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Luiz Zanin

Os Premiados do 38º Festival SESC Melhores Filmes são:

Votação Críticos

Categoria Nacional

Melhor Filme Ficção – O Palhaço (Selton Mello)
Melhor Filme Documentário – As Canções (Eduardo Coutinho)
Melhor Diretor- Selton Mello (O Palhaço)
Melhor Ator – Caio Blat (Bróder)
Melhor Atriz – Karine Teles (Riscado)
Melhor Roteiro – Trabalhar Cansa (Marco Dutra e Juliana Rojas)
Melhor Fotografia – O Palhaço (Adrian Teijido)

Categoria Estrangeira

Melhor Filme –Melancolia (Lars Von Trier)
Melhor Diretor – Terrence Malick (A Árvore da Vida)
Melhor Ator – Christian Bale (O Vencedor)
Melhor Atriz – Kirsten Dunst (Melancolia)

Votação Público

Categoria Nacional

Melhor Filme Ficção – Capitães da Areia (Cecília Amado e Guy Gonçalves)
Melhor Filme Documentário – Bahêa Minha Vida – O Filme (Marcio Cavalcante)
Melhor Diretor – Selton Mello (O Palhaço)
Melhor Ator – Paulo José (O Palhaço)
Melhor Atriz – Deborah Secco (Bruna Surfistinha)
Melhor Roteiro – O Filme dos Espíritos (André Marouço)
Melhor Fotografia – O Palhaço (Adrian Teijido)

Categoria Estrangeira

Melhor Filme – A Pele que Habito (Pedro Almodóvar)
Melhor Diretor – Pedro Almodóvar (A pele que Habito)
Melhor Ator – Antonio Banderas (A pele que Habito)
Melhor Atriz – Natalie Portman (Cisne Negro)

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06.março.2012 08:37:04

Billi Pig

 

Billi Pig é a primeira incursão de José Eduardo Belmonte na comédia e também sua primeira aposta num filme que busca comunicação maior com o público. Não que seja nenhuma obra-prima, mas este diálogo de Belmonte com a chanchada apresenta atrativos que outras comédias brasileiras recentes em geral não têm.

Escapa ao modelo Globo de produção, o que já é um avanço. Não usa a grosseria como chamariz fácil. Nem por isso deixa de ser apimentado, que é sempre um condimento interessante para um filme que se propõe divertir. E, com isso, conserva, como uma espécie de ruído de fundo, a presença do coração selvagem de Belmonte, um diretor de fato subversivo em sua visão de mundo.

Desse modo, apesar do recurso fácil (e um tanto cansativo) do porquinho de plástico falante, Billi Pig apresenta bons momentos, em especial por conta do elenco afiado.

Milton Gonçalves dá um show como um falso padre priápico. Selton Mello está igualmente envolvente como o corretor de seguros picareta que tenta passar a perna em um bicheiro. Grazi Massafera, em sua estreia no cinema, não compromete como a perua gostosona com aspirações a atriz (talvez a natureza do papel a favoreça…). Otávio Müller é marcante como o poderoso chefão contraventor, que espera por um milagre para salvar a filha, assim como Murilo Grossi, que faz o seu truculento braço direito. Preta Gil está hilária como dona de uma funerária.

Enfim, o elenco é uma coisa boa de se ver e ouvir, e quem escolhe time dessa qualidade, mesclando veteranos a novatos, já sabe que o jogo vai fluir. Desde que haja uma direção cheia de empatia pelos personagens e pelas pessoas, o que parece ser uma marca registrada de Belmonte, cineasta conhecido como agregador.

Billi Pig é despretensioso, uma comédia sem qualquer veleidade intelectual aparente. Não tem a ambição de outros trabalhos do diretor como Subterrâneos, A Concepção, Se Nada mais Der Certo ou Meu Mundo em Perigo. Aposta no tom da chanchada, com pegada suburbana bastante interessante e uma piscadela à crítica social, cara ao diretor: que mundo é esse, afinal, em que trapaceiros tentam passar a rasteira em colegas?

Na percepção do desacerto geral do mundo entrevemos a assinatura de Belmonte, nessa obra muito mais comportada do ponto de vista estético do que as suas outras. O tom anárquico, se o termo cabe, fica no enredo, com seu apelo humorístico ao fantástico (o brinquedo que se torna um Grilo Falante da personagem de Grazi, Marivalda) e no tom de interpretação dos personagens, no seu timing. E, em especial, nessa familiaridade com os elementos populares brasileiros, em geral muito estranhos aos nossos cineastas classe média – a vida do morro e da periferia, um certo pragmatismo bem próprio de quem nada recebe de graça da vida, a esperança de levar vantagem em tudo, que se liga, por paradoxo, a certa solidariedade etc. É bom ver um filme que tenha não a Zona Sul como personagem, mas Marechal Hermes.

Enfim, em Billi Pig temos o Brasil real a impregnar o filme, e não de maneira artificial, apenas para constar. Com todos os seus defeitos (que existem), ele se salva por esse grau de autenticidade. Rimos pouco nessa comédia. Sorrimos muito. E, quando isso acontece, é de nós e para nós que estamos rindo e sorrindo. Como o fazemos quando nos reconhecemos em algo.

(Caderno 2)

 

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Se alguém for buscar referências cinematográficas para O Palhaço precisará de uma lista do tamanho de um dicionário para listá-las. De Federico Fellini ao cinema marginal, as “amizades” fílmicas de Selton Mello estão todas lá, funcionando como guias, porém não como grilhões. Essas referência s – e isso é o fundamental – aparecem diluídas e integradas a essa obra orgânica. Nota-se um tremendo salto evolutivo do cineasta Selton em relação à sua primeira experiência na direção, Feliz Natal, muito boa, porém talvez atravancada pelos acenos ao cinema dito “de arte”.

Em O Palhaço não há nada disso. Com seu ótimo background de cultura cinematográfica, quando visto, o filme  parece feito do nada. Inspira-se na longa tradição mambembe do circo pobre brasileiro, e também universal, com suas figuras emblemáticas. O dono, que é também o palhaço veterano (Paulo José), com seu filho (Selton) em crise de identidade, passando pela equilibrista gostosa, a mulher gorda, a lona rasgada, os veículos caindo aos pedaços. É um protótipo, não um clichê.

O mundo do circo serve também para Selton discutir (possivelmente consigo mesmo) a questão da vocação artística. O estrelato concede muito e também cobra muito. É possível que um astro da TV (este outro circo), mesmo consagrado,  fique em dúvida tanto quanto um palhaço iniciante. No fundo, domina a questão: o que se deve fazer nesta vida para sermos felizes? Para que estamos preparados? Devemos seguir nossa vocação, mas o que é uma vocação senão um chamado maior do que nós? E como descobri-la?

Essas perguntas passam nos bastidores (e às vezes em primeiro plano) deste filme de trama simples, visual rebuscado e interpretações inspiradas. A começar pelas de Paulo José e de Selton, mas a se registrar um solo de Moacir Franco, extraordinário como delegado de polícia, e a participação afetiva de Ferrugem.

Há certa melancolia de fundo em O Palhaço, mesclada ao humor, mas qualquer reflexão sobre a vida é assim mesmo. Bonita porém triste. Agricoce.

(Caderno 2)

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24.outubro.2011 09:50:18

Feliz Natal

Quando Selton Mello está prestes a lançar O Palhaço (ainda inédito, porém na programação da Mostra), seu segundo trabalho como diretor, Feliz Natal, primeira incursão do ator por trás das câmeras, acaba de sair em DVD.
Feliz Natal não obteve grande resposta de público e foi recebido com reservas por parte da crítica. O título é uma óbvia ironia, o que já complica as coisas num país como o Brasil, com dificuldades para entender essa figura de linguagem. E, de fato, se tomarmos tudo literalmente, teremos problemas em penetrar na história um tanto alegórica dessa família disfuncional, que tem Mércia (Darlene Glória) como sua infeliz matriarca. Seu filho Theo (Paulo Guarnieri) e a nora Fabiana (Graziella Moretto) são dois hipócritas que tentam salvar as aparências. As coisas só se complicam com a chegada da ovelha negra da casa, Caio, vivido por Leonardo Medeiros.

Se Tolstoi tem razão (em Anna Karenina) ao afirmar que todas as famílias felizes são iguais, enquanto as infelizes o são cada qual à sua maneira, a de Mércia será original ao chafurdar pesadamente na sua própria miséria. É bem possível que a própria natureza da atriz Darlene Glória tenha inclinado o filme nessa direção rumo ao subsolo. Quem não se lembra da intensidade por ela imprimida ao papel da prostituta Geni em Toda Nudez Será Castigada, leitura de Arnaldo Jabor do texto de Nelson Rodrigues? Pois bem, com Mércia, Darlene trabalha como se fosse uma Geni rediviva, agora na pele de uma mãe de família neuroticamente carente.

Claro que esse paroxismo também reflete o gosto do diretor pelo cinema chamado marginal, “movimento” que gerou obras-primas como Bandido da Luz Vermelha, de Rogério Sganzerla, e Bang Bang, de Andrea Tonacci, mas cuja linguagem parece bastante restrita a uma época e sua mentalidade. Há também, em Feliz Natal, o diálogo com referências do cinema de arte contemporâneo, em especial com a argentina Lucrecia Martel, de O Pântano.

Essas citações mentais não estragam o filme, mas a verdade é que, muito explícitas, atravancam aqui e ali seu desenvolvimento. Quem for ver O Palhaço sentirá a diferença. No novo filme, as influências não mais angustiam o diretor. Estão presentes, porém diluídas na corrente sanguínea. Quer dizer: fluem.

(Caderno 2)

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liqui

Reflexões de um Liquidificador – já viu nome mais engraçado para um filme? Pois o título não é a única coisa diferente neste novo longa-metragem do diretor André Klotzel. Além de ser uma comédia de humor negro, gênero relativamente raro no cinema brasileiro recente, ele terá lançamento comercial diferenciado. Ao invés de entrar em cartaz como todos os outros, comportadinho, numa sexta-feira, chega às telas hoje, em plena segundona brava. “Chega às telas” talvez seja exagero – chega, na verdade, a uma única tela porém nobre, a da sala 3 do Espaço Unibanco, lá na rua Augusta, um dos templos rituais da cinefilia paulistana.

As novidades não param por aí. Antes do longa-metragem, será sempre exibido um curta-metragem. Serão oito no total, um para cada semana que Reflexões de um Liquidificador deverá ficar no cinema da  Augusta. O primeiro deles será o divertido Divino de Repente, de Fábio Yamagi, sobre o repentista Ubiraci Crispim de Freitas, o Divino, que conta a sua vida entre um verso e outro – ditos com graça e velocidade de metralhadora. A filmagem se vale também de técnicas de animação para contar a história do personagem. Nas semanas seguintes, outros curtas interessantes serão exibidos no Espaço: Dossiê Rebordosa, Black-Out, Ernesto no País do Futebol, Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba e Avós. Além disso, nas sessões das 20h e 22h haverá shows de stand-up comedy, com quatro atores se revezando: Marcelo Mansfield, Carol Zoccoli, Murilo Gum e Criss Paiva. No final da sessão das 22h, o diretor do curta discutirá seu filme com o público. Nas quartas, no mesmo horário, alguém do longa (o diretor, ou uma pessoa do elenco ou roteirista) virá para conversar com o público. É muita coisa para um filme só, ou não é?

“Mas alguma coisa tinha mesmo de ser feita ou tentada”, diz Klotzel, cansado de ver os filmes brasileiros entrarem e saírem de cartaz a toque de caixa, sem deixar qualquer resíduo no público. “Eu apresentei a proposta para o Adhemar Oliveira, do Espaço Unibanco, ele topou e ainda entrou com a ideia da apresentação dos comediantes”, diz. A ideia de base é fazer do programa de ir ao cinema algo diferente, um evento, um acontecimento em si, algo único, que não pode ser feito em casa diante da TV. Criar atrativos adicionais, pois “Os filmes não têm tempo de fazer sua carreira junto ao seu público potencial”, diz Klotzel, lembrando-se de títulos recentes que poderiam ter ido muito mais longe do que de fato foram, como Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi, É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, e Olhos Azuis, de José Joffily.

Para encontrar esse nicho de mercado, o cineasta conta não apenas com essa inusitada estratégia de lançamento, mas também com um gênero que, acredita, tem seu público – uma comédia de humor negro que conta com trama sutil e bons atores para interpretá-la.

Essa fábula paulistana tem como narrador um eletrodoméstico do tempo do onça, um liquidificador avariado que, depois de passar por um conserto, adquire consciência e passa a conversar com sua dona, Elvira. A voz do aparelho é de Selton Mello. Elvira (Ana Lúcia Torre) é uma dona de casa que vive com o marido já entrado em anos e de aparência pacata, Onofre. Ele é interpretado por Germano Haiut, conhecido do público pelo papel de avô do menino em O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer. Aramis Trindade (de Baile Perfumado) faz um sinuoso investigador de polícia, Fabíula Nascimento é a vizinha de Elvira, e o há pouco falecido Marcos Cesana faz papel de carteiro. Gorete Milagres entra numa participação especial. Tudo gira em torno do desaparecimento de uma pessoa, um possível crime e uma investigação. Mais não deve ser dito sob pena de estragar o prazer de quem irá assistir ao filme. Prazer que depende da possibilidade de descobri-lo passo a passo.

Uma curiosidade adicional é que Reflexões de um Liquidificador surge de um acidente de percurso na carreira de Klotzel. Ele estava preparando novo longa-metragem, inclusive com parte do dinheiro de produção já captado, quando entra em cartaz um título destinado a ser o grande sucesso do cinema brasileiro contemporâneo – Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho. “Quando vi o filme do Daniel não acreditei e disse para mim mesmo: ‘estou ferrado’”. Por quê? Por um simples motivo. O roteiro que ele iria começar a filmar, com o título de De Corpo e Alma, era simplesmente a história de duas mulheres quer trocam de corpo, uma pela outra. Muito parecido com a trama do casal interpretado por Tony Ramos e Gloria Pires. Parecido demais. “Não dava”, admite Klotzel, “tive de abandonar o projeto e devolver o dinheiro.”

Surgiu então a ideia de adaptar o texto de José Antonio de Souza e Liquidificador tomou vida. Na voz e na malícia de Selton Mello.

Crítica

Klotzel diz que não sabe se sua comédia faz parte de um subgênero, uma espécie de comédia à paulistana, como as de Anna Muylaert (Durval Discos e É Proibido Fumar) ou de José Antonio Garcia, que também dialogou com o humor negro em O Corpo (1991). “Deixo isso para quem está de fora e assiste ao filme, mas é claro que esses diálogos existem e estão no meu horizonte”, diz.  Faz bem. Umberto Eco (no posfácio de O Nome da Rosa) dizia que o autor deveria morrer (simbolicamente, claro) depois de terminada a obra. Ou seja, deveria deixar que os outros falassem sobre ela. Mesmo porque, em certo sentido, o autor é o menos capacitado para interpretar a sua própria obra. De vê-la “objetivamente”, como diz Klotzel.

Visto de fora, Reflexões de um Liquidificador parece fazer parte, de modo coerente, de uma proposta e de um estilo. Klotzel, como boa parte da geração que começou a fazer filmes no final dos anos 1980, pegou a ressaca da era pós-Embrafilme, por fim desmontada no início do governo Collor, mas já agonizante no final da década. Era uma geração ainda ligada no Brasil, mas já sem a adrenalina revolucionária do Cinema Novo. E sem o desejo do cinema-espetáculo das superproduções da Embrafilme. Nessa linha, Klotzel sempre se mostrou adepto de um cinema intimista sem ser entrovertido, engraçado sem ser explícito, à procura de um sorriso de inteligência no espectador. Fez isso relendo Antonio Candido em Marvada Carne ou adaptando Machado de Assis em Memórias Póstumas.

Esse sorriso não tão rasgado, ele procura de novo em Reflexões de um Liquidificador. Busca pelo inusitado da história, pelas interpretações serenas do elenco, por uma fotografia e música que nunca se sobrepõem à essência da trama. Pelo contrário, a servem. Num tipo de enredo que está sempre a um fio de cabelo do ridículo, essa contenção é disciplina fundamental.

O nó das bilheterias dos filmes brasileiros

O fato de ter batido de frente com um blockbuster brasileiro, Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho, pode ter inspirado Klotzel a refletir sobre as questões de mercado e propor algo original para o lançamento do seu filme seguinte.

De fato, o circuito cinematográfico brasileiro chega às vezes a ser quase que 100% ocupado pelos filmes dos grandes estúdios norte-americanos. Shrek entra em 600 salas; o filme pipoca-cabeça A Origem em outras tantas. Sobra pouco para o resto. Menos ainda para o cinema independente e o cinema brasileiro em particular.

Além disso, Klotzel (e com ele muita gente) já percebeu que a fatia média de mercado que vem sendo ocupado pelos filmes brasileiros, cerca de 10% dos bilhetes vendidos no ano, é preenchida por uns poucos sucessos nacionais. Chico Xavier faz 3,5 milhões de espectadores, mas um êxito de crítica como Viajo Porque Preciso, Volto porque Te Amo mal chega aos 25 mil pagantes. Tudo bem, este é um filme original demais, muito fora do padrão e destinado a públicos pequenos. Mas obras com potencial de diálogo bem maior também não vão até onde poderiam. É o caso de Olhos Azuis, de José Joffily, que nada tem de difícil e fez apenas 14 mil espectadores até agora.

Claro, os filmes médios brasileiros não podem ser comparados a blockbusters. Têm de ser medidos em comparação a outros filmes médios, cujo melhor exemplo talvez venha da produção de outro país. O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, vencedor do Oscar, já foi visto por 310 mil brasileiros. Nada mau. É um patamar ao qual podem aspirar produções de bom nível artístico mas de diálogo fácil com o público. Isso não tem acontecido e filmes “populares e inteligentes” como É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, com cerca de 50 espectadores, ficam muito aquém do que poderiam. Parece que é preciso fazer alguma coisa a mais para tirar as pessoas de casa e levá-las ao cinema. É o que André Klotzel está propondo. Se vai conseguir ou não é outra história. Mas ninguém poderá dizer que não foi inventivo ou não tentou.

CV de André Klotzel

André Klotzel nasceu em São Paulo, em 1954. Reflexões de um Liquidificador é seu quarto longa-metragem. André estreou em 1986 com Marvada Carne, um sucesso de público e crítica com Fernandinha Torres no papel principal. Levou quase dez anos para lançar o segundo, Capitalismo Selvagem (1994), feito em plena crise da era Collor. O terceiro foi a correta adaptação de Memórias Póstumas de Brás Cubas, em 2001, uma das obras-primas de Machado de Assis. Dirigiu também curtas de sucesso como Gaviões, sobre a torcida organizada do Corinthians, e Brevíssima História das Gentes de Santos.

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As filmagens de O Palhaço acontecem a uns 40 quilômetros de Campinas. Vai-se por rodovia, mas é preciso enfrentar pelo menos uns 10 quilômetros de estrada de terra, bem prejudicada pela chuva. Sacolejando, se chega o sítio conhecido como Recanto do Caubói. Lugar bonito, cheio de animais, mas com algumas edificações decadentes, quase em ruínas. Um lugar ideal para filmar a chegada do Circo Esperança. É lá que será filmado o diálogo essencial entre Valdemar (Paulo José) e o dono da fazenda, interpretado por Jackson Antunes, em participação especial.

Encontro Paulo José já caracterizado como um patriarca cigano. Chapéu, calças de terno, colete, cheio de anéis e cordões de ouro. O calor é infernal. Paulo não se queixa. Anda com um ventiladorzinho que também borrifa gotículas de água. Pede que eu tire os óculos e feche os olhos, e aciona o ventilador para refrescar o repórter. “Alivia”, diz. O diretor Selton Mello dá as boas-vindas ao set e combina de conversarmos mais tarde, durante o almoço. A parafernália montada é a de hábito na produção de um filme – dezenas de pessoas entre técnicos, atores, extras, fotógrafos e auxiliares. Um batalhão que parece caótico à primeira vista, mas costuma funcionar como orquestra nos momentos decisivos. Todo mundo se abriga do sol, mas ninguém se queixa quando chega a hora de rodar a cena. Nesse momento é imposto um silêncio total.

A cena a ser rodada é fundamental para o desenvolvimento da trama. O circo chega à fazenda e Valdemar (personagem de Paulo José) é recebido pelo dono, Jackson Antunes, que assiste à chegada da caravana de sua varanda, pinicando uma viola. Depois, os dois conversam em uma mesa colocada no lado de fora da casa. O dono oferece uma cachaça a Valdemar, que recusa. Jackson começa a contar a sua história. Diz que foi se meter no negócio do algodão, e perdeu tudo. Ri. E emenda com a frase que dá sentido ao filme: “O gato bebe o leite, o rato rói o queijo, e eu… toco o meu negócio.” Quer dizer, cada qual faz o que sabe, aquilo para o que é talhado e está destinado a fazer. A cena é ensaiada diversas vezes, antes de ser rodada (afinal, na máquina, está uma preciosa película de 35 mm, um luxo em tempos de tecnologia digital). Selton exige o tom justo: “Quanto mais seco, sem enfeite, maior é o efeito das palavras”. Uma duas, dez vezes, até rodar.

É assim o cinema, feito de repetições. E de esperas para entrar em cena. Num intervalo, pergunto a Paulo José se cansa. “Nada, eu nem sinto”. Lembro de uma frase e digo a ele: “O cinema é a arte de esperar”. Ele ri e identifica a citação. “A frase é do Marcello Mastroianni, que era um tremendo gozador. Eu não tenho problema em esperar, levo um livro e pronto”. Além da espera, há a picotagem das cenas e das sequências. A cena em cima foi descrita em ordem direta; quer dizer, é dessa maneira que o espectador irá vê-la na tela. Mas, de fato, foi construída de outro jeito. Primeiro, Antunes chega à mesa, onde já o espera Valdemar. Depois é filmada a saída da mesa, quando o encontro acabou. Essas duas cenas são feita de manhã e não contêm diálogos. Apenas à tarde, após o almoço, é que será feita a cena, com o diálogo. Montadas, as três cenas farão a sequência completa. Talvez dure uns dois ou três minutos na tela. Consumiu um dia inteiro de trabalho.

E por que a cena e a tal frase é tão importante? “Porque o projeto do filme parte de uma dúvida sobre a minha carreira de ator”, conta Selton. “Eu estava em Londres, filmando Jean Charles, quando me pintou essa sensação: eu não estava onde queria, fazendo o que queria; usei isso a favor do personagem, mas a dúvida ficou.” Seria uma crise vocacional?

De certa forma sim. E a forma de ficção que encontrou (escreveu o roteiro, junto com Marcello Vindicatto, a mesma parceria de Feliz Natal, primeiro longa de Selton) levou-o ao mundo do circo. Lá, o seu personagem, Benjamim, é o enfrenta a crise de identidade e vocacional. E se mede com o pai, uma personalidade forte, autoritária. “O filme é também esse momento de passagem de uma geração para outra, sempre problemática”. Em meio a esse ambiente tumultuado, a frase do fazendeiro reverbera ao longo da história. Como o gato bebe o leite e o rato come o queijo, cada um de nós deve se dedicar àquilo que sabe fazer melhor e lhe dá prazer.

Em relação ao seu primeiro longa-metragem, o belo e soturno Feliz Natal, Selton diz que pretende fazer de O Palhaço um filme “mais aberto ao público, mais solar e para cima”. Não se arrepende do tom do primeiro longa, “fiz o filme que queria na ocasião”, mas agora o momento é outro. “Sem nenhuma presunção, sou uma pessoa conhecida, pela imagem da televisão e do cinema: encontro as pessoas na rua e elas dizem que querem ver o meu trabalho; espero que este filme chegue a elas”.

As filmagens prosseguem até dia 13 de abril e, além de Campinas e Paulínia, serão realizadas em Ibitipoca, Minas Gerais, que será visitada pelo Circo Esperança. Que não tem esse nome à toa.

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Paulo José caracterizado como Valdemar, em O Palhaço

Paulo José caracterizado como Valdemar, em O Palhaço

Ele foi um padre que pecou por amor, quis ter todas as mulheres mas ficou com uma só, deu vida a um herói sem nenhum caráter, e terminou como nacionalista radical; morreu bêbado no mar da Bahia e terminou reencarnado em artista de circo que discute a profissão com o filho em crise. Paulo José Gomez de Souza, ou simplesmente Paulo José, gaúcho de Lavras, um dos atores mais completos e complexos da cena brasileira, deu vida a todos esses personagens e a muitos outros mais.

Paulo trabalhou em teatro e televisão, mas é no cinema que se sente melhor, “em casa”, como diz. E, sentindo-se bem, foi protagonista de filmes como O Padre e a Moça (Joaquim Pedro de Andrade, 1965), Todas as Mulheres do Mundo (Domingos Oliveira, 1966), Macunaíma (Joaquim Pedro, 1969) e Policarpo Quaresma (Paulo Thiago, 1998), entre muitos outros. Agora “vive”, por assim dizer, o ébrio defunto Quincas Berro d’Água, no novo longa de Sérgio Machado, e está filmando O Palhaço sob a direção de Selton Melo, com quem contracena. Paulo José é uma usina de força e criatividade. E de humor. Tira de letra o Mal de Parkinson, com o qual convive desde o início dos anos 1990. “Ele brinca com o assunto – diz que sofre de Parkinson de diversões”, conta Selton Mello.

O encontro com Paulo José se dá em Campinas, onde ele se hospeda durante as filmagens de O Palhaço. O filme se distribui entre algumas locações da região. Uma delas, uma fazenda abandonada, uns 40 quilômetros fora da cidade. Outra, nos estúdios da vizinha Paulínia, onde um circo cenográfico foi montado. Mas hoje ele está de folga. E convida o jornalista para jantar num restaurante de hotel.

Conversar com Paulo é sempre algo muito agradável. Pela inteligência, pela generosidade com que se entrega às perguntas, pela maneira franca e direta como aborda qualquer assunto. Pela originalidade das respostas.

Por exemplo, quando se pergunta a ele como foi interpretar um morto em Quincas Berro d’Água, relato que Sérgio Machado adaptou do conto de Jorge Amado, ele sai-se com esta: “Ora, um morto tem expressão, por isso não poderia ser substituído por um boneco, como quiseram fazer, para meu conforto”. O caso do boneco é engraçado. A história de Quincas, se você não sabe, é a de um famoso beberrão da Bahia, que morre e é velado por seus companheiros de farra. Lá pelas tantas, já tocados pelo álcool, os amigos resolvem levar Quincas a passeio pela noite de Salvador, convencidos de que ele de fato não morreu. Está inerte apenas porque teria bebido além da conta. E lá vão eles, pelos bares e bordéis da Bahia, com o cadáver nas costas. A produção achou que um boneco substituiria o ator em boa parte das cenas. Mas Paulo não gostou. “Tudo ficou muito mecânico, artificial, e assim só usamos o boneco numa cena em que o personagem despenca do segundo andar de uma delegacia de polícia”, conta, morrendo de rir.

O diretor Sérgio Machado admite que o ator tinha toda a razão. “Ele interpreta um morto, mas há nuances, sutilezas impressionantes nessa atuação.” Paulo está certo porque toda a graça do relato de Jorge Amado reside mesmo na ambiguidade. Quincas está morto ou não? Os amigos estão bêbados ou o defunto vive? Uma atuação mecânica tiraria todo o encanto da história. Para preservar essa magia, apenas o engenho e arte de um grande ator. O resultado, o público poderá conferir em abril ou maio, quando o filme entra em cartaz, talvez passando antes pelo Festival de Cannes.

Outro exercício de sutileza está sendo feito por Paulo na filmagem de O Palhaço. Ele e Selton Melo são pai e filho, ambos palhaços do Esperança, um desses circos miseráveis que vivem mambembeando pelo interior do país. Circo precário, daqueles que nem animais têm, “só os cachorros”, uma caravana precária, que estaciona nas praças das cidadezinhas ou em fazendas que dão acolhida aos artistas. Paulo José e Selton Mello são Valdemar e Benjamim, a dupla de palhaços Puro Sangue e Pangaré, que mantêm um relacionamento complicado. “O Paulo é muito doce, uma figura tão amigável que tive de insistir com ele para notar a dureza da relação entre o Valdemar, que é autoritário, e o Benjamim, um artista jovem e em crise; mas assim que ele compreendeu o papel, conseguiu uma interpretação impressionante”, diz o diretor.

Impressionante é o termo empregado sempre que alguém fala das atuações de Paulo José no cinema. A começar pela primeira, consagrada pela crítica, em O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, filmado em Minas Gerais a partir de um poema de Carlos Drummond de Andrade. “O que você lembra dessa filmagem, Paulo?” “Lembro de tudo, ora”, como a dizer que não tem qualquer problema de memória. Mas o sentido é outro e o que Paulo afirma é que a filmagem havia sido tão intensa e marcante que seria impossível esquecê-la. Havia Helena Ignês, jovem, loira e bela, a musa do Cinema Novo, no papel da moça. Havia Minas e sua magia dura e seca. E havia o rigor de Joaquim Pedro, cineasta que se inspirava muito no mais rigoroso dos diretores, o francês Robert Bresson (1907-1999). “O Padre e a Moça é um diálogo com Diário de um Padre (1950), que o Bresson adaptou da obra de Bernanos”, diz. Recorda também que o rigor da filmagem dependia da precisão matemática da fotografia, a cargo de Mario Carneiro (1917-2008), “um artista da luz, alguém que havia sido formado pelas artes plásticas”. O que é exato. Mário, que teve a pintura como primeira ocupação, foi o nosso fotógrafo com maior consciência do seu métier. “Com tudo isso junto, O Padre e a Moça é um filme que não envelheceu”. Modesto, Paulo José se esquece de apenas uma coisa – sem ele, o longa-metragem de estreia de Joaquim Pedro não seria o mesmo. Não seria nem mesmo possível.

Pergunto se ele, que vinha do teatro, tivera alguma dificuldade de adaptação modo de trabalho do cinema, muito diferente, em tese. “Nenhum”, responde. “Vinha já com a experiência do Teatro de Arena, no qual usávamos muito o método de Stanislavski, de interiorização do personagem; por isso, quando fui trabalhar com o Joaquim Pedro, estava preparado para o tipo de cinema que ele queria fazer”.

Outra experiência fundamental no início da carreira cinematográfica foi o trabalho com Domingos Oliveira, com quem fez Todas as Mulheres do Mundo, contracenando com a musa Leila Diniz. “Era o contrário do Joaquim, com seu rigor; com o Domingos, tudo era mais solto, um cinema do improviso”. Jazzístico, como o de John Cassavettes?, pergunto. “Isso mesmo, e havia também Leila, que era um ser solar.” Na época, Leila e Domingos já estavam separados. “O filme era uma tentativa de reconciliação do Domingos com a Leila, que acabou não dando certo, porque ela já estava em outra”. Paulo lembra que alguma cenas eram tão abertamente autobiográficas que o cineasta, depois de dirigi-las, chorava. Com Domingos, ele fez também Edu, Coração de Ouro, no ano seguinte.

Dois anos depois, Paulo José voltou a trabalhar com Joaquim Pedro, em outro filme, este bem diferente de O Padre e a Moça – Macunaíma, um ensaio tropicalista e antropofágico cozinhado em plena ditadura militar. Aliás, num ponto bem preciso da ditadura, a época do AI-5, quando todas as liberdades e garantias individuais haviam sido suspensas pelo ato do regime. Como todo mundo, na época, Paulo participou da resistência ao autoritarismo. Uma resistência cultural, da qual Macunaíma fazia parte. Era uma imersão na cultura nacional, no Brasil profundo, através dos seus mitos de formação. Mas incorporava dados da atualidade, como a guerrilha urbana. Paulo é o Macunaíma branco que namora a guerrilheira – Dina Sfat (1938-1989), sua mulher na época, com quem teve as filhas Bel, Ana e Clara. Atualmente, Paul está casado com a figurinista Kika Lopes.

Macunaíma foi grande sucesso de público. Um daqueles raros filmes que conseguem agradar tanto à crítica exigente quanto à plateia mais popular. Qual o segredo, Paulo? “Grande Otelo”, responde sem pensar um segundo. Os olhos brilham ao falar do amigo, que ficou conhecido com as chanchadas da Atlântida e sua parceria com Oscarito, e depois atuou no Cinema Novo. “O Otelo era fantástico; foi uma audácia chamá-lo para fazer um filme do Cinema Novo. Ele vinha do cinema popular mas vamos lembrar que já estava com Nelson Pereira dos Santos em Rio Zona Norte, de 1957.” Grande Otelo (1915-1993) dava o tom do filme de Joaquim Pedro; e esse tom o levava para o lado da chanchada. Paulo José entende que Macunaíma é um filme com várias camadas de compreensão. “Pode ser visto como reflexão profundo sobre o Brasil, e assistido como uma comédia popular num cinema do centro da cidade – quando estes ainda existiam.” Esse é um segredo que só os grandes mestres detêm – agradar tanto ao erudito mais enjoado quanto ao porteiro do prédio. E, nesse sentido, nenhum deles foi maior do que Federico Fellini.

Falar em Fellini traz a conversa de volta ao tema do circo. Afinal, é dele o fantástico e comovente documentário sobre os palhaços, I Clown, que Selton e equipe viram e reviram para se preparar para a filmagem. Leram livros também e viram outros filmes relacionados com o assunto. Mas não se trata apenas disso. Sem se comparar a Fellini, que dizia ter sido sequestrado em criança por um circo que passava por Rimini (uma fantasia ou, digamos, uma mentira criativa), Paulo José se recorda do fascínio pelo picadeiro daqueles pequenos circos que visitavam sua Lavras natal, na campanha gaúcha. “Circos pobrezinhos, exatamente como o nosso Circo Esperança”, diz. O fascínio da criança era total e, em particular, pela figura do palhaço. Hoje ele pode compreendê-lo. “O palhaço é uma máscara, diferente da máscara habitual das pessoas, que lhe permite dizer e fazer certas coisas que são proibidas aos outros; é como o bobo da corte, que pode falar verdades aos poderosos. Esse é o fascínio do palhaço”.

Magia do picadeiro, magia do palco – ambas tão próximas. Essa atração nasceu na infância. Paulo conta que estudou em Bagé no Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dos padres salesianos. “O fundador da ordem, são João Bosco, de Torino, usava o teatro como instrumento de edificação para a juventude; eu entrei no colégio, no exame de admissão ao ginásio, e comecei a fazer teatro lá. E nunca mais parei. Minha família apoiava: minha mãe era declamadora e pianista. Ligada às artes.”

Esse foi o ponto de partida de uma grande carreira, com passagem pelo Teatro Universitário (1955) e Teatro de Equipe (1958), ambos em Porto Alegre. Depois, Paulo buscou o eixo Rio-São Paulo, onde realizou os trabalhos que o fizeram conhecido nacionalmente.

Volta e meia, Paulo retorna a sua terra natal. “Temos, eu e meu irmão, a fazenda da família, em Lavras, e gosto de passar uns dias por lá; é revigorante”, diz. Além disso, ele gosta de trabalhar no Rio Grande do Sul, em especial com seu amigo, o diretor Jorge Furtado, para o qual fez a narração do mitológico curta-metragem Ilha das Flores (1989), além de ter trabalhado como ator nos longas O Homem que Copiava (2003) e Saneamento Básico (2007). Quanto lhe pergunto sobre Paulo José, Furtado não economiza palavras: “Para mim, é o maior ator do Brasil. Quero ainda fazer muitos filmes com ele”.

Enfim, Paulo José está há mais de 40 anos na cena artística brasileira e não demonstra qualquer intenção de diminuir o ritmo. Além dos dois filmes ainda inéditos, dirige sua filha Ana Kutner na peça Ana Cristina César – ou um Navio no Espaço, sobre a poeta carioca que se matou aos 31 anos. Paulo trabalha, trabalha, trabalha. E não se queixa. Ele tem uma tese: a hiperatividade o ajuda a superar as sequelas do Parkinson: “Fiz uma cirurgia no ano passado com implante de um marcapasso, que melhorou bastante a minha condição; mas acho que o trabalho é o fundamental: como ele me dá muito prazer, aumenta a quantidade de dopamina no cérebro, e isso contrabalança os efeitos da doença”. Que venha mais trabalho, portanto.

A conversa com Paulo José termina no dia seguinte, no set de filmagem. Depois de várias repetições de uma mesma cena, sob um calor escaldante, chega hora do almoço. Depois de comer, Paulo José me convida para acompanhá-lo ao trailer, onde tem ar refrigerado. Põe para tocar uma gravação. “É um ensaio preparatório para o papel”, explica. Um monólogo, improvisado por ele, o palhaço-narrador contando o incêndio de um circo, no qual morreram centenas de pessoas (nota: baseia-se num fato verídico, o incêndio do Gran Circus norte-americano em Niterói, que causou centenas de mortes). Num determinado momento, ele interrompe a gravação e passa a dizer o texto. Fala de mortes, de crianças mortas, de sapatos abandonados, de gritos, de desespero. Não há qualquer apelo sentimental. A emoção está lá, contida, genuína; e é contagiante.
Ele se interrompe e diz: “Engraçado, a origem desse filme é uma crise do Selton sobre o seu destino de ator; eu mesmo nunca tive qualquer incerteza sobre a minha vocação. Nunca”. Alguém aí duvida?

(Esse é o texto integral do perfil de Paulo José que escrevi para o jornal. Por motivo de espaço, saiu abreviado no Caderno 2 de 15/3/2010) 

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