A grande massa conheceu o poeta e performer Michel Malamed pela série CAPITU. O talentoso amigo fez o neurótico e ciumento Bentinho adulto. Mas Melamed é mais do que apenas o protagonista de uma série global.
Há tempos, produz espetáculos surpreendentes, imperdíveis e instigantes. Como REGURGITOFAGIA, em que levava choques de acordo com a interatividade da platéia, num stand-up poético e conceitual. Se ríssemos, ele sofria. Um paradoxo direto do papel do ator-poeta-palhaço. A peça, de 2004, ficou anos em cartaz, foi pra NY e virou livro.
Agora, ele REaparece com o show HOMEMÚSICA, que estreia dia 06/03 no SESC CONSOLAÇÃO. Que seja bem-vindo.

E terça-feira, no MASP, inaugura-se a mostra 1OOO MINUTOS DE 80 PAÍSES. Dessa vez, a brincadeira que dá certo há decadas, FESTIVAL DO 1 MINUTO, e que mobiliza cineastas ou pretendentes, profissionais e amadores, organizada pelo meu amigo de infância e cineasta MARCELO MASAGÃO, do COMOVENTE NÓS QUE AQUI ESTAMOS, POR VÓS ESPERAMOS, traz filmetes de 80 países- você já deve ter sacado pelo título.

EU GASTAREI ALGUNS MINUTOS DA MINHA VIDA ASSISTINDO-OS. JÁ GASTEI COM TANTAS OUTRAS COISAS…
MINUTOS GASTOS COM ATIVIDADES NADA NOBRES. COMO:
passar fio-dental
esperar um elevador
descer num elevador
esperar a conta num bar carioca
assistir a um telejornal, depois do toque de 8 segundos
calibrar os pneus do carro
procurar vagas perto de parques aos fins-de-semana
cortar os cabelos
roer unhas
ficar a espera do atendimento de uma operadora de celular
ficar a espera do atendimento de uma operadora de banda larga
ver comissárias indicar as portas de emergência de um avião
e explicar como se infla um colete salva-vidas
digitar as diversas senhas on-line
lembrar-se delas
esperar paus do Windows
abrir latas
limpar coco de gato
…
Quem acompanha este blog, sabe que ganhei há menos de um mês um casal de gatos. Dignos vira-latas. Mário é preto e branco. Margô é loira.

Mário já é meu brother. Companheiro, passa o dia ao meu lado. Deita-se entre o teclado e o mouse, ataca a impressora, quando ela cospe papéis, desenrola o papel higiênico, quer comer da minha comida. Quando me deito, ele se deita na minha cadeira de rodas. É da casa.
A menina Margô continua arredia. Eu chego, ela some. Chamo, não vem. Em alguns dias, não a vejo. Sempre escondida, tímida, temerosa. Ás vezes, tento fazer carinhos. Ela me morde e se manda. Já a encontrei escondida no meu armário. Examinando as minhas roupas.

Ela gosta de roupas. Ele, de futebol pela TV. Acompanha a bola sem desgrudar os olhos. Só pode ser corintiano. Pois ontem, Palmeiras versus São Caetano, ele torceu contra, arranhou a tela, esperou o apito final.
As novas HDTV são realistas demais. Animais de estimação irão, como nós, passar parte das 7 vidas diante de uma, quer apostar?
Numa noite, adormeci com a TV ligada. Quando acordei, vi Margô no canto da cama, com os olhos fixos no aparelho. Assistia à novela. Juro.
Alguém as entende? Eu não.


Fui à Sapucai no domingo. Esperei ansioso pelo desfile da Mocidade Independente de Padre Miguel. Não, eu não sou da “comunidade”, entendo de Carnaval quase nada. E meu coração nem bate em ritmo acelerado por essa escola de tanta tradição.
Minha curiosidade era o enredo, que retratava dois dos meus maiores ídolos, Machado e Guimarães, em quem busco inspiração-dos poucos que conheço a maior parte da obra- e de quem tenho duas pequenas estátuas na estante; cercadas pela bandeira do Timão, São Jorge e pelo cinzeiro da Lovy Story.
“Clube Literário – Machado de Assis e Guimarães Rosa… Estrelas em poesia!”
Muitos reclamam da pobreza das letras dos sambas enredos atuais, que usam os mesmos clichês (“esplendor”, “brilhou”). O samba da Mocidade irritou o jornalista cultural chato que vive em mim há 25 anos.
Ele não tinha nem pé nem alegoria. Suas frases feitas dão vergonha. No mais, usam informações tolas, para descrever suas vidas. Caramba, e a escola só não caiu, porque neste ano só caía uma escola (chegou em penúltimo lugar).
Aqui vai uma análise irada, já que me deixaram num baita mau-humor.
reluzente estrela de um encontro divinal
risca o céu em poesias
traz a magia pra reger meu carnaval
despertam nas páginas do tempo
romances personagens sentimentos…
Poesia nunca foi o forte de nenhum dos dois escritores. Aliás, Guimarães não permitiu a publicação em vida de seu livro de poesia Magma, apesar de ter recebido prêmio da ABL.
machado de assis que fez da vida sua inspiração
um literato iluminado
as obras, um destino à superação
nos olhos da arte reflete o legado
do gênio imortal do bruxo amado
que deu ao jornal o tom verdadeiro
apaixonado pelo rio de janeiro
Superação? À sua epilepsia? Ao preconceito contra os negros? Dom Casmuro é um destino à superação? Trata-se de um louco enciumado (ou corno)?! E O Alienista?!
a canção do meu sarau te faz sonhar
a emoção vai te levar
a estrela adormece na paz do amor
abençoado, um novo sol brilhou
Estrela adormece onde? E no amor tem paz?
o vento traz rosa de minas
rosas do mundo pra te encantar
palavras que tocam a alma
fascinam e têm poder de curar
pelas veredas do sertão
a fé, o povo em oração
pedindo à santa em romaria
pra chover em nosso chão
mistérios da vida desse escritor
revelam histórias de um sonhador
Palavras que têm o poder de curar? Guimarães tinha o poder de perturbar, isso sim. De inverter, oferecer o impossível. Demoníaco, falava de ética, duvidava da fé. No mais, a seca é o tema de outro autor, Graciliano Ramos. Guimarães ao contrário falava de pastagens em abundância.
brasil de tantas artes,
nas letras, sedução
herança em cada coração
mocidade, a sua estrela sempre vai brilhar
um show de poesia em nossa academia
saudade em verso e prosa vai ficar
Neste ano, quase se apagou. Ufa… Nonada. Pô, capricha aí ano que vem, geeente.

Rio de Janeiro lotado. Sem uma gota de chuva. Blocos entopem as ruas. Acabei de cruzar com três deles pelo Leblon. Alegria e organização. São orientados por PMs, seguidos por garis e fiscais da prefeitura. Só tocam clássicos.

A cidade não tem banheiro químico suficiente. Colocam uns seis na concentração dos blocos. Como se ninguém bebesse nada no percurso. Mija-se nas calçadas, nas areias, nas árvores. Os bares agora dão pulseirinhas- só entra cliente no banheiro.
Vi um casal se preparando para trepar (no sentido figurado) atrás de uma árvore da Lagoa-Barra, uma das avenidas mais movimentadas da cidade. Eles não se importariam se eu parasse e assistisse. Paixão aflora no verão.
A sensação da Sapucai foi a presença de Lula e dona Marisa. Por que chamamos Marisa de dona Marisa? Ruth Cardoso, saudosa, também era dona Ruth. Consideram as damas de seu Lula e seu Fernando as donas do lar?
Lula, mais o governador Sergio Cabral e o prefeito Eduardo Paes formam “a alança política que vem trazendo recursos para o Rio”. É a manchete da edição de hoje de O Globo.
Lula e Neguinho da Beija Flor foram as estrelas na transmissão da tevê.
A surpresa é que, desde Itamar, nenhum presidente colocou os calcanhares na avenida. O carioca FHC não se manifestou. E Lula, festeiro, esperou anos. Temiam uma modelete sem calcinha se aproveitar da falha da segurança? Dona Marisa não se desgrudou do seu Lula.
Vi uma gata alta, de boné e óculos escuro, atravessando apressadamente as mesas da Academia da Cachaça, um dos meus bares favoritos do Rio- o único em que garçons me chamam pelo nome. O que, para um paulista, é uma honra.
Soube depois pelo Anselo Gois que era Gisele Bündchen. A gata foi mijar. Perdão, urinar. Uma gata dessa não mija. Segundo o colunista, tem neguinho propondo o tombamento do banheiro.

Me cobram um relato sobre a estreia da minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO em Palmas (TO). Foi digna, perfeita. E olha que digo isso como diretor.
Sabíamos o que estávamos fazendo. Ensaiamos desde dezembro. Encontramos lá o tom que une palco-platéia. E demos uma sorte incrível, pois as duas noites em que estivemos em cartaz foram as mais frias do ano de Palmas, uma das capitais mais quentes do País. Nem precisamos do arcondicionado do Theatro Fernanda Montenegro.
A peça está pronta. Marcada e afinada. O elenco entra no estágio de comandar o leme, para o vento se esfregar na vela. Estreamos 13 de março no SESC PAULISTA.
Marião Bortolotto dá um relato carinhoso de como foi a nossa estreia no blog dele:
http://atirenodramaturgo.zip.net/
Conheci Palmas há oito anos. Estive lá antes de represarem o rio, formarem o lago que abraça a cidade- planejada nos moldes de Brasília. É outra cidade hoje.
Ganha um novo teatro [do SESC; lá também...], tem duas livrarias [quando fui pela primeira vez, me chocou a informação de que não tinha nenhuma], cinemas, centro cultural e até um cineclube. É uma ótima praça para as produções do eixo RJ-SP agendarem eventos. O povo de lá é ávido por cultura.
Em todos os locais e calçadas, há acesso para deficientes [só eu noto essas coisas?]. Há uma vibração e um otimismo que seduz. Grandes parques são delimitados. A cidade é rodeada por ciclovias. Parece que o homem, depois de aprender com os erros, decidiu acertar.
Por que não falei antes da estréia? Porque aguardava as fotos que minha pequena grande produtora, Anna Ciça, ficou de me enviar. Porém, ela estreia nesta sexta NATUREZA MORTA. Está atolada. Está perdoada. Depois de passar pelo CPT (Prêt-à-Porter) e TAPA, ela atua num monólogo no Satyros 1. Merda pra ela!
A semana em SP está quente. Que Carnaval que nada… Serão quatro festas na GAMBIARRA- sem axé, pagode e sertanejo. Tem dois shows no Teatro X da banda Saco de Ratos- segunda e terça, sem hora pra acabar, prometem.
Reestreia na Praça Roosevelt, no Espaço Parlapatões, à meia-noite, PREGO NA TESTA, com o neogalã Hugo Possolo, e A VACA DO NARIZ SUTIL, texto do autor que inovou a narrativa, é redescoberto e ensina: o carioca Campos de Carvalho.

Sem contar que São Paulo, num feriado prolongado, vira uma simulação do Éden. Estou com inveja de quem ficará pela cidade. O prego aqui marcou de ir pro Rio, comprou passagem e já sente saudades dos amigos e da agitação sem tamborim. Se eu soubesse antes que ia rolar tudo isso…

Quem inventou a turma do pôquer? Esta abaixo tem mais de 20 anos.

E a jaca?

E as primas e irmãs?

E outras religiões?
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E a Daiane?

Papo? A única coisa que falei pra ela foi: “Finalmente alguém da minha altura…”
este é o título do e-mail que acabo de receber e posto aqui.
Prezado colunista
Foi muito bom ler algumas linhas de lucidez a respeito da descrença em
sua coluna. Achei que gostaria de saber que a campanha dos ônibus
ateus está em curso também no Brasil, no momento em fase de
arrecadação de fundos, mas os canais de ‘hard news’ se recusam a dar a
notícia. Pode-se ler sobre a iniciativa em www.atea.org.br .
Também existe uma iniciativa de remoção de símbolos religiosos em
repartições públicas pela via judicial em www.brasilparatodos.org. Até
agora, sem sucesso, apesar de muitos apelos ao Ministério Público, que
teoricamente é o guardião da Constituição e dos nossos direitos.
Cordialmente
Daniel Sottomaior
Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos
está dado o recado. como dizia o meu pai, “posso até não concordar, mas garantirei sempre o direito da livre expressão”.
Hoje, amanhã e quinta-feira (dia 19/02) são os últimos três dias para se assistir à NAVALHA NA CARNE, de Plínio Marcos, em cartaz no porão do Centro Cultural São Paulo (às 21h).
Com a trinca de amigos Gustavo Machado, Paula Cohen e Gero Camilo. Direção de Pedro Granato.
Chance de ver ou rever o cafetão Vado (Gustavo Machado), que descobre que o michê do programa de Neusa Sueli (Paula Cohen) não foi repassado. Ambos suspeitam que o roubo foi praticado por Veludo (Gero Camilo), homossexual e faxineiro da pensão, e o humilham sem dó.
Para muitos, é o melhor texto de Plinio, autor autodidata que se considerava semianalfabeto e comia de favor no Gigetto. Só não morreu na miséria, pois a FUNARTE comprou sua obra para editá-la.
Plinio Marcos é, junto com Nelson Rodrigues, o maior dramaturgo brasileiro. Sua obra reflete os conflitos e dramas vividos pelo brasileiro pobre, excluído, presente nos cortiços e submundo dos centros urbanos.
Era um cara de coração grande, que deixa muita saudade. Amigo provocador, que falava o que pensava, que desagradava (chegou a ser proibido na TV Cultura), mas que tinha uma generosidade incomum. Um brasileiro que faz falta ao Brasil.

trecho da coluna publicada sábado no caderno 2 do estadão
Estive na Espanha nessas férias e acompanhei admirado a polêmica em torno da existência d’Ele. “Deus não existe, desfrute a vida”, estampavam banners em ônibus municipais. A idéia foi da Associação de Ateus, que pagou o anúncio do próprio bolso.
O debate girou em torno do papel do Estado, já que a frase foi estampada num bem de serviço público. As prefeituras de Madrid e Barcelona defenderam o direito de livre expressão.
A idéia foi copiada de um grupo de ateus de Londres, que fez o mesmo anúncio nos ônibus locais: “God doesn’t exist”.
Imaginei a contenda que a iniciativa geraria na cidade de São Paulo, onde um candidato a prefeito, Fernando Henrique Cardoso, perdeu a eleição, pois não respondeu monossilabicamente à pergunta do provocativo jornalista Boris Casoy, se acreditava em Deus.
Basta ver o que ocorre no TJ do Rio de Janeiro. O novo presidente, desembargador Luiz Zvelter, foi censurado, pois retirou da sala de sessões um crucifixo e defendeu o caráter laico da justiça, que deve respeitar todas as religiões.
Me lembrei do Estado brasileiro, apesar de laico e democrático, e suas relações duvidosas com o poder evangélico e o rebanho de milhões de eleitores.
No mais, a dúvida pode dar em processo- como o movido por fiéis da Igreja Universal contra os jornais O Globo, A Tarde, Extra e Folha de S. Paulo, alegando que se sentiram ofendidos pelo teor das reportagens contra a Igreja.
No Brasil, o ateu se sente acuado. Cultos africanos, indígenas ou de outras religiões estão ausentes em cerimônias oficiais, em que deveriam ter um padre, um passe e uma pajelança.
Na Espanha, o Estado manteve o firme propósito de não intervir. Venceu a democracia. Perdeu a censura. E grupos evangélicos pagaram anúncios nas mesmas proporções, também exibidos nos ônibus, com os dizeres: “Deus sim existe, viva a vida com Jesus”. Não é mais justo?
ps> na verdade, diferentemente da barcelona e madrid, o slogan de londres foi: “provavelmente não existe deus”. tão bom quanto.

Meu amigo fotógrafo Rogério Assis convida para o lançamento da segunda edição da POROROCA, linda revista sobre a Amazônia, de que sou colaborador- para o primeiro número, fiz uma longa e emocionante entrevista com Milton Hatoum. É uma forma nova de se conhecer e olhar o Brasil.

Aliás, é para lá perto que estou indo daqui a pouco, para a estrear minha peça A NOITE MAIS FRIA DO ANO. Numa das cidades mais quentes do Brasil. Nos disseram que o arcondicionado do teatro (Theatro Fernanda Montenegro, com agá) está quebrado. Que beleza… Quero ver o elenco, com o figurino pesado, fingir que sente frio. Por isso, adoro o teatro e seus sacrifícios.

Por adorar teatro, indico a peça A MULHER QUE RI, texto comovente de Paulo Sontoro (de Gregor), baseado no conto de Móricz Zsigmond, agora no simpático e autêntico Teatro Fábrica, que retrata as lembranças de um jovem, que conviveu com a pobreza, o conservadorismo do pai e a saída que encontrou a mãe (louca ou sábia?): rir de tudo. Em debate, o conformismo. Com um elenco de primeira, e uma direção impecável, rimos e choramos de uma família que nos é comum e procura unir o núcleo, mas é separada pela fé e opções de cada um.
Mais uma. Em cartaz no Teatro Imprensa a peça DOIS IRMÃOS. Baseada na famosa obra de Milton Hatoum. História de dois irmãos de Manaus, que levam a vida de maneiras diferentes e contraditórias, um retrato existencialista da chegada da modernidade e dos rumos que o Brasil tomou; direção do completo Roberto Lage. É também uma maneira de encontrar a essência da literatura compleza e sensível desse grande autor amazonense, atual colunista-colega do Estadão.

Até a volta.
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