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Marcelo Rubens Paiva

09.agosto.2009 12:56:21

Elas…

I

Segue. Mas antes abre a janela. Ouvi por debaixo da barba. Nós estávamos juntos há 36 anos. Que mania de acender a luz de manhã. Isso sim é imperdoável. Eu não queria mais ir em frente. Termina. Terminar era o fim. Fala mais. Eu quero dormir um pouco. Não dá tempo. Ele tinha razão. Abri uma fresta. Desisti. O dia não entrou. Era um vácuo. O quarto sairia pela janela se eu fosse em frente. No reflexo do vidro pude me ver. Várzea. Foi a palavra que me veio. Sempre fui varzeana dentro daquela aristocracia. Aquela natureza morta na parede do quarto da fazenda sempre me incomodou. Preferia meu bom e velho extinto pôster do Jules et Jim. Nua e com o pingo que me restava de pudor olhei a minha bunda pelo espelho. Eu ainda tinha uma bunda linda. Que mania de ficar olhando esse rabo. Vem aqui. Me abraça. Ele sempre fazia isso. Reagia naturalmente a toda e qualquer tragédia. Você quer que eu continue mesmo? Deixa pra lá. Não tem mais. Eu quero. Segue.
No limite. Eu recomecei. Nem sempre gostei de ouvir minha voz. Minha voz tem uma falha na partida. Chega largada. Lânguida. Chega com uma fragilidade austera assustadora às vezes. Aquele tipo de autoridade fraca a qual os bichos zombam e não obedecem. Mas às vezes em compensação sai com um excitamento tão involuntário que é até divertido. Algo que acontece assim ao fazer coisas prosaicas como falar com o porteiro eletrônico de algum edifício. Eu vou no cento e vinte e cinco. Soa como estou sem calcinha e estou subindo. É estranho.

II

Aquele dia minha voz estava especialmente grave. Lembro do telefone tocando às 10 da manhã. Passa aqui. Lembro do calor. Dele de azul com o jornal na mão. Lembro de quase todas as vezes que passei nesse último mês na frente da casa dele. E da alegria de estar vendo que aquele homem de azul ali era ele. Lembro do abraço mais tranquilo. Lembro de dizer, eu? Eu tô tranquila. Lembro de perguntar coisas. De querer mais ouvir que falar. Dos óculos Ray Ban. Lembro de ouvir porque ele escolheu o tema do seu livro novo. Lembro dele perguntar onde estamos indo. Não sei a gente nunca sabe pra onde está indo. Lembro de resolver ir pra pracinha das árvores. Nossa rua sem saída. Nossa sombra e do volume dele na calça. Adoro esse homem, pensei. E o beijo. Antes o violão ali. Lembro de me contorcer toda pra tocar dentro do carro. Lembro de um carinho no braço e do beijo. Gostoso. Dos moleques que deviam estar vendo a nossa molecagem. Lembro dele dizendo que queria meter em mim.
Difícil falar essa frase. Essa é melhor não. Lembro dele dizendo que queria sentir a minha boca. Minhas palavras. Isso. Lembro dele dizer que tinha saudade das minhas palavras. Lembro quase ao mesmo tempo do tesão e da ternura. Lembro um pouco do cheiro dele. O cheiro dele quase foge da minha lembrança. Mas é sempre um cheiro familiar. Lembro de suas palavras, de seu beijo e da sua ansiedade. Lembro de sentir. Ele gosta de mim. Lembro de decidir aqui não. Quero me deitar dessa vez.
Dessa vez. Difícil essa expressão. Dessa vez determina todo um contexto anterior a essa vez. Mas, foi como foi dessa vez.
Quero ir pra outro lugar. Então vamos! Vamos por dentro. Vamos pôr dentro? Por onde? Não sei, a gente nunca sabe pra onde está indo. Lembro de chegarmos a um acordo. Sem angústia. Mais um tango em Paris. Simples assim. Lembro dele elogiar minha poesia. Lembro dele pegar na direção. De me pedir pra ir beijando seu pau pelo caminho.
Difícil essa frase também. É tudo tão rápido que sai assim sem censura. E a voz fala, e agora chega, mesmo com a falha na partida.
Lembro dele dirigindo meu carro e quase batendo o meu carro umas cinco vezes. Lembro da gente rindo ao entrar no hotel. De errar a entrada. De dar a volta no quarteirão. Lembro de implorar pra moça da recepção deixar a gente entrar. Eu estava sem documento. Lembro de quase tudo. Lembro dele esquecendo o papel com o número do quarto no carro. De mim. Lembrando o número. Do estacionamento. Da aventura de achar o elevador. Das escadas. Dele rindo de mim. Você está engraçada! Eu estava decidida. Que quarto eu peço? O quarto. Pega o mais barato. Do quadro na parede. Uma mulher deitada de costas com o bumbum pra cima. De calcinha pequena. Cabelo Longo. A luz amarela entrando pela janela do banheiro. De mim. Tirando a roupa apoiada no batente da porta. Só de calcinha. Só de sutiã sem calcinha. A calcinha descendo devagar. Do bumbum empinado. Dele, já sem roupa, me olhando. O Quadro. O quarto. Sagrado é o lugar onde você está. Por que quanto mais profano o momento mais me vem a idéia de consagrá-lo? Lembro Dele de pé sem roupa e eu dizendo que estava quase honrada de estar ali naquelas circunstâncias. Lembro Dele me deitando de pernas abertas e me beijando. Lembro do beijo nas escadas. De dois homens num dos andares. E da gente rindo de uma piada que eu fiz. Se tu gostas de pau mole vou te levar a loucura. Lembro do telefone tocando sem parar. Eu pensando. O mundo está caindo lá fora e ele aqui comigo. Lembro que não chorei. Gozou? Só um pouquinho. Isso quer dizer. Ainda não. Ele de azul. Adoro ele de azul e de branco. Lembro que era segunda-feira. Era primavera. Dia 15 de setembro. Lembro dele e de como é sempre diferente. Lembro que ele me come. Dele quase gozando. Tirando. Mal agüentando. Lembro de mim. Encanada com a camisinha. Lembro de falar muito. Lembro de algum silêncio. Pouco. Lembro de uma ansiedade. Dele achando que broxou! Me lembro eu fui cruel e disse: bem feito! Na verdade, como nenhum homem nunca broxou comigo (verdade!) e ele me disse que nunca broxou, não sei, se aquilo de fato foi uma broxada. Prefiro ficar sem saber. Lembro de rir da ironia disso tudo. De pensar. Depois dessa, esse não é o último tango. Lembro dos corredores. Nunca sabemos pra onde estamos indo. Dos filmes do David Lynch. De dizer eu te amo. De ouvir eu também. Difícil essa frase também. Mais do que as outras. Lembro da luz branca do quarto se acendendo. De mim. Me olhando no espelho. De estar molhada. Dele passando o dedo. E dizendo. Você está molhada. Lembro dele falar da mulher na volta. Lembro que sonhei com ele. Lembro de contar que sonhei com ele. De dizer. Você terminava com a sua mulher. E estava com outra. Uma outra feia. Lembro dele rindo sem querer rir. Lembro de dizer. Fica com ela. Lembro de pensar. Por que falei isso? Você me inspira a escrever. Mas eu não quero mais escrever pra você. Lembro de dizer alguma bobagem sobre o presente. Mas não me lembro exatamente o quê. Do futuro falamos também. De talvez tomarmos chá um dia quando formos velhinhos. Rimos.
Lembro que nesse dia meu gato sumiu. É assim, meu gato some, de repente! Gatos somem de repente. Deixam a gente. Simples assim. Dessa vez está doendo menos. É menos começo a te esperar. E mais. Descubro um pouco mais o que há. Lembro de querer só escrever a lembrança do presente. Lembro agora ao ler que escrevi. Lembro que pensei onde vou guardar isso. De querer esconder bem. De não querer perder essa lembrança. De escrever pra que lembrar ficasse mais leve. Lembro que eu tinha um música do Tom Waits pra aprender a tocar no violão. All the world is green. Lembro que falei pra ele do meu tesão pelo meu professor de violão. Até isso eu lembro.

III

Eu preciso comer alguma coisa. Pega pra mim. A voz dele estava bem debilitada. Mas continuava forte. Voz de um velho. Que não sai mas chega. Eu sempre chamara ele de meu velho. Desde quando começamos a namorar. Eu com 24 e ele com 44 anos. Nossos amigos mais próximos de vez em quando me repreendiam. Não chama ele de velho. Ele gosta. Você ainda tem aquelas cartas? Meu pensamento estava longe. Fingi não ter ouvido. Mas a calma impressa no silêncio dele me derrubou. Eu tenho. Come. Eu estava pensando como alguns homens temem mais a família que a solidão. Eu quero dizer essa solidão da velhice. Do arsenal de remédios que alguém passa a te enfiar por todos os orifícios. Da dependência real do outro. Do definhar. Temem mais a família que a possibilidade de morrer sós. São homens muito corajosos. Topam mais viver com esse fantasma do que viver com alguém. Fazem de tudo para morrer antes dessa solidão chegar. Se imaginam cantando em silêncio suas últimas palavras. E o medo é outro. É de não ter uma bunda pra olhar nessa hora derradeira. Solidão chuva fina. And a little rain never hurt no one. Não, a solidão não é o pior castigo. Pior é não ter a bunda. Sempre tive atração por esses homens. Uma atração por abismos. Lê pra mim aquela carta que você me chama de seu avô. Eu não te chamo de meu avô. Eu não estava fazendo uma metáfora. Era uma carta de despedida minha pra um desses homens. Um homem que nunca acordou do meu lado. Medo de cair. Eu era o abismo.

Esse texto é da minha amiga e atriz HELENA CERELLO, mulher do RAULZÃO. A de chapéu [que é meu]. E que se arrisca: poemas e, agora, ficção [contos]. Bom para ver no que ELAS pensam.


MINHAS ATRIZES PAULA COHEN E HELENA CERELLO [FOTO MINHA]

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07.agosto.2009 16:27:32

ainda dá tempo

“Ainda dá tempo para repartimos o último cigarro”, me disse uma garota, ontem à noite.
“É Cazuza?”, perguntei. Parece, não?
“Nada disso. É seu”, ela respondeu surpresa.

E ainda declamou todo o texto que escrevi em algum momento. Ficou decepcionada pelo fato de eu não me lembrar. Mas que lembra Cazuza, lembra.

Ora, há mais de 25 anos escrevendo. Livros, peças, crônicas. Treze anos publicando textos para a FOLHA DE S. PAULO, editoriais, colunas, resenhas, reportagens. Já são seis anos como colunista do ESTADÃO. Sem contar frilas fixos [tive uma coluna na VOGUE RG e na VIP] ou não. Mais esse blog, que começou neste ano. Mais frases ditas em entrevistas.

Complicado para um cara como eu, que não passou os anos 70 e 80 em vão, se lembrar de tudo o que produziu.

Então, contei pra garota. Acertei em alguns textos. Errei em muitos. Fiz trabalhos bons e péssimos. Ele me perguntou como eu deixava rolar os trabalhos péssimos. Porque um escritor nem sempre sabe identificar aquilo que é bom ou ruim. Faz parte do processo. Às vezes, é bom para alguns, ruim para outros.

Minha peça MAIS-QUE-IMPERFEITO não chegou a ser muito comentada. Fez temporada discreta. Considero um texto emocionalmente importante. Pois me fala de algo hibernado, dolorido.

Pessoas gostam de coisas em FELIZ ANO VELHO que considero tolas. Meu livro UA:BRARI [de 1990] passou desapercebido. Está fora de catálogo. Já encontrei alguns amigos que me falam que é o meu melhor livro. Livro semi-experimental, que escrevi todo ele entorpecido por THC e pela paixão por GUIMARÃES ROSA.

BLECAUTE é o livro preferido da molecada. Especialmente pelos meninos.

Algumas crônicas repercutem mais do que outras. Mas mesmo as que passam em branco, encontram leitores que se identificam. O feed back vem das saídas em noitadas, bares, supermercados, feiras, farmácias, metrô, viagens, livrarias, cafés, calçadas. É como sabemos como somos lidos. E nos mostra a diversidade humana.

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Ainda dava tempo para repartimos um último cigarro. Foi me dito ontem, perto da meia-noite, numa balada, antes de entrar em vigor a lei ANTIFUMO.

São Paulo estava diferente ontem à noite. Além do calor atípico, muita gente na calçada, fumando, papeando.

Desci a RUA AUGUSTA, e prostitutas estavam nas portas das boates, fumando- havia boatos de que a fiscalização percorria a rua. Algumas em trajes sumários. Outras, de roupão. Ou biquíni. Tranquilamente, e entediadas, fumando o seu cigarrinho.

Tadinhas. Fazem strip nos palquinhos, se exibem, xavecam, mas vão ter que fumar lá fora. Talvez a lei devesse abrir uma exceção. Stripers estão liberadas. Imagine fumar no frio naqueles trajes na calçada?

A lei pegou. Estava na cara que ia pegar. Pegou até em PARIS e BUENOS AIRES. É repressora, mas popular e saudável.

Morei na CALIFÓRNIA em 1994 e 95. Lá não se podia fumar em nenhum lugar. Nem na minha própria casa- se eu fosse pego, pagaria uma multa de US$ 700 e era despejado na hora.

Curiosamente, meus melhor amigos foram os fumantes. Pois a rotina de sair dos prédios públicos e fumar acaba gerando uma cumplicidade que alimenta amizades, papos, debates. Até hoje, me correspondo com aqueles que fumavam sob o sol de SAN FRANCISCO.

Para um fumante, nada demais sair do restaurante ou bar e fumar lá fora. Porém, lamenta-se o acúmulo de bitucas no chão. É preciso colocar cinzeiros para todos. Mas a lei proíbe, segundo me disse um segurança da RUA AUGUSTA. Proíbe?

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Evento importante amanhã: Sábado Resistente [08 de agosto de 2009, das 14h às 17h30] no Memorial da Resistência de São Paulo – Largo General Osório, 66 – Luz

Foto do convite [eu estava lá, já que não perdia uma manifestação, lógico]:

40 ANOS DA CRIAÇÃO DA OPERAÇÃO BANDEIRANTE. A REPRESSÃO CLANDESTINA TRANSFORMADA EM ROTINA

Um dos órgãos de repressão mais violentos da Ditadura Militar no Brasil foi a chamada Operação Bandeirante (OBAN), criada pelo II Exército em São Paulo, no mês de julho de 1969, que serviu de modelo para os DOI/Codis e centralizou o combate aos inimigos do regime. Instalado na Rua Tutóia, onde atualmente funciona o 36° Distrito Policial da cidade.

Perdia-se a batalha contra as organizações de luta armada, que assaltavam bancos a torto e direito, para arrecadar fundos para a revolução. Decidiu-se criar um órgão, com o apoio civil e financiamento de grandes empresários, para combatê-los com carta branca e métodos discutíveis: tortura, desaparecimento etc. Alistavam-se os delegados e investigadores mais “durões” da Polícia Civil e Militar.

Para debater sobre esta sinistra organização, sua história e influência durante “os anos de chumbo”, o Núcleo de Preservação da Memória Política do Fórum Permanente de Ex-Presos e Perseguidos Políticos de São Paulo e o Memorial da Resistência de São Paulo convidam para as palestras de três estudiosos sobre o legado da OBAN nos dias de hoje.

Calcula-se que passaram pela OBAN mais de 10.000 prisioneiros. Lá foram mortos o jornalista WLADIMIR HERZOG e o operário SANTO DIAS. Os seus comandantes, hoje processados pelo Ministério Público Federal, foram os responsáveis por inúmeras mortes de combatentes sob torturas e execuções nas dependências deste organismo ou em vias públicas.

Estarei no evento, representando a família.

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Nesse fim de semana, voltou a peça Monólogo da Velha Apresentadora, texto de um dos mais criativos e instigantes escritores da nova safra, o amigo MARCELO MIRISOLA.

Elenco: Alberto Guzik e Chico Ribas
Direção: Josemir Kowalik

Aos sábados às 19horas e domingos às 18h30, no SATYROS 1, na PÇA ROOSEVEL.

Bora?

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Estreia MOSCOU, novo filme de Eduardo Coutinho, um dos maiores e mais ativos documentaristas brasileiros.

O filme segue o projeto que começou com “Jogo de Cena” (2007). Ele documenta os ensaios da peça “As Três Irmãs”, de Tchekhov, pelo grupo Galpão, dirigido por KIKE DIAS.

São cenas de bastidores, camarins, mesas de leituras, workshops, improvisações e ensaios. Porém, e é nisso que o filme pega, conta-se a história do clássico de Tchekhov nas entrelinhas.

Atores e personagens se confundem. O palco e os bastidores viram locações. Depoimentos dos personagens recontam a história.

Um filme diferente, que emociona e cria novas possibilidades para ambas as linguages, a teatral e a cinematográfica.

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06.agosto.2009 12:26:44

cuide de vc

Assusta um pouco a exposição de Sophie Calle no SESC POMPÉIA, CUIDE DE VOCÊ.

Você já deve ter ouvido falar dela: a mina recebeu uma dispensa por email, do marido escritor, que termina com “cuide de você”, e mostrou para 110 mulheres analisar linha por linha. Deu numa exposição.

Foi uma das obras mais faladas da Bienal de Veneza de 2007, já esteve na França, no Canadá e em Nova York.

São textos, fotos e vídeos de mulheres que analisam e interpretaram o fora dado pelo escritor Grégoire Bouillier, que deve ter se chocado com a reação explosiva da dispensada, mas não proibiu a sua divulgação.

Eu teria proibido. Qual é? Acabou, gata. Acabou porque acabou. Tudo acaba. Fique bem. Podemos ser amigos? Não estava rolando. A gente tentou. Foi bom enquanto durou. Precisa sair por aí mostrando a todos os argumentos do meu rompimento? Puxa, gata…

E mais, a tradução ideal para o português deveria ser “se cuida”, ou “te cuida”, não “cuide de você”, ninguém aqui no Brasil rompe assim, ma chéri.

Há entre as analistas as mais variadas profissões. Uma juíza fala do rompimento de um contrato. Uma revisora aponta os erros de sintaxe do email. Um grafólogo o chama de egocêntrico. Uma psiquiatra diz que a dispensada não precisa de antidepressivos, apenas conviver por um tempo com a tristeza.

Participam as atrizes Jeanne Moreau, Victoria Abril e Maria de Medeiros; a compositora Laurie Anderson; a DJ Miss Kittin.

Ouvi uma mulher, na exposição, ao ler o email, exclamar: “Que cara babaca!” É, rola uma identificação feminina. Aliás, as mulheres só se unem nesse momento: apontar e dedar o canalha entre nós.

OK, pode-se salientar que a exposição mostra o rompimento definitivo entre público e privado e expõe intimidades próprias e alheias para revelar vulnerabilidades. Mas, caramba, não sabe perder, nega? Relaxa. Aprenda a lidar com a rejeição. Fique na sua. Saiba que, nessas horas, a melhor tática é a do infalível SUMIDÃO.

Levou o pé? SOME. O outro lado pira…

Ah, se cuida! Faça como a maioria dos artistas: exorcise através da ficção, nega.

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Teatro, quando é bom, é das maiores experiências que existem.

Falo da peça em cartaz no TEATRO IMPRENSA, com os atores de “Agreste”, Joca Andreazza e Paulo Marcello: ANATOMIA FROZEN.

Escrito pela inglesa Bryony Lavery, o texto explora as histórias de um assassino cometido por um pedófilo, do encontro com a mãe de uma de suas vítimas e de uma psiquiatra. O diretor Márcio Aurélio tirou a cronologia do texto e recriou a obra.

É poético, bem interpretado, sob uma trilha deslumbrante. Disseca em detalhes a mente de um psicótico. Aparentemente um ser comum que hiberna um pacote de maldades surpreendente, como a violência contra crianças.

A peça foi escrita originalmente para ser feita por vários atores. No entanto, aqui, eles dobram os papéis. É um costume nosso saudável. Americanos e ingleses não costumam dobrar papéis. O resultado é uma aula de interpretação.

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E amanhã estreia a peça nova dos PARLAPATÕES, texto de DARIO FO: O PAPA E A BRUXA. Vou ver meus parceiros em cena com certeza. O local não poderia ser outro: ESPAÇO PARLAPATÕES.

O Papa está no Vaticano com dor de coluna, que o faz caminhar todo torto e com pânico de receber milhares de crianças terceiro-mundistas na Praça São Pedro. Cardeais de sua assessoria o pressionam para que atenda jornalistas que o aguardam para uma coletiva de imprensa.

Diante de um ritmo acelerado de fatos e decisões recebe seu médico que o auxiliará cientificamente na sua dor e em sua confusão mental. Porém o médico não dá conta da tarefa, mas uma Freira que o acompanha mostra-se poderosa em soluções. O Papa percebe que a Freira tem poderes muito mais que científicos.

Depois de uma série de peripécias, o Papa constata que a Freira viveu na África e se tornou uma Curandeira. Assustado, ele expulsa a Freira, do Vaticano. Pouco tempo depois, a crise de dor aumenta de maneira incontrolável e o Papa, à paisana, resolve procurar a Freira/Bruxa para resolver seu problema e a partir daí se questiona sobre as ações do Vaticano e da Igreja Católica.

Risada garantida. Humor refinado de DARIO FO, que, como todo italiano, ou ama ou odeia a Igreja.

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Hoje a minha banda favorita, EDDIE, toca RAMONES no STUDIO SP. Ao ritmo pernambucano. Tô nessa! Apesar do NÁUTICO ter dado uma trolhada no TIMÃO ontem.

E sem fumar! Hoje começa a proibição em São Paulo. Bem, vou chegar em casa cheirosinho…

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Me perguntam sobre o fim da minha desavença com o site SUMBARINO.COM [leia post abaixo].

Foi simples. Vieram pegar o monitor pifado, que devolvi. Fui a uma loja FAST de um shopping da elite. Ao entrar, o vendedor logo avisou: “Se você encontrou um preço melhor pela internet, a gente cobre.” Um hábito americano antigo [eles chamam de "match"] que saudavelmente se instalou no Brasil.

Nem precisava. O monitor do cara já estava cem reais mais barato que o do SUMBARINO. Mesmo assim, ele me fez um desconto e me deu 3 anos de garantia. E aí? Comprar pela net? Pense bem…

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Achei uma foto que ilustra o texto publicado 2 posts abaixo.

Eu, esse loirinho, lendo revistinhas em BÚZIOS, com as irmãs LÚCIA, a da esquerda, e ELIZA, sentada. Criaturinhas lindas e inocentes. À deriva…

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04.agosto.2009 12:22:28

comprar pela internet?

Metade da minha casa foi comprada pela internet.

Geladeira, fogão, TV, computador, periféricos, roupas, cadeira de rodas, um banco tailandês, livros, discos, cacarecos variados. Supermercado? Muitas vezes, faço pela internet. Banco nem se fala.

No entando, vivi enfim um problema que questiona a eficiência do hábito. Hábito adquirido há mais de uma década.

Senta que lá vem história e queixas de um consumidor irado.

Depois de passar dias no RIO, cheguei em casa, em São Paulo, e descobri meu monitor pifado. Meu trabalho ficou em suspense. Minha vida pessoal, idem. Levei-o na manhã seguinte para consertar. A assistência técnica autorizada deu um prazo de DEZ DIAS para fazer o orçamento.

Eu não posso ficar tanto tempo sem um computador, se não, vocês me xingam. Não pensei duas vezes, deixei o monitor lá e decidi comprar outro, mais moderno e maior, e futuramente venderia ou doaria o antigo consertado. Gesto banal e corriqueiro.

Entrei no site do SUMBMARINO, em que sou cadastrado e de quem já comprei até passagens aéreas. Escolhi o modelo, comprei, digitei os dados do meu cartão de crédito. Frete grátis. Desconto à vista. Entrega em 48 horas.

No dia seguinte, o porteiro me avisou da entrega. Puxa, antes do prazo. Eficiência e profissionalismo. Eles querem acabar com o comércio de rua. “Pode subir”, respondi feliz.

Não, o entregador não estava autorizado a subir. Não pelo prédio, mas pela empresa que entrega. Eu tinha que descer e pegar a mercadoria na calçada. Estrilei. Minha mercadoria é para ser entregue no meu endereço, rua tal, número tal, apartamento tal, bloco tal.

Em vão.

Desço, dou uma dura no cara, que disse que tinha muitas entregas- me mostrou a lista-, e que era política da empresa. Se eu tivesse comprado uma TV 70″, teria que descer para receber o produto na calçada? Foi a primeira decepção.

Tudo bem. Trouxe o monitor, instalei e, surpresa, nada, não fucionou. Chamei a ala nerd da família. Nada. Tentamos de tudo, todas as tomadas, outros cabos, outro computador. Nada. Defeito do produto. Entregaram um monitor quebrado. Acontece…

Outra surpresa. Não havia o telefone do SAC do SUMBARINO na nota. Tivemos que ligar para um amigo consultar na net. Liguei. Pedi A TROCA. Ganhei o número de um protocolo. E me ligariam, para me informar da retirada do produto.

Não ligaram. Liguei novamente. Ganhei outro protocolo e me informaram que mandaram um email marcando a retirada. Ora, o que adianta me mandar um email, se estou sem computador. Novamente, tive de emprestrar um computador amigo, um laptop, para ler o email abaixo:

Sr.(a) Marcelo Rubens Paiva,

Recebemos sua solicitação para devolução do item MONITOR LCD 22″ WIDE T220 AZUL SAMSUNG.

Comunicamos que a retirada da mercadoria será feita no mesmo endereço da entrega, até o dia 06/08/2009

Pedimos que o produto seja devolvido na embalagem original acompanhado de todos os acessórios. Dentro da embalagem, deve ser anexada a última via da nota fiscal recebida no ato da entrega. Descreva, no verso, o motivo de sua solicitação de devolução.

No momento da retirada da mercadoria, peça um comprovante ao transportador Correios/SEDEX – ESX. Caso ele não tenha esse protocolo, não entregue a mercadoria e comunique a nossa central de atendimento.

As mercadorias devolvidas são encaminhadas ao nosso Centro de Distribuição para análise da equipe de controle de qualidade. Só depois, encaminhamos um novo produto ao cliente.

Atenciosamente,
Atendimento Submarino.com

Sacou?

Eu ficaria dias sem o meu computador.

Problema meu? Não, problema deles.

Liguei com toda a educação, desfiz a troca e pedi apenas o setor DEVOLUÇÃO. Fui atendido. Perguntaram se eu queria um vale produto. Não, querida, não comprarei mais da sua empresa. Ganhei um terceiro protocolo, estornaram a compra e mandaram um sujeito retirar a mercadoria. Passar bem.

Sujeito que acabou de chegar e diz que não pode subir.

Como saí do banho e estou enrolado numa toalha, não sei se vou assim ou se me visto.

Aproveito, vou a uma loja, está sol, almoço na rua, passeio, compro um monitor novo, outros periféricos, quem sabe uns livros, e testo o aparelho na hora. Simples.

Inté. Compras pela internet? Sei não…

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03.agosto.2009 13:46:42

o passado

Não consegui “entrar” na trama do filme À DERIVA, de Heitor Dhalia. Irritava um pouco aquela família de gente tão… problemática. Chata?

Enquanto pré-adolescentes em férias descobrem os dilemas da sedução amorosa e do sexo, testemunha a tragédia que acontecia nos casamentos de seus pais, a dissolução da paixão, a traição e até o descontrole- há um assassinato passional na casa vizinha, certamente inspirado no caso de Ângela Diniz, ex-pantera assassinada por DOCA STREET.

O amor é trágico, descobria a molecada.

Todo tempo, alguém dizia: “Precisamos conversar”. Isso é uma tremenda falha do roteiro. A frase era dita diversas vezes durante o filme. “Vamos conversar?” Ora, fala logo o que tem a dizer. “Preciso conversar com você.” Diz! Conta. Perde-se o timing, anuciando um enunciado.

Mas o filme é bonito. A história, bem amarrada. Não causa aquela comoção de NINA ou CHEIRO DO RALO.

Meu problema com o longa foi que ele me remeteu a lembranças que não se apagam. Pois eu passava as férias naquela região, BÚZIOS, durante a infância e adolescência, usava aquelas roupas, já que o filme é de época [anos 70], aqueles shorts e camisetas, desejava as meninas com aquele tipo de biquíni [figurio impecável de Alexandre Herchcovich].

Conheci BÚZIOS na década de 60, quando morava no Rio. A elite se acomodava em CABO FRIO, quilômetros antes. Os aventureiros encaravam a tortuosa estrada de terra e areia até a península em que não chove quase nunca.

O amigo do meu pai, FRANÇOISE MOUREAU, cujo grande feito foi ter ido com o irmão, ALAN, de carro, nos anos 40, um calhambeque FORD, do Brasil até os Estados Unidos, era um naturalista, que comprou um canto do morro da praia de MANGUINHOS.

Espalhou alguns casebres pela montanha. Não tinha luz elétrica, os carros não chegavam, nada de telefone, TV, os banheiros eram improvisados, e a ducha, um bambu de água natural corrente.

E eu passava 3 meses de férias largado, com uma criançada numerosa, pra cima e pra baixo.

Cruzávamos o morro por uma trilha e dávamos na praia de TARTARUGA deserta. No fim da tarde, ajudávamos os pescadores a puxar redes de pesca em MANGUINHOS, num arrastão coletivo; o prêmio, peixes frescos.

À noite, cercados pela fogueira, contavam-se histórias. E tínhamos que nos virar na escuridão, para encontrar o caminho de cada casebre, ou com lampiões a querosene. O grande programa era ir ao único restaurante de BÚZIOS, uma pizzaria de um alemão, se não me engano, chamada MARX, em palafitas sobre o mar calmo da vila.

Aconteceu comigo o mesmo que no filme, em que garotinhas disputam um moleque. Fiquei com LÚCIA, quem considero a minha primeira namorada. Mas como ela tinha dúvidas, nos seus 13 ou 14 anos, me enrolou, acabei vencendo a timidez e dando em cima da irmã, ELIZA, que parecia gostar de mim, mas com quem não rolava. ELA ERA MAIS NOVA.

As duas eram lindas. Irresistíveis. Línhamos revistas de histórias em quadrinhos juntos. Um dia, atacados por uma cobra, me senti um herói, ao matá-la a pauladas. Ganhei um beijo de ELIZA pelo feito, enfim.

BÚZIOS me remete às minhas primeiras experiências sexuais. Havia bailinhos cujo maior propósito era a pegação. Com o tempo, virei surfista, e as garotas se acumulavam na areia para nos ver descer aquele mar de ondas velozes e traiçoeiras.

Me dei mal, quando numa ressaca não fiquei em pé em nenhuma onda, apesar de na areia LÚCIA, outra LÚCIA, amiga da família, me vigiar, uma garota com peitos grandes, para quem eu tentava me esnobar. Mas que o mar dedou: eu era um péssimo surfista [paneleiro, como se dizia]. Saí do mar, e ninguém mais estava na areia. Voltei a pé sozinho, derrotado, carregando uma prancha maior do que eu.

Detalhe: entre os adolescentes, as garotas de peitos grandes são as mais disputadas. Cito ela em FELIZ ANO VELHO, e na peça baeada no livro seu personagem ganhou destaque: LÚCIA DE BÚZIOS.

BÚZIOS era uma sequência de praias desertas, estradas de areia, natureza viva. Uma das imagens mais macantes foi a de um golfino [ou boto] encalhado na areia, que não resistiu e morreu. Em horas, os locais apareceram e retalharam o bicho, para comerem a sua carne doce.

FRANÇOISE vendeu aquele pedaço de paraíso no final dos anos 70. Anos depois, fui sozinho para lá. Estava tudo abanonado. Entrei num dos casebres secretamente e dormi numa das caminhas de cimento eu que dormi e sonhei na adolescência. Havia uma casa de marimbondos bem em cima, no telhado. Achei que, se eu não os incomodasse, estaria tudo em paz entre nós.

Mas no meio da noite fui atacado. Recebi ferroadas por todo o corpo. Corri pelas trilhas, na escuridão, até receber guarita na casa do ex-caseiro.

Nunca mais voltei. Nem tenho coragem de ver no que BÚZIOS se transformou. Aquela montanha deve ser agora um condomínio. O passado é muitas vezes melhor do que a verdade. O passado dói? Deixe ele hibernar…

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