Queria pedir desculpas às mulheres pelo idiota que picou uma, colocou os pedaços numa mala, foi preso, condenado, solto duas décadas depois e, em liberdade, picou outra. Riu para as câmeras e foi glamourizado.

Queria pedir desculpas pelo promotor imbecil que matou a mulher grávida, pois acreditava que ela estava esperando um filho do amante, o que foi negado pelo exame de DNA pós-mortem. E está foragido, covarde.
Nos desculpem pelo jornalista e chefe infeliz que, depois de alavancar a carreira da garota e levar um fora, deu dois tiros à queima-roupa na recém-contratada e ex-namorada.
Sem o contar o pai estúpido que, depois de bater na filha, decidiu cortar as redes de proteção, jogar o corpo pela janela e ainda forjar um assalto.
Também nos desculpem pelo cretino que foi o primeiro homem da vida de uma adolescente do ABC, levou o pé e, inconformado, manteve ela e a melhor amiga reféns por cinco dias, até enfiar, numa sexta-feira chuvosa, uma bala na amiga e duas na garota que amava, uma na cabeça e outra no abdômen, depois da polícia invadir.

Incluam o monstro que estuprou a enteada de 9 anos e a engravidou. E o imbecil que prendeu a filha num porão por mais de duas décadas, com quem teve 7 filhos. Aqueles que cortam o clitóris das mulheres da aldeia, para elas não sentirem prazer. Ou os que apedrejam em praça pública as ditas adúlteras. E que obrigam as mulheres a se esconderem em burcas e as proíbem de sair sem seus maridos.
Nos perdoem por aqueles que criminalizam o aborto.
Desculpem-nos pelo cretino que bateu na mulher com um extintor, jogou-a fora do carro, sequestrou a filha e um bimotor, sem nunca ter pilotado um avião de verdade, sobrevoou a cidade perigosamente, inclusive o prédio em que moravam, até cair no estacionamento de um shopping, arriscando levar mais gente com ele.

Perdão pelo ciúme doentio, pela incapacidade de aceitar a perda, pela covardia e narcisismo, por aqueles que não sabem ouvir “não”, pelo onipotente que acredita ser dono de alguém, pela inabilidade de alguns homens de enxergar as vontades da mulher, inclusive o desejo de partir e romper. Nem todos são como eles idiotas.

Coloquei Mário Bortolotto de terno e gravata em cena. Com uma cerveja na mão, não um uísque. Só isso, já valeu ter dirigido A NOITE MAIS FRIA DO ANO.

Foto: Rui Mendes
Leia mais no Guia da Folha:
http://guia.folha.com.br:80/teatro/ult10…
Nem sei se infrinjo os direitos autorais ao postar aqui o texto de Lucas Neves hoje no Acontece – Folha de S. Paulo. Bem, fala de mim. Estamos todos no mesmo barco, certo? Obrigado MAG, flamenguista, e Neves. Apareçam.
Rubens Paiva propõe metateatro em “A Noite Mais Fria do Ano”
Peça, que inicia temporada hoje, marca a estreia do escritor como diretor
LUCAS NEVES
DA REPORTAGEM LOCAL
Fingir traz a verdade. A máxima, que o dramaturgo fictício Dan (Hugo Possolo) deixa escapar no fim da peça “A Noite Mais Fria do Ano”, aponta a questão que moveu o autor de verdade, Marcelo Rubens Paiva: há nós que só é possível desatar recorrendo a personagens, histórias (aparentemente) alheias.
“Em uma peça dos anos 90, “Da Boca para Fora”, eu falava da separação que vivia. A partir daí, percebi que transformava em teatro todos os meus conflitos amorosos, de amizade ou profissionais. Então, bolei esta peça em que um grupo teatral se junta para escrever sobre algo que está vivendo. É na dramaturgia que eles vão se descobrir”, diz Paiva, 48. Em “Noite”, tudo gira em torno da fixação do dramaturgo Dan na ex-mulher, a atriz e estrela da companhia, Carol (Paula Cohen) -e nos motivos que a levaram a abandoná-lo.
Quando ela é agredida pelo companheiro atual e busca a ajuda do escritor, começa um jogo que apaga a linha entre realidade e representação. Será que Carol faz uma encenação para, no fundo, sondar se o antigo parceiro ainda a quer? Dan entrará no jogo para tentar arrancar da personagem/atriz as causas da separação?
Ficção antecipa realidade
Antes desse reencontro, se verá a encenação da primeira peça de Dan, em que os jornalistas Renato (Alex Gruli) e Caio (Mario Bortolotto) discutem sobre Carla, mulher do primeiro e amante do outro, em queda-de-braço aditivada por uma disputa profissional. Num lance irônico em que a ficção parece antecipar a realidade, é Carol, objeto da devoção de Dan, quem encarna Carla, a personagem dividida entre dois amores.
“Noite” marca a estreia “oficial” de Rubens Paiva como encenador. Isso porque, recentemente, ele dirigiu oito “drops” de 60 segundos para o Festival do Minuto, dos Parlapatões: “Ali peguei gosto pela coisa. Mas já antes, quando via outras pessoas dirigindo meus textos, ficava com inveja”, conta ele. “É engraçado como, quando começam os ensaios no palco, o autor sai de cena completamente. Você vê, no papel de diretor, como há palavras a mais, desnecessárias.”


A NOITE MAIS FRIA DO ANO
Quando: estreia hoje, às 21h; sex., sáb. e dom., às 21h; até 3/5
Onde: Sesc Paulista (av. Paulista, 119, tel. 3179-3700)
Quanto: R$ 20
Classificação: não indicado a menores de 14 anos
veja mais no blog cacilda, com fotos da grande lenise pinheiro:
http://cacilda.folha.blog.uol.com.br/arc…
Beth Néspoli hj no Caderno 2 – Estadao.
Valeu Beth…
Arte para melhor entender a paixão

Foto Rui Mendes
Em A Noite Mais Fria do Ano, de Marcelo Rubens Paiva, um autor cria uma peça para investigar a sua relação amorosa
Beth Néspoli
De saída, o elenco da peça A Noite Mais Fria do Ano já desperta interesse: Mário Bortolotto, Hugo Possolo, Paula Cohen e Alex Gruli num mesmo palco deve resultar numa química bem interessante. A estreia para o público será amanhã no Sesc da Avenida Paulista. Antes mesmo de iniciar temporada, essa montagem instigou a curiosidade de dezenas de internautas.
Marcelo Rubens Paiva, que publica suas crônicas aos sábados neste caderno, é autor e também diretor do espetáculo – nessa última tarefa ele conta com a colaboração da experiente Fernanda D?Umbra – e divulgou em seu blog no Estado o diálogo inicial da peça, entre Caio (Bortolotto) e Renato (Gruli), que se dá num quiosque da orla de uma praia qualquer. O primeiro é o chefe do segundo, ou era, pois acaba de ser demitido e será substituído pelo colega mais jovem. O retrato do competitivo mundo masculino começa pela revelação do ex-chefe, a de que teria ?ficado? com a mulher do jovem Renato.
Claro que esse diálogo inicial deixa no ar a dúvida – ficou mesmo ou cinicamente tenta uma vingança cruel? Bem, para saber é preciso ver o espetáculo. A julgar pelo blog, essa espécie de prólogo, de frases curtas, ágil, pleno de intenções veladas – publicado no dia 11 de fevereiro – provoca no espectador o desejo de ouvir mais. A leitura do texto na íntegra faz ter certeza de que a peça não vai decepcionar quem aprecia uma boa carpintaria teatral, cheia de reviravoltas e surpresas. E não se trata daquelas viradas de melodrama, identidades e parentescos revelados. Nada disso. As surpresas vêm de brincadeiras da metalinguagem, a peça dentro da peça, num teatral jogo de espelhos.
O triângulo amoroso inicial, o público logo vai perceber, nada mais é que uma peça de teatro que está sendo criada por Dan (Possolo) um autor apaixonado pela atriz (Paula) que interpreta a mulher do jovem da primeira cena. “Todos os meus amigos sabem que minha dramaturgia reflete o conflito que estou vivendo naquele ano. Desde o meu primeiro texto uso o teatro para investigar meus próprios sentimentos”, diz Paiva.
Nesse caso, o tema a ser dissecado é o das relações amorosas – ou aspectos assim chamados como competição, infidelidade, sentimento de posse, ciúmes e traição. Sem dúvida uma temática muito explorada, mas que também mobiliza. “Esses dilemas são uma fonte inesgotável de inspiração.” Ele acredita ainda que houve uma revigoração a partir dos anos 60 provocada pela transformação radical no comportamento feminino. “Antes, as mulheres eram reprimidas e submissas aos seus maridos. Hoje elas têm sua profissão e se não sentem mais atração ou estão insatisfeitas elas saem do relacionamento. Antes elas tinham que aceitar os delírios dos maridos, acompanhar seus dilemas profissionais. Atualmente elas têm os delas.”
Essa mudança se reflete necessariamente no comportamento masculino. “Mas o homem não mudou. Ele sempre traiu sem culpa, a prostituição feminina é prova disso. Agora a mulher começa a agir de forma semelhante e o homem não sabe como lidar com isso. Eu vejo pelo blog como a traição da mulher ainda provoca reações muito conservadoras.”
Paiva conta que conviveu com quatro irmãs, passou por alguns casamentos, e sempre se sentiu fascinado pelo universo feminino. “É muito mais encantador, cheio de camadas. O masculino é mais estéril.”
Serviço
A Noite mais Fria do Ano. Sesc Paulista. (60 lug.). 90 min. 14 anos. Avenida Paulista, 119, tel. 3179-3700. Sex., sáb. e dom., 21 h. R$ 20. Até 3/5
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Hoje no Monumento às Bandeiras, o famoso “empurra-empurra” do Ibirapuera, símbolo de São Paulo, mulheres se manifestam em defesa da legalização do aborto.


fotos Nilton Fukuda/AE
Coluna publicada em 2005 no Caderno 2 do Estadao:
Mensalão do aborto
Quarta-feira, 28 de setembro, São Vicente (SP). J.E., que pagou R$ 200 por um aborto, passa mal na clínica clandestina. O resgate é chamado e a encontra com parada cardiorrespiratória e sangramento vaginal. A polícia acha lençóis sujos de sangue, medicamentos de uso cirúrgico e instrumental ginecológico. A menina morre horas depois no Centro de Referência em Emergência e Internação.
No dia seguinte, quinta-feira, morre de parada cardiorrespiratória na Unidade Básica de Saúde de Indaiatuba (SP) outra garota que, segundo a polícia, passou mal depois de tomar o chá “buchinha do norte” para abortar um feto de dois meses resultado de estupro. Ambas tinham 14 anos.
Até quando o Brasil vai adiar o debate sobre a legalização do aborto? Está parado desde 1991 o Projeto de Lei nº. 1135 de Eduardo Jorge e Sandra Starling, que retira do Código Penal o artigo 124 que criminaliza o aborto.
Segundo a relatora Jandira Feghali (PCdoB-RJ): “O aborto é responsável por uma em cada oito mortes maternas, e o acesso a serviços de aborto seguro poderiam evitar entre 20 e 25% de mortes maternas que ocorrem anualmente nos países em desenvolvimento.
A taxa de mortalidade materna teve uma redução significativa em alguns países das Américas quando o aborto começou a ser legalizado no inicio da década de 1970. Um ano após a sua legalização em Nova York (1971), a taxa de mortalidade materna havia diminuído 45%. No restante das Américas onde a legislação foi flexibilizada os dados se repetem. Em Cuba houve uma redução de 60%. Lá o Estado assumiu a responsabilidade pelos serviços. Em Porto Rico a prática do aborto é quatro vezes mais segura que a de um parto, e na Guiana, primeiro país da América do Sul a legalizar o aborto, ocorreu uma redução de 65% nas complicações decorrentes do aborto.”
E no Brasil? Dados do Ministério da Saúde: em média 250 mil mulheres são internadas anualmente com complicações decorrentes de abortos clandestinos. Em 1991, o número de curetagens pós-abortamento realizadas na rede pública de saúde ultrapassou 340 mil; 20% em meninas entre 10 e 19 anos. Em 1997, foram 240 mil internações de adolescentes para realização de curetagem.
Pelo substitutivo de Feghali, parado na Comissão de Seguridade Social e Família, devem ser estipulados prazos para a interrupção voluntária da gravidez; 12 semanas para gestantes, 20 quando for fruto de violência sexual. O procedimento deve estar disponível na rede pública e nos serviços prestados por planos de saúde. Só deve haver uma punição para o aborto: quando cometido contra a vontade da gestante. Enquanto não é votado, meninas de 14 anos morrem.
Foi publicada na revista da Associação Médica Americana uma pesquisa da Universidade da Califórnia que prova que o feto não sente dor até os três últimos meses de gestação; apesar de a estrutura cerebral se formar cedo, ela não funciona antes da 28ª. semana.
Em São Paulo, um aborto “cuidadoso” custa R$ 2 mil numa clínica conhecida de um bairro nobre. É o quanto adolescentes da elite pagam. J.E. pagou R$ 200. Faça as contas. Se as 340 mil que fizeram curetagem pós-abortamento na rede pública pagaram, digamos, R$ 200 o aborto, movimentou-se uma “indústria” de, por baixo, R$ 68 milhões. Imagine quanto gera a empreendimento do aborto ilegal no Brasil, e quantos faturam com esse mensalão?

Histórias reais
G.F., atriz brasileira, participava de um festival de teatro em Nova York. Passou mal; vomitava sem parar. Mas não sabia falar inglês. Chamou outra atriz, Rô, que ligou para 911. Explicou a situação à atendente, que, treinada, sugeriu um teste de gravidez e deu o telefone do posto de saúde próximo. O teste deu positivo.
Rô ligou para a clínica. Marcaram o aborto para o dia seguinte de manhã. As duas foram atendidas por assistentes sociais, que não pediram vistos. G.F. assinou papéis se responsabilizando. O aborto foi feito gratuitamente. À tarde, Rô foi pegar G.F. na clínica. Voltaram andando para o hotel.
M.S., casada com um estudante de doutorado em Berlim, engravidou. Viviam de dinheiro de bolsa financiada pelo governo brasileiro; impossível montar uma família com aquela grana. Ela procurou uma clínica do Estado. Foi obrigada a assistir a alguns vídeos sobre reprodução. Fez o aborto gratuitamente. Hoje, M.S. continua casada com o agora doutor, com quem tem três filhos.
M.P., universitário, morava em república e namorava uma ex-colega de escola que morava em outra cidade. Tinham 17 anos. Paixão. Ela engravidou. Bobearam. Num fim de semana na praia, a lua estava demais, rolou, escapou. A família dela era muito conservadora.
Ele pesquisou, queria o melhor para a namorada, descobriu que havia tipos diferentes de aborto, queria o mais seguro, caríssimo, ele não teria dinheiro para pagar, mas tranqüilizava a namorada. Corria contra o tempo. Vendeu um violão, uma bicicleta velha. Não dava. Finalmente, pediu para a sua mãe; explicou o propósito do empréstimo. Ela deu o dinheiro.
Avisaram a família dela que iriam viajar. Foram à clínica. O garoto ficou apavorado quando ela entrou com a enfermeira. Esperou seis horas num sofá. Levou-a para casa da mãe dele. Ele não dormiu, preocupado, segurando na mãozinha dela. Isso foi há quase 30 anos. Ela está ótima, casou-se três vezes, teve quatro filhos. Sim, M.P. sou eu.

Sim, vi O LEITOR e não escrevi nada sobre ele. Existem tantos blogs sobre cinema e um número enorme de críticos e analistas que entendem tudo do assunto, que me sinto intimidado em fazer comentários.
Mas, OK, ressalto que eu, como muitos, amo Kate Winslet. Desde TITANIC.
Especialmente depois que ela se casou com um cineasta baixinho, feio, genial: Sam Mendes (de Beleza Americana). E que a dirigiu em APENAS UM SONHO, intrigante filme sobre um casal suburbano que planeja uma vida de aventuras em Paris, mas não consegue largar a mediocridade e a acomodação que há no sonho americano do homem comum: casa com quintal, casal de filhos, emprego seguro e fim de semana com vizinhos. Pena que o nome do filme, como eu, entrega o seu desfecho.
O LEITOR, como VALQUÍRIA, também em cartaz, procura limpar a barra de alemães que participaram da histeria nazista. Hollywood quer, já de acordo com a doutrina de Hussein Obama, se dar bem com seus parceiros europeus e retomar o intercâmbio cultural e comercial- e a Alemanha é a maior potência do continente.

o leitor
Para quem assistiu, ficam claras as intenções de O LEITOR logo no cara, quando o professor de Direito dá um seminário, nos anos 70, sobre a culpa que os alemães carregam por causa do Holocausto. Com seus alunos, acompanha o julgamento de um ex-guarda da SS, Hanna Schmitz, que se diz inocente, pois apenas cumpria uma rotina de exterminio.
A guarda, Kate, analfabeta, viveu um tórrido romance com um dos alunos anos antes, Michael Berg. Nos apaixonamos por ela, na mesma medida em que nos horrorizamos pelos seus atos no campo de concentração de Aushwitz. Quem não desejou ter na adolescência uma Kate para ensinar e trocar?
Como na maioria dos seus filmes, ela aparece nua. A cena em que dá um banho no menino e tira a roupa para enxugá-lo causa suspiros na platéia. Kate não está nem aí para a fama de que a nudez atrapalha a vida de uma atriz de cinema- faturou o Oscar deste ano, você sabe. Nem para o fato de suas fotos e clipes em pelo inundarem a internet e lares. Na entrevista para David Lettermen, transmitida ontem pelo GNT, tirou de letra as piadinhas grosseiras de duplo-sentido do apresentador.
Tanto em PECADOS ÍNTIMOS, filme de tirar o fôlego, de 2006, como em O LEITOR, ela sugere encenar um sexo anal.
Corajosa, linda e completa, Kate é a nova musa do cinema. Sem contar o seu sotaque britânico de arrepiar- uma garota falando British é uma das coisas mais excitantes que há.
pecados intimos (“little children”)
Brinquei com Rodrigo Santoro, com quem almocei no Rio durante o Carnaval, e que a conhece pessoalmente, que Kate é uma falsa magra; ou uma quase gordinha. Ele ficou possesso. É também vidrado nela. E me disse, olhando nos olhos, como se defendesse a sua fé: “É a mulher mais gata que já conheci”. E olha que ele conheceu muitas…

gorda eu? gordo é você
Fiz uma hora na Avenida Paulista ontem, para ver [atrasado] o filme O Leitor. A Paulista sempre surpreende. É um parque a céu aberto. Seus camelôs são diferenciados. Muitos vendem filmes piratas.
Na Rua Augusta, na quadra do Espaço de Cinema Unibanco, vendem-se documentários, filmes de arte, DVDs que nem estão nas locadoras. Quem vende, discute cinema como um entendedor. Já comprei algumas pérolas, que nunca vi em lojas especializadas.
Não apoio a pirataria. Mas, nesse caso, acredito haver fornecimento ilegal de um produto que a grande indústria encostou na geladeira, deixou fora de catálogo e é chupado pela internet. Há um que de desobediência civil e resistência cultural nessa compra. Me sinto um militante.
Comecei com Brasil: Muito Além do Cidadão Kane, documentário sobre o Roberto Marinho embargado por aqui [censurado?]. Eventualmente, compro filmes que dificilmente passam em tevês pagas, como Waking Life, Estado de Sítio, A Sociedade do Espetáculo (de Guy Debord) e o emblemático Corações e Mentes, documentário apontado por muitos como o vetor da luta contra a Guerra do Vietnã.
Estarei alimentando o crime organizado? Acho que o uísque paraguaio que tomo nos bares de São Paulo são mais danosos à economia e à Receita.

As bancas da avenida têm um gosto peculiar. Os livros de bolso ficam na entrada. Vendem Sartre, Kafka, Stendhal, Bakunin, Dostoievski, Machado de Assis, Fernando Pessoa.
Há uma predileção por manuais de esquerda e anarquistas. Na avenida dos grandes bancos, escritórios e da FIESP, a literatura antiglobalização tem comprador. Toda a obra de Bukovski fica exposta. Claro, o Manual do Kamasutra ilustrado tem destaque. Mas o alto nível da literatura de banca, ao custo aproximado de dez reais o livro, é animador. Nem tudo está perdido.


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