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Marcelo Rubens Paiva

30.junho.2009 12:22:27

Existe

Hoje tem novidade na minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO [todas as terças e quartas, às 21h, no ESPAÇO PARLAPATÕES]. É que mudei o texto. Como assim?! A peça estreou em fevereiro, você não pode fazer isso!

Posso, sim. Posso tudo. Sou o autor e diretor. E folgado. Eu quem mando. Eu inventei, eu desinvento. Enxuguei uma cena. Tivemos até um ensaio para marcá-la. Uma cena que derrubava o ritmo da peça. Que estava longa [quase 1h50].

Comédia é assim. No papel, dá 1h30 de peça. No palco, vai pra quase 2 horas. Porque o riso muda o timing da cena. Os atores, durante a temporada, sacam quando ele virá. Preparam a fala, como um piloto taxiando na pista de decolagem. Curtem dominar a platéia, jogar com ela. Capricham na piada. Apesar de eu instruir para focarem no texto, não no público. Aliás, maldosamente, enxuguei uma das cenas mais engraçadas da peça.

E A NOITE MAIS FRIA DO ANO, apesar de ser uma dolorida história de amor não completado, é comédia. Feita por 4 atores que conhecem o gênero, gostam de jogar com o público, caqueiam à vontade, dominam o palco com facilidade.

Sou assim, esquisito, ou impulsivo, mudo as minhas peças durante a temporada. Enxugo. Mudo falas. Sugiro cacos. Da minha peça E AÍ, COMEU?, mudei até o título; fora do Rio de Janeiro, ela é DA BOCA PRA FORA.

Na minha peça MAIS-QUE-IMPERFEITO, mudei o final meses depois da estreia- um personagem morria na temporada carioca e viajava na temporada paulista.

A peça NO RETROVISOR teve uma cena escrita num guardanapo de bar, no dia da estreia, depois de meses de ensaio. E na temporada ganhou cortes e uma cena introdutória que mudava toda sessão e era improvisada em cima de um eixo.

Falo disso nessa boa entrevista para o Guia da Folha: http://guia.folha.com.br:80/teatro/ult10…

Bem, não sei se você sabe, mas todos os meus livros anteriores a MALU DE BICICLETA foram reeditados e reescritos, quer dizer, enxugados. Simples, a Editora Objetiva comprou meus livros editados por outras editoras, redigitalizou, me mandou os arquivos, e, metido, passei um ano enxugando e mexendo.

BLECAUTE, UA:BRARI, BALA NA AGULHA, AS FÊMEAS e NÃO ÉS TU, BRASIL publicados pela Objetiva são diferentes dos anteriores publicados pela Brasiliense, Siciliano e ARX.

Em BALA NA AGULHA, mudei um capítulo de incesto. Deixei mais sugerido. De NÃO ÉS TU, BRASIL, cortei mais de 40 páginas. Até FELIZ ANO VELHO cortei.

A pergunta não é “por que faço isso?”, mas “por que não?”, já que tenho domínio jurídico e estético sobre a minha obra. E, lembre-se, Euclides da Cunha mudou 3 vezes OS SERTÕES, incluindo, na última edição, a que ficou para a posteridade e ganhou o status de o maior livro da literatura brasileira, numa lista com especialistas elaborada pelo caderno MAIS, um mea-culpa que até mudava o sentido da obra.

Enquanto eu estiver vivo, meu caro, minha obra está viva.

*

Tem neguinho que reclama de tudo. Estou sem postar desde sexta. E apareceram alguns coments chiando. Eu, um novato na blogosfera, já tinha sido alertado sobre aqueles que reclamam quando não se posta. O que é, vão me denunciar no Procon?

O leitor de um blog se sente um consumidor. E faz exigências. Bom isso. É uma mídia relativamente nova, mas que cria alguns padrões. Um deles é a intimidade entre blogueiros e leitores.

Estive na Feira do Livro de Ribeirão Preto. Passei uns dias lá. Falei no exuberante Teatro Pedro II. Reencontrei o grande poeta Thiago de Mello, que, apesar de morar a 400 km de Manaus, está por dentro de tudo, e acompanha o futebol, tema do nosso papo.

Ele contou que, na primeira contusão grave do Ronaldo, foi visitá-lo no hospital, em Paris, e disse, para um jogador no leito, desanimado: “Os pássaros da Amazônia dizem que você vai voltar e vai ganhar a Copa do Mundo.”

Dito e feito. Ronaldo vive contando essa história por aí. Nem conhecia o poeta, mas acreditou. Esqueci de perguntar ao Thiago o que os pássaros da Amazônia dizem sobre o jogo de amanhã.

Bebi o “fantástico”, chope só com espumas, do Pinguin. Revi amigos. Passei o domingo na praça. Até raspadinha com groselha bebi- há décadas que eu não bebia. Vi poetas locais recitarem. Palhaços mexerem com os pedestres. Sob o sol e o calor da Califórnia brasileira.

Fui sábado de manhã de carro, sozinho, com o Ipod no shuffle. Saí de São Paulo cedo. Estava frio e nublado. Peguei a Bandeirantes. Costumo ir devagar, de janela aberta, curtindo a vista.

Lá pelo quilômetro 80, começa a me dar uma palpitação. O sol surpreendentemente aparece. Naquela área, sempre está sol. Foi onde, há 30 anos, num dique, mergulhei e quebrei a quinta vértebra cervical, o que mudou radicalmente a minha vida.

O sítio em que mergulhei fica na beira da estrada. Toda a vez que passo por lá, dá um nó no meu cérebro. No ano passado, a caminho de uma palestra para a Universidade Federal de São Carlos, fundiu o motor do meu carro exatamente ao lado do maldito laguinho. Voltei guinchado.


PERDEU, PLAYBOY!

Aquele trecho do mundo é amaldiçoado. Estranhamente, um bairro surgiu ao redor e outro em frente. Mas o desgraçado do sítio está lá, intacto.

Coincidentemente, tocava There There [Radiohead], no som: “… just’cause you fell it, doesn’t mean is there” (só porque você sente, não quer dizer que exista).

Passo a viagem com pensamentos atropelados: e se não tivesse acontecido, onde eu estaria, o que estaria fazendo, como eu seria?

Então, me lembro de cada passo, cada pessoa que conheci, amei, penso nos amigos que eu não teria conhecido se não tivesse acontecido, nas viagens, na vida que arrumei para mim, e me acalmo pouco a pouco. Sentiria muita saudade de tudo isso, se não tivesse ocorrido. Não direi que bom que me aconteceu. Porque, estranhamente, apesar de tudo, encontrei felicidade no drama que vivi. Muita.


“Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, tudo será permitido, inclusive brincar com os rinocerontes e caminhar pelas tardes com uma imensa begônia na lapela. Só uma coisa fica proibida: amar sem amor” [Thiago de Mello]

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26.junho.2009 11:30:52

Como elas estão agora?

Cláudia. Claaaro que vai à Daslu. Adooora. É amiga da Tranchesi e tudo. Formou-se em arquitetura, mas morre de preguiça de trabalhar. Mora num lindo apartamento dos Jardins que ganhou de herança. Foi à Parada do Orgulho GLBT. Reclamou que faltou o “A”, de assexuada. É amiga do Nizan e Washington, de Verônica a Supla, freqüenta o Gero, Fasano, Dom, Figueira e Charlô, tem sonhos eróticos com Carlos Fernando, o Cá, que canta no Baretto, gosta de britpop, adorou a absolvição de Michael Jackson, riu muito e dançou Bad na frente do espelho a noite toda. Não sabe cozinhar um ovo. Lê a trilogia de Henry Miller. Assistiu a todos os episódios de Seinfeld. Detesta Friends. Não vota. Só tem título de eleitor para poder renovar o passaporte brasileiro. Mas entra na Europa com o italiano. Está se mudando pra Londres. Cansou. No Dia dos Namorados, estava sozinha, assistindo a Desperate Housewife. Parece uma pessoa tranqüila, mas tem muita insônia. Sofre por algo que não sabe identificar. Dá-lhe Rivotril 1 mg. Escândalos políticos, econômicos, CPIs? Durante o último Jornal Nacional, fazia a lista do que levar nas malas. Prefere os escândalos da família real inglesa.

Delinquente. Se pudesse, explodia o Congresso e todos os anexos. E a Daslu. Que ódio! Daslu, Louis Vuitton, Prada. Que absurdo! Que ostentação! É fã do programa de rádio Garagem. Lê Alex Antunes, Virginia Woolf, Camus. Não tem tatuagem. Gosta da Galeria Ouro Fino, Frevinho, Pé pra Fora. Não arruma namorado, porque quer ficar sozinha, pra aproveitar a vida; não suporta carinha no seu pé. Gosta de acid, house e rock. Foi à inauguração do Vegas Club, na Rua Augusta. É DJ aos sábados no Club 13, em frente à FAAP. Sempre coloca Billy Jean pra comemorar a absolvição de Michael Jackson. Tá difícil se formar em publicidade, apesar de faltar um semestre. Não consegue acordar às 7 horas pra ir à facu, já que costuma dormir às 6. Mora com amigas, porque a mãe não agüentava mais a filha chegar tarde. Vive de frilas. Só anda com amigas lésbicas. Talvez seja uma, mas não assumiu, nem quer pensar nisso. Precisa arrumar um emprego e se formar, só isso! Votou no PSTU de raiva, mas perdeu o título e todos os documentos na última Parada Gay, doida, doida. No Dia dos Namorados, estava de bad trip, bebendo água, deprimida. Chorou, quando soube da crise política. Ela andava muito sensível, chorava de bobeira. Tava pouco se lixando pras desculpas da esquerda no Poder. Achava que a culpa era da cúpula, que roubou, tentou impedir as investigações e CPIs. Nem liga mais. No fundo, não sabe o que quer da vida, sente-se num beco sem saída, mas não pode fraquejar, porque é ela e só ela.

A Iogue. Dorme cedo, porque faz asthanga às 7 horas e iyengar às 9. No começo, praticou no De Rôse, mas achou muito industrial. Mudou para o Espaço Vidya, em que aprendeu com o Cristóvão massagem ayurvedica. Machucou-se, deu um tempo, e agora faz ioga com Regina e Kalidas no Espaço Surya. Foi pra Paris nas férias fazer o curso do Faeq Biria. Leu As Idéias de McLuhan e Autobiografia de um Iogue, do Yogananda. Ganha a vida fazendo massagem ayurvedica. Não economiza no óleo de arnica da Weleda. Adora as peças do Antunes, gosta de Gil-músico, Chico Buarque-músico. Foi atriz, fez várias peças do Nelson Rodrigues, mas se considera canastrona e largou. Não foi à Parada Gay, porque estava no Espaço Nirvana, no Rio, fazendo um workshop com o Laurant. Come no Alcaparra, Maha Mantra e Gopala. Seu biótipo segundo o ayurveda é pitta. Loja nova da Prada? “Vende mat de ioga lá?” Está preocupada com o desdobramento da crise política, mas, como pensa em morar na Índia… No Dia dos Namorados, praticou. Seu namorado está numa clínica de desintoxicação, viciado em metadona. Ela guarda dinheiro para levá-lo à Índia, porque ele é a coisa que ela mais ama no mundo. Mais do que a ioga. E acha Michael Jackson um desequilibrado, que deveria fazer meditação.

Da série Stéryótypes, publicada em 2005 no Estadão e no livro O Homem Que Conhecia As Mulheres (Objetiva; 2006)

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25.junho.2009 12:30:44

Mansalão – o filme

Não foi difícil para o diretor José Padilha [Última Parada 174, Tropa de Elite], depois de ganhar o Urso de Ouro no Festival de Berlim e ter a maior bilheteria do cinema nacional em 2008, conseguir grana para rodar em 2010 Tropa de Elite 2.

O ambíguo Capitão Nascimento [Wagner Moura, que atuará com Selton Mello], aparecerá mais velho, lotado na Secretaria de Segurança Pública – RJ, para combater crimes do colarinho branco – roteiro de Braulio Mantovani.

No entanto, é o próximo projeto de Padilha que, sim, dará o que falar. Ele pretende fazer um longa sobre os bastidores do MENSALÃO, depois das eleições de 2010- e cujo roteiro já está em andamento.

Interessante será comparar a facilidade ou dificuldade para se captar dinheiro para Lula, O Filho Do Brasil, filme já rodado de Fábio Barreto, orçado em mais de R$ 13 milhões, e Mensalão – O Filme.

Já imaginei um começo.

1. INTERIOR. APÊ DE RENATA EM SP – NOITE

A jornalista Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, linda, sai do banho enrolada numa toalha e prepara uma salada light. Renata, que foi minha colega da ECA, começou a carreira como modelo. Era a garota mais bonita da faculdade. Quem poderia fazê-la no cinema? Que tal Fernanda Machado, que fez Tropa de Elite?

Toca o telefone, Renata se assusta e derruba o azeite nas suas pernas. Filme brasileiro tem que sugerir sensualidade. Sim. Nós, jornalistas, também somos gatos.

2. INTERIOR. APÊ DE JEFFERSON EM BRASÍLIA – NOITE

Do outro lado da linha, Roberto Jefferson, ouvindo ópera, surtado, fala sem parar: “Vou contar tudo, ligue o gravador. Escolhi você. O cara do Estadão me chamou de metrossexual. Que porcaria é essa? Pensa que sou boiola, só porque gosto de ópera? Sou macho! E magro!”

3. INTERIOR. RESTAURANTE CHIQUE – NOITE

Corta para Delúbio Soares entrando no restaurante mais caro da cidade. Encontra Marcos Valério. “Lembra de quando éramos de esquerda?”, ri Delúbio, assim que se senta na mesa e se serve de champanhe. “O que vai querer, socialista?”, pergunta Valério. “Lagosta. E caviar. Quem gosta de miséria são os intelectuais e o Genoino”.

Discutem o esquema do Banco Rural e o valor da mensalidade a ser paga a congressistas: de R$30 mil a R$ 150 mil. Quem faria Valério? Que tal Wagner Moura careca. Delúbio? Selton, ora.

4. EXTERIOR. JATINHO PARTICULAR – NOITE

Corta. Jatinho cruza o céu do Brasil. Na fuselagem, está escrito OPPORTUNITY. Dentro, Daniel Dantas examina a autenticidade de um quadro valioso e fala no celular. Dita para algum jornalista, do outro lado da linha, o abre de uma matéria. “Não use cera de ouvido, fale tudo já no primeiro parágrafo”, sugere Dantas, com conhecimento de causa. Ensina alguns princípios básicos do bom texto jornalístico.

Desliga, olha o quadro e diz: “Essa droga é falsa! Eu compro.”

Casting sugerido:


FERNANDA E LO PRETE [MODELO EM 1986]


VALÉRIO E WAGNER


DELÚBIO E SELTON

*

Lula falou 3 grandes besteiras na semana passada.

1. Que os protestos no Irã são de quem não sabe perder uma eleição.
2. Que Sarney é uma pessoa intocável, devido ao seu histórico.
3. Que desmatador não é bandido.

Já corrigiu a primeira, afinal era o único líder político que não se manifestara contra a repressão aos protestos. E as outras duas?

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23.junho.2009 13:29:47

Diploma?

Sim, que seja eliminada a obrigatoriedade do diploma para jornalistas [e radialistas também]. O mercado tem condições de dar as ferramentas que um profissional precisa: ética, princípios, bom senso, precisão no texto.

A técnica e o termos se aprendem e uma semana de estágio: lide, pauta, chapéu, orelha, abre de página etc. A vivência é que cria um bom jornalista. Suas fontes aparecem com o tempo. O ambiente de uma redação ensina mais do que muitas faculdades. E escrever bem não se aprende na escola.

Há grandes jornalistas médicos, engenheiros, advogados, poetas, observadores, contadores de histórias.

Concordo com o amigo Maurício Stycer, que já trabalhou em muitas publicações [JB, Folha] e postou no seu blog no dia 18 de junho.

Dou aulas de jornalismo, de forma não contínua, desde 1994. Já passei por cinco faculdades diferentes. Ao longo do tempo, adquiri algumas certezas e muitas dúvidas sobre a necessidade do diploma de jornalismo para o exercício da profissão de jornalista.

Tento a seguir ordenar alguns argumentos e questões sobre o fato.

1. O que é preciso saber e aprender para ser jornalista? É uma questão polêmica. Há alguns consensos: é preciso ter cultura geral e domínio total da língua portuguesa. Conhecer história é fundamental. Matemática e estatística são conhecimentos necessários. Ética. Direito. É preciso ter o hábito de ler jornais e revistas, ter gosto pela informação. Ter espírito crítico, ser capaz de compreender a realidade em que vive, é outro atributo obrigatório.

2. Onde adquirir os conhecimentos citados no tópico anterior? Começa em casa, prossegue na escola básica, depois na secundária e, finalmente, na faculdade. Qual faculdade?

3. Você não precisa cursar uma faculdade de jornalismo para aprender nada disso.

4. Quais são os conhecimentos específicos necessários para ser jornalista? Entramos aqui no terreno da técnica. Não são muitos. Desafio alguém a defender a necessidade de mais do que dois anos de estudos para adquirir conhecimentos específicos da profissão, tais como técnicas de entrevista ou técnicas de redação voltadas para diferentes mídias.

5. Pessoalmente, acredito que um ano, com uma oferta de cursos bem articulada, cumpra bem esta função de transmitir conhecimentos específicos da profissão. Mas admito pensarmos até em dois anos. Mais que isso é embromação.

6. Discordo do meu amigo Leandro Fortes, para quem o diploma de jornalismo defende “milhões de brasileiros informados por esquemas regionais de imprensa, aí incluídos jornais, rádios, emissoras de TV e sites de muitas das capitais brasileiras, cujo único controle de qualidade nas redações era exercido pela necessidade do diploma e a vigilância nem sempre eficiente, mas necessária, dos sindicatos sobre o cumprimento desse requisito”. Na minha opinião, não é o diploma que defende o público dos manipuladores de notícias, mas a concorrência. Sem concorrência, como é o caso em grande parte do país, a imprensa de má qualidade prospera – e continuará a prosperar – com ou sem diploma para jornalista.

7. Meu amigo Ricardo Kotscho preocupa-se com outra questão importante. Tudo bem, acabou a obrigatoriedade do diploma. Mas, e agora? Concordo que não podemos, de fato, ficar numa espécie de terra de ninguém, sem algum tipo de regulamentação.

8. Defendo, para início de discussão, que a prática só seja permitida a pessoas com formação universitária (em qualquer área, inclusive jornalismo), mais um curso de especialização técnico.

Assino embaixo.

*

Em 2006, escrevi um texto para o CADERNO 2, sobre o meu diploma pendurado no lavabo de casa, que polemizou e virou depois matéria da Revista Imprensa.

Mandaram até um fotógrafo aqui para fotografá-lo no banheiro. Não me controlei e posto aqui. Ciente de que alguns programas citados nem existem mais.


Diploma no lavabo

Fiz uma provocação aqui em casa. Amigos e convidados apoiam. Coloquei meu diploma da USP no banheiro. O assinado pelo reitor da época, Flávio de Moraes, e pelo diretor da Escola de Comunicação e Artes, em papel-manteiga entre dois vidros, com o brasão da universidade em dourado, provando (comunicando?) que sou bacharel em comunicação social. Está pendurado em cima da privada. Um protesto. Ou melhor, uma intervenção, exprimindo o desgosto com a profissão.

Sou formado em rádio e TV. Teoricamente, treinado para produzir, dirigir, editar, apresentar, apurar, reportar programas de rádio e televisão. Trabalhei pra Gazeta, Rede TV!, Band e Globo. Na TV Cultura, apresentei dois programas. Conheci de leve o fazer TV. E a deixei, convicto: um peixe na areia pulando em vão.

Nunca apoiei a obrigação de diploma para jornalistas ou radialistas, exigência fisiológica herdada de movimentos sindicais pelegos do regime militar (ironia). Não são profissões que colocam pessoas em risco. Não? Depois dos acontecimentos em 15 de maio [dia em que o PCC parou a cidade], do pânico alimentado pelas rádios e TVs, do sensacionalismo evocando o medo, passei a duvidar da ética de meus colegas e da consciência de sua responsabilidade.

O Brasil da TV e a TV do Brasil são histéricos. Os locutores esportivos não narram, urram. As notícias quase sempre são apresentadas aos gritos, como jograis infantis, repare. Depois, programas de malucos com gostosas, ou de gostosas com platéias em transe, alimentam bizarrices. Quando não há culto, descarrego ou venda de jóias e tapetes.

É um stress assistir à TV brasileira. A bolsa não cai, despenca. Clichês se repetem: “A gente sai de casa e não sabe se volta vivo, sô!” Ditadores são chamados de facínoras. Crimes, de massacres. Culpam as autoridades, omitindo que, num Estado democrático, nós somos as autoridades.

É fácil, para a reportagem local, o discurso genérico do caos. O inimigo é o Bin-Laden, o Beira-Mar, o Marcola. A TV Brasil trata o seu público como atrofiado. Somos? Ora, a luz do Masp foi cortada. Somos. Lembro um clássico dos anos 80, Psicopata (Capital Inicial): “Esta vida me maltrata, estou virando um psicopata, quero soltar bombas no Congresso, fumo Hollywood para o meu sucesso, sempre assisto à Rede Globo com uma arma na mão, se aparece o Francisco Cuoco adeus televisão.”

Imaginávamos que a TV paga iria nos salvar. Quantos jornalistas comandam programas? Na maioria, o triedro atriz-manequim-modelo. No programa Tribos, Dani Suzuki. “Você vai poder ficar por dentro das manias e curiosidades das tribos urbanas, sempre com a presença de uma pessoa que entenda do assunto, para traduzir as tendências”, afirma o site do canal. A apresentadora não entende nem é capaz de traduzir? Ora, então por que não contratam logo uma pessoa que entende do assunto?

E quem mais estreou no Multishow? Jorge de Sá, da família Sandra de Sá. Seu programa, Mandou Bem. “Jorge de Sá vai aos eventos que estão agitando a cidade e dá dicas com as melhores opções para os jovens se divertirem no final de semana: shows, estréias de cinema, teatro e muito mais”, informa o site, que traz o perfil de Jorge. Melhor filme: Batman Begins e 25th Hour. Qual a sua tribo? “Das boas vibes…” Balada preferida? “Onde todos estiverem com disposição”. Experiências de vida inesquecíveis? Morar nos Estados Unidos. Ator preferido: Tony Ramos. Cantor ou cantora preferida: Sandra de Sá. Ah, vá… Suas manias? Andar fazendo dribles e cestas de basquete. Sonha em ser… “Bem sucedido na vida em todos os sentidos”. Frase, ditado, lema: “Pra que o medo se o futuro é a morte?” Mandou bem…

O cara que tem Batman Begins como um marco me indicará as melhores opções para eu me divertir no fim de semana de boas vibes, claro. Se meu diploma cair do prego, encontrará seus pares.

*

“Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito” [Fernando Pessoa]

Não sei você. Acho Fernando Pessoa o maior poeta da nossa língua-mãe. Por anos, gostar e Pessoa era censurável. A vangurda o considerava relativamente piegas e “fácil”. Eu, hein?

O espetáculo português com textos dele, TURISMO INFINITO, do Teatro Nacional São João de Porto, ficará de 19 a 28 DE JUNHO no SESC PINHEIROS [Teatro Paulo Autran].

Em Julho de 2000, o Teatro Nacional São João trouxe o espetáculo Madame -a partir de uma ideia da Fernanda Montenegro, com Eva Wilma no elenco. Também fez parceria com Arrigo Barnabé em 2008, no projeto músico-cênico Caixa de Música.

E, sim, eles montaram FELIZ ANO VELHO em Portugal, nos anos 80, e ajudaram a levar a minha peça NO RETROVISOR para o festival de Porto em 2004. A ligação deles com o Brasil vem de longe.

O diretor Ricardo Pais, que dirigirá a Fernandona num próximo espetáculo, propõe uma leitura da vida e obra de Fernando Pessoa a partir de vários textos- coloca os heterônimos conversando entre si, o visionário Álvaro de Campos, o guarda-livros Bernardo Soares, o “Fernando Pessoa”, o bucólico Alberto Caeiro e também Ofélia – a única mulher que o envolveu amorosamente. O espetáculo é dividido em três blocos e um epílogo.

Além disso, hoje, terça-feira, às 19h, haverá uma MASTER CLASS com Ricardo Pais no palco do Teatro Paulo Autran [50 vagas]. Retirada de ingressos pelo sistema INGRESSOSESC [é grátis].

SESC Pinheiros é na Rua Paes Leme, 195. Bora?

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22.junho.2009 00:11:17

A química

O Bailinho era uma festa que começou aos domingos para poucos amigos, geralmente atores que queriam se divertir depois das peças, num inferninho de Ipanema. Ideia do ator DJ e agitador Rodrigo Penna.

Como tem muita gente que gosta de ir aonde atores vão, o negócio cresceu, foi para o MAM, no Aterro do Flamengo. Bombou:
 http://blog-do-bailinho.blogspot.com/

A festa Gambiarra, daqui de São Paulo, também começou pequena, nos salões de um hotel fechado do Anhangabaú. Atores pagam meia. É também aos domingos. Era. Agora, além do hotel, em que vão mais de 1.200 pessoas, colocaram 4 mil na The Week, numa sexta.

Aliás, o ator da minha peça, Alex Gruli, e a minha produtorazinha elétrica, Anna Ciça, são uns dos idealizadores. Me lembro de quando ela me falou da ideia há alguns anos. Eu disse: “Qual maluco vai se jogar numa festa na madrugada da segunda-feira?” Bem. Pencas de malucos se jogam. Malucos ou vagais? Ou frilas. Ou estudantes noturnos. Ou que dormem pouco.

O Bailinho se expandiu, faz festas em outras cidades, como um circo itinerante. A sua decoração lembra a de um arraial, por sinal.

Estiveram aqui na Casa das Caldeiras na última sexta. Não sei como nem por que apareci por lá. R$ 120 o ingresso. R$ 10 o maço de cigarros. R$ 15 a dose de uísque Ballantine’s 15 anos [informou a mocinha do bar]. Bem, até aí, pagam-se R$ 12 por uma dose de Rojo Label, o Red Label paraguaio, no bar mais mequetrefe da cidade.

Comigo, uma horda de jovens perfumados [2.000] cantando “deixa a vida me levar…” Bailinho? Virou um Bailaço.

E como balada + teatro parece ter uma química que rola, o STUDIO SP também inaugura as suas segundas-feiras de apoio ao teatro e cinema. Cede a casa para que produtores de espetáculos inéditos consigam grana para suas produções.

Inaugura nesta segunda com o grupo que monta BRUTAL, texto e direção do meu parceiro Mario Bortolotto. Estou dentro.

*

Me perguntaram aqui como será a venda de ingressos para a minha peça, A NOITE MAIS FRIA DO ANO [terças e quartas, 21h, no Espaço Parlapatões], nessa semana em que há a Festa do Teatro, com distribuição de ingressos gratuitos no Municipal, Centro Cultural e outros lugares.

Soube que os ingressos das peças mais conhecidas se esgotam, mas em torno de 10% não vão. Pessoas que pegam o ticket e desencanam. A nossa peça é das mais procuradas. Mas teremos então 10% da casa livre. Fonte segura: do próprio Hugo Possolo, idealizador da Festa e protagonista da minha peça.

Decidi então deixar entrar, sem cobrar, já que o espetáculo é comprado pela CCR, aqueles que chegarem em tempo de ocupar os lugares vagos. Justo?

*

Minha crônica do último sábado no Caderno 2 foi sugestão de uma leitora que postou aqui um comentário. Não sei se ela assina o jornal. Então, essa é pra ela. Obrigado pela dica:

Acontece que…

O que acontece? Quando ainda estão no carro, voltando de um jantar com amigos, já aparecem os comentários: “Bebi muito”; “Deu um sono”; “Amanhã tenho um dia tão difícil…” E nem deu meia-noite. É o código. Hoje não rola. Como ontem, como antes…

Cruzam a garagem rapidamente, atacados pela corrente de vento gelado. Nem encaram o porteiro. No elevador, cada um num canto. Ele quem aperta o botão do andar. Sempre é ele quem aperta, ela reparou. Ele quem comanda. Gosta de. Ele quem dirige, atende o interfone, pega o jornal às manhãs, decide as férias, se está frio, se devem trocar de carro, de aparelhos de tevê, DVD, MP3.

Não estão nada bêbados. Poucas taças. Entram em casa e se separam. Cada um tem o seu ritual de dispersão, encerrar o dia, organizar, recolocar. Ela checa os emails e a ração para os gatos. Ele lista os afazeres da empregada, fica pouco tempo no banheiro, se joga na cama e liga a tevê.
Ela ainda toma um banho. Gasta alguns minutos se lambuzando com cremes. Checa cutículas indesejáveis, passeia os olhos pelo espelho de corpo inteiro: a frente e as costas, os cotovelos e as pernas. Seca o cabelo com um secador barulhento- o síndico irá reclamar um dia.

Entra no quarto. Ele dorme com o controle remoto na mão. Ela desliga apertando o botão da própria tevê, desliga o abajur, vai para o seu lado da cama e se deita no escuro. Coloca um travesseiro entre as pernas. Escuta um caminhão ao longe. Amanhã tem feira. A criança do vizinho chora, e um alarme dispara.

Um está e costas para o outro. Dorme? Não, porque ele ainda diz: “Boa noite”. Ela responde com um grunhido simpático, fica ainda um bom tempo de olhos abertos. E se pergunta: O que acontece?

Acontece que, estranhamente, ela precisa de colo. Que ela não sente mais aquele frisson quando cruza a garagem do prédio. Porque não o provoca mais no elevador, ignorando a câmera, desabotoando a camisa dele, esfregando o joelho nele, apalpando-o, assim que ele aperta o botão.

Acontece que eles não se beijam mais quando entram em casa, não escutam uma música no escuro, que ela não senta no colo dele diante do computador, nem tomam banhos juntos. Acontece que ela não olha mais para o espelho para checar o que irá mostrar daqui a pouco, nem planeja como entrar no quarto, para se oferecer enrolada numa toalha, engatinhar pela cama, roçar o nariz na perna dele, lamber do umbigo até a boca, deitar sobre ele como um cobertor, morder o seu pescoço, sua nuca, seu ombro.

Acontece que ela não apagaria aquela tevê, nem a luz, nem a noite. E ele nem diria boa noite, mas bem-vinda. E depois de tudo, sim, dormiriam pesadamente; nenhum alarme, criança ou caminhão seriam notados.

Acontece que ela acordaria, e ele estaria ainda na cama. Acontece que ele não comenta mais a cor da sua calcinha, do seu esmalte, dos seus olhos. Acontece que ele não a elogia mais, não surpreende, não desafia, nem provoca, não confunde as palavras, nem engasga quando ela aparece de toalha, não corre mais atrás dela, não a acorda em cima dela, como uma manta, não abraça como uma toalha, não abriga como água quente.

Acontece que ele já saiu, quando ela se levantou da cama de manhã. Nenhum post está fixado, com algum carinho escrito. Nem rascunho de bilhete existe. Ele não irá mandar um torpedo do trabalho, nem um email.

Acontece que há tempos não repartem um cigarro, não se perdem por uma estrada de terra, não discutem se o que veem é um disco voador ou um satélite espião russo. Acontece que ele não a espia mais pelo buraco da fechadura, não tira fotos dela se enxugando no espelho, não dá sustos quando ela tem soluços, não beija os seus pés, não conta as suas pintinhas, não canta em voz alta pela casa, não a acorda lambendo a orelha dela.

Acontece que há muito não saem os dois sozinhos, e entram num filme sem saber o que a crítica achou. Sem lerem os créditos, sentados na última fileira, se tocando, se beijando. Acontece que eles não repartem mais a pipoca, o refrigerante zero, o drops. Acontece que o diferente virou eventual, a rotina, habitual. Que todo desconhecido já se revelou, que a surpresa é predita, que o consumado é fato, o previsível, farto, e o pressuposto, preposto.

O que acontece é que ela sente falta de ser notada e elogiada dentro de casa. De ter calafrios. De sentir a pele esquentar. Acontece que ultimamente ela se veste para ninguém. Que ela nem liga mais rádio do carro. Que não a comove o xaveco no elevador do escritório. Que só troca emails de trabalho. Que ela almoça massa, se entope de pão e ainda se delicia com sorvete com caldas. E agora costuma pedir chantilly no café.
O que acontece com ela, que nem tinge mais o cabelo, falta à natação, não corre com as amigas, não compra sapatos, não troca a lente dos óculos riscada, não recebe mensagens românticas pelo celular?

Acontece que o incêndio se acomodou. Ela não se pergunta se é assim que tem que ser. Acontece. É cíclico, ouviu dizer. Pode ser que melhore. Por que perder o fôlego toda vez que o encontra? Já passou. Viva outra fase. Afaste essa vaidade. Não seja carente. Encare os fatos. A vida é assim. É?

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19.junho.2009 12:34:55

De graça

Alguém finalmente pensou em como a lei de incentivo à cultura deveria ser executada.

A CCR, concessionária de pontes e estradas, deu a grana, que pagaria para a Receita. Dois produtores de peso, J LEIVA e Sandro Chaim, abraçaram a causa. E, durante dez dias, 33 mil ingressos de mais de 100 espetáculos de São Paulo, de musicais aos mais alternativos, serão distribuidos de graça em postos fixos e móveis [Teatro Municipal, Centro Cultural e outros]. Olha a lista deles e das peças no site:
 http://www.festadoteatro.com.br/

A ideia foi do meu ator e palhaço Hugo Possolo. Por sinal, nossa peça, A NOITE MAIS FRIA DO ANO, é uma das enquadradas. Na próxima terça e quarta, no ESPAÇO PARLAPATÕES, o espetáculo será gratuito. E a produção recebe da CCR o equivalente a duas casas cheias pagando meia entrada.

É um ótimo negócio para todos. O que quase segue a rotina: 80% dos ingressos vendidos em São Paulo são meia entrada, fruto da falsificação de carteirinhas. Parecemos nos conformar com tal abuso. Por outro lado, queremos também ingressos baratos e a adesão do público jovem.

Todos questionam a funcionalidade das leis de incentivo, que cobram as despesas de grandes e pequenas produções, viabilizam espetáculos, mas cuja contrapartida em alguns casos não oferece vantagens ao público contribuinte e popular.

O símbolo da contenda é o Cirque du Soleil, que arrecada milhões de empresas que deixam de pagar impostos do incentivo e oferece ingressos a mais de 200 paus.

Aí está uma iniciativa para sacudir o mercado, que nos faz repensar as leis e o papel do fomento da iniciativa mista e privada. Se a PETROBRAS, MASTERCARD, BRADESCO, BR, VISA, TIM, CLARO, VIVO, OI, CORREIOS, ELETROBRAS, SABESP, FIAT, ITAÚ, UNIBANCO e tantas outras fizessem o mesmo, imagina o quanto o País ganharia… Uma semana de cada mês, ingressos gratuitos. No teatro e cinema. Que tal?

*

Esse é o cara.

Depois de protagonizar uma das maiores bilheterias do cinema nacional, MEU NOME NÃO É JONNY, entra em cartaz batendo recordes, A MULHER INVISÍVEL, estreia JEAN CHARLES, rodou o próprio longa, FELIZ NATAL, e, em 17 dias, outro longa de Mauro Lima, REIS E RATOS, com Rodrigo Santoro, filme em preto e branco, no maior clima noir, sobre as trapalhadas de agentes duplos durante o Golpe de 64, cujo tieser [trailer longo de 8 minutos] vi outro dia e, adianto, é pra lá de bom.

No entanto, declarou à ÉPOCA que está em crise de criação. 5 personagens em meses. De onde mais ele pode buscar recursos e inspiração?

Falei sobre isso com minha amiga Bel, atriz de 20 anos, que rodou 2 longas agora, o filme do Arnaldo Jabor e o sobre o Lula. “Quem me dera fazer cinco filmes, cinco personagens, em tão pouco tempo…”

Eu entendo o cara. Teve um ano que fiz 4 peças de teatro [NO RETROVISOR, O CLOSET, AS MENTIRAS QUE OS HOMENS CONTAM e MARCIANOS]. Todas num mesmo semestre. Eu não sabia mais o que dizer nos ensaios ou na divulgação. Não encontrava mais conflitos, frases ou palavras que já não foram ditas. Todos os truques cênicos foram gastos. Entrei num estresse mental.

Encontrei o Selton outro dia na Merça. Ficamos bebendo a noite toda. Falamos disso. No entanto, me veio a luz. Se fazer o que você sabe fazer, cara, já está bom demais. O repertório dele não tem fim. E o público ama.

É o maior ator em atividade. Carisma. Todos o querem. Mistura comicidade com drama como poucos. Abraça a causa do cinema apaixonadamente. Fez CHEIRO DO RALO sem ganhar um tostão; ao contrário, pagou do próprio bolso o hotel em que ficou hospedado na cidade. Usa a publicidade [é garoto propaganda do SANTANDER, você já notou] para escolher os papéis e projetos. Despreza convites para fazer novela. Pensa mais nos desafios do ator do que na conta bancária. Não é o cara?

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18.junho.2009 11:56:11

A nuvem

“Ressaca é como acordar após comer horas e horas de jornal amassado.” [postou Jessica]

“Usar jaca de pantufa” [expressão da Patríca]

Mas à noite, ela foi curada. Adivinha por quê?
Todo Poderoso Timão 2 X 0.
Estava bonito o estádo ontem.
Lotado. Cantoria. Gol do Fenômeno.
Um jogo tenso daquele e torcer curam até pedra no rim.
A paz reinou dessa vez.
Também, estava toda a PM lá.
Inclusive com helicóptero.
E um baita cheiro de maconha no ar.

Ninguém fala disso, mas em qualquer evento público dessa cidade, aberto ou fechado, pago ou livre, paira sobre nós uma nuvem perfumada de maconha.

Será que na próxima convenção do PSDB estará liberada? Afinal, seu presidente de honra, FHC, defende a descriminalização.

No show do Radiohead, ela chapava até quem mora em Taboão. Na maioria dos shows em que vou, em baladas e inferninos, me oferecem [eita fama...]. Não, obrigado. Mas também não tenho nada contra. Incomoda menos do que cheiro de cigarro. Aliás, como farão na lei antitabaco, que vigora a partir de agosto? Cigarro, não, basulo, sim? E haxixe com tabaco? Skank pode?

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17.junho.2009 12:30:03

RESSACA

a maçaneta da porta emperrou
colocaram fogo no elevador
fumo sem parar
bebo sem parar
hoje eu queria que ontem não existisse
é
eles têm razão
beba com moderação
nem cantar consigo
minha música é um zumbido
minha língua estala
dancei a noite toda
tudo dói
por que a gente é assim?
não quero escrever
quero só esquecer
não quero ler
hoje podia ser logo amanhã
para meus olhos voltarem a ver
o que hoje é transparente
incolor
o mundo podia parar de girar
só hoje
até eu curar
essa puta ressaca
não me paguem mais bebida
helena, por que você me deu aquela garrafa ontem?
marião, porra, precisamos maneirar
você vulgarizou a palavra amor
pé na bunda rima com uísque de segunda?
paula, chegou bem em casa?
a gente quase rola pela calçada
voltei escutando billy paul no talo
como na minha adolescência
ainda bem que não tinha blitz
e que não matei ninguém
alguém esqueceu algo no meu carro?
dói olhar
dói escutar
dói pensar
hoje não quero nada
não penso em nada
não sinto fome
não quero ser beijado
nem tesão eu tenho
o vento agride
o sol cega
vou acender mais 1
rsrsrsrsrsrsrsrs
não me telefonem
só hoje
amanhã recomeçamos
o que parece não ter fim
essa vida plugada na tomada
220 volts
por que a gente é assim?
serafim?

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15.junho.2009 10:55:22

A vida é uma festa?

Eu também leio PORNOPOPÉIA, do grande REINALDO MORAES- capa do Estadão e do Globo desse fim de semana. Há muito eu não lia um livro que me era tão próximo. Parece narrar o meu círculo.

REINALDO brincou uma vez comigo, quando os originais tinham 1.200 páginas [agora tem 500], que era o seu ULISSES. O épico irlandês que se passa em 1 dia é ilegível. Já as construções das palavas, o ceticismo, a imoralidade e a narrativa de PORNOPOPÉIA prendem.

O narrador leva a vida que muitos gostariam de levar, liga um grandessíssimo FODA-SE. Desconcentrado, está conectado com a cidade, não com ambições do mercado. Parar para escutar THE DOORS com uma adolescente parece mais vital que entregar o roteiro de um institucional. É a história de um cara que não envelhece. Que não leva nada a sério. E que não dá vontade de terminar.

É a marca da minha geração, cínica e festeira.

*

Quem acompanhou as finais a NBA ficou chapado pelos jogos emocionantes, técnicos, pegados, com jogadas incríveis, raça, todos decididos nos últimos segundo, alguns deles na prorrogação.

O lendário LAKERS, de LA, a cidade dos anjos da CALIFÓRNIA, símbolo do American Way of Life, da fantasia e grana, ganhou merecidamente. No entanto, a festa da comemoração extrapolou.

Uma semana antes, publiquei no CADERNO 2 o texto abaixo. Profético? A juventude está sem bandeira. E não sabe mais festejar a vida. Como disse Nelson Rodrigues: “Jovens do mundo todo, envelheçam!”

A causa

Passei o último réveillon em Barcelona, depois de anos alternando entre Bahia e Rio de Janeiro, habituado a festinhas de amigos (ou públicas), na beira da praia, com conhecidos (ou não), doido (ou sóbrio), feliz, com fé no futuro.

Fico acordado até o sol amanhecer num ano novo, em que tudo melhorará, deixando para trás mágoas passadas, projetos inconclusos, amores rompidos, e me desfazendo mentalmente das roubadas em que me meti.

Barcelona foi escolhida pois tem a mística de uma cidade festeira, em que vivem os cariocas da Europa. À meia-noite, celebramos a passagem no quarto do hotel com varanda, bebendo Cava, o vinho catalão, assistindo pela tevê à transmissão da festa na Praça da Catalunha, a poucas quadras- duas emissoras locais transmitiam ao vivo.

À uma da manhã, decidimos dar um rolê. Cruzamos com bêbados de todas as idades. Ninguém de branco. Imaginávamos assistir a algum show ao vivo. Nada. Nem soltaram fogos. Medida de segurança na luta contra o terrorismo? Bem, eles têm o direito. Foram alvos do ETA por décadas e até da Al-Qaeda.

Na praça, um motim. Clima de guerra urbana. Havia mais ambulâncias e carros de polícia do que gente. Garrafas foram atiradas. Jovens em grupos, meninos e meninas descontroladas, provocavam a polícia.
Blindados, carros de limpeza e de combate contra distúrbios urbanos dispersavam a multidão com jatos de água. Muitos adolescentes desmaiados pelas calçadas. Que maneira estranha de se divertir.

Na semana passada, ocorreu o mesmo, durante a celebração da conquista do Barça, campeão da Liga dos Campeões da Uefa. Saldo: cinco mortos. O mesmo ocorre em cidades americanas, quando o time local vence o Super Bowl.

Eu, como já fui um pequeno vândalo, entendo, apesar de não concordar com os fundamentos.

Enquanto aqui celebramos a passagem de ano com champanhe, fogos, abraços, beijos e shows ao vivo, dançando e pulando, mandando boas vibrações para os céus e flores para Iemanjá, lá eles saem na porrada. Sim, ainda somos cordiais. E sabemos festejar como poucos.

*

Minha carreira de pequeno vândalo começou na adolescência. Eu poderia usar a desculpa que recebia má influência do grupo de colegas marginalizados na tradicional escola de Alto de Pinheiros, em que estudavam os filhos da elite paulistana. No entanto, não fiquei à margem da História.

Eu andava com os mais pobres da escola. Ou melhor, os menos ricos. Achávamos que as meninas não nos davam bola, pois não tínhamos carros, casas no litoral, guitarras importadas, pranchas de surfe havaianas, roupas de grife, nem mansões para as festas inesquecíveis: os injustiçados.

Viajávamos de carona. Dávamos shows com violão Made in Brazil (Giannini ou Di Giorgio). Usávamos Kichute. Íamos de busão para a escola. E eventualmente roubávamos os carros dos pais, fugindo de blitze, evitando avenidas movimentadas. Sim, foi um erro na minha vida. Pobre da minha mãe, que não reclamava, apesar de eu nem esvaziar o cinzeiro do carro, quando chegava de madrugada.

Éramos conhecidos como “comunistas”, apesar de nos declararmos anarquistas. Ainda hoje, dividem-se os grupos nessa e em outras escolas da cidade entre comunistas e playboys. Há uma luta de classes em disputa pela atenção e pelas melhores garotas até hoje.

Para extravasar nossas frustrações, a “sorte” é que havia uma ditadura a ser combatida. Claro que só os “comunistas” da escola fizeram parte das primeiras passeatas reorganizadas nos finais dos anos 70, sempre dispersadas pela Tropa de Choque, comandada por Erasmo Dias, a autoridade que gritava e espumava diante das câmeras. Éramos considerados os “secundaristas”, o apoio, ou massa de manobra.

A liderança estudantil pedia calma e para que não revidássemos as provocações da repressão. Mas o que fazer contra os cavalos que avançavam sobre velhinhas religiosas da ala católica que apoiava a luta, organizada pelo bispo “comuna” dom Paulo Evaristo Arns?

Meu vandalismo foi detonado no dia em que vi uma bomba de efeito moral ser atirada contra elas. Num gesto instintivo, chutei a bomba de volta. Ela estourou entre os pés de um grupo de policiais com escudos, capacetes e cassetetes ameaçadores, que rosnavam e se preparavam para sair batendo.

Certa vez, eu estava acuado com meus amigos anarquistas numa rua estreita da Praça da Sé. Meganhas jogaram em nossa direção bombas de fumaças coloridas. Que as devolvemos antes de estourar.

Então, nos especializamos. Em todas as passeatas- pela Anistia, Liberdades Democráticas, Contra a Carestia, em apoio às greves dos metalúrgicos-, ficávamos, os secundaristas, pelos cantos, observando a movimentação da tropa, de olho naqueles que portavam bombas nos cintos.
Quando eles começavam a jogar contra nós, chutávamos de volta. As coloridas podíamos pegar pela borda, com calma, evitando o jato de fumaça, e devolver pelo ar, caprichosamente; ou com “ternura”, diria um romântico revolucionário.

Os fins justificam os meios? Foi a minha contribuição para a derrubada da ditadura, de que me orgulho: um vandalismo ideológico, com fundamento, para entrar para a História, aliado a uma inocente desobediência civil, como pichar muros e panfletar pontos de ônibus. Tinha uma causa. Fiz a minha parte.

*

Amanhã tem a minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO, no ESPAÇO PARLAPATÕES. Ficamos em temporada terça e quarta, 21h, até final de julho.

OS INGRESSOS PODEM TAMBÉM SER COMPRADOS PELO INGRESSORAPIDO [4003-1212].

A peça ganhou outro sentido nesse espaço, já que é a nossa casa, nosso bar, nossa praça, nossa calçada, nosso drinque, com nossos amigos. O elenco parece atuar na sala de casa. Abraça a platéia com uma intimidade que enriquece a peça e a transforma num evento. Apareçam…

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10.junho.2009 12:47:16

Happy Family

Leitura do feriadão:

Atordoado. Foi como ele ficou, porque ela saiu da sala de embarque e o cumprimentou com um beijo no rosto. 6 anos. Beijo no rosto? Que afronta. Que falta de cuidado. Que bandeira. Não comentaram o assunto. Mas o olhar dela não procurou o carro, e sim o olhar dele. Portanto, é lógico que ela também se surpreendeu com o gesto abusadamente burocrático. Há uma semana viajando. O maridinho de 6 anos a busca no aeroporto. De surpresa. Instala-se na calçada. O carro em frente, com o risco de ser multado. E como ela agradece? Com um beijo no rosto, seco e inaudível.

Caminharam para o carro resumindo as prioridades: “Não esqueceu de nada?” “Pagou o IPVA atrasado?” “Tem bateria no seu celular?” “Ligou para o seu pai no aniversário dele?”

Desceram a Avenida 23 em silêncio. Há três meses, eles mal se encostavam. Ela sempre dormia antes. Desde quando se conheceram, há 6 anos, ela dormia antes. Um hábito que não levava em conta quem acordasse antes no dia seguinte. Ultimamente, ele entrava no quarto, e ela dormia de costas, com a cabeça longe.

No começo do namoro, iam para a cama com uma regularidade que irritava os amigos, quando as comparações eram trazidas à mesa. Nas viagens para a casa alugada na praia com amigos, causava admiração constatar que os novos namorados não saíam do quarto. Nem para o pôquer com feijão.

Claro que com o casamento a frequência caiu. Às vezes, uma semana sem trepar. Cíclico: havia semanas que não se desgrudavam, meses que não se tocavam, viagens que dormiam em camas separadas, férias que ficavam colados como um cometa e a cauda. Então, as estatísticas atolaram num pântano perigoso: duas vezes por mês; uma vez por mês. A quantidade reflete a qualidade de um casamento? Qual é o ideal, se é que existe?

Quando os encontros passaram para a média de uma vez por mês, o alarme tocou. Não conversaram sobre isso. Ela era a mesma linda sedutora de antes. Daquelas que envelhecem com metamorfismo: sai a casca juvenil, e se liberta a mulher perfeita. Ele até emagreceu, depois de muito esforço, e começar a nadar junto com ela. Por que não transavam mais, se eram os mesmos que se apaixonaram no primeiro encontro? Porque não eram mais os mesmos.

Só na Avenida Brasil, voltou a falar. Ele perguntou como foi a viagem. Demorou tudo isso, porque temia a resposta. Se ela dissesse “foi ótima”, estava esclarecido o beijo no rosto; foi muito melhor do que ficar com você, naquela nossa rotina abafada, na nossa casa em que nem trepamos mais, até encontrei um pescador meio índio que me virou literalmente do avesso. Mas ela não respondeu e acendeu um cigarro, olhou através janela. Ele se irritou. A sua indiferença ante o tornado de pensamentos e ódio e medo e indecisões que se formava assustava. E pois ela fumava.

Para irritá-lo. Ele parara de fumar seguindo um pacto de ela o seguir, mas ela, que fumava só eventualmente, e não como ele, viciado compulsivo, não cumpriu o combinado. De raiva, ele ligou o rádio na estação de rock e aumentou no punk dos Ramones, que dançou tanto na adolescência: We Are a Happy Family. E cantou:
“We’re a happy family, me mom and daddy, siting here in Queens, eating refried beans…”
“Abaixa um pouco”, ela pediu.
“Por quê?”
“Abaixa…”, ela adocicou a voz.

Obedeceu. Sempre a obedecia, quando ela implorava docemente. Ela deve estar pensando no nativo deitado sobre ela, pescando para ela, subindo em coqueiros para trazer um coco fresco, cabulando os seminários que sua empresa organizou, dançando lambada, enquanto o otário aqui… Na Avenida 9 de Julho, ele resolveu jogar duro:

“Não vai falar como foi a viagem?”
“Cansativa. Desculpe. Estou exausta.”

Ele esperava qualquer resposta. Menos cansativa. Cansativo é ficar neste inferno de cidade do caos. Ninguém se cansa num resort numa ilha baiana, a não ser que se envolva com um nativo e se canse de tanto sexo, sexo que já não pratica em casa.

“Você sabe há quantos meses não metemos?”, ele perguntou.
Ela assoprou a fumaça no rosto dele, jogou a bituca pela janela e comentou ligeiramente impaciente:
“Que romântico… Você fez as contas, é?”
“Fiz. Sabe?”
“Quantos?”
“Três.”
“Três meses? E isso é muito ou pouco?”
“Muito.”
“Você quer parar num hotel agora? Tem um monte por aqui nos Jardins.”
“A questão não é essa.”
“E qual é?”
“Por que não ‘transamos’ mais como antigamente?”
“Não sei. Por quê?”
Devolver a pergunta foi a resposta mais eficaz. Isso mesmo, por quê? Afinal, não era só dela a culpa, se é que culpa seja a conduta a ser empregada.
“Por que casais param de trepar?”, ele perguntou.
“Não sei. Por quê?”
“Tesão acaba.”
“Acaba?”
“Acabou?”
“Não. Sei lá. Acho que não. Acabou?”

O carro parou no congestionamento. Ele pegou um cigarro da bolsa dela. Acendeu no acendedor do carro. E disse, sereno: “Acho que o casamento acabou. E o tesão foi conseqüência. Tudo o que tinha de bom ficou no passado. Por isso, a gente não transa mais. O presente é só ‘quem paga o IPVA’, ‘ligou para o seu pai?’. Rotina.”
“Você quer se separar?”
Ele tragou e a imitou, devolvendo a pergunta:
“Você quer?”
“Porque a gente não ‘mete’ mais.”
“Não é um bom motivo?”
“É. Que chato. Acabar um casamento por causa de sexo.”
“Da falta de”, ele corrigiu.
“Sem sexo, não dá, né?”
“É um sintoma. O primeiro que aparece. De que as coisas não andam bem.”
“E se as coisas não andam bem, é melhor parar.”
“É. Acho que é. Não sei. É?”

Embicou na garagem. O portão se abriu. Entrou com o carro em marcha lenta, até encontrar uma vaga no final, no canto da lâmpada queimada há dias.
“Não pediu para trocaram esta lâmpada?”, ela comentou.

Ele desligou o carro. Olhou para ela. Escorria uma lágrima do rosto dela. Ele a abraçou. Beijaram-se. Ela desatou o cinto e se sentou no colo dele. Logo, ele inclinará o encosto do banco para trás.

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