A exposição de VIK MUNIZ no MASP valeu por todo centavo gasto.
O paulistano nascido em 1961, e que mora em Nova York, merece ser considerado o artista brasileiro contemporâneo mais badalado. Ele faz algo aparentemente banal, reproduz imagens marcantes, usando os mais variados materiais: de folhas secas a chocolate, doce de leite, macarrão, brinquedos, entulhos, açúcar, caviar e diamantes, os “suportes mundanos”. E os fotografa.
Ele tem obras no Metropolitan Museum of Art, no Guggenheim, e já expos no MoMa, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Na retrospectiva “Vik”, que já esteve no Rio, são 131 trabalhos do artista, entre fotografias e vídeos do seu processo de criação.
São Monalisas de geleia de morango e pasta de amendoim. Reprodução de Bosch em peças de um quebra-cabeça. Diamantes reproduzem Liz Taylor, cujos olhos brilhavam no breu. A Meduza de Caravaggio é feita com espaguete e molho de tomate. Um mapa-múndi é feito de peças de computador. Entulhos viram arte.
Ele seduz não só pelo preciosismo e originalidade, mas porque provoca muitos sentidos no olhar. Joga elementos triviais sobre a simbologia das imagens que representam. Faz da arte um jogo, um enigma. Ironiza a nossa fome por celebridades. São tantas coisas em jogo…
Quem viu, não esquecerá tão cedo.
+++
Dois filmes franceses são mais que bem-vindos, no ano da França no Brasil, e mostram que a chama da nouvelle vague está preservada.
HORAS DE VERÃO é uma aula de roteiro. Nada de cenas com grandes dramas, diálogos fortes, viradas surpreendentes. É no detalhe que a história comovente de uma mãe que morre e deixa de herança peças de arte valiosíssimas, disputadas por 3 filhos, e a trama são compostas.
A arte de museu é questionada. A mesa em que a família guardava documentos, o vaso em que a empregada colocava flores, o armário de design veneziano que as crianças nem davam bola, valem ouro. Até uma escultura de Degas foi quebrada pelos filhos. Fazem parte do mobiliário da casa de verão, em que passavam férias. São disputadas por colecionadores, depois da desintegração familiar.
O filme do diretor Olivier Assayas [L'Heure d'Été] discute o valor dos objetos corriqueiros e as ambições silenciosas que existem em cada um, quanto se revela o valor deles. Muita semiótica em discussão invisível: o valor dos objetos e o que representam de fato. Tirando a chapinha loira de Julliete Binoche [caramba, a moda também pegou as francesas?], é um filme imperdível.
Porém, é o filme BEM-VINDO, de Philippe Lioret [Welcome], que se destaca, pois mexe numa ferida recentemente aberta em todo o mundo, a do preconceito contra os imigrantes, causou polêmica na França e resultou numa onda de protestos para se mudarem as leis anti-imigração.

Ele mostra os problemas com a polícia que um professor de natação, Simon, teve pelo fato de ajudar um ilegal curdo, Bilal, que precisa de qualquer jeito entrar no Reino Unido, para reencontrar a namorada, Mina, que está prometida para se casar com outro.
Depois de dançar na tentativa de cruzar a fronteira num caminhão, o moleque esportista decide atravessar o Canal da Mancha a nado e pede ajuda ao professor.
A intolerância contra os imigrantes é retratada. Moleques que querem trabalhar vivem num limbo fronteiriço, com fome e frio. A polícia chega a tatuar nas mãos dos ilegais um número de identificação- como nazistas faziam com prisioneiros de campos de concentração.
Como diz Marion, a ex-mulher de Simon, uma voluntária em assistência social a imigrantes ilegais: “Sabemos muito bem aonde essa história vai dar”.
Já o governo brasileiro deu uma grande lição de moral no mundo ao legalizar, na semana passada, a situação dos imigrantes ilegais que vivem no Brasil. Ponto para Lula.
É interessante como criticamos diversos aspectos da nossa falta de educação.
Mas, por outro lado, nós, brasileiros, temos uma virtude, que está carente na maioria dos povos: não somos xenofóbicos.
Não há por essas terras preconceitos ou ações contra imigrantes estrangeiros. O Brasil nada contra a corrente discriminatória que se alastrou por todos os países. Toleramos os que vêm aqui trabalhar. Damos as boas-vindas.
Não há muros nas fronteiras, campos minados, cães ferozes, campos de concentração. Somos um exemplo para o mundo, que revela a grandeza do nosso caráter.
+++
Bem, quero ver agora os comentários ferozes. É. Na blogosfera é assim. Quando criticamos Lula, nos chamam de tucano. A ira dos leitores de blogs mostra como a política brasileira é maniqueísta, e o quanto é superficial o debate.
Leia os comentários ao post abaixo, em que brinquei com Lula, que deu uma camisa da seleção velha para Obama.
Um leitor postou que não se deve confiar num presidente cuja mãe nasceu analfabeta. Ora, todas as mães e pais do mundo nasceram analfabetos.
Um leitor chamou a atenção para o perigoso sobrenome muçulmano de Obama. Outro chama Obama de comunista. Eu virei babaca, por brincar com um símbolo sagrado, a camisa da seleção brasileira. Compararam os ideais do meu pai com a minha ironia.
A política brasileira virou Fla X Flu. Esqueceram-se que há 200 outros times em atividade.
O anonimato cria uma guerra de palavras irresponsável entre alguns blogueiros e leitores. As agressões não têm limites. Vale tudo. É uma fantástica ferramenta democrática. No entanto, assusta como a intolerância vive entre nós.

Lula brincou com Obama, já que derrotamos os EUA de virada na final da Copa das Confederações. No entando, o autógrafo que se vê em primeiro plano é de Wagner Love, que não estava na disputa e, por sinal, não é convocado há tempos.
Examinando com mais cuidado, veem-se autógrafos de Cicinho, Fred, Daniel Carvalho, Edmilson, que não frequentam mais a lista de convocados. Está até o Dudu Cearense, lembra dele?
Pô, compañero “the-guy”. Deu uma camisa velha pro brô?
Se era para dar uma camisa antiga, que desse uma com autógrados de Pelé, Garrincha e Didi, ou de outro time imbatível, Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho, Gerson, ou uma com Zico, Sócrates, Falcão, Júnior e Cerezo.
Até uma com Bebeto, Romário, Dunga e Branco, que ganharam a Copa lá, na terra de Obama, teria mais valor.
+++
Sarney desbloqueou a CPI da Patrobras.
Ahhh, malandrão… Está explicado o temor da bancada do PT e de Lula- sugerir o seu afastamento. O cara é esperto.
Dois filmes brasileiros em cartaz apregoam a simplicidade e provam que se pode fazer cinema com inteligência e BO [baixo orçamento]- fora dos padrões Globo Filmes.
APENAS O FIM custou apenas R$ 8 mil. O diretor Matheus Souza, aluno de cinema da PUC-RJ, mostra que é bom de câmera, de papo, de cinema. Seu filme virou um acontecimento, inspirando. Cria-se um padrão.
O longa virou um projeto. Eles agem no Rio, mobilizam a classe, pedem histórias, roteiros, filmam curtas e jogam na rede.

Souza aproveitou o belíssimo cenário da PUC na Gávea para, digamos, expor um casal discutindo a relação. Ela [Erika Mader] anuncia que está indo embora e não diz para aonde. Ele [um talentoso Gregório Duviver] tem uma prova pra fazer, se desespera, e tem 80 minutos para demovê-la do projeto ambicioso.
Em flashbacks, vemos quem são. Ele é fã de Transformers ["um carro que vira um homem gigante vale mais do que todos os filmes do Godard", diz]. Usa óculos do avó para ser diferente. É um nerd cativante, bem humorado, cheio de neuroses. Ela é a gatinha da “facu” que, perdida, gosta do namorado exótico, mas quer mais.
A cultura pop, especialmente a bobajada dos anos 90, entra como referências. Diálogos coloquiais pautam toda a trama. Por vezes, algum amigo-mala interrompe a discussão.
O melhor de tudo isso é que, com o apoio da faculdade, que cedeu equipamento, a brodagem dos amigos e colegas e a mão da superprodutora MARIZA LEÃO, que foi ganha pela proposta, está nas telas.
Já o filme A ERVA DO RATO, que estreou no Festival de Cannes, é uma coisa muito séria. Longa de Júlio Bressane, com Selton Mello e Alessandra Negrini, os únicos atores que participam, é inspirado em 2 contos de Machado de Assis [De Um Esqueleto, de 1875, e A Causa Secreta, de 1885] e teve um processo longo de ensaios e pesquisa.

Bressane, que veio do “cinema marginal”, movimento experimental que correu paralelo ao Cinema Novo, faz um cinema a que poucos arriscam. É denso, poético e… engraçado. Sim, lógico. É Machado. Tem Selton. Tem Negrini linda, cínica, entregue.
Um casal se conhece num cemitério. Ele acaba de enterrar a mulher. Ela diz que saiu da prisão. Ele chama para ser sua secretária. Dita textos curiosos sobre a flora e fauna cariocas, que ela é obrigada a anotar. Não trocam ideias, opiniões, detalhes. Apenas o ditado é o que os une.
Pouco a pouco, o olhar dele quer mais. Começa a fotografá-la. E ela não só permite, como mostra mais e mais. Eles não se tocam. Dormem na mesma cama, mas cada um num canto.
Até a casa escura ser invadida por um roedor, intruso que corrompe a relação que nasce e envenena a mulher. Tudo sob a luz e fotografia de Walter Carvalho, planos sequências longos e poéticos, e uma trilha original deslumbrante.
Cinema que dá um nó na gente e é bom de se ver.
Cabe registrar:
Acabei de ver no Jornal Nacional. ALOIZIO MERCADANTE voltou atrás novamente. Ele e a bancada do PT no Senado, contrariando Lula, pedem o afastamento de Sarney. Um gesto de decência, enfim. Somado à pressão da opinião pública, evidente.
Hoje estreia na Globo a aguardada série SOM & FÚRIA [direção de Fernando Meirelles], com meu amigo Felipe Camargo como protagonista. Grande ator, grande cara. Quem viu disse que ele é a melhor coisa da série. Não duvido.

No domingo, Patrícia Poeta o entrevistou para o Fantástico. O lide era o ator recuperado da bebida e das drogas, que agora dava a volta por cima. Um Felipe constrangido, com uma paciência que eu não teria, e um espírito profissional em destaque, respondia calmamente às perguntas. Volta por cima?
Isso é notícia velha. Faz 13 anos que o cara parou de beber. Bem, era o Fantástico. Fausto Silva já o tinha criticado ao vivo, durante apresentação do Domingão do Faustão no dia 21.
Durante uma entrada ao vivo, Patrícia Poeta anunciou as atrações do Fantástico: modelos em trajes íntimos. Faustão disparou: “Isso aí é pra dar audiência. Já fizemos isso no passado, um show de pernas, e a imprensa criticou”. E ainda disse “la maison tombé” [a casa caiu]. Depois, teve que se desculpar.
Conheci Camargo nos anos 90. O ator vivia no ostracismo, depois de mergulhar fundo no vício e circular pelo Baixo Gávea e Leblon bem louco.
Paulo Betti escalava o elenco da minha peça E AÍ,COMEU? Sugeriu o ator para ser Fernando, o protagonista. Me disse que o cara estava curado. Topei na hora. Por mim, nem precisava estar curado.
Porque me lembrei dele em MANDALA, com um taco de golfe, de caso com a mãe. Me lembrei dele nos anos 80, no Real Astória, pico do Baixo Leblon, vidrado, falando sem parar.
Naquela época, todos éramos vidrados, virados e falávamos sem parar. O pó corria de narina em narina. O uísque servia para lubrificar a garganta. A euforia dos anos 80 tinha parceira com a depressão: a sensação de fim de mundo, injustiças, desigualdade, solidão. Basta ouvir as músicas.
Nos ensaios da peça, conheci um cara zen, paciente, entregue, amoroso. Ficamos amigos na hora. A peça foi um estrondoso sucesso [3 indicações para o Prêmio Shell]. Ficamos anos em cartaz. Lotava. Colocávamos 1.400 pessoas no Teatro João Caetano no Rio. Ficou 6 meses em cartaz aqui no Teatro Augusta.
Felipe tinha um timing de comédia e um domínio de palco precisos. Aliás, seus cacos eram os únicos que eu lberei.
Rodamos o Brasil. Sempre que brindávamos com champanhe, ele aparecia com a taça com água. Me contou dos infernos paranóicos pelo que passou. Nunca falou nada do seu casamento com a Vera Fischer. Muito respeito e carinho por ela. Nunca se expôs. Só lamentava a geladeira em que a Globo o havia colocado por um curto tempo e o preconceito que sofria.
Andou duro por um tempo. Mas passou. Fez e dirigiu outras peças. Estrelou o filme JOGO SUBTERRÂNEO, de Roberto Gervitz. Participou de minisséries e novelas [em 2001, Um Anjo Caiu do Céu e A Padroeira, em 2004, Senhora do Destino, em 2005, Alma Gêmea, e em 2006, Cobras & Lagartos]. Estava em FILHOS DO CARNAVAL, da HBO. Foi protagonista da novela da Band. Volta por cima?
Merda, Felipe…
+++
Também constrangido fiquei quando vi o bate-volta de ALOIZIO MERCADANTE, na semana passada, defendendo o afastamento de Sarney, e depois defendendo a sua permanência na presidência do Senado.
Nossa meta é garantir a governabilidade, disse no púlpito, diante de uma opinião pública incrédula depois de acompanhar os escândalos das contas e atos secretos, de ver a mansão não declarada e a quantidade de parentes de Sarney empregada, especialmente do mordomo SECRETA, de sua filha, no Senato. Conta paga por todos nós.
Nossa meta não é a ética, a transparência, a honestidade. É o entendimento da frente que compõe o Poder. E combater a oposição.
Entende-se que o PT precisa do PMDB para governar. Mas a que preço? Vale tudo? O lulismo criou um País estável na economia e, comparado a outros períodos, na política. Mas “despolitiza” o debate. Enterra de vez com as ideologias. Deveria haver um mínimo de decência.
Lembrei-me da razão pela qual o PT foi fundado. Da empolgação que nos contaminava. De um ALOIZIO jovem, professor da Unicamp, oriundo da AP, apaixonado pela oportunidade de mudar o País, fazendo a cabeça dos estudantes. Para alguns, o passado destoa. Feliz ano velho…
+++
OTTO não conseguiu gravadora no Brasil para lançar o seu disco novo. Ficou meses reclamando, decepcionado. Beleza. Está em Nova York. É o novo queridinho do The New York Times, para quem deu uma longa entrevista.

Fez show na cidade e entrará em cartaz no Lincoln Center no segundo semestre. Ah, sim, seu disco sai por um selo americano. Como aconteceu com Bebel Gilberto, Tom Zé, Cibele e Céu, precisamos deles para nos dizerem o que temos de bom.
*
Hoje e amanhã tem A NOITE MAIS FRIA DO ANO, 21H, no ESPAÇO PARLAPATÕES. Ficaremos só até o final de Julho. São mais 8 sessões, terças e quartas. Depois, Rio de Janeiro. Portanto…
Uma palhinha, tá? Uma, não. Duas.
Dan entra com Carol, que chora. Ela levou uns tabefes.
CAROL [afobada]
Não é justo, não é justo…
DAN
Vou pegar gelo.
CAROL
Eu não merecia.
DAN
Gelo é bom, não é?
CAROL
Está doendo.
DAN
Quer analgésico ou você ainda é homeopata?
CAROL
Tá muito vermelho?
DAN
Foi de mão aberta.
CAROL
Pára.
DAN
Dá pra ver.
CAROL
O quê?
DAN
A mão.
CAROL
Dá pra ver?
DAN [duro]
É!
CAROL
Não briga comigo.
DAN
Não estou brigando.
CAROL
Está, sim.
DAN
Pára. Não estou, não.
CAROL
Tá bom. Mas não briga comigo.
DAN
Fica calma.
CAROL
Estou calma.
DAN
Não está.
CAROL
Estou.
DAN
Então fica mais calma.
CAROL
Você está brigando comigo de novo.
DAN
Estamos sem gelo.
CAROL
Por quê?
DAN
Não sei. Esta geladeira… Tem um bife aqui.
CAROL
Como vou chegar no trabalho amanhã?
DAN
É contrafilé. Serve?
CAROL
Ele não parava.
DAN
Toma.
CAROL
Eu não como carne vermelha.
Mas Dan na verdade oferece uma garrafa de vodca.
CAROL
Não quero beber, obrigada.
DAN
É pra pôr no olho. Ainda não sei fazer gelo nesta geladeira.
CAROL
Esta vodca é a minha.
DAN
Não.
CAROL
É sim.
DAN
Já rolaram muitas outras garrafas de vodca desde a sua época. Vodca, tequila, rum, gim, uísque, vinho, grapa, pinga, bombom de cereja…
CAROL
Não abaixou um dedo.
DAN
Você quer dizer que não vem gente aqui, não ofereço bebida?
CAROL
Oferece. Mas não vodca. Você comprou uma geladeira nova?
DAN
Tá doendo?
CAROL
Tá.
DAN
Muito?
CAROL
Você não acredita?
DAN
Levou só uns tapinhas.
CAROL
Levei uma surra.
DAN
Por quê?
CAROL
Ele é louco.
DAN
Você deve ter aprontado.
CAROL
Eu não.
DAN
Vamos à Delegacia de Defesa da Mulher? Tem umas 20, uma em cada região da cidade. Mulherada anda apanhando…
CAROL
Não.
DAN
Quer ligar para um advogado?
CAROL
Você conhece algum advogado?
DAN
Uma advogada criminal.
CAROL
Você conhece uma criminal?
DAN
Saí com uma.
CAROL
Você não me contou que saiu com uma advogada.
DAN
Já viu esses adesivos “Consulte um advogado”?
CAROL
E você foi logo consultar uma, cachorro. Quem é esta criminal?


CAIO
Como ela está?
RENATO
Quente.
CAIO
Não a cerveja.
RENATO
Quem?
CAIO
Carla.
RENATO
Carla?
CAIO
É. Carla.
RENATO
Que Carla?
CAIO
Qual Carla?
RENATO
É. Qual?
CAIO
Não se faça de bobo. Carla. Só tem uma.
RENATO
A minha mulher?
CAIO
É. A sua mulher.
RENATO
O que é que tem?
CAIO
Como ela está?
RENATO
Carla?
CAIO
Como ela está?
RENATO
Por que você está perguntando?
CAIO
Como ela está?
RENATO
Já perguntou.
CAIO
E aí? Responde.
RENATO
Qual é, cara, é a minha mulher!? Por que você quer saber?
CAIO
Como você conseguiu?
RENATO
Consegui o quê?
CAIO
Ficar com ela.
RENATO
O que você tem a ver com isso?
CAIO
Ela sabe que estou aqui?
RENATO
Quer parar?! Por que você pergunta dela? O que está acontecendo aqui?! Você teve alguma coisa com ela?
CAIO
“Coisa”?… Você não quer conversar. Que chato isso. Pensei que seria bom pra você desabafar, só estamos nós dois. Vai, conta tudo, fala dos seu desespero e sofrimento, dos projetos. Se abre.
RENATO
Vocês se conhecem?
[vale ler escutando a versão do otto de "pra ser só minha mulher", clássico de odair josé]
Que mora a 500 quilômetros de distância. Ele, na capital. Há 20 anos se conhecem? Ele estava casado, quando a viu pela primeira vez: a irmã do seu melhor amigo.
Foi dar uma consultoria na cidade dela. Tem alguma coisa para fazer naquele fim do mundo? Ora, liga para a minha irmã, ela mostrará os melhores lugares.
Desembarcou. Ela foi pegá-lo no hotel. O amigo esqueceu de informar: os olhos, a boca, o cabelo, o corpo selvagem… Vinte e poucos anos.
Calor de matar. Daquelas cidades fronteiriças em que, enquanto cai geada na região sul e sudeste, o sol não dá trégua. A ideia dela foi fulminante. Vamos ao clube. É onde as coisas acontecem em cidades pequenas.
Comprou uma sunga barata no caminho, e foram nadar, seu esporte favorito. É a imagem de que ele mais se lembra: após mil metros, variando os quatro estilos, encostou na borda, exatamente onde ela tomava sol, de bruços, com as pernas levantadas e o olhar perdido.
Sentiu o que os primeiros navegantes sentiram ao verem as montanhas da costa. Que alusão tosca, pensou. Ainda bem que não sou escritor. Observou todos os pelos, os poros, o suor.
Sim, ela o levou ao melhor bar, ao melhor bazar, e conversaram: projetos, sonhos. E foi só. Como ela tinha planos… De trabalhar com portadores de síndrome de down, plantar coco no litoral, cursar mestrado na França, se perder numa ilha deserta, conhecer o Vietnã, aprender chinês, russo. Falava sem parar dos seus planos.
Durante três dias não se desgrudaram. E ela o levou ao aeroporto. Mas na vida deles nada mudou. Eventualmente apareciam as imagem dela de bruços e o olhar aflito. Como a paisagem inesquecível de uma viagem de trabalho.
Um dia, foi com a mulher visitar o amigo. A irmã estava hospedada- veio do interior conhecer o sobrinho. Passaram a tarde se olhando distantes. Quando a mulher não estava por perto, trocaram sorrisos e brincaram juntos com o bebê. Não trocaram muitas palavras. O amigo sacou os olhares cruzados, o brilho, o encanto invisível. Deu uma dura neles. A mulher voltou. Ele foi embora sem saber dos planos dela.
Ele se separou. Meses num estado letargia, susto, medo, até o amigo o convidar para passar o Reveillon no interior. Dirigiram 500 quilômetros. Buscaram ânimo ouvindo Odair José, que marcou a adolescência.
Reencontrou a irmã. Mas o desencanto de um casamento falido o deixava sem ação, sem assunto, sem cor. Ela falava de outros planos, de aprender tupi, passar um ano numa aldeia indígena, estudar os peixes da Amazônia, e nele silêncio.
Minutos antes da passagem de ano, na varanda da casa, a sós, ela lhe deu um beijo. Longo, secreto. Solidário, reconfortante. Suas línguas se conheceram. Ele chorou, e um ano se foi.
Pouco a pouco, ele saía da hibernação. Teve casos. Com uma modelo, uma aeromoça, uma veterinária, uma prima de terceiro grau e uma ex-metalúrgica, depois vereadora.
Reencontrou-a na capital. Ela veio conhecer o novo sobrinho. E conheceu a nova casa do novo homem solteiro. Ele nem esperou ela se sentar para falar de planos. Agarrou já na porta. Surpresa. Jogou-a no sofá, foi arrancando roupas. Mas ela escapuliu.
Tentou de novo, e ela quis ver a vista, fumar um cigarro, beber um vinho. Ele tentou mais uma vez. Ela escorregou. Não quis. Não cedeu. Ele, confuso. Ela se foi, deixando a garrafa fechada. Voltou para a fronteira.
Soube que ela se casou e teve um filho. Ele teve namoros. Chegou a ficar noivo de uma bailarina e desistiu- detestava balé! Conheceu neuróticas, ciumentas, galinhas. Levou pés e deu outros. E se esqueceu dela. Mas toda a vez que ouvia o nome daquela cidade do fim do mundo, lembrava e lamentava.
Até o enviarem para outra consultoria. Seu amigo nem era mais o melhor amigo. Mandou um email perguntando da irmã. Ele disse que ela tinha se separado e deu o celular dela.
Ele ligou. Ela, feliz com a notícia. Falou do filho, avisou que estava sol e calor, e que teria bastante tempo para ficar com ele, pois dava aulas de português num escola fechada por causa da gripe suína. Ela tinha quantos anos agora?
A cidade estava mudada. O Brasil da fronteira agrícola. Ela, não. Incrível. O tempo não passa? Jantaram no novo árabe. Muitos árabes se instalaram por lá. Árabes, chineses, coreanos. Cruzaram a pé a praça agitada. Ela ligou para a mãe, para saber se estava tudo bem com o filho.
Falou de outros planos, de mexer com artesanato de material reciclado, de parar de fumar, morar numa praia deserta, montar uma ONG, conhecer ruínas astecas e aprender árabe.
Voltaram juntos para o hotel- ela tinha parado o carro na garagem. Entraram juntos no lobby. Entraram juntos no elevador. Ela não apertou o G. Ele apertou o andar dele.
Entraram no quarto. Ela abriu a janela, admirou a vista. Ele agarrou, deu um beijo. Ela riu. Seu beijo está diferente. Como? Parece o beijo afoito de um adolescente, antes, era um beijo mais maduro. Que estranho, ele pensou. Envelheceu e ganhou medos? A maturidade traz insegurança?
Foram para a cama. Mas ela achava precipitado. Ele tirou a roupa. Ela não queria. Até, sem querer, ele falar uma baixaria, como costumava fazer com a indiana, a aeromoça, a veterinária, a prima de terceiro grau, a ex-metalúrgica, atual deputada federal, a bailaria e especialmente com as neuróticas. Viu nela um olhar que não conhecia. Sentiu a boca dela dilatar. Falou outra baixaria. Ela subiu em cima dele e tremeu toda. Falou as coisas mais censuráveis. Ela tirou a roupa. Esgotou o seu repertório de vulgaridades. Se amaram dois dias seguidos.
Conseguiu rever o corpo, outro agora, de 40 anos, mas o mesmo ainda. Experimentou cada fração, cada dobra e detalhes.
No dia da partida, passearam com o filho. Tiraram fotos. Foram à feira, ao parque, à sorveteria. Viram pastagens e plantações de cana, laranja, café. Levaram-no ao aeroporto.
Na despedida, ele disse: Merecemos esse reencontro, precisávamos dele. Ela disse: Será que só daqui há dez anos vamos nos rever?
No táxi… E se eu me casar com ela? Mas aqui, a capital, nunca esteve nos planos dela. Nem nunca abandona a fronteira. Então, decidiu. Vou convidá-los para passar o próximo fim de semana comigo. Ou este amor contido, que o arrasta e devolve a vida, não deve ser concluído?
Em São Paulo, os aeroportos se chamam Guarulhos, Congonhas e Viracopos. No Rio, Santos Dumont e Galeão, que virou Tom Jobim. Em Minas, Pampulha e Confins.
Em Salvador? Aeroporto Deputado Luis Eduardo Magalhães, filho de ACM, não muito popular, mas querido entre seus pares, herdeiro de um legado e que morreu subitamente.
Para se chegar nele, é preciso pegar a Avenida Luis Eduardo Magalhães- onde está seu mausoléu, com o seu coração-, que passa pela Escola Luis Eduardo Magalhães. Não sei se estuda nela alguma criança nascida no município Luis Eduardo Magalhães, antigo povoado chamado Mimoso do Oeste, que mudou de nome em 2000.

Em São Luis do Maranhão, bem, aí não tem como escapar. As informações estão na net. Notícias sobre as maravilhas dessa cidade chegam pelo jornal O Estado do Maranhão, TV Mirante e Rádios Mirante AM e FM, todas de José Sarney. Se estiver no interior do Estado, sintonize numa das 35 emissoras de rádio ou 13 repetidoras da TV Mirante, de Sarney.
Se você vem do município José Sarney, entre em São Luis pela Ponte José Sarney, pegue a Avenida José Sarney e desembarque na Rodoviária Kiola Sarney.
Lá na capital as pessoas nascem na Maternidade Marly Sarney. Moram nas vilas Sarney, Sarney Filho, Kiola Sarney ou Roseana Sarney. Para estudar, há as opções: Escola Sarney Neto, Escola Roseana Sarney, Escola Fernando Sarney, Escola Marly Sarney e Escola José Sarney.
Pode-se ler um livro na Biblioteca José Sarney. Basta pegar um táxi no Posto de Saúde Marly Sarney.
Se alguém desconfiar da prestação de contas públicas, no Tribunal de Contas Roseana Murad Sarney encontrará os balanços.
Não aprovou o culto à personalidade? Pergunte na Sala de Imprensa Marly Sarney onde fica a Sala de Defensoria Pública Kiola Sarney, no Fórum José Sarney, emérito senador do Amapá.

*
Primeiro foram FHC e a The Economist que defenderem a descriminalização da maconha. Corre pelos bastidores da Globo que a família Marinho orientou seus jornalistas a abraçarem a causa.
Não está na hora do debate ir para o Congresso?
No último domingo [28 de junho 2009], saiu no Espaço Aberto, página nobre
de opiniões do Estadão (A2), uma coluna corajosa escrita por Marie Myung-Ok Lee, professora da Universidade Brown, que escreve um livro sobre imperícia médica e reacende o debate.
Reproduzo aqui.
Descriminalizem a maconha [de Marie Myung-Ok Lee]
Estou ao telefone aprendendo uma receita de manteiga de haxixe. Não com um traficante, mas com Lester Grinspoon, professor emérito de Psiquiatria da Escola de Medicina de Harvard. E não é para uma festa, mas para meu filho de 9 anos, que sofre de autismo, ansiedade e problemas digestivos, que são aliviados pelas propriedades analgésicas e psicoativas da maconha. Não lhe daria se não achasse seguro.
Descobri a maconha quando procurava uma alternativa mais segura aos fortes remédios antipsicóticos, como o Risperdal, habitualmente receitados para crianças com autismo e outros distúrbios de comportamento. Há poucos estudos sobre os efeitos desses medicamentos, a longo prazo, no cérebro de uma criança em crescimento, em especial sobre o autismo, distúrbio cujos mecanismos bioquímicos são pouco compreendidos. Mas existe farta documentação sobre riscos, o que levou a Food and Drug Administration (FDA) a exigir nas embalagens o alerta máximo, a “tarja preta”, informando possíveis efeitos colaterais, que incluem tremores permanentes como os do mal de Parkinson, distúrbios metabólicos e morte. Um painel de especialistas federais em remédios, em 2008, insistiu que os médicos sejam cautelosos ao receitar esses remédios a crianças, mais suscetíveis aos efeitos colaterais.
Moramos em Rhode Island, um dos mais de 12 Estados – incluindo a Califórnia – que têm leis para uso medicinal da maconha. Isso nos permite dá-la a nosso filho, para uso médico, legalmente. Mas nos limita seu uso. Não podemos levá-la de avião numa visita à avó em Minnesota.
Embora não violemos a lei, pergunto-me o que os vizinhos pensariam se soubessem que damos a nosso filho o que a maioria das pessoas encara como droga “recreativa” ilegal. A maconha sempre carregou o estigma do perigo ilícito – A Porta da Loucura e cartéis estrangeiros do tráfico. Mas em 1988, após dois anos de audiências, o juiz Francis L. Young, da Drug Enforcement Administration (DEA), considerou-a “uma das substâncias terapêuticas mais seguras entre as conhecidas pelo homem. (…) Em termos estritamente medicinais, a maconha é muito mais segura que muitos alimentos que comumente consumimos”.
Além de ajudar pessoas como meu filho, são muitas as razões para legalizar a maconha em nível federal. Depoimentos de pacientes atestam suas propriedades analgésicas. E os benefícios no combate ao enjoo da quimioterapia e à debilitação decorrente estão bem documentados. Estudos futuros podem descobrir empregos medicinais ainda mais importantes.
Incluir a maconha na guerra às drogas mostrou-se temerário – e caro. Ao manter a maconha ilegal e os preços altos, o dinheiro da droga ilícita dos EUA sustenta os traficantes assassinos no México e em outros países. Na verdade, depois de perceber como a proximidade dos cultivadores de maconha afetava a pequena vila mexicana de Alamos, onde meu marido passou boa parte da infância, sempre fui inflexível em nunca entrar nessa economia da violência.
Como em Rhode Island não há postos fornecedores, como na Califórnia, o paciente precisa pedir uma licença para uso medicinal de maconha e então achar um jeito de obtê-la. Tivemos de improvisar até finalmente contatarmos um horticultor local graduado que concordou em fornecer maconha orgânica a nosso filho. Mas, em razão do degradado submundo do comércio de drogas ilegais, somado ao colapso econômico atual, até nosso plantador precisa ficar atento para não se expor a furtos.
Legalizar a maconha não só elimina o incentivo a essa economia subterrânea, como permite a regularização e tributação do produto, tal como o cigarro e o álcool. Potencial para abusos existe, como com qualquer substância, mas estudos toxicológicos não foram sequer capazes de estabelecer uma dosagem letal nos níveis típicos de consumo. De fato, em 1988, Young ainda disse: “Estima-se que um fumante teoricamente teria de consumir cerca de 680 kg de maconha em quase 15 minutos para induzir uma reação letal.” E a maconha nem provoca dependência física, diferente do cafezinho do Starbucks, como pode atestar quem já sofreu de dores de cabeça por abstinência de café.
Apesar de demonizada por anos, não faz tanto tempo que a maconha é ilegal nos EUA. Ela foi criminalizada no nível federal em 1937, pelos esforços de um só homem, Harry Anslinger, comissário do recém-formado Birô de Narcóticos, e por meio de histórias sensacionalistas de assassinatos e violência supostamente cometidos sob o efeito da Canabis. A planta continuou relacionada na farmacopeia dos EUA até 1941 como droga nativa útil para tratar dores de cabeça e de dente, depressão e cólicas menstruais, e as empresas farmacêuticas trabalhavam para desenvolver variedades mais fortes.
Em 1938, um cético Fiorello Laguardia, prefeito de Nova York, nomeou um comitê para fazer o primeiro estudo em profundidade dos verdadeiros efeitos da maconha. Ele concluiu que, apesar das acaloradas alegações do governo, a maconha não causa insanidade nem age como porta de entrada de outras drogas. Tampouco encontrou razões científicas para sua criminalização. Em 1972, a comissão Shafer, do governo Nixon, concluiu que a Canabis devia ser legalizada de novo.
Ambas as recomendações foram ignoradas e desde então bilhões de dólares foram gastos para sustentar a proibição. O analista de políticas públicas Jon Gettman, autor do relatório Receitas perdidas e outros custos das leis antimaconha, de 2007, estimou o custo anual da repressão à maconha em US$ 10,7 bilhões.
Fiquei animada ao ouvir o recente apelo do governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, para que os EUA observem as experiências de outros países com a legalização da maconha e abram um debate. E, dadas as reais ameaças à segurança do país, foi prudente o anúncio do procurador-geral Eric H. Holder Jr. de que o governo federal não faria mais batidas contra fornecedores legais de maconha medicinal. A descriminalização é o próximo passo nessa lógica.
Marcelo Rubens Paiva, 50, bacharel em comunicação, escritor, dramaturgo, roteirista, diretor e… ator???!!!
A que ponto cheguei! Minha avó Paiva deve estar sorrindo. Seu sonho era que eu virasse ator. Ela era o único membro da família que ia me prestigiar no palco, quando eu atuava na adolescência no teatro do Clube Paulistano.
Recém-chegado em São Paulo, depois de pingar de cidade em cidade, por causa da ditadura, eu não tinha amigos e cruzei casualmente com esse grupo de teatro ensaiando. Me convidaram para entrar e fazer um teste. Fui aceito e me deram um papel. Fiquei anos com eles.

É, fiz teatro. Fui dirigido por Fred Klima e João Albano. Esse aí de joelhos sou eu, na peça infantil O Mundo do Faz de Conta. Ou será em Romeu e Julieta? Não continuei? Não, e me arrependo. Eu era um canastrão, mas catastrões também são gente.
*
No ano passado, o maluco do Mario Bortolotto me convidou para atuar com ele no festival Satyrianas 2008, com a peça Rourke Song- dois bêbados numa mesa de bar, falando sobre os ruídos nas relações com as mulheres.
O cara me fez decorar palavra por palavra. Fernanda D’Umbra nos dirigiu. Passei duas semanas desesperado, diante do espelho, decorando, fazendo caras, colocando a voz.
Para me sacanearem, todos os amigos foram. O teatro, uma lona na Praça Roosevelt, lotou. Estranhamente, me deu muita calma na hora. Como sou cara-de-pau…
O público entrou, e eu já estava na mesa do bar, bebendo. Marião entraria vindo do banheiro. Sugeri que ele levantasse a braguilha e limpasse a mão no meu ombro. Primeiro riso garantido! Consegui não errar uma fala. Decorar me deu a segurança de que precisava. Márião, generoso, jogou comigo. Foi bom.
Tanto que, nesse ano, nos convidaram para entrar em cartaz com a peça, rsrsrsrsrs. No Satyros 1. Segundo semestre. Logo, logo. E o metido aqui topou. Lógico.
*
Minha carreira de ator segue. Nesta semana, gravei um filme. Um longa. Isso mesmo. Depois de ensaiar semanas. O papel? Outro bêbado, diante do computador, conversando com uma mulher que nem conhece, pelo Skype. A locação? Meu escritório. O figurino? Eu montei. A concepção? Bolei um bêbado gripado, fumando sem parar, misturando vitamina C efervescente com uísque.
É parte do instigante projeto LINHA DE FUGA, de Alexandre Stokler [Cama de Gato], que rola há tempos. Na real, são apenas dois personagens, HOMEM e MULHER, que iniciam uma conversa pelo Skype [só voz, sem câmera] e vão até as últimas consequências. Se é que você me entende.
O DIRETOR MONTANDO O CENÁRIO


FIGURINO [A CALÇA É AZUL CLARA]
O grande barato do filme é que diversos atores e atrizes farão a mesma cena, em locais sugeridos pelos próprios, contracenando sim pelo Skype com pessoas que não conhecem. Na montagem, serão selecionadas as cenas e passagens de cada ator. Como uma sequência de cenas que evoluem sobre um mesmo texto.
Os ensaios também eram parte fundamental do processo.
Numa comunidade fechada do Skype, diversas atrizes e atores ficavam de stand-by. Bastava ligar, e poderia ensaiar com alguma pessoa desconhecida.
Não podíamos nos apresentar. Usávamos só o microfone- câmeras desligadas! Deveríamos apenas passar o texto. Nada de falar da vida pessoal. E, sim, desligar abruptamente, como dita o script.
O problema é que ensaiar vicia.
Bastava eu chegar em casa e conectar, para encontar alguém disposto a, depois de 1h20 de texto, fazer sexo virtual. Era só entrar. Elas quem apareciam, predadoras carentes, e convidavam. Às vezes 3 ou mais. E soube que muitas garotas já tinham feito o filme e continuavam de stand-by, na comunidade, viciadas, prontas para o que der e vier.
E jamais saberemos com quem ensaiamos ou contracenamos.
O filme não tem dinheiro, nem patrocínio. É feito em digital e na brodagem. Não se sabe ainda quando ficará pronto, mas a maior parte já foi filmada. O mais interessante é que serão 4 versões, 4 montagens diferentes.
Conheça mais detalhes no blog deles:
http://www.linhadefuga.com/
Uma palhinha do roteiro, em linguagem radicalmente coloquial:
“Linha de Fuga”
(Comédia Erótica)
Roteiro de longa-metragem de Alexandre Stockler
PLANO-SEQUÊNCIA 1 – INT – NOITE – APARTAMENTO DA MULHER
MULHER
Oi! Já voltei.
HOMEM
E aí?! Pegô tudo que cê queria?
MULHER
Tudinho. Peguei até um pacote de lencinhos umedecidos…
HOMEM
E agora, o que é que cê tá fazendo?
MULHER
Tô sentada na minha cama, tomando um vinho tinto e falando com você.
HOMEM
E como é a sua cama?
MULHER
Minha cama é grande – Queen Size – e tá arrumada, o que quase nunca acontece. Não sei o que me deu hoje: quando acordei tive vontade de fazê a cama.
HOMEM
Então eu posso concluí que você não tem empregada, não é?
MULHER
Acertou, Sherlock. Só tenho uma faxineira que vem uma vez por semana, pra dá uma geral no meu apartamento.
HOMEM
E ela não faz a sua cama quando vai?
MULHER
Com’é que eu posso permití que uma mulher que eu mal conheço mexa nos lençóis em que eu vô me deitá depois?
HOMEM (concluindo)
Ah! Então cê tem esse tipo de capricho…
MULHER (interrompendo-o)
Não é capricho, é higiene.
HOMEM
Higiene?! Mas ela não é sua faxineira?
MULHER
É.
HOMEM
E não é ela quem limpa a sua casa?
MULHER
É.
HOMEM
Então, por que você disse que é por higiene – e não por capricho – que cê não deixa ela arrumá a sua cama?
MULHER
Porque ela ia tê que se apoiá na minha cama pra arrumá, podia até acabá se deitando nela e isso eu não ia gostá.
HOMEM
Ainda não entendi qual é o problema.
MULHER
Na minha cama só toco eu, Sherlock.
HOMEM (estranhando)
Você sozinha?
MULHER
Normalmente só. A não sê que eu convide alguém, o que é realmente muito raro.
HOMEM
Por que tão raro?
MULHER
Não tá fácil encontrá gente interessante por aí…
HOMEM
Você é muito exigente?
MULHER
Digamos que eu aprendi algumas coisas na vida e uma delas é que hoje eu prefiro ter uma noite solitária do que uma manhã de estranheza compartilhada.
HOMEM
Entendi. Você é exigente!
MULHER
Tenho vivência. É claro que eu gosto do que é bom, né, como qualquer um, mas não me importo com beleza física ou estas coisas. Prefiro alguém que tenha um papo legal, personalidade agradável…
HOMEM (cortando-a)
…Que pague suas contas…
MULHER (seca)
Não faço a menor questão disso. Ah! (incomodada) Isso é típico de homem!
HOMEM (provocador)
Mas querê que um homem pague as contas, é típico de mulher…
MULHER (amaciando-se)
Sherlock, o que incomoda é a mesquinharia! Eu não me importo de dividí as contas com alguém, afinal pra que é que eu trabalho tanto?
HOMEM (irônico)
Provavelmente pra preenchê o vazio de não tê um marido e uma casa pra cuidá.
MULHER (incomodada)
Cê acha que sê homem é o máximo, né?!
HOMEM
Pelo jeito quem acha isso é você.
MULHER (um pouco ofendida)
O que eu acho é que eu já vô desligá.
HOMEM (insistindo)
O que eu acho é que você deve fazê aquilo que te dá vontade.
MULHER
Homem é tudo igual, né? São todos pretensiosos, reacionários e babacas.
HOMEM
Mas nem todas as mulheres reclamam disto. Só as radicais.
MULHER (desculpando-se)
Eu devo tê parecido uma feminista chata, né?!
HOMEM (irônico)
Feminista chata é pleonasmo.
MULHER (acusativa, mas doce)
Pôxa, cê é implicante, hein?!
HOMEM (provocante)
Cê ainda não viu nada.
MULHER (doce)
Grosso!
HOMEM
Pelo menos eu arrumo a cama todo dia…
MULHER (surpresa, bem-humorada)
Ah! Vai jogá contra mim tudo o que eu te disse?
HOMEM
Cê nem disse tanta coisa assim…
MULHER
Mais do que você contô sobre você.
HOMEM (pacificador)
Se isso te incomoda, pode me perguntá o que quisé que eu respondo.
MULHER (interessada)
Qualqué coisa?
HOMEM
Qualqué coisa.
…
*
VAI, CURINTCHA!
É O TIME DO POVO
É O CORINGÃO
2012
2011
2010
2009