Tem gringo no samba. No caso, o nova-iorquino Stephen Bocskay, professor da Brown University (em Rhode Island, Providence), que promete ser o primeiro brasilianista a se se debruçar sobre o nosso ritmo mais popular como objeto de estudo. Mas Stephen não deve ser visto como um branquinho sem jogo de cintura e que observa o samba do ponto de vista de um olimpo teórico. Pelo contrário. Sua relação com o samba é visceral, e não apenas de estudioso. Gosta de tocar (percussão e violão), é amigo de Nei Lopes e curte como ninguém uma boa roda de samba. Tocou com Dona Ivone Lara e trocou ideias musicais com Carlinhos Lyra.
Portanto, seu interesse pelo samba une curtição pessoal e interesse acadêmico. Além do prazer que experimenta com a música brasileira, ele a tem como ótimo ponto de partida para estudar uma questão aguda e urgente: a afirmação da cultura negra no Brasil.
O livro, fruto de uma pesquisa que está em sua redação final, de início será primeiro uma tese de doutorado pelo departamento de Estudos Brasileiros e Portugueses da Brown University. Em seguida, sai sob forma de livro. Vai se chamar Vozes do Samba: Música e o Imaginário Racial Brasileiro, 1955-1988, e ainda espera por uma editora no Brasil. Deve ser consistente, como convém a um trabalho acadêmico. Mas, a julgar pela conversa, não deixará também de ter seu molho. E ritmo.
Em sua passagem por Fortaleza, onde esteve com a namorada, a atriz Giulia Gam, homenageada pelo Cine Ceará, Stephen Bockskay conversou com o Estado.
Como o Brasil e o samba entraram em sua vida?
Vim ao Brasil pela primeira vez em 2002 e me interessei em primeiro lugar pela música, mas também pela literatura, pois sou um estudioso da cultura de maneira geral. Mas a música vem em primeiro lugar porque sou instrumentista. Toco percussão e violão. Gosto em particular da música brasileira, que é riquíssima e diversificada. Lendo sobre ela, percebi que nesse campo existem muitos livros sobre samba, mas a maioria são livros de crônicas. Excelentes cronistas, mas não pesquisadores. E aqui eu gostaria de citar um grande pesquisador, que é uma espécie de Tinhorão francês, que é o Gérard Behague (1937-2005). Ele percebeu, o que me parece certo, que existe ainda uma visão dominante das teorias do Gilberto Freyre quando se fala em samba no Brasil. O que é curioso porque as ideias de Freyre já foram questionadas e debatidas em muitos campos, mas não no musical. Florestan Fernandes já nos anos 50 já o questionava.
Qual a consequência do predomínio dessa visão?
Como a abordagem antropológica continua a mais comum, a cultura é vista sob os traços hegemônicos, tendendo-se a confundir miscigenação racial com mistura social. No meu trabalho você pode falar em hegemonia, mas é interessante também entrar na questão das taxonomias raciais. No Brasil, o caso típico é pensar a identidade como nacional. O parcelamento identitário étnico comum existe nos Estados Unidos não existe aqui. O grande pensador argentino Néstor Garcia Canclini diz que nos EUA existe o hífen: as pessoas podem ser definidas como ítalo-americanas, nipo-americanas, etc. Existe no Brasil esse hífen, mas não oficialmente.
Essa miscigenação meio imaginária dificulta a toma da consciência racial?
É a minha tese. O samba tem origem nas comunidades negras. Mas quando de fato começa uma consciência racial nas letras de samba? De maneira muito tardia. Vou usar o estudo das letras de samba para falar no imaginário racial no Brasil, de modo geral. O argumento não é apenas de musicólogo. Essa resistência aparece nos trabalhos de história. Por exemplo, o José Ramos Tinhorão tem estudos fundamentais sobre a música popular brasileira, no qual ela aparece como trabalho de síntese entre brancos, negros e índios. Poucas pessoas tentaram realmente isolar o negro.
Desse modo, a tese da miscigenação serviria para camuflar as identidades raciais?
Numa entrevista de Elton Medeiros à Folha de S. Paulo, em 1985, perguntaram se ele se considerava a mistura ideal do brasileiro. “Detesto esse cara”, disse, referindo-se a Gilberto Freyre. Elton diz que nunca houve uma miss negra, não tem locutores negras, etc. Ao lado dessa crítica, havia um lado também muito nacionalista, como era o caso do Candeia.
Entre os sambistas, qual o ponto de distinção, no qual essa consciência racial surge?
Antes de Candeia, antes de 1970, com Dia de Graça, quando se falava de negritude, era para falar em preconceito, opressão, etc. Era bem diferente de montar uma consciência crítica, de apelar para um coletivo do tipo, “nós, afro-brasileiros…” E nós vemos, depois de Candeia (de acordo com Sérgio Cabral, pai, e Nei Lopes), temos um desenvolvimento dessa consciência nas obras de Luiz Carlos da Vila, Martinho da Vila e do próprio Nei Lopes.
Como você delimitada o estudo?
Ele vai de 1955 a 1988 e começa com Zé Kéti, que não tem muito a ver com essa história da negritude, mas eu o tomo justamente porque ele representa muito bem essa tendência da classe intelectual brasileira de enfatizar muito mais o luso-tropicalismo, o hibridismo, o transculturalismo – sempre enfatizando a mistura e não o parcelamento de identidades. Zé Kéti foi sambista em vários setores da sociedade. Ele apareceu em filmes como Rio Zona Norte (1957), de Nelson Pereira dos Santos, participou do show Opinião em 1964 com João do Vale e Nara Leão. É importante estudar então essas alianças intelectuais que ele estabeleceu. Qual era o posicionamento de esquerda, do pessoal como Ferreira Gullar, Vianinha, como eles pensavam o show Opinião, por exemplo. Trabalho com quatro nomes. Primeiro o Zé Kéti, depois Candeia, Martinho da Vila e Nei Lopes.
Você escolhe terminar seu livro em 1988. Por quê?
Por causa do Quizomba, centenário da Abolição, Martinho da Vila, de como o brasileiro pensa a África, se aceita, ou a rejeita: o estudo vai nessa direção. O Candeia é fascinante porque por um lado é muito nacionalista. “Eu sou brasileiro e ponto final”, ele dizia. Mas em algumas entrevistas, Candeia diz que a referência principal é a África. Então essas contradições nós vamos encontrar nele.
E nos outros?
Muito menos no Nei Lopes, porque ele se abre à África, escreve tese sobre isso. Tenta ver o que o Brasil tem de africano, quais são as pautas dessa cultura. A linguagem, todas as manifestações imagináveis, passando pela língua e a musicalidade.
O Nei Lopes seria o caso feliz de um intelectual-sambista.
Nei seria a grande referência, a união entre o estudioso e o letrista. Estamos pensando o sambista não apenas na no quadro de referência de músico, mas como intelectual também. Como é o caso do Gilberto Gil também… Não o examino muito, porque estudo mais o samba mesmo. Grande músico, mas o meu trabalho é muito mais focado na área de samba.
Em que estágio está o seu estudo?
Estou escrevendo o capítulo sobre Martinho e já escrevi os outros três. Vou lançar aqui no Brasil através de contatos como o Muniz Sodré, que é amigo meu. O livro deve sair no ano que vem. O título seria Vozes do Samba: Música e o Imaginário Racial Brasileiro, 1955-1988. Tem um pano de fundo histórico. Mas a abordagem é mais teórica, mas falo de história, para dar um exemplo, o governo Médici, Prá Frente Brasil, sambas nacionalistas, ufanistas.
Como você compara o Brasil em relação aos Estados Unidos?
O Brasil é um país muito diferente dos Estados Unidos, mas muito parecido, também. Assimila com incrível facilidade as influências externas. Roberto Schwartz fala das ideias fora do lugar, importadas, às vezes de maneira um tanto mecânica. É o único país das Américas que consegue internalizar aquilo que é estrangeiro, muito mais que outros países das Américas. Isso se dá, a meu ver, pela presença negra na formação do Brasil, que facilita essa antropofagia oswaldiana.
Como você teve ideia de estudar o samba e a cultura negra por esse viés?
É até irônico que os brasileiros tenham deixado para um estrangeiro fazer esse trabalho. Talvez para alguém que vem de fora fique mais fácil perceber. O samba é um gênero musical da cultura negra, mas que nunca foi percebido como tal, de forma totalizante, que é como precisa ser abordado. A questão da negritude, o que é a cultura negra, o que é isso, quando começa e com quem? São esses problemas que devem ser abordados.
Bem, o samba vem como expressão pelo menos desde Donga, mas não como consciência da negritude, seria isso?
Marília Barbosa, estudiosa do samba, (tem livros sobre Clementina de Jesus e Cartola) diz algo muito interessante e importante. O samba existia mesmo antes de 1917 (quando foi gravado Pelo Telefone, de Donga) e, se estudarmos o jazz, veremos ambas modalidades se tornam emblemáticas no mesmo período. Isso tem a ver mais com a história do processo intelectual do país. Nos anos 80, Carlos Sandroni escreveu um bom livro dando um passo a mais nessa história da origem do samba, porque precisa ser estudado senão vira mistério. Não gosto da expressão “mistério” aplicada ao samba. Por isso, o Nei Lopes escreve sobre mim no blog falando em “samba sem mistérios”. Esse é o meu trabalho.
Essa consciência negra, representado pelo Quizomba, tendo Beth Carvalho e Alcione como porta-vozes, não arrefeceu? Ou tem peso ainda hoje?
Perdeu força, é claro, mas é algo que flutua. Em determinados momentos, por exemplo, fala-se hoje nas cotas, para índios também, de 20% de vagas. São questões latentes. Mas em termos acadêmicos, esse tema ainda deixa muito a desejar para mim. É objeto às vezes de colunistas, como Caetano Veloso, que opina sobre tudo, sem se dar conta de que às vezes é preciso uma consistência acadêmica para formular um juízo. Não se pode passar ao largo de toda uma bibliografia dedicada a um assunto e jogar uma opinião, como se fosse algo definitivo. Perde um pouco de credibilidade. Não como músico, claro, pois ele é ótimo. Para responder à sua pergunta: não vejo esse tipo de engajamento entre os jovens.
Tem um vídeo seu no YouTube seu tocando com Dona Ivone Lara. Isso também é currículo, não?
Nossa, eu fiquei tão encantado com essa mulher, que não tenho nem palavras para descrevê-la. É uma pessoa incrível. Foi uma grande honra tê-la acompanhado ao violão
E quanto ao Carlinhos Lyra?
Falei com a agente do Carlinhos, que é a própria mulher dela, e marcamos uma conversa. Foi muito amigável, fumamos um charuto na sacada do apartamento dele, e falamos sobre o show Opinião, ele falou muito do Caetano. Começou a cantarolar, pegou o violão e tocamos e cantamos juntos. “É de manhã, é de madrugada…é de manhã/Não sei mais de nada é de manhã/ Vou ver meu amor…”
Você não tem essa relação de estudioso distanciado, mas também de curtição em relação ao seu “objeto de estudo”. É uma vantagem ou não?
Isso é fundamental. Você deve ter percebido há muitos trabalhos de acadêmicos, escritos por intelectuais que não têm qualquer contato com o mundo do samba. Isso, ao contrário, é primordial no meu trabalho. É a parte antropológica. Fazer a esses sambistas as perguntas que nunca foram feitas. Sobre a presença da África em seu imaginário, por exemplo. Hoje há muitos documentários sobre MPB, mas os papos às vezes não são muito sérios. Falam de banalidades e faz falta uma postura mais crítica, para extrair um conhecimento que está dentro da pessoa. Um brasileiro que nunca subiu um morro ou foi a uma favela é um estrangeiro em sua própria cultura. Roberto Schwartz, para citá-lo mais uma vez, fala sobre isso em Nacional por Subtração (no livro Que Horas São?). Falta essa consciência mais crítica, perguntas para extrair um conhecimento que já está dentro da pessoa. E é triste ver uma pessoa morrer sem poder formular esse conhecimento que está nela, mas não foi despertado por falta de uma pergunta adequada.
Obs: se você quiser dar uma olhada nos links do Stephen com Dona Ivone Lara e Carlinhos Lyra:
(com Dona Ivone Lara)
http://www.youtube.com/watch?v=1F27-LwsL8M
(com Carlinhos Lyra)
Mais um gringo que vem no trazer a luz.
Tratando os sambistas com o mesmo paternalimo que critica.
Certa coisas nao mudam…
Regina: o fato de um americano ou um brasileiro escrever sobre outra cultura não deve ser visto como algo negativo. Você nem leu o livro do cara é já pensa que o escritor é paternalista só por ser americano? É uma crítica sem fundamento de uma pessoa com raiva no coração. Pelo contrário, o texto do Bocskay é uma tentativa de desconstruir o paternalismo das elites brasileiras! Se liga. Você não pode ter um ponto de vista sobre um filme que nunca viu. Boa sorte.
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