Se você gostou do filme LOKI – ARNALDO BATISTA e quer mais, saiba que um clipe dele inédito, dirigido por RUI MENDES, MAURÍCIO EÇA e ZÉ CARRATU, proibido pela família, foi postado no YOUTUBE, esta grande arma contra a censura.
O clipe está vetado. A família acredita que denigre a imagem do compositor, apesar da anuência do mesmo, e foi gravado no auge do seu ostracismo. Cheque você:
http://www.youtube.com/watch?v=3SN9PLfa_…
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FELLINI deu um grande show aqui no STUDIO SP. Que banda… Nada de refrão fácil, timbres chupados de bandas inglesas, levadas pirateadas. Era, de fato, diferente de tudo o que rolava por aqui nos anos 80.
Não fez sucesso como outras bandas que dividiam os mesmos palcos undergrounds da época, como IRA!, TITÃS, RPM. Não sei por quê. Bem, nem interessa. Fizeram história. Tocavam do jeito que queriam. Sucesso é detalhe.
Cada um foi para um canto. Seguiu a sua vida. E agora anualmente prometem esses reencontros. Quando Thomas Pappon vier de Londres em férias. Irritado e cheio das manias do seu colega de BBC, o grande Ivan Lessa.
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Ao final do show, surpresa: o DJ meteu um LED ZEPPELIN. Minha cabeça girou. Meu coração quase saiu pulando. Nesse ano, eu e ZÉ CARRATU, 2 cinquentões, tínhamos pensado em dar uma festa em que só tocasse LED ZEPPELIN. Em homenagem à nossa adolescência.

Pois, no final dos anos 70, dançávamos nas festinhas e boates o quê? LED ZEPPELIN, DEEP PURPLE, JETHRO TULL, FOCUS, PINK FLOYD, som pesado, nós e as meninas. Ficávamos parados, só com os braços balançando e a cabeça girando. E cantávamos em falsete. Em resistência aos fúteis acomodados e alienados que pulavam e rebolavam BEE GEES nas discotecas.
Roqueiro que é roqueiro não rebola? Alguns de nós imitavam os movimentos do skate, que começava na época, ou do surfe. Cada um na sua, no seu canto, de olhos fechados, viajando [éter, benzina, sei lá...].
No meu livro MALU DE BICICLETA, o narrador diz: “Só existe uma coisa melhor do que Led Zeppelin. Bethoven. Muitas vezes eu os comparo, alterno. Em ambos, tanto tormento, beleza, fúria e leveza se sucedendo.”
Acabei dando uma festa num puteiro da MOOCA agora em maio. Pedi para o Carcarah, que ia discotecar, colocar só anos 70. Em homenagem aos meus 50 anos completados. Mas acabou a luz do bairro, bem quanto BORTOLOTTO discotecava.
A festa miou na melhor parte. Pelo menos, ganhamos de brinde 3 strips feitos pelas profissionais da casa.
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Estréia hoje o ótimo documentário KURT COBAIN – RETRATO DE UMA AUSÊNCIA. É um filme diferente, baseado nas 25 horas de entrevistas, algumas pelo telefone, concedidas por Cobain para o crítico musical e amigo dele, Michael Azerrad.

Nada de imagens de arquivo da banda que recuperou algo que havia se perdido da cena roqueira. O diretor AJ Schnack mescla até músicas de outros caras que influenciaram o NIRVANA, como Iggy Pop e Bowie.
Fala da infância e adolescência pobre do moleque Cobain, seu namoro com Courtney, ambos viciados e morando em muquifos, dos projetos de Cobain para fazer sucesso, de como planejava tudo em cadernos, bolava o figurino da banda, enquanto trabalhava de faxineiro num hotel.
As imagens que linkam com as declarações em áudio são de cenas urbanas e provincianas das cidades em que morou: Aberdeen, Olympia e Seattle. Lindas imagens que completam a entrevista. Não exibe clipes da banda, nem nada de arquivo. É quase uma poesia visual, sob a voz desse que foi o ícone de uma época, e a única coisa relevante que ficou dos anos 90, além do MANGUE BEAT, é claro!
Filme original, plástico, sensível e revelador.
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Levei meu sobrinho universitário para assistir ao longa O GRUPO BAADER MEINHOFF, indicado ao Oscar de filme estrangeiro 2009, que conta a trajetória da organização terrorista RAF (Facção Armada Vermelha), que começou anarquista, roubou bancos na Alemanha e detonou, sob a atmosfera revolucionária de MAIO DE 68 e dos protestos contra a GUERRA DO VIETNÃ, uma luta contra o poder alemão e o imperialismo americano durante a década de 70, grupo de quem ele, que estuda Relações Internacionais na PUC, nunca tinha ouvido falar.

O filme não toma partido. Apenas registra, numa mega produção de época, o que aconteceu- roteiro do produtor Bernd Eichinger (“A Queda!”), baseado no livro “Der Baader-Meinhof Komplex”, do jornalista Stefan Aust.
Começa com os protestos estudantis dos anos 60 até a fundação do grupo pela jornalista Ulrike Meinhof (Martina Gedeck, de “A Vida dos Outros”) e o casal extremista Andreas Baader (Moritz Bleibtreu, de “Corra Lola, Corra”) e Gudrun Ensslin (Hohanna Wokalek).
No início, o grupo tinha a simpatia da população. Pouco a pouco, ficaram isolados. E sua luta passa a não fazer mais sentido, com ataques à bomba, treinamento de guerrilha na Jordânia e um patético sequestro de avião.
É um painel da tragédia que ocorreu em quase todos os países, quando a luta estudantil se uniu à luta armada, inspirada nos ideais da revolução cubana.
Como com as BRIGADAS VERMELHAS, da ITÁLIA, SENDERO LUMINOSO, do PERU, as FARCS, da COLÔMBIA, ainda em atividade, e organizações que combateram a ditadura sob a bandeira do socialismo na ARGENTINA [MONTONEROS], CHILE [MIR], URUGUAI [TUPAMAROS] e BRASIL [ALN, MR-8, VPR, Colina, PCdoB].
Por sinal, todas as organizações seguiam o MANUAL DO GUERRILHERO URBANO, livro que virou best seller na Europa, do líder da ALN, CARLOS MARIGHELLA, grupo que também se isolou.

Interessante descobrir como depois que estabelecem uma linha de processo revolucionário os grupos acabam se distanciando das massas e imprimem uma guerra particular contra a repressão. Apesar do próprio MARIGHELLA afirmar, veementemente, que a luta não era contra torturadores ou indivíduos, mas sim contra um sistema.
Ou instalam um estado autoritário, que se sustenta pela repressão e sangue, da Revolução Francesa aos Bolcheviques, passando pelo maoísmo e revoluções vitoriosas em CUBA, MÉXICO, ANGOLA e tantos outros.
Se, no começo, têm o apoio da população, se isolam pouco a pouco, desfazem o mito da luta pela justiça e liberdade, e instauram um regime de terror, que se mantém no poder por décadas, com muita violência, censura e prisões.
Sei lá. Como é complexa a alma humana…
Hoje tem Fellini de novo no STUDIO SP.
Eu que dei a ideia desse show e não vi na semana passada, pois estava no Rio. Cadão Volpato me ligou agora confirmando o show para às 23h30. Imperdível, e não perderei.
E tem o último dia em São Paulo da minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO. Quem viu, viu.
Falei tanto dela aqui, inclusive do seu processo de criação, que, dessa vez, não digo mais nada. Foi emocionante dirigir e trabalhar com ALEX GRULI, PAULINHA, HUGO POSSOLO e o brotherzinho MARIO BORTOLOTTO. Foi divertido.

Trabalhar dando risada é o que vale nessa vida. Se, em algum projeto, vejo que tem algum estressadinho, que grita, trata mal os técnicos, faz birra, eu saio fora na hora. E já vi tanta gente estrilando…
Dá uma vazio fim de temporada. Mas terá Rio de Janeiro. E virão outras, pode apostar.
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Cheguei em São Paulo, peguei chuva de granizo na estrada, encontrei meu monitor quebrado, minha internet sem conexão, e eu tinha tanta coisa pra falar dos dias em que passei na Guanabara.
Uso aqui um laptop fajuto e uma conexão sem fio que não sei de quem é. Alguém do prédio que libera. Mas cai toda a hora. Impossível viver sem internet hoje em dia.
Aliás, PELA LIBERDADE DOS ROTEADORES ANÔNIMOS.
Por que todos da cidade não liberam o sinal de suas conexões sem fio? Que diferença faz emprestar o sinal? E que maravilha seria se em qualquer lugar você tivesse a possbilidade de navegar usando sinais invisíveis e democráticos de alguém que você nem conhece e, solidário, liberou…
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ERA DO GELO 3 é um filme pré-Obama. Você viu?

Há tempos eu não via um filme com tantas referências de guerra e bélico.
O amor entre os esquilos não rola, pois disputam aquela noz por todo o filme, enganam-se, traem. O leão, que pensa em se aposentar, é convencido a continuar perseguindo as suas presas. Dinossauros servem como aviões de caça.
Caramba, esse diretor brasileiro virou Republicano?
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Já o filme O CONTADOR DE HISTÓRIAS, a estrear, é um dos mais sensíveis que vi recentemente. Quase chorei. Eu e o Jabor, rsrsrs. Será que colunistas do ESTADÃO são muito sensíveis?
Roteiro do meu amigo MAURÍCIO ARRUDA. Conta a história real de ROBERTO CARLOS, um ex-interno da FEBEM, cuja mãe acreditava que lá ele teria uma educação de primeira, como dizia o slogan da fundação criada na ditadura, e que, depois de fugas, espancamentos e virar trombadinha em BH, com a ajuda de uma pesquisadora francesa, virou professor e hoje dá aulas na mesma unidade em que viveu na infância e adolescência.
Filme popular, sem frescura, focado na história, com uma linguagem tradicional, que funciona. Daqueles em que você sai do cinema pensando…

No começo do ano, conheci PETER BUCHMAN, cubano radicado em Nova York e roterista do filme CHE, de Soderbergh.
Fiquei surpreso quando ele me contou que acompanhou todos os dias das filmagens do longa de 6 horas, dividido em duas partes. Eu imaginava que o papel do roteirista se encerrava antes, e que nossa presença não era bem vinda.
E que havia exceções, como BRAULIO MANTOVANI, que ganhava um salário [coisa raríssima] para, com o diretor FERNANDO MEIRELLES, levantar a trama de CIDADE DE DEUS e acompanhar o dia a dia do set.
Sim, somos aqueles caras que 5 anos antes das fimagens trabalham como uns loucos, de graça, sem ajuda de ninguém. Muitas vezes, o projeto não se realiza, o filme não é rodado, e não se capta dinheiro nem para pagar pelo roteiro e seus diversos tratamentos.
O roteirista é a parte fraca da indústria. Apesar de que, sem roteiros, não se faz filmes, nem se começa um projeto. É com roteiros que se inscrevem em leis de incentivo e captam grana.
É um paradoxo: com o nosso trabalho, sem nos pagarem, levantam a grana. Somos essenciais. Pero no mutcho. Se rolar, nos pagam quando começam a rodar. Se não rolar, engavetamos anos de trabalho e humildemente abaixamos a cabeça, como se o fracasso fosse nossa responsabilidade.
BUCHMAN disse que sua presença era essencial para ajudar no sotaque cubano em uma produção americana e nos detalhes do set, do figurino ao cenário e elementos de cena.
Porém, mudei de opinião, ao acompanhar as filmagens de MALU DE BICICLETA, meu roteiro, baseado no meu livro, que está sendo filmado aqui no Rio pelo diretor FLAVIO TAMBELLINI. Sim, o roteirista deve acompanhar as filmagens. Eu não sabia disso.
Todos saem ganhando. É uma espécie de apoio ao diretor e elenco. Uma ponte entre o texto e a loucura de um ambiente com mais de 50 técnicos.
Ontem, por exemplo, sugeri eliminar uma cena. Dei dicas da personagem, para a atriz FERNANDA FREITAS compor a cena. Hoje, mudei as intenções do personagem de MARCELO SERRADO.
Porque a todo tempo os lembrava o que viviam naquele momento da história, tinha a noção do todo, enquanto num set de filmagem a energia da ação é tão absorvida, que por vezes podem se perder.
TAMBELLINI conta que SPIKE LEE certa vez pediu para a sua assistente anotar quantas perguntas lhe fazem num dia de filmagem. A média deu 600 perguntas que um diretor tem de responder. Por dia.
Com o roteirista em cena, o seu trabalho é facilitado. É o apoio que falta em alguns momentos de confusão. E isso não está nos manuais.
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Falando em roteiro.
Conheci WALTER HUGO KHOURI, para mim, um dos maiores cineastas brasileiros [morreu em 2003], caminhando pelas ruas dos Jardins, onde morava e passeava sempre elegantemente vestido. Era uma simpatia.
Eu pedia detalhes dos seus filmes NOITE VAZIA e A ILHA, clássicos em preto e branco dos anos 60, assumidamente inspirados em ANTONIONI e que alavancaram a carreira do diretor.
Ele ficava feliz pelo reconhecimento. No entanto, tinha uma tristeza recorrente, o embargo incomum e único ao filme AMOR ESTRANHO AMOR, de 1982, em pleno estado de direito.
É a história de um menino, Hugo [MARCELO RIBEIRO], com incríveis olhos azuis, que, ainda garoto, chega em São Paulo, é deixado na frente de um prostíbulo de luxo e convive com garotas que o provocam e povoam a sua fantasia.
Até uma ninfeta atrevida, Tamara, vivida por XUXA, tentar molestá-lo, depois de ser leiolada.

Xuxa depois virou a RAINHA DOS BAIXINOS, comprou com a Marlene Mattos os direitos do filme e recolheu as fitas em locadoras. O filme tem a comercialização e a distribuição proibidas no Brasil. Foi lançado em DVD nos Estados Unidos em 2005. Xuxa até tentou comprar os direitos da produtora americana, que não vendeu.
É um filme forte. Para muitos, indecente. A justiça o acusa de divulgação de pornografia infantil. Pode ser encontrado em partes em sites pornôs.
Em homenagem ao cinema é à liberdade de expressão, indico aqui um link em que há 28 minutos do filme. Até os advogados da Rainha dos Baixinhos embargarem. Crianças, não entrem.
É uma pena que num site pornô é que encontramos partes da obra do cineasta genial. Aqui vai uma ligeira e censurável desobediência civil, para homenageá-lo e torná-lo imortal:
http://www.xvideos.com/video188006/_love…
Vida longa para o genial dândi WALTER HUGO. Vida longa para a beleza de XUXA, VERA FISCHER E MATILDE MASTRANGE, que aparecem nuas no filme perturbador. E que saibam as mulheres: todos os garotos gostariam de ser Hugo por uma noite. E fantasiam acordados.

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Bem, aqui vai mais um trecho do livro MALU DE BICICLETA que não está no roteiro. Um bônus…
Sandra trabalhava na minha livraria preferida. Era a minha vendedora preferida. Era quem me anunciava os lançamentos, com quem eu percorria os corredores apertados, margeados por estantes, para quem eu elogiava capas e títulos e criticava outras e outros e para quem eu apontava os melhores livros da minha vida. E de quem eu aceitava indicações. Sandra. Contemporânea, gostava de Paul Auster, Philip Roth, Pynchon. Eu, preconceito contra tudo aquilo escrito depois da era da informática. Meus autores escreveram a mão, como Virgina Woolf, a luz de velas e endividados, como Dostoievski, ou bêbados, como Hemingway. Mas aceitava suas sugestões, comprava-as e tive de ler algumas, para ter assunto e, depois, dizer:
“Sei lá. Li o livro que você me indicou. Tenho um certo preconceito contra tudo aquilo escrito depois da era da informática. Meus autores preferidos escreveram a mão, a luz de velas, endividados ou bêbados.”
Ela ria. Claro, convidava-a pra sair. Ela nunca tinha tempo. Claro que tinha. Ora, tinha, para ler os lançamentos. Tinha e não queria sair comigo. Era isso. Era comum. Nem todas se atraíam por um canalha. Ou, se queria, tinha outro, mas nunca me dizia que tinha outro, só dizia que estava sem tempo, o que era sinal de que com o outro não estava rendendo, pois ela regava o meu interesse por ela, bom sinal. Tinha cara de comportada, certinha. Talvez fosse daquelas que não traía. Só sairia com um se estivesse livre. Tipo fiel. Do tipo fiel que mantém a horta regada. O tipo mais comum.
Sandra, um dia, depois de eu perguntar quando iríamos sair, me convidou para jantar na sua casa. Calma, com toda a família. Programa tão inusitado, que, lógico, topei. Jantar às 19h, sem atraso.
Às 19h, lá estava eu, bem vestido, com um maço de flores para a mãe e uma garrafa de vinho para todos. Jantar familiar. Mãe, pai, uma tia, o avô senil e seus dois irmãos mais novos. Fui apresentado como um amigo. A tia tagarelava. Era a tia divorciada, que morava de favor. A mãe nos servia, com ajuda de Sandra, que estava com um vestidinho todo florido, como uma garota do campo. O avô não abria a boca, só para tossir. O pai me perguntava coisas sobre o meu trabalho, o meu time e em quem eu tinha votado na última eleição. Os irmãos me olhavam e riam: quer comer minha irmã, tem que passar por isso. Me senti há muitas décadas, visitando uma pretendente, analisado para ser aprovado. Meu vinho foi servido depois. Elogiaram. Tudo muito bem educado. Um clássico. Expuseram a filha, como ela é inteligente e culta e sua vocação para a literatura, desde pequena lia de tudo, aprendeu a ler sozinha, como tinha sido a melhor aluna, o tesouro da família.
Ninguém comentou se ela tinha ou não um namorado, e a pureza daquele ambiente era tamanha que comecei a desconfiar que só treparia com Sandra depois de trinta jantares, muitos passeios de mão dadas, muitas conversas sobre estilos literários, muitos cinemas, muitos beijinhos selinhos, muita enrolação. Desanimei. O primeiro beijo certamente seria num banco que balança na varanda, sob as estrelas, poético e controlado. Sabe o nome desses bancos? Eu soube noutro dia: namoradeira. Tipo de informação que um galinha despreza.
Tracei outros planos, desisti, ficou tarde e me despedi. Me levou até o hall. A família toda na porta. Chegou o elevador, ela disse que ia descer junto. Me fazer companhia. Despedimos da família, que fechou a porta. Entramos no elevador. Apertei o térreo. Começou a descer. Nos olhamos. Cada um num canto do elevador. De repente, começou a levantar o vestido. O que era aquilo? Milímetro por milímetro, o que era tecido subia, revelando joelhos, coxas. Nos seus olhos, ainda a pureza de uma menina comportada do campo. Levantou mais o vestido, até aparecer. Sim, sem calcinha. Olhei aquela penugem negra, o elevador chegou no térreo, ela apertou um botão qualquer, voltamos a subir, e ela, a se exibir, coloquei a mão na sua cintura, e ela voou pra cima de mim, agarrou o meu pescoço e me beijou, me agarrou, me grudou na parede. Ele parou. Caímos no hall de um andar qualquer. Fechou a porta do elevador, abriu a minha calça, começou a me chupar, deitamos no tapetinho, começamos a trepar ali mesmo. Em silêncio. E, aos poucos, passamos a escutar os barulhos do apartamento anexo. Do outro lado da porta, única porta, era um barulho familiar, era a sua família a tirar a mesa. Escutamos seu avô tossir, seus irmãos correrem pela casa, sua tia fofocar e seu pai criticar o meu vinho: “Que amargo! Italiano vagabundo! Um vinagre!”.
Trepando em silêncio, no escuro, naquele hall apertado. Ela gozou, parou e passou a me chupar, e, enquanto caía de boca, e eu apertava os seus peitos, abriu-se a porta do apartamento, a luz da sala nos iluminou, e paramos num susto, ela escondeu o rosto, mas eu vi, era o seu avô, o senil, que abriu, viu, fechou a porta e teve um acesso de tosse monumental, e, enquanto nos arrumávamos, a tosse aumentou, levando a família a o acudir. Entrei no elevador, apertei o térreo e nem olhei para trás.
Até hoje, não sei se ela tinha namorado. Nem sei no que deu aquilo. Nunca mais nos vimos. Porque troquei de livraria. E voltei aos clássicos.
Trecho do livro MALU DE BICICLETA [EDITORA OBJETIVA, 2003], o preferido do amigo cineasta MAURO LIMA, e que não está no roteiro do filme.
Claro que a ortografia é de antes da Reforma. Quer que eu fique aqui, enquanto o sol carioca brilha, corrigindo? Se liga. Vou pra praia, nego.
Meu avô tinha uma pequena firma de importação numa rua perto da Augusta que, com os anos, virou ponto de putas. Meu avô era um sujeito pra lá de insuportável: autoritário, ranzinza. Italiano. Provavelmente, fascista reprimido. Não sei como nunca foi preso. A família o evitava. E ele odiava a família, chamava meu pai e meu tio de dementes-cretinos, que se casaram com duas víboras, que só lhe deram netos burros. Não respeitou uma só pessoa na vida, nem a minha avó, morta há tempos, a quem chamava de gorda siciliana inútil. Mas eu gostava dele, apesar de me colocar no mesmo nível de meus irmãos, primos e tios dementes e cretinos. Era muquirana. Mas pagava o meu colégio caro. Para não elevar minha cretinice e demência?
Fui forçado a trabalhar, como todos em casa. Ele era a minha única fonte. Eu tinha 16 anos, estudava de manhã e era seu boy às tardes. E escutava. Como ele se fez sozinho, imigrante italiano que chegou à terra prometida de mãos abanando. E como seus dois filhos eram incompetentes para os negócios, de quem ele queria distância. E como aquele bairro se deteriorava, abarrotando-se de mulheres de vida fácil. E por que ele não saía de lá, seu reduto, seu hábito. Eu tirava cópias de documentos, ia a cartórios, distribuía correspondência, ia ao banco, ganhava pouco, mas o suficiente para gastar naquela mesma rua caso fosse o caso, com aquelas mulheres de vida nada fácil que assim que me viam sugeriam:
“Qué metè?”
Algumas perguntavam:
“Qué fazê nenê?”
Me deprimia a segunda proposta: seria gerar um literal filho da puta, e não estava nos meus planos gerar um; o mundo já é cheio deles. Preferia as que sugeriam carinhosamente, sinceramente, honestamente, glamourosamente, poeticamente:
“Qué metè?”
Nunca meti com elas [ou seria "nelas"?]. E passava por elas perto da noite, quando eu largava o trabalho, ligeiramente surpreso porém orgulhoso com tal proposta, me perguntando se queriam metè comigo por causa do meu dinheiro ou porque me achavam irresistível? Com tamanha incerteza, voltando pra casa numa segunda-feira, cedi à tentação, quer dizer, aceitei a convocação de uma delas, a mais baixinha, novinha:
“Quero. Tudo bem. Quanto é?”
Ela disse o preço e a o que eu tinha direito. Eu tinha como pagar e achei a negociação justa para ambas as partes. Pegou a minha mão, abriu o portão da casa em frente, e entramos, uma casa térrea comprida com vários ambientes. Suas colegas na sala assistiam à TV. Algumas me cumprimentaram. A maioria ignorou. Entramos por um corredor de muitas portas. Atravessamos toda a casa, saímos por uma porta de fundo, depois da cozinha, e caímos num quintal abandonado. Ao final, um barraco de madeira, como o de uma favela. Era o seu escritório. Lugar agradável, apesar do exterior. Me senti bem dentro dele. Ainda um pouco de luz do sol entrando pelas frestas, raios laranjas, muitas almofadas, uma cama aconchegante. Uma pia. Ela abriu o zíper das minhas calças, tirou o meu pau pra fora, encostou-o na pia, abriu a torneira e o lavou com um sabonete barato. Fez isso com uma delicadeza que me comoveu. Era como se lavasse algo importante, algo seu, algo que ela apreciava, tinha carinho. A comoção imediatamente se transformou numa bela ereção, o que a deixou mais satisfeita. Pegou uma toalha ensebada e perguntou o que eu queria fazer. Pedi para lavar de novo. Me encostei melhor na pia. Abriu mais a torneira, untou o meu pau com o sabonete e ficou esfregando com os dedos, com a mão, com a mão fechada em torno dele, com força, com mais força, para cima e para baixo, apertando e soltando, quase esmagando e quase resvalando, alternando energia e suavidade. Gozei naquela pia, encerrando o encontro negociado, incompleto, sim, mas é assim, fim.
Na terça, no mesmo horário, na mesma calçada, a mesma menina me convidou para entrar, e entrei, cruzei a mesma sala, as mesmas pessoas me cumprimentaram, e as mesmas me ignoraram. Ainda no corredor, interrompi a caminhada, perguntando se não podia chamar uma amiga para fazermos em três.
Lá fomos nós, eu, a minha proponente e uma amiga, para o barraco no fundo do quintal. Desta vez, meu pau foi lavado por quatro mãos. Era muita mão venerando, e, claro, gozei novamente sem desencostar da pia.
Ainda vieram a quarta, a quinta e a sexta-feira. Colégio de manhã, trabalho com o avô às tardes e uma lavagem completa e troca de óleo no fim do expediente. O ritual, o mesmo. As mãos, não. Todas daquela casa participaram do banho celestial. Às vezes, em quatro mãos, às vezes, em seis. Me tornei objeto de culto, porque uma delas, que tinha dores no rim esquerdo, afirmou que foi curada depois de uma lavagem. A notícia se espalhou. Boatos: diziam que meu pau curava dor de coluna, pedra no rim, era bom para azia e má digestão, debelava ressacas e acarretava sorte. Meninas de outras casas me perguntavam, quando eu passava por elas:
“Qué lavá?”
Meu pau passou a ser idolatrado naquela rua, como se, esfregando-o numa pia, promessas fossem realizadas. Já não me cobravam pelo serviço. E, se eu passasse a cobrar, elas me pagariam, como um dízimo. Perdi a conta de quantas mãos estiveram nele. Foi liberada, pela primeira vez, a entrada de meninas de outras casas naquela uma. Uma paz foi selada numa antes concorrida praça de compra e venda. Rancores foram esquecidos. Meu pau reaproximava as pessoas, sanava antigas desavenças. Só uma coisa não mudava. Tinha de ser naquele quarto, com aquela luz de fim de tarde entrando pelas frestas, naquela pia. Ele gerava uma ciumeira danada. Cheguei a presenciar discussão entre as putas, que brigavam para ver quem seria a premiada do dia, lutando por uma bênção, pela hóstia consagrada. Quando me enchi daquilo. Eu estava diante da pia. A torneira, aberta. Havia quatro meninas querendo lavá-lo, disputando a honra. Mas, enquanto brigavam pelo sabonete, eu disse, interrompendo a celeuma, o que jamais deveria ser dito por um ícone, com a voz solene dO Salvador:
“Hoje, não. Hoje, quero metè.”
Foi como se eu tivesse revelado uma farsa. Descobriram o charlatão. Todas me desprezaram. Me expulsaram daquele templo. Nunca mais falaram comigo. E negariam três vezes que me conheceram. E, mesmo se eu oferecesse todas as moedas de ouro, não encostariam mais em mim.
É imperdível, mas vou perder.
Show do FELLINI amanhã, no STUDIO SP. Raridade, pq os caras se reunem uma vez a cada 3 anos – Thomas Pappon, o guitarrista, mora em Londres e trabalha na BBC com o Ivan Lessa. É a banda mais charmosa dos anos 80. E que deu bossa ao rock.
Contei os dias para que essa noite acontecesse. Há uns anos, fui ver um show deles em Pinheiros, no antigo Ípslon, boate de sapatas. Mas os caras não apareceram. Tretaram com o dono horas antes do show. Em seu lugar, tocou o impagável ALEX ANTUES.
Dessa vez eu sei que vão aparecer.

Estou no RIO, acompanhando as filmagens de MALU DE BICICLETA, meu livro que vira filme [roteiro meu]. E também em reuniões de leitura de outro roteiro meu, E AÍ, COMEU?, baseado na minha peça do mesmo nome.
Aliás, as fotos abaixo, de MARCELO SERRADO e FERNANDA FREITAS, que faz a MALU, surgiram neste blog. Explico.
Quando contei aqui da pré-produção de MALU DE BICICLETA, o David Peixoto, de Curitiba, colocou um comentário dizendo que queria fazer o still do filme- fotos para divulgação e continuidade. Pediu os contatos da produção.
Achei que eles já tivessem contratado um cara, mas não. Chamaram o David, e ele acompanha as filmagens, foi contratado. É isso aí, sorte e cara-de-pau, são as variáveis das oportunidades. Olha o trabalho do cara, elogiado pelo diretor [Flávio Tambellini]. Maneiríssimo, como se diz por aqui.
Este blog serviu para algo, enfim, além de estimular a pegação entre os leitores que postam comentários.





Respondendo:
Certa vez, um taxista carioca casado me revelou a sua tática infalível para conquistar amantes.
Ele entra em salas de bate-papo virtuais com o nickname “100% Fiel”. Em segundos, chovem mulheres perguntando se é possível existir um homem com o índice de fidelidade tão alto.
Feito o contado, ele desenvolve o assunto, escuta desabafos, consola as traídas que não confiam mais nos homens, conquista com a sua lábia digital, convida-as para mudarem o papo para o Messenger, troca fotos, palavras de carinho e marca encontros.
Só ao vivo, depois do ato, confessa que é casado. Porque ele está interessado em outras e as dispensa cinicamente. Não quer desenvolver uma relação com a sua… presa?
Está se lixando se alimenta a desqualificação moral de seus pares masculinos. Os fins justificam os meios. E ele pinga, de porto em porto, atrás de uma aventura sexual.
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Amando, profissional liberal, é daqueles caras que, se perguntarem que tipo de mulher o atrai, ele responde: “As que respiram.”
Também casado, é mais direto. Entra em sites de relacionamento com um perfil falso. Procura comunidades como “mulheres divorciadas”, “mulheres boêmias”, “mulheres que topam tudo”. Faz comentários divertidos, abre tópicos polêmicos, provoca discussões sobre a essência da fidelidade e a culpa cristã. A ironia é o seu leme.
As que se seduzem pelas palavras provocativas de Amando, muitas também com o perfil falso, fotos embaçadas ou ilustrações, são convidadas a migrarem para o Messenger.
Lá, a relação é desenvolvida. Fotos verdadeiras são trocadas. E ele sempre confessa, de coração aberto, que é muito bem casado, mas que gosta de se divertir.
Tem contatos em outras capitais. Quando viaja a trabalho, marca encontros com suas paqueras virtuais- algumas também casadas. Pede dicas de bares charmosos, combina a noite. Bebem, dançam, e, no final, a cartada: “Vamos para o meu hotel.”
Teve problemas com uma jovem roqueira que disse que Oasis é melhor do que Beatles. E que preferia ficar se amassando no canto escuro do bar, a conhecer o quarto bem decorado do hotel em que ele se hospedou.
Levou um susto em Salvador, quando, depois de um agradável jantar à beira-mar, levou a conquista, que não parava de beber, para o hotel, e, assim que entraram, recebeu um tapa na cara. “Você gosta?”, ela perguntou. Sua resposta foi devolver um tapa na cara dela, que riu e perguntou: “Tem mais birita nesse muquifo?”
Beberam, se estapearam e transaram. Ela gritou muito. E ele se decidiu nunca mais se hospedar naquele hotel.
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Por que os homens traem? Ficará rico o neurolinguista ou terapeuta, autor de livros de autoajuda, que publicar uma obra que se dispõe a desvendar o enigma. Certamente esgotará as edições expostas em livrarias de aeroporto.
É instintivo? Há a máxima sociobiológica que afirma que o macho alfa da espécie nasceu para espalhar os seus genes, popularmente conhecidos como espermas, entre o maior número de úteros, popularmente conhecidos como garotas, e assim garantir a proliferação e a consequente sobrevivência da tribo.
Pode haver uma interpretação darwinista nesse comportamento duvidoso. O homem que trai se destaca sobre o que não trai, já que conquista mais herdeiros e território. Portanto, a traição estaria no gene masculino. Apesar de imoral, não é culpa do marido canalha. Seria uma manifestação genética?
Aquele que for flagrado, pode vir com essa: “Amor, não é o que você está pensando. É hereditário. Culpe meus antepassados. E meus cromossomos. Não te traí. Foi a sequência de aminoácidos que herdei, que me levou para os braços de outra.”
Apenas corre o risco de ouvir: “Amor, e desde quando você começou a se considerar um macho alfa?”
Os canalhas podem usar também argumentos freudianos. “Querida, o amor pela minha mãe foi castrado pelo fato de haver o meu pai na jogada, o que me causou transtornos irrecuperáveis. Não te traí. Me vinguei. Eu, não, meu inconsciente.”
Argumentos nietzschianos não devem ser descartados: “Honey, Deus está morto, o que nos deixa irresponsavelmente livres para quebrar todos os contratos. Culpe a filosofia e a decadência dos sistemas platônicos, não a mim.”
Talvez filósofos menos niilistas possam ajudar: “Se a consciência estiver seduzida pela sensação, chuchuzinho, um objeto pode ter uma qualidade agora e pode ter outra depois. Foi Hegel quem disse. O que você vê na minha camisa são cabelos de uma loira. Mas podem ser de uma morena. Ou seja, seus.”

Mas Amando segue outra doutrina, a da vida dupla em casa, e a do jogo aberto fora dela. Afirma para seus casos que adora mulheres, não consegue ser fiel, tem uma libido incontrolável e não sente qualquer culpa.
E ela ficou latente num encontro que marcou recentemente, num bairro afastado, com uma de suas conquistas virtuais, uma secretária bilíngue, atraente, que aceitou a cantada de Amando e o seu estado civil, escolheu o dia e a hora e apareceu pontualmente com uma roupa muito sexy.
Apresentaram-se, ela se sentou, pediu o mesmo drinque que ele, sorriu, acendeu um cigarro, jogou a fumaça para o lado, olhou nos olhos do conquistador e mandou:
“Você não tem vergonha, cara? Um homem casado paquerando outras mulheres. Faz isso rotineiramente? Ela sabe? E se ela também tivesse amantes, você gostaria? Por que então está casado ainda, se parece irrealizado sexualmente dentro de casa. Tem filhos? Se separe e fique sozinho, garanhando todas as mulheres da cidade. Não tem deveres com a saúde estrutural do casamento? Acha certo? Você não presta, sabia? Conheci caras como você. Vocês nos enojam…”
E por aí vai. Amando pediu outro drinque. Escutou quieto toda a lição de moral. Concordava eventualmente com a cabeça. Até filou um cigarro da guardiã dos bons costumes. Deixou desabafar. Não interrompeu. Quando, enfim, exausta, ela ficou em silêncio, ele matou a bebida e disse:
“Conhece algum motel aqui perto? Queria mostrar o que esse papinho me causou. Garanto que você vai também se divertir.”
São histórias reais que escutamos por aí. Se ela foi? Claro que não.
Deu na coluna do ANCELMO GOIS[O GLOBO].
O juiz João Paulo Capanema de Souza [24º Juizado Especial Cível - RJ] proibiu que o hilário colunista da ILUSTRADA, Zé Simão, fale de atriz Juliana Paes, que alegou que teve a honra atingida.
A multa por cada notinha veiculada é de R$ 10 mil.
Juliana alega que o colunista “vem publicando reiteradamente nos meios de comunicação em que atua, sobretudo eletrônicos, textos que têm ultrapassado os limites da ficção experimentada pela personagem e repercutido sobre a honra e moral da atriz e mulher e sua família”.
O juiz Capanema não vê “ofensa ou aspecto pejorativo” nas considerações do colunista “sobre a ‘poupança’ da atriz ou sobre o fato de sua bunda ser grande”, já que “sua imagem esteve e está à disposição de quem quisesse e ainda queira ver”.
Mas considerou que o Simão ofendeu “a moral da mulher Juliana Couto Paes, seu marido, sua família”, ao “jogar com a palavra “casta” e dizer que Juliana “não é nada casta”.”
Para os advogados da FOLHA, a decisão do juiz “trata o humor como ilícito e, no fim das contas, é a mesma coisa que censura”.
Tem muitas implicações o gesto da atriz, que fatura em cima de sua beleza incomparável, quer ser notada, capricha na produção, vende, anuncia [em um comercial de cerveja, ela é "a boa"].
Juliana é uma atriz talentosa. Era figurante de novela. Foi notada e puxada para a frente. É agora protagonista. Falar da bunda pode. No entanto, não se pode ironizar com a sua personagem.
No Brasil, se leva mais a sério a novela do que a exposição do traseiro avantajado.
Boa a capa da ILUSTRADA de hoje, da Raquel Cozer, sobre a PIRATARIA no mercado editorial.
Ela conseguiu apurar com as três frentes do mercado: editoras [e livreiros], autores [sou um dos citados] e leitores piratas.
Não tem jeito. A liberdade veio pra ficar. E ganha novos aliados, os e-books, como o Kindle – Amazon e o Sony Reader. Ambos em “papel digital”, que facilita a leitura.
Os primeiros Ipods vieram com travas de segurança, para inibir a pirataria. Não se conseguia baixar músicas de um aparelho no computador que não fosse o do registro, o seu espelho. Resultado da pressão da indústria fonográfica contra a APPLE.
Logo inventaram programas gratuitos para driblar as travas, que mudavam as músicas de MP3 para um misterioso M4A, e o usuário conseguia baixar no seu computador músicas dos mais diferentes Ipods.
Depois, outro programa gratuito mudava as M4A para MP3 novamente. Era uma trabalheira, que ocupava as noites dos amigos.
Agora, no próprio ITunes, programa que rege o Ipod, é possível fazer a transferência e criar uma versão MP3 das músicas corrompidas. A APPLE não pode ir contra a essência do mercado, a gratuidade e a livre troca de dados.
O mesmo ocorrerá com os e-books. Suas travas serão logo logo corrompidas. Pelo Kindle, que só lê livros comprados pelo banco de dados do Amazon, será possível em breve ler todos os formatos já pirateados em DOC, TXT e PDF que já estão da rede.
E programas conseguirão driblar as travas de segurança de versões digitais de jornais e revistas. Certamente não se pagará mais pela notícia da grande imprensa.
O The New York Times saiu na frente e se associou ao Kindle.
Não há o que fazer. Os honorários pagos a escritores e jornalistas estão com os dias contados.
O grande XICO SÁ, autor que libera seus livros editados pela Editora do Bispo na net, já twittou no Face Book, comemorando a liberdade editorial: “boa notícia do dia: os piratas avançam tb no mercado editorial brasileiro. demorô! contra os latifundiários dos direitos autorais. biscoito fino ou Paulo Coelho (q seja) para as massas!”
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Tenho 2 livros pirateados, FELIZ ANO VELHO [de 1982] e BLECAUTE [de 1986], em formatos DOC e PDF, encontrados no Esnips.
Reclamei em vão com o site israelense, que infringiam meus direitos autorais. Eles tiravam na semana, e os livros voltavam na outra.
Neguinho teve a manha e scannear página por página das minhas duas obras. Me senti orgulhoso ao ver alguém passar horas scanneando. Era a prova de que o leitor sentia que meus textos deveriam ser lidos e repartidos.
No entanto, lá se vai uma fonte de renda para financiar os meus caprichos e os dos amigos. Bem, já ganhei muita grana com esses livros, editados nos anos 80.
Talvez seja a hora de eles se libertarem das amarras contratuais. O que lamento é que a versão scanneada é a antiga. Os livros foram reduzidos e reeditados por mim recentemente, e depois publicados pela EDITORA OBJETIVA.
E, enfim, o que realmente interessa, é saber agora como será a estética dessa nova literatura.
Autores não escreverão mais PELO dinheiro. Como para KAFKA e tantos outros, não interessará o gosto do leitor. Nem seduzir o maior número deles. A literatura se libertará da obrigação de vender.
Sei que um verdadeiro autor está se lixando para a quantidade de edições esgotadas de suas obras, e nem escreve visando o lucro. Mas existe, sim, aquele componente mercantil que escreve para vender, que economiza as palavras, que calcula aquilo que é de bom agrado e palatável, para não polemizar ou ofender os olhos do leitor-consumidor.
Sim, a liberdade editorial trará liberdade semântica. Os autores intrusos, que fazem da literatura um negócio, lamentarão. O verdadeiro artista continuará com a sua luta: escrever para exorcizar.
A literatura voltará a ser uma missão, não um negócio. Mas quem pagará o nosso uísque? Então, que se liberem todos os vícios e muletas do solitário e sofrido escritor.
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Já me pararam na rua para elogiar o meu livro FELIZ ANO NOVO. Uma mulher uma vez elogiou o meu livro FELIZ ANO PASSADO. Muitos me chamam de MIGUEL PAIVA.
Poucas vezes acertaram o nome da minha primeira peça, 525 LINHAS- o número de linhas que há na tela de uma TV analógica. Só radialistas e técnicos em eletrônica conseguiam acertar.
O livro BLECAUTE já foi muitas vezes confundido com BLACK OUT.
Bem, até o meu livro O HOMEM QUE CONHECIA AS MULHERES me confunde. Preciso parar para pensar no seu título correto.
Já o meu último romance, A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, é finalista do prêmio PASSO FUNDO ZAFFARI & BOURBON DE LITERATURA como A SEGUNDA VEZ QUE TE PERDI.
O que muda totalmente a trama, já que o narrador, RAUL, não perde pela segunda vez a mulher que ama, mas a reconquista e a conhece pela segunda vez. Tudo bem.

O vencedor do prêmio receberá R$ 100 mil e será conhecido no dia 24 de agosto, na cerimônia de abertura da 13ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, o evento mais importante da literatura brasileira, junto com a FLIP.
A Comissão Julgadora, depois de analisar centenas de obras, divulgou no dia 13 de julho os 48 finalistas que continuam na disputa.
Entre ele, Antonio Lobo Antunes, com a obra “Ontem não te vi em Babilônia”, Moacyr Scliar, com “Manual da paixão solitária”, Milton Hatoum, pelo título “Órfãos de Eldorado”, João Gilberto Noll, com “Acenos e afagos”, e Ruy Castro, pelo livro “Era no tempo do rei”.
Também são finalistas o moçambicano Mia Couto, “Venenos de Deus, remédios do Diabo”, e Chico Buarque, com “Leite Derramado” (vencedor da 4ª edição do prêmio, em 2005, pela obra “Budapeste”).
Chico, Hatoum e Lobo Antunes são barbadas. A SEGUNDA VEZ QUE TE PERDI, um azarão. Quer bater uma aposta?
Hoje saiu no CADERNO 2 a crítica da peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO, escrita por Jefferson Del Rios. Assino em baixo.
Ótima matéria. Ele procura interpretar os motivos que me levaram a escrever a peça. Não cai no adjetivismo. Nem se pergunta se sou ou não do ramo. Acertou em cheio.
Bacana que ele conhece a maior parte da minha obra teatral. Viu a minha primeira peça, 525 LINHAS, de 1989, no AEROANTA [lembram-se dele?]. Viu outras. Assim, consegue analisar a obra dentro de um contexto. Valeu…
A Noite Mais Fria do ano reconta o amor em tempos de internet
Obra de Marcelo Rubens Paiva questiona se liberdade atual traz o vazio às relações
Crítica Jefferson Del Rios
A Noite Mais Fria do Ano, uma história de casais, amores e desamores, contém parte do realismo peculiar de Marcelo Rubens Paiva. Nos seus livros e crônicas ele parece avançar em linha reta decidido a não desviar da pedrada, da flechada cruel que vem em sentido contrário. Porque ele sabe que é difícil – ou impossível – se viver com a mente quieta. Isso desde o começo quando expôs sua história em Feliz Ano Velho (vamos partir da ideia de que o livro, peça e filme não precisam ser explicados). Como é uma pessoa que decidiu viver contra a derrota e contra a amargura, armou-se de um humor autoirônico, manso-feroz, e vai em frente. Escritor na chapa quente, na cinza das horas, da graça possível e do olhar contínuo sobre o amor na contramão. É o que ele oferece nesta peça em que o caos nas relações humanas é quase regra, embora, como sempre, paire no ar a esperança de algo melhor. Desanimador? Não. É aí que mora a força da sua dramaturgia. Poesia, sim, crenças vãs, não.
Em cena, estão homens disputando a mesma mulher; ou, no avesso, uma mulher tentando se achar entre dois homens. Essa conversa, quando se descuida, escorrega no “esse papo já tá qualquer coisa”. Só que Marcelo não é de andar em círculos e seu humor agridoce mantém o enredo sob pressão. Tudo o que já se viu numa relação a dois parece estar sendo contado de um jeito meio ao contrário. E está. Deixa a impressão de historia psicológica que tem nas dobras alguma observação social. E tem.
Na primeira sequência, o diálogo ocorre entre publicitários, ou jornalistas, em acerto de contas quanto ao trabalho. De repente, a coisa é outra, um assunto sexual que se desenrola com um toque de grotesco (hora em que a mão do autor pesa em gosto duvidoso).
A conhecida árvore nua de Esperando Godot – a única testemunha do nada na peça de Beckett – aqui se transmuda, prosaica e divertidamente em uma barraca de coco. O vendedor parece meio ausente (mas só meio, e isso faz diferença). Da conversa sobre a profissão, os rivais passam para a batalha do ciúme, traição ou, quem sabe, uma simulação. Aliás, a falsa aparência, o autoengano e o erro de cálculo são possíveis em A Noite Mais Fria do Ano, que trata de um tempo em que o amor pode ser real ou virtual. A paixão continua idealizadamente a mesma, mas o próprio dramaturgo avisa que os afetos estão cada vez mais flexíveis, alimentando a insegurança. É disso que Marcelo Rubens Paiva entende e coloca no seu teatro em forma de pergunta: “Se hoje vivemos em redes virtuais, que aproximam e afastam as pessoas, somos capazes de manter laços fortes?”
O espetáculo é o retrato dessa fugacidade, ou um lamento. Afinal, se tudo parece hoje mais justo no amor sem as condicionantes sociais e familiares de antes, por outro lado o não compromisso e a facilidade das trocas insinuam algo meio androide, um sadomasoquismo light. Marcelo não teoriza, mas suas frases são carregadas de significados paralelos à ficção.
A Noite Mais Fria do Ano é uma tentativa de teatro dentro do teatro. Ou seja, na segunda parte é revelado que tudo o que aconteceu é o ensaio de uma peça. O que não impede o óbvio de os artistas também serem passíveis das mesmas desditas e erros do personagem. O jogo poderia ser mais interessante, mas se dilui um pouco, porque o elenco se esquece que ali todos continuam artistas mesmo quando em atitudes de atores fora dos papeis. O foco narrativo perde a força, recuperada, felizmente, a seguir. Todos os intérpretes estão inteiros em diálogos pontiagudos em alta velocidade, numa economia de gestos de histórias em quadrinhos. É um bom momento de Hugo Possolo, Alex Gruli, Mário Bortolotto e Paula Cohen. Como diretor estreante (com o apoio da atriz Fernanda D?Umbra), Marcelo começa bem.
E quando a luz se apaga, uma evidência se acende. Se antes (foi ontem) os compromissos conjugais poderiam criar o tédio, a imensa liberdade atual aparentemente traz o vazio. A temperatura da vida abaixa. Em algum lugar alguém estará cantando Lobão (“Chove lá fora/ e aqui tá tanto frio/Me dá vontade de saber/Aonde está você?”).
Marcelo Rubens Paiva é outro poeta dessa velha vida nova.
Minha peça fica só mais 3 semanas em São Paulo, no Espaço Parlapatões, terças e quartas. Hoje é dia [R$ 15 e R$ 30].

Palhinha:
DAN [para platéia]
Como você faz pra esquecer alguém? Bebe? E adianta?
Entra Carol e faz yoga.
DAN
Eu olhei. Que momento. ELA fez a saudação.
CAROL
No que eu pensava? O que para mim é o amor? Estamos presos a ele. Acordo e vem na cabeça: “Hoje, vou encontar o amor”. Tanta coisa, mas sempre o amor em primeiro. É medo da solidão do domingo, de ser colocada na fogueira: a encalhada? É medo do inverno, não ter companhia nos cinemas, estourar o champanhe no Réveillon e não ter quem beijar: feliz ano novo! É medo de envelhecer isolada do mundo, do cinzeiro estar sempre no mesmo lugar, de eu engasgar com um caroço e cair dura no chão sozinha. Este carinha é novo.
Dan faz saudação. Ela faz tudo errado. Ele tenta imitá-la e desconfia que ela está errada, já que ela se entorta toda. As posturas vão ficando difíceis, ela se enrola mais, até ficar totalmente presa. Dan vai ajudá-la.
DAN
Você está bem?
CAROL
Estou o quê?
DAN
Acho que entrou uma frente fria.
CAROL
Vou entrar numa fria?
DAN
Acho.
CAROL
Você se acha…
DAN
Me acho o quê?
CAROL
Se acha se achando. Não acha?
DAN
Não acho nada. Você acha?
CAROL
Que você se acha? Acho.
DAN
Por quê?
CAROL
Sabe que acho que a gente vai se dar bem?
DAN
É?

Eles dançam, como se estivessem numa festa e namorassem.
CAROL
Sabe que gosto do seu humor, do seu cheiro, do seu jeito de lavar as mãos, abrir um vinho, me tocar, me beija. Sabe que gosto do jeito que me olha. Me come!
DAN [pra platéia]
Temos tantas afinidades. Usamos o mesmo hidratante, aceto balsâmico na salada. Temos conta no mesmo banco. Vivemos no mesmo planeta.
CAROL
Tem certeza de que não sou lunática?
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