Pronto, estamos às vésperas de mais uma Copa do Mundo e eis que sou obrigado a refletir sobre esta pergunta que não cala: afinal, de quem é a seleção brasileira? A frase, você já sabe, foi pronunciada por Dunga em uma das inúmeras coletivas de imprensa malcriadas que ele tem dado.
Um aviso: não estou mais a fim de pegar no pé do Dunga. Ele é o técnico, montou o time como bem entendeu e agora vai para o jogo. Pode-se discordar da escalação, mas só um louco poderia dizer, antes de a bola começar a rolar, que o Brasil não é um dos grandes favoritos ao título. Com um currículo de pentacampeão no bolso, e mais o privilégio único de ter participado de todas as Copas do Mundo, desde a inicial, em 1930 no Uruguai, até esta que se realiza pela primeira vez em continente africano, o Brasil seria favorito de qualquer jeito. É, ainda mais, com o retrospecto recente, de primeiro colocado nas Eliminatórias, de campeão da Copa América e das Confederações.
Então, passemos por isso, porque está fora de discussão – o Brasil está na África do Sul, não para participar, mas para disputar e ganhar o sexto título. Se vai conseguir, é outra história. Mas ninguém pode comandar esse time sem a ambição de levá-lo ao título. E essa fome, acho eu, o Dunga tem. Ele, a comissão técnica, os jogadores e mais os milhões e milhões de brasileiros que irão acompanhar aos jogos em suas casas, nos escritórios, nos telões e nos botequins.
E é exatamente esse respaldo de um país inteiro que impede alguém de chegar e falar em “minha’ seleção”. Dunga tem o comando. Convocou quem quis e escalou do jeito que preferiu. Pode fazer e desfazer. E nem mesmo assim a seleção será “dele”. Pelo simples motivo de que não se é proprietário de um patrimônio imaterial, e, portanto, inalienável. Gostemos, ou não, a seleção é de todos nós, em geral, e de nenhum de nós, em particular. Isso, no sentido mais profundo, vale para o torcedor do bar da esquina, para o sábio do futebol que assina suas colunas pronunciando verdades inamovíveis, vale para o Ricardo Teixeira e vale para o Dunga.
Foi sempre assim e em todos os países que têm no futebol o seu esporte nacional. O que não impediu poderosos de todas as épocas de tentarem se apropriar desse bem comum. Mussolini quis se identificar com a Azzurra de 1938, assim com o general Médici com a seleção brasileira de 1970 e o general Videla com a argentina de 1978. Nem por isso esses times históricos deixaram, de fato, de pertencer a quem de direito – aos povos da Itália, Brasil e Argentina, e não aos ditadores de plantão. Se esses tiranos de ocasião não conseguiram se apropriar do que não lhe pertencia, o que dirá um mero técnico de futebol? A seleção não é do Dunga, e nem mesmo dos jogadores que, ocasionalmente, vestem a sua camisa. Pertence ao patrimônio cultural da Nação. Por isso, por mais que tenhamos birra ou antipatia por este ou aquele personagem da cúpula dirigente, não conseguimos, de fato, torcer contra a seleção. Como em 1970 não conseguiram torcer contra aqueles militantes de esquerda que temiam a utilização política de uma eventual vitória pela ditadura. Porque sabemos, no íntimo, que a seleção nos pertence – e não aos figurões que nela mandam, ocasionalmente. “Eles passarão, eu passarinho” – dizia o grande poeta gaúcho Mário Quintana. Eles, os pássaros grandes, são transitórios, a seleção fica. Com tudo o que ela representa para cada um de nós e para o povo em seu conjunto.
Hoje anda na moda dizer que tudo isso não passa de futebol e que deveria ser encarado com um mero jogo, etc. Discordo. Se o futebol fosse apenas um jogo, não se transformaria nesse evento de dimensão mundial que nos mobiliza a todos. É que, através do jogo, as nações se olham e se medem entre si, numa prática esportiva que não é a guerra, mas é, sem dúvida, uma imitação da guerra, a sua sublimação em esporte e, no melhor dos casos, em beleza e arte. Daí a sua importância, que vai além das figuras pessoais, que podem ser maiores ou menores, mas são sempre transitórias.

Nesse clima de tensão pré-Copa, alguém tem de pagar o pato e a bola Jabulani foi escolhida como a Geni da vez. Em caso de dúvida, jogue pedra nela, para não dizer outra coisa. Júlio César, Luiz Fabiano e até Júlio Baptista andaram falando mal da bola. Desvia, faz curvas inesperadas, é leve, parece comprada em supermercado, e vai por aí. A Jabulani foi responsável até por uma indelicadeza de Felipe Melo que, como todos sabem, é moço fino e sutil. E não é que ele deu de bico na boa educação ao dizer que a bola tradicional, a boa, é que nem mulher de malandro: apanha sem reclamar? Já a Jabulani, segundo Felipe, seria como patricinha. “Não quer ser chutada.” É mole?
No interior se diz que a viola é a desculpa do mau violeiro. Será que não é esse o caso criado em torno da Jabulani, palavra que, em zulu, quer dizer “celebrar”? Pode ser. Quando a gente lembra da infância, ou quando vai ao Museu do Futebol e vê aquelas bolas antigas, de capotão, e as chuteiras, que mais parecem botinas militares, não consegue evitar a impressão de que hoje em dia a frescura entre jogadores é generalizada. Boleiros do passado lembram que usavam camisas de algodão, que pesavam toneladas ao ficar encharcadas de suor. As bolas, em tarde de chuva, viravam balas de canhão, suplício das barreiras e dos goleiros. Pesavam como chumbo, assim como as velhas chancas de couro de boi. “Hoje as chuteiras são levinhas, parecem sapatilhas de dança”, elogiou certa vez o Rei Pelé, que alguma coisa deve entender do assunto.
No fundo, tudo parece falta do que fazer. Nos muitos momentos de tédio da concentração procura-se assunto para matar o tempo e busca-se chifre em cabeça de cavalo. Como já disse o nosso amigo Antero Greco, quando a bola de fato começar a rolar, todo esse papo furado será esquecido e iremos nos concentrar no que de fato importa, que são os jogos. Neles, a bola, propriamente dita, irá se portar direitinho, desde que bem tratada. Mesmo que seja a pobre e malfalada Jabulani.
Mais desculpas
Para alguns santistas não foi a bola e sim o juiz o culpado pela derrota para o Corinthians. Há motivo para reclamação no gol mal anulado de Marquinhos e talvez Edu Dracena tenha sido deslocado no lance do segundo gol. Mas são razões suficientes para explicar o 4 a 2? Não. É preciso lembrar que, no segundo tempo, o Corinthians jogou muito bem. Fechou espaços, marcou as estrelas do adversário e aplicou contragolpes certeiros. Foi eficiente. Reclamar de quê? A vitória do Corinthians foi límpida.
O que não quer dizer que tenha dominado o jogo do começo ao fim. Nada disso. O Corinthians fez um gol logo de cara, mas depois o Santos conseguiu acuá-lo em seu campo até o final do primeiro tempo. Forçou e, sem ser brilhante, construiu jogadas até empatar. Mas, ao fazê-lo, mostrou a sua já notória instabilidade e tomou um gol logo em seguida. Ao longo de praticamente todo o jogo, o Santos, por mérito do Corinthians, mas também por deficiência do seu sistema defensivo, viu-se obrigado a correr atrás do placar adverso. Não há time que aguente isso. Não todo o tempo. Ao tomar esse segundo gol, quando a reação parecia palpável, o Santos sentiu o golpe. Desmoronou, psicologicamente.
A partida foi importante para os dois times. Para o Corinthians, porque serviu para exorcizar de vez a desclassificação da Libertadores e para se reafirmar como time consistente, capaz de ganhar o Campeonato Brasileiro para não passar o centenário em branco. Para o Santos, talvez seja a ocasião para se repensar, pois ainda é tempo. O inegável brilho do setor ofensivo não pode esconder as muitas deficiências, em especial em seu sistema defensivo. Sem algum equilíbrio não se vai muito longe. Um pouco de realismo garante a fantasia.
(Coluna Boleiros, 1/6/10)
Depois de conquistar as Copas América e das Confederações, ganhar da Argentina e ficar em primeiro lugar nas Eliminatórias, faltava à seleção de Dunga um último ingrediente para fazer uma grande campanha na África do Sul: uma certa dose de ceticismo da torcida brasileira. Pronto: agora não falta mais nada. Diz a lenda que toda vez que a seleção sai como favorita, perde o título. Em 2010, ela não corre esse risco.
A onda negativa chegou com o esquecimento dos craques que gozam de bom ibope junto à torcida, como o veterano Ronaldinho Gaúcho e as revelações Neymar e Paulo Henrique Ganso. Dunga ficou na dele e vai à Copa com o time em que confia. Se ganhar, confirma-se como homem de personalidade. Se não, vai carregar o rótulo de teimoso, limitado, sem visão. É um risco.
Objetivamente, os brasileiros sabem que o time pode ganhar. Mas, pelo que tenho ouvido pelas esquinas, ninguém se entusiasma com a equipe, apesar de tão vencedora. Não desperta paixão.
Mas não se pode negar que a seleção é um bom time, pelo menos pelos padrões atuais do futebol – ou vocês não viram de que jeito a Internazionale de Milão ganhou a Champions League? Com metade da defesa da Inter na equipe, o Brasil vai se segurar bem lá atrás. Tem um meio-campo marcador e, se os deuses da bola quiserem, pode contar com a inspiração de um Robinho ou de um Luís Fabiano para marcar os gols necessários. Duvido que nos encantemos com os jogos, mesmo que Kaká se recupere. O hexa até pode vir. Mas, quem quiser futebol bonito mesmo, faz melhor em acompanhar os jogos da Espanha.
Se você viu a final entre Internazionale e Bayern no sábado, pode ter visto o que será a Copa da África. Ou, pelo menos, o que serão as principais seleções, aquelas que disputam o título. Entre elas, a do Brasil. Marcação forte e saída rápida no contra-ataque. A exceção pode ser a Espanha e, talvez, a Argentina. A Inter propôs um modelo a ser seguido. Não porque seja a única maneira de chegar a um título (ano passado, o Barcelona ganhou tudo jogando de maneira oposta), mas porque é a fórmula que prevaleceu.
Dunga deve ter vibrado. E não digo isso com antipatia, mas com compreensão. Uma das maiores paixões do ser humano é a de ter razão. Podemos até torcer contra os nossos próprios interesses se nos for dada a compensação de estarmos certos no final das contas. O prazer sutil de podermos sorrir, discretamente, como quem diz “Eu não falei que ia ser assim?” Dunga tem certeza de que está certo.
Ficamos assim: esse estilo de jogar se impôs naquele que os nossos cronistas chamam de “o maior torneio de clubes do mundo”. Na verdade, já havia se imposto antes mesmo da decisão porque o Bayern não chega a ser o anti-Inter de Milão. Não era aquele jogo dos sonhos (ao menos para mim), em que dois estilos antagônicos se enfrentam e decidem qual é o melhor, naquele confronto. Esse jogo já havia acontecido entre Inter e Barcelona, e o time italiano chegou à final jogando na retranca.
Não vou dizer que seja um estilo feio. É monótono, como era o de Parreira em 1994, Copa que valeu ao Brasil o quarto título mundial. Por acaso revi esse jogo domingo à noite, numa dessas oportunas reprises que a ESPN vem promovendo. São maneiras, vamos dizer assim, enxadrísticas, de conceber o futebol. Jogo posicional. Muita ocupação de espaço, posse de bola, defesas que cometem poucos erros. E, na retomada da bola, contra-ataques rápidos para tentar um golzinho lá na frente. Foi interessante ver como o Brasil, mesmo em 1994, se acomodava mal àquela camisa de força e, amarrado pelo esquema, ainda tentava a vitória mais do que a Itália. Ainda mais na prorrogação, quando entrou Viola e, furando o planejamento, quase consegue marcar em jogada individual.
Desde então se cristalizou uma falsa certeza que já havia sido esboçada com a derrota de 1982 – existe um futebol para ver e outro para vencer. É preciso optar entre um e outro. Quando as coisas são colocadas nesses termos, não existe bom senso que aguente. Ou é uma coisa ou outra, sem qualquer possibilidade de nuance. Não damos valor a uma ótima seleção porque perdeu um jogo ou desprezamos uma outra que, sem ser brilhante, nos deu um título e nos tirou de uma fila de 24 anos. Tudo é futebol e todos têm o seu mérito, embora possamos, e devamos, manter as nossas preferências.
Já se disse que o Mourinho do Real Madrid não poderá ser o Mourinho da Internazionale. Nesta, com um time que não tinha sequer um único jogador do país-sede, ele imprimiu um DNA tipicamente italiano, e portanto aceito e valorizado. Na Espanha dificilmente poderá colocar em prática esse futebol mesquinho. Ainda mais tendo como rival e espelho o jogo vistoso e vencedor do Barcelona. Tudo depende das circunstâncias. E, fundamentalmente, dos jogadores de que dispõe o técnico para armar seu esquema. No fundo, os boleiros são o mais importante, constatação óbvia mas que esquecemos a cada instante.
O que se reprova em Dunga não é a mesma coisa que se reprovava no Parreira de 1994. Talvez não houvesse, naquela época, alternativa para formar uma seleção mais criativa, ofensiva e competitiva. Hoje há. Mas Dunga optou por uma concepção de futebol que sacrifica o craque em favor do esquema. Pratica uma espécie de pobreza voluntária.

Dia 23 de outubro Pelé completa 70 anos. Com a aproximação da data, o mercado editorial faz festa antecipada e já começa a lançar livros sobre o Rei do Futebol. Pelé 70 (Editora Realejo e Brasileira, 160 págs., R$ 149,90) contém um magnífico álbum de fotos, além de textos de escritores boleiros como Xico Sá e José Roberto Torero, entre outros. Amanhã, os dois participam de mesa-redonda para o lançamento do livro na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915), às 19h30. A Cosac Naify não fica atrás e coloca no mercado a autobiografia Pelé – Minha Vida em Imagens (100 págs., 109 ilustrações, R$ 140). Para as crianças (afinal, foi para elas que o Rei dedicou o milésimo gol), o selo infantil Companhia das Letrinhas traz Por Amor ao Futebol! (48 págs, R$ 29), livreto simpático, com ilustrações de Frank Morrison.
Os lançamentos, de certa forma, expressam a dificuldade de abordar uma personalidade como a de Edson Arantes do Nascimento. Pelé, primeira figura midiática da era do futebol, o mais completo praticante desse jogo e detentor de recordes imbatíveis nesse esporte, é figura abrangente demais para se deixar aprisionar em textos, por melhores que sejam. Há sempre algo que sobra – ou falta – a cada vez que se escreve sobre Pelé. Se muito sóbrios, ficamos irremediavelmente aquém do personagem; se tentamos acompanhá-lo em sua grandeza, corremos o risco do derramamento ou da pieguice. O meio-termo ainda não foi encontrado.
Daí que o recurso natural seja a autobiografia – e este é o caminho trilhado por Pelé – Minha Vida por Imagens, que se aproveita do texto publicado no original em inglês pela Simon & Schuster em 2006 e aqui lançado anteriormente pela Editora Sextante. As novidades da Cosac Naify são as imagens, algumas raras, e o formato scrapbook – itens de colecionador que podem ser destacados, como fac-símiles do ingresso da despedida definitiva do Rei num amistoso entre o Cosmos e o Santos, quando jogou um tempo para cada equipe; ou da carteirinha do então garoto na Liga Bauruense de Futebol, de 1956. Relíquias materiais de uma carreira transformada em mito.
E quem não conhece os passos principais dessa trajetória? Em breve resumo, pode-se lembrar que Edson Arantes do Nascimento nasceu em Três Corações, Minas Gerais, em 23 de outubro de 1940. Família pobre, pai jogador, um centroavante de apelido Dondinho, cabeceador emérito que passou a vida enfrentando problemas no joelho. Dondinho foi modelo e primeiro professor de bola do futuro Rei. Cedo, a família se muda para Bauru, no interior de São Paulo, onde Pelé desperta para o futebol. É levado para o Santos Futebol Clube com 15 anos de idade e começa sua ascensão meteórica. Campeão do mundo aos 17 na Suécia, bicampeão em 1962, tri no México. Números espantosos: em 22 anos de carreira, conquista 53 títulos – sendo cinco de campeão do mundo, três pela seleção, dois pelo Santos. Onze vezes campeão paulista, sendo o primeiro título em 1958, o último em 1973. Ao longo desses anos, marcou 1.281 gols em 1.363 jogos.
Há alguma disparidade (não muita) entre os números, e uma das boas novidades de Minha Vida em Imagens é a relação completa dos gols de Pelé, jogo a jogo, discriminando data e adversário de cada um. Pelas últimas pesquisas, os números atualizados ficam assim: 1.283 gols em 1.367 jogos. A última partida de Pelé foi entre Cosmos e Santos. E o gol derradeiro, por ironia, ele marcou contra o Santos, seu time de toda a vida, no qual permaneceu 18 anos antes de embarcar para Nova York e assinar com o Cosmos, isso depois de haver se despedido oficialmente do futebol.
As cifras impressionam. São insuperáveis. Mas, se uma existência comum não cabe em estatísticas, o que dizer de uma vida como a de Pelé? Números não descrevem o essencial – a aura mágica que o cercava ao jogar. Mesmo antes de ser “coroado” pelos jornalistas franceses, Pelé, menino, exalava realeza.
Magnetismo. Nelson Rodrigues, que compreendia o futebol como ninguém, ao vê-lo no Maracanã, sentiu no ar esse magnetismo ímpar. Viu que o garoto já arrastava atrás de si um manto imaginário e estava de posse de um cetro e uma coroa simbólicos. “Perguntem a ele quem é o melhor do mundo, e responderá: “é o Pelé”.” Essa autoconfiança abusiva, adivinhada pelo cronista, é que permitiu ao novato riscos como aplicar um chapéu no zagueiro dentro na área e mandar a bola para as redes antes que tocasse o chão. Era o gol contra o País de Gales, primeiro dos 95 marcados pela seleção.
Daí em diante, as proezas se sucederam e eram repetidas a cada jogo que alguns privilegiados tiveram a sorte de assistir ao vivo. As imagens estão aí para que os incrédulos confiram. Em muitos sentidos, elas são melhores que as palavras para “falar” de alguém que elevou o futebol à condição de arte suprema. Palavras, mesmo, só as de Drummond, que escreveu sobre o milésimo gol: “O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé”.
(Caderno 2/Domingo, 23/5/10)
Uma seleção de perfil conservador. Cara do Dunga, que imprime seu estilo ao time e sepulta qualquer desejo de criatividade que pudesse haver entre a torcida. A favor, tem uma ótima defesa para garantir resultados magros. O ataque, com Luis Fabiano e Robinho, pode até ser bom. Se a bola chegar lá. O problema maior é a criação, dependente de Kaká em má fase. Sintomática também é a lista de espera, recheada de talentos que ele deixou de lado na relação principal. Prova evidente de má consciência. Dunga tem medo de levá-los. Coloca-os na lista para ostentar um verniz de ousadia, coisa que de fato não tem.
Fazia tempo que uma convocação não era precedida de tanta ansiedade. A esta altura do campeonato, imagine quantos brasileiros estarão pronunciando a frase que dá título à coluna, na espera do momento em que Dunga anunciará os convocados que irão tentar o hexa. Milhões, com certeza.
E, no entanto, não deveria haver tanta expectativa. Afinal, a seleção foi sendo construída aos poucos, venceu a Copa América e a das Confederações, classificou-se em primeiro nas Eliminatórias, ganhou da Argentina. Preencheu (quase) todos os requisitos para se tornar unanimidade nacional, se possível fosse o consenso nessa matéria. Não é. E não é por alguns motivos.
Primeiro, apesar de todo o sucesso (segundo o jargão, futebol é resultado), a seleção de Dunga não convence inteiramente ao público. Por mais que ganhe, não encanta e não empolga. Segundo: existem no momento alguns jogadores que têm fascinado o País, caso mais evidente dos meninos do Santos.
Assim, a pergunta que não quer calar, pelas ruas e botecos, tem sido sempre a mesma: por que não enxergar o óbvio e levar Paulo Henrique Ganso e Neymar, que estão comendo a bola no Santos? Ou será que a mentalidade burocrática, o excesso de prudência, a fidelidade ao grupo fechado devem prevalecer? Junto a esse clamor, algumas dúvidas despontam. Ronaldinho Gaúcho terá nova chance? Por que não levar Diego Tardelli, que está jogando o fino no Atlético Mineiro, em lugar do problemático Adriano? E mais esta, levantada por corintianos insuspeitos: será que existe algum lateral-esquerdo jogando melhor do que o Roberto Carlos?
São válidas as dúvidas, mas é compreensível que o clamor público seja por Neymar e Ganso que, afinal, são a novidade atual do futebol brasileiro. Essa demanda da opinião pública deve ser interpretada. Todos sabem que às vezes um garoto é convocado não para ser titular, mas para ficar na reserva, pegar ambiente e se preparar para a Copa seguinte. Assim, se algum novato for chamado, o será na mesma condição de Ronaldo, antes de se tornar Fenômeno, em 1994. Participou da Copa dos EUA, assistindo, treinando, fazendo parte do grupo. Vampeta conta uma história interessante. Diz ele que um dia perguntou a Parreira por que não colocava Ronaldo para jogar, já que o garoto destruía nos treinos. Parreira disse que, caso o fizesse, iria criar grave problema para si mesmo, pois o menino iria jogar bem, não poderia ser sacado do time e isso o obrigaria a alterar o esquema tático. Quer dizer: para certo tipo de mentalidade, craque é problema. Pelo menos na versão do Vampeta, que faz todo sentido.
O clamor público por Neymar e Ganso exprime, na verdade, o desejo que temos de ver a seleção jogando de outro jeito. Todo mundo gosta de vencer e o time de Dunga tem ganhado seus jogos, não se pode negar. Mas, da seleção, queremos mais. Queremos, e na verdade exigimos, que jogue no ataque, pratique aquele tipo de futebol de toques, dribles e jogadas sinuosas que tanto admiramos. É provável que esse gosto não seja compartilhado pelo treinador, que tem seus próprios critérios, digamos assim, “estéticos”, para o futebol. De qualquer forma, se convocar pelo menos mais um jogador de talento, Dunga terá sinalizado que não é por completo hostil ao estilo brasileiro. E que, num acidente de percurso, talvez possa ignorar seus dogmas e colocar um grão de fantasia naquele time todo certinho e, sinto dizê-lo, tão previsível.
Eu sei que a época é outra, que os personagens são incomparáveis e que o nosso tempo não liga muito para lições do passado. Mas não custa lembrar que, em 1958, a seleção foi à Copa com dois jogadores sobre os quais pairavam dúvidas. Eles entraram apenas no terceiro jogo, para nunca mais sair do time – e da História. Seus nomes? Garrincha e Pelé.
Não adianta chiar. Com uma ou outra mudança, a seleção que vai à Copa é essa mesma que derrotou a Irlanda por 2 a 0, dois gols de Robinho (o primeiro seria melhor descrito como gol contra). Eficiente, dura na marcação, boa no contra-ataque. Foi chato jogar contra essa Irlanda de cintura dura e, ainda por cima, treinada por Trapattoni. E a seleção teve dificudades. Ainda acho que falta mais criatividade no meio de campo. Kaká é bom de arranque, tem virtudes, mas não é um “pensador” de meio campo como foi um Gérson no passado mais remoto e Alex, no passado mais próximo. Falta um meia. Por instável que seja, talvez Ronaldinho desse um certo brilho, uma certa imprevisibilidade nesse setor vital. Mas não adianta ficar uivando para a Lua. Dunga montou um time à sua imagem e semelhança. Como naqueles versos de Caetano, “Narciso acha feio o que não é espelho” (Sampa). Tirando Robinho, um “fantasista”, como dizem os italianos, essa será a seleção brasileira mais européia de todos os tempos. Talvez ganhe a Copa, quem sabe?
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