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Marcelo Rubens Paiva

11.novembro.2009 09:54:06

Blecaute

O apagão de ontem mostrou o poder de uma nova mídia, que bateu todas as outras: a do celular 3G.

Só quem o tinha sabia detalhes do que acontecia, poder antes exclusivo das rádios. Porém, muitas emissoras saíram do ar.

Quem acessava a internet pelo seu celular, lia o Twitter, os portais de notícia, mantinha os outros pedestres informados. Mandei muitos torpedos para gente que “cancelava” o programa agendado, a festinha do MARCELO TAS, pois acabara a luz “em casa”.

É em todo Brasil, nega. Até no Paraguai, eu respondia.

Jura?

Minha irmã Eliana, ilhada no décimo sétimo andar de um apê no Leblon, Rio, até perguntou: “Como você sabe?” Da janela, ela notava que parte da zona sul estava às escuras. Mas sem rádio com pilhas, TV, internet, ela também estava às escuras.

Diferentemente do apagão de 1999, cujos boatos chegavam pelo celular ["minha mãe diz que lá em Santa Catarina também tá sem luz"; "meu primo de Salvador também", gritavam no cinema em que eu estava], neste, um mostrava para o outro o visor atualizado do seu 3G. Que também servia de lanterna.

No shopping, depois de ir ao lançamento do livro do Caversan, me preparava para entrar no elevador e com o Kiko ir à festa do TAS. Entramos no elevador, e ele não saiu do lugar.

Descemos pela rampa da garagem e fomos pra casa do Kiko, dar um tempo lá. Não achei a cidade caótica, apesar da falta de semáforos. Nos cruzamentos, uma estranha e pacífica ética nascia do caos.

Apagões servem para nos sentirmos escoteiros ou em acampamento.

Ana Júlia, sua filha, tocou violão. Vi a menina nascer. Hoje, compõe músicas próprias, canta afinada, com a voz potente. Velas nos iluminavam. Há tempos eu queria escutá-la, já tinham me dito o quanto era boa. Precisou de um blecaute para rolar.

Muitos amigos começaram a me ligar, e isso sempre acontece em apagões. Fazem referências ao meu livro BLECAUTE. Me chamam de profético. Nem tanto.

O livro BLECAUTE está mais para KALKI, de Gore Vidal, que também inspirou ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, de Saramago, do que para os apagões rotineiros. Na verdade, é um livro sobre apocalipse e falta de vida, não apenas falta de luz elétrica. Mas acho a lembrança simpática. Eu mesmo não me lembro.

E lamentei pelo TAS, que teve a festa de 50 anos micada. Bem, na minha, também faltou luz bem no meio, e ele estava lá. Será que não se deve comemorar os 50 anos?

Ao final, era 1h, e levei de carro a nossa editora ISA PESSOA para um hotel na PAULISTA. Contou que na festa de prêmio literário de que vinha nem se sentiu a falta de luz, graças aos geradores da Casa Fasano. E que não havia táxis na cidade. Foi até a casa do Kiko, nos encontrar, de carona.

Achei tudo calmo e bem organizado. Já havia cruzamentos bloqueados, ou com cones, indicando outro caminho, sugerindo mudanças de rotas. As pessoas dirigiam com calma, solidárias. Muita gente papeava em rodas. Muitas pessoas sentadas no calçadão da Paulista.

Apenas os edifícios da elite dos Jardins estavam iluminados, graças aos seus potentes geradores. Assim como a padaria Galeria dos Pães, na Rua Estados Unidos, lotada e funcionando normalmente. Que inveja. Nessas horas ser rico deve ser bom.

Como no meu prédio não tem gerador, dormi no sofá da sala da casa da minha irmã Vera.

Hoje de manhã, a golden dela me trouxe o jornal. Tomamos um café da manhã em família. Vim a pé para o meu apê.

A feira da rua está rolando. Dona Maria, a japa do melhor pastel da cidade, está lá. A pancadaria da obra do vizinho começou, como há 6 meses. A internet está normal. Tinha até o ESTADÃO com notícias do apagão na porta.

É, a vida continua…

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Escrevi a crônica abaixo no ano passado, para a revista da Livraria Cultura. Me pediam uma comparação entre Ensaio Sobre a Cegueira e Blecaute.

CEGUEIRA E BLECAUTE

Na verdade, o título acima deveria estar em itálico ou entre aspas- dependendo da norma da publicação-, já que anuncia a comparação entre duas obras literárias, que são diferentes em estilo, mas oferecem uma trama de pano-de-fundo parecida: Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago (Companhia das Letras) e Blecaute (Objetiva), o meu segundo romance- primeiro de ficção.

Sem abusar da vaidade, a pauta foi sugerida pela Revista da Cultura, já que, apesar de, também entre aspas, escrevermos seguindo as regras da mesma língua, Saramago é um Prêmio Nobel, vendedor de milhões de exemplares, e eu sou um escritor do Sul do Equador, atualmente mais conhecido como o roteirista do documentário sobre o Corinthians.

Ensaio Sobre a Cegueira é de 1995. Virou filme pelas mãos e lentes de Fernando Meirelles. É narrado por um velho, que se desloca por uma cidade desconhecida, em que todos ficam temporariamente cegos, devido a uma praga desconhecida. Apenas a mulher de um oftalmologista é imune à doença- os personagens não têm nome. Para sobreviver, ela finge que é cega.

A praga começa de repente, já na primeira página: um motorista “se vê” cego no meio do trânsito. Ele espalha o vírus, que é rápido, impiedoso. O caos se estabelece. A civilização e os pactos criados são rompidos.

Pouco a pouco, desperta a fera corrupta, predadora e interesseira que há domesticada em muitos. A frágil aliança entre os homens é substituída pela competição entre aqueles que acreditam na união para a sobrevivência, e aqueles que apostam na anarquia.

Blecaute foi escrito dez anos antes. Pode virar filme pelas mãos de Caito Ortiz, da Pródigo Filmes. Além do Brasil, foi publicado na Alemanha. Vendeu 280 mil cópias, um estouro que, segundo muitos, seguiu a esteira do sucesso do meu primeiro livro, Feliz Ano Velho.

Rindu, Mário e Martina ficam presos numa caverna do Vale do Ribeira. Quando saem, descobrem que as estradas e São Paulo estão desertas. As pessoas viraram estátuas. Apenas os animais sobreviveram a uma misteriosa praga.

Entre explorar e esperar na cidade “o fenômeno” acabar, decidem morar num bunker e esperar. Aos poucos, é também rompido o pacto de civilidade. Passam a agredir tudo em volta, dinamitar monumentos, fazer excentricidades. Para, depois, considerarem o amigo um inimigo.

Cegueira tem final feliz e sugere que precisamos de uma catástrofe eventual para enxergamos nossas contradições, desenharmos a paz e um rumo. Todos voltam a enxergar. Muitas metáforas emergem desse plot: estamos cegos diante da miséria humana.

“Por que foi que cegamos, não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, queres que te diga o que penso, diz, penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem.”

Blecaute não explica o fenômeno e termina sem solução. Os personagens sobreviventes estarão para sempre solitários, numa civilização que se foi.
Escrevi inspirado no movimento punk e no desespero que vivíamos perante a possibilidade da destruição por uma guerra nuclear e aquecimento global.

Antes dele, livros e filmes propunham uma trama apocalíptica, para desvendarmos alguns segredos da civilização. Como Kalki, de Gore Vidal. Informei no prefácio que meu livro era inspirado na série Além da Imaginação, produzida no clima do pós-guerra. Dois filmes, A Última Esperança da Terra, com Charlton Heston, e a sua refilmagem, A Lenda, com as nossa Alice Braga, mostram Nova York deserta, também atacada por uma praga, e a luta contra seres mutantes.

Acredito que Saramago foi inspirado pela aids e ebola, vírus que ameaçam a espécie.

Enquanto abuso da linguagem coloquial, Saramago tem um estilo formal, apesar de não pontuar os diálogos, uma brilhante técnica, que ilustra como, se fecharmos os olhos, nos vêm as falas ao redor.

Porém, sem dúvida, em comum, há o sentimento que existe em todas as religiões, está narrado na Bíblia, e que aflige o homem, o de que um dia tudo isso acabará, que não haverá mais olhos para ver um Van Gogh, ouvidos para escutar um Mozart. A beleza criada pelo homem pode ser destruída por ele mesmo.

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10.novembro.2009 12:43:57

Geyse: Dorotéia

Voltaram atrás. Bastou a abertura de um inquérito na Delegacia da Mulher, pressões do Ministério da Educação e sair no New York Times e em toda a imprensa internacional, que o departamento de marketing da UNIBAN foi enfim ouvido.

E o que se escutou parecia óbvio: a imagem da universidade escorre pelo ralo.

O que é mais intrigante no caso da expulsão da UNIBAN da aluna de turismo de pernas pra fora, Geyse, é que seu reitor [e dono], Heitor Pinto Filho, quem expulsou a aluna, é casado com a atriz Eloísa Vitz, curte teatro.

Construiu um na universidade, gerido pelo GATTU, injeta dinheiro, coloca anúncios nos jornais divulgando as peças, que ficam lotadas de estudantes.

E sabe qual autor costuma ser montado lá?

NELSON RODRIGUES

E sabe qual peça o grupo remontrou e está em cartaz?

DOROTÉIA

Conhece a história?

Três viúvas [Flávia, Carmelita e Maura] moram juntas e estão sempre de luto, com vestidos longos, que escondem as formas. São castas, reprimidas. Elas jamais dormiram. Para não sonharem, onde podem aparecer desejos secretos.

Então, batem na porta. As três colocam máscaras. Flávia abre a porta. É outra prima, Dorotéia, que em contraste com a castidade das mulheres de luto, veste-se de vermelho, um vestido sensual, que realça as formas da mulher, “como as profissionais do sexo”. E não usa máscara.


DOROTÉRIA, foto de LENISE PINHEIRO

A quarta peça de Nelson, de 1949, aborda a repressão sexual, e que a doença, feiúra e os sacrifícios e todos sofrimentos em geral se tornam valores sempre perseguidos pelas personagens, como meio de “exegese e ascese espiritual purificadora dos pecados do sexo”.

“Mais que uma denúncia contra a cultura e a religião que enaltecem a doença e o sofrimento, a peça traz, por meio de seu sarcasmo brutal, uma denúncia contra a culpabilização da sexualidade e contra o culto da apologia da morte. Acometido de uma fúria verdadeiramente báquica – unindo por meio da sátira o trágico e o cômico – Nelson expõe até a medula a violência dos paradigmas do patriarcado em sua vertente católica e mediterrânea transplantada para o Brasil” [psicanalista Anchyses Jobim Lopes]

Nelson deve ter gargalhado, quando soube que uma jovem aluna foi chamada em coro de “puta”, como a sua personagem de vestido vermelho. O homem é escravo do seu ridículo.

Serviço: Dorotéia
Horários: Sábado às 21h e Domingo às 20h
Temporada: 05 de setembro a 13 de dezembro de 2009
Local: Teatro Gil Vicente
Capacidade: 147 lugares
Indicação: a partir de 16 anos
Duração: 70 minutos
Endereço: Av. Rudge, 315 – Campos Elíseos – São Paulo/SP
Ingressos: R$ 30,00 (inteira) – R$ 15,00 (meia)
Aluno: R$ 10,00 – Acompanhante: R$ 10,00
Funcionário: gratuito – Acompanhante: R$ 10,00
Informações: www.gattu.com.br

Ficha Técnica

Direção Eloísa Vitz

Elenco

Eloísa Vitz
Daniela Rocha Rosa
Diogo Pasquim
Elam Lima
Hélio Souto Jr.
Laura Vidotto
Lorena Bertino
Marcos De Vuonno
Marcos Machado
Miriam Jardim

Mais informações no site da… Adivinha:
 http://www.uniban.br/institucional/relea…

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E falando em sexo, hoje e amanhã tem A NOITE MAIS FRIA DO ANO no teatro Poeira, do Rio. Peça que a VEJA SÃO PAULO indica e afirma que tem a melhor cena de trepada num palco dos últimos tempos.

Bem, eu que dirigi a cena. Caprichei.

Olha lá, a temporada carioca se encerra na semana que vem.

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Meu amigo e mentor [no jornalismo e na vida] LUIS CAVERSAN lança o livro “Como Fazer Jornal Todos os Dias – Introdução ao Jornalismo Diário”.

Hoje, terça-feira, dia 10/11, tem noite de autógrafos na Saraiva Megastore do Pátio Higienópolis – avenida Higienópolis, 615.

Caversan trabalhou durante 7 anos no ESTADÃO e 21 anos na redação da Folha de S. Paulo.

É colunista da Folha Online e atualmente é consultor sênior na área de comunicação corporativa, escritor, editor e produtor cultural.

Fez de tudo já numa redação. Foi repórter e editor de cultura, fotografia, cotidiano, ajudou a escrever o Manual de Redação da Folha, foi chefe de sucursal. Viveu o jornalismo diário com empolgação.

Sua paixão e dedicação inspirou o personagem RAUL, do meu último livro A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI. Faz parte da geração que, com MATINAS SUZUKI, mudou a cara do jornalismo impresso no Brasil. Conhece cada vírgula do fazer jornalismo.

A pauta, a reportagem, o trabalho minucioso do redator, os macetes do fechamento e toda a hierarquia que dá sustentação ao noticiário estão ali reunidos em todos os detalhes.

Ler seu livro deve valer mais do que todos os cursos de jornalismo em oferta. Inclusive pela UNIBAN.

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09.novembro.2009 17:23:08

O Pensador no quintal

“Faculdade serve para ir para o bar e fumar maconha, e nem isso eu fazia!”, twittou o humorista, apresentador do CQC e o mais novo polemista dos corredores da cultura brasileira, Danilo Gentili.

Talvez o dito não sirva para estudantes de medicina, engenharia, economia, que passam horas debruçados sobre livros que precisam de malas com rodinhas para serem carregados até as aulas. Mas para os que frequentam a área de humanas…

Pode ser que um baseado forte até ajude a entender os labirintos do pensamento metafísico, da Semiótica ou o estilo literário de Guimarães Rosa, ajude a criar peças publicitárias inovadoras, ou até, talvez, a entender a Teoria Geral da Relatividade de Einstein e a misteriosa Mecânica Quântica. O problema é se esquecer de tudo depois.

Trata-se de um ambiente com encontros rotineiros de garotos e garotas com os hormônios e a libido explodindo e se trombando, negando o que se esperam deles e os princípios dos pais. Bebem para adormecer os instintos?

Há um agravante na hipótese levantada pelo humorista. Parte da elite brasileira estuda em universidades gratuitas; um dos paradoxos do nosso sistema educacional. E é normal um relativo desdém contra tudo que é de graça.

Quem já teve a oportunidade de estudar numa universidade americana, sabe que lá a dinâmica é outra, já que o ensino fundamental é gratuito e dependendo do condado em que se mora, de alto nível, mas as universidades, até as estaduais, são pagas.

Os pais que pretendem ver os filhos com diploma economizam a vida toda, investem. É da cultura local planejar o futuro do filho desde quando ele nasce.

Os moleques chegam nas boas universidades com o lápis nos dentes, gastam cada minuto dos anos dourados mergulhados no campus, nas bibliotecas, estudando, pesquisando. Estão conscientes do sacrifício familiar e da oportunidade cedida. Poucos perdem tempo em barzinhos e fumando maconha.

Há uma cota grande de bolsistas exigida por lei. Bons alunos e especialmente esportistas são monitorados e convidados pelas universidades quando ainda estão no colégio. Há cotas para negros, deficientes, latinos, de acordo com a lei da ação afirmativa.

E residentes do Estado das universidades públicas pagam bem menos. Na Universidade da Califórnia, universidade estadual de Berkeley, por exemplo, uma das dez mais do país, de onde saiu a equipe que construiu a Bomba Atômica e inventou a internet, o aluno comum paga uma anuidade comparada às grandes universidades, mas os moradores locais pagam dez vezes menos.

Muitos acreditam que o modelo deve ser seguido no Brasil, que o Estado deve priorizar os estudos fundamentais.

Grande parte dos que estudam na USP, Unicamp, Unesp ou nas Federais poderia pagar uma anuidade, vem de boas escolas, consegue notas altas no vestibular. E deixaria para o dinheiro público o compromisso de dar as mesmas oportunidades nas escolas e colégios. É um debate sem fim.

Estudei um ano numa universidade americana, Stanford. A contracultura já era. California dream idem. Quem fosse pego fumando maconha no campus era preso. Cinco anos vendo o insistente sol da Califórnia nascer quadrado.

Fui informado por isso por um segurança de bicicleta, que correu para me alertar, quando eu acendia um, num gramado isolado, no primeiro dia, encostado numa árvore com o amigo Bogdan, escritor de livros de mistério, bestseller na Romênia, na primeira semana de aulas.

Quando meus colegas, vindo de todas as partes, souberam disso, dispensaram seus estoques na privada da minha casa, já que fui o primeiro a dar um jantarzinho de boas-vindas e a anunciar a novidade.

Entrei no clima. Parei de fumar. Li em média quatro livros por semana, gastei a vista na biblioteca da universidade, vi todos os clássicos na videoteca, junto com um colega iugoslavo cinéfilo, que estabeleceu a programação num caderno, me fez assistir aos filmes pela ordem cronológica e agendava sessões privês.

O bar mais perto ficava a milhas de distância. Outra lei proibia barzinhos no raio de 5 milhas.

A sorte é que havia outra droga para ser consumida, a de morar num parque cheio de esculturas originais de Auguste Rodin. São mais de 200, em bronze, espalhadas pelos jardins do campus, que podem ser visitadas 24 horas por dia. Entre elas, O Pensador, que ficava praticamente no quintal de casa, em frente à biblioteca.

E toda a vez que passava por ela, eu a cumprimentava. Imóvel há anos. Não lhe preocupavam os casos midiáticos, o julgamento de OJ, a bomba de Oklahoma, o 11 de Setembro. Continuava com o cotovelo apoiado no joelho esquerdo, pensando. Muitas vezes sem ser notado. Eventualmente, fotografado. Sob chuva, sol, calor, fog.

Testemunhou intacto o terremoto de 1989, que desabou alguns prédios do campus e da cidade de San Francisco. Não sofreu um arranhou, nem mudou a sua expressão… pensativa- que adjetivo fácil de atribuir.
Conversei com ele mentalmente sobre algumas questões fundamentais. Troquei ideias. Às vezes, ignorei, como fazem os americanos, quando não estão a fim de papo.

Certa vez, uma guia turística dava explicações, que era uma homenagem a Dante e representava o poeta diante dos Portais do Inferno. Estava nua (não a guia), como nu é o pensamento.
Fazia perguntas ao seu grupo, motivando-os. Pediu uma explicação para o fato de o cotovelo direito da estátua estar apoiado no joelho esquerdo, posição desconfortável que é o charme da obra. O que queria dizer o artista?

Eu nunca tinha reparado nisso. Imitei a postura. Realmente, a tendência é apoiarmos o cotovelo no joelho correspondente, não cruzá-lo. Meu Deus, o que queria dizer? Por que nos deixou o legado da postura incorreta?
Veio a explicação. Segundo a guia, pensar era doloroso, um esforço, não um descanso. Acreditei nela. Gostei da explicação. E toda vez que eu cruzei com a escultura depois desse dia, perguntei: “Tá confortável?”

Abriu na semana passada no Masp uma exposição de Rodin. Além da peça em bronze As Três Sombras, que pesa mais de uma tonelada e pela primeira vez saiu dos jardins do museu Rodin de Paris, há 193 imagens raras do artista.

Meu Pensador não veio. Visitei-o há quatro anos. Está lá, torto, imóvel. Não dá a menor bola para o que acontece no mundo. Não se cansa de pensar. No que tanto pensa? Será que chegará a alguma conclusão? Será que um dia se levantará e dirá “cansei, vou dar um rolê”?

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06.novembro.2009 13:42:49

Marighella e Carmo

Enfim, uma homenagem.

O Memorial da Resistência de São Paulo apresenta a exposição Marighella, em memória aos 40 anos da morte do guerrilheiro comunista, ícone do combate à ditadura militar no Brasil.

Abertura amanhã. Fica até 25 de maio.

No Largo General Osório, 66 – fone 11/3335 4990

A mostra uniu tucanos e lulistas. É patrocinada pelo GOVERNO DO ESTADO DE SÃO PAULO, PETROBRAS, CESP e SECRETARIA ESPECIAL DOS DIREITOS HUMANOS.

Busca traçar o perfil e a trajetória de vida do baiano Carlos Marighella, morto numa emboscada em 1969, na Alameda Casa Branca, região dos Jardins, organizada pelo temível delegado Paranhos Fleury.

Ela tem cartas, livros, imagens de arquivo, iconografia variada, depoimentos, além de textos e poemas do próprio Marighella.

A exposição fala da infância na Bahia à guerrilha urbana em São
Paulo, em que liderou mais de mil militantes da ALN, organização fundada por ele, e que tinha uma rede enorme de simpatizantes e apoio, e tinha o aval de FIDEL, para organizar a guerra revolucionária no Brasil.

Alguns dirão que não passava de um facínora comunista, que assaltava bancos, para arrecadar fundos para a guerrilha, sequestrava embaixadores e instalou o terror.

Muitas das ações da ALN são questionáveis, como execuções e o notório e bem-sucedido sequestro do embaixador americano- neste caso, consta que Marighella foi contra e só soube depois de a ação estar em andamento.

A ação foi o momento da virada, quando antes a ALN ganhava todas, e uniu a repressão, alimentou a união entre polícia e sociedade civil, que deu na OBAN e depois no DOI/Codi.

A ALN atuava em grupos táticos semi-independentes. Seguia à risca o MANUAL DO GUERRILHEIRO URBANO, escrito pelo próprio, que se tornou um best seller na EUROPA e foi o manual base das organizações clandestinas de esquerda de lá.

Porém, a ALN nunca conseguir fugir do esquema assalto-expropriações-clandestinidade-vida em aparelhos-medo de denúncias-assaltos.

A direita dirá que teria sido muito pior se Marighella fosse bem-sucedido e instalasse um regime comunista no Brasil.

Porém, um paradoxo: ele lutou em regimes ditatoriais. Uniu estudantes e trabalhadores sob a bandeira da revolução, da UTOPIA. Pegou em armas e recebeu apoio de parte da opinião pública e intelectuais, e se tornou um mártir na luta contra a ditadura.

No mais, alguém tinha que fazer alguma coisa. Combater, fugir ou se calar?

Não se pode ver Marighella com os olhos de hoje, quando se comemoram os 20 anos da queda do Muro de Berlim. E não se deve ter receio de lê-lo, homenageá-lo e repensar a história desse País, que viveu séculos de instabilidade política e domínio da elite agroindustrial.

Já na Era Vargas ele era perseguido. Foi para a clandestinidade ainda em meados de 1930 e preso. Foi eleito deputado federal pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro) e cassado em 1948. Rachou com o partido, que era contra a luta armada, e tomou o caminho da guerrilha.

Uma das surpresas da mostra é justamente a vitrine de textos inéditos de Marighella. Outro destaque é um vídeo com depoimentos de personalidades como Oscar Niemeyer, Antonio Candido e Armênio Guedes.

A curadoria é do jornalista Vladimir Sacchetta.

Marighella era a composição do brasileiro: filho de um imigrante italiano com uma mulata, descendente de escravos africanos. Estudou no curso de Engenharia da Escola Politécnica de Salvador.

Em 1936, no Rio de Janeiro, atuou na reorganização do PCB, depois da repressão desencadeada com o levante de novembro de 1935. No mesmo ano, foi preso e torturado. Em São Paulo, durante o período do Estado Novo, foi novamente preso, e desta vez condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional. Permaneceu quase seis anos em Fernando de Noronha (PE) e na Ilha Grande (RJ).

Foi libertado com anistia concedida por Getúlio Vargas. Em 1945, foi eleito deputado federal constituinte pela Bahia. Na década de 60, fora do PCB, criou a ALN (Aliança Libertadora Nacional) e partiu para a luta armada.

Há 40 anos, em 4 de novembro de 1969, foi assassinado em São Paulo. No dia 11 de setembro de 1996, por 5 votos a 2, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos do Ministério da Justiça reconhece a responsabilidade do Estado pelo assassinato de Carlos Marighella

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E não é que o filme CARMO [falo dele mais abaixo], do meu amigo MURILO PASTA, que usou a minha cadeira de rodas manual nas filmagens, a que rodou o mundo e esteve sob mim por quase duas décadas, ganhou o prêmio de PÚBLICO na MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA de SÃO PAULO?

Foi votado pela audiência o melhor longa do festival.

Quem ainda não viu, CARMO vai ser reprisado pela Mostra SÁBADO (amanhã) às 8 DA NOITE NO CINE BOMBRIL no Conjunto Nacional na Paulista.

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05.novembro.2009 12:27:24

O ator e a mentira

Passei a semana decorando o texto de ROURKE SONG, peça de uns 20 minutos que fiz no sábado numa tenda da Satyrianas.

Eu já havia feito a mesma peça na edição do ano anterior. Mas não me lembrava do hilário texto do gaúcho Trasel.

E me lembro que a exigência da direção, Fernanda D’Umbra, e do meu colega de palco, Marião Bortolotto, era que eu decorasse a peça com exatidão.

Por exemplo, meu personagem diz: “Verdadeiros valores masculinos da honra, franqueza, energia e competição…” Eu não poderia inverter “energia, franqueza, honra e competição”, nem trocar “honra” por “honestidade”.

Eles, como eu, defendem o texto, sabem que é a base do teatro, que há intenções, que se um autor escreveu daquele jeito, deve ter mil motivos. E não é um ator que vai cometer a heresia de mudá-lo.

No ano passado, declamei o texto sem errar uma palavra. Mas tinha uma cola dentro de um cardápio do Gigetto, que montei caprichadamente, tirando a página de massas e carnes e colocando o texto.

Nada demais, já que os personagens estão numa mesa de bar, e bastava eu deixar o cardápio aberto. Insegurança. Falta de confiança na minha memória. Medo do branco tão famoso. Porém, nem consultei, apesar de consciente de que só decorara o texto mesmo no dia da estreia.

Neste ano, fui mais prudente. Uma semana antes, o texto já estava decorado. E todos os dias eu dava uma passada, no banho, no carro, até no dentista. No ensaio, não errei uma linha.

No entanto, descendo a Consolação, a caminho do teatro, numa última passada, voilà! Troquei as falas!

Circulei pelos bares em pânico. Não estava nervoso, mas ansioso. Uma parte de mim pensava, que bom que faço parte dessa mostra, quero mostrar, que venha logo, como demora pra passar o tempo… Outra parte dizia, o que você está fazendo aqui, ficasse na sua casa, vai ao cinema, por que tem que se meter em tudo?

Ator?! Você foi ator, péssimo por sinal, de teatro amador na década de 70. Era o galã da trupe, porque ninguém queria fazer os protagonistas. E você tinha cara de anjinho. Heróis daquela época não eram anti-heróis.

Meu amigo MARCELO SPECTOR, autor e ator, anos de ANTUNES FILHO e CPT, me alertou: “Cuidado, a ansiedade é a pior coisa para um ator. Tira o oxigênio, afeta a respiração.”

Beleza, conselho de amigo. Virei para o garçom e pedi um conhaque duplo. “Só tem Dreher”. Serve… A essa altura, não importa a nacionalidade da bebida.

Fui reconhecer o palco. Acústica zero. Voltei e pedi outra dose dupla de conhaque. Meu celular toca. Marião, meia hora antes, quer passar o texto. Marcamos atrás do palco. Ele não tinha decorado no dia do ensaio, um dia antes. Mas todos sabem que o cara tem uma memória maior do que a praça Roosevelt.

Me aproximei e ele riu: “Já tá bêbado, né?!”

Sim, estava, mas tudo bem, o personagem é um bêbado. Passamos o texto. E não é que o cara se lembrou de tudo ali, minutos antes? Não erramos.

Fomos para o palco. Casa cheia. O conhaque dissipara a ansiedade. Entrei no personagem. Vi amigos na plateia. Ignorei. Meu personagem é um sábio, um filósofo machista. Não se importa com que os outros pensam.

Marião, ou melhor, Enciclopédia entra, se senta ao meu lado e começa. Caramba. A voz do Marião é clara. Ele é ouvido até na praça da República. E me lembrei que no ano anterior reclamaram que parte do teatro não me ouviu. Beleza. Gritarei.

Rolou. Comecei a falar. Me ouviam. As falas vinham com clareza. Nenhuma linha do texto era esquecida. Eu dava pausas, refletia, escutava o que eu dizia, o que ele dizia, dava o timing das piadas. Fizemos.

De repente, no final, ele colocou um caco. Logo ele?!

Marião é dos autores que mais criticam o caco. Criticam os atores que colocam. Proíbe seus atores de caquearem. É contra. Acha que não se deve alterar o texto de um autor, concordando ou não com o que é dito. Na minha peça, A NOITE MAIS FRIA DO ANO, que ele faz, não colocou um caco.

E lá estava ele, aos 40 minutos do segundo tempo, caqueando. Pra quê?

Passei a caquear também. Fui mais longe. Ironizei o cara. Me lembro que cheguei a falar: “Você, um cara de prestígio, que foi montado pelo Raul Cortês…” “Montado não, encenado!”, corrigiu.


FOTOS MAÍRA SOARES

Antes que a peça virasse uma auto ironia, ele emendou: “Vamos voltar ao texto, se não a gente não termina nunca”. Voltei. Rolou. Quem viu, viu. Depois, aquele vazio.

Quem sabe não entramos em cartaz?

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Alguém sabe explicar por que, de uns tempos pra cá, todos os manobristas, garçons, seguranças, porteiros, zeladores, ascensoristas e genéricos se despedem com a expressão “bom descanso”?

E qual é a resposta adequada, “espero ter”, “Deus te ouça”, “assim seja”, “depois desse porre…” ou “só se rolar um Dormonid”?

E se você estiver com o amor da sua vida, depois de uma noite planejada- cinema, restaurante, clima, suspense, sedução, pignoli no penne, merengue de morango e tequila-, não responderia “que nada, cara, agora que eu quero me cansar”?

“Pra você também” não funciona, pois o sujeito ainda terá horas de trabalho e, depois, ainda vem a condução, que nunca chega na hora. Ele só descansará provavelmente ao amanhecer. Portanto, a resposta deve ser: “Pra você também, quando conseguir.”

Alguém sabe explicar de onde vem a expressão “pois não”, depois de chamarmos a atenção de manobristas, garçons, seguranças, porteiros, zeladores, ascensoristas e genéricos? “Pois não” o quê? “Pois não estou ocupado e irei atendê-lo”?

Alguém entende como no Brasil o seis vira meia em números de telefone?

Sim, eu sei que vem de meia dúzia. Então por que o DDD de Aparecida, 12, não é “dúzia”? E de Angra, 24, não é duas dúzias? Por que só em números de telefone, bananas, laranjas e ovos o 12 é fator de divisão, numa sociedade regida pelo decimal? Bem, poderia ser pior. Lembre-se dos franceses, que falam “60 dez”, para o 70, e “quatro vezes 20″, para designar o simples 80.

O que dizer para os atores amigos ao final de uma peça de que você não gostou, não entendeu nada ou, pior, em que roncou? Sempre me fazem essa pergunta.

Todos nós temos um amigo ou parente envolvido em teatro. Os perfis são variados. Tem o pai viúvo, solitário, que encontrou ânimo, companhia e uma paquera não assumida (para os filhos) no grupo de teatro do condomínio.

Tem aquela tia ex-dependente química de anti-inflamatórios, eterna solteira, que não quer perder a juventude e faz teatro amador aos domingos no clube.

Tem a filha hiperativa do amigo, que faz teatro infantil no grupo da escola, porque precisa aprender a ter limites.

Sem contar os que fazem aulas de balé, dança e expressão corporal para emagrecer, e se apresentam no fim de ano no espetáculo de conclusão num teatro reservado para a ocasião.

Há muitos tipos de teatro feito por amadores. Tem a encenação da festa de fim de ano da firma, do psicodrama, da brincadeira de Natal e da dinâmica de grupo.

E existe enfim o profissional (ou que se diz profissional), que convida os amigos e parentes para estreia do espetáculo falado em russo, sobre a condição humana e a condução dos trabalhadores, criação coletiva que levou três anos para ser levantada, graças ao dinheiro da família e apoio de duas pizzarias, exibido num espaço não-convencional: um buraco debaixo de uma ponte da Marginal Tietê, onde antes morava um morador de rua com seus nove cães vira-latas, que foi atropelado na via expressa por um clandestino levando fiéis para Aparecida, fato que saiu nos jornais e inspirou a diretora, que fez curso de teatro-socialista-bolivariano na Venezuela.

Os pertences do antigo morador são elementos de cena. Sim, o público se acomoda junto com os nove órfãos, que não arredam os pés no palco, digo, as patas.

Ao final do espetáculo, minta. Não precisa dizer que amou, que mudou a sua vida, que consegue enfim entender a síntese entre o fazer aristotélico e o não.

Seja sutil e elogie um detalhe. Diga que os cachorros nem latiram. Que o público gostou. Que o espaço é realmente pouco convencional.

Minta sempre. Nós, artistas, somos muito sensíveis e vaidosos. Uma crítica estraga uma amizade. E você não quer deixar de ser convidado para um mico desses, que renderá muitos e-mails maliciosos com os outros amigos, quer?

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03.novembro.2009 13:18:23

A memória

Muitos não se esquecem do primeiro gol, feito no pátio da escola. Ou do primeiro frango, quando se foi escalado à revelia para jogar debaixo das traves. Do primeiro beijo de língua, da primeira cicatriz, do primeiro fora e da primeira vez em que se ouviu “eu te amo”, ninguém se esquece.

Também não nos esquecemos da primeira vez em que ouvimos “vou para a casa da minha mãe”, do primeiro divórcio, da audiência na Vara da Família, do terno e do cinismo do advogado do outro, e do tédio do juiz, que já ouviu aquela ladainha tantas vezes…

Nem do primeiro reencontro casual com a ex, em que ela, sorridente, está mais bonita, mais loira, menos cacheada, mais magra, com um par de seios novos, maiores e um vestido bem mais curto que os anteriores, muito bem acompanhada por alguém mais bronzeado, simpático, gente fina e absurdamente mais sarado.

Ela também não se esquece do dia em que vê o ex saindo do restaurante mais caro da cidade- enquanto antes só a levava no pé-sujo mais barulhento-, abraçado a uma garota mais nova que os filhos deles, usando boné, tênis All Star, sem os cabelos brancos de antes, mas ainda com aquela eterna barriguinha, fumando [desde quando voltou a fumar?] e entrando num carro que daria para pagar a pensão alimentícia de todas as mulheres presentes no empreendimento gastronômico citado.

Ambos os gêneros não se esquecem do primeiro orgasmo, do dia do sim, da lua-de-mel e da primeira vez em que ele é obrigado a dizer “isso nunca me aconteceu”. Também não nos esquecemos da primeira vez que em ouvimos “não é isso que você está pensando”, “o problema não é você”, “o celular estava no vibracall” e “não bufa”. Nem da primeira camisinha. Muito menos da primeira camisinha estourada.

Diz o pensador Washington Olivetto, que uma garota não se esquece do primeiro sutiã. O que as garotas não sabem é que nós, garotos, não nos esquecemos da primeira vez em que prendemos o bem mais precioso no zíper da calça. Vemos estrelas. É como se o Big Bang se repetisse bilhões de anos depois.

Elas nunca se esquecem da primeira curetagem, e eles, do primeiro exame de próstata. Acho que poucos se lembram da queda do primeiro dente-de-leite. Mas ninguém se esquece da primeira extração do primeiro siso. Ou da primeira operação para extrair as amídalas. Ou da primeira dentadura.
Não nos esquecemos também quando o limite de colesterol passou para o nível inaceitável, ou quando ouvimos pela primeira vez a pergunta: “Você tem caso de diabetes na família?”

Da primeira vez em que o time de coração ganhou a Libertadores, alguém se esquece? Nem os corintianos, da quantidade de vezes em que o time foi eliminado perto das finais. Nem em qual churrasco estava nas finais das Copas do Mundo de futebol. Nem do pênalti perdido pelo craque do time na decisão. Ou da primeira vez que entrou num estádio. Ou dá última, em que passou mal, depois de jantar o dogão com purê e maionese da rua em frente.

Ninguém se esquece da primeira vez em que andou de bicicleta sem rodinhas, da primeira vez em que boiou sem a ajuda dos braços do avô, do primeiro tombo do cavalo. E do primeiro e indigesto fio de cabelo branco, alguém se esquece?

E do tamanho do primeiro celular? E da primeira bicicleta? E do primeiro carro? E da cara do primeiro instrutor da autoescola? E de todas as casas em que morou? E do primeiro cachorro? E de todos os outros? E dos gatos? Da babá? Da primeira escola? E da última? Da primeira namorada? E da última?

Tudo bem se esquecer do número do PIS/Pasep, ou do passaporte, que muda a cada cinco anos. Mas alguém se esquece do número do próprio celular, RG, CPF ou do telefone da mãe? Do aniversário?

Alguém se esqueceu da reação que teve quando soube que o Senna, o Tancredo, a Diana, o John Lennon, os Mamonas e o Michael Jackson morreram? E por qual canal assistiu a queda das Torres Gêmeas no 11 de setembro? E da primeira greve? Do primeiro voto? Da primeira vez diante da urna eletrônica? Da primeira vez que voou de avião, ou helicóptero, ou para o espaço?

E a Zélia anunciando pela tevê que cada brasileiro teria o direito de sacar apenas R$ 50? E das Diretas Já? E dos caras pintadas? E do Collor dando adeus? E do que estava fazendo no dia do blecaute? E do dia em que o PCC parou a cidade?

Alguém se esquece do cheiro da avó? Do perfume do amante? Do gosto da manga, da água de coco, do caju, do figo? Do cheiro do mar? De dizer “feliz ano novo”? De curar soluço? Do primeiro vestibular? Do homem chegando na Lua? Do primeiro porre?

Depois dizem que somos um povo sem memória.

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