Melhor falar pouco desse início meia boca do Campeonato Brasileiro. Duas rodadas, com os paulistas começando muito mal, e agora uma interrupção para as datas Fifa, um espaço para os jogos da seleção brasileira. Não há por que se queixar. Todos nós sempre reivindicamos que os jogos da seleção não trombassem com outros disputados pelos times, em especial aqueles que têm jogadores convocados. Nada mais justo, portanto, que essa pausa.
Será bem aproveitada? O começo não foi mal. Pelo menos vimos um bom primeiro tempo contra a Dinamarca, com três gols, e depois, o relaxamento “natural” no segundo tempo, quando o jogo ficou muito tedioso e a Dinamarca marcou o seu, ainda que impedido. Agora temos pela frente os Estados Unidos, o México e a Argentina. São bons desafios e poderão dar alguma ideia do que poderá fazer a seleção na Olimpíada.
Talvez possa trazer a medalha de ouro, a nova “obsessão” nacional. E por que coloquei obsessão entre aspas? Porque não acredito nela. Acho que é algo que estão tentando nos vender. Eu, pelo menos, e todas (mas todas mesmo) pessoas que me cercam, não estão nem um pouco obcecadas com a medalha olímpica. Se vier, legal. Se for impossível, não é isso que vai mudar o preço do dólar.
Obsessão mesmo, se o termo cabe, é com a Copa do Mundo. Vai ser muito triste se o Brasil realizar a sua segunda copa e não ganhar de novo, como aconteceu em 1950, na famosa catástrofe do Maracanã diante do Uruguai. E quem pode dizer, hoje, que o Brasil é favorito para 2014? Não é. Em termos técnicos, está atrás de, pelo menos, três seleções – Espanha, Alemanha e Holanda. Talvez atrás, até mesmo, do Uruguai, que fez uma bela figura na última copa, enquanto nós tivemos desempenho pífio. E que dizer da Argentina, sempre difícil? E se Messi resolve jogar a mesma coisa que joga pelo Barcelona, o que será de nós?
Enfim, visto de hoje, o nosso destino na próxima copa é mais do que incerto. Daí a importância da Olimpíada. Não tanto trazer o famoso ouro, mas ver até que ponto os nossos jovens podem ir. Porque, com alguns reforços que receberá dos mais velhos, o time olímpico será mesmo a base para 2014. Ou alguém vislumbra outros nomes que não os de Neymar, Pato, PH Ganso, Leandro Damião, Lucas & Cia?
Outro desafio será devolver à seleção o interesse que o torcedor lhe devotava em outras eras. Essa paixão tornou-se exclusiva dos clubes. O torcedor morre por seu clube de coração. Não vejo o mesmo amor pela seleção. Lembro da época em que a seleção era o máximo para todos nós. Não conseguíamos dormir em véspera de jogos de Copa do Mundo, tamanha a tensão. Era uma loucura, uma grande história de amor entre o torcedor e a seleção que, infelizmente, arrefeceu. Nem poderia ser de outra maneira. Depois de décadas vendo seleções que não tinham sequer um jogador do Brasil convocado, depois de vê-la excursionar por todos os países, menos em sua própria terra, era previsível que a baixasse e se tornasse apenas uma vaga simpatia. Conseguiremos reverter essa relação morna durante a Copa e fazê-la entrar de novo em ponto de ebulição? Talvez, mas não tenho certeza.
O Santos, em situação complicada na tabela, vai ficar sem Neymar para enfrentar Grêmio e Palmeiras. Por quê? Porque o rapaz vai servir à seleção nos amistosos contra Costa Rica e México. Outros jogadores desfalcarão seus times nesta fase de definição do Campeonato Brasileiro
Ninguém, em sã consciência, tira a razão de Mano Menezes quando ele diz que cada um tem seus problemas e ele tem os seus. Precisa preparar uma equipe para 2014 e tem de contar com os jogadores que julga os melhores. Neymar é peça-chave do seu hipotético time, assim como Ganso, quando se recuperar, Lucas e poucos outros que ainda atuam no Brasil. Nada a contestar.
Mas tudo a contestar quanto ao calendário, que não permite a paralisação do Campeonato Brasileiro a cada vez que a seleção desfalca os clubes. O técnico Dorival Jr., do Internacional de Porto Alegre, classificou de “estúpidos” os amistosos da seleção, pensando na sobrecarga ao seu jogador Oscar. Este, como Neymar, também suporta o honroso fardo de haver servido à seleção sub-20. É muita coisa, mesmo para jovens.
Afinal, se a seleção, ou as seleções, são importantes, muito mais o são os clubes. São eles que, contra toda a lógica econômica, têm conseguido manter no Brasil jogadores cobiçados na Europa. São eles que pagam salários exorbitantes, completamente irreais. São eles que montam complicadas engenharias financeiras para satisfazer ao craque, ao pai do craque, ao empresário e aos proprietários das várias fatias em que o boleiro se divide, com os “parceiros” e investidores, sócios nos direitos econômicos do astro. Todos ávidos de lucro imediato e de maneira alguma preocupados com essa abstração a que chamamos “qualidade do futebol brasileiro”.
Ora, a tal da qualidade não é mesmo assunto dessa gente. O negócio deles é grana, ponto final e não se fala mais nisso. Qualidade é assunto nosso, da torcida, dos cronistas, dos apreciadores; enfim, de todos aqueles que visam apenas a um lucro com o futebol – o prazer de vê-lo bem jogado.
Se o mundo fosse justo, deveria ser também uma preocupação da CBF, sigla que designa uma confederação de futebol, e que deveria zelar não apenas pela seleção, mas pelo nível do jogo praticado no País. Isso em todos as instâncias, suponho: da melhoria de qualidade dos gramados e da arbitragem até o estímulo à permanência de jovens talentos no País. Melhorando o jogo melhoraria tudo para todo mundo – até mesmo para aqueles que veem no futebol apenas um ótimo investimento. Talvez demorassem um pouco mais para lucrar, mas, no final das contas, lucrariam mais. Interessaria também à TV que, com melhores espetáculos, teria mais facilidade para vendê-los no próprio país e no exterior.
Ora, não é penalizando os clubes que se estimula a melhoria do futebol no Brasil. Afinal, são os clubes que revelam vocações, são eles que funcionam como vitrine a partir da qual esses talentos são expostos, conhecidos e reconhecidos, inclusive no exterior. São os clubes que mantêm, no dia a dia, viva a paixão brasileira pelo futebol – que, afinal, é o fundamento real de tudo. Fundamento, inclusive, dos lucros extraordinários de que todos, salvo os torcedores, usufruem.
Não há nenhuma possibilidade de se contemplar as exigências da seleção sem prejudicar os clubes senão alterando o calendário do futebol brasileiro. Sei o quanto isso é polêmico. Implicaria, talvez, enxugar os campeonatos estaduais, ou mesmo mudar as datas de início e fim do Campeonato Brasileiro. Talvez mexer com datas da Libertadores e da Sul-Americana, o que exigiria negociações com a Conmebol. Enfim, são problemas a serem debatidos e não ignorados e jogados para debaixo do tapete, como têm sido até agora.
Amigos, tem muita gente querendo saber se a infraestrutura (estádios, aeroportos, comunicação, etc.) ficará pronta para a Copa de 2014. Justo. Eu também me preocupo em saber se a seleção estará pronta. Não dá indícios. A não ser nos primeiros jogos promissores da era Mano, tem se apresentado mal. Não consegue obter bons resultados contra seleções “grandes”, de primeira linha. Perdeu para França e Argentina; empatou com a Holanda. É começo de trabalho? Sim. Mas não parece muito promissor. O jogo com a Holanda é exemplo. Com exceção de uns 20 minutos de bom futebol no início do segundo tempo, o time travou. Tomou vaia em Goiânia.
A alegação de Mano parece consistente: “Prefiro a dura realidade que resultados ilusórios”. Verdade. Melhor pegar logo de vez as carnes de pescoço do que se enganar com vitórias contra adversários inofensivos. Mesmo assim, não se percebe uma linha evolutiva da seleção. E, para permanecermos na tal da realidade, melhor não levar muito em conta o resultado hoje contra a Romênia que, além de não pertencer ao andar de cima do futebol, ainda vem desfalcada. Trata-se de jogo festivo, a despedida de Ronaldo, etc. No entanto, se a seleção não vencer e der show, as vaias do Serra Dourada poderão se repetir no Pacaembu.
O problema não são tanto as vaias, embora elas não possam ser ignoradas. É que elas são sintoma de algo mais grave, o estranhamento do brasileiro com sua seleção, que não se atenuou. É verdade que agora existem no time alguns jogadores que atuam no País, mas esse fato (positivo) não foi ainda capaz de familiarizar o torcedor com a sua seleção. Ele ainda a sente como corpo estranho, uma equipe prestigiada por ele caso forneça bom espetáculo, hostilizada quando o decepciona. O apoio incondicional não é automático. Por isso, diz o treinador, “teremos de educar” a torcida para que, durante a Copa, jogue junto com o time, esteja este bem ou mal, na frente ou atrás no placar.
O que me pergunto é se esse projeto pedagógico proposto pelo técnico vai colar. Há quem diga que o apoio incondicional virá de maneira natural assim que a Copa começar. Mas pode não vir, em função desse longo afastamento entre torcida e seleção, que já vem preocupando até mesmo a insensível CBF. Data de muito tempo, a meu ver, mas ficou mais explícita no fiasco da Copa de 2006. Dunga foi escalado para estreitar esse relacionamento. Deu no que deu.
Agora a situação é diferente. A próxima Copa será aqui e Mano Menezes, desde o começo, deu mostras de preocupação com o problema. Sabe que, para ganhar a Copa, será preciso um time consistente em campo, mas o apoio da torcida também ajuda. E muito. Como ganhar de volta esses corações e mentes? De várias maneiras, supõe-se. Não fazendo distinção muito rígida entre os jogadores que atuam na Europa e os que continuam no Brasil, como era a filosofia dos seus antecessores, para os quais os atletas que aqui ainda jogavam eram considerados de segunda classe. Outra medida: fazer a seleção jogar mais no País durante a fase de preparação, o que implica menos lucro e mais risco, como se viu em Goiânia.
O nó da questão é esse: parece que o torcedor estabeleceu com a seleção uma relação de consumidor diante de um serviço. Ele paga caro e, se não recebe o que lhe é prometido, chia. O Procon do torcedor é a vaia. Desse modo, a única saída viável para a seleção ter apoio é começar a jogar bem. Tivesse enfiado dois ou três gols na Holanda, e sairia consagrada de Goiânia. Melhor ainda se tivesse vencido e dado show. É o que dela se espera. Eu não me iludiria com essa história de apoio incondicional. Ele não virá, pelo menos nesses jogos preparatórios. Na Copa, graças ao clima de competição, pode até ser diferente. Mas é melhor não confiar.
O futebol, você sabe, migrou para outro blog, o Bate-Pronto, do Portal Estadão. Se quiser ler a minha coluna de hoje, clique aqui.
Sinto uma expectativa como havia muito não era vista em torno de um amistoso da seleção brasileira. Estávamos acostumados a ver nesses jogos meros caça-níqueis, um jeito de a CBF explorar (no bom e no mau sentido) o seu melhor produto, aquele mais vendável em qualquer praça, o time que os locutores de antanho chamavam de “escrete canarinho”, lembram?
Pois bem, parece que o amistoso de hoje com os Estados Unidos tem outro caráter. Como se alguma coisa diferente fosse acontecer e por isso nos desperta do tédio habitual com os amistosos da seleção. É que se trata de um primeiro passo, talvez, rumo a uma nova filosofia de trabalho. Expectativa de um time mais jovem, que jogue mais no ataque, seguindo mais de perto um estilo de jogo que nos consagrou no passado e que apreciamos até hoje. Um time que seja “mais” do vínhamos obtendo há muitos anos.
Os sinais dessa carta de intenções de Mano Menezes estão presentes na boa convocação que fez, dando oportunidade aos jovens valores do futebol brasileiro. Rapazes que, por sua idade, poderão fazer parte da equipe olímpica e, em especial, da seleção que terá a responsabilidade de tentar um título mundial aqui mesmo, em casa, em 2014. O desafio será formar um time que encare esse desafio jogando bem – quer dizer, jogando com estilo e eficiência. Uma coisa não vai sem a outra. Hoje será a hora de tirar do papel essa carta de intenções e colocá-la na prática, no campo de jogo.
No entanto, eu não espero muita coisa dessa primeira partida. Claro, Mano pode escalar jogadores habituados a jogar juntos em seus clubes, como é o caso da dupla Ganso & Neymar, ou mesmo colocar junto o quarteto santista, completado por André e Robinho. Mas é claro que o time, em seu conjunto, não está habituado a jogar junto e deve se ressentir da natural falta de entrosamento. Além disso, não vai pegar nem um bobinho pela frente – quem viu os Estados Unidos jogarem na Copa sabe que se trata de uma seleção enjoada, dura de vencer. Tivemos confrontos complicados com eles no passado, como na Copa do Mundo que jogaram em casa, em 1994, e também na última Copa das Confederações.
Então é preciso ter calma com o novo time. Calma com Mano. De minha parte, a única coisa que espero desse primeiro amistoso é ver já o time jogando em estilo brasileiro. Vamos deixar o estilo europeu para os europeus que, aliás, jogaram de maneira mais ofensiva e bonita que os sul-americanos nesta última Copa, não por nada vencida pela Espanha, com seu futebol cheio de estilo. Neste primeiro jogo da seleção brasileira espero uma única coisa: ver que a era dos brucutus foi abolida de vez e o futebol brasileiro voltou a um padrão civilizado.
Muita calma
Calma também é o que deve ter a torcida do Palmeiras. Com mais este empate do fim de semana já comecei a perceber as primeiras críticas a Luiz Felipe Scolari. Estou distante de São Paulo, a trabalho na serra gaúcha, mas até por aqui já comecei a ouvir cornetas alviverdes soando ao longe. Há certa impaciência na torcida, natural até pelas expectativas criadas quando da contratação do técnico badalado, o favorito para assumir a seleção brasileira. Por mais que a gente diga e insista que não existem milagreiros, e que os “professores” só conseguem fazer seu trabalho quando dispõem de material humano de boa qualidade, sempre alguns deles trazem consigo a aura de salvadores da pátria.
Cada vez menos isso dá certo. Vejam o caso de Luxemburgo no Atlético Mineiro. Depois de o Galo estar a seis jogos sem vencer e 440 minutos sem marcar um único gol, Luxa se limitou a diagnosticar: falta fome de bola ao time.
Convenhamos: “fome de bola” é uma metáfora interessante do futebol e é mesmo fundamental que uma equipe tenha vontade de jogar e vencer. Mas a ausência da tal fome é pífia explicação vinda de profissional tão badalado e tão bem pago. Dele espera-se mais e é evidente que essa crise do Galo tem raízes mais profundas do que uma hipotética inapetência do elenco. Técnicos são parte do problema e também da solução, nos casos felizes. Mas não são a única explicação para os misteriosos e complexos caminhos do futebol.
(Coluna Boleiros, 10/8/10)
Não seria difícil prever o tratamento diferenciado que Luiz Felipe Scolari recebe hoje de jogadores, dirigentes e da própria mídia. Fosse outro, com esse desempenho meio sem sal do Palmeiras na retomada do Campeonato Brasileiro (está há quatro jogos sem ganhar) e já veria, não digo o mundo cair sobre sua cabeça, mas, pelo menos, uma intensa formação de nuvens bastante carregadas na linha do horizonte. Cúmulos nimbos, como dizem os meteorologistas.
Não. Scolari segue tranquilo, surfando em popularidade. Aquele mesmo Ibope que o dava como favorito para assumir a seleção brasileira, à frente de Muricy e Mano. Sejamos justos. Felipão tem história para justificar essa benevolência. Campeão da Libertadores da América pelo Palmeiras, campeão do mundo em 2002, ótimo trabalho na seleção portuguesa, além de uma simpatia meio brusca, que passa credibilidade ante a opinião pública. É currículo.
Luiz Felipe não é uma celebridade vazia. Tem conteúdo. Mas é uma celebridade. E, no mundo atual, às celebridades tudo é permitido, ou quase tudo. Às celebridades, se pede que existam, se exibam e basta. No futebol, o buraco pode ser mais embaixo. De qualquer forma, ele tem um capital de popularidade de que nenhum outro técnico no Brasil dispõe. Apesar do começo tímido, mal começou a gastá-lo. E talvez logo seja recompensado pelos resultados, quando então poderá não apenas deixar de dilapidar o patrimônio como talvez aumentá-lo ainda mais.
Há motivos para pensar assim. De um lado, a competência técnica de Felipão. De outro, os jogos, este último em particular. O Palmeiras, embora não tenha vencido o Corinthians, jogou bem. Não sendo favorito, pois o Corinthians tem mais estrutura como time, o Palmeiras igualou as ações depois de ser dominado até tomar o gol. Poderia muito bem ter vencido a partida. Qualquer um dos dois, aliás, poderia ter levado a melhor nesse clássico tão igual. Por fim, devem chegar ao Palmeiras os tais reforços, para dar mais caldo ao cozido do chefe.
Mas não é isso que quero discutir e sim o limite da imunidade de algumas estrelas. Duas delas – Luxemburgo e Muricy – conheceram recentemente a cor do bilhete azul. E ambos no mesmo Palmeiras que hoje abriga Felipão. Quando foram demitidos o time ia mal, mas não em situação extrema, ameaçado, por exemplo, de ir parar na Segunda Divisão. Acontece que talvez não tenham se adaptado tão bem à nova política do Parque Antártica, sempre tão confusa e sinuosa que desnortearia um mestre da matéria como Nicolau Maquiavel. O Parque, com suas alamedas cheias de sussurros, teria mistérios mesmo para o florentino, autor de O Príncipe, esse clássico sobre a arte de governar em tempos difíceis. Tanto Muricy como Luxemburgo aparentemente foram devorados pelas intrigas palacianas de uma prosaica turma do amendoim.
Caíram como comuns mortais, embora façam parte do seleto clube dos intocáveis. Na verdade, Muricy já havia saído contra a vontade do São Paulo, isso depois de ser tricampeão brasileiro no Morumbi. Prova de que existem limites de durabilidade do material, mesmo para os mais badalados entre todos.
Vanderlei Luxemburgo é um que está sendo posto à prova em sua couraça de celebridade. Coleciona maus resultados no Atlético Mineiro e vê seu time vegetar na indesejável zona de degola. Domingo Luxa saiu vaiado de campo, depois de mais uma derrota do Atlético, desta vez para o arquirrival Cruzeiro. “Coisas da vida”, ele comentou. Mas deve ter pensado quanto ainda poderá resistir a uma campanha dessas.
A condição de celebridade pode blindar o treinador durante algum tempo. Ou mesmo durante muito tempo. Não para sempre.
As portas do paraíso
Vitória e Santos, São Paulo e Inter definem quarta e quinta-feira seus projetos de vida. A coisa atende pelo nome de Libertadores da América, esse torneio que se tornou o maior objeto de desejo dos clubes, jogadores, torcedores, aficcionados, curiosos, etc. Quem vencer, entre Santos e Vitória, leva a Copa do Brasil e já tem vaga assegurada para o próximo ano. Quem passar, entre São Paulo e Inter, disputa a final da Libertadores com o vencedor de Chivas e Universidad do Chile. É o paraíso. Durante muitos anos a Libertadores foi meio subestimada pelos brasileiros. De repente, entrou na moda. E na moda ficou. A vida é mutável. Às vezes, insondável.

Sabemos que essa primeira convocação de Mano Menezes é apenas um cartão de visitas. Uma simples carta de intenções. No que tudo isso vai dar, iremos ver mais adiante. Mas, por ora, pegou bem. Legal. Gostei. Foi coerente (essa palavrinha…) com os propósitos já expressos de renovação com vistas à Copa de 2014 no Brasil. É, de fato, uma seleção quase nova em folha, pois preserva apenas quatro nomes da fracassada campanha de 2010 – Thiago Silva, Ramires, Robinho e Daniel Alves. O resto é tudo novidade, cheirando a tinta, incluindo a dupla Neymar & Ganso, que tanto fora exigida pela opinião pública na última convocação de Dunga. Como mostrou que veio para mudar, Mano, além deles, incluiu na lista o atacante André, ainda na Vila, mas negociado com o Dínamo de Kiev. (Aliás, a nova presidência do Santos já tem uma façanha a comemorar em sua gestão – vendeu o centroavante da seleção brasileira).
Devemos – e podemos – ver nessa primeira convocação uma tendência, e talvez não muito mais do que isso. Muita água vai rolar até 2014 e o primeiro a saber disso é o próprio Mano. Livre das Eliminatórias, terá de enfrentar a Copa América, um pré-olímpico e a Copa das Confederações, além de amistosos. Nada que indique chapa quente em sua trajetória, a não ser que monte seleções que joguem muito mal e comprometam a sua chegada à Copa. Não deve acontecer isso. Em condições normais de temperatura e pressão, Mano deve mesmo ser o treinador na segunda Copa a ser realizada no Brasil. E com a missão explícita de que a experiência traumática da primeira, a de 1950, não seja repetida. Até lá há um longo caminho.
Como dizia certo líder chinês, toda longa marcha começa por um primeiro passo. E, se esse foi mesmo o passo inicial, o companheiro Mano o deu com o pé direito. Dá para formar com o pé nas costas um bom time com essa base renovada. Sem pensar muito: Vítor, Thiago Silva e Henrique; Daniel Alves e Marcelo; Lucas, Hernanes, Ganso e Carlos Eduardo, Neymar e Pato. É time de respeito, jovem, talentoso e pode jogar de maneira interessante.
Existem variantes e possibilidades diferentes de montar esse time-base com os 24 convocados. Isso não quer dizer que esses jogadores sejam as únicas opções. É bem possível que outros náufragos da campanha de 2010 sejam ainda resgatados. Por exemplo, não é justo que Julio Cesar seja descartado apenas pela falha no gol da Holanda. Parece também pouco provável que Kaká, se voltar à forma ideal, fique de fora do time. Isso para citar apenas dois. Algum continuísmo não faz mal nenhum à renovação. Pelo contrário. Até revoluções preservam alguns quadros do regime deposto porque são eles que conhecem o funcionamento da máquina administrativa. Veteranos podem dar segurança aos novatos, pelo menos nos primeiros tempos. Mas, se a ordem era renovar, Mano a cumpriu à risca.
Definidos esses primeiros nomes, o principal será ver se a seleção voltar a jogar um futebol digno da tradição brasileira. Esse, para mim, é o ponto principal. O estilo de jogo. A Copa da África e o bom senso já deviam ter nos levado a engavetar essa discussão tola entre futebol-arte e futebol de resultados. O que existe é futebol bem jogado, e ponto. Quando um time joga bem, tem tudo para vencer e encantar, ressalvada a imprevisibilidade característica desse esporte. Vários times históricos (o Santos de Pelé, o Palmeiras de Ademir da Guia, o Cruzeiro de Tostão, o Flamengo de Zico, etc.) jogaram muito bem, e venceram. Para não ficar no passado: o Santos do primeiro semestre resgatou a arte de jogar bola com alegria, e com isso conseguiu resultados.
Tomara Mano consiga devolver à seleção esse prazer juvenil de brincar com a bola. E brincando, ser séria e eficaz. Estamos na torcida.
(Coluna Boleiros, 27/7/10)
Em plena ruminação da derrota, deveríamos já projetar alguma coisa para 2014, quando faremos a Copa em casa. Vão aí algumas sugestões, inspiradas nas “Propostas para o Próximo Milênio”, de Italo Calvino, apenas para clarear ideias.
1) Visibilidade
Buscar um técnico experiente e de consenso. Não vejo outro nome senão o de Luis Felipe Scolari. Luxemburgo seria o meu favorito, é tecnicamente superior. O problema é que Luxa não se concentra mais apenas no futebol, está brigado com os donos da CBF e tem mau trânsito com setores influentes da imprensa. Iria trabalhar quatro anos sob vento e tempestade. Novatos deveriam ficar de fora e esperar a vez. As limitações táticas de Dunga e Maradona ficaram como lições de 2010. Se a CBF reincidir no erro e contratar um Leonardo, por exemplo, já podemos começar a pensar em 2018.
2) Exatidão
Para o bem de todos, e para alívio geral da nação, deveríamos arquivar de vez a dicotomia entre futebol-arte x futebol de resultado. Não se trata de “jogar bonito” ou “dar espetáculo”, pois futebol não é jogo de exibição. É de competição. Dois fatos contribuem para essa oposição inútil: a derrota em 1982 (jogando bonito) e a vitória em 1994 (jogando feio). O Brasil ganhou jogando bonito (1958, 1962 e 1970) e jogando feio (1994). Em 2002, era bastante pragmático no setor defensivo, mas quando a bola saía da defesa para o ataque encontrava uma turma dotada de repertório: Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho. Perdeu jogando feio em várias ocasiões: 1990, 1998, 2006 e 2010. Jogar feio não é mérito. Nem garantia de resultado. A dicotomia não é entre jogar bonito e jogar feio, mas entre jogar bem e jogar mal.
3) Leveza
Respeitar a tradição de um estilo de jogo que teve êxito e despertou admiração mundial não é ser conservador ou romântico. A tradição, quando vitoriosa, serve como base para construir o contemporâneo. A seleção de 1970 não jogava como a de 1958. Pelo contrário, mudou, adaptou-se a um jogo que já havia evoluído e serviu para indicar o caminho do futebol de sua época. Ao mesmo tempo, manteve vivo um estilo de jogar, uma filosofia de jogo criativa, leve e ofensiva.
4) Rapidez
Não deveríamos ter medo dos jovens, como em 2010. Não sabemos e ninguém sabe se o desastre teria sido evitado com a presença de garotos como Ganso e Neymar, mas por certo eles mexeriam naquele marasmo em que se transformou a seleção. Não precisamos nem apelar para o nome de Pelé, que estreou com 17 anos numa Copa. A seleção da moda desta Copa, a da Alemanha, está recheada de jovens talentosos – Özil, Müller e Khedira. De maneira geral, um grande time, capaz de vencer essa prova de fogo chamada Copa do Mundo, é a mescla feliz entre experiência e sangue novo.
5) Multiplicidade
Sem perder a perspectiva internacional, deveríamos aprender a olhar também para nós mesmos. Nem sempre os melhores jogadores estão na Europa. Nem sempre os melhores exemplos vêm da Europa. Há ótimos jogadores despontando no Brasil. Há times jogando bem no Brasil. Devem ser olhados, sem preconceitos. A superioridade europeia é econômica. Não deveríamos confundir as coisas e achar que quem tem mais dinheiro é superior a nós e tem razão em todos os assuntos. Essa atitude, da CBF e dos técnicos que contrata, tem um nome: provincianismo.
6) Consistência
Esta só se obtém quando observamos que estamos no mundo e temos nossa própria cara, ao mesmo tempo. Não podemos ignorar os outros. Nem imitá-los, feito macaquitos. No futebol, e não apenas nele, a consistência é uma mescla de realismo com fantasia. Apenas um desses dois elementos não é capaz de dar liga a um time. Ou a uma vida.
Um gol originário de bola parada e dois de contra-ataque. Assim o Brasil liquidou o Chile. Certo. Um placar e a descrição dos gols dizem muita coisa. Não dizem tudo. É preciso ver qualitativamente. Quem viu o jogo assistiu ao Brasil fazer a sua melhor partida desde que começou a Copa da África.
Foi genial? Não. Mas é claro que o time apresentou uma consistência muito maior do que nos três jogos anteriores, muito fracos, em especial aquele contra Portugal. Claro, se pode dizer que neste prevaleceu o pragmatismo, pois o importante era garantir o primeiro lugar para não cair do lado da chave onde se concentram os cachorros grandes. Despachamos Portugal para lá e a primeira missão deles será hoje contra a Espanha. Nada de se invejar.
De qualquer forma, contra o Chile, o Brasil, repito, sem ser genial, apresentou futebol mais leve, solto no meio de campo e com alguns momentos que lembraram o nosso melhor jogo, em particular nos dois últimos gols.
Melhor que isso, mostrou firmeza no setor defensivo, dando muito poucas chances ao ofensivo Chile do Loco Bielsa. Lúcio, mais uma vez, foi um gigante.
Gostei, acho que todos gostamos. A pergunta que se impõe – porque a nossa profissão obriga a lucidez – é se o futebol mostrado tem condição de superar o da Holanda, que vem aí liquidando os adversários, um a um, com seu jogo preciso, frio, cirúrgico. Entendo que dá, sim, mas será muito sofrido, com muita dificuldade. Prevejo algo do tipo daquele Brasil x Holanda de 1998, no Vélodrome de Marselha, uma semifinal imprópria para corações sensíveis.
A Copa chegou àquele ponto em que os mais frágeis já foram embora. Daqui para a frente, tudo será sofrimento e júbilo.
A distância entre a euforia e a depressão estará sempre por um fio.
Em relação à pobre exibição contra a Coreia do Norte o Brasil mostrou clara evolução. Em alguns momentos, apareceu o futebol brasileiro no que ele tem de melhor – inteligência, dribles, toque de bola. Foi assim que surgiram os gols – os dois de Luis Fabiano (o segundo deles irregular, com a bola carregada pelo braço) e o de Elano, em cruzamento de Kaká.
Mas, além disso, o Brasil, em boa parte do tempo, mostrou que pode controlar um jogo que lhe é favorável. Isso é bom sinal. O porém (sempre há um porém, lembrava o dramaturgo Plinio Marcos) é que a seleção acabou caindo na catimba e no jogo violento proposto pela Costa do Marfim. É uma antiga deficiência nossa. E que será posta à prova nesta Copa quando nos defrontarmos com seleções também catimbeiras, eventualmente violentas, e que tenham melhor futebol que o da Costa do Marfim. As coisas então podem ficar feias. Faltou maturidade a Dunga para enxergar que era hora de tirar Kaká de campo, para evitar que fosse expulso, ou saísse machucado de algum lance violento. O desfecho, que tira Kaká do jogo contra Portugal, pode servir de lição ao técnico.
Coletivamente a seleção foi bem e alguns jogadores tiveram atuação individual melhor, como foram os casos de Luís Fabiano e do próprio Kaká. A defesa esteve segura, como de hábito, mas não pode se dar ao luxo de apagões como o que redundou no gol de Drogba. O lance todo foi consequência de um estado de instabilidade causado pelas circunstâncias do jogo, com as discussões entre jogadores, as entradas duras, etc. O Brasil perdeu o foco. Quando perdeu o foco, tomou o gol.
Tudo tem de servir de aprendizado. Costuma-se dizer que vitórias não oferecem material para reflexão. Comemora-se e é só. Esses 3 a 1 devem, de fato, ser comemorados. Mas é bom que também se aprenda com os erros vistos em campo, o principal dos quais foi essa perda de foco quando dominava amplamente a partida. Por enquanto os erros são tolerados. Na segunda fase, na qual o Brasil já está, qualquer vacilo pode significar o fim. E é bom lembrar que podemos nos encontrar com a Espanha logo nas oitavas-de-final. Melhor então estarmos bem preparados e serenos. Porque daqui para a frente não será fácil.
(Caderno da Copa 2010, 21/6/10)
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