No Estadão de ontem, Eugênio Bucci se baseou em uma charge que tem circulado pelo Facebook para fazer uma interessante análise sobre como a atividade jornalística deveria ser financiada. Ele defende algo que já foi tratado aqui no dia 7 de novembro: para uma imprensa realmente livre, o financiamento deve vir de seu público.
Mas não é apenas com dinheiro que esse financiamento pode ser feito, como o próprio jornalista explica. E justamente aí entra a charge, reproduzida acima e publicada originalmente no site Geek and Poke (sem a pertinente crítica ao Facebook). Resumidamente, se você não está pagando em cash pela notícia, está aceitando que o veículo venda uma parcela da sua atenção aos anunciantes. E aí você deixaria de ser o cliente e passaria a ser o produto.
Isso não é nada novo: toda a TV aberta (e não apenas seus produtos jornalísticos), com seus custos de produção altíssimos, sempre foi mantida pela publicidade. Nesse caso, o público sempre foi o produto, consciente disso. A novidade é que esse modelo está extrapolando suas formas tradicionais.
Dá para ser cliente quando o mundo o quer como produto? Temos, por exemplo, o Positivo, fabricante de computadores que se firmou no mercado com uma imagem de equipamentos com preços baixos. Como forma de ampliar os seus ganhos, a empresa agora quer colocar anúncios na área de trabalho do Windows de seus consumidores e até nas caixas de seus computadores.
A gigantesca Microsoft também embarcou nessa onda, inspirada no seu rival Google, que espalha seus microanúncios pelos seus produtos. O Office Starter, versão light do seu pacote de escritórios com apenas o Word e com o Excel, vem pré-instalado em computadores e pode ser usado gratuitamente, desde que o usuário não se importe com os anúncios que exibe.
Aplicativos para smartphones, mesmo os que custam um mísero US$ 1, também costumam oferecer uma versão completamente gratuita, subsidiada pela exibição de anúncios. Pagando pelo produto, os anúncios desaparecem.
O fato: em maior ou menor grau, as pessoas parecem não se importar muito com essa invasão publicitária, principalmente em produtos que foram concebidos com a presença dos anúncios. Dessa forma, se incomodam mais com os anúncios ocupando espaço na sua tela do Word que com anúncios em produtos jornalísticos.
Será esse o caminho que o jornalismo deve seguir para se sustentar?
Separação Igreja-Estado
É uma possibilidade a ser considerada, com serenidade. Outros modelos já discutidos aqui, como o “soft paywall” do The New York Times, também podem render frutos. Mas as empresas de comunicação precisam aceitar o fato de que o público resiste em desembolsar seus cobres pelo noticiário.
Caso decidam ampliar o caminho da publicidade, os publishers precisam reforçar o conceito da “separação Igreja-Estado”. Ou seja, decisões comerciais não podem influenciar o noticiário, e vice-versa. Dessa forma, a Redação deve ter liberdade para criticar uma empresa, mesmo que ela seja seu maior anunciante.
Bucci explica o motivo em seu artigo: mesmo em um ambiente financiado por publicidade, o público deve ser considerado como o verdadeiro cliente, pois é apenas por causa dele que os anunciantes colocam dinheiro nos veículos. Dessa forma, tem o direito de receber um produto jornalístico isento e focado em seus interesses.
As empresas estão dispostas a fazer isso? No mundo ideal, sim; na prática, poucas são capazes de levar esse conceito até o fim.
Os publishers devem avaliar esses dois conceitos –maneiras criativas de financiamento por publicidade e a garantia da independência editorial– com muita atenção. O mundo quer o público como produto e as próprias pessoas parecem topar essa situação. Mas os jornalistas nunca devem deixar de encará-las como os seus verdadeiros clientes. Qualquer que seja o modelo de financiamento, a essência do jornalismo passa por garantir um noticiário isento.
No último dia 26, durante o seminário de comunicação digital “Os desafios éticos e legais nas empresas jornalísticas”, promovido pela ANJ (Associação Nacional de Jornais), meu colega Marco Chiaretti disparou: “o problema é que está entrando muito dinheiro nas redações”. Não, ele não sugere que o jornalismo deixe de ser uma atividade remunerada. O que ele quer dizer é que as áreas de negócios das empresas de comunicação estão tendo muito influência sobre as pautas dos seus veículos, uma interferência perigosíssima ao livre exercício do jornalismo.
Assim como a liberdade diante de governos, a liberdade econômica é uma premissa básica do bom jornalismo, daquelas que se aprende no primeiro ano da faculdade. Afinal, o veículo tem que poder noticiar uma enorme falcatrua de uma empresa, mesmo que ela seja seu maior anunciante. Corre-se o risco de perder o anunciante? Claro! Mas daí vem uma frasesinha muito conhecida no meio: “a separação Igreja-Estado”, que diz que decisões de negócios não devem interferir nas editoriais e vice-versa (só não me perguntem quem é a Igreja e quem é o Estado).
Se isso for respeitado e a Redação fizer seu trabalho direito, constroi-se o maior bem do jornalismo: a credibilidade. E, pelo menos no mundo perfeito, isso deveria ser suficiente para o negócio seguir adiante.
Mas não estamos no mundo perfeito! Há alguns dias, zapeando despreocupadamente pela TV, dei a sorte de cair no começo de “O Informante”, com Al Pacino. Para resumir bastante a história, o filme conta o caso verdadeiro de uma reportagem do “60 Minutes”, da norte-americana CBS, em que um ex-alto executivo da indústria tabagista vem a público e explica, com todas as palavras, como seus antigos colegas deliberadamente manipulam as substâncias químicas nos cigarros para viciar seus consumidores.
Bem, como pode ser visto no trecho abaixo, depois de tudo pronto, a área de negócios da emissora tentou barrar a todo custo a entrevista com o informante, pois ela seria prejudicial à empresa. Só não conseguiu devido à sagacidade e –permitam-me a expressões– aos culhões do produtor, vivido por Pacino.
Realmente, fica difícil quando aquela que possivelmente foi a maior reportagem do ano só foi ao ar depois de muita confusão. Mas não sejamos inocentes em acreditar que isso não acontece.
Caímos então em um dilema: no mesmo seminário da ANJ, vários participantes disseram que é necessário que a imprensa volte a ser mais mantida pelo seu próprio público que por anunciantes, mas vivemos uma época em que as pessoas não querem pagar pelo conteúdo que consomem. Trata-se de uma discussão que não cansamos de tratar nesse blog.
Quase cegos
Também participando do evento, Caio Túlio Costa conclamou que as “empresas deveriam fazer operação de catarata!” Não se trata mais de discutir mudanças no modelo de negócios, e sim aceitar e entender que todo o negócio –em muitos de seus itens essenciais– mudou. “Os veículo ainda não entenderam essa nova realidade da informação”, concluiu.
Traduzindo: pode ser razoável que o público mantenha, ainda que não totalmente, a atividade jornalística, garantindo assim a independência e um jornalismo de qualidade (o que, aliás, é de interesse do mesmo público). Mas não dá para simplesmente pedir –ou pior, tentar impor– que as pessoas paguem pelo conteúdo: elas precisam ver valor naquilo, entender por que estão pagando e encontrar um preço que lhe pareça justo. É por isso que simplesmente fechar conteúdos é uma burrice.
Nesse teatro em que os atores não sabem suas falas, vem o The New York Times há alguns meses com uma proposta de “paywall” que, de início, foi motivo de chacota de muita gente. Basicamente, ele permite que se leia, de graça, 20 textos do site a cada 30 dias. Depois disso, tem que se pagar. O desprezo inicial se deve ao fato de o sistema ser facílimo de burlar, além de possuir várias “liberalidades” em seu conceito. Apesar disso, o NYT vem comemorando resultados muito surpreendentes: de um lado, a queda na visitação de seu site foi considerada aceitável; do outro, aumentou consideravelmente o volume de assinantes do site… e do jornal impresso!
Como isso foi possível? Pela combinação do melhor jornalismo independente do mundo com preços muito baixos. US$ 0,99 por semana para ter acesso ilimitado a todos os produtos digitais do NYT nas primeiras quatro semanas e US$ 35 por mês depois disso? E você ainda recebe o jornalão impresso em casa! É um valor razoável. Não obstante, eles realizaram uma pesada campanha de conscientização para justamente demonstrar que o jornalismo independente precisa do apoio do seu público.
As empresas de comunicação, especialmente a mídia impressa, estão rezando para essa “moda” pegar. Afinal, o dinheiro vindo da publicidade não para de minguar e fica cada vez mais difícil fechar as contas. São necessárias outras formas de fomentar o negócio. Mas temo que vejam apenas a parte do “conteúdo fechado” sem ver todo o resto do trabalho da turma do NYT. Repito: apenas fechar o conteúdo e esperar que o usuário pague por ele é um tiro na cabeça. Sempre existirá conteúdo grátis (e –sim– de qualidade) na rede.
No dia 5 de outubro, enquanto dava uma aula em um curso de extensão da PUC-SP, um aluno me indagou se esse modelo daria certo no Brasil?
Acho que sim. Você não pagaria R$ 1 por semana para garantir um jornalismo de qualidade para você?
O Facebook lançou há alguns dias o recurso “falando sobre isso” nas “fan pages”, páginas criadas por pessoas e empresas para promover o que fazem e o que gostam. A novidade mostra quantos usuários da rede social se relacionaram com cada página nos últimos sete dias. Por “se relacionar”, entenda-se compartilhar qualquer conteúdo publicado ali, fazer comentários, posts, incluir ou marcar fotos, responder a um evento ou simplesmente clicar no botão “curtir”. Na pratica, o que o Facebook espera é medir o “engajamento” em torno do assunto da “fan page”.
Por trás de mais uma métrica social aparentemente inocente, o “falando sobre isso” esconde a intenção do Facebook de criar um novo modelo comercial com valor um tanto intangível: o relacionamento das pessoas com qualquer marca. A empresa fatura alto com os pequenos anúncios que coloca em todas as suas páginas, alinhados com o perfil de cada usuário. Mas, para isso, depende que esses mesmos usuários cliquem nas peças. Com seu novo lançamento, a rede de Mark Zuckerberg quer tentar minimizar a importância dos cliques nos anúncios e mostrar ao mercado publicitário que é capaz de trazer valor sem eles, algo que, de quebra, ninguém consegue hoje fazer tão bem quanto o próprio Facebook.
Ninguém discute que o engajamento em torno de uma marca tem um enorme valor. Ele é uma das chaves para o que o mercado publicitário chama de “mídia espontânea”, ou seja, a exposição de uma marca em notícias e outros formatos não pagos, em oposição à “mídia paga”, que são os anúncios. Mas quanto o “falando sobre isso” realmente mede disso? Além do mais, o engajamento indicado pela novidade pode incluir pessoas fazendo comentários negativos sobre a marca.
Essa característica “etérea” do engajamento é o principal obstáculo para que o novo modelo seja aceito pelo mercado publicitário. É difícil de medir resultados nisso, ao contrário dos cliques nos banners, claramente identificados, justamente uma das maiores vantagens que a Internet oferece ao mercado publicitário diante de outras mídias, incapazes de dar um retorno tão precisamente identificado.
Dois coelhos
Para o Facebook, conseguir tal convencimento mataria dois coelhos com uma cajadada só. Primeiramente o colocaria em ampla vantagem sobre toda a indústria, pois ninguém conhece os gostos dos usuários como ele, nem mesmo o Google.
O gigante de buscas também faz fortuna entregando pequenos anúncios publicitários espalhados por sites próprios e de terceiros. Os anúncios do Google estão sempre associados ao assunto da página em que aparecem. Segundo seu raciocínio, que tem dado certo, se o usuário se interessa pelo assunto da página, deve se interessar pelo anúncio, se ele tiver assunto semelhante. Ele se foca, portanto, mais na página que no usuário. Já o Facebook segue o caminho contrário. Com seu inigualável banco de dados sobre gostos dos usuários, os anúncios que entrega são focados sempre no próprio usuário, não se importando com o conteúdo da página.
Todo esse conhecimento sobre as pessoas vem justamente das ações e do engajamento de cada um com seja lá o que for. Clicar no botão “curtir” em uma notícia não é só um jeito fácil e bacana de se dizer aos amigos que se gosta daquilo: o usuário também diz o mesmo ao Facebook, que assim constroi o seu perfil de cada um de nós. Dessa forma, ninguém pode oferecer informações sobre engajamento ao mercado publicitário como eles. Se o pessoal do marketing comprar a ideia, eles ficam por cima da carne seca.
O segundo motivo chega a ser quase paradoxal para quem conhece tão bem os usuários. Estudos, como esse, da Webtrends, sugerem que a taxa de cliques nos anúncios do Facebook é muito baixa, mesmo quando comparadas ao que se pratica nessa indústria (especialmente o Google). Pior que isso: ela vem caindo. Pelo estudo, a taxa de cliques (CTR, “click-through rate” ou “taxa de cliques”) caiu de 0,063% para 0,051% de 2009 a 2010. Em direção contrária, o que o Facebook cobra, em média, por clique (CPC, “cost per click” ou “custo por clique”) subiu, no mesmo período, de US$ 0,27 para US$ 0,49. E o quanto cobra por simplesmente exibir os anúncios (CPM, “custo por mil”) também subiu, de US$ 0,17 para US$ 0,25 a cada mil impressões.
Por isso, enfraquecer a importância do CTR enquanto fortalece o engajamento são críticos para o Facebook. Representariam o enfraquecimento da concorrência (especialmente do Google) e o fortalecimento do Facebook. Seus executivos têm uma árdua tarefa junto ao mercado publicitário. Se tiverem sucesso, merecerão gordos bônus por alterar a maneira como as empresas anunciam seus produtos e serviços.
Depois do meu último post, sobre o fim da versão impressa do Jornal do Brasil, várias pessoas vieram conversar comigo sobre isso, e se a Internet pode ser mesmo a salvação para veículos que não conseguem mais se manter em suas mídias de origem.
Para essa inquietação, a minha resposta é: depende. Como demonstrei no referido post, essa migração jamais salvará um veículo mal administrado, como é o caso do Jornal do Brasil. Ele morreu no papel e, salvo aconteça alguma improvável mudança empresarial, a morte também na Web é apenas uma questão de (pouco) tempo. Mas a passagem de uma mídia que já não atende aos interesses econômicos do veículo para os meios digitais é -sim- algo a ser considerado.
Afinal, quanto custa produzir o jornalismo, o “conteúdo” de um veículo? Vou me concentrar na grande mídia impressa, apenas para ficar no exemplo do JB (se bem que diria que ele já deixou de ser “grande” mídia há muitos anos). Fiz a minha lição de casa e constatei uma coisa muito interessante: se considerarmos todos os custos de um grande jornal (e isso inclui os associados à impressão e distribuição), a parcela referente ao jornalismo (considerando salários, infraestrutura para apuração, viagens, prêmios e qualquer tipo de despesa ordinária) gira em torno de apenas 20%. Ou seja, de tudo que custa um jornal, 80% não se refere ao jornalismo.
Oras, qual é o produto do jornalismo? Pelo que as pessoas pagam? Por mais que o grande furo noticioso de hoje esteja forrando a gaiola do passarinho amanhã, as pessoas compram informação, e não papel impresso.
Quando as prensas primitivas começaram a soltar os primeiros exemplares do que se pode chamar de um jornal “moderno”, o papel era fundamental para a disseminação da notícia, simplesmente porque não havia outra maneira de se fazer isso (pelo menos não tão eficientemente). As revistas surgiram depois como uma alternativa de melhor qualidade gráfica, mas faziam essencialmente o mesmo. O problema é que, depois de alguns séculos fazendo isso, o papel e a notícia passaram a ser vistos como uma entidade homogênea e indissolúvel, o que não é verdade. Papel e tinta são apenas veículos do verdadeiro jornalismo.
No ano passado, publiquei um post sobre estudo feito por Nicholas Carlson, do The Business Insider. Basicamente o que ele fez foi calcular quanto custa ao The New York Times, em um ano, imprimir os exemplares enviados a cada um de seus assinantes. Dividiu essa cifra pela quantidade de assinantes e descobriu que isso é mais que o dobro do preço de um Kindle, o popular e-reader da Amazon, que, a propósito, oferece a assinatura digital do mesmo jornal a um custo bastante competitivo se comparado à versão impressa. O autor sugeriu então que o jornal presenteasse cada um de seus assinantes com um Kindle e economizasse, assim, muito dinheiro.
Claro que as coisas não são tão simples assim (e Carlson sabe disso): nem todos os anunciantes do jornal, quem paga a maior parte dos custos do negócios, são tão simpáticos a uma ideia dessas. Mas é um fato matemático que um jornal digital pode ser produzido a um custo muitíssimo menor que um impresso, sem prejuízo algum de seu jornalismo.
Não se trata, portanto, daquela conversinha fiada que o JB publicou em seu site de estar abandonando a versão impressa por se preocupar com as árvores. Eles não estão nem aí para o verde, exceto o do dólar, que eles não têm mais. Trata-se, isso sim, de uma alternativa viável para os grandes títulos continuarem no negócio, produzindo jornalismo de qualidade, algo que eles tanto prezam e que a sociedade muito necessita.
Neste 1º de setembro, o Jornal do Brasil circulou apenas na Internet, abandonando para sempre sua versão impressa de 119 anos. O diário carioca, que já chegou a tirar 230 mil exemplares aos domingos, não resistiu à pressão de um mundo com um volume incrível de informação de qualidade, gratuita e ao alcance de qualquer internauta. Mas se engana quem acha que foi a Grande Rede que matou o JB.
O jornal cavou a sua sepultura sozinho e agora se prepara para deitar nela. Não há mais espaço para incompetentes ou aventureiros na mídia globalizada e democratizada, e esse tipo de gente habita a administração do jornal há muitos anos. A crise brotou ainda nos anos 1990 e se agravou em 2001, quando a Docasnet, do empresário Nelson Tanure, assumiu a administração do JB. Com receitas publicitárias mais e mais minguadas para os jornais e cada vez mais títulos disponíveis para dividir os tostões, o Jornal do Brasil caiu.
Claro que a Internet tem um papel determinante neste cenário crítico, que atinge a mídia impressa em todo mundo. Afinal, ela ofereceu ao (antes) leitor, (agora) internauta uma alternativa mais vantajosa e eficiente de se informar. Com isso, as pessoas passaram a consumir menos todas as outras mídias.
O tombo do impresso -que paradoxalmente tem mais leitores que nunca- só não foi mais dramático graças aos crescentes títulos gratuitos (como Metro e Destak). Mas perdem os jornalões para esses últimos, que roubam dos grandões leitores e uma importante fatia da publicidade, o que de fato sempre manteve essas publicações.
Diante da inevitabilidade dos fatos, o JB abraçou justamente a Internet como tábua de salvação. E o resultado foi ridículo! O site do periódico já era muito fraquinho e não melhorou agora. Não bastasse isso, ainda tenta pateticamente travestir esse gesto desesperado como uma iniciativa moderna, sustentável, alinhada com as tendências internacionais e os interesses de seus leitores. Como cereja desse bolo, o JB online ainda tem a cara de pau de convocar seus internautas a colaborarem enviando reportagens, fotos, charges e até vídeos. Tudo de graça, claro, em nome da “cidadania”. E ainda espera que alguém pague R$ 9,90 por mês por uma assinatura do site.
Ah! Outra coisa que se pode aprender com o fim do JB impresso: quando quiser fechar um jornal, chame a turma do Tanure. Afinal, o JB não foi sua primeira vítima: há exatos 15 meses, o mesmo empresário matou a Gazeta Mercantil, outrora referência do jornalismo econômico brasileiro, falecida depois de 89 anos de bons trabalhos. E aquela ali nem teve a chance de manter uma versão online.
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No dia 1º de março, cinco dos publishers mais importantes do mundo, Charles Townsend, da Condé Nast, Cathie Black, da Hearst Magazines, Jack Griffin, da Meredith Corporation, Ann Moore, da Time Inc., e Jann Wenner, da Wenner Media, anunciaram um campanha publicitária para mostrar ao seu público –e ao mercado publicitário– que as revistas não morreram e que ainda são um excelente negócio para os anunciantes.
A iniciativa, batizada de Magazines: the power of print, foi lançada durante a conferência da Associação Americana de Agências de Publicidade, que aconteceu em San Francisco (EUA). A um custo de US$ 90 milhões, circulará durante sete meses em cerca de uma centena de revistas desses grupos e seus sites, além de publicações de terceiros. O vídeo acima é parte dessa campanha, estrelado pelos executivos das revistas.
O objetivo da campanha é claro: dizer que as revistas trazem o melhor custo-benefício publicitário. O “inimigo” também está bem definido: a Internet, praticamente materializada em torno do Google. E a mensagem gira em torno do fato de que uma nova tecnologia não mata a anterior. Ou seja, as revistas continuam existindo, apesar da Internet, contrariando os arautos do apocalipse.
Puxa vida, eles descobriram isso sozinhos ou precisaram ajuda? Ok, claro que a ideia é sensibilizar as agências de publicidade, mas o tom da campanha chega a ser revanchista, colocando as revistas em franca defensiva. Apresentam várias métricas (de entidades ligadas à mídia impressa) que indicam aumento do leitorado, mas, em nenhum momento citam que revistas e jornais perdem, ano após ano, fatia do bolo publicitário, enquanto a Internet aumenta a sua. Será que precisa de tudo isso? Além do mais, se a coisa está tão boa assim, por que tanta preocupação em mostrar ao mundo tamanha obviedade?
Todas essas publicações possuem a sua versão online. Mas o fato é que essas empresas têm sido, até agora, incapazes de conter o rombo no budget de suas revistas –a cash cow de todas elas– com os crescentes (porém ainda proporcionalmente minguados) ganhos com suas iniciativas digitais. E isso acontece especialmente porque elas insistem em migrar para uma nova realidade o mesmo modelo de negócio que funcionava tão bem para o papel.
Infelizmente não funciona. A Web desafia a todos a criarem modelos totalmente novos. Ao invés de combater o Google, deveriam aprender algo com ele. E isso significa parar de querer adaptar o que já fazer e pensar MESMO fora da caixa.
Há alguns dias, estava conversando em off com o diretor de uma editora de livros didáticos, e ele disse que esse grupo –que ainda está com um pouco mais de tempo que as editoras de revistas e jornais para cair de cabeça na Internet– precisa agora começar a se aventurar com seriedade em produtos verdadeiramente digitais. Inclusive porque ainda têm fôlego para cometer erros. Na sua análise, se começarem a tentar –e errar– apenas daqui a dez anos, poderão ser postos para fora do negócio, pois então ninguém mais precisará deles. Exatamente a situação em que a indústria fonográfica está hoje: quem precisa deles ainda?
Acho que esses US$ 90 milhões poderiam ser mais bem usados estudando modelos de negócio alternativos. Afinal, a Internet não vai matar as revistas, mas certamente fará com que elas mudem sua forma, em um sentido bastante amplo.
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Há cerca de um mês, começaram a pipocar aqui e ali rumores sobre um suposto acordo que, de tão bizarro, parecia mais um daqueles boatos disseminados pela Internet. Mas de boato, eles não tinham nada. O fato é que a Microsoft está em sérias conversações com a News Corp. O objetivo: a turma de Steve Ballmer pensa em pagar para que a de Rupert Murdoch impeça que o conteúdo de suas publicações –o que não é pouca coisa, incluindo aí o The Wall Street Journal– seja indexado pelo Google, passando a ser encontrado apenas no Bing, o novo buscador da Microsoft.
Tirar o seu conteúdo do Google para deixá-lo restrito ao Bing, que mal faz cócegas ao primeiro? Provavelmente todas as pessoas, exceto as envolvidas no acordo, diriam que isso é uma enorme estupidez. Afinal, como apontou recentemente a consultoria Experian Hitwise, 21% de TODO o tráfego de sites de jornais vem do Google, contra míseros 2% do Bing. Essa troca de conteúdo por tráfego seria o “uso justo”, que embasa a defesa do Google no assunto.
Mas, para Rupert Murdoch, a idéia parece fazer sentido. Já há bastante tempo, ele classifica os buscadores –especialmente o Google– como ladrões, com todas as letras e sem aspas. Isso pode ser visto, por exemplo, no vídeo acima. Mas, se agora um buscador quer justamente pagar pelo conteúdo, a coisa muda de figura.
Já a Microsoft parece estar disposta a usar de força monetária bruta para tentar fazer o Bing decolar. No seu raciocínio, se o internauta só encontrar conteúdos relevantes no seu produto, pode deixar de usar o Google. Tanto é assim que a turma de Redmond estaria tendo conversas de teor semelhante com outros grupos de mídia, em uma tentativa de pegar só para si o conteúdo que fosse realmente útil, deixando ao Google os “restos”.
Parece fazer sentido. Onde está a falha nesse conchavo?
Já em 2005, eu dizia aos meus alunos do curso de Jornalismo da Metodista que um dos maiores desafios que eles enfrentariam era o fato de que (já naquela época) o que nós produzimos havia virado commodity.
Do lado da News Corp. aí está a falha. Eles produzem um bom conteúdo? Certamente sim. Eles são os únicos capazes de fazer isso nesse nível? Certamente não. Ainda é preciso ter muito dinheiro para fazer jornalismo de alta qualidade? Certamente NÃO: por isso a News Corp. e a grande mídia concorrem com uma legião de indivíduos e pequenas empresas pela audiência e pelo bolo publicitário.
Já do lado da Microsoft, a falha é: a Internet é grande demais para ser comprada. Essa estratégia teria alguma chance de dar certo se todos os grandes produtores de mídia abraçassem a idéia, mas vários deles já anunciaram que não vão entrar nesse barco furado. Para eles (e para mim), as pessoas não deixarão de usar o Google se o conteúdo da News Corp e de um punhado de outros reacionários não aparecer mais em seus resultados. Se entrassem, eles não apenas não lucrariam com o inexpressivo Bing, como perderiam a chance de monetizar o tráfego que receberiam do Google.
Há ainda uma “continha básica” a ser feita. Apesar da gritaria de Murdoch, suas publicações efetivamente fazem dinheiro com os internautas que o Google lhes envia. Podem ser migalhas individualmente, mas 21% de todo o seu tráfego está longe de ser café pequeno. Perder esse tráfego do Google e o dinheiro associado para migrar ao Bing só faz sentido se a Microsoft bancar essa diferença com vantagens para a News Corp. Mesmo para a gigante de Redmond, até quando eles estarão dispostos a fazer isso, já que seus ganhos não devem ser proporcionalmente expressivos? E ainda querem fazer o mesmo para um grande número de grupos de mídia? Eu chamo isso de dumping.
Honestamente, Murdoch pode até achar o Google uma empresa bandida conduzida por moleques irresponsáveis. E daí? Em uma nova ordem mundial da mídia, onde o conteúdo por si só perdeu completamente o valor (algo que ele, como dono desse império, se recusa a aceitar), provavelmente tem muito a aprender com eles. Isso sim é fazer negócio.
[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=8ZpyBkln0ew]
Hoje comecei o dia lendo um artigo de Emir Sader, no Comunique-se, que propõe discutir se é possível existir imprensa livre feita por empresas privadas. O sociólogo argumenta que, como qualquer empresa, as de comunicação são movidas pela busca do lucro e que, portanto, estariam vinculadas aos interesses das elites econômicas e de seus anunciantes, o que inviabilizaria a liberdade de imprensa em suas fileiras.
É um bom ponto, e bem exposto. Mas terminei de ler o artigo com uma pergunta que o autor não discutiu convincentemente: afinal, então de onde viria a assim chamada imprensa livre? O máximo que Sader disse foi, no penúltimo parágrafo, que ela “tem que ser pública, de propriedade social e não privada”.
Respeitosamente discordo. Iniciei a minha carreira há 16 anos na Folha de S.Paulo, que hoje passa, junto com outros nomões da imprensa, por uma vergonhosa crise de credibilidade (o que estaria de acordo com o proposto por Sader). Mas foi interessante trabalhar lá no momento em que ainda existia alguma inocência do “foca”, para poder ver, por baixo de toda a sujeirada, como é possível fazer jornalismo sério e –sim– livre em uma empresa privada, se assim você se propuser.
Ao contrário do que sugeriu Sader, o último lugar onde a imprensa será livre é nas mãos do poder público. Pode até ser de qualidade: a TV Cultura de São Paulo é um bom exemplo que se mantém há décadas, apesar de ter agonizado por falta de verbas há alguns anos. Mais recentemente, vemos a TV Brasil, outra boa iniciativa. Mas obviamente elas não são livres.
Uma alternativa interessante é a da britânica BBC: apesar de possuir 12 superdiretores indicados pelo governo, eles não têm função executiva, atuando como uma espécie de board. A empresa é comandada de fato por outros diretores, executivos, e é financiada por uma espécie de imposto pago por todos os domicílios do Reino Unido que possuem televisão, o que lhe garantiu polpudos 3 bilhões de libras em 2005, fora qualquer outra renda que tenha obtido.
Mas o ponto é: não há interferência governamental na programação da BBC, condição crítica para sua qualidade e independência, que se tornaram referência internacional. Quando essa ingerência acontece, a imprensa vira joguete político e peça de campanha, confundindo-se com publicidade oficial, como a que foi parodiada no vídeo acima, do governo da Bahia.
Uma imprensa apenas do governo ou submissa a ele consegue ser pior que uma imprensa em que isso seja equilibrado por uma versão privada, mesmo que, no meio dela, apareçam veículos vergonhosos, como a Veja. Pois, em repúblicas de bananas como as nossas, um governo sem limites se deteriora em ditaduras chavistas, destruindo o país aos poucos. Já andei por vários países da América Latina, e a relação entre uma imprensa frágil, governo forte (e populista) e país depauperado é gritante.
Existe ainda uma terceira via, que sequer foi cogitada por Sader, e que pode ser a resposta à pergunta que dá o título a esse post: o jornalismo-cidadão, que floresce cada vez mais na Internet. Só não o coloco ainda como A resposta, pois, como seria de se esperar, misturam-se na Grande Rede jornalismo de primeiríssima qualidade com iniciativas antijornalísticas. Afinal, qualquer um pode escrever nela o que bem entender, sem se preocupar com a seriedade da apuração ou da produção do material. E também aí existem interesses, como no caso das empresas e do governo. Mas nessa (imensa) pluralidade pode-se encontrar a verdade. E ferramentas como o Google News ou Wikinews podem servir para colocar ordem na “bagunça”. Sader passou longe disso.
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