A pedidos. Juntei duas crônicas publicadas recentemente do Estadão. Deu nisso.

Lucila tinha cabelos encaracolados. Era sorridente e mais baixa do que o normal. Desde que a conheci, no primário em São Paulo, fiquei apaixonado. Pensava nela quando subia na jabuticabeira de casa, para observar o suicídio das frutas maduras que se atiravam aleatoriamente dos galhos, enquanto minhas irmãs corriam pelo quintal.
Havia um canto debaixo da escada da garagem. Era o meu canto. Por que adoramos tocas? O darwinismo deve explicar nosso encanto por cantos. Mas faz parte da seleção natural os amores platônicos?
Meu pai decidiu se mudar para o Rio de Janeiro. Quando me comunicaram a notícia, sofri antecipadamente de saudades. Lucila… Como seria a vinha vida sem ela? Que desgraça! A primeira coisa em que pensei foi fugir de casa, para marcar posição e o meu protesto.
Fui corrompido pela oferta de uma enorme festa só minha. Toda a escola seria convidada. Lucila então conheceria minha casa, minha árvore, meu canto. Correria pelo quintal. Brincaríamos.
Apareceu uma multidão. A casa parecia uma quermesse. Teve palhaço e mágico. Eu nem sabia que tinha tantos amigos. A maioria eu não conhecia. Era difícil se locomover entre tanta gente. Não encontrava a minha amada. Me lembro que, num certo momento, me escondi na garagem, sufocado, estressado.
E ela apareceu para se despedir, com aquele cabelo dourado cacheado, como molas. Lucila era a fim de mim também, eu tinha certeza. Ficamos juntos conversando. Toda a escola respeitou nossa privacidade. Nos demos as mãos e fomos ver outro número do palhaço. Passamos o resto do dia grudados. Foi uma única vez em que demos vazão para o nosso amor.
Se eu não tivesse que me mudar, eu sabia, seríamos o casal mais feliz da cidade, eu, com 6 anos, e ela, com 5. Como a vida atrapalha histórias de amor… Que lição meu pai me dava, ao me amputar a paixão.

Me mudei para o Rio. Meu pai fugia do estigma de paulista comunista inimigo da ditadura. Cassado e exilado dois anos antes, no Golpe de 64, voltou para o Brasil clandestinamente e imaginava ter menos visibilidade e mais oportunidades na Guanabara.
Moramos no Leblon, a três quadras da Favela do Pinto. Na época, o bairro não tinha o status de hoje. Havia a favela dentro e um conjunto popular que assustava a elite, a Cruzada, o primeiro do gênero- criado por Dom Hélder Câmara. Bacana era morar em Copacabana e Ipanema.
Jogávamos futebol na rua. Eventualmente, o jogo era interrompido: “Olha o carro.” A regra era parar imediatamente. Cada rua tinha um time, com moradores da favela. A maior glória era jogar no campinho de terra da Cruzada. Lá, havia torcida e o campeonato definitivo.
Minha rotina era de uma paz que nunca mais encontrei. Vivia na ex-capital do País, mas era como se eu estivesse numa pacata vila.
Aos oito anos, eu pegava ônibus para ir à escola, Colégio Andrews, em Botafogo. De camisa de abotoar e bermuda azul de algodão, um sapato desconfortável preto e meias brancas escondendo as canelas, eu cruzava a favela. Invejava os amigos que não tinham aula e jogavam o dia inteiro.
Vivi no Rio com saudades. Pensava, sonhava, imaginava. Lucila. Lá, reencontrei meu melhor amigo, Edu, outro paulista exilado. Estudamos na mesma classe. Ele já estava enturmado, o que me ajudou no convívio. Ele também tinha irmãs. Tinha diálogo com as cariocas.
Ficamos amigos de Roberta e Isabel, duas morenas amadas por toda a escola.
Nas aulas, dividíamos as mesas com elas. Eu com Roberta, ele com Isabel, conhecida como Isaboa. Ou vice-versa. Passávamos os recreios com elas, para a inveja coletiva. Nas aulas de música, tocávamos triângulo, elas, coco. Ou vice-versa. Ficávamos juntos, fora do ritmo, tocando uma outra música, só nossa.
Havia um obstáculo para o desenvolvimento de paixões. As duas eram maiores do que eu. Se não me engano, Roberta era a mais alta de todas. Para um moleque, é um entrave que afugenta o amor. Especialmente aos 8 anos.
Apesar de toda a escola achar que namorávamos as duas, era pura amizade. E eu não me esquecia de Lucila e seus cachos malucos. Um dia, eu iria reencontrá-la.
Eu circulava pelo bairro de bicicleta. Muitas vezes, tinha que parar para cumprimentar e papear com os amigos. Nunca fui assaltado. Nunca sofri qualquer tipo de violência. Psicopatia social não estava em nossos dicionários.
Pulávamos o muro do Clube Paulistano, para jogar bola. Depois, dividíamos o milkshake com os que não tinham dinheiro. Enfiávamos vários canudinhos num mesmo copo e contávamos até três. Sorte daqueles que, com bons pulmões, conseguiam sugar mais rapidamente o sorvete.
No domingo, lotávamos uma Kombi para ir ao Maracanã, assistir ao Flamengo de Fio Maravilha, time do bairro. Os pais se revezavam. O meu nos levou certa vez. Ficou surpreso com a quantidade de palavrões que conhecíamos.

Num dia de semana, a praia amanheceu apinhada. Toda a favela correu para lá. Estavam chamuscados. Crianças choravam. Carregavam seus pertences. Na água, bonecas com fuligem. A favela tinha pegado fogo. Foram os militares, diziam. Até hoje pairam dúvidas. Viram helicópteros do Exército sobrevoando a favela na noite da tragédia.
O tumulto durou uns dias. Certa manhã, tomávamos café, e um grupo de moleques invadiu a nossa casa. Não falaram nada. Foram pra geladeira e comeram com as mãos o que encontraram. Nem nos levantamos da mesa.
Enfim, foram removidos. O filme Cidade de Deus começa com os favelados chamuscados chegando à sua nova morada, coincidentemente recém-inaugurada.
O terreno abandonado foi aterrado em tempo recorde. Em meses, subiram prédios de até 17 andares. Os apartamentos foram comprados exclusivamente por militares, que receberam empréstimos descontados diretamente da folha de pagamento (soldos). O condomínio, que se estende por grandes quadras, com uma praça no meio, recebeu o apelido de Selva de Pedra, em homenagem à novela da Globo que fazia sucesso.
A especulação imobiliária expulsou o democrático futebol de rua. Enviaram os pobres para os guetos. E o convívio pacífico virou poeira.

Toda a molecada do bairro fazia uma conexão no Central-Gávea, ônibus 174- o mesmo sequestrado por Sandro Nascimento décadas mais tarde. Descíamos, depois da escola, para assistir a filmes de arte.
Educação Sexual naquele tempo era uma piada, quando havia. O que aprendíamos estavam nos livros de Medicina Legal, no catecismo do Zéfiro, vendido clandestinamente nas bancas, e nos filmes proibidos para menores.
Instalado na Rua Jardim Botânico, na rota dos ônibus que vinham de Botafogo, o Cinema Floresta, inaugurado em 1922, que em 1960 mudou o nome para Jussara, educou uma geração.
Não sabíamos a diferença entre Nouvelle Vague e Cinema Novo. Nem que aquelas imagens causavam uma revolução da linguagem. Godard, Truffaut, Glauber? Não guardávamos os nomes dos diretores. Lotávamos a sala, pois o porteiro não pedia carteirinha, e queríamos ver mulheres nuas.
Talvez a curiosidade tenha formado uma geração de cinéfilos. Muitos sonharam com Norma Bengell, nua em pelo, correndo em direção à câmera, numa praia deserta, como se suplicasse pelo nosso carinho- inesquecível cena de Os Cafajestes, de Ruy Guerra. Norma, Joana Fomm, Odete Lara, Leila Diniz foram nossas primeiras paixões.
Admirávamos os franceses, com suas lindas atrizes, despudoradas, que não se intimidavam diante das câmeras e ainda por cima ganhavam prêmios. Sonhávamos com as personagens volumosas e pálidas de Roma, de Fellini.
As incongruências do regime se ampliaram- que endurecia e censurava, empastelava e prendia, proibia peças e livros, mas não a pornochanchada.
O pequeno cinema conhecia o seu nicho. Dedicou-se ao gênero que deu sobrevida ao cinema nacional, porém arranhou por décadas o seu prestígio. Todas ficavam peladas. Até as estrelas das novelas.
Na tevê, Lucélia Santos botava nossas mães para chorar no dramalhão Escrava Isaura. Na sala do cinema cheio de baratas, nos apertávamos para vê-la nua em Não Se Faz Amor Como Antigamente.
Os nomes provocavam a nossa imaginação, como Eu Dou O Que Elas Gostam, E O Que Elas Gostam Não É Mole, ou o clássico de Carlos Imperial, A Ilha das Cangaceiras Virgens.

Passei para o ginasial, mudei de prédio, na Praia de Botafogo. Recepcionamos novas turmas e conheci Carla, loirinha enigmática, linda como a vista do recreio, o Pão de Açúcar. Do meu tamanho. Nutri por ela uma paixão secreta. Quando ela passava, minhas pernas tremiam. A timidez era na mesma proporção que a minha admiração. Nunca ouviu a minha voz. Puro amor platônico.
A maioria de nós compreendia o que significava o amor platônico e já vivera o seu, idealizara uma garota e sofrera por causa de uma timidez revoltante. Apesar de a maioria não ter ideia de quem foi Platão, nem de que seu amor foi definido na Renascença, baseado nos diálogos do filósofo, que apontavam que o amor mistura fantasia e realidade pelo ser perfeito, e a essência desse amor é a idealização. O amor platônico é comparado a um amor à distância, sem envolvimento e contato, que os inseguros alimentam especialmente na adolescência.
Carla despertava o amor platônico em todo Colégio Andrews. Para nos confundir, ela era filha do nosso maior ídolo, Carlos Niemeyer, do Canal 100, telejornal que revolucionou a linguagem, era exibido antes dos filmes, e terminava com imagens em câmera lenta, com câmeras na beira dos gramados, de lances do último clássico de futebol, sob uma trilha sonora marcante. Queríamos Carla e conviver com a sua família, sermos convidados para ver os jogos de perto e termos em mãos aquele acervo.
A ditadura apertou o cerco. Edu se exilou em Londres. Me mandava cartas perguntando de futebol e Carla. Eu mentia. Dizia que estávamos namorando. Que ficávamos na casa dela nos pegando, apesar dos 11 anos de idade.
Meu pai foi preso e morto naquele ano. Me fechei. Meu olhar ficou triste, como o de um cachorro molhado. Muitos passaram a me evitar. Afinal, eu era filho de um terrorista que atrapalhava o desenvolvimento do país, aprendiam com alguns pais, professores, liam na imprensa, viam nos telejornais.
Ficava muito tempo sozinho no banco da escola. Aos poucos amigos, eu tentava explicar que meu pai não era bandido. A maioria não tinha ideia do que se passava nos porões. A censura e o milagre brasileiro cegavam.
No meio do ano, minha família foi obrigada a sair do Rio. Na festa de São João, comuniquei a mudança. Muitos vieram se despedir. Eu estava numa barraquinha comprando doces, quando Carla se aproximou, para se despedir. Minhas pernas tremeram, como sempre. Fiquei sem ar. Ela disse o meu nome, Marrrcelo, com aquele sotaque carioca delicioso. Me beijou. “Você vai embora, Marrrcelo”? Eu não disse nada. Mais um amor era deixado pra trás. E por instantes perdoei o meu pai por não ter se exilado, como a maioria, para salvar a pele.

Quando voltei para São Paulo em 1974, conheci a versão paulista do pulgueiro do Jardim Botânico: o Cine Bijou, na Praça Roosevelt.
O Jussara fechou em 1976. O Bijou virou um teatro. A internet nasceu. E a ingenuidade foi perdida. O saudosismo é a desculpa de quem não se transforma. O Brasil não era melhor nem pior do que é hoje. Era apenas outro País.
Reencontrei Lucila no colégio de São Paulo. Não tinha mais os cachos. Continuava um encantada. Relembramos o passado. Para ela, eu também representava o primeiro namorado. Fui gentil. Mas havia uma baixinha do meu ano, misteriosa, secreta, apaixonante, de poucas palavras e muitos fãs. Que nem sabia da minha existência e nunca reparou nos meus olhos tristes.
Reencontrei Carla no ano passado. Aliás, coincidentemente, na Livraria Argumento, do meu amigo Edu. Ela se apresentou. Sabia das cartas, em que eu mentia sobre o nosso amor. Não sabia que era tão idolatrada assim. Rimos das maluquices platônicas. São os cometas da memória.

Me vejo obrigado a postar aqui o texto que o grande Xico Sá publicou no seu blog: http://carapuceiro.zip.net/
“Se beber não passe email. As chances de dar merda, ora, são enormes. Pedir alguém que você mal viu em casamento, desmanchar o namoro dos sonhos, sabotar os projetos em andamento, escrever pornografia para a madre superiora do Colégio das Damas, xingar o amigo, zoar o freguês, desonrar o(a) parceiro (a), desmerecer os carinhos, atordoar os sentidos, desmascarar os ímpios, passar óleo de peroba na cara dos eventuais incorruptíveis, desmoralizar o ombudsman, entregar as Bovarys e os dons Juans com farta distribuição na rede de fotinhas digitais…
Ao sair para beber, deixe o computador desligado, travado, imploda as tomadas, faça uma barreira na porta do escritório, ponha um rastro de cascas de bananas para que você desabe no chão antes de alcançar a máquina de alta periculosidade. Faça tudo, amigo(a), que dificulte a volta [do boteco] direito para o outlook da insensatez, o gmail das perdições, a pororoca de um spam cardíaco, a irrecuperável ressaca moral dos itens enviados.”

Ultimamente, tenho cometido esta gafe. Fiz concessões, dei conselhos tortuosos, sugeri separações que não se concretizaram, propus o inatingível. Desabafei, me abri, me declarei por e-mail. Sob o comando de algumas doses de uísque. Às vezes, assistindo ao nascer do sol.
Xico tem razão. Todos sabem muito bem. Eu sei. Mas como se controlar? É irresistível. Bebida abre o coração reprimido. Muitos escritores são alcoólatras. Pois desarma, abaixa a guarda- tudo o que é preciso para se escrever com verdade e precisão. Sensatez serve aos cientistas, não aos artistas. Ao menos, eu aviso nas últimas linhas que estou bêbado. Adianta?
Agora, junte tudo isso a uma falta de reflexos na hora de clicar “enviar para”. Então, comete-se a gafe maior de todas: enviar de porre um e-mail para a pessoa errada. Dá uma merda…
Minha amiga americana Laura Murray, que morou por aqui, estudou a prevenção de prostitutas brasileiras, foi modelo da DASPU, uma “dasputinha”, e agora faz doutourado na Universidade de Columbia (Nova York), me escreveu, depois de ler este blog: “Acho um luxo que você seja pago para publicar suas pequenas neuroses contemporâneas! Eu tenho que pagar para outros escutarem as minhas.”
Escritor tem essa vantagem. Nos pagam, não muito, para exorcizarmos. Mas, se a terapia surte efeito, é outra história.
*
Sobre o filme FIEL:
1. Minha amiga Pena, palmeirense, foi com o marido Motta, corintiano, assistir ao filme sobre a saga do Corinthians. Se envolveu com a história. Acompanhou os depoimentos, foi pega pela trama. No entanto, nos momentos cruciais, enquanto o marido chorava, ela ria por dentro. Cutucava-o e dizia: “Já passamos por isso”.
Futebol é superior a tudo. Torcer é uma paixão que foge à compreensão. A linguagem do cinema foi incapaz de conduzi-la ao seu propósito. Que lição… Viva o futebol!
2. No sábado, no Shopping Frei Caneca, as sessões do FIEL lotaram. Na fila de ingresso, havia uma multidão com a camisa do Corinthians misturada ao público de outros filmes, pacificamente. Um sujeito, com a camisa do Palmeiras, estava entre eles. Não foi importunado. Nenhuma balburdia. Era uma fila de cinema, não uma arquibancada. Intessante paradoxo.
*
Na ida para Cotia, em carreata, para a festa da atriz e amiga Paula Cohen, cruzamos com uma passarela chamada Zé da Silva. Meu amigo Rui Mendes riu. “Pretenderam homenagear a metade da população?”
De fato, os responsáveis pela obra puderam justificar na eleição posterior que a maioria dos eleitores foi homenageada na obra sobre a estrada Raposo Tavares. Sabedoria política.
Um novo jeito de fazer cinema será apresentado aos paulistanos, o CINEMA VIVO. Estou curiosíssimo. Como diz o nome, será um filme transmitido ao vivo, numa tela do cinema do Centro Cultural São Paulo e no da Juventude.
A experiência é simples e engenhosa. Em vários palcos, atores representarão a história, que será captada por câmeras ao vivo. O resultado será exibido na tela concomitante, o filme FLUIDOS. O grupo de atores ensaia há semanas. O casamento teatro-cinema é radical.




Explica Alexandre Carvalho:
“A palavra chave para a linguagem do Fluidos é o cotidiano. Cotidiano das relações, do bairro, da vida dos espectadores. Câmera na mão, planos-sequência movimentados, afim de captar o fluir irriquieto e fugidio do contemporâneo. O Naturalismo é a base do filme, não somente no roteiro, mas também em sua linguagem e estética. Sempre prevalecerá o ambiente real, tal como ele é. São pessoas vivendo histórias que podem acontecer a qualquer um que frequente aquela região.”
A fotografia, direção e som serão os das próprias locações. Transeuntes virarão figurantes.
“O filme busca a textura diferente do nosso presente, imperfeita, quase pixelada, que denota a velocidade dessa imagem digital, simulada e vazia.”
O elenco:

As regras são:
- Não há cortes numa mesma locação.
- Um personagem não pode sair de uma locação e aparecer em outra imediatamente.
- Movimentação de câmera não extravagante.
- Três principais locações, com possibilidades de sublocações (de acordo com o alcance da tecnologia).
- Nas imagens externas, sempre as mesmas condições do ambiente e meteorológicas: sempre é dia, ou sempre é noite, ou sempre está nublado.
- As trocas de figurino e maquiagem devem ser rápidas e feitas na própria locação
- As cenas não podem ter duração muito breve, para dar tempo de deslocamento de atores de uma locação para outra.
- As cenas precisam ser expandidas, iniciando antes e terminando depois das ações principais, para possibilidade do corte ao vivo.
- Há espaços para improvisações, cacos, e inserções de informações atuais cotidianas nos diálogos dos personagens.
- Criação de jogos de aproximação e afastamento da diegese com o público.
Mais detalhes no blog: http://www.cinevivo.com.br/
Falei que na pré-estreia do filme FIEL, segunda-feira, não vi a classe cinematográfica, o que me surpreendeu, pois não perde uma sessão, e o filme traz um novo elemento ao mercado e um público que não é frequentador.
Mas a crítica estava lá. Olha o que publicou o Zé Geraldo, um dos melhores críticos do Brasil, hoje na Ilustrada. Esse entende…
JOSÉ GERALDO COUTO
COLUNISTA DA FOLHA
A certa altura de “Fiel”, um entrevistado repete uma frase conhecida: “Os outros times têm torcidas. No Corinthians, é a torcida que tem um time”. Coerente com essa ideia, o documentário busca captar a comunicação direta entre os corintianos e o clube.
A estrutura concebida pelos roteiristas Sérgio Groisman e Marcelo Rubens Paiva é simples e eficaz. Uma primeira parte apresenta um punhado de torcedores mais ou menos característicos, cada um falando de sua paixão pelo clube e introduzindo temas básicos: a fidelidade, as superstições, o Pacaembu como “casa corintiana”, a tradição de sofrimento, os jogos memoráveis etc.
Na segunda parte, alternando depoimentos e cenas nos estádios, narra-se o calvário vivido em 2007, quando o clube foi rebaixado para a segunda divisão. Num crescendo de tensão, reconstitui-se a reta final do campeonato brasileiro daquele ano, culminando no fatídico dia 2 de dezembro, quando o Corinthians perdeu em Porto Alegre, diante do Grêmio, a última chance de escapar da queda.
O epílogo, como não poderia deixar de ser, é a redenção, a volta à elite. Como a campanha corintiana na Série B não foi dramática, pois o time logo disparou na liderança, “Fiel” se concentra no jogo que selou o retorno: a vitória sobre o Ceará, no Pacaembu, em 25 de outubro de 2008. A emoção é garantida pelo fato de vermos na arquibancada os torcedores que foram apresentados ao longo do filme. O clássico mecanismo de identificação que o cinema proporciona sintoniza o espectador com o clima da conquista.
Efeito terapêutico
Dois casos são especialmente tocantes, ambos de jovens torcedoras. Uma delas, conforme ficamos sabendo na última parte, está fazendo quimioterapia contra o câncer e convence os médicos de que suas idas ao estádio têm efeito terapêutico. Ao vê-la vibrar na arquibancada, não resta dúvida quanto a isso.
A outra situação peculiar é a de uma moça que namora um palmeirense. No dia do jogo que rebaixou o Corinthians, eles estavam no Parque Antarctica, vendo um jogo do Palmeiras. Vinte mil palmeirenses vibravam com o time e zombavam do arquirrival, enquanto ela, rádio no ouvido, sofria em silêncio com a nação alvinegra.
É difícil saber como reagirá diante de “Fiel” um torcedor de outro clube ou um espectador indiferente ao futebol. Mas é provável que ele se comova com essa estranha paixão que leva milhões de pessoas de todas as classes e idades a fazer do sofrimento um valor positivo.
Já o crítico Inácio Araujo nos detona no seu blog:
http://inacio-a.blog.uol.com.br/
Fiel” é um mau negócio para uma jovem realizadora (bem menos para os roteiristas, que têm a vida feita): é, basicamente, uma operação de marketing.
O filme é uma celebração da chamada “fiel torcida” pelo método tradicional do documentário: um monte de torcedores fanáticos falando as coisas que todo fanático mais ou menos fala explicam porque ser corintiano é uma experiência única, insubstituível, da ordem da natureza etc.
Como, para piorar, o marketing corintiano se apóia na paixão da torcida pelo time, o filme é meramente bajulatório de seus torcedores e de seu comportamento.
O uso ecumênico das classes sociais não poderia faltar: os entrevistados são ricos, pobres, homens, mulheres, altos, baixos, mas diante do Corinthians são iguais – ainda uma vez, algo que acontece com qualquer torcida. Não que o Corinthians não tenha ricas particularidades: mas o misticismo, São Jorge, o velho Mosqueteiro com seu idealismo antiquado nem são mencionados. E, claro, não se vê nem sombra das muitas macumbas que povoaram os muros do estádio nos momentos dramáticos de 2007.
Com tudo isso, ou antes: sem nada disso, “Fiel” esvazia o “ser corintiano” de conteúdo, enterra a mística do sujeito que acredita na luta mais do que na vitória; no milagre, mais do que na razão; na garra mais do que no refinamento. Em “Fiel”, um corintiano é só um corintiano: mera e cansativa tautologia. Já vi coisas melhores de Andrea Pasquini e espero voltar a ver.
O que mais dá medo em “Fiel” é que essa mania de filmes oficiais, apaixonados, autocelebratórios, se difunda de maneira incontrolável entre os times de futebol. Já houve um do Grêmio, que não vi. Promete-se um do São Paulo, que desde já estou ansioso por não ver.
Primeiro, queria esclarecer que não estou com a vida feita. De onde ele tirou isso? Tanto ele quanto eu trabalhamos na imprensa escrita. Ele sabe o quanto ganho aproximadamente. Literatura no Brasil? E teatro deixa alguém rico?
“Um monte de torcedores fanáticos” é uma maneira bastante preconceituosa de falar de pessoas que vivem uma paixão. O filme não é bajulatório, retrata um caso de amor. E filmes de futebol são superbemvindos. especialmente no País apaixonado por ele. Não viu o do Grêmio, BATALHA DOS AFLITOS, mas deveria, se é um crítico cabeça aberta. Eu, hein?
Inácio, não existe apenas 1 cinema. Nunca me incomodaram as críticas. RESPEITO-AS. Sou rodado. Mas as agressivas [ofensivas], sim. É uma espécie de bajulação do contra, criar polemicazinha, ser diferente, chamar atenção. É o que leva a nossa profissão, jornalista cultural, a perder o parco prestígio. E nós, os isentos, pagamos o preço depois.
Bem, no CADERNO 2 de hoje, tem crítica do grande Merten, que não envelhece, não se acomoda, e é adorado e respeitado por todos.
Luiz Carlos Merten
Pode ser mera coincidência, mas a história é real, permanecerá para sempre no coração dos alvinegros e, embora deflagrada pela tristeza da derrota, será lembrada como os melhores anos da vida dos torcedores. Você não precisa ser da Fiel para saber que o Corinthians, em 2007, caiu para a segunda divisão do Campeonato Brasileiro e no ano seguinte voltou à série A, depois de fazer a segunda melhor campanha da história da série B. Foram 70 pontos em 32 jogos, 20 vitórias, 10 empates e duas derrotas. O Corinthians voltou à Série A com seis jogos de antecipação e sempre empurrado pela torcida, a Fiel, que ganha agora o documentário assinado por Andrea Pasquini, que estreia hoje.
A Paixão (do torcedor), nada mais adequado para uma Semana Santa. A coincidência? assinalada no início é que o curta A História Real e os longas Os Melhores Anos de Nossas Vidas e Sempre em Meu Coração compõem a filmografia da diretora de Fiel. Pode parecer estranho que justamente uma mulher assine a direção do filme, mas a surpresa se dilui quando você pensa na lendária Marlene Matheus, uma locomotiva a impulsionar a história do clube. Uma mulher dirige, mas a produção é da G7 Cinema e, por trás da marca, está Gustavo Ioschpe.
A G7 Cinema realizou dois documentários recentes sobre clubes de futebol do Rio Grande do Sul. Há uma rivalidade muito grande entre Grêmio e Inter, a dupla Gre-Nal, cujos clássicos paralisam Porto Alegre, seja no estádio de um, o Olímpico, ou de outro, o Beira-Rio. Isso é praxe no futebol. Grêmio e Inter foram campeões do mundo. Futebol é arte, dirão os saudosistas, mas ela – a arte – é cada vez mais substituída pela política de resultados que domina as partidas.
Inacreditável – A Batalha dos Aflitos e Gigante – Como o Inter Conquistou o Mundo são épicos sobre futebol. O segundo é maravilhoso, mas pode ser o colorado falando. A histórica partida do Grêmio contra o Náutico, no Recife, a campanha do Inter para vencer no Japão contam como times desacreditados deram a volta por cima. Fiel também aspira a essa dimensão épica, mas ela não se constrói dentro de campo e sim, nas arquibancadas, nos ônibus, metrôs, nos acessos aos estádios, onde a torcida vela pelo time. O filme divide-se em três atos. O primeiro mostra torcedores anônimos bradando o amor pelo ?Coríntia?, o segundo retrata a tristeza daquele 2 de dezembro em que o time foi rebaixado. O terceiro, o épico, trata do retorno à primeira divisão. A última é a melhor. O filme cresce. Corintiano de raça não pode perder.
Ele viu os filmes de futebol. Tem um texto preciso. E pode assim fazer as comparações, a verdadeira vocação de um crítico.
A lei não manda os serviços telefônicos das empresas atenderem em no máximo 1 minuto? Tente falar com a Receita Federal no 146… Interessante saber quem terá coragem de multá-la
É proibido fumar em lugares públicos no Estado de São Paulo. Diz o aviso que eu li e a lei aprovada ontem…
É uma excelente contribuição para o aquecimento global. Nossas máquinas de levar roupa receberão uma folga, depois de restaurantes, bares e boates. Nossos cabelos então… O problema será a quantidade de gente nas calçadas fumando. E as bitucas no chão. A nova lei deveria obrigar a instalação de cinzeiros nas portas de ambientes fechados.
Hoje tem NAVALHA NA CARNE no Espaço Fábrica, teatro charmoso e bem equipado da Avenida Consolação. Muitos pensam que é difícil estacionar nele. É moleza. Tem uma ruazinha antes com vários estacionamentos.
Recomendo esta montagem de Plinio Marcos digna e pulsante. Especialmente por causa do elenco que não tem medo de mergulhar na crueza do texto do meu grande ídolo e amigo: GERO CAMILO, GUSTAVO MACHADO e a minha estrela e musa PAULA COHEN. Ainda deve ser permitido fumar no lobby do teatro. Espera-se a sanção do governador; batalha perdida.
E depois, CURTA NA PRAÇA, projeto que exibe no ESPAÇO PARLAPATÕES curtas brasileiros. Servem caipirinha de graça, lembra Mario Bortolotto. Depois dos filmes, óbvio.
Hoje às 23h tem ILHA DAS FLORES, curta de Jorge Furtado que marcou sua presença na retomada, influenciou o cinema brasileiro e não perde o encanto e a inovação. Um clássico do cinema nacional. Que vale a pena ser visto e revisto. Bora…

Ontem, na pré-estreia do filme FIEL, lá no Unibanco Arteplex, do Shopping Frei Faneca, dei umas 300 entrevistas. Inclusive para o meu amigo Danilo Gentili, do CQC, que considero um dos melhores stand-up comedies de São Paulo, e vi começar em bares modestos.
Nunca dei tanta entrevista na vida. Já na cabine para a imprensa, há uma semana, foram umas 200. E olha que sou rodado. Tenho certeza. Quando eu morrer, estará nos jornais: “Morre roteirista do filme sobre Corinthians”.
Estavam lá Wladimir e Zé Maria, dois jogadores extraordinários, do Corinthians e da seleção, que começaram e encerraram a carreira no Timão, laterais velozes, raçudos: a marca do time.
Estava emocionada a diretoria do time, dois jogadores do elenco atual, William, cinéfilo que não sai de cinemas alternativos, e André Santos. Nada de estrelas da Playboy ou de Caras. Nem gente de cinema, o que causou estranheza. São todos palmeirenses?
Uma pena, pois este filme é aguardado pela indústria, para medirmos o potencial de uma obra sobre um time: levará gente que nunca pisou numa sala de cinema? formará público?

Ontem, de repente, apareceram pulando e cantando alguns torcedores da Gaviões. Uniformizados, como se estivessem no estádio. Cruzaram os corredores. Entraram na sala principal, levantaram os jalecos, como bandeiras, durante os discursos, gritaram, aplaudiram. “Estranho seria se não viessem”, comentei com um amigo.
Começou o filme, no primeiro lance de gol, gritaram. Então, pouco a pouco, se acalmaram, entraram na história, foram envolvidos pela trama, pela narrativa dos entrevistados, pela tragédia da queda do time e pela emoção da volta à série A. Choraram, como toda a sala. E foram embora pensativos.
Que poder tem o cinema. Virei para o Serginho Groisman, co-roterista do filme, e para Andrea Pasquim, diretora que colocou o seu coração na tela, e disse: “Missão cumprida”.



Jogadores com a sobrinhada
Nós artistas somos esquisitos.
Lá pelos anos 80, decretamos que vivíamos enfim na era pós-moderna. Vendemos livos teóricos explicando o que era isso e o que o diferenciava do modernismo. Pesquisamos e debatemos. Selecionamos aquilo ou aquele que era ou não era pós-moderno.
Fui atrás do sentido. O pós-modernismo veio casado com o hiper-realismo, em que a expressão da imagem e a digitalização passou a ser mais realista que a realidade, a hiper-realidade, fruto das novas tecnologias.
A idéia nasceu nos anos 50, quando se percebeu que, na era do consumo, a imagem (o simulacro) era mais sedutora do que o real.
Nessa nova era, perdíamos o referencial. Um exemplo grosseiro: com uma máquina de escrever, sabíamos que apertar uma tecla originava um movimento mecânico em que uma alça pressionava uma fita com tinta, que imprimia uma letra no papel; com um computador, não tínhamos idéia de como se fazia a trasição entre o gesto mecânico e a letra.
O mundo se tornaria confuso. Nossos cérebro deveria aprender a conviver com o desconhecido, que faria parte da rotina. No livro O QUE É PÓS-MODERNO, da Brasiliense, se ensinava que entrávamos na era do “de”: desreferencial, desabilitar, desconstrução…


Ontem fui ver MOSCOU, de Eduardo Coutinho, o papa do documentário no Brasil, em cartaz no É TUDO VERDADE (festival de documentários em SP, Rio e Brasília, cujo o ingresso, vale acrescentar, é gratuito!!!).
O filme conta a história da peça AS TRÊS IRMÃS, de Tchekhov, através dos ensaios de um grupo, O Galpão, com um diretor convidado, Kike Dias. Misturam trechos do texto com desabafos dos atores. Os exercícios propostos pelo diretor do grupo, os workshops, entram como uma forma de se contar a história das três irmãs russas que recebem a visita de soldados estacionados em sua vila.
É um filme desconstruindo uma peça em desconstrução; peça que ficou em cartaz, no repertório da Cia dos Atores. Tudo se mistura. O figurino é a roupa do ator. O cenário, uma sala de ensaio, os camarins, um palco nu. Rompem-se todas as regras narrativas. No entanto, está lá, a trama de Tchekhov, acompanhamos as paixões das meninas e seus conflitos.
Descobre-se como levamos para o palco, mesmo ao encenar um texto de 1900, nossas experiências pessoais em fragmentos. É uma aula de cinema, teatro e desconstrução.
Imagine se a moda pega:
1. A indústria automobilística passa a vender carros desconstruídos, cujo banco é uma poltrona velha, rasgada, a buzina, uma música infantil, a água do limpador é colorida, e se entra pelo portamalas.
2. Lançam um celular a corda, com rodinhas. Ou em forma de boneca, que o usuário deve vestir, trocar a fralda. Ao girá-lo, ele diz: “Eu te amo, mamãe”.
3. Um teclado com alavancas. Ao pressionarmos as teclas, elas se erguem e imprimem a letra na tela plasma. O ruído de uma máquina sai pelos altofalantes.
4. Uma impressora multifuncional no formato de uma prensa do século 16.
E por aí, vai…

Falando em consumo, recebi agora. Não resisti:
DESABAFO DA TRANCHESI:
“Caríssimos. E bota caro nisso, essa Operação Narciso me deixou aloPrada! Alguém me deFendi. Não sou dessa Alaia. Não é Versace o que Diesel por aí. Sou pessoa Dolce & Bacanna. Pucci que Paris!!! Estão me pegando para Christian, meu Dior. Preciso de um Cacharel em direito, um cara Valentino para dar um jeito nessa Bottega, antes que coloquem no meu Rabanne. Eu não vou botar o Galliano dentro não. Chloé? Vou continuar minha Missioni. Miu Miu, abraços para vocês!”
Abraços só na visita íntima. Bem, ela já foi liberada…
essa é de março de 2007
Os três pediram café; um curto, um carioca e um descafeinado. Rodrigo, homem de poucas e sábias palavras, manteve-se calado a maior parte, enquanto os outos dois…
“Quem é o seu melhor amigo?”, Marcos perguntou.
“Você?”
“Quem livra a sua cara de situações embaraçosas, resgata à meia-noite quando o carro pifa, dorme com você em hospitais, paga a sua fiança, se for necessário, vira o seu fiador, seu guarda-costas, seu pára-raio.”
“Você, você, você.”
“Me conhece, quem é o seu amigo mais fiel?”, insistia Marcos.
“Você.”
“O mais contraditório?”
“Você”
“O mais doido, insatisfeito, incoerente?”
“Você”
“E o mais sedutor?”
“Você. Disparado.”

Chega o café e a conta. Marcos oferece pagar. E narra: “Não sou sedutor ortodoxo convicto, nem tenho o dogma como ideal de vida. Passei a praticar depois que a ex me largou. É um comportamento dúbio: querer me vingar, sair com o maior número de mulheres, e ao mesmo tempo sofrer de escassez amorosa. Nasceram rancores, depois de eu ter sido largado por duas mulheres que eu amo. Amava. Aquelas… Agora, procuro em cada mulher um novo atalho, que me tire desse estado.”
“Que estado?”
“De carência induzida. Procuro uma mulher que me faça esquecer. Como não encontro, testo, e me comparam a um galinha. Só existe uma pessoa que pode me salvar.”
“Quem?”
“A tua mulher.”
“A Lúcia? O que tem a Lúcia?”
“Tudo.”
“Tudo o quê?”
“Tenho pensado nela. Eu queria ter algo com ela.”
“Com a Lúcia?!”
“Você é meu amigo, não fique ofendido.”
“Ter o quê?”
“Uma relação.”
“De amor?”
“Sexual. Eu queria ter um caso com a sua mulher.”
Olharam o garçom passar o cartão e retirar o boleto. Olharam a fumaça do café. Como se nela, um futuro possível.
“Eu queria ir pra cama com…”
“Tá, tá, não precisa repetir. E será a única pessoa que pode te tirar do estado de carência?”
“Ah, você concorda com ele”, disse então Rodrigo.
“Cala a boca! Estou chocado.”
“Comigo?”, perguntou Marcos.
“Com a Lúcia. Não imaginava que ela tinha este poder.”
“De despertar desejos? De curar? Não me leve a mal.”
Ele olhou para Rodrigo, que bebericava o seu carioca.
“O que foi?”, perguntou Rodrigo.
“Você ouviu o que ouvi?”
“Lógico.”
“E você não vai falar nada?”
“O que eu posso fazer?”
“Me ajude a esganá-lo!”
“Mas é o seu melhor amigo. Se não rolar sinceridade entre amigos, não é amizade. E, ora, a Lúcia é um mulherão. Dos três, você é o mais sortudo”, disse Rodrigo.
Era o pacto. Dos três, ele era o único casado. E vivia desdenhando a mulher, Lúcia. Reclamava do seu temperamento, seus temperos, suas tendências, suas crenças. Os amigos Marcos e Rodrigo chegaram antes e combinaram. Porque são os seus melhores amigos. Resolveram provocar e demonstrar interesse em Lúcia, para que o amigo parasse de invejar aquela vida de solitários desquitados quarentões amargurados que, acredita, é mais inspiradora do que a sua de casado.
Rodrigo retomou: “Lúcia sempre foi a melhor e é ainda a mulher mais deslumbrante da cidade. Você não sabe o que ela provoca com aquele sorriso? Ela é interessada em tudo, conversa, faz perguntas, fala de assuntos sem o menor constrangimento, tem humor, uns dentes lindos, sabe se vestir com discrição, sabe como andar, os olhos mel que, quando bate sol, ficam verdes, fora aqueles braços com pelinhos loiros, ela é maluquinha…”

“Tá, tá, tá!”
“É uma coisa, mesmo!”, concluiu Marcos.
“Não fala assim!
“Melhores amigos falam tudo.”
Ele se levantou tonto. Nunca imaginara que Marcos comunicasse uma declaração com proposta tão indecente.
“Nem por um milhão de dólares!”, ele disse e saiu fora.
Os amigos enfim riram da provocação:
“Também, não é a Dennie Moore”.
“Nem você o Robert Redford”.
Ele dirigiu a noite toda pela cidade. O celular tocava, ele via, era Lúcia, não atendia. Guiou por todas as ruas da infância e adolescência. Depois, cruzou viadutos com nomes de militares. Passou por floriculturas e joalherias. Até voltar tarde para casa. Bem tarde. De mãos vazias. Entrou na ponta dos pés, como se um ladrão invadisse uma casa desconhecida.
Lúcia dormia. Que lindo. Olhou para a mulher. Encanto. Ela é deslumbrante mesmo. Lembrou-se das afinidades. Tomou um banho sorrindo. Uma coisa. E se enfiou na cama sem acordá-la.

Então, ao invés de abraçá-la com toda a força, virou-se para o lado e começou a tremer de medo. Pânico. Uma mulher daquela, ele não conseguirá segurar, logo o primeiro que usar as palavras certas a levará, os amigos, o chefe, o professor de meditação, um garçom do Ritz, do Spot, do Habib’s, um cineasta pernambucano, o Rodrigo Santoro, o Tato Malzoni, o Quincy Jones! Eu sou um nada e me casei com a mulher mais charmosa, atraente e discreta da cidade, e nem reparava mais em tanto brilho no olhar, nem nos pelinhos loiros, nem no humor, nos dentes, ela se tornara comum, Lúcia, a patroa, a rotina, o estorvo, o entrave de uma vida sexual variada e dinâmica, e não a divindade que inspira poesia em todos os cantos.
Ele se levantou da cama. Olhou para os lados. O pânico se tornou incontrolável, terror. Suava. Falta de ar. Você não a ama mais. E ela o largará logo, porque é muita areia para o seu… Sem acordá-la, abriu as gavetas e começou a fazer as malas. Deixarei o caminho livre, musa! Quando escutou a voz meiga de Lúcia.
“Môr? Que tá fazendo?”
“Desculpe. É inevitável. Não adianta me impedir. Cedo ou tarde…”

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