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Marcelo Rubens Paiva

10.maio.2009 14:41:46

Não me lixo

Eu não me lixo para:

A opinão pública
A farra das passagens
O orçamento descontrolado do Senado
O cachorro manco
O mendigo com sede
O malabarista que deixa cair a bola no farol
A fumaça do caminhão que sufoca
Os buracos na estrada
O pôr-do-sol do outono
As chuvas no árido, a seca na floresta
O preço das coisas
O lixo que se acumula nos aterros
A saúde das maritacas urbanas
A caneta que estoura no bolso
Os efeitos do cigarro
Os índices de colesterol
As pandemias
Os índios suicidas
A saúde de Amy Winehouse
Os amigos bêbados
Os amigos desesperados
O amor partido
A partida de pôquer com os amigos de 20 anos
A pintura de Miró
A cena teatral atual
A atual crise do Paquistão
Astor Piazolla
A música que vem de Pernambuco
Muco que sai das narinas
O cheiro da manga, da pinha, da rúcula
A cor dos seus olhos
A textura do bico de um seio
O cheiro da vagina molhada
O aborto clandestino das adolescentes

Eu não me lixo para:

A violência urbana
O policial corrupto
O irresponsável
O louco
A felicidade
A mudança de regras da poupança
Os paradoxos
As noites de segunda-feira em São Paulo
As calçadas de Paris
Nadar em piscinas longas
O fim de tarde na orla do Leblon
O desespero
A angústia
A falta de luz
O nada
Viajar de trem
Os impontuais
Os gols de Ronaldo
Drummond
As palavras
Kafka
A velhice
O silêncio

Eu não me lixo por não me lixar
Estou me lixando para os que não se lixam
O lixo entre nós

Cada vez que vou ao Pacaembu nesses dias, sei que estou vendo a história hoje. Como quando vi Pelé no Maracanã fazer 1.000 gols. Ou quando assisti lá aos jogos das eliminatórias para a Copa de 70. Ou quando assistia aos treinos do Santos ao lado da Escola Tarquino e Silva.

Ou quando vi o juvenil Zico fazer um gol na premilinar, e ter seu nome ovacionado por todo estádio. Ou quando vi, de pé, da arquibancada molhada do Morumbi, o gol de Basílio em 1977.

Vejo nos gramados do Pacaembu, bairro vizinho, para onde vou de metrô, momentos de que me lembrarei para sempre. Ronaldo faz história, emociona, empolga. É mais do que apenas um jogo de futebol, é grandeza épica.

Ele quase não anda no campo. Seus joelhos parecem fixos. Fica sempre na linha divisória, vigiado por dois zaguieiros. De repente, do nada, ele corre. Não erra um passe, reparem. Sua bola vai doce, cai nos pés do companheiro. Parece tão fácil jogar futebol. Seu chute é quase sempre certeiro. Seu pênalti parece uma gozação: paradinha, goleiro de um lado, rasteira para o outro.

Ronaldo brinca de jogar futebol. Brinca nas entrevistas. É sincero, verdadeiro, humano. Tem feito um gol a cada 90 minutos. Um mais fundamental e plástico do que o outro.

Perturba a sua vontade e alegria.
Encanta o seu sorriso sacana.
Nos ensina a viver.
Que esses dias nunca terminem.

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07.maio.2009 13:37:27

O diferente

O filme começa com um longo plano sequência numa praia sem fim. Trazem um sujeito amarrado e vendado. Deitam na areia. Ao fundo, há uma imagem não nítida. Parece uma criança brincando. Ela aos poucos se aproxima. Revela-se que é um anão. Ele vê o sujeito, corre em direção dele e brinca ao redor, cutuca-o, provoca. O sujeito se desespera, se contorce.

Ele tem nanofobia. É um caso comum. Conheço duas pessoas que tem.

Assim começa FILMEFOBIA, documentário fictício que causa repulsa na maior parte do público, mas que nos leva a refletir sobre os limites do medo, a linguagem do cinema, o processo de criação e a onda atual dos realities que humilham as pessoas, exploram até não poderem mais os recursos disponíveis, para causar impacto.

FILMEFOBIA é um filme intrigante, horripilante. Fui desaconselhado pelo bilheteiro do cinema a assisti-lo. Vi o público sair da sessão anterior reclamando. Ouvi a frase: “Que filme xarope!” Pensei: oba, vou gostar.

Não sei se é a idade, mas ultimamente tenho gostado apenas de filmes xaropes, músicas xaropes, peças e livros xaropes, esdrúxulos, incoerentes, exagerados, sem pé nem cabeça. Me atraem agora as baladas esquisitas, as mulheres de nariz grande, pernas finas e tatuadas, cabelos malucos e roupas que não combinam.

Tem um momento da vida que cansa a plasticidade estética do mundo. Na arte, depois de assistir a milhares de obras, queremos o surpreendente e inesperado. Já conhecemos todos os truques da boa condução, do roteiro encaminhado, da representação previsível. Queremos cores berrantes, não combinantes. Queremos a tela fora de foco. Será que estou maluco?

A harmonia enjoa. No meu Ipod só tocam Herp Albery & Tijuana Brass, Man Man, Nelson Ned e Antônio Marcos [dramáticos...], Paul Anka, Skatalities…

No cinema, pulo a comediazinha romântica e encaro FILMEFOBIA, filme que se perde no meio, esquece a que veio, corrompe o cinema, abusa da apelação [chega a mostrar o aflitivo tratamento no olho de Jean-Claude Bernardet, que atua no filme como o diretor].

Exibe as contradições do documentário, que quer humilhar as pessoas [todas autorizaram a experiência] e mistura atores com fóbicos de verdade: aracnofobia, fobia de avião, de ralo, de pênis, de cobras, de agulhas [essa eu também tenho], de sangue, de pombos.

O mais surpreendente é um sujeito num armário com fobia de botões. Além de arrancar a dentes todos os botões da roupa, é atacado por eles. Como somos loucos todos! Eu me encaixo. O que o mundo contemporâneo tem feito conosco?

Um cineasta que acompanho maravilhado e vejo diversas vezes seus filmes é o diretor, roteirista e produtor russo Alexander Sokurov.

Fez uma trilogia sobre os personagens que marcaram um século, ditadores e seres supremos: Molloch, sobre Hitler, Taurus, sobre Lênin, e O Sol, sobre o Hiroito. Anunciou que faria um filme sobre Mao. Nada ainda.

Em Mulloch, traça o retrato de um Hitler misterioso, sombreado, sexualmente perturbado, no seu castelo nas montanhas da Bavária, reproduzindo sintomas da sua loucura. Taurus tinha um Lenin debilitado (teve esclerose), confinado numa dasha, paranóico.

Sem contar ARCA RUSSA, filme de um plano só, que se passa no MUSEU HERMITAGE e conta a história da Rússia em série.

Agora, ele volta a retratar o russo comum, ALEXANDRA, uma avó que visita o neto capitão num acampamento do Exército da Rússia em Grozny, durante a ocupação da Tchetchênia.

É um filme de guerra sem tiros. Ao contrário, mostra carinho entre os soldados, meninos quase crianças, e a solidariedade até entre inimigos; ela visita as mães e avós dos soldados combatentes, que a ajudam a fazer compras, não cobram e ainda a ensinam o atalho para voltar ao acampamento.

Me parece que a Rússia sente falta da velha Mãe Rússia.

Soldados abandonados num calor incomum lutam por algo que nem sabem ao certo. Uma avó lhes dá carinho, conversa, compra cigarros e reclama que a vida sem ninguém não faz sentido.

É um contraponto ao individualismo que contamina os dias atuais. É uma forma de ressaltar que sem utopia e coletivismo, estamos perdidos.

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05.maio.2009 18:19:08

O homem da casa

O pai viajava muito. Envolvido em política, tinha reuniões em outros estados. Chegou a ficar ausente meses, exilado. E, mesmo quando estava na cidade, quase não parava em casa.
Seu filho nasceu para ser o único homem de uma casa com muitas mulheres. Desde pequeno, fascinava o diverso mundo feminino, rico em detalhes. Sua rotina era invadida por perfumes, nuances, delicadezas e mimos.
A família acordava com o mesmo toque do despertador. Estudavam de manhã. Ele se vestia num minuto. E, como se estivesse na coxia de uma ópera, sentava-se no canto do corredor, para assistir ao corre-corre das quatro irmãs, matriculadas num colégio religioso.
Enquanto o que bastava para ele era um short, uma camiseta com o logo da escola, um par de tênis e uma bola, elas tinham de lidar com um vestido de brim pesado, com torçal, laço e faixa. Uma ajudava a outra a guarnecer e amarrar a cintura.
Usavam meias, roupas de baixo, sem contar a maquiagem, o encaixe de grampos, brincos, pulseiras e anéis, além de adornos com nomes estranhos, como piranha e tiara.
Havia trombadas no corredor. Brigas. Mãos disputavam peças do figurino. Empurra-empurra. Paninhos com água morna e limão limpavam manchas. As quatro transformavam aquela casa numa trincheira sob bombardeio. Ele não perdia um detalhe deste mundo complexo e perturbador.

Às tardes, elas passavam horas no telefone, com pinças, esmaltes e escovas de cabelo, diante de espelhos. Cada uma examinava com cuidado cada centímetro do próprio corpo.
Enquanto ele nem cuidara do joelho ralado na escola, elas pintavam as unhas dos pés e das mãos, raspavam as pernas com a gilete do pai ausente, usavam cremes, pós e batom. Mulheres olham para o mundo através dos espelhos, descobriu.
Secavam o cabelo com um barulhento instrumento- de que ele foi proibido de chegar perto, já que o usou como se fosse um revólver, numa brincadeira de rua.
Enquanto ele apenas chacoalhava a cabeça ao sair do banho, como um cão vira-lata saindo do mar, elas enrolavam com destreza uma toalha na cabeça, antes de usarem o secador. Lembravam as figuras egípcias que ele tinha no livro de História. Uma vez, ele tentou enlaçar a cabeça com uma toalha. Sem sucesso. Só as mulheres conseguem, concluiu.
Dividia o banheiro com as irmãs. A sós, passou esmalte nos dedos. Cheirou cremes. Atacou as formigas da pia com uma pinça em cada mão. E torturou o gato da família: colocou presilhas nas suas orelhas, elásticos no rabo e lixou as suas garras.
Na lixeira, intrigavam os pacotinhos embrulhados por papel higiênico. Ele abriu alguns deles e observou maravilhado o sangue escondido, proibido. Ele sabia que elas não estavam doentes, nem raladas, sim, porque crianças fazem questão de mostrar a todos os ferimentos conquistados.
Ninguém nunca explicou o significado daquele sangue secreto. Ele tinha consciência de que era parte do misterioso mundo feminino.

Lembra-se com exatidão de uma cena que nunca teve coragem de contar. É um segredo muito bem trancado, que o intimida.
Devia ter uns oito anos. Viu pendurados no banheiro da sua mãe uma calcinha e um sutiã. Seus dedos percorreram o tecido delicado. Examinou a intricada armação de alças, presilhas, elásticos e um fecho. Que sofisticada obra de engenharia é o sutiã, pensou. Fez dele um estilingue. Riu. Olhou-se no espelho.
Depois de se certificar de que a porta estava trancada, experimentou por cima da roupa.
Vestiu o sutiã. Percebeu o quanto é inoperante o seu fecho. Sentiu as alças apertarem os ombros, o tecido segurar algo que faltava, a armação dificultar os movimentos dos braços. Depois, vestiu a calcinha. Reparou como o tecido era mais delicado do que o das suas cuecas ásperas, que não tinham rendados.
Olhou-se de novo no espelho e riu. Parecia um palhaço. Fez uma careta.
Qual o significado desse gesto? Vestiu-se para experimentar o que a pessoa que ele mais amava sentia. Viu-se no espelho, para admirar as roupas que tinham a honra de protegê-la.

O pai ficou com receio de o filho ser influenciado e virar um “frouxo”, como se dizia. Tirou-o da escola alternativa do bairro, em que estudavam os filhos dos amigos, e o colocou numa escola pública na Praça da República, centro da cidade; um choque.
O queridinho das mulheres da casa de repente era um anônimo uniformizado, cercado por duas mil crianças que usavam o mesmo terno azul, desconfortável e antiquado. Chorou no primeiro dia. Desesperou-se no segundo. Encontrou uma saída no terceiro: um refúgio que só aumentou a sua admiração pelas mulheres.
Sua avó paterna, animada, carioca de nascimento, morava em frente, na Avenida São Luis. Ele fugiu da escola. Pediu para um pedestre ajudar a atravessar a Ipiranga, e passou a manhã dançando Roberto Carlos com a velhinha de cabelo azul. Pediu para ela pintar o cabelo dele também de azul.
Conheceu os penduricalhos de outra geração, como cintas-ligas e anágua. Brincou com jóias pesadas. Dançou em sapatos altos. Cobriu-se com um casaco de peles e fingiu ser um animal selvagem, atacando a governanta da casa.
A visita virou rotina. Bebia vinho do porto com ela. Dormia no seu colo, que cheirava talco, até a hora de voltar para casa, depois da “aula”.
O pai morreu, quando ele tinha onze anos. Antes, portanto, de saber que, até hoje, quando o filho vê uma mulher diante do espelho, nua, com pinças, cremes, examinando as imperfeições da pele, o dia está ganho. O mundo pára de girar, para ele observar o intricado e belo universo feminino.

Sou eu este garoto.

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03.maio.2009 22:44:30

Os Brasileiros

Nesta segunda-feira estarei na Livraria Cultura [do Conj. Nacional], na fila de autógrafos do livro OS BRASILEIROS, do amigão Andre “Tarzan” Toral, atropólogo que lança uma HQ sobre os índios do Brasil.

São 7 histórias que falam do contrabando do pau brasil, em 1560, do ritual de canibalismo, tapuia convertido, massacre dos bandeirantes, fazendeiros, até os dias atuais; alcoolismo, latifúndios.

Começa com um europeu apelidado de Brasileiro, pois, como os canibais, comeu o fígado de uma calvinista na Europa.

Desembarcando entre os tupinambás, narra:

“O lugar era lindo. Milhares de pássaros, árvores enormes, indiferentes à miséria dos cristãos neste lugar onde o verbo de Deus não chegara. Eu sabia que os brasileiros eram animais com feições humanas. Mas eram realmente muito parecidos com os homens.”

Tarzan se utiliza de uma pesquisa profunda para desenvolver a HQ. Chegou a morar com índios nos anos 80. É da família de Tarcila Amaral e Aracy Amaral. No colégio, era aquele cara que passava o dia fazendo caricaturas dos colegas no caderno.

Sempre acompanho o seu trabalho. Especialista também em Guerra do Paraguai, teve acesso aos arquivos secretos do Exército Brasileiro, quando poucos historiadores conseguiam. Lançou dois HQs sobre a guerra e o massacre de paraguaios, PESADELOS PARAGUAIOS e ADEUS, CHAMIGO BRASILEIRO.

Já ganhou um HQ Mix de melhor roteirista, com esse jeito de misturar pesquisa acadêmica e a linguagem dos quadrinhos.

É uma outra forma de ler quadrinhos.

*

Agora em abril, o Deputado Estadual Jorge Babu (sem partido-RJ), apresentou na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro o Projeto de
Lei nº 2.204/2009.

Se aprovado, obrigará a Secretaria de Saúde a divulgar em site os nomes dos cidadãos infectados com o vírus HIV/AIDS em todo Estado. Os infectados deverão portar identificação própria de sua condição sorológica.

A proposta insana e preconceituosa viola o direito ao sigilo e à intimidade das pessoas que estão expressos na Constituição e no Código Civil. Então, portadores de herpes, micoses, gripes deverão também ser identificados?

O Fórum de ONG’s AIDS do Rio de Janeiro solicita que todas
as ONG’s AIDS, redes e movimentos de pessoas soropositivas, fóruns e
articulações, grupos e associações LGBTs, grupos e redes
de redução de danos, grupos de direitos humanos, grupos e redes de
profissionais do sexo, instituições acadêmicas e de pesquisas,
conselhos regionais de categorias profissionais que manisfestem o seu repúdio inciativa enviando e-mails para os deputados da Asssembléia
Legislativa do Rio.

Olha a cara do sujeito, que foi expulso do PT, acusado de chefiar um grupo de milícias:

Precisa falar mais?

*

Ele certamente terá o apoio do grupo do economista Ricardo Barollo, de 34 anos, líder do movimento neonazista brasileiro, preso com a camisa da seleção alemã.

Acusado de matar um casal concorrente no Paraná, depois de ser barrado numa festa em que comemoraram o nascimento de Hitler, Barollo é líder de uma organização que prevê o nascimento de NEULAND (Terra Nova), que seguiria os ideais do Nacional-Socialismo.

O sujeito desenhou uma bandeira do seu novo país, organizou os ministérios, até bolou os prédios, um Albert Speer tupiniquim. A vida imitando um vídeo-game.

Mal sabe ele que Hitler detestaria ver seu ideal ser desenvolvido num país de pele escura. Daria trabalho fazer uma limpeza étnica.

Esses caras, com diploma e de classe média, nem são tão moleques assim. Deveriam soltá-los no Parque do Xingu.

*

Antes que eu me esqueça, voltamos:

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