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Macaco elétrico

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Algumas pessoas realmente estão à frente de seu tempo. Quando você acha que surgiu o jornalismo online? Em 1994, com o advento da Internet comercial? Talvez alguns anos antes disso, no serviço proprietário (pré-Web) da AOL ou nas BBSs?

Nada disso! O vídeo acima é emblemático e mostra a experiência de oito jornais americanos, entre eles o The San Francisco Examiner, que publicavam online o conteúdo de suas edições impressas… em 1981, carregados pela Compuserve! Claro, nada comparado ao que temos hoje na Web: sem imagens e, só para baixar os textos da edição pelo telefone (que era tudo o que era oferecido), eram necessárias duas horas. Mas essa turma de pioneiros estava lá!

“Isso é um experimento. Estamos tentando entender o que isso representará para nós, editores e repórteres, e para o usuário em casa”, dizia David Cole, responsável pelo projeto no Examiner. “Nós não estamos aqui para ganhar dinheiro: não vamos perder muito, nem tampouco ganhar.”

Ok, o cara não tinha como saber naquela época. Já foi bastante arrojado em se lançar na iniciativa. Mas a declaração é, no mínimo, pitoresca, especialmente diante da crise que os jornais vêm enfrentando hoje, particularmente nos EUA, e em parte graças à competição que o jornalismo online representa. Pelo menos o The San Francisco Examiner, que roda desde 1863, continua sendo impresso, a despeito de vários concorrentes pelo país, que passaram a existir apenas na Web ou simplesmente fecharam as portas.

A reportagem continua: “engenheiros agora predizem que chegará um dia em que receberemos todos os nossos jornais e revistas pelo computador.” E termina dizendo que o trabalho do jornaleiro ainda não estava ameaçado.

Em tempo: o San Jose Mercury News é considerado o primeiro jornal na Web, lançado em 1994. No Brasil, o primeiro foi o Jornal do Commercio (não, não foi o Jornal do Brasil), também em 1994.

De quando é o primeiro jornal online? Que tal 1981?

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Hoje comecei o dia lendo um artigo de Emir Sader, no Comunique-se, que propõe discutir se é possível existir imprensa livre feita por empresas privadas. O sociólogo argumenta que, como qualquer empresa, as de comunicação são movidas pela busca do lucro e que, portanto, estariam vinculadas aos interesses das elites econômicas e de seus anunciantes, o que inviabilizaria a liberdade de imprensa em suas fileiras.

É um bom ponto, e bem exposto. Mas terminei de ler o artigo com uma pergunta que o autor não discutiu convincentemente: afinal, então de onde viria a assim chamada imprensa livre? O máximo que Sader disse foi, no penúltimo parágrafo, que ela “tem que ser pública, de propriedade social e não privada”.

Respeitosamente discordo. Iniciei a minha carreira há 16 anos na Folha de S.Paulo, que hoje passa, junto com outros nomões da imprensa, por uma vergonhosa crise de credibilidade (o que estaria de acordo com o proposto por Sader). Mas foi interessante trabalhar lá no momento em que ainda existia alguma inocência do “foca”, para poder ver, por baixo de toda a sujeirada, como é possível fazer jornalismo sério e –sim– livre em uma empresa privada, se assim você se propuser.

Ao contrário do que sugeriu Sader, o último lugar onde a imprensa será livre é nas mãos do poder público. Pode até ser de qualidade: a TV Cultura de São Paulo é um bom exemplo que se mantém há décadas, apesar de ter agonizado por falta de verbas há alguns anos. Mais recentemente, vemos a TV Brasil, outra boa iniciativa. Mas obviamente elas não são livres.

Uma alternativa interessante é a da britânica BBC: apesar de possuir 12 superdiretores indicados pelo governo, eles não têm função executiva, atuando como uma espécie de board. A empresa é comandada de fato por outros diretores, executivos, e é financiada por uma espécie de imposto pago por todos os domicílios do Reino Unido que possuem televisão, o que lhe garantiu polpudos 3 bilhões de libras em 2005, fora qualquer outra renda que tenha obtido.

Mas o ponto é: não há interferência governamental na programação da BBC, condição crítica para sua qualidade e independência, que se tornaram referência internacional. Quando essa ingerência acontece, a imprensa vira joguete político e peça de campanha, confundindo-se com publicidade oficial, como a que foi parodiada no vídeo acima, do governo da Bahia.

Uma imprensa apenas do governo ou submissa a ele consegue ser pior que uma imprensa em que isso seja equilibrado por uma versão privada, mesmo que, no meio dela, apareçam veículos vergonhosos, como a Veja. Pois, em repúblicas de bananas como as nossas, um governo sem limites se deteriora em ditaduras chavistas, destruindo o país aos poucos. Já andei por vários países da América Latina, e a relação entre uma imprensa frágil, governo forte (e populista) e país depauperado é gritante.

Existe ainda uma terceira via, que sequer foi cogitada por Sader, e que pode ser a resposta à pergunta que dá o título a esse post: o jornalismo-cidadão, que floresce cada vez mais na Internet. Só não o coloco ainda como A resposta, pois, como seria de se esperar, misturam-se na Grande Rede jornalismo de primeiríssima qualidade com iniciativas antijornalísticas. Afinal, qualquer um pode escrever nela o que bem entender, sem se preocupar com a seriedade da apuração ou da produção do material. E também aí existem interesses, como no caso das empresas e do governo. Mas nessa (imensa) pluralidade pode-se encontrar a verdade. E ferramentas como o Google News ou Wikinews podem servir para colocar ordem na “bagunça”. Sader passou longe disso.

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  • Quem faz

    Paulo Silvestre é editor de produtos digitais da Microsoft. Jornalista apaixonado por mídia e tecnologia, está online desde 1987 e trabalha com mídias digitais desde 1995. Participou da criação da FolhaWeb -que se transformou no Universo Online- e da AOL Brasil. Foi também editor de produtos digitais da revista Exame, gerente sênior de conteúdos digitais da Editora Saraiva e gerente de produtos digitais do Grupo Estado. Lecionou as disciplinas Jornalismo Digital e Tecnologias da Comunicação na Universidade.

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