Nessa segunda, 1 de junho, das 20h em diante, enfrentarei o dilema: mandar um abraço ou um beijo.
Estarei com Serginho Groisman, Andrea Pasquini e alguns jogadores do Corinthians [confirmados Dentinho, Cristian e Douglas], autografando o DVD OFICIAL, repito OFICIAL, do filme FIEL, no Shopping D [aquele colorido na Marginal do Tietê, ao lado da Ponte das Bandeiras], na LOJA PODEROSO TIMÃO.
Apesar da cópia pirata estar nas ruas já há dias. O OFICIAL tem cenas inéditas [são 2 DVDs] e ajuda o caixa do time. Vai perder, maloqueiro-sofredor?

O dilema abraço ou beijo foi relatado numa crônica de 2006, depois de uma turnê que fiz pelo Brasil, para lançar O HOMEM QUE CONHECIA AS MULHERES, que alguns leitores desse blog pediram para eu popstar. Atendendo…
Abraço ou beijo?
Muita gente idealiza a vida de escritor. Acha que a grana é fácil e a rotina, sem stress e com glamour. Basta ficar em casa, com os pés para o alto, e jogar com as palavras e idéias? Vai nessa…
“Estela com ‘e’ e dois ‘eles’?”, pergunto com a caneta na mão e a boca seca.
“Com ‘esse’ e dois ‘eles’”, ela responde.
Assino “Stella, um beijo, Marcelo”, entrego o livro e sorrio. Porque vem a foto. Agora, noites de autógrafos são também sessões de fotos. Um amigo do autografado sempre tem em mãos um celular com câmera. Não bastam as dedicatórias. Não basta a assinatura. Desejam a prova visual.
Mas ele não sabe tirar, ou não consegue focar, ou ligar o flash, ou não gosta da foto e pede para repetir. E novamente preparo o disfarce da felicidade para um sujeito que nunca vi na vida, ao lado de uma leitora empolgada, que me agarra pelo pescoço e me beija, deixando uma marca de batom, enquanto a fila está grande. E penso: vou passar a noite nessa, preciso sorrir, com uma marca de batom ridícula na bochecha, são meus leitores, vivo disso. É o preço, é o preço…
Bebo em noites de autógrafos. É de graça. Vinho, uísque, caipirinha, o que tiver. Nessa, parti pro uísque. E o garçom sumiu. Chama-se Jango. Tem a cara do Mr. Bean. O mais importante é ganhar a simpatia de um garçom. Para ele manter o copo cheio, e a água em estado sólido. Peço para Stella, com ‘esse’ e dois ‘eles’, procurar Jango, o garçom com a cara do Mr. Bean, e pedir mais uísque com gelo.
“Um abraço, Marilorde”, escrevo. Sim, estou no Nordeste, onde a composição de nomes é criativa. Maria com Lorde. No interior de São Paulo, o uso e abuso do ‘dáblio’ e ‘ipsilone’ não têm limites: Wellyntgon, Wladyr… Na capital, pedem a dedicatória com nome e sobrenome. No Rio, os autógrafos são para apelidos infantilizados: Baby, Cunca, Birunda.
“Elizabeth com ‘zê’ e ‘tê-agá’ no final?”
“É. Puxa. Que bom que você perguntou, todo mundo erra”, diz Elizabeth.
São 24 anos de estrada, nega, mais de oito livros, sem contar autógrafos em ruas, bares, cadeias. Rodei. Sempre busco a soletração. Não posso errar o nome de um leitor. Ficará registrado na sua estante. Para os netos confrontarem: “Vô, este escritor é analfabeto, nem sabe escrever seu nome.” E existem Raquel e Rachel, Bete e Beth, Luiz e Luis, Teresa e Tereza…
Chega Mr. Bean com meu uísque. Tomo um gole. Vou ficar alegrinho no final, já sei. Minha letra estará desleixada. Comecei tão bem. A caneta é boa, desliza, não é daquelas que falham e deixam Suely com o ‘ipsilone’ final apagado.
Elizabeth pede para alguém tirar uma foto. Tenho certeza de que ela faz chifrinhos, paranóia que começou quando Pânico na TV lançou a campanha Faça Um Chifrinho na Celebridade. Todos que me fotografavam, presumi, colocavam chifrinhos.

Um cara se aproxima. Já fazendo pose pra foto. Não fala nada. De birra, também não falo. Me encara. Aproveito a pausa e bebo. Tem leitor que fica parado, mudo. Como se eu soubesse seu nome. Confundiu a noite de autógrafos: acha que sou Chico Xavier. Então, quebro o gelo.
“O autógrafo é para você?”
“É.”
E continua o silêncio.
“E como é o seu nome?”
“Põe aí qualquer coisa.”
Já fiz isso, já escrevi “Ao qualquer coisa, um abraço, Marcelo”.
“Não prefere que eu coloque o seu nome?”
“Põe aí… Para Hélio, com afeto.”
Tem cara que é assim, que especifica a dedicatória.
“Hélio com ‘agá’ e acento?”
Então, medito sobre a minha incapacidade de criar boas dedicatórias. Para as mulheres, um beijo. Para os homens, um abraço. Eventualmente, alguém pede um autógrafo especial, e dedico: “Um beijo especial”. Outra diz que quer algo diferente do da amiga, para quem escrevi “Um beijo especial”. Escrevo: “Um beijo diferente”.
Já não me angustia a falta de criatividade. São pessoas que nunca vi na vida. No passado, eu jogava com os nomes: “Para Rosa do sorriso colorido…” Nem sei por que querem um rabisco no livro. Logo logo o venderão para um sebo. Como fez minha avó Olga. Na verdade, fizeram. Quando a levaram para a casa de repouso, venderam tudo o que era seu. Encontrei num sebo meu segundo livro, Blecaute, primeira edição, rara, autografado “para a minha avó querida…”
Surge aquele amigo, e dá um branco? Surpreendentemente esqueci o nome, apesar do rosto familiar. Ele sorri esperando, como um sádico. Você já foi a um lançamento. As vendedoras escrevem seu nome num papelzinho, porque brancos acontecem. Tem gente que se irrita com as vendedoras: “Ele sabe meu nome!” Não pega o papelzinho. São justamente os que a gente esquece.
Eu tenho um truque infalível: “Como é mesmo o seu nome completo?”
Cadê o Jango, fugiu pro Uruguai? Estou ficando alto. A letra cresce. Acho incrível rabiscar na primeira folha de um livro novinho em folha, uma pretensão escrever meu nome com letras grandes, rabiscos exagerados. Quem sou eu, afinal? Eles pagam, me entregam, e estrago com trinta. E ficam felizes com isso. Estou bêbado. Tenho que tomar cuidado, pois é quando mando abraços para as leitoras e beijos para os leitores: “Maurão, beijo, Marcelo”. Ou quando começo a autografar com a minha assinatura pessoal. Podem me passar a perna, um contrato em branco, tomarem meus bens. Cadê Jango?
Quando a fila diminui, engato uma conversa com o leitor. Para a fila voltar a crescer. Tática velha. Não vou dar chances para um cara entrar na livraria e ver um escritor numa mesinha com pilhas de livros e três gatos-pingados na fila.
Jânio me serve outra. Aproxima-se a parte enfadonha (por isso, bebo). Porque a galera da intimidade fica pro final. Aquela que fala de meus personagens como se fossem seus melhores amigos. Que conhece de cor meus livros. Que pergunta detalhes da trama e quer me levar pro barzinho. Odeio a palavra barzinho. Eles falam assim: “E aí, já tá doidão, vamos pro barzinho com a gente, aqui só tem careta…” Mas quero mais ir pro meu hotel, jantar e dormir. Sou um careta. Meus personagens que são doidões.
Depois da galera da intimidade, tem a turma da organização, com pilhas de livros e a lista de nomes dos que não puderam comparecer e dos que trabalharam nos bastidores. Graças ao Jânio, a letra sai fácil, o pulso nem dói. E enrolo, pra galera do barzinho, que está na porta, desistir. É fácil ser escritor?
Ontem participei da gravação de um programa emocionante, o ALTAS HORAS, que irá ao ar na madrugada desse sábado para domingo, dia 31, na GLOBO.

Convidados: Eu, Hebert Vianna [com os Paralamas], Marcelo Yuka e Mara Gabrilli. Sim, quatro dos CADEIRANTES com mais visibilidade.
Cada um milita à sua maneira. Cada um tem sua história pra contar. Em comum, o fato de sermos quatro pessoas públicas que não escondem a deficiência, não pararam de trabalhar e batalham por um País melhor, democrático, tolerante e que inclua.
A idéia de nos juntar foi do próprio apresentador, Serginho Groisman, que me consultou: como tocar o programa. Começamos pelo o começo. Cada um contou como se acidentou e foi a recuperação.
Fui o primeiro deles a me acidentar, há exatos 30 anos. Durante muitos anos, representei o papel de líder da causa, me expus na mídia, travei debates, ganhei amigos e inimigos, cobrei da sociedade e de políticos.
Nesses 30 anos, me reuni com dois presidentes, FHC e LULA, com governadores, SERRA e COVAS, com prefeitos, MALUF, PITTA, MARTA, KASSAB, pessoas que admiro ou combati, bons e maus administradores, levei ideias, projetos e reivindicacões a secretários corruptos e honestos. Costumo fazer reclamações por emails, e sempre que dá uma visitinha aos palácios, com uma lista de reivindicações. Uso o que a fama me deu de melhor: a voz.

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Algumas delas deram certo, com o o projeto ATENDE, vans que atendem a deficientes em São Paulo, ideia que tive inspirado no ano em que morei na Califórnia, e que o MALUF, sim, ele mesmo, adotou.
Aliás, paguei um bom mico nas visitas a MALUF, com outros cadeirantes, já que ele chamava a imprensa e fingia ser um grande amigo. Malandro, se apoiava na minha cadeira, íntimo. Eu, constrangido e atônito, não parava de rir. Tudo pela causa

Muito ainda tem que ser feito. No entanto, cada vez menos, me sinto um Quixote e ganho aliados.
*
Então, aproveito para mais uma reivindicação. Os espanhóis mudaram o conceito de carro para deficientes ao criarem o simpático veículo.


O sujeito dirige da própria cadeira de rodas. Alguns vêm com joynstick. Outros, com um volante tradicional. Não é para sair pela Estrada de Santos a 100 km/h, dirigindo este carro, que é estável, mas não tem muita potência.
Porém, é ideal para a locomoção e independência de um cadeirantes na cidade e no campo. Há até a opção de um assento de passageiros.
Nos EUA, país rigoroso na segurança do trânsito, ele já foi aprovado e entrou na categoria de triciclo, que tem regras semelhantes às motos.

Informações sobre como ele funciona no site: http://www.quovis.com/
No Brasil, ele é proibido, pois alguma autoridade de trânsito decidiu aleatoriamente que cadeirantes não podem dirigir carros sentados em cadeiras de rodas. Está na hora de mudar a regra tão anacrônica e discriminatória. Mais uma luta para nós 4 encararmos.

Apresento dona Gilda. Trabalha aqui comigo e apareceu hoje com essa camiseta, que leva à reflexão: O MUNDO É DE QUEM FAZ.
Lembra a letra de FUGAZ, de Marina Lima: “Meu mundo é você quem faz…” Lembra o pré-socrático Protágoras: “O homem é a medida de todas as coisas”.
Lembra os comentários polêmicos, alguns intolerantes, que são postados neste blog.
Tal conceito introduziu o relativismo no pensamento ocidental, inspirou Platão e redefiniu a filosofia. Veio Kant, que propôs que existem verdades absolutas e universais. Nossa imagem de mundo é imposta pelo espírito humano, e como somos iguais na maioria dos aspectos, as verdades são as mesmas para cada um, escreveu.
Sócrates propunha o seguinte dilema. Um vento pode ser frio para alguns. E o mesmo vento pode ser refrescante para outros. Portanto, o mesmo vento tem dois significados. Todas as imagens do mundo refletem no repertório pessoal de cada um, e nenhuma é mais verdadeira do que outra. É o indivíduo quem decide a medida do vento.
“Eu não me aventuro a negar que os loucos e os sonhadores acreditam no que é falso, quando os loucos imaginam que são deuses, e os sonhadores pensam que têm asas e voam em seus sonhos. Se o que parece a cada homem é verdade para ele, um homem não pode ser mais sábio do que outro”, teria dito Sócrates. Portanto, sabedoria não existe?
O que é certo ou errado depende de cada grupo, de cada período da história. Já foi certo para alguns comerem carne humana, escravizar. É errado matar. É certo guerrear?
É certo condenar o que é errado em outra cultura? Alguma cultura é superior a outras? Relativismo está em toda parte.
A tese do relativismo deixou de abordar cada indivíduo e passou a ser de cada grupo social, ou cidade, ou Estado. É a comunidade em que vive que decidiu o que é certo ou errado para esse grupo. E através da maioria se decide fazer justiça e decretar o que é verdade.
Há uma variedade imensa de crenças morais. A verdade é escolhida, não é absoluta, dependendo da conveniência de cada comunidade, para garantir a sua preservação. As leis da natureza são necessárias, as dos homens são fortuitas, diziam os sofistas.
Alguns queimam mortos, outros enterram. Em alguns países, o aborto é permitido, a eutanásia é consentida, o casamento gay é liberato, em outros, crime. Países liberaram a maconha e até o plantio para uso próprio. Em outros, é condenável. A prostituição existe. Há quem condene, e há quem sindicalize.
Pessoas acham normal frequentarem boates de prostituição, outras condenam. E é por isso que nesse blog os comentários divergem e são aceitos e publicados pelo mediador. Por respeito à divergência e tolerância. Como dizia o meu pai, “posso não concordar com suas palavras, mas garantirei até a morte o seu direito de dizer.”
*
Amanhã tem lançamento da nova POROROCA, revista sobre a AMAZÔNIA, de que sou colaborador. É na Galeria Vermelho, 20h [rua Minas Gerais, 350]. Festinha regada.

Para os pães-duros ou duros que não assinam nem compram o jornal que paga meu salário.
Ano em que prestei o primeiro vestibular, 1977. Eu deveria escolher a carreira no formulário da Fuvest, consciente de que o pequeno xis seria determinante para o resto vida. Que importância dão a um mísero rabisco…
Como sempre fui bom em matemática, frequentei as aulas de Exatas. Mas minhas opções eram conflitantes: engenharia agrícola, seguindo uma tradição e pressão familiar, jornalismo e filosofia. Já tinha desistido de ser bombeiro, caminhoneiro e jogador de futebol anos antes.
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NO COLO DO MEU PAI E VESTIDO DE BOMBEIRO
Alguém vive de filosofia, sustenta a família, leva os filhos à Disney? Para a decepção da professora de filosofia, Malu Montoro, que lia para a classe meus trabalhos de lógica aristotélica e fazia a minha cabeça para me tornar um exótico colega, escolhi engenharia. Mesmo ciente de que matemática e filosofia nasceram juntas- os primeiros pré-socráticos, Tales de Mileto e Pitágoras, eram matemáticos, sendo que o segundo chegou a definir o mundo como uma sequência numérica; para ele, os números explicavam tudo.
Me descreveu a amiga Sandra Fasolo, filósofa: “Os filósofos estão na sua maioria sempre se arrastando existencialmente, eles sofrem de depressão ontológica e sofrem também de estresse metafísico.”
Me identifiquei completamente. Ou confundia minhas aspirações
com as crises existenciais de um adolescente? Fora que eu não tinha barba nem túnicas para ingressar nessa carreira delirante.

Fui para a Unicamp estudar engenharia. Estudar fora é a melhor maneira de sair de casa e ainda ser financiado para romper o cordão.
Minha primeira morada foi numa pensão perto da ferroviária. Eu dividia o quarto com dois colegas do colégio, Cassiano, da Antropologia, e Zequinha, físico-filósofo.
Passávamos as noites discutindo a origem das coisas, debruçado sobre Heráclito, o grego que inverteu a filosofia e afirmou que “tudo é um”, e os opostos são iguais. Heráclito era a droga mais pesada que consumíamos.
Zequinha tretou com a dona da pensão. Filósofos enlouquecem até donas de pensão. Num surto, ela ameaçou botar fogo no sobrado, jogou querosene na escada, acendeu um fósforo e nos avisou aos gritos que, se não saíssemos em minutos, viraríamos cinzas. Voamos com nossas trouxas, livros e enigmas e nos mudamos para a pensão ao lado.

DANÇANDO NO CICLO BÁSICO DA UNICAMP
Nos primeiros meses, dormimos num quarto com seis beliches. A pensão era completa- café da manhã e jantar inclusos. Quem servia era a filha do dono, uma moça de roupas e unhas negras, olhar agudo e sedutor de uma existencialista francesa, que ilustrou minhas fantasias.
A pensão só tinha um banheiro. E uma fila matinal nele. Quantas vezes não tomei banho no tanque do quintal, sob o frio campinense? Enfiava as pernas, depois os braços, depois a cabeça, vigiado pela garota de unhas negras, que me aguardava cantando, para lavar as roupas de cama.
No beliche ao lado, dormia um pedreiro que reformava o prédio da Química do campus, onde os alunos produziam LSD e a polícia encontrou pés de maconha no pátio interno.
Nunca trocamos mais do que duas palavras: “bom dia”. Descíamos juntos as ladeiras do centro. No entanto, eu ficava no ponto de carona. Ele pegava o busão. Interessante como a divisão de classes cria rituais próprios, que aumentam a distância entre elas.
Calma. Não virara marxista. Procurava ainda desvendar os textos de 2.500 anos antes e entender os pré-socráticos, escrevendo cadernos e cadernos com pensamentos filosóficos, me exibindo para a misteriosa garota de unhas negras, ignorando os livros de Cálculo Diferencial e Resistência dos Materiais.
Em algumas tardes, eu encontrava o pedreiro trabalhando com seus colegas, já que a lanchonete da Química era a única cujo PF vinha com ovo. Nos cumprimentávamos educadamente. Ele já não usava a roupa de antes, mas um macacão sujo de tinta; que provavelmente a existencialista não lavava.
À noite, ele já dormia pesado, quando eu entrava confuso pelos paradoxos de Zenão- e enciumado, pois as mãos com unhas negras tiravam os pratos e desprezavam as minhas.
Engenharia, como as existencialistas, era um fardo. Comecei, como Parmênides, a desenvolver minha veia poética. Escrevi letras de música. Tocava violão até amanhecer, no quarto do subsolo, onde moravam dois peruanos bolsistas da Unicamp, Miguel e Manuel, que contrabandeavam prata, cocaína e vendiam badulaques que confeccionavam, em feiras hippies do interior do Estado.
Cheguei a ir com eles em algumas feiras. E tocava minhas músicas, de poncho peruano e com a boina no chão, para ganhar os primeiros trocados com meus pensamentos inconcludentes.

NELSON, TED, EU E CASSIANO – SHOW NA UNICAMP
Acabei me mudando para o quarto dos peruanos com Cassiano, que também aprendia violão e virou parceiro.
Havia alguns pontos de carona na saída da cidade. Às vezes, esperávamos horas. Com sorte, em poucos minutos, parava alguém. Um caronista, eu sabia, precisava desenvolver conversas, pois quem dá carona quer papear até o destino. Como um sofista, aprendem-se os mais diversos assuntos.
Atormentei muitos motoristas com paradoxos e discussões sobre a origem do Universo.
Certa vez, parou um carro importado, chique, com arcondicionado. Me dei bem, pensei. Era um senhor de idade. Provavelmente, um dos professores estrelas da universidade. Perguntei o que ele fazia, assim que engatou a primeira. “Sou filósofo”, respondeu. Fiquei mudo, perplexo e encantado pela ousadia. Invejei-o.
Desisti da Engenharia Agrícola no final do terceiro ano. Depois de conhecer a “vaca rolha” da ESALQ, tradicional escola de agronomia de Piracicaba; uma vaca com um buraco no estômago, tapado por uma rolha do tamanho de um prato de sopa, para termos acesso direto ao aparelho digestivo da pobrezinha e medirmos, com o uso de microscópios, a ração que era digerida e a sobra.
Assim, em nossas fazendas, com nossas pickups, esposas loiras e saradas, cheias de jóias, jeans apertados, botas até o joelho e chapéu country, nos perguntando se compramos ingressos para o imperdível show de Bruno & Marrone, distinguirmos com exatidão aquilo que é digerido daquilo que é prejuízo. E ouvi a voz: “Vai, Marcelo, ser gauche na vida.”

LANÇAMENTO DE FELIZ ANO VELHO EM 1982
[AUTÓGRAFO PARA O AINDA PROFESSOR EDUARDO SUPLICY]
A primeira vez em que fui ao LOVE STORY, “A Casa de Todas as Casas”, boate que abre às 3h e é ponto de encontro de garotas de programa [que vão se divertir depois do trampo], foi no seu aniversário de dez anos, para fazer uma matéria para a ILUSTRADA.
O caderno de cultura da FOLHA era editado por SÉRGIO DÁVILA, jornalista com faro, que não tinha o jeitão de editor da ILUSTRADA, apesar de oriundo da VEJA SP, e por isso mesmo foi um dos melhores que o caderno já teve e deixa saudades; ele virou correspondente. Foi o momento em que me dediquei à carreira de repórter cultural, deixei os releases de lado, as resenhas feitas em casa e fui fazer matérias in loco.
Eu e SÉRGIO viramos amigos grudados. Cada pauta mais ousada do que a outra era sugerida em bares. Ríamos, todas as vezes que bolávamos uma. E o caderno ganhou uma agenda que não tinha antes- verificar quantas vezes a palavra “traseiro” era citada no disco do É o Tchan; cobrir a feira erótica; especular se havia sugestões de incesto nos shows de Sandy & Junior, que cantavam músicas apaixonadas se olhando.

Passei o dia e a madruga no LOVE STORY. A matéria saiu com destaque. Tio João, um dos donos da casa, orgulhoso, já que era a primeira vez que era citado pela grande imprensa, enquadrou e colocou na porta. A partir desse dia, tive passe livre. Todas as vezes que eu ia à boate, furava a fila, ganhava a melhor mesa, bebida de graça e um segurança particular, que se postava nas minhas costas.
Meus amigos souberam do privilégio e passaram a me convocar para conhecê-la. Voltei lá algumas vezes. Inclusive com namoradas, correspondentes estrangeiros, gente do meio acadêmico, que pesquisava o submundo. Certa vez, uma socióloga americana, Laura Muray, dançou no cano. Para piorar, o DJ parava a música e dizia, em bom tom: “Queríamos anunciar a presença do grande escritor Marcelo Rubens Paiva!!!” Meu parco prestígio escorria pelo ralo.
A partir de então, comecei a frequentar outras boates da região. Usava a desculpa: pesquisar para o meu livro mais recente, A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, que trata desse universo.
Passei a levar amigos ao KILT e VAGÃO, em que há shows de striptease e sexo explícito. Também me dão a melhor mesa. A dona do VAGÃO chegou a me dizer uma vez que eu era “da família Vagão”, sabe-se lá o que isso significa. A boate existe desde os anos 60 e tem o som baixo por uma simples razão: ela detesta música alta.
Encontrei outros inferninhos mais undergrounds. Conheci a rotina desses lugares. Fiquei amigo de garotas, cafetinas, seguranças e porteiros. Tais espetáculos não excitam ninguém. Muitas garotas fazem strip para elas mesmas, viradas para o espelho. Quando não estão falando no celular, combinando programas.


Fiquei marcado na região. Se estou com algum amigo novo, evito. Pois quando ando por ali, escuto dos porteiros, “boa noite Marcelo”, “não vai entrar hoje?” Minha irmã NALU, que mora na França, até comentou, quando a levei ao KILT: “Não sabia que meu irmãozinho virou um cafetão”.
Bem, publiquei o livro no final do ano passado. Mas não perdi o fascínio por esse mundinho tão paulistano e revelador. Será que tem cura?
Uma forma que encontraram para evitar longas discussões: alternam o papel de quem escolhe o filme e o restaurante.
Num fim de semana, ele quem escolhe. Geralmente filmes de guerra, policial ou terror. Todos violentos. Todos com cenas de perseguição. Todos com heroínas loiras. Os protagonistas têm tríceps, bíceps e deltóides bem trabalhados. Barba bem feita, seguram um revólver com intimidade. Viajam de primeira classe. As traições são resolvidas na porrada. A vingança se faz com um tiro na cara. Sempre há maletas de dinheiro. No final, estão sorridentes e bem acompanhados numa lancha ou no jatinho particular.
São grandes produções, todas nomeadas a algum Oscar técnico: efeitos especiais, montagem, edição de som, maquiagem.

O casal chama de filme de menino. São exibidos em salas enormes, as maiores do shopping, com tecnologia de ponta na compra de ingressos, poltronas, imagem e som digital. Até os estacionamentos têm guaritas com cancelas automáticas, daquelas que falam sozinhas. Só o preço do ingresso incomoda. Pagaria um combinado duplo num japa de respeito, sem modismos.
Mas ela não reclama. Até sugere o jantar num fast food da praça de alimentação, para compensar o preju. Na saída do cinema, encontram o dentista, filhos de amigos, a secretária da firma e o ex-namorado surfista dela, e uma ex dele de que nem lembrava do nome.
No outro fim de semana, ela quem escolhe o filme. Geralmente foram premiados no festival de Cannes, Veneza ou Berlim. Têm bons roteiros, diálogos inteligentes e atores magros e pálidos. Não dão um tiro durante todo o filme. Os finais são em aberto. E ele sempre pergunta pra ela o que, afinal, aconteceu.
São filmes multiculturais. Discutem preconceito e tabus. Certamente, falam da relação amorosa e dos seus caprichos. Falam de pais e filhos, de amantes. As traições são resolvidas com muito papo. Há referências históricas.
São falados em espanhol, francês, árabe ou chinês. O enredo gira em torno de dilemas existenciais. Nos créditos, agradecem a vários institutos e parcerias. Não há uma distribuidora de peso por trás. Os logos das produtoras são cheios de riscos. Há cenas longas, escuras, filmadas por uma câmera que teimosamente não sai do lugar. Os personagens não se vingam, conciliam-se. E estão sempre duros. A maior ambição é a paz e o amor. Viajam de classe econômica. Ou de trem.

O casal chama de filme de menina. São exibidos em salas pequenas, em que vaza o som do projetor, cinemas que parecem cineclubes, onde estacionam na rua, e cuja pipoca é amadora- fria e mole-, e as poltronas seguem uma moda retrô.
Na saída, encontram o terapeuta dela, o professor da facu, colegas da ioga e um primo distante dele que tem fama de maníaco-depressivo e viciado. Ao menos, sobra dinheiro para tomarem um saque californiano no japa em questão.
Assisti ontem à pré-estreia da nova produção da Conspiração Filmes, A MULHER INVISÍVEL, longa escrito, dirigido e produzido por CLAUDIO TORRES, com o incrível SELTON MELLO, mais MARIA MANOELA, LUANA PIOVANI e VLADIMIR BRICHTA.
Uma comédia que provoca gargalhadas no começo ao fim.

A história é engenhosa e com reviravoltas. Pedro, SELTON, que abre o filme afirmando ser um homem diferente, pois ama completamente a sua mulher, chega em casa e a surpreende partindo. Entra num estado de paralisia. Dá uma galinhada com o melhor amigo nos primeiros 3 meses, mas se cansa, pede demissão, se tranca e mergulha na depressão, contando que não quer mais saber das mulheres…
Então, AMANDA, uma vizinha nova, LUANA PIOVANI, toca a campainha com a desculpa de sempre: pede uma xícara de açúcar.
Passam a viver um amor perfeito. Ela é uma mulher perfeita, segundo os anseios do cara: lindíssima, gostosa, paciente, maternal, que não cobra quando ele chega tarde e acompanha até jogos da Série C. Ela gosta das mesmas coisas. A autoestima de Pedro volta ao pico, ele retorna ao trabalho, usando os argumentos que AMANDA lhe ensinou, revigorando, amando.
Pouco a pouco, como diz o título, desconfiamos que AMANDA não existe, mas foi uma criação caprichada do seu inconsciente, que, seguindo os preceitos básicos da psicanálise, é o espelho do cara, a mulher ideal, que é, na verdade, o que somos, fruto do narcisismo que empareda muitas relações.
Se Jung dizia que buscamos na nossa parceira os traços idealizados da mãe,
ou o arquétipo da mãe-substituta, Pedro quer uma mulher igual a ele. Quando conversa com a sua amada, na verdade fala sozinho. Quando vai dançar numa boate, na verdade está só.
E entra o talento cômico de SELTON MELO, que magnetiza a tela e contracena com o invisível, o momento mais engraçado do filme.

Tá, a mensagem é óbvia, não existe mulher ideal. No caso, o amor pode estar ao lado [sua vizinha verdadeira, MARIA MANOELA], e não num ideal fabricado pelas nossas virtudes.
Pode-se, no começo de uma relação, acreditar que ela [ele] gosta das mesmas coisas do que gostamos. Até, pouco a pouco, revelarem-se as diferenças, acabarem as mentirinhas fabricadas pela paixão. Então, nos deparamos com a máscara que cai, a realidade das imperfeições, a fábrica de conflitos. Isso se chama amor?
Eu deveria entrar para o ramo dos livros de autoajuda. E faturar em cima da minha nova fase piegas, 1 conselheiro sentimental raso.
*
Abre aqui hoje em São Paulo, no MUSEU DO FUTEBOL [nas arcadas do estádio do Pacaembu], a exposição MANIA DE COLECIONAR. Uma crônica minha sobre JOGO DE FUTEBOL DE BOTÃO será exposta.

Apesar de, na verdade, eu colecionar CADEIRAS DE RODAS [tenho 6, uma amarela, uma verde, uma vermelha e 3 manuais; não sou um OBCECADO, apenas não consigo me desapegar daquelas que foram minhas companheiras por tanto tempo; e doar uma cadeira de rodas usada é como doar cuecas velhas], quando me pediram o texto, não tive dificuldades para escrevê-lo, já que, como um moleque que viveu os anos 60-70, fui completamente viciado em botões. Era a pré-história dos jogos, quando o fliperama dava os primeiros passos, e o computador era privilégio dos astronautas.
Brincávamos com o lúdico nas ruas: bola de gude, empinar pipas, esconde-esconde, pega-pega, pingue-pongue. Não na escuridão e silêncio das lan houses. Não que o presente seja pior do que o passado. Apenas havia mais contato físico e verbal entre nós. Será que nasce uma geração que não saberá se encostar?
Aqui vão trechos da crônica:
Por que jogávamos botão? Porque somos loucos por futebol. Porque se joga com a turma. Porque se joga com primos, pais, irmãos, tios, avós, amigos. Porque se joga sozinho. Se joga na mesa da sala, onde a família se reúne. Ou no chão do quarto, quando a família se reúne. Se o chão estiver sendo lustrado, se joga na garagem, no hall do elevador, na calçada.
Alguns amigos têm mesas próprias. Cada casa tem a sua regra. Muitas vezes, as discussões sobre elas demandam mais tempo do que o próprio jogo. Mas há uma ética: a regra do visitante não vale na casa do outro.
Há jogos em que cada jogador só pode tocar uma vez na bola. Há em que se pode tocar no máximo três vezes. E há a do jogador, como Maradona, que pode sair da própria intermediária, driblar todo o time adversário e entrar com bola e tudo. Uma regra é a mesma em todos os lares: é preciso avisar “vai pro gol”, para o goleiro do outro time ser posicionado.
Cada cidade tem o seu jeito de jogar. No Rio, jogava-se com um dadinho, comprado em qualquer papelaria. Parece coisa de maluco, jogar com uma bola quadrada. Mas ela dá efeito, é rápida, voa, como se estivéssemos no estádio de La Paz (Bolívia). No Rio, o galalite era o material do jogador. Cada um de uma cor, brilhante como madrepérola, devia ser lixado antes, para correr como um recordista de cem metros. Os atacantes eram menores. Os beques, altos. O goleiro? Chumbo derretido, enfiado em caixa de fósforo.
Em Santas, jogava-se com tampas de relógio. As de despertador viravam beques. As de pulso, atacantes hábeis. Toda molecada fazia incursões pelos relojoeiros do Centro, em busca de grandes craques. Mas a bola era quase redonda: a peça do jogo War.
Já em São Paulo, se jogava com bolas de feltro, esféricas, mas lentas, que corriam desengonçadas, e por vezes eram amassadas, vítimas de um pisão involuntário.
Sozinhos, treinávamos. Jogávamos nós contra nós. Fazíamos campeonatos com tabela e torcida. E, claro, narrávamos, como um locutor de rádio esbaforido. O som da torcida era confundido com a asma do avô.
Alguns tinham a manha de manufaturar arquibancadas com caixas de sapatos, desenhar torcedores, bandeiras e faixas.
Como qualquer técnico, tínhamos os jogadores favoritos, o artilheiro, o Bola de Ouro, guardados em caixas separadas e tratados com cuidado, como se fossem nosso maior bem. Na dureza, poderíamos até vender o craque para um amigo.
Amadurecemos e nos esquecemos deles. Mas pode checar: em cada casa, em cada fundo de armário, está lá, o time intacto, hibernando pacientemente, esperando enlouquecermos, para voltarmos a jogar com eles.
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Ôps… Garoto propaganda?

Eu aguardava esse filme ansiosamente. Sabia que era um dos melhores documentários já feitos, que pegava pesado, não fazia concessões. Me recomendavam, enquanto eu escrevia o roteiro do documentário FIEL, como um modelo a ser seguido.
Sem contar que SIMONAL foi meu ídolo na infância, vivi e dancei as suas músicas, assisti comandar o Maracanazinho com meu pai em pé cantando e batendo palmas ["meu limão, meu limoeiro..."].
Tentei cópias. Toda vez que encontrava os amigos MAX DE CASTRO e SIMONINHA, eu pedia uma. Assisti ontem na estreia. Saí maravilhado. Não só eu, já que o público aplaudiu.
É uma catarse. Além da qualidade das imagens de arquivo, do som vibrante, das músicas que até hoje embalam as pistas, conta-se a história de uma das maiores injustiças já feitas a um artista completo, inocente, que ingenuamente, sintoma da sua prepotência, se envolveu com quem não devia.
Nunca acreditei que ele fora dedo-duro, entregava artistas, era agente do DOPS, como o acusaram nos Anos de Chumbo. Também sabia que “moro, num País tropical, abençoado por Deus”, primeiramente gravada por Jorge Ben Jor, não era um hino ufanista da ditadura, apesar de usar os mesmos argumentos do regime, que buscava o contentamento popular através do lema “Brasil, ame-o ou deixe-o”.

A grande contradição do período é que, apesar do regime violento, autoritário, da censura, prisões e falta de liberdade, o Brasil vivia um deslumbre econômico, um desbunde cultural, a autoestima estava no pico, o sol brilhava nas lindas praias, a natureza regia, o futebol alegrava.
SIMONAL foi acusado de dedo-duro no auge do sucesso, depois de, onipotente, dar uma prensa no contador, com a ajuda de agentes do Dops. No Pasquim, tinha até um logo (um dedo negro) para ilustrar textos sobre ele.
Foi apagado da história. Nunca se reabilitou. Ia ver shows dos filhos escondido, para não prejudicá-los. Bebeu até morrer.
Tristes tempos aqueles. Que a história faça justiça a um dos maiores artistas brasileiros. E o cinema mostra o seu poder. Vida longa para SIMONAL!
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Hoje estreia Fluidos – O primeiro longa-metragem ao vivo, o aguardado filme que dei em primeira mão aqui, experiência única- o público acompanhará numa tela de cinema uma gravação ao vivo de cenas que ensaiam há meses. Direção de Alexandre Carvalho. Roteiro de Alexandre Carvalho e Rodrigo Ribeiro. Com Amanda Banffy, Gus Stevaux, Laerte Késsimos, Silvia Pessegueiro, Tânia Granussi e Tatiana Eivazian. Produção da A.S.C. AUDIOVISUAL. E é grátis.
Dias 16 (sáb), 24 (dom) e 30/05/09 (sáb) às 14h.
Local: Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000)
Trailer do filme: http://www.youtube.com/watch?v=hq55yNjSf AU
Ou no site: http://www.cinevivo.com.br/
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Em julho começam a rodar no Rio o longa MALU DE BICICLETA, baseado no meu livro de 2004 sobre um homem galinha que se apaixona por uma carioca, casa-se com ela e inicia um processo de ciúme doentio que corrói a relação.
Direção de Flávio Tambellini. O roteiro é meu. Surpresa: mudei o final da história, tida por muitos como pessimista e que entrega a hipocrisia do homem atual.
Detalhe. Quem deu o título do livro foi MARIO BORTOLOTTO, que leu os originais, quando eu estava em dúvida de como chamá-lo, e o convoquei para missão, já que MARIÃO é especialista, entre outras coisas, em dar ótimos nomes para as suas obras.
Meu brother e parceiro MARCELO SERRADO fará o protagonista LUIZ. A revelação FERNANDA FREITAS fará MALU.
Aliás, ela foi flagrada por um paparazzi do site ego.com jogando futevolei na praia com o namorado:
http://ego.globo.com/Gente/Noticias/0,,M…

Fiquei feliz ao ver a foto. Afinal, segundo o meu roteiro, MALU joga futevolei na praia, o que cativa LUIZ. Fernanda, quem não conheço pessoalmente e vi boquiaberto em cena na peça ENSINA-ME A VIVER, se prepara para o filme, deduzi.
Insisti para que o filme tivesse atores de teatro, experientes, conhecidos- outros nem tanto, da cena indie paulistana.
Indiquei amigos. Alguns tiveram de ir ao Rio para fazer testes. Consegui emplacar a maioria. Como MARCO CESANA, NILTINHO, MARIA MANOELA, CACÁ MANICA, OTAVIO MARTINS e o MARIÃO em carne e osso.
Arrasem!!!

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cacá [acima] e manu experimentando o meu celular

Com esses dias lindos que tem feito em São Paulo [outono é muito bom, não? dias para se reciclar. tomar decisões. se preparar para o inverno. ver as folhas caírem, para renascerem mais fortes], fico na fissura de sair andando pela cidade- que ganha outra luz, céus vermelhos-, sem risco de me molhar no final.
Fotografei este lambe-lambe que alguém espalhou por aí. Aliás, também andaram pichando a mesma frase em muros brancos.
Me lembrou os poetas marginais dos anos 70. Turma que deu em escritores e grafiteiros. E que buscava contestar pelas palavras, não pela força. Vários ditos ficaram famosos. Ironizavam dizeres políticos. Pouco a pouco tomou conta do espaço urbano. “Intervir” era o verbo.
Muitas das intervenções mexiam com a rotina de um pedestre. Provocavam debates. Um desses artistas, Tadeu Jungle, criou adesivos que distribuía, e colávamos onde bem entendêssemos:
PASSE A MÃO, PASSE O PÉ, PASSE BEM, PASSE ATÉ
FURE FILA, FAÇA FIGA
E FUJA DO FARO DA FERA
VOCÊ ESTÁ AQUI

Este último é o mais surpreendente, como um pensamento metafísico: independentemente da essência, você é o que é aqui e agora; independentemente das frustrações, você está agora aqui, olhe ao redor, viva a vida.
Colei-o no meu espelho, para todas as manhãs acordar concentrado.
O AMOR É IMPORTANTE? Eu sei disso. Quem não sabe? Imaginei o que levou alguém a sair pela cidade pregando. Será uma campanha de um site de relacionamentos ou do Movimento dos Sem-Namorado? Será uma campanha de uma marca de desodorante? De camisinha?
Ou um apaixonado se envolveu com uma pessoa titubeante, ou melhor, TRINCADA?
Muitas vezes, um cara [ou uma mina] vive uma história de amor que não se concretiza. E insiste, esperando convencer o outro lado. Se esforça para mostrar que merece uma chance. Às vezes, dura meses.
Quem já não viveu uma história dessa? Com a idade, aprende-se a distinguir quem vale a pena ser amando. A sacar onde tem história e onde tem ilusão.
Mas quem quer viver a vida com coerência?
Amar sem ser correspondido também é amar. Faz bem ser louco por uma paixão distante. Faz bem acordar e pensar nele [nela], imaginar o que estaria fazendo, sonhar secretamente, esperar um e-mail, um telefonema, um encontro. Até na ausência, há AMOR.
Porque amamos amar.
*
Ontem fui novamente ao PACAEMBU. Uma amiga perguntou, ao telefone, quando disse qual seria o meu programa noturno: “Tem show lá?” Minha resposta foi imediata: “Sim, de Ronaldo.”
Algo de novo acontece nos estádios brasileiros. Não vi um maloqueiro-sofredor na arquibancada central [laranja]. Virou programa de playboy. Claro. R$ 100 a arquibancada. R$ 150 a numerada. Apenas no trecho das GAVIÕES, ingresso a R$ 30, se via os torcedores de sempre. Porém, só cadastrados entram no gueto.
Muitas famílias, muitas mulheres, muita gente perfumada e educada. Nenhuma confusão. Europeízam o futebol brasileiro. Sai o torcedor folclórico, o desdentado do alambrado, o fanático bebum, a tia que não para de gritar. Agora, vendem pipoca e churros a R$ 4 e cerveja sem álcool.
Na hora do gol, chacoalhem os celulares; parodiando John Lennon.
A má notícia, para mim, é que na saída camelôs vendiam cópias piratas do filme FIEL- de que fiz o roteiro e ganho em cima da vendagem do DVD. Um deles me reconheceu e gritou: “E aqui está o autor do filme, pode comprar que ele autografa.”
Ufa. Votei ao Brasil de sempre.
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Sim, ele bebe água. Registrei este flagrante.

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Paula e Helena, duas atrizes e amigas escaladas em peças minhas. Fala a verdade. Não é animada a vida de autor-diretor? Amo essa vida.



Minha amiga Paula Cohen perdeu também o pai quando era criança. Me contou que costuma ir a Buenos Aires, onde mora o melhor amigo dele, só para ouvir histórias que não conhecia do pai. Chega a ficar hospedada com o amigo, para escutá-lo. E sempre se surpreende.
Eu perdi meu pai quando tinha 11 anos. De lá para cá, conheci muitas coisas dele. Inclusive detalhes da sua luta contra a ditadura, informações de que éramos privados “por questões de segurança”, como se dizia na época.
Vira e mexe, encontro alguém que o conheceu e me relata ações inacreditáveis, gestos de bondade, esquemas de fuga. Ele viajava muito. Deixou amigos no Brasil e fora dele.
Era de família rica. Mas soube há pouco tempo que ficou amigo de Ho Chi Minh, o místico líder vietnamita, com quem trocou cartas. Por isso que, lá em casa, os cachorros tinham nomes de vilas do Vietnã, como Khe San- onde ocorreu uma batalha em que os americanos levaram uma surra.

A foto acima foi descoberta há pouco, nos arquivos de uma prima que morreu. Da esquerda para direita CLAUDIO PAIVA, JAYME PAIVA, RUBENS PAIVA e CARLOS PAIVA. Os 4 irmãos playboys santistas No Lido, em Paris, numa viagem de um ano que fizeram pela Europa, nos anos 40, em que viram a reconstrução do continente arrasado pela guerra.
Apenas um deles, o mais novo, Claudio, sorri para a câmera. Claro. Os outros 3 já estavam noivos. Como explicar para as pretendentes no Brasil, minha mãe e tias, que se divertiam no Lido. Bem, é a minha interpretação.
A viagem mudou a cabeça deles, motoqueiros farristas. CARLOS entou para o PCB, quando voltou ao Brasil. Circulou entre os modernistas. Boêmio, colecionou quadros. Meu pai virou líder estudantil e entrou para o PSB. Foi exilado, cassado e perseguido. Para horror do meu avô, um conservador da elite santista.
E agora leio o artigo publicado na REVISTA DA USP número 10, por Thomas Maack. Nunca tinha ouvido falar dessa história. Os mortos não morrem.
“Casa de Arnaldo, circa 1964: considerações pessoais sobre a repressão interna na Faculdade de Medicina da USP no ano do Golpe Militar” – Thomas Maack
pp. 120-140
“O concurso [para a cátedra de Fisiologia da Faculdade de Medicina da USP, onde concorriam Alberto Carvalho da Silva e Demóstenes Orsini] começou algumas semanas antes do golpe. Na noite anterior ao início do concurso fui temporariamente detido pelo DOPS quando participava de uma reunião da Frente Nacionalista no Centro Professorado Paulista na Rua da Liberdade. Foi a reunião de lançamento da candidatura de Almino Afonso a Governador do Estado, do qual participavam todos os partidos de esquerda e líderes sindicais. A reunião foi dispersada à força por ordem do governador Adhemar de Barros com uma violência incomum para um período de franquias democráticas – cacetadas, socos e pontapés distribuídos por um contingente uniformizado da guarda civil que invadiu o auditório apinhado de gente. Na ocasião ninguém teve consciência de que seria a primeira demonstração aberta de que a preparação do golpe na cidade de São Paulo estava em andamento.
No melê estabelecido fui agarrado por dois agentes do DOPS que me levaram para uma perua Chevrolet estacionada em frente ao Centro Professorado. Isa também tinha sido apanhada e acabamos sentados lado a lado no banco da perua do DOPS. Eu estava preocupado porque pensava que minha prisão, ao se tornar pública, iria prejudicar Carvalho da Silva em seu concurso. Isa estava preocupada porque tínhamos deixado a nossa filha com um vizinho para participar da reunião. Quando estávamos nos consolando mutuamente alguém subiu no teto da perua e gritou: ‘Eu sou deputado federal. Soltem imediatamente os que estão nessa perua’. Um agente do DOPS comunica-se com a central pelo rádio, explica o que está acontecendo e pede instruções. A voz fanhosa do rádio retruca: ‘Tira o deputado do teto a tapa’. O agente sai para dar as instruções. Um minuto depois ele volta esbaforido e explica pelo rádio que o deputado tinha puxado um revólver e continuava exigindo a nossa liberação. O rádio silencia por um tempo que me parece interminável. Finalmente a voz fanhosa soa: ‘Solta os detidos’.
Isa e eu saímos da perua e lá estava o deputado Rubens Paiva – pernas separadas, pés solidamente fincados no teto da perua, revólver na mão – dizendo para nós “sumirmos” rapidamente, pois não sabia quanto tempo poderia sustentar a situação. De todos os políticos graúdos presentes à reunião, somente Rubens Paiva, a quem não conhecíamos pessoalmente, veio salvar os ‘peixinhos’ das mãos do DOPS. Essa dedicação, essa lealdade ao militante comum, veio a custar-lhe a vida nas mãos da ditadura. Rubens Paiva foi assassinado em 1970 quando procurava defender da tortura uma companheira de prisão que nem conhecia.
Frequentemente associo na minha memória Rubens Paiva e Carvalho da Silva, apesar deles serem pessoas completamente diferentes. Rubens Paiva era valentão, desbocado, discursador. Carvalho da Silva é ponderado, quieto, organizador. Todavia, ambos tinham pelo menos uma coisa em comum, o objetivo político e social no caso de Rubens Paiva, o objetivo acadêmico e ético no caso de Carvalho da Silva. Ambos exerciam essa lealdade com uma coragem moral incomum em que Rubens Paiva aliava-se à coragem física e em Carvalho da Silva alia-se à coragem intelectual.” (pp. 129-130)
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