Costumamos chamar de história a política do passado e de política a história do presente. No entanto, tudo é história e política.
E, nesse sentido, o Oscar 2013 apresenta um predomínio bastante claro de obras que confrontam os EUA com sua história política, passada ou presente. Dois deles – Lincoln e Django Livre – vão ao século 19, à escravidão e à Guerra Civil, que matou 600 mil americanos, mais do que em todas as guerras que se envolveram depois, incluída a 2ª Guerra Mundial.
Dois outros filmes – Argo e A Noite mais Escura – falam da política contemporânea, a primeira tendo por tema o sequestro de cidadãos americanos na embaixada em Teerã, em 1979. O segundo, a caça a Osama Bin Laden, líder da organização Al Qaeda e tido como responsável pelo atentado de 11 de setembro de 2001.
Ou seja, dois dos filmes são sobre a política interna americana; os outros dois sobre sua política externa, distinção que tem sua importância.
Em Django Livre temos uma bela fantasia histórica de Tarantino. Fiel ao seu estilo, Quentin usa a história como um material plástico, que pode deformar (no bom sentido do termo) à vontade para dele tirar uma trama interessante. As homenagens aqui vão ao western spaghetti, sobretudo os de Sergio Corbucci e outras referências, entre as quais o mito nórdico de Sigfried e Brunhilde. Nem por ser lúdico, o filme deixa de ir ao fundo da questão, a abjeção que é transformar um ser humano em objeto. Tanto assim que, nos Estados Unidos, era um escândalo ver um negro montado em um cavalo, como se o dorso deste nobre animal fosse privativo de arianos.
A política tarantiniana é mais sensorial, enquanto, pasmem, a de Spielberg, é mais reflexiva.
Lincoln, com 12 indicações, fala da luta do 16º presidente americano para aprovar a emenda à constituição que tornava ilegal a escravidão. Essa 13ª emenda foi obtida graças sacrifícios, jogo de cintura, retórica e cálculo político, e mesmo com uso de técnicas pouco ortodoxas como suborno e empreguismo.
Quem esperava de Spielberg uma cinebiografia melosa e hagiográfica teve motivos para se surpreender. Lincoln, na magnífica interpretação de Daniel Day-Lewis, é visto em sua inteireza humana, cheia de caprichos e fragilidades, mas também em sua imensa obstinação. Lincoln parece ter consciência perfeita da importância da aprovação da emenda e não se detém diante de nenhum obstáculo, e nem de escrúpulos morais, para obtê-la. Os fins justificam os meios, parece dizer, pensando como Maquiavel, mas sem citá-lo.
Entre os expedientes, um deles parece notável. Lincoln adia artificialmente o fim da Guerra Civil para que os estados confederados não tenham tempo de voltar à União e embargar a emenda que estava sendo votada. Se fôssemos julgá-lo apenas sob o ponto de vista moral, sua obra de engenharia política ficaria em segundo plano. É surpreendente que tudo isto esteja no belo filme de Spielberg, que talvez não por acaso, com 12 indicações ao Oscar, foi perdendo fôlego nas apostas à medida que a premiação se aproxima. Talvez seja realista em excesso para os padrões em uso em Hollywood.
Argo, que vem agora encabeçando a lista de favoritos a melhor filme, parece ter esses ingredientes de cinemão que faltam a Lincoln. O filme trata da política externa americana contemporânea, o resgate de seis pessoas refugiadas na embaixada do Canadá, em Teerã. Quando a embaixada americana foi invadida e todos os seus funcionários se tornaram reféns, seis deles conseguiram escapar para a embaixada do Canadá e de lá foram tirados por uma ação mirabolante comandada pela CIA.
Aqui, a ação política é esculpida em termos de um cinema de ação inteligente, dirigido e interpretado por Ben Affleck. Ele mesmo é Tony Mendez, agente especializado em “exfiltração”, ou seja, em tirar gente de lugares difíceis. Bola uma falsa filmagem em território iraniano e faz os seis se passarem por integrantes da equipe de cinema. Apesar de abusar de alguns clichês do cinema suspense, Argo é bem interpretado, tem ritmo, é bem montado. Aliás, muito bem montado, com todas as ações paralelas envolvendo uma ação desse porte sendo mostradas ao espectador.
O outro exemplar de política externa é A Noite mais Escura, de Kathryn Bigelow, filme envolvente, mas que tem sido atacado mesmo nos Estados Unidos. A polêmica está em mostrar cenas de tortura que teriam contribuído para encontrar o paradeiro de Bin Laden, tido como inimigo público número 1 desde o ataque às Torres Gêmeas.
A personagem principal é Maya (Jessica Chastain), agente jovem que, apesar da aparência frágil, é durona como a diretora e leva a peito a caça a Bin Laden. Como filme de ação e tensão, A Noite mais Escura é bastante competente. Mas deixa algumas dúvidas sobre suas implicações éticas. Bigelow teria defendido a tortura como forma de obtenção de informações? Ela mesma se defendeu da acusação num artigo do Los Angeles Times. Diz, o que é verdade, que a representação de algo na tela não implica concordância do diretor. Certo, mas a maneira como o faz, talvez sim. Sua própria personagem, Maya, a princípio fica incomodada, mas, logo depois, ameaça um prisioneiro com o tratamento dispensado a eles na base americana. O ensaísta esloveno Slavoj Zizek (que vem ao Brasil para a série de conferências Fronteiras do Pensamento) viu o filme e entende que Bigelow “está aliada a uma normalização da tortura”. Lembra que, na linguagem dos agentes, tortura vira “método intensivo de interrogatório”, como se a linguagem politicamente correta limpasse o horror do ato. O filme contribuiria para rebaixar nossos padrões éticos, o que me parece uma observação justa.
De toda forma, tanto Argo como A Noite mais Escura, tão diferentes entre si, guardam um ponto em comum – a glorificação da CIA. Tão ironizada por ações atrapalhadas, ou execrada por liberais por intervenções em outros países (vários dos quais latino-americanos), na época da guerra ao terrorismo, a Central de Inteligência retoma seus direitos e ganha a homenagem de Hollywood. No momento em que a luta pela dominação se estende à fronteira islâmica, parece haver um subentendido de que guerra é guerra e que, portanto, todos os meios são válidos. Não há limites para a ação da CIA mesmo porque não existe algo como uma polícia supranacional para fazer cumprir o direito internacional. Basta lembrar que os EUA (e aliados) invadiram o Iraque, à revelia da ONU, a pretexto de buscar armas de extermínio de massa, nunca encontradas. O vale-tudo internacional está inscrito no DNA destes dois filmes.
Por isso, por paradoxo, os mais maduros e éticos de todos eles são os de Tarantino e Spielberg. Um, por denunciar uma ignomínia e revelar, sem pieguices, o gosto da revanche que se esconde no oprimido. O outro, por se tratar da história e da política interna, por revelar como mesmo uma grande causa humanitária precisa ser conduzida com a inteligência estratégica de quem persegue o bem comum acima de percalços e possíveis transgressões à letra da lei. Pois nem sempre o que é legal é justo.
O Brasil continua a terra da descontinuidade. Quer maior prova? O Festival de Paulínia, grande xodó do calendário cinematográfico brasileiro, acaba de ser suspenso. Não acontece este ano. Será que volta a acontecer?
É o cúmulo dos cúmulos. Paulínia, conhecida apenas por sua refinaria, entrou para o panorama cultural brasileiro com uma bem bolada estrutura cinematográfica. Um polo, uma escola de cinema, um festival rico, que acontecia num teatro magnífico, plantado no meio do nada.
O sonho durou pouco. Em ano eleitoral, parece que a prefeitura tem outras prioridades. E o festival dançou. É pena, muita pena. Poderiam fazê-lo talvez com menos dinheiro. Não precisava ser faraônico, com ás vezes o foi. Só o que não poderia haver era essa descontinuidade.
Foi uma tremenda bola fora. Tomara renda muito desgaste político a quem teve a infeliz ideia.
Abaixo, segue o press release da prefeitura, para justificar o injustificável.
Prefeitura suspende Festival de Cinema para priorizar investimentos na área social da cidade.
O prefeito de Paulínia, José Pavan Junior anúnciou na manhã desta sexta-feira (13), em coletiva, que neste ano não haverá a 5ª edição do Festival de Cinema, mas afirmou que todos os investimentos na Cultura continuarão a ser realizados. “Foi uma decisão muito difícil, mas tivemos que priorizar o trabalho social que vem sendo realizado na cidade. Suspender não significa acabar” diz o prefeito.
Pavan disse ainda, que Paulínia continuará a apoiar e investir nos longas e curtas produzidos no Polo Cinematográfico, Festival de Dança, Concertos, Peças de Teatro e na Formação e Capacitação dos 1200 alunos que frequentam o Espaço Cultura.
Segundo Pavan “as medidas foram necessárias para a economia do município, uma vez que a partir deste ano o Festival deveria ser 100% patrocinado por empresas privadas. Cerca de R$ 10 milhões que seriam investidos no Festival de Cinema, serão direcionadas para os trabalhos realizados na área social, como, construção de novas escolas, casas, saúde e nos programas do meio ambiente”.
Entendo a lógica da política.
Sou capaz de acompanhar o raciocínio de que a eleição para a prefeitura de São Paulo se tornou estratégica. Federalizou-se, segundo o jargão de quem entende das coisas. No local, joga-se o nacional.
Para o PT é fundamental vencer na cidade como parte da estratégia mais ampla de ganhar o Estado e assim acabar com uma hegemonia de 20 anos do PSDB.
Para este, trata-se de impedir o avanço de Lula e, baseado na rejeição da classe média paulistana ao ex-presidente e a tudo que ele representa, preservar esse bastião nacional do antipetismo. A entrada de Serra na disputa contra Haddad deve ser lida nesse contexto.
Então, é como se São Paulo, em si, não valesse grande coisa. Vale, e muito, como ponto estratégico, com vistas à definição do poder nacional.
É como se esse imenso desastre coletivo em forma de cidade fosse despersonalizado, tornado abstrato e coisas como a educação e a saúde deficitárias, moradia precária, poluição, enchentes, a especulação imobiliária, a extinção da vida comunitária, a violência cotidiana e o trânsito babilônico fossem dados de menor importância. Fala-se deles, claro, mas é como se não importassem de fato. Interessa o fato estratégico de que, quem domina a cidade, pode dominar o Estado e o País. E ponto final.
Pensei nisso voltando para casa num metrô abarrotado e sentindo pena dessas 11 milhões de pessoas que aqui se espremem sem ter quem olhe por elas.
É um show à parte ver um ídolo de Hollywood chegar ao Lido de Veneza. Os mortais vêm por terra; os deuses não descem dos céus, mas viajam em lanchas privativas. Foi assim que chegou George Clooney ao embarcadouro do Casinò, vetusta e imponente construção da primeira era fascista. Uma multidão de fãs e fotógrafos o esperava. Uns rivalizavam com outros numa gritaria digna de deixar a tietagem do Festival de Gramado no chinelo. Aqui estamos entre profissionais.
Clooney veio em companhia de parte do elenco e equipe do concorrente que abre a 68ª Mostra de Veneza, The Ides of March, que estreia em outubro no Brasil sob o título de Tudo pelo Poder. O filme é baseado numa peça de Beau Willimon, Farraguth North. O título original, “os idos de março” referem-se à data do assassinato de Júlio César em 44 a.C. por seu filho adotivo, Brutus, e outros conspiradores.
Tem tudo a ver com essa trama de bastidores políticos, interpretada e dirigida pelo próprio Clooney. Ele faz o governador Mike Morris, que disputa as primárias em Ohio e tem boas chances de se eleger presidente dos Estados Unidos. Mas o foco todo da história recai sobre o assessor Stephen Myers, numa bela composição de Ryan Gosling. Ao longo da campanha, Myers envolve-se com a estagiária Molly (Evan Rachel Wood) e também faz um aprendizado rápido do jogo sujo da política.
Na entrevista, Clooney disse que Não havia nada de novo naquilo que mostrava. “As coisas são assim desde Julio Cesar. Talvez seja uma consequência da nossa falta de saúde mental. Deveríamos ter feito o filme em 2007, depois houve Obama, e o filme era tão cínico, que o momento não era apropriado. Agora achamos que essa história voltou a ter o que dizer às pessoas.”
Ou seja, pode-se deduzir que seja o resultado de uma experiência de desilusão política. Ou, pelo menos, a desilusão com Obama tornou a obra atual tanto para o diretor como, supostamente, para o público norte-americano, o voto democrático que esperava mudanças radicais do primeiro presidente negro da nação.
Outro tema abordado é o da sedução como arma política. Ela se dá em diversos níveis. Por exemplo, a personagem de Evan Rachel Wood, é envolvente por si mesma. Sexo e política andam juntos, embora nem sempre combinem, ainda menos no pseudopuritanismo americano. Mas há outros tipos de apelo. Paul Giamatti diz que seu personagem Paul Duffy seduz apenas com as palavras. É ele quem tenta fazer Stephen mudar de lado no jogo sujo da campanha eleitoral. “A política toda é muito sexy na América”, diz o ator.
Um jogo perigoso, esse da coabitação entre política e sexo, tanto que um personagem diz a certa altura que “Você pode fazer quase tudo, aumentar impostos, roubar, levar seu país à guerra; só não pode transar com a estagiária”. Alusão a Clinton, mas a todo político pego em flagrante ou suposta escapadela sexual. O resto não interessa.
Esculpido numa dramaturgia convencional, porém sólida, Tudo pelo Poder é um drama político adulto, desencantado e realista. Muito bem interpretado naquilo que o cinema norte-americano tem de mais solidificado por décadas seguidas de produção sem descontinuidade. Convence. A peça foi escrita antes da era Obama e mesmo o filme foi planejado antes da sua eleição. Mas dele pode-se dizer que, na figura do assessor Stephen Myers, acompanha um processo de amadurecimento político. Processo que costuma vir pelas vias da desilusão e do sofrimento.
Jogo de Poder é um daqueles filmes que levam a marca de prestígio “baseado numa história real”. É curioso esse apego ao “real”, como se a ficção não fosse capaz de causar a mesma impressão de verdade no espectador. Em todo caso, aposta-se que tudo será mais impactante porque aconteceu de fato. O cinema passa a ser, então, mera transcrição de algo que existe fora dele, no exterior, algo que está inscrito na realidade das coisas mesmas. E “coisas”, aqui, se referem à História e, em particular, a fatos recentes e ainda bastante dolorosos para o público norte-americano consciente. Em poucas palavras, referem-se à farsa montada pelo governo Bush para justificar a invasão do Iraque em 2003.
O caso real a que se refere é ao da agente da CIA, Valerie Plame (Naomi Watts), que tem a vida ameaçada e a carreira destruída quando seu marido, o diplomata Joseph Wilson (Sean Penn), denuncia a farsa em artigo publicado no New York Times. Na matéria, Wilson põe a nu a manipulação de informações sobre a suposta existência de armas de destruição em massa, criada para justificar a invasão do país de Saddam Hussein.
O filme, dirigido por Doug Liman, coloca-se como exemplar típico do cinema político contemporâneo. Adota a estrutura de um suspense bem engendrado. Trabalhando com uma dupla de atores de fôlego e imprimindo ritmo tenso, Liman consegue prender a atenção do espectador do primeiro ao último fotograma, embora a aceleração às vezes dificulte a compreensão dos fatos. O que importa mesmo, como é de hábito nesse tipo de projeto, é a interseção entre a História e a vida pessoal dos protagonistas. Talvez aí haja algum exagero, como se o diretor não acreditasse na dramaticidade intrínseca dos fatos históricos e precisasse se apoiar numa crise de casal para dar mais colorido e vivacidade ao filme.
De qualquer forma, Jogo de Poder é mais uma celebração das virtudes da liberdade de expressão e informação. Na época, o governo Bush pôde mandar suas tropas ao Iraque, à revelia da ONU, mas montou uma farsa para justificar-se aos olhos da opinião pública. Quem cria uma farsa precisa sustentá-la. E isso é muito difícil, senão impossível, em ambiente de vigilância de uma opinião pública livre e sem o rabo preso. É um dos pontos de honra da cultura americana e o cinema não se cansa de louvá-lo – em histórias baseadas ou não em fatos reais – como pedra angular da democracia. Também parece ser tarefa do cinema mostrar que esse direito inalienável tem seu preço, que se paga às vezes com o sacrifício de vidas particulares. O preço da liberdade é a eterna vigilância, na frase atribuída a Thomas Jefferson.
Todos atribuem a queda de Emir Sader (na verdade nem assumiu) da Casa de Rui Barbosa à entrevista concedida à Folha de S. Paulo na qual classificou a ministra Ana de Hollanda de “meio autista”.
Quem assim pensa não está errado. Mas se esquece de que, uma semana antes, Sader havia concedido outra entrevista, bem mais substantiva, a O Globo. Nela, esmiuçava suas propostas para a Casa de Rui Barbosa, pretendendo transformá-la num centro de discussões que daria voz a personagens de esquerda sem vez nos meios de comunicação. Sader desejava ampliar as funções da Casa, tradicionalmente de preservação de acervo, politizando-a.
Esta entrevista não causou o mesmo frisson porque nela Sader não cometeu qualquer impropriedade verbal mais gritante. Quer dizer, não criou nenhuma boutade que permitisse citação fora de contexto e transformação em título chamativo do tipo “Ela é meio autista”.
Pelo contrário, ao invés de formular frases supostamente espirituosas, ocupou-se em defender ideias que devem ter repercutido fundo em setores, digamos, mais conservadores da sociedade.
O pulso dessa repercussão – negativa – pôde ser tomado com mais precisão na blogosfera do que na mídia impressa. Qual a novidade? Todo mundo conhece o passado e as ideias de Sader. E, para quem não conhecia, ele não as escondeu na entrevista a O Globo. Esse ideário é um resumo de tudo o que o pensamento liberal deseja ver morto e enterrado para todo o sempre. E, no entanto, essas ideias voltam, como voltam antigos sintomas, dizia o velho Freud a respeito das neuroses.
Como os sintomas, a queda de Sader deu-se em dois tempos. O primeiro foi o desta preparação de clima na entrevista a O Globo. O segundo, a gota d’água, a entrevista à Folha. Ou, mais precisamente, a frase infeliz dita no contexto da entrevista e que, tirada desse contexto, soou ofensiva.
É bem possível que por trás desse entrevero político estejam antigas discussões, latentes na cultura brasileira e em suspenso desde o final dos anos 1960. De um lado, há os setores mais conservadores e toda a sua ojeriza a qualquer tipo de discussão sobre o progresso social. É o pensamento dominante.
De outro, o confronto entre a velha esquerda mais tradicional e uma “esquerda” que se deseja mais contemporânea do mercado, da publicidade e, agora, da internet. Nos anos 60, essa cisão se deu entre a esquerda tradicional e os tropicalistas – Caetano à frente. O caso emblemático foi seu discurso de ruptura com a esquerda ao ser vaiado durante a apresentação de É Proibido Proibir, em 1968. Uma canção anárquica e libertária num quadro político no qual quem não era de esquerda era de direita.
Agora essa cisão retorna, se a tese procede, no panorama do início do governo Dilma, uma ex-guerrilheira que dá mostras de querer governar sem muitas marolas e sem a brigalhada política que caracterizou o segundo governo Lula. Por exemplo, em setores da blogosfera, Dilma foi criticada por comparecer ao aniversário de 90 anos da Folha, como se, presidente, devesse governar com os blogs e hostilizar os veículos que hostilizaram a candidata. O primeiro dever do político eleito é ser ingrato, dizia a velha raposa Tancredo Neves.
A cisão retorna, com os personagens envelhecidos e algumas ideias parecendo requentadas. Talvez seja interessante lembrar que boa parte daquela esquerda autoproclamada mais moderna virou-se alegremente para a direita e hoje ocupa cargos importantes no jornalismo ou exerce a função de intelectual a serviço do conservadorismo. Alguém, algum dia, teria de refletir a fundo sobre esse estranho fenômeno brasileiro: como o trotskismo de juventude pode servir de base para o pensamento de direita extremado da maturidade.
Enfim, essas discussões estão aí vivas e, ao que parece, a Casa de Rui Barbosa, em sua quietude secular, foi apenas o polo em torno do qual elas se manifestaram, ainda uma vez.
Assume agora o sociólogo Wanderley Guilherme dos Santos, um quadro tão qualificado quanto Emir Sader. Que tenha a sabedoria da discrição. Para realizar as coisas, no Brasil, convém medir as palavras. Melhor fazer do que falar.
Pronto, estamos às vésperas de mais uma Copa do Mundo e eis que sou obrigado a refletir sobre esta pergunta que não cala: afinal, de quem é a seleção brasileira? A frase, você já sabe, foi pronunciada por Dunga em uma das inúmeras coletivas de imprensa malcriadas que ele tem dado.
Um aviso: não estou mais a fim de pegar no pé do Dunga. Ele é o técnico, montou o time como bem entendeu e agora vai para o jogo. Pode-se discordar da escalação, mas só um louco poderia dizer, antes de a bola começar a rolar, que o Brasil não é um dos grandes favoritos ao título. Com um currículo de pentacampeão no bolso, e mais o privilégio único de ter participado de todas as Copas do Mundo, desde a inicial, em 1930 no Uruguai, até esta que se realiza pela primeira vez em continente africano, o Brasil seria favorito de qualquer jeito. É, ainda mais, com o retrospecto recente, de primeiro colocado nas Eliminatórias, de campeão da Copa América e das Confederações.
Então, passemos por isso, porque está fora de discussão – o Brasil está na África do Sul, não para participar, mas para disputar e ganhar o sexto título. Se vai conseguir, é outra história. Mas ninguém pode comandar esse time sem a ambição de levá-lo ao título. E essa fome, acho eu, o Dunga tem. Ele, a comissão técnica, os jogadores e mais os milhões e milhões de brasileiros que irão acompanhar aos jogos em suas casas, nos escritórios, nos telões e nos botequins.
E é exatamente esse respaldo de um país inteiro que impede alguém de chegar e falar em “minha’ seleção”. Dunga tem o comando. Convocou quem quis e escalou do jeito que preferiu. Pode fazer e desfazer. E nem mesmo assim a seleção será “dele”. Pelo simples motivo de que não se é proprietário de um patrimônio imaterial, e, portanto, inalienável. Gostemos, ou não, a seleção é de todos nós, em geral, e de nenhum de nós, em particular. Isso, no sentido mais profundo, vale para o torcedor do bar da esquina, para o sábio do futebol que assina suas colunas pronunciando verdades inamovíveis, vale para o Ricardo Teixeira e vale para o Dunga.
Foi sempre assim e em todos os países que têm no futebol o seu esporte nacional. O que não impediu poderosos de todas as épocas de tentarem se apropriar desse bem comum. Mussolini quis se identificar com a Azzurra de 1938, assim com o general Médici com a seleção brasileira de 1970 e o general Videla com a argentina de 1978. Nem por isso esses times históricos deixaram, de fato, de pertencer a quem de direito – aos povos da Itália, Brasil e Argentina, e não aos ditadores de plantão. Se esses tiranos de ocasião não conseguiram se apropriar do que não lhe pertencia, o que dirá um mero técnico de futebol? A seleção não é do Dunga, e nem mesmo dos jogadores que, ocasionalmente, vestem a sua camisa. Pertence ao patrimônio cultural da Nação. Por isso, por mais que tenhamos birra ou antipatia por este ou aquele personagem da cúpula dirigente, não conseguimos, de fato, torcer contra a seleção. Como em 1970 não conseguiram torcer contra aqueles militantes de esquerda que temiam a utilização política de uma eventual vitória pela ditadura. Porque sabemos, no íntimo, que a seleção nos pertence – e não aos figurões que nela mandam, ocasionalmente. “Eles passarão, eu passarinho” – dizia o grande poeta gaúcho Mário Quintana. Eles, os pássaros grandes, são transitórios, a seleção fica. Com tudo o que ela representa para cada um de nós e para o povo em seu conjunto.
Hoje anda na moda dizer que tudo isso não passa de futebol e que deveria ser encarado com um mero jogo, etc. Discordo. Se o futebol fosse apenas um jogo, não se transformaria nesse evento de dimensão mundial que nos mobiliza a todos. É que, através do jogo, as nações se olham e se medem entre si, numa prática esportiva que não é a guerra, mas é, sem dúvida, uma imitação da guerra, a sua sublimação em esporte e, no melhor dos casos, em beleza e arte. Daí a sua importância, que vai além das figuras pessoais, que podem ser maiores ou menores, mas são sempre transitórias.

No mínimo, um ótimo thriller político. Mas, com ele, uma bela reflexão sobre o poder e seus engodos. Tudo isso pode ser dito a respeito de O Escritor Fantasma, novo filme de Roman Polanski, que entra em cartaz na sexta. Mais ainda: à maneira dos romances à clef, ele também usa personagens ficcionais para falar de gente de carne e osso. Gente poderosa, que ocupou cargos importantes e tiveram papel, nem sempre muito nobre, na história mundial recente.
Um deles, por certo, é Adam Lang, vivido pelo ex-007 Pierce Brosnan. Ele é ex-primeiro-ministro britânico que está “escrevendo” suas memórias com a ajuda de um ghost writer. Lang, apesar da advertência clássica de que “todos os fatos e personagens são ficctícios, etc..”, lembra demais Tony Blair e sua participação na invasão do Iraque.
De qualquer forma, é nesse ambiente soturno que o escritor vivido por Ewan McGregor embarca. Sem emprego, topa a tarefa, aliás muito bem paga, e parte para o encontro com o político que, depois de deixar o poder, vive numa ilha isolada, nos Estados Unidos. Lá, McGregor descobrirá coisas inesperadas sobre o seu personagem, e também sobre seu antecessor na tarefa de ajudar o homem poderoso a escrever sua autobiografia.
Como acontece com os filmes de Polanski, também neste o domínio do clima e da tensão é total. Não basta ao cineasta ter uma boa história. É preciso trabalhá-la em termos de imagens, sons, fotografia e montagem para que dê certo na tela e envolva o espectador. É o que acontece aqui, sob a batuta de quem tem em seu currículo grandes obras como Chinatown e O Inquilino.
Mas também é interessante ver como Polanski maneja suas habilidades cinematográficas no sentido de conduzir uma reflexão madura sobre o poder e seu inevitável lado obscuro. A sociedade aberta e transparente é uma ilusão, mais uma promessa que uma realidade.
Segundo o Caudas Aulete, “continuísmo é a manutenção do poder político nas mãos das mesmas pessoas ou do mesmo grupo.”
Chamamos continuístas aos nossos adversários que estão no poder há mais tempo do que acharíamos suportável.
Se somos nós que estamos no poder, dizemos que se trata da continuidade de um projeto e não de continuísmo.
Quer dizer: continuísmo é a continuidade dos outros.
Foi mágica a noite de abertura do festival de documentários É Tudo Verdade. Plateia compacta no Espaço Unibanco da rua Augusta para ver Uma Noite em 67, dos estreantes Renato Terra e Ricardo Calil. Grandes e merecidos aplausos no final.
O filme é sobre o desfecho, em 21 de outubro de 1967, do III Festival da Record, no Teatro Paramount, rebatizado na época de Teatro Record Centro. Há quem diga que foi o festival dos festivais, o maior de todos. Foi o festival que consagrou Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, como vencedor. Foi o festival de Chico Buarque e Roda Viva. Foi o festival da “violada” no público, aplicada por Sérgio Ricardo, que não suportou as vaias ao seu Beto Bom de Bola. Foi o festival de Caetano Veloso, com Alegria, Alegria, e de Gilberto Gil, com Domingo no Parque. Foi o festival da MPB “pura” contra a guitarra elétrica. Um Fla-Flu.
O filme faz uma excepcional prospecção de imagens da época e acerta ao preservar as apresentações completas dos concorrentes, trazendo de volta todo um clima da plateia. Clima incandescente, para dizer o mínimo.
Traz também as entrevistas dos concorrentes, feitas pelos apresentadores Randal Juliano e Cidinha Campos nos bastidores. Há cenas da plateia, que aplaudia de maneira frenética os favoritos e vaiava, impiedosa, quem não gostava.
Acerta ao entrevistar, no presente, alguns dos protagonistas da época: Sérgio Ricardo, Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo. São depoimentos preciosos, de reavaliação de um tempo quente e urgente e radical como aquele.
O festival expressou, e o filme contempla esse fato, cisões musicais importantes: de um lado a música politizada e “pura” em seu nacionalismo de esquerda: Ponteio, Roda Viva. De outro, a abertura criativa para o pop com Domingo no Parque e Alegria, Alegria. A raiz brasileira x a mistura eletrônica com o rock. Naquele tempo era uma coisa ou outra. Houve até uma passeata contra a guitarra elétrica, liderada por Elis Regina e da qual um constrangido Gilberto Gil participou.
O festival expressou também, mas nesse ponto o filme é menos incisivo, outra cisão que ocorria na sociedade brasileira entre o regime militar e a resistência a ele. O público dos festivais, pelo menos aquele que ia ao teatro, era, em sua maioria, universitário, de oposição ao regime. Canalizava (ou sublimava) sua energia nas canções que julgava melhor representar a sua luta, mesmo que os concorrentes não pudessem, de maneira maniqueísta, ser chamados como “reacionários”, como conviria a uma luta entre o “bem e o mal”. Edu ganhou porque Ponteio era mesmo ótima música, mas também porque continha uma “mensagem” revolucionária implícita em sua letra. Além disso, era nacionalista em seu arranjo e forma de expressão. Caetano e Gil não eram “entreguistas” em sua abertura para o pop. Mas não eram tão facilmente assimiláveis à “luta” como Edu e Vandré, por exemplo. Basta lembrar que, pouco tempo depois, Caetano e Gil foram presos e tiveram de seguir para o exílio.
Num festival seguinte, o III Festival da Canção, da Globo, a cisão ficaria ainda mais clara entre a engajada Prá não Dizer que não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, e a linda canção do exílio Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim. A música de Chico e Jobim podia ser ótima e sofisticada, e era tudo isso mesmo, mas a de Vandré, em seus dois acordes, converteu-se na “nossa Marselhesa”, como bem a definiu Millôr Fernandes. Cresceu no seio do povo e passou a ser cantada em passeatas e atos públicos. Virou uma música de rua. Transformou-se num hino da resistência em tempos sombrios.
Os festivais, durante certo espaço de tempo, canalizaram paixões políticas expressas através da música. Tudo andava junto e nunca essa união entre cultura e política foi tão intensa. Foi um momento raro na história brasileira e os festivais, concebidos por empresários que queriam apenas garantir um bom show e ganhar dinheiro, se transformaram em outra coisa. Dá gosto reviver esse tempo, ainda que, no filme, talvez por receio de didatismo, essa ligação entre a arte e seu momento histórico não seja costurada por inteiro.
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