por duvidar da qualidade de sua vida, enquanto o marido visita rotineiramente o leito de uma amante beat às tardes.

Este costume é um dia abalado pelos pilares da emancipação sexual da mulher.

E mudou o homem.

Vemos nascer o super-homem.

Não aquele de Nietzsche, que se sente só e deve criar suas próprias regras e destino, já que Deus está morto.

Mas o que deve radicalmente aposentar as certezas ditas pelo comportamento passado e aprender com o feminino: a cozinhar, trocar fraldas, lavar a louça, cuidar de tarefas domésticas e, surpresa, obedecer.

Algo inconcebível por nossos avôs.

O super-homem deve agora ser duro, mas sensível em equilíbrio, decidido e duvidoso, romântico, mas nem tanto, zelar pela segurança e dividir, respeitar e tolerar, entender as divergências e a inconstância.

Aceitar ganhar menos que a mulher, ser a babá da casa eventualmente, e até tirar as botas da dona do lar, se ela chega cansada depois de uma rodada de trabalho e uma esticada num pôquer com as amigas.

Afinal, ela agora tem salário, planos de saúde e aposentadoria, é suficientemente independente para dizer good-bye, caso seu super-homem não seja um supersuper-homem.

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