Você acha que um pé-rapado como eu não sabe se comunicar com o consumidor de produtos de luxo?
Já fui colunista da VOGUE RG. Adora sou colunista da revista DASLU.
E a pauta, eles que deram: escrever sobre a bunda. Que tal? Urban chic, m’ermão.
Com uma sugestão de pauta dessa, dá até gosto de trabalhar.
A revista já está nas bancas. Meu texto tá lá.
Como não entendo de bundas, pedi ajuda às redes sociais, fui pesquisar no Google.
Me lembraram do divertido poema do Drummont sobre a própria.
Que merece ser reproduzido:
A BUNDA, QUE ENGRAÇADA
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas em rotundo meneio.
Anda por si na cadência mimosa, no milagre de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem.
Ondas batendo numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda redunda.
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Agenda cheia no fim de semana.
Sábado à tarde tem na OSCAR FREIRE
E antes, de manhã, também tem no CARANDIRU.
Extremos.
BORRASCA é aquela chuva que parece que vai arrasar a cidade, mas dura pouco.
Uma tempestade rápida. Eu não sabia disso.
Quando o MARIÃO [BORTOLOTTO] falou da sua peça nova, explicou o título. O cara é bom de título…
Nossa história se confunde: pode ser um toró ou uma chuva passageira, que ilude.
A ideia do espetáculo é genial.
Vários atores estão mobilizados para fazê-lo, em duplas, apesar de ter apenas 2 personagens: Diego, que chega do velório de um amigo, e Gabriel, escritor bebum, cuja ex-mulher o traiu com o amigo morto.
Cada ator tem que decorar os 2 personagens. São várias opções [e espetáculos], que ficarão em cartaz.
Eles decidem quem fará o que e quando. O mesmo texto, a mesma marcação, luz, trilha. Representações distintas. Jogo distinto. Teatro visto por vários filtros.
Se o ator é a alma do teatro, aí está a chance de ouro para nos deliciarmos.
Com a chama que incendeia nossa alma: o teatro.
Mas Paulo de Tharso, o nosso PICANHA [acima], morreu na semana passada.
Ele ia também fazer a peça.
Uma BORRASCA com jeito de furacão passou sobre nós.
PT era aquele cara que não entediava a vida. Podíamos passar horas com ele. Repertório, é o segredo. O tempo voava. Humor.
A morte é quando o sujeito dá adeus a si mesmo.
E aos amigos.
Picanha era inquieto e extremamente culto. Falávamos em francês, e ele vivia me corrigindo. Seu sotaque era perfeito.
Fazia 40 coisas ao mesmo tempo [entre elas, tocava a revista do sindicato da Polícia Federal]. Tocou no mesmo festival da TV Cultura que eu. Era músico, poeta, ator, jornalista.
Tinha a minha idade.
A juventude termina. A inocência, idem.
Quando vira rotina enterrarmos os amigos.
BORRASCA está em cartaz no Teatro Cemitério de Automóveis (Rua Frei Caneca, 384)
Sextas e sábados, às 21h30. Domingos, às 20h30. Até 30 de junho.
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Nessa sexta, às 20h30, no Sesc Pinheiros, estreia o solo EU CÃO EU, com direção do Rodolfo García Vázquez, dos Satyros.
É uma parceria entre Parlapatões e Satyros, num texto que HUGO POSSOLO fez para Satyrianas.
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Visitei tantas vezes este lugar quando era presídio.
Amigos em cana que precisavam do nosso apoio.
Agora, irei como biblioteca, parque, espaço ao ar livre…
Falar na BSP.
Sobre a borrasca que é a vida.
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E tem também.
“Todo dia é como domingo, é silencioso e cinzento.”
Só se for em Londres.
A música de Morrisey (Every Day is Like Sunday), alfinetada por Julian Barnes em O Sentido de Um Fim como o retrato de uma geração que não tem o que dizer, não reflete o que rola lá em casa.
Domingo é um dia peculiar.
Domingo é o dia do almoço de domingo, em que a sinceridade e a insanidade familiar ficam exacerbadas. Mal-entendidos perdidos na memória são, do nada, trazidos à mesa antes da polenta.
Do nada?
A psicanálise não diria isso.
Depois, de segunda a sexta, gasta-se tempo com arrependimentos em noites mal dormidas, troca de e-mails com pedidos de desculpas, refletindo sobre o que não deveria ter sido dito, e por que somos transparentes em excesso nos domingos.
No sábado seguinte, chega o convite para a trégua com as sugestões do cardápio do almoço do dia seguinte e a lista de tarefas: quem leva o quê.
Lançando mão de um clichê atual. Na mitologia grega, deuses e semideuses passam a maior parte do tempo gerenciando crises. Vivem às turras em conflitos de interesses antagônicos com parentes. Competem num estresse sem fim para provar quem têm razão.
Como nos almoços de domingo.
Minhas irmãs, tias, primas, não são temas de conferências na Casa do Saber, nem citadas em tratados acadêmicos. E duvido que podemos considerá-las “arquétipos”. Descendem dos meus avós, que são do lado esquerdo do Mar Adriático. Já agregaram valores gastronômicos de porções astronômicas, homéricas, para falar mal dos outros de barriga cheia. Era o tempo em que estar acima do peso era estar saudável. Hoje em dia, meus primos médicos as reprimem.
Não sei se é possível estabelecer conexões entre as desavenças dos mitos e as da vovó com as filhas, das minhas tias com meus primos, dos primos com os pais, da minha mãe conosco, das minhas irmãs entre si, todos contra a maioria das noras e genros: verdadeiras rixas helênicas.
Uma diferença. As punições, banimento em ilha repleta de corvos, envenenamento e tortura com correntes, são mais brandas. Bem, deuses podem tudo, até punir com a morte. Na minha infância, o castigo mais terrível era o exílio para o quarto e o sequestro da sobremesa. Arrumar o armário era, como para Sísifo, uma ida e volta sem fim com cacarecos nas costas. A gaveta com guloseimas seria acorrentada, como Prometeu. O controle remoto, banido.
Heráclito escreveu: “A harmonia é resultante da tensão entre contrários, como a do arco e da lira”.
Mas o cara era grego. Na minha família, quando o pau quebra, a harmonia não sucumbe nem à torta de cebola.
Sem contar que, às 16h, para tudo: futebol na TV.
Contrastes e dualidades estão sempre no centro dos conflitos entre mitos. Nascem os complexos. Mas o de Édipo, sei lá, não tem nada a ver com a minha família. Freud analisou a historinha trágica. Freud foi uma espécie de voyuer do Olimpo. Um provocador: “Este austríaco está dizendo que minha agressividade tem relação com o fato de eu desejar minha mãe sexualmente e invejar meu pai? Minha mãe, aquela santa? Que mente podre é esta que diz que quero fazer com ela o que meu pai faz? E que papo é esse das minhas primas e irmãs sentirem um complexo de eunuco?”
Outro conflito que deu o que falar na Grécia Antiga foi a união estável entre Eros e Psique. A linda caçula de um rei de Mileto tirava o fôlego de todos da região. Enciumada, Afrodite mandou o filho, Eros, cortar as asas da concorrente. Porém, o mito se apaixonou. Claro que a mãe os infernizou até não poder mais. Eros teve um papo com Zeus, implorou que ele apaziguasse a ira de Afrodite e legitimasse o casamento. Depois, nasceu o filho de Eros com Psique: Voluptas (Prazer). O prazer seria resultado do amor e da alma.
Não satisfeito em nos atormentar com histórias do arco jônico, Freud desencavou outro conflito enterrado e superado, o de Eros com Thanatos, vida e morte, prazer e realidade. Eros quer fazer. Thanatos, não. Um cria, é movido pela atração e reprodução. O outro quer o repouso, repulsão, agressão, a própria destruição. Um é instinto de vida. O outro, de morte. Marilena Chauí resumiu: “Se o desejo do homem for o repouso, o imutável, a fuga do conflito, somente a morte (Thanatos) poderá satisfazê-lo.” Eros e Thanatos agregam e separam, um vai estar sempre contra o outro, mas ambos estarão juntos, coexistindo. Amamos com a mesma intensidade que odiamos.
Nietzsche foi outro escreveu teorias que comparam nossas crises pessoais com destinos helênicos. Buscou em dois coitados, Apolo e Dionísio, vítimas de bullying na Grécia Antiga, a distinção entre dois princípios que também se negam, mas acrescentam. Ambos são filhos de Zeus. Apolo é da música, dança, poesia, parece perfeito, sereno. Dionísio, bebum costumas, simboliza forças obscuras. A experiência apolínea é a produção da forma e beleza. Já a dionisíaca rompe com princípio de individualização. A briga caseira entre Apolo e Dionísio vira arte.
Aí está explicada a importância do domingo.
E a troca de e-mails de segunda, terça, quarta…
Será que a rapaziada lá em casa é arquetípica?
Todo apoio aos alunos da USP que fizeram um SAIAÇO em protesto contra a perseguição de um colega da USP Leste.
O protesto nasceu nas arcadas da tradicional Faculdade de Direito.
Tomara que vire moda.
Ministros da Corte não usam capas?
Em algumas, usam até perucas.
O Papa usa saia. Jesus pregou numa, e não foi perseguido por causa da vestimenta.
As pirâmides foram construídas por operários numa espécie de tanga.
Alexandre o Grande dominou os persas, foi até a Índia, cavalgando de minissaia.
Roma foi o maior império do seu tempo. A liderança usava toga, e a milicada, saia.
Não me parece que foram hostilizados pelos inimigos, nem que atrapalharam as investidas da poderosa máquina de guerra.
César e Marco Antônio seduziram Cleópatra com as pernocas de fora.
Nero queimou a cidade numa saia.
E por que a abandonamos?
Mais prática, fácil de vestir, refrescante. Florida, dá vida.
Mais elegante do que aquelas bermudas em que a cueca fica à mostra.
Logo logo vou aderir. Quando encontrar uma que vista um vara-pau de 1m87.
Só vou depois pedir umas dicas de como dobrar as pernas com elegância.
A direita brasileira tá ficando paranoica?
Primeiro foi LOBÃO vir a público para nos alertar que o governo DILMA organiza um golpe comunista.
Hoje, o economista RODRIGO CONSTANTINO no Globo faz coro: “Lobão tem coragem de remar contra a maré vermelha, ao contrário da esquerda caviar, a turma ‘radical chic’ descrita por Tom Wolfe, que vive em coberturas caríssimas, enxerga-se como moralmente superior, e defende o que há de pior na humanidade. No tempo de Wolfe eram os criminosos racistas dos Panteras Negras os alvos de elogios; hoje são os invasores do MST, os corruptos do PT ou ditadores sanguinários comunistas.”
Está lá em http://oglobo.globo.com/opiniao/mais-lobao-menos-chico-buarque-8375227#ixzz2THMPM4VC
Se Wolfe souber que foi usado neste [con]texto…
Outros alertas pipocam pelas redes sociais.
Um grupo que se autodenomina OCC Alerta Brasil diz: “Terroristas importados de Cuba pela Sra. Dilma para consolidação do comunismo cubano no Brasil. A Venezuela é Aqui.. Brasil em perigo. Acorda Brasil.
Curta e Faça parte da OCC” [https://www.facebook.com/organizacaodecombateacorrupcao].
Os ânimos estão acirrados.
Muitos se lembrarão do instituto IBADE, que alertava contra a ameaça comunista em 1962-64, que alimentou o Golpe Militar.
Mas ao lembrar que Collor, Maluf, Sarney, Kassab, Afif e até Delfim Neto são da base governista da “terrorista” Dilma, que estradas, aeroportos e portos são privatizados, empresas estrangeiras investem no Brasil, e brasileiras compram estrangeiras, como a Heinz, fazem parcerias e lucram, os Poderes são independentes, a imprensa, livre, o cidadão vota, o agronegócio empurra a economia, a fronteira agrícola se expande, os investimentos imobiliários crescem, as montadoras nunca venderam tantos, e os bancos nunca lucraram tanto, só dá para tirar uma conclusão: a direita surtou.
Não é preciso muito esforço para lembrar de quem realmente é perigoso ao Brasil.
Os dilemas da TC Cultura são eternos
Hoje ocorre a eleição para presidente da emissora.
Quem vota é um conselho de “sábios” da elite paulistana, com representantes da indústria, comércio e, lógico, do governo.
Pelo estatuto, até a UEE [União Estadual dos Estudantes] tem cadeira no conselho e direito a voto. Raramente participa das eleições.
A TV Cultura não é uma empresa estatal.
É uma Fundação deficitária, que precisa do caixa do governo, que vai de R$ 80 a R$ 150 milhões por ano. Tem e sempre teve dona, o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista.
Já foi dirigida por aventureiros e corruptos.
Dentro, corredores suspeitos, com salinhas misteriosas, aliadas da burocracia estatal, escondem pequenas máfias que sangram os cofres públicos, como admite sem dar nomes o presidente da própria, João Sayad, que entrega o cargo hoje decepcionado, sem disputar a reeleição a que tem direito.
Funcionários e carros que saem da empresa são revistados por uma tropa. Muitos foram pegos ROUBANDO equipamento.
A emissora viveu um período de ouro, com produção própria de qualidade que, surpresa, gerava audiência. Sim, é possível.
CASTELO RÁ-TIM-BUM, dirigido por Fernando Meirelles e Cao Hamburguer, dava uma média de 7 pontos no Ibope. GLUB GLUB tinha picos de 13 pontos. FANZINE, talk show que eu apresentava, tinha média de 5 pontos. Concorríamos com a novela global. Entregávamos para o METRÓPOLIS apresentado pelo casal Cadão Volpato e Lorena Calábria, que tinha relevância e repercutia. Média 4 pontos.
O presidente, Roberto Muylaert, blindava a emissora da ingerência política, abriu o sinal por satélite para todo o País, vendia conteúdo para outras emissoras educativas, atropelando o “poder” Federal da TVE, vendia produto para fora do Brasil, franquiava programas.
Hoje a emissora conseguiu sair do coma graças a Sayad. Sua média é de 1 ponto no Ibope.
Ousado, comprou a série MADMEN, que elevou um pouco a audiência e o prestígio. Recuperou o formato original do RODA VIDA. Melhorou o METRÓPOLIS. Porém…
O candidato único, Marcos Mendonça, afirmou hoje no ESTADÃO que é contra produtos estrangeiros na programação e filmes com legenda, como os da MOSTRA DE CINEMA.
Segundo ele, “a maioria das pessoas tem TV pequena, não grande, que permite leitura de legenda”.
Você tem todo direito de perguntar: Em que País esse cara vive?
Nem se fabrica mais TV pequena.
Mendonça finaliza com a frase que causa arrepio em qualquer fomentador cultural: “Quero fazer uma televisão que fale com o público C e D, que não tem TV a cabo.”
Está de volta o populismo na TV Cultura.
Os sábios do conselho sabem falar com o público C e D. Conhecem os segredos que todos do meio procuram.
A TV Cultura quer falar com o público que não tem TV a cabo, com a linguagem da TV aberta popular? Mas já não temos RECORD, SBT, REDE TV, PÂNICO NA TV? Esta é a concorrência que Mendonça sugere?
Não seria melhor dar ao público que não tem dinheiro para conhecer os produtos da TV a cabo um pouco da qualidade e ousadia da TV a cabo?
Não falam que a gente tem que fazer algo pela humanidade?
Que o altruísmo é a cura do vazio existencial?
Então, arregacei as mangas e fui tentar um acordo de paz.
Só um pulinho e já volto.
Quem sabe o moleque me escuta.
Se alguma delas souberem a nossa língua e puderem, depois desse ataque parecido com o das fãs de Bieber, servir de interprete.
Vou dizer: “Relaxa aí, japa. Digo, senhor. Consigo um passe para a Disney, que da direito a furas as filas. E nada de Orlando. Vamos pra original, em LA.
Firmeza, truta?”
O Gato da Gaiola 9.
Era assim que ele estava registrado na sua “certidão de nascimento”. Pois vivia nela, numa parede cheia de gaiolas, cada uma com um gato.
O encontrei num gatil, cabia na palma da mão, e o adotamos.
Levei para casa e o chamei FÁBIO. Se adaptou rápido. Tinha conjuntivite, sarna e vermes.
Passou para o outro, HUGO.
Que o recebeu na boa.
Os vermes demoraram um ano para curar.
Hoje, ele tem quase 2 anos e uma mania que duvido que um especialista explique.
Adora dormir em caixas.
É o gato mais sociável que já tive, adora se enroscar com visitas e amigos.
Imagino a infância dura que teve, abandonado, prisioneiro numa gaiola.
Por alguma razão, se sente confortável [ou seguro] numa caixa.
Virou O Gato das Caixinhas.
Existem 2 caminhos na encruzilhada da tragédia pessoal: fugir dela ou enfrentá-la.
Muitos optam por esquecer, superar, virar a página, seguir em frente.
Outros preferem cutucar em todas as feridas não cicatrizadas e descobrir se há motivos para as peças aprontadas pelo destino.
ELENA, o filme, que estreia sexta, é fruto da coragem de enfrentar um drama pessoal, dolorido, e de não guardá-lo para si, nem esquecer.
PETRA COSTA, irmã de Elena, a diretora, resolveu entender aquela marca no passado, que mudou a vida dela e de toda a família: o suicídio da irmã.
Elena Andade era a mais linda de todas. A conheci quando tinha menos de 20 anos. Era a mais gata da escola, a que melhor dançava, representava. Filha de uma família de ex-militantes do PCdoB, perseguida na Ditadura, que fundava o PT, comandava um jornal e uma revista, em que trabalhei, Elena era pós-hippie, sedutora, ousada, livre, sorridente. Daquelas garotas que, quando chegam, todos notam.
E vivia o sonho de um novo Brasil, que se abria e se libertava.
Se mudou para Nova York para estudar teatro. Se alguém daquela turma deveria fazer teatro, era ela.
Então, chegou a notícia que tirou o chão de todos que a conheciam.
Ninguém entendeu a sua morte. Os últimos com quem ela conversou pelo telefone diziam que ela estava deprimida, solitária. Mas ninguém suspeitou que ela chegaria aonde chegou.
Marília, sua mãe, foi amparada pelos amigos. A tentação de entrar num labirinto de culpas era enorme. Foi militar, trabalhar com jovens.
E Petra, uma criança, cresceu, cada vez mais se parecia fisicamente com a irmã.
Sorria pouco, falava com uma voz baixa, parecia tímida.
Parecia uma adulta num corpo de adolescente.
Parecia carregar um peso nos ombros.
Era inquieta e curiosa.
Foi fazer teatro como a irmã. Aqui na PUC – SP. Foi fazer Cinema. Foi morar fora. Na Europa. Depois em Nova York, como a irmã. Foi desvendar a irmã.
Para, através do exercício da procura, entender o mundo e a si mesma. Para entender a vida, relendo a morte.
Fiz o mesmo em Feliz Ano Velho e Não És Tu Brasil, livros em que, indisfarçavelmente, procurei entender o que tinha acontecido com meu pai.
Entendo [e admiro] o que a pequena PETRA fez. Quando me disse que faria um documentário sobre a irmã, eu a abracei e disse: “Vai fundo!”
Ela foi. Dentro daquela menina tímida, tinha muita força e coragem acumulada.
Quero ver PETRA sorrir agora.
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