Fui ao show do Radiohead na Chácara do Jockey. Paguei 200 pratas, assim que começou a vender pela internet. Convidei o amigo Paulo Ricardo, que também tinha comprado. Ficaríamos na Pista. Imaginei que eu precisaria da mãozinha de um amigo.
Nos conhecemos na USP há 25 anos. Ele fazia jornalismo, eu, radio & tv, na ECA. Fui seu calouro. Descobrimos que morávamos na mesma quadra, na Al. Eugênio de Lima. Não preciso dizer que nos tornamos unha e carne. De dia, as aulas. De noite, as ruas.
Batíamos ponto do Napalm, Carbono 14, Rose Bom Bom, Madame Satã, nossas segundas casas. De onde saiu a cena underground paulistana, que virou uma família. Nos reuníamos na casa-estúdio do fotógrafo Rui Mendes, no Bixiga, ou na do diretor de arte Michel Spitalli, na Japurá- vizinho de Dinho Ouro Preto. O que gerou uma mesa de pôquer famosa.
Paulo foi um irmão e meu motorista, enfermeiro, me subiu escadas, me levou para o Rio. Eu tinha uma namorada carioca, que morava no Jardim Botânico, num predinho sem elevador. Eu dormia lá, quando ia ao Rio. Se Neguinho, então meu enfermeiro, não pudesse ir, era o Paulo quem ia. Me subia dois andares de escada no colo. Ou melhor, nas costas. Adquirimos uma técnica: eu me agarrava no seu ombro, e ele me levava, como um estivador.
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Paulo, na janela do apê do Jardim Botânico
Ontem, no show que deu no Tom Jazz, ele lembrou que o RPM fechou com a CBS numa dessas viagens em que ele foi convocado a me choferar.
O espanhol Tomas Munhoz, comunista e presidente da CBS, depois SONY, me chamou para uma reunião na sede da empresa, na Praia do Flamengo, já que queria gravar as músicas que eu compora e citava em Feliz Ano Velho. Era 1984. Recusei, ciente de que eu não tinha talento para tanto, e apontei para o amigo-enfermeiro: “Esse aqui tem uma banda”.
Paulo deixou o cassete demo do primeiro disco do RPM e depois virou o maior vendedor de discos da história do rock brasileiro (5 milhões).
No entanto, nunca deixou de ser meu amigo-motorista-enfermeiro.
No dia do show do Radiohead, descobri casualmente que tinha uma entrada exclusiva para PNEs (Pessoas com Necessidades Especiais), termo oficial, politicamente correto, para designar os deficientes. Estacionamos o carro na área exclusiva. Paulo me empurrou pelo chão de grama e areia. Nos indicaram o lugar para cadeirantes, um palco elevado, com rampa, na lateral da pista, em que cada cadeirante poderia levar 1 acompanhante.
Durante o show, ele, com um boné enfiado, foi comprar cerveja, me ajudou a subir a rampa, manobrou outras cadeiras de rodas, para encaixar os atrasados. Até uma jornalista de um site de notícias reconhecê-lo. Perguntou o que ele fazia ali. Ele disse que estava ali para me ajudar. Adiantou?
Saiu uma nota afirmando que Paulo Ricardo usufruiu do lugar reservado para deficientes. A nota adquiriu proporções de fofoca: virou notícia no TV Fama, sites, até na MTV. É o preço…
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Neguinho na mesma janela
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O amigo-enfermeiro com a então namorada Luciana, em Ubatuba
A primeira parte do filme CHE, O Argentino, de Steven Soderbergh, estreou neste fim de semana. Era a única sala lotada na última sessão de domingo do complexo de 9 cinemas. Por garotos que não sabem a diferença entre stalinismo e leninismo, cinéfilos e curiosos.
Che é uma figura que mobiliza ainda hoje. Suas contradições- o médico motoqueiro e aventureiro que participa de uma revolução em outro país, a doçura em conflito com a autoridade de quem liderou pelotões de fuzilamentos- seduz. A busca por uma utopia aparentemente impossível é um contraste aos ideais de hoje.

Abria-se mão de tudo, corriam risco de vida, embrenhavam-se numa mata fechada, insalubre, para lutar pelo conjunto, pelo que acreditavam ser o melhor para o indivíduo e pelo que supunham chamar-se liberdade.
Eu esperava ver um filme que celebrasse o mito, como o adolescente e piegas Diários de Motocicleta, especialmente depois de ler a crítica da Veja, “Só o mito, e nada do homem”. Não é bem assim…
Soberbergh fragiliza o personagem na primeira cena, em que o Comandante tem um ataque de asma numa incursão pela floresta. Pontua o treinamento na serra e as primeiras reuniões no México com Fidel com a visita aos Estados Unidos anos depois já como o todo poderoso ministro da economia de Cuba, em que dá entrevistas polêmicas e faz na ONU o famoso discurso anti-imperialista, em que defende o fuzilamento de adversários, afirmando que sua revolução era movida pela luta até a morte.
O filme é baseado no diário de Guevara e em fatos conhecidos da luta. Esta primeira parte termina quando ele está para entrar em Havana, em 2 de maio de 1959. Não mostra os acordos rompidos com os movimentos civis que apoiaram e financiaram a revolução.
Mostra a luta na mata e nas cidades. A doutrinação de novos guerrilheiros. A expulsão de “covardes” e o justiçamento de traidores.
Termina ironicamente com Che pedindo a uns guerrilheiros, que roubaram o carro de um capitalista, que devolvessem o veículo. Como se sabe, a revolução desapropriou quase tudo, mas deixou os carros para seus verdadeiros donos, que tratam deles até hoje como se fossem verdadeiras jóias herdadas.
Veremos se a segunda parte ilustra os fracassos do projeto revolucionário. Mas note bem um detalhe. Saiba que ali se inventou a guerra de guerrilha, o foquismo, os manuais. Tudo era inédito e inspirador. Não plantaram drogas nem sequestraram civis. Não criaram apenas uma revolução, mas um jeito de fazê-la. É um ótimo filme. Até então. Que fala de uma revolução vitoriosa.
Não é um documentário da direitista FOX. E é um filme escrito por um cubano exilado em Nova York.

Nesta semana, dia 1, tem uma cabine para a imprensa e uma coletiva do documentário FIEL, de que sou roteirista com Sérgio Groisman, dirigido por Andrea Pasquim, sobre a queda e a ressurreição do Corinthians. Quem narra é o torcedor, que fala desta paixão pelo time que é profunda e inexplicável. Não se luta por um ideal, mas pela vitória no esporte mais popular do mundo.
Segunda-feira, dia 6, haverá uma pré-estreia para convidados no Unibanco Arteplex. Dia 10/04, estará nos cinemas. É um filme feito com carinho e capricho. Eu sou suspeito, mas recomendo.
***
Morreu hoje Maurice Jarre, compositor da trilha de Doutor Jivado, épico de David Lean sobre a revolução russa, produzido em plena guerra fria, mas que não levantava questões morais, e ficou para a história do cinema como um dos maiores filmes de todos os tempos.
Jarre compôs o notório Tema de Lara e para outros filmes de Lean, como Lawrence da Arábia, diretor que faz falta e fazia cinema para eternizá-lo.
No meu último livro, A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, eu o homenageio.
O primeiro filme de que me lembro: Doutor Jivago. Me fascinaram a paisagem das estepes nevadas e a música. Não entendi a trama, que se passa durante a Revolução Russa. Mas entendi muito bem o triângulo amoroso entre o médico Yuri, que tinha uma mulher morena, Tonya, e uma amante loira, Lara, uma mais gostosa que a outra (Geraldine Chaplin e Julie Christie). Corrigindo: a segunda era mais gostosa que a primeira, já que fazia a amante safada, enquanto a primeira representava a esposa contida e controladora, apaixonada e chata.
Duas mulheres a escolher, a maternal ou a carnal, a sábia ou a libidinosa. Dilema masculino eterno.
Entrevistei Geraldine Chaplin para um frila para uma revista de cinema. Nem lembrei de que ela tinha sido uma das musas da minha infância. Bebemos uísque num jantar no Jockey Club, em que se anunciou uma parceria cinematográfica.
A noite virou balada.
Ela, muito bêbada, dançou desajeitadamente e foi uma das últimas a sair.
Comum demais, para uma semideusa.
Por isso, jornalistas são céticos: vêem mitos sem máscaras, descobrem que imortais bebem, borram a maquiagem, dão em cima, vomitam, desabam em bancos de táxis e dormem sós. Como qualquer um.
Como sei?
Eu a coloquei no táxi, levei até o luxuoso hotel, pensei, até, em aceitar o convite e subir para a suíte, para um último drinque, “the last one”, como ela disse, enrolando a língua. Pensei em subir e ter uma noite com a atriz do filme que vi com mamãe na grande tela do Astor. Pensei em ser seu Yuri, médico poeta moscovita, levar minha Tonya nos braços, antes que os bolcheviques tomassem a cidade.
Mas ela estava tão bêbada. E eu era um jornalista que ainda não me aproveitava das fraquezas das fontes.
Nem para ficar com a musa da infância. Se bem que, se fosse a outra, Julie Christie, a loira gostosa, a amante Lara, a resolução teria sido a “the last one”.


Como diria Luiz Melodia, “teatro, boate e cinema, qualquer prazer me satisfaz”. As árvores de São Paulo dão flores duas vezes por ano. Imaginavam que o solo da cidade era abençoado. Descobriu-se que é estresse. Elas dão flores duas vezes por ano, numa busca desesperada pela sobrevivência [procriação]. Está vendo? Tem beleza no CAOS. Ou por CAUSA dele procuramos deixar o mundo mais colorido.
Em cartaz no ótimo teatro da Livraria Cultura O HOMEM DA TARJA PRETA, do colunista que mais sucesso faz na imprensa brasileira, o psicanalista Contardo Calligaris, de quem chupei uma frase linda para a minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO. Chupei e avisei. Mais que isso: convidei-o para a estreia e pedi para identificar o plágio. Ele acertou.
CAROL
“Se vou embora, o cara que deixei se distancia, volto a idealizar. Pra manter a paixão, tem que continuar a imaginar à distância. Um ciclo sem fim. Eu preciso parar.”

CAROL (Paula Cohen)
Contardo estreia no teatro já como um dramaturgo de mão cheia. Explora a própria bagagem, as histórias que escuta no divã, e a crise do homem contemporâneo. Aliás, enquanto eu assistia, só pensava nisso: é o que rola no consultório?
O ator Ricardo Bittencourt faz um típico brasileiro, casado e com dois filhos, que espera a esposa dormir, para se trancar no escritório, se travestir e entrar em salas de bate-papo virtuais.
Ricardo se culpa por suas fantasias, expõe dilemas dos seus casamentos, da cobrança da mãe, da autocobrança. Não se identificava com os superheróis, mas com os atores que tinham de se transformar em superheróis.
Não interessa se o autor usa ou não a psicanálise em vão, com propriedade. Conseguiu falar dos desejos secretos e dramas de muitos de nós. Conseguiu fazer teatro.
Direção da grande Bete Coelho, que nos apresenta esse ator baiano sensacional.
Hoje é dia também da instigante peça NATUREZA MORTA (à meia-noite, Satyros 1), com a atriz Anna Cecília Junqueira, produtora de A NOITE MAIS FRIA DO ANO, de quem sou fã e amigo.

Escreveu Mário Viana, o autor de NATUREZA MORTA, no seu blog:
Anna Cecilia Junqueira tem 20 e poucos anos, uma beleza diáfana, uma doçura que espalha ao andar, sem se dar conta. Seria a pessoa menos indicada a encarnar uma mulher que acaba de matar o amante, por quem fora louca de paixão. Acontece que Anninha é ótima atriz. Mergulhou no texto e dele emergiu como a mulher sofrida que as palavras exigiam. Toda vez que ela entra em cena, olhos fundos, ar perdido, para iniciar uma conversa com o pintor invisível, faz-se a magia do palco. Começa “Natureza Morta”, no Espaço dos Satyros 1, toda sexta e sábado, meia noite. É um deleite para o público – e para o autor, também.
Escritores são figuras muito estranhas. Trancam-se em seus quartos-laboratórios-redomas-edens e criam mundos. Imperfeitos, violentos, doces, amorosos mundos. Dentro desse universo, o autor de teatro é o estranho entre os estranhos. O autor de teatro nunca completa sua obra sozinho. Ele precisa do olhar do diretor, da mão do iluminador, da ajuda do cenógrafo – e do corpo dos atores. E todos, juntos, precisam do público. Sem o conjunto de olhares difusos na escuridão, atentos a cada movimento em cena, não há teatro.

Assino embaixo. E olha o que mais o Mário Viana escreveu no seu blog:
http://www.olharesloiros.blogspot.com/
Ontem, consegui uma folga de “Poder Paralelo” (estréia dia 14 de abril, na Record) e fui ver “A Noite mais Fria do Ano”. Não consegui falar com o Marcelo Rubens Paiva, não pude cumprimentá-lo. No meio da apresentação, eu comecei a achar a peça esquisita, a Paula estava infantil, o Alex Gruli estava travado… De repente, uma frase, tudo muda e todas as fichas caem. E de novo, e de novo. A peça é um jogo e fez ainda mais sentido hoje do que ontem. Cada vez que penso nela lembro de um detalhe, um dado qualquer… Belíssimo texto, dom Marcelo!
Mas o que me deixou pleno mesmo foi o elenco – em especial a Paula Cohen e o Hugo Possolo. Com a Paula nunca trabalhei – até agora, mas calma, somos jovens e temos tempo. Já o Hugo… é até covardia falar de alguém com quem tenho uma afinidade profissional e pessoal acima dos padrões convencionais. Na qualidade de segundo autor mais montado dos Parlapatões, posso dizer isso com tranquilidade. Minha parceria com o Hugo, independente do resultado, é um casamento perfeito – inclusive porque não tem sexo. Minha amizade e meu carinho por ele poderiam me impedir de escrever, seria muita babação de ovo.
Mas ontem, vendo o Hugo e a Paula em cena, me comovi muito. Por várias razões: pelo trabalho que eles desenvolvem em cena; pela generosidade de ser ator ao lado do Bortolotto, dois diretores seguindo as orientações de um diretor relativamente verde, como o Marcelo… e pela entrega ao papel. Na história, o personagem de Hugo rasteja por uma mulher que o trocou por outro cara. Lá pelas tantas, beijam-se, tentando resgatar uma paixão perdida. Transam, movidos por um desejo desesperado e inútil. É lindo. E eu me dei conta que nunca tinha visto o Hugo beijando a boca de uma mulher em cena – palhacinhos não beijam. Que coisa.
Puxa… Valeu.

Fui correndo ver GRAN TORINO, filme dirigido e protagonizado por Clint Eastwood. Veio com mil elogios. Seu papel, um antiherói racista, destoa. Posso falar? E daí? Achei chato que dói. Bobo. Com um final absurdo. Sei lá. Tantas coisas… Esquece.
Proibição faliu. E é a pior das soluções.
Em 1998, a Assembleia Geral da ONU nomeou membros para discutirem um mundo livre das drogas. No começo do mês, em Viena, se reuniram e concluíram que é preciso “o mesmo de sempre”, que a guerra contra as drogas tem sido um desastre, gera estados falidos entre os emergentes, enquanto o consumo aumenta nos países ricos.
Qualquer pessoa com bom senso percebe que nesses cem anos a tentativa é inútil, assassina e sem perspectiva. Por isso, acreditamos que a política menos ruim é legalizar as drogas.
Menos ruim não quer dizer a boa. A liberação, especialmente nos países produtores, traria riscos aos países consumidores. Muitos usuários vulneráveis sofreriam. Mas, na nossa opinião, mais pessoas ganhariam.
Evidências da falência. Hoje em dia, a ONU não fala mais num mundo livre das drogas. É fato que o mercado se estabilizou, mais de 200 milhões de pessoas, 5% da população mundial adulta, usam drogas na mesma proporção que há uma década atrás. A produção da cocaína e do ópio se estabilizou; a da maconha é maior. O consumo de cocaína decaiu gradualmente desde o seu pico nos anos 80 nos EUA. O mesmo aconteceu na Europa.
Os Estados Unidos gastam US$ 40 bilhões para combater o tráfico de drogas. Nos países em desenvolvimento, sangue tem sido derramado. No México, mais de 800 policiais foram mortos desde dezembro de 2006. Mesmo assim, a proibição mina os esforços da guerra contra as drogas.
O preço da droga depende mais da distribuição do que da produção, diz a ONU. O combate ao tráfico arruinou a metade dos produtores de cocaína. Sim, o preço da cocaína nas ruas americanas parece ter aumentado, mas foi a pureza da droga que diminuiu. Há evidências de que o negócio da droga se adapta rapidamente a seus percalços de distribuição. A produção do ópio se mudou da Turquia e Tailândia para Myammar e Afeganistão.

De acordo com a ONU, a indústria da droga ilegal movimenta US$ 320 bilhões por ano. Países emergentes vivem uma corrida de vida e morte contra o crime organizado.
Liberação não nos livraria dos gângsteres, mas transformaria a droga em um problema da lei para um problema de saúde pública. Governos taxariam e regulariam o comércio, usariam fundos para educar o público sobre os riscos e para tratar viciados. Diferentes drogas teriam diferentes taxas e regulamentações. Este sistema pode ser imperfeito, requer constante monitoramento, mas desencorajaria o mercado negro e os desesperados atos de viciados roubarem ou se prostituírem para alimentar seus hábitos.
Existem duas razões para os argumentos de que a proibição nos leva a lugar nenhum. Apesar de algumas drogas ilegais serem perigosas para algumas pessoas, a maioria não sofre danos. Tabaco é mais viciante que a maioria delas. A maioria dos consumidores, incluindo de cocaína e heroína, são usuários eventuais. Eles as usam porque obtêm prazer, como com o uísque e o Marlboro Light.
A liberação daria oportunidades para se negociar com os viciados. Provendo informações honestas sobre os riscos de diferentes drogas, e taxando-as convenientemente, os governos poderiam convencer os consumidores a não se prejudicarem.
A liberação pode encorajar companhias que produziriam drogas legalmente a melhorar o produto a ser consumido. O dinheiro economizado da repressão permitiria os governos a garantir um tratamento aos viciados mais eficaz. O sucesso dos países desenvolvidos em banir o cigarro com taxas e regulamentações mostram que há esperança.
Esta publicação afirma que a proibição é danosa para os países pobres. A liberação não nos livraria do crime organizado. Mas, depois de um século de experiências falidas, deveríamos ao menos tentar.
Calma aí… Este é um resumo da surpreendente matéria de capa de 5 de março da revista de maior prestígio e influência, The Economist, conservadora e liberal [tradução minha]. Merece ser discutida.
Um bom fotojornalista interpreta a pauta. Não registra apenas. Por isso, é também considerado um jornalista. Alguns até transmitem opiniões, como um colunista.
Faço uma pergunta ao leitor do blog. O que está subentendido nessa incrível foto de Paulo Libert/AE, que registrou o abraço na Fiesp entre os presidentes Lula e Cristina Kirchner e foi capa do Estadão do sábado?
1. Desculpe, compañero.
2. Que cheiro gostoso.
3. Tem alguém olhando?
4. Vamos melhorar nossas relações comerciais?
5. Você ainda está chateado, porque taxei as suas geladeiras?
6. Tango ou forró?
7. Aqui, não.
8. Gosta de alfajores?
9. Vem pro cantinho.
10. Encosta aqui.
11. A dona Marisa descobriu, chica.
12. Atrás da igreja.
13. Sentiu o que eu sinto?
14. Coloquei vermelho pra você.
15. OK, Pelé é melhor que Maradona.
16. Não me taxa assim que eu gamo…

Eu estava ontem entre as 30 e tantas mil pessoas que viram Radiohead na Chácara do Jockey. Cheguei em cima da hora, sem trânsito, sem chuva, sem ver a volta de Los Hermanos (eu não aguentaria ficar das 18h até a madrugada) e Kraftwerk (banda que eu já achava chata nos anos 80, quanto mais agora…).
Radiohead é a minha banda de estrada. Não pego uma Dutra sem tê-la estourando nos altofalantes. Combina com a solidão das seis horas de estrada e suas sutilezas, curvas, serras e retões. Ela se encaixa em meus dias tristes e introspectivos- nas paixões mal acabadas, nas noites em que não se quer sair de casa, abrir um livro, atender um telefone.

O cenário- espécie de néos de 15 metros de altura, que mudavam de cor de acordo com os acordes e o clima da música-, a performance impecável e o som eram de arrepiar. Cada um vai dizer: “Puxa, não tocaram Airbag”. Eu também não ouvi todas as minhas preferidas. O show começou mesmo no bis (e foram 4), em que eles abriram a mão e concederam: tocaram hits.
Fui com o amigo Paulo Ricardo, e nos lembramos dos Stones, que improvisam, tocam só sucessos, nada conceitual: puro rock and roll. Tem banda que é assim, programa computadores e toca exatamente como nos discos, prefere divulgar as músicas do último CD e eventualmente percebe que tem público à frente. Então, por que fazer um show para mais de 30 mil? Tudo bem, vai…
Comprei o ingresso pela internet no ano passado. Não aguentaria esperar um convite VIP ou me credenciar como IMPRENSA. Depois, eu soube que não tinha área VIP, o que aumentou a minha simpatia pela banda- aquele espaço enorme entre o pagante e o palco, em que se acotovelam os convidados da produção. Nada que pudesse promover um esbarrão a menos de 250 metros entre Dado e Luana, ou o novo namorado de Suzana Vieira, ou o recente eliminado do BBB. Dessa vez, nós, vampiros de promoters, tivemos de colocar a mão no bolso e, como todos os mortais, pagar.
Isso me lembrou um trecho do meu romance mais recente, A SEGUNDA VEZ QUE TE CONHECI, aqui na versão não editada:
Você nunca entendeu a essência da minha crise pessoal, vulgo “ansiedade”, doencinha contemporânea e corrosiva: a frustração de um jornalista é incurável, ou, para usar um termo que entrou em moda, está no DNA.
Na maioria das vezes, é apurada a notícia que vende. Aderimos à ideologia que agrada ao consumidor. Temos interesses comerciais? Ideais e convicções? Temos. Mas… Tá bom, nossa moral está comprometida pela substância que nos alimenta: o cachê. Nunca me iludi, baby.
Mas se o ingresso de um show imperdível está esgotado, eu saco a minha carta na manga, ou melhor, minha carteira de jornalista do bolso, a minha credencial, meu crachá, e dou uma “carteirada” para encerrar impasses e abrir portas. Por que não? E você pode vir comigo, meu amor. Tenho sempre direito a “mais um”- um acompanhante.
Ariela, a bela, não quer mais ser acompanhante do ma-ri-di-nho dela?
Buscamos ainda os caminhos que nos levam à área VIP, baby, onde a bebida e a comida costumam ser fartas, de graça e de melhor qualidade. Que se danem os mortais não-jornalistas. Somos a elite do público. Nos querem em suas festas e eventos. Você vai deixar a Corte, chuchu?
Nos pedem por favor para escrever sobre eles, eles, os incomuns, sobre seus produtos, sobre os seus feitos e eventos, livros e peças, filmes e perfumes, bebidas e jóias, até sobre a cor do vento e o sabor da água.
Nos pedem nota, matéria, canto de página, capa, uma foto, uma ponta, uma linha, qualquer palavra.
Minha branquinha, você sabe muito bem, jornalistas são endeusados e mimados. Só os otários não se aproveitam. Os otários e os éticos, como você, paixão, atributos que não correspondem com a descrição da maioria das ocupações citadas e clasificadas.
Enquanto a massa se aperta, apesar de ter pago caro por um ingresso, o jornalista esperto como eu leva a esposa para a área VIP, diante do palco. Temos banheiros limpos, tratamento diferenciado, manobristas, sem precisar desembolsar um tostão.
Ariela, paixão, vai sair fora?

A NOITE MAIS FRIA DO ANO
UMA REALIZAÇÃO SESC
Patrocício: ENERGIAS DO BRASIL E GOL
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LEITURA NO MASP EM ABRIL DE 2008
DAN
Você está bem?
CAROL
Estou o quê?
DAN
Acho que entrou uma frente fria.
CAROL
Vou entrar numa fria?
DAN
Acho.
CAROL
Você se acha…
DAN
Me acho o quê?
CAROL
Se acha se achando. Não acha?
DAN
Não acho nada. Você acha?
CAROL
Que você se acha? Acho.
DAN
Por quê?
CAROL
Sabe que acho que a gente vai se dar bem?

PRIMEIRO DIA DE ENSAIO EM DEZEMBRO DE 2008
CAROL
Vamos embora daqui, vamos morar em Floripa, Queluz, Guarulhos, aqui não tem sossego. Tenho medo, sabia? Medo de andar na rua, medo de ser assaltada, de blitz, medo de não conseguir decorar um texto, chegar atrasada, de entalar a garganta com um caroço, pararem de fabricar cigarro, de não ter Caras na sala de espera do dentista, de voltar a moda do biquíni asa-delta, de acabar o papel-higiênico, de, no chuveiro, alguém ligar a água quente na cozinha. Ah, eu vou embora. Vocês não mudam, as coisas não mudam, o Brasil tá violento! Vou fazer mestrado no Peru. Você vem?
ENSAIO DA PEÇA EM PALMAS (TO) EM FEVEREIRO DE 2009
CAIO
Ela não adora dançar? Quando danço, vêem me acudir, acham que estou sendo atacado por vespas. Sou muito travado, não tenho ritmo. Ela dizia que estava separada, que você tinha ido embora. Mas o celular dela vivia tocando, e ela dizia, “não conheço, não vou atender”, mas eu sempre achava que era outro. Você.
RENATO
Você tinha ciúmes?
CAIO
Muito.
RENATO
Você tinha ciúmes de mim?
CAIO
Não. Eu dizia que você tinha direito: usucapião. Depois, eu sabia que ela não tinha mais tesão por você.
RENATO
Quem disse?
CAIO
Adivinha…

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ENSAIO NO SESC PAULISTA
CAROL
Se vou embora, o cara que deixei se distancia, volto a idealizar. Pra manter a paixão, tem que continuar a imaginar à distância. Um ciclo sem fim. Eu preciso parar.

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PEÇA SESC PAULISTA EM MARÇO 2009
CAROL
Com quantas mulheres você ficou desde que a gente se separou? Tem a criminal…
DAN
Sua sobrinha.
CAROL
Oi?
DAN
Ah?
CAROL
O quê? Minha sobrinha? Qual delas?
DAN
A menorzinha.
CAROL
A menina tem 16 anos!
DAN
Ela quem me procurou.
CAROL
A pilantrinha te procurou.
DAN
A pilantrinha quer fazer teatro. Veio pedir conselhos.
CAROL
Que safada filha da mãe
DAN
Safada. Filha da mãe. Que família…

texto de Marcelo Rubens Paiva
Direção: Marcelo Rubens Paiva (assistência Fernanda D’Umbra)
Com: Alex Gruli, Hugo Possolo, Mário Bortolotto e Paula Cohen
Produção: Anna Cecília Junqueira
Fotos: Rui Mendes
Luz: Rui Mendes e Luciana Barone
Cenário: Zé Carratu
Trilha: Aline Meyer e Marcelo Rubens Paiva
Quando: sex., sáb. e dom., às 21h; até 3/5
Onde: Sesc Paulista (av. Paulista, 119, tel. 3179-3700)
Quanto: R$ 20 (inteira) R$ 10 (meia)
Classificação: não indicado a menores de 14 anos

OK, o garoto passou dos limites, agrediu a namorada na festa da estreia da peça dela e a camareira. Não pode, não pode… Uma decisão judicial passou a obrigá-lo a manter distância da agora ex (250 metros).
Então, se ele entrasse num cinema escuro, e ela estivesse, cana. Se fosse à praia, e ela saísse do mar de surpresa, cana. Se frequentassem o mesmo camarote de Carnaval, cana. Se se cruzassem sem querer numa faixa de pedestre, num aeroporto, dentro de um navio, numa festinha de artistas, num estúdio de novela, cana.
“O encontro entre os dois aconteceu no camarote da Brahma durante o Desfile das Campeãs, no carnaval carioca e, posteriormente, na festa Bailinho, no Museu de Arte Moderna (MAM), que acontece em alguns domingos do mês. No camarote, ele chegou a circular com uma fita métrica que seria uma forma de ironizar a decisão judicial de manter a distância.” (O Estado de S. Paulo)
Cana. Passou a terça-feira só de camiseta de malha, bermuda e chinelos, por “medida de segurança”, numa cela chamada de “seguro”, onde não há presos de facções criminosas; cerca de 10 metros quadrados. O almoço na quarta-feira servido aos detentos foi uma quentinha com galinha, berinjela, arroz e feijão. Ele preferiu o estrogonofe feito por outros presos.
O relaxamento da prisão foi negado. O crime é inafiancável. Só recebeu habeas corpus no fim da tarde e deixou a carceragem da Polinter, na Pavuna (zona norte do Rio).
“Ele não estava proibido de ir ao camarote e lá ele não a abordou. Ele foi convidado para ir ao camarote. O meu cliente não está proibido de ir à festa nenhuma”, afirmou o advogado.
Ainda bem que neste País há Justiça e gente atenta às leis.
O Prêmio Shell de São Paulo, entregue ontem, acertou na mosca.
Melhor texto para AMOR DE SERVIDÃO, dos amigos Marçal Aquino e Marilia Toledo. Baseado num trecho do romance do primeiro, EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS- título mais bonito que já se deu a um LIVRO. A peça está em cartaz no ESPAÇO PARLAPATÕES.

Na direção, ganhou Marco Antônio Braz, com a peça de Brecht, A ALMA BOA DE SETSUAN, espetáculo deslumbrante e fiel aos ideiais do autor. Braz está cada vez mais completo. Junto com Aderbal Freire, já é, na minha opinião, um dos maiores diretores de teatro do Brasil.

E o CPT ganhou um prêmio especial pelos dez anos do projeto Prêt-à-Porter, que não perco um e em breve ganhará uma mostra com todos os espetáculos. Dá-lhe titio Antunes, Spector e Cia Ltda. É a redenção na nova e boa dramaturgia. Viva a palavra!




Era uma aula de História. Cai no vestibular, alertaram. E daí?, ela pensou. Está tão longe. Estou tão longe. República de Weimar, estava no quadro-negro. A professora sempre fazia isso, escrevia o tema na lousa e falava sem parar. Alemanha é longe. Entre as duas guerras. E a guerra que ela vivia? Nem monarquia nem república. Esquerda e direita se gladiavam. Se comiam. Ela tinha muito sono. Estava no canto da sala, na primeira fileira. A voz rouca da professora só piorava.
Tinha dormido tão tarde. Insônia, e depois vinha o preço, o sono. O que atormentava? O namoro, o primeiro fixo, muito nova, ainda? Ele, ciumento daqueles, não a deixava olhar para os lados, conversar com outros, ter amigos. Ela andava com insônia, porque não sabia se a vida era assim, ou se mudava de namorado.
Encostou a cabeça na janela, olhou o jardim do pátio sendo regado, fechou os olhos. Ele queria, insistente. Subiu em cima dela ontem, forçou. Tem que ser!, ele dizia, com autoridade. Ela confiava nele. Confiava? Ela sentia tudo. Ele abriu as pernas dela, ficou, ficou, ele estava com tesão, descontrolado, nem tiraram as roupas, ela não deixou, ele parecia um louco, ela nem sentiu tesão, ele gozou, achava, só podia ser. Ele caiu para o lado depois. Ela? Chorou. Inventou que estava preocupada com os pais, que só brigavam. Mentira. Por que chorou? Nem ela sabe explicar. Ele foi embora. Ela sentiu raiva e culpa.
Degradação dos valores. Inspirava poetas, filósofos. Jazz. Amotinados. Ela cruzou as pernas. Imaginou estar sozinha na sala de aula. Se deu conta, estava já molhada. Sensível. A vista do jardim sumiu, a voz da professora sumiu. Ela sentiu tesão por algo que não sabia o quê, apenas isso, como se sozinha na sala, e entrasse alguém.

O tesão aumentou. Ela apertou as pernas, não emitiu um suspiro. Pensou em nada. Como assim, de repente, do além? Tesão, tesão, tesão… A aula rolava, ela escutava o regador automático. Olhou. Ninguém reparava, fechou os olhos, cruzou as pernas com mais força, encostou o dedo no braço. O dedo subiu, até o pescoço. Inclinou a cabeça, esmagando o dedo entre o ombro e o queixo. Até gozar em silêncio. Sem ninguém perceber.
À noite, pelo Messenger, dispensou o namorado.
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