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Trabalho Interno

Luiz Zanin

terça-feira 22/02/11

Você quer saber tudo sobre a crise econômica de 2008, inclusive os nomes de alguns figurões por ela responsáveis, e em geral poupados pela mídia? Se a resposta é sim, seu filme é Trabalho Interno, de Charles Ferguson, cotado como favorito para o Oscar de documentários. Se o seu negócio for apenas espetáculo cinematográfico puro, bem, nesse caso, a recomendação não pode ser tão enfática.

De fato, o filme começa como um exercício cinematográfico visualmente bem apurado, que conduz o espectador até a pequena Islândia. Mas essa imaginação visual desparece ao longo do filme, quando então Ferguson se concentrará no assunto sem qualquer preocupação de ordem estética. Passa então a acumular entrevista sobre entrevista, com enquadramentos semelhantes, e a desfilar dados e estatísticas – alarmantes. Quer dizer que o filme se torna monótono? Nada disso. A não ser que você não tenha qualquer interesse pelo mundo real, manterá os olhos pregados da tela. E conservará ouvidos bem abertos. O que lá se mostra e diz é do interesse de cada um de nós. Além de ser um dos filmes mais esclarecedores sobre a crise global de 2008, por meio dele o espectador terá uma visão de conjunto da estrutura do capitalismo mundial dos anos 1980 para cá.

Por que começa na Islândia? Porque esse pequeno país europeu, com sua população reduzida, boa seguridade social, baixos índices de criminalidade, educação de ponta, alta tecnologia, foi levado à bancarrota através de um processo pudicamente chamado de “desregulamentação”. Com a flexibilização de regras de investimentos, o que encheu os bolsos dos especuladores, o país foi à ruína. A Islândia era um país socialista? Nada disso. Capitalista, social-democrata. Porém representava, dentro do capitalismo, um sonho de desenvolvimento e bem-estar, ponto final de um processo civilizatório.

A Islândia será, portanto, uma espécie de estudo de caso ideal para entender como o capitalismo financeiro se descolou da base econômica real e desenvolveu-se de forma autônoma, tornando-se um cassino global. Ilha da fantasia virtual, o tal cassino produz efeitos que nada têm de virtuais; retornam ao mundo real e o degradam.

Algumas das constatações de Ferguson são acacianas. Outras nem tanto. Por exemplo, que o motor do desastre é a infinita ambição dos agentes econômicos, todo mundo sabe. Mas como domar esse impulso, se a própria natureza do sistema leva a ele e o estimula? Ferguson mostra como o mercado foi se tornando especulativo além da conta e sujeito a riscos até então inéditos, sob a desregulamentação iniciada nos anos 1980, os anos Ronald Reagan e Margareth Thatcher.

Menos óbvia é a promiscuidade revelada entre governos – em especial o dos EUA – e os especuladores. Além disso, o mundo acadêmico norte-americano, maior concentração dos prêmios Nobel de economia do planeta, parece colaborar alegremente com sua inteligência para os tubarões da especulação. Muitos deles são chamados a dar seus depoimentos. Alguns se recusam. Por fim, o próprio governo Barack Obama, saudado e badalado por seu progressismo em seu início, sai chamuscado. Alguns dos mesmos nomes que trabalhavam para Bush continuam a operar para Obama. Como se o “sistema” tivesse lógica própria e poder para atravessar governos de ideologias em aparência tão diferentes. O que Trabalho Interno sugere é que nada mudou e pessoas envolvidas na crise foram reconduzidas a cargos importantes depois que a poeira baixou.

A conclusão de Ferguson nem de longe poderia ser classificada de esquerdista ou qualquer coisa do tipo. Pelo contrário; no subtexto vem embutido um elogio ao capitalismo mais controlado, que se perdeu, segundo ele e muitos analistas, a partir da desregulamentação feroz dos mercados. Alimentado por uma ambição sem medidas, o sistema foi levado à beira da falência. E só foi salvo por uma injeção sem precedentes de dinheiro do governo – isto é, do contribuinte. No entanto, passada a tempestade, a bomba relógio foi montada, mais uma vez. O cassino global é conduzido com lógica própria e independe de governos. Ou conta com a conivência deles. É alarmante.