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Luiz Zanin

15.maio.2012 09:29:34

A armadilha do êxito *

Dizem os entendidos que depois das conquistas é que os desafios começam para valer. É o que vão entender logo os vencedores dos títulos estaduais, em especial Fluminense e Santos, campeões do Rio e São Paulo, que nem bem podem comemorar suas façanhas e já têm pela frente o terrível desafio da Libertadores da América nas quartas de final.

São, talvez, os dois times mais fortes do País e encaram dois argentinos – o Boca Juniors e o Velez Sarsfield. O que dizer de sensato dessas partidas a não ser que não têm favoritos?

Mas talvez não estejam nos jogos as maiores provas aos vencedores e sim no desafio a ser enfrentado: como superar o desgaste do êxito? Já pensaram nisso? No preço que toda vitória cobra ao vencedor? O Fluminense já recebeu a conta na forma de dois desfalques sérios: Fred e Deco, ambos contundidos em virtude do desgaste muscular. Nesse particular, o Santos foi poupado.

Há outros espectros que rondam os vencedores e, por vezes, os transformam em vítimas do próprio sucesso. Por exemplo, quanto mais técnico for um time, maior o olho gordo sobre ele. Vocês pensam que virei supersticioso e estou me referindo aos malefícios da inveja? Bem, essa também existe, mas entendo que produz mais estragos no invejoso que no invejado. Mas me refiro mesmo às leis de mercado, que tornam os jogadores que brilham os mais vendáveis na feira livre da bola. Apesar de as coisas terem mudado um bocado, as tentações ainda são grandes e os agentes têm pressa em fazer negócios. Afinal, vivem disso, da pressa, do dinheiro fácil e da instabilidade dos clubes.

De modo que a resistência em promover desmanches no pós-título deve ser tenaz e impiedosa. Os clubes de sucesso não podem vacilar. Já melhorou em relação ao passado recente. Aos poucos os times brasileiros vêm aprendendo que é melhor vender o espetáculo que negociar o artista. Mesmo assim, os apelos do dinheiro fácil e rápido não podem ser menosprezados. No passado não era raro um time ter desempenho brilhante num ano e lutar contra o rebaixamento no seguinte. O próprio Santos experimentou há pouco essa montanha-russa. Foi campeão brasileiro em 2004 e por pouco não caiu em 2005.

Manter-se no topo é uma arte. Como diz o clichê (verdadeiro) é até mais difícil do que chegar lá. Porque, quando você está em evidência, tudo conspira contra. O time da moda é também o time a ser batido. Todo mundo quer tirar uma casquinha – e isso aumenta o nível de competitividade (por isso, também, a presença de um time excepcional aumenta, por si só, o nível da disputa). E, por fim, há o desafio maior do vencedor: manter os pés no chão, domar o próprio ego. Saber que não existe vitória contínua e que a derrota está à espreita, na esquina. Quando o vencedor se julga imbatível, e veste o manto da soberba, é o princípio do fim.

Fariam bem todos os campeões de 2012 em se vacinar contra esses perigos e tentações do êxito.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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17.abril.2012 15:28:12

Segundo centenário *

Amigos, para quem não acredita em coincidências, o gol de PH Ganso foi uma espécie de declaração de princípios para o segundo centenário do Santos Futebol Clube. Pura arte. Um toque sutil sobre o goleiro. Quem estava no estádio viu uma cena em câmera lenta. A bola indo devagarzinho por cima do goleiro, que recuou, desesperado, e não conseguiu impedir que ela beijasse a rede. Todos antevimos o gol. Vai ganhar placa.

Mas talvez o caráter simbólico desse gol seja ainda maior do que a sua beleza em si. O Santos, no domingo, fechava as comemorações do centenário e dava início ao seu segundo século de atividade futebolística. Não poderia haver nada de maior simbolismo que um gol assinalado com tamanha classe, uma tacada precisa, seca e decisiva como a de um mestre da sinuca. Ganso é a elegância em campo. Assistia ao jogo com um amigo quando ele me perguntou: “Sem olhar, me diga qual o único jogador do Santos que está com a camisa dentro do calção?” Ganso, fácil, um craque como os de antigamente, como Didi, como Falcão, que passeavam pelo gramado sem jamais perder a compostura.

Então era isso. O Santos, com esse gol, começava seu segundo centenário, a dizer que iria honrar sua história e continuar a praticar o seu melhor futebol. Esse futebol que, à falta de nome mais adequado, chamamos futebol arte, e que tem no Santos o seu melhor representante atual. Outros times também jogaram esse futebol. O Palmeiras de Ademir da Guia, o Botafogo de Garrincha, o Flamengo de Zico, O Internacional de Falcão, o Cruzeiro de Tostão. Sempre foi o melhor perfil do futebol brasileiro, o seu ângulo mais favorável, embora ele não possa se resumir a ele. Existe uma diversidade de cultura futebolística no País e times leves e envolventes convivem com outros mais pesados e nem tão encantadores, embora eficazes. Mas o chamado futebol arte, o jogo ofensivo, o beautiful game é ainda a nossa melhor tradição e o Santos se dispõe a levá-la adiante. É uma proposta, séria e concreta: honrar a tradição do jogo, preservar um estilo, mesmo que ele tenha de se adaptar a novos tempos e outras exigências.

Claro que nada disso se faz apenas com boas intenções. Se o Santos tem a tradição em que se inspirar – o magnífico time dos anos 1960, considerado o melhor de todos os tempos – é preciso base material para honrá-la. Ninguém pratica futebol arte com cabeças de bagre. É preciso jogadores de ponta. E o Santos, talvez o time brasileiro que mais bem emprega suas categorias de base, tem mostrado, no passado recente, que também se sai bem em manter suas revelações. Pelo menos o maior tempo possível. Ganso e Neymar ficaram. Estão aí, para comandar um time que, se não é tão deliciosamente irresponsável quanto aquele do primeiro semestre de 2010, pode ser ainda mais maduro, vencedor e consciente de si. É um time já vitorioso e também escaldado por uma derrota dura, que lhe deu consistência. Enfim, esse clube de grande passado não se contenta com ele. Usa-o como fonte de inspiração. E isso é muito bom.

O desafio do segundo centenário é manter-se assim. Fiel à sua origem, mas jovem e moleque.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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03.abril.2012 09:37:31

Os oito eleitos

Duas rodadas antes de terminar a fase de classificação, o Campeonato Paulista já tem seus oito finalistas. Como era fácil prever, lá estão os quatro grandes. Entram mais quatro “convidados”: Mogi Mirim, Bragantino, Guarani e Ponte Preta. Não é um anticlímax, um daqueles finais manjados que arruínam qualquer suspense? O que ainda pode se alterar nessas últimas rodadas são as colocações, que determinam quem joga contra quem nos jogos eliminatórios e concedem a única vantagem aos quatro primeiros, a do mando do campo. Quer dizer, um tédio só, como já se sabia, aliás, antes de a bola rolar no primeiro jogo.

Daí para a frente, surge outra aberração, a disputa de quartas de final e semifinais em jogo único para, em seguida, o mata-mata ser restabelecido para a disputa da taça de 2012. Quem bolou esse absurdo deveria ganhar um prêmio. Ou melhor, um antiprêmio, como ser obrigado a frequentar essas reuniões de cartolas por toda a eternidade. Ou ficar de castigo até apresentar uma proposta convincente para redesenhar o calendário futebolístico brasileiro em seu todo. Porque, claro, os campeonatos regionais são parte de um problema que é muito maior e desafia qualquer racionalidade, que é o calendário brasileiro.

O problema do Campeonato Paulista é mais político que logístico. A medida óbvia seria abaixar o número de clubes na divisão principal para dezesseis, embora haja quem fale em apenas 12. Mas como a federação faria para implantar medida tão impopular? Esse é o desafio, mesmo porque o desnível entre times aumentou demais e isso também compromete o interesse do campeonato. É raro que um grande encontre problemas ao jogar contra um pequeno, mesmo que seja no campo deste. Se o campeonato concentrasse na 1.ª Divisão apenas os melhores clubes do interior, a competitividade aumentaria.

Como enfrentar o desafio de desagradar aos que ficariam de fora? Bem, esse é um problema que não é nosso, da crônica, mas de quem ocupa o poder na Federação Paulista. Ossos do ofício, ônus do cargo, que exige decisões difíceis de tomar. O fato é que o campeonato não pode ter esse formato de coração de mãe, que pode satisfazer a alguns interesses, mas compromete o espetáculo na sua dimensão principal que é a de manter um certo equilíbrio.

Já que não se pode eliminar vários clubes, a solução talvez fosse reunir os competidores em grupos, tendo os grandes como cabeças de chave e fazê-los jogar entre si. Avançam apenas os primeiros, ou os primeiros e segundos de cada grupo, que disputam entre si em eliminatórias até chegar à decisão. Algo no modelo da Copa do Mundo. Alguém por certo vai dizer que os times mais fracos teriam carreira breve e logo seriam eliminados, ainda na fase de grupos. É verdade. Mas como alterar esse sistema que aí está, e desagrada a todos os observadores, sem que alguém se sinta prejudicado? Impossível, mas algo precisa ser feito para que o campeonato não caia em descrédito.

(Coluna Boleiros)

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20.março.2012 17:03:25

A ética e a bola

Houve pênalti ou não naquela saída do goleiro Rafael do Santos para dividir a bola com Luis Fabiano? Para mim, é um dos lances mais interessantes desse grande jogo.

Na hora fiquei em dúvida, mas ouvi de vários comentaristas que o pênalti havia sido tão óbvio que nem valia a pena discutir o assunto. Um disse que havia sido “muito pênalti”, com aquela curiosa carga de certeza que muitas vezes caracteriza nossa profissão. Então, tudo bem.

Só que ontem de manhã li neste mesmo caderno matéria de Bruno Deiro e Daniel Akstein Batista em que o próprio Luis Fabiano chamava o pênalti de “duvidoso”. Admite que “deixou a perna” para ser tocado pelo goleiro. Caiu antes do choque, conscientemente e, também conscientemente, buscou o contato. Quer dizer, foi uma malandragem.

A lei fala em intenção de cometer a falta. O goleiro saiu para defender de maneira atabalhoada – esse foi seu pecado. Mas ao que tudo indica não tinha qualquer intenção de derrubar o atacante. Este, pelo contrário, tinha toda a intenção de ser derrubado. Nessa interpretação dos fatos, autorizada pelo próprio atacante, não apenas não foi pênalti como Fabiano deveria ter sido advertido por tentativa de simulação. Mas como culpar o árbitro por um teatro tão bem feito que iludiu os nossos melhores colunistas?

A questão maior sobre esse lance diz respeito à ética, muito mais do que à sua importância sobre o resultado, já que o São Paulo jogou melhor e justificou amplamente a vitória. O problema é saber o que significa fingir uma penalidade, ou seja, dar um drible na lei e em seu cumpridor, o juiz.

Cansei de ver grandes jogadores usarem a zona cinzenta da regra a seu favor. Aliás, cavar pênaltis é tão velho quanto o rolar da bola. O maior de todos, Pelé, era um deles. O Rei o fazia com a mesma maestria com que aplicava um drible, dava um chapéu ou marcava um gol de bicicleta. Às vezes enganchava seu braço no braço do zagueiro para ser “derrubado” na área. Usava, como o Fabuloso usou no domingo, a sutileza da lei para dela servir-se em favor do seu time. Eis a brecha: não se julgam fatos objetivos, e sim intenções. E de que maneira se expressam as boas ou as más intenções? Como não podemos entrar na cabeça das pessoas para visualizá-las, só nos resta, e aos árbitros, supor que quiseram fazer isto ou aquilo.

Daí a imensa riqueza do futebol e sua função de comentário sobre a vida em geral. O futebol é ao mesmo tempo espelho e reflexo da vida social. Incorpora seus vícios e virtudes e os revela, sob forma simplificada. Afinal, a nossa legislação comum também não faz a distinção entre crimes culposos e dolosos, ou seja, com ou sem a intenção de produzirem dano ao próximo? No fundo é a mesma coisa.

O riso matreiro do Fabuloso tem muito a dizer sobre nós mesmos, e não apenas no âmbito do futebol. Num mundo perfeitamente ético, sua atitude deveria ser condenada. No entanto, é aceita, e até elogiada como saudável malandragem, justamente aquela que caracteriza o nosso futebol (apenas o futebol?). Isso, num mundo perfeito. Mas quem disse que o mundo é perfeito?

(Coluna Boleiros)

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20.dezembro.2011 09:26:39

Faltou um Almir Pernambuquinho

Amigos, vamos dizer logo de cara: não havia a menor chance de o Santos derrotar o Barcelona. O desnível tático e técnico é abissal. O Barcelona igualou, no campo, o Santos ao Al-Sadd. Engoliu os dois da mesma forma. Parecia jogo de time de primeira divisão contra aspirantes da quarta. Mesmo no mais imprevisível dos esportes coletivos, que é o futebol, podemos dizer que, em dez jogos, o Barça ganharia os dez. Em cem, ganharia os cem. Poucas vezes, no futebol profissional, vi desnível parecido. Então, é preciso reconhecer o mérito do Barcelona e do seu jogo preciso, belo e implacável.

Não dava mesmo para ganhar. Mas há derrotas e derrotas. A do Santos foi a do pior tipo: derrota sem qualquer resistência, sem luta, sem briga, no melhor sentido do termo. O time já entrou em campo vencido e, em nenhum momento, chegou a ameaçar o adversário.

Para dificultar um pouco as coisas para o Barcelona faltou talvez ao Santos um jogador desses que não aceitam a derrota de jeito nenhum. Lembro de um Zito, que impunha respeito ao próprio Pelé. Lembro de Almir Pernambuquinho, a alma do Santos na conquista do bicampeonato diante do Milan em 1963. Pelé estava contundido e Almir entrara em seu lugar. Ouvira dizer que Amarildo, jogador do Milan, falara que Pelé estava em decadência. “Não se diz isso do Rei”, rosnou Almir. E, na primeira dividida com Amarildo, deixou claro que aquele era um jogo de vida ou morte. Amarildo sumiu em campo.

Ok, hoje as coisas não são mais assim. Todo mundo é amiguinho e tiete, e coisa e tal. Só faltou pedirem autógrafo aos jogadores do Barcelona, ou talvez nem isso tenha faltado. O fato é que não havia em campo (ou fora dele) alguém que lembrasse aos jogadores do Santos que aquilo era uma disputa de título mundial. Parecia uma partida amistosa, um casados x solteiros de luxo, um daqueles jogos de fim de ano, “Amigos do Messi x Amigos do Neymar”. Coisa assim. Festiva. Leve. Uma brincadeira.

De resto, cabe ao Santos se preparar melhor para o próximo ano. Continuar o trabalho iniciado, reforçar seus pontos frágeis e dispensar quem não tem apreço pela camisa do clube. Deve lutar pela Libertadores e voltar ao Mundial mais “sábio”, segundo as palavras de Neymar. Enquanto isso, é bom aprendermos a lição, junto com o craque santista: vamos colocar as barbas de molho para 2014 porque o futebol sul-americano não está com nada. Depois de décadas de modelo extrativista-exportador, chegou ao fundo do poço e não consegue mais enfrentar os europeus. São cinco títulos mundiais consecutivos para os clubes do Velho Continente. As duas últimas participações brasileiras foram vexatórias: a desclassificação do Internacional pelo Mazembe e a humilhante goleada sofrida pelo Santos. Vamos repensar a vida?

Férias
A bola para e eu também. Desejo a todos um Feliz Natal e ótimo 2012. Esta coluna retorna dia 17 de janeiro. Até a volta.

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13.dezembro.2011 10:50:11

As ironias do futebol

Amigos, a vida é uma ironia. Quis o destino que um antigo Menino da Vila estivesse no caminho do Santos Futebol Clube em sua tentativa de conquistar o terceiro mundial. Refiro-me, claro, a Nelsinho Baptista, capitão do time campeão paulista em 1978, no qual tinha como companheiros Juari, Pita, Nilton Batata e outros cobras. Naquele tempo, Nelsinho ostentava vasta cabeleira. Muitos anos depois, com juba mais modesta, teve passagem medíocre pelo Santos, agora como treinador. Não deixou saudades. Estava no comando daquele time de 2005, goleado por 7 a 1 pelo Corinthians, placar que ainda incomoda os torcedores. Muito se falou, na época, que os jogadores haviam facilitado tamanha goleada para derrubar o técnico. Como sabemos, coisas assim não acontecem…

Como treinador do Kashiwa Reysol, Nelsinho tentará botar água no chope santista. Já andou dizendo por aí que fará de tudo para evitar a final tida pela maioria como certa, entre Santos e Barcelona. Quer ele próprio enfrentar o time de Messi. Coisas da vida, minha nega, como diz o grande vascaíno Paulinho da Viola. Claro, o Santos tem um time muito melhor do que o Kashiwa, dirigido por Nelsinho, mas o Inter também era infinitamente superior ao Mazembe, ou alguém duvida disso?

De qualquer forma, faz bem Muricy em colocar as barbas de molho e concentrar-se nesse primeiro jogo. Humildade e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, no futebol ou em qualquer outra atividade deste mundo povoado por seres mortais e falíveis. Teve a oportunidade de ver as fraquezas do Kashiwa, mas também seus méritos, como a velocidade e o preparo físico. Está certo o Muricy. Não adianta nada ficar pensando no Barcelona se, antes, existe esse desafio a ser transposto.

O prudente Muricy também não se poupou de alguma polêmica no Japão, ao elogiar os técnicos do Barcelona e do Real Madrid, mas fazendo uma ressalva: de acordo com ele, Guardiola e Mourinho só poderiam ser considerados nota 10 depois de vencerem um campeonato no Brasil. Em sua coluna, Tostão considerou o comentário presunçoso. Não entendo dessa forma. Muricy não quis ser antipático, mas apenas chamar a atenção para a dificuldade do trabalho dos técnicos em país imediatista como o Brasil, que não dá tempo para planejamentos e costuma resolver qualquer tropeço pela demissão do treinador.

Além disso, o comentário de Muricy pertence àquela categoria interessante das coisas indemonstráveis. É tão provável Mourinho ou Guardiola virem a treinar um clube brasileiro quanto Messi jogar no Corinthians ou no Palmeiras, no futuro imediato. E, no campo das possibilidades alucinadas, por que não pensar o que seria do Barcelona caso disputasse a Libertadores da América? Teria tanto sucesso quanto na Europa? Sem qualquer menosprezo, tanto pelo Barcelona quanto pela inteligência do leitor ou dos fãs alucinados do Barça, pode-se imaginar perfeitamente que passasse pela fase de grupos e depois se enrolasse no primeiro mata-mata, diante, digamos, da altitude e de um Once Caldas da vida. Quem poderia dizer que isso é impossível? Essa palavra, amigos, não existe no futebol.

(Esportes)

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27.setembro.2011 12:21:20

Pintou o campeão?

Amigos, claro que posso estar enganado, mas dois times me impressionaram nesta última rodada e acho que ambos têm cheiro e pedigree de campeão. Refiro-me, claro, a Vasco da Gama e São Paulo.

Ambos protagonizam, por caminhos diferentes, os jogos mais eletrizantes da rodada. O Vasco fez uma exibição sinfônica sobre o pobre Cruzeiro e o solista desse concerto foi Diego Souza, com três gols, um mais bonito do que o outro, o terceiro simplesmente de placa. Já no São Paulo, o que me impressionou foi a entrega, a disposição de buscar um resultado melhor depois de estar perdendo por dois de diferença, e no campo do adversário ainda por cima. Se Rivaldo tivesse acertado aquele toque por cobertura, e proporcionado a virada ao seu time, o jogo entraria para a épica do Morumbi. Mesmo o empate foi notável.

Os dois times, Vasco e São Paulo, mostraram categoria, recursos e, acima de tudo, alma – que é o que decide um jogo ou um campeonato. Não estou dizendo que basta ter alma para que um agrupamento de cabeças de bagre se torne campeão. Mas é preciso ter alma para que um bom time se erga acima de suas possibilidades e chegue ao título. Vasco e São Paulo insinuaram, nessa rodada, que têm essa característica. Se mantiverem a chama, acho que vão levar a disputa pelo título brasileiro de 2011 palmo a palmo, até o final.

Digo isso embora o Corinthians esteja em segundo lugar, um ponto acima do São Paulo e dois atrás do Vasco. Mas, sinto, não vejo no Corinthians a mesma disposição, o mesmo estado de ânimo férreo que pode conduzir ao título. Friamente falando, é claro que está no páreo, mas o time de Tite me parece burocrático demais para um verdadeiro campeão. Enfim, daí a importância do jogo de domingo próximo entre o Timão e o Vasco, em São Januário. A partida tem ar de decisão – uma das tantas decisões de que é tecido um campeonato por pontos corridos.

Se vencer, ou mesmo empatar, o Corinthians pode botar um pouco de água na fervura vascaína. Mas, se o Vasco vencer, abre vantagem considerável. E, quando digo vantagem, não me refiro apenas à pontuação, mas à força moral que exibiria diante dos concorrentes diretos. É jogo para não se perder de jeito nenhum.
De qualquer forma, no seu jeito marcha lenta, o Corinthians, com a sofrida vitória sobre o Bahia, se mantém no páreo. O próximo jogo será decisivo para avaliar melhor suas pretensões.

E, falando nisso, o que dizer das pretensões dos outros paulistas? Bem, o Santos mostrou, sábado contra o Figueirense, uma quase total incapacidade de criação. Colegas têm falado na dependência de Neymar. Claro, mas convém lembrar que o time também não tinha Ganso e nem Elano. Ninguém para criar. Limitou-se a chutões, ligações diretas e chuveirinhos – provas definitivas da insuficiência de criatividade. Muricy diz que não jogou a toalha. Parece cada vez mais óbvio que não conta mais com o título, mas precisa manter a motivação do time em velocidade de cruzeiro para não ser pego na pasmaceira quando tiver de jogar o Mundial no Japão em dezembro. Foi o que aconteceu com o Internacional de Porto Alegre no ano passado, com o desfecho que conhecemos.

E quanto ao Palmeiras? Pode-se perguntar como um time pode tomar um empate diante de um adversário com dois jogadores a menos. O Palestra realizou a façanha. Quando terminou o jogo, fiquei ligado na TV esperando a coletiva de Luis Felipe Scolari. E Felipão não decepcionou. Quando alguém lhe perguntou o que faltava ao Palmeiras, respondeu que talvez faltasse um bom técnico. Ironias à parte, a frase talvez revele o mal-estar existente no clube. O Palmeiras parece minado pelas disputas internas. Por isso a equipe mostra-se sem fôlego em campo. O time é apenas sintoma de um mal maior.

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No filme Boleiros, do nosso colega de espaço Ugo Giorgetti, há uma cena muito interessante. Véspera de Palmeiras e Corinthians, o elenco alviverde vai para a concentração num hotel da capital. O garanhão da equipe se engraça por um mulherão (Marisa Orth), exemplar daqueles de parar o trânsito. O técnico do Palestra, interpretado por Lima Duarte, preocupado com o fôlego do seu atleta para o jogo do dia seguinte, chega-se à sirigaita e lhe diz: “A senhora não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians!”.

Pois é, quem não sabia, conheceu domingo o que é a rivalidade desse derby paulistano, que ainda vai render polêmica durante toda a semana. Foi uma partida elétrica e tempestuosa, já antecedida por discussões na escolha do árbitro, e assim continuou quando a bola começou a rolar. Não vou fazer aqui a apologia de lances ríspidos e nem discutir se as expulsões de Danilo e Felipão foram justas. Só lembro que elas aconteceram dentro de um clima de alta temperatura que só os grandes clássicos são capazes de oferecer. Tudo isso fruto de uma rivalidade que nasceu lá atrás e vem sendo passada de geração a geração como herança de pai para filho.

Por tudo isso, foi uma partida ótima para se assistir, mesmo para quem não torce para nenhum dos dois. Teve sabor até para o aficionado neutro, nem corintiano nem palmeirense, que pôde se aproveitar da emoção no que ela tinha de melhor, sem a contrapartida de tensão que um jogo desse tipo causa. Por isso, numa época em que o marketing tenta nos convencer de que devemos nos interessar mais por Real Madrid x Barcelona do que pelo nosso pobre futebol doméstico, continuo a achar que nossas rixas locais são insubstituíveis.

São elas que trazem ao espetáculo esse colorido emocional que as outras disputas não têm. Ou têm numa escala infinitamente menor. Falo de Corinthians e Palmeiras, e poderia estar falando de Vitória x Bahia, Flamengo x Vasco, Atlético x Cruzeiro, Grêmio x Internacional etc. Poderia incluir também todas as rivalidades menos badaladas, pouco midiáticas, que existem Brasil afora e levam seus torcedores ao abismo da paixão. E, por isso, contaminam os jogadores e tiram deles o que às vezes nem têm para dar. A magia do futebol depende dessa emoção sem igual e ela, em boa parte, se deve à rivalidade.

O problema será sempre dosar esse doce veneno, de modo que aqueça a disputa sem por isso transformá-la em incêndio – tanto fora como dentro de campo. É um fio de navalha, em que qualquer erro de medida pode se mostrar fatal. Pode-se especular se o Palmeiras errou um pouco a receita e botou mais pilha nos seus jogadores do que seria necessário. É possível, e claro que as expulsões de Danilo e de Felipão tiveram alguma coisa a ver com o desfecho da partida. Mas, como estamos falando de futebol, também é verdade que o Palmeiras, mesmo com dez em campo e sem técnico, jogou melhor e esteve mais perto de ganhar. Lutou com valentia, fato reconhecido até por sua exigente torcida, que aplaudiu o time derrotado nos pênaltis.

E assim chegamos a nova final alvinegra, outra rivalidade não menos histórica, que inclui tabus duradouros e goleadas humilhantes em seu retrospecto. Dois jogos para decidir quem será o campeão paulista, Corinthians ou Santos. Ida e volta, como deveria ter sido nas semifinais, pelo menos. Time por time, o do Santos está melhor neste momento mas, ao mesmo tempo, dividido entre o Paulistão e a Libertadores, caso passe hoje no México. Fosse o futebol uma disputa sem grande influência dos componentes emocionais, eu diria que é levemente favorito. Um tiquinho assim. Mas a gente sabe que, quando a bola começa a rolar, a rivalidade e a emoção passam a fazer seu trabalho de desmontagem dos prognósticos racionais.

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No Bate-Pronto, meu comentário sobre o caso da suspensão de Neymar e da onda moralista desencadeada pela indisciplina do jogador do Santos.

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O futebol pode às vezes ser o mais ingrato dos jogos. Um time pode atacar, atacar, atacar, perder uma bola, sofrer um contra-ataque e perder a partida. Jogo ingrato. E por isso o amamos. Seremos masoquistas? Por que não nos dedicamos a esportes mais “justos”, que sempre premiam o melhor, o mais técnico, o que se esforçou mais durante a partida, o que criou melhores chances? Por gostarmos de sofrer? Não. Gostamos do futebol porque a sua imprevisibilidade o torna mais emocionante do que os outros. Gostamos porque pode contrariar tranquilamente a lógica da justiça e beneficiar aquele que menos merece. Cansamos de ver isso durante a Copa da África. E cansaremos de ver durante o Campeonato Brasileiro e em todas as disputas que virão pela frente.

Por exemplo: o Santos não jogou má partida diante do Fluminense. Ok: poderia ter sido mais incisivo, massacrante, decisivo, envolvente, como foi durante o seu esplendor, que aconteceu ao longo do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil, quando criava mais de 20 oportunidades de gol por jogo e convertia algumas delas. Mesmo assim, sendo mais modesto, e tendo dificuldades diante da boa marcação proposta pelo time de Muricy, o Santos jogou bola e poderia perfeitamente ter saído vencedor. Não converteu as chances. Perdeu o jogo num belo contra-ataque, propiciado justamente pela falha do seu melhor jogador, Paulo Henrique Ganso, que perdeu a bola onde não devia e não podia perder. Assim é o futebol e assim o amamos, com seus defeitos e qualidades.

Ou seja: sempre é possível um time jogar bem e perder o jogo, como é possível, dentro de limites, jogar mal e sair vencedor. Dito isso, é claro que as equipes têm de dar o melhor de si (como dizem os boleiros) e jogar tão bem quanto for possível. Porque, apesar das incertezas do futebol, em geral (mas não necessariamente) quem joga melhor vence. O técnico, os jogadores ou mesmo a torcida não devem contar com esse aspecto um tanto lotérico do jogo da bola com os pés. Devem dar tudo para que o futebol se comporte segundo a lógica, embora nem sempre ele obedeça a essa suposta lógica dos homens. Ou talvez a sua lógica seja outra, insondável.

Pensando desse modo, não adianta Dorival Jr. repetir que o time está jogando bem e que esse é o Santos que ele quer ver em campo. Claro, declarações como essa têm seu valor psicológico, para não abater o grupo. Mas, entre quatro paredes, lá na intimidade do CT Rei Pelé, Dorival deve estar matutando sobre as razões da queda de produção do Santos. Não que os meninos estejam jogando mal; não é isso. O fato é que estão atuando abaixo do que já o fizeram. Ninguém os está comparando com outros craques. Eles estão sendo comparados consigo mesmos, e, dessa comparação, sai a pergunta que não quer calar: onde foi parar aquele futebol brilhante? Sumiu? Está apenas esperando a oportunidade para ressurgir? Neymar sucumbiu à própria máscara? Ganso ainda se ressente da artroscopia? Robinho voltou frustrado da Copa? Dorival tem até o dia 28 para responder a essas questões, quando joga a primeira e decisiva partida contra o Vitória pela Copa do Brasil. Não é uma partida: é todo o ano de 2010, com repercussões para 2011, que está em jogo. 

Em todo caso, para o torcedor santista, sobra o consolo: apesar da retomada pós-Copa muito negativa (dois jogos, duas derrotas), pelo menos o Santos não abandonou a sua filosofia de jogo. Continuou, contra Palmeiras e Fluminense, a ser aquele time ofensivo, que marca no campo inteiro, troca bem a bola e avança verticalmente rumo ao gol. Joga um futebol moderno que, nos melhores momentos, lembra o da Alemanha, a mais brilhante seleção da Copa, mas que, sabemos todos, não ganhou a competição. Não interessa. Cabe perseverar numa filosofia de jogo na qual se acredita e mostrou ser vencedora.

Se esse belo futebol santista irá voltar, não sabemos. Mas também não há motivos para que não volte. Se irá vencer é outra história, cujo desfecho deixamos aos “deuses do futebol” – essa ficção que inventamos para falar da imprevisibilidade desse esporte apaixonante.

 (Coluna Boleiros, 20/7/10)

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