ir para o conteúdo
 • 

Luiz Zanin

29.janeiro.2012 22:10:48

Messi e os argentinos

Até onde vai Lionel Messi? Ninguém pode saber, mesmo porque seus fãs de carteirinha entendem que ele não precisa provar mais nada. Melhor jogador do mundo por unanimidade, ganhador por três vezes seguidas da Bola de Ouro da Fifa (fato inédito), Messi já se estabeleceu como o grande jogador da nossa época. Um tipo ideal. Um patamar elevado, a partir do qual se medem os outros. Não há contestação quanto a isso.

O que gera polêmica é a pergunta que abre este texto. Porque refletir sobre até onde Messi ainda pode ir leva a comparações com outras épocas e outros jogadores. Do seu tempo, Messi já é dono absoluto. Agora, começa a ameaçar o tempo e o espaço dos outros. Será um dia seriamente comparado a Pelé, por exemplo? O Rei entrincheira-se em suas estatísticas monstruosas: “Quando ganhar três Copas do Mundo e fizer 1283 gols, voltamos a conversar”. Ponto. Como dele disse o cronista Paulo Mendes Campos, “Pelé é um problema sem solução”. Então não conta. Está fora dos termos de comparação e é melhor deixá-lo em paz.

Mas há Maradona. Diego Armando Maradona, até agora tido como o melhor jogador argentino de todos os tempos e objeto de adoração em seu país, onde existe até mesmo uma folclórica “Igreja Maradoniana”, com seus ritos e devotos. Se Lionel ultrapassar esse limite, e um dia destronar dom Diego, poderá também ser adorado num altar pelos fanáticos.

Mas, até lá, terá de comer muita bola – no bom sentido do termo, claro. Mesmo porque, Messi não é unanimidade na Argentina. Pesa contra ele o fato de ter saído ainda garoto para ser adotado por um clube do qual não pretende sair, como declarou recentemente. “Fico no Barcelona até quando me quiserem por aqui”. E quem não vai querer um Messi? Foi o Barcelona que o acolheu criança ainda e financiou o tratamento da deficiência hormonal que dificultava seu crescimento. Para todos os efeitos, Messi vem das categorias de base, da “cantera”do Barça. Mora na Espanha desde os 13 anos. É, na prática, um espanhol.

Ou será que não? Ouçam-no falar e escutarão o mais puro sotaque dos nossos hermanos. Carregado mesmo, forte como que de propósito. Em qualquer outra circunstância, um menino criado na Espanha teria acento original menos nítido. Não Messi. Ele parece cultivar o “argentinês” como um signo de identidade cultural. A dizer que continua argentino, e por escolha própria. De fato, poderia ter optado pela seleção espanhola. Preferiu a argentina.

Só que a escolha pela nacionalidade argentina, a expressão oral preservada, o futebol excepcional que exibe pelos campos do mundo, nada disso por enquanto o tornou amado por completo em seu país de origem. Por que será?

Talvez – é uma hipótese – ainda não nos tenhamos habituado por completo ao futebol dito globalizado, no qual dificilmente os jogadores sul-americanos mais habilidosos permanecem em seus clubes e países de origem. Maradona teve toda uma história no futebol argentino, inclusive no popularíssimo Boca Juniors, antes de triunfar no Napoli. E levou sua seleção à conquista da Copa do Mundo em 1986, com algumas partidas de antologia, inclusive os dois gols contra Inglaterra, em jogo de alto significado, que simbolizava a revanche da Guerra das Malvinas. Tudo isso sedimenta a imagem de um craque no coração da sua gente.

Essa ligação, Messi ainda tem de construir. Até agora não jogou pela seleção argentina o que rende pelo Barcelona. Não importa dizer que na seleção não tem ao seu lado Xavi e Iniesta, e não tem, acima de tudo, o fabuloso entrosamento que torna o time catalão a máquina azeitada, que conta justamente com ele, Messi, como ponto de desequilíbrio a vergar o mais tinhoso dos adversários. O torcedor não quer saber.

E não serão palavras, ou sotaques, as pedras para construir esse elo mágico com seu povo, essa aura que transforma o craque em mito: apenas os atos têm esse poder. Atos que, no caso de um jogador, são as grandes conquistas. Daí que Messi tem em 2014 a sua grande oportunidade. Se com grandes atuações e lindos gols conduzir seu país à vitória na Copa do Mundo, e ainda por cima no país do maior rival, todas as resistências a Messi cairão.

Campeão do Mundo, e no Brasil, o pequeno Lionel ganhará o seu templo. Que tal uma Igreja Messiânica? Provavelmente com sede em Rosário, sua terra natal, a mesma de um certo Ernesto Guevara de la Serna. Que também fez carreira no exterior.

(Aliás, 29/1/2012)

comentários (4) | comente

RECIFE – Olá, amigos: um post rapidinho (a quick one) só para dizer que estou no Recife para a cobertura do Cine PE, festival que vi nascer (fui júri no primeiro ano) e tenho acompanhado ao longo das edições sucessivas. À medida que as coisas forem acontecendo por aqui, você vai saber neste blog. E, claro, no Caderno 2, pelas matérias que vou enviar.

Hoje é a abertura, no Cine Teatro Guararapes, com direito a homenagem ao melhor de todos os tempos – Pelé. Sim, um festival de cinema pode prestar seu tributo ao Rei, mesmo ele não repetindo, nas telas, o que fazia em campo. Mas como isso seria possível?

Para traçar essa trajetória, o documentarista Evaldo Mocarzel entrevistou Pelé e incluiu em seu filme cenas de suas atuações em filmes como Fuga para a Vitória, Pedro Mico e Os Trombadinhas. Entre elas, uma cena erótica que Pelé teve a maior dificuldade em realizar, inibido que estava pois sua partner era a própria mulher do diretor do filme. O doc, chamado Cine Pelé, será apresentado hoje à noite.

Acabei de falar com o diretor do festival, Alfredo Bertini, e ele me disse que o Rei está a caminho, em voo fretado.

1 Comentário | comente

pele_70

 

Dia 23 de outubro Pelé completa 70 anos. Com a aproximação da data, o mercado editorial faz festa antecipada e já começa a lançar livros sobre o Rei do Futebol. Pelé 70 (Editora Realejo e Brasileira, 160 págs., R$ 149,90) contém um magnífico álbum de fotos, além de textos de escritores boleiros como Xico Sá e José Roberto Torero, entre outros. Amanhã, os dois participam de mesa-redonda para o lançamento do livro na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915), às 19h30. A Cosac Naify não fica atrás e coloca no mercado a autobiografia Pelé – Minha Vida em Imagens (100 págs., 109 ilustrações, R$ 140). Para as crianças (afinal, foi para elas que o Rei dedicou o milésimo gol), o selo infantil Companhia das Letrinhas traz Por Amor ao Futebol! (48 págs, R$ 29), livreto simpático, com ilustrações de Frank Morrison.

 

Os lançamentos, de certa forma, expressam a dificuldade de abordar uma personalidade como a de Edson Arantes do Nascimento. Pelé, primeira figura midiática da era do futebol, o mais completo praticante desse jogo e detentor de recordes imbatíveis nesse esporte, é figura abrangente demais para se deixar aprisionar em textos, por melhores que sejam. Há sempre algo que sobra – ou falta – a cada vez que se escreve sobre Pelé. Se muito sóbrios, ficamos irremediavelmente aquém do personagem; se tentamos acompanhá-lo em sua grandeza, corremos o risco do derramamento ou da pieguice. O meio-termo ainda não foi encontrado.

Daí que o recurso natural seja a autobiografia – e este é o caminho trilhado por Pelé – Minha Vida por Imagens, que se aproveita do texto publicado no original em inglês pela Simon & Schuster em 2006 e aqui lançado anteriormente pela Editora Sextante. As novidades da Cosac Naify são as imagens, algumas raras, e o formato scrapbook – itens de colecionador que podem ser destacados, como fac-símiles do ingresso da despedida definitiva do Rei num amistoso entre o Cosmos e o Santos, quando jogou um tempo para cada equipe; ou da carteirinha do então garoto na Liga Bauruense de Futebol, de 1956. Relíquias materiais de uma carreira transformada em mito.

E quem não conhece os passos principais dessa trajetória? Em breve resumo, pode-se lembrar que Edson Arantes do Nascimento nasceu em Três Corações, Minas Gerais, em 23 de outubro de 1940. Família pobre, pai jogador, um centroavante de apelido Dondinho, cabeceador emérito que passou a vida enfrentando problemas no joelho. Dondinho foi modelo e primeiro professor de bola do futuro Rei. Cedo, a família se muda para Bauru, no interior de São Paulo, onde Pelé desperta para o futebol. É levado para o Santos Futebol Clube com 15 anos de idade e começa sua ascensão meteórica. Campeão do mundo aos 17 na Suécia, bicampeão em 1962, tri no México. Números espantosos: em 22 anos de carreira, conquista 53 títulos – sendo cinco de campeão do mundo, três pela seleção, dois pelo Santos. Onze vezes campeão paulista, sendo o primeiro título em 1958, o último em 1973. Ao longo desses anos, marcou 1.281 gols em 1.363 jogos.

Há alguma disparidade (não muita) entre os números, e uma das boas novidades de Minha Vida em Imagens é a relação completa dos gols de Pelé, jogo a jogo, discriminando data e adversário de cada um. Pelas últimas pesquisas, os números atualizados ficam assim: 1.283 gols em 1.367 jogos. A última partida de Pelé foi entre Cosmos e Santos. E o gol derradeiro, por ironia, ele marcou contra o Santos, seu time de toda a vida, no qual permaneceu 18 anos antes de embarcar para Nova York e assinar com o Cosmos, isso depois de haver se despedido oficialmente do futebol.

As cifras impressionam. São insuperáveis. Mas, se uma existência comum não cabe em estatísticas, o que dizer de uma vida como a de Pelé? Números não descrevem o essencial – a aura mágica que o cercava ao jogar. Mesmo antes de ser “coroado” pelos jornalistas franceses, Pelé, menino, exalava realeza.

Magnetismo. Nelson Rodrigues, que compreendia o futebol como ninguém, ao vê-lo no Maracanã, sentiu no ar esse magnetismo ímpar. Viu que o garoto já arrastava atrás de si um manto imaginário e estava de posse de um cetro e uma coroa simbólicos. “Perguntem a ele quem é o melhor do mundo, e responderá: “é o Pelé”.” Essa autoconfiança abusiva, adivinhada pelo cronista, é que permitiu ao novato riscos como aplicar um chapéu no zagueiro dentro na área e mandar a bola para as redes antes que tocasse o chão. Era o gol contra o País de Gales, primeiro dos 95 marcados pela seleção.

Daí em diante, as proezas se sucederam e eram repetidas a cada jogo que alguns privilegiados tiveram a sorte de assistir ao vivo. As imagens estão aí para que os incrédulos confiram. Em muitos sentidos, elas são melhores que as palavras para “falar” de alguém que elevou o futebol à condição de arte suprema. Palavras, mesmo, só as de Drummond, que escreveu sobre o milésimo gol: “O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols como Pelé. É fazer um gol como Pelé”.

(Caderno 2/Domingo, 23/5/10)

sem comentários | comente

25.abril.2010 13:31:01

A virada do futebol-arte

neymar1

Depois de anos sendo definido de forma pejorativa como “romântico” (isto é, distante da realidade), ultrapassado em tempos pragmáticos, eis que o futebol-arte volta a ganhar as manchetes das editorias de esporte. Vem turbinado por dois fenômenos atuais – o Barcelona e o Santos. Guardadas proporções e diferenças, ambos praticam o jogo de maneira criativa e esteticamente agradável. Vê-los é uma festa para os olhos e não apenas pela criatividade de um Messi ou de um Neymar, mas pelo brilho do jogo coletivo que praticam. E assim como o Barcelona tem seguidores no mundo todo e não apenas na Catalunha, o Santos desperta admiração não somente em sua própria torcida, mas entre os adversários e aficionados sinceros do esporte – quer dizer, entre todos aqueles que gostam do futebol bem jogado e apreciam a sua beleza, para além das paixões nacionais ou clubísticas. O futebol-arte é a pátria dos que amam esse esporte.

Outros times, ao longo do tempo, mereceram esse tipo de admiração. O Real Madrid de Di Stéfano jogava por música, assim como o Santos de Pelé. Algumas seleções marcaram época por seu jogo bonito, como a Hungria de 1954, a Holanda de 1974 e o Brasil de 1958 e 1970. Sobre esta última, o historiador Eric Hobsbawm disse que, quem a tinha visto jogar, não poderia mais negar ao futebol a qualidade de uma grande arte. Eram times que encantavam e provocavam suspiros nos espectadores. A estreia de Pelé e Garrincha contra a União Soviética em 1958 produziu páginas de admiração de vários cronistas. Poderíamos invocar Nelson Rodrigues, mas este era brasileiro, nacionalista e hiperbólico. No entanto, um escritor neutro, testemunha do jogo, registrou que, naquele início de partida, o Brasil havia produzido os cinco minutos mais frenéticos da história do futebol mundial. Foi quando o time, comandado no meio de campo por Didi, e tendo os estreantes Garrincha e Pelé no ataque, liquidou com os russos e seu “futebol científico” com uma sucessão de investidas fulminantes. Foram duas bolas na trave em questão de minutos de jogo, produtos de dribles e passes mágicos, em velocidade e fluência estonteantes. O Brasil ganhou o jogo por 2 a 0. Fora o baile, segundo cronistas.

O futebol-arte pode existir em vários países, mas talvez o Brasil seja, ou melhor, foi um dia, seu praticante mais assíduo. Aqui floresceu o beautiful game, fruto de um trabalho cultural que adoçou e arredondou o rígido jogo britânico com a ginga, a finta, o passe em curva, o jeito sutil de bater na bola. Gilberto Freyre descreveu esse processo de aculturação no prefácio de O Negro no Futebol Brasileiro, livro clássico de Mário Filho. Nele, evoca a contribuição da capoeira e do samba no abrasileiramento do jogo da bola pela miscigenação afro-brasileira. Mesmo que se relativize essa tese, subsiste, até hoje, a ideia bem razoável de que o caldeirão étnico sul-americano mostra-se mais propício à produção de craques esfuziantes como Maradona, Pelé, Garrincha e Messi, ficando os europeus com a racionalidade do jogo, sua organização mercadológica, disciplina tática e marcação defensiva rígida, que são de fato os seus pontos fortes.

Como toda dicotomia, esta também tem seus limites. Todo futebol-arte, ofensivo por definição, também precisa marcar, ao menos para recuperar a bola e poder tratá-la bem, assim como o futebol-força precisa manter uma dose mínima de invenção, ao menos para surpreender o adversário de vez em quando e ganhar os jogos. Mas é claro que, se esse tipo de maniqueísmo futebolístico precisa ser evitado, também não se pode negar que existam diferenças – e bem evidentes – entre as escolas e estilos do futebol.

Em 1970, o ensaísta, poeta e cineasta (e também jogador nas horas vagas) Pier Paolo Pasolini, impressionado com a seleção brasileira que ganhou o tricampeonato no México, cunhou a distinção entre o “futebol de prosa”, europeu, e o “futebol de poesia”, brasileiro. Futebol de poesia: a expressão parece particularmente feliz para descrever jogadas como as que foram vistas naquela Copa: um genial drible de corpo no goleiro, uma tentativa de gol de longa distância, passes milimétricos e em curva, mudanças surpreendentes de posição no campo de jogo, etc. Pura “poesia”. Deslocamento do sentido original que, como no poema escrito, produz impressão de surpresa e arrebatamento. Epifania, aquele tipo de iluminação estética que pode ser provocada por um verso de Rimbaud ou por uma finta de Pelé. Já o futebol de prosa funciona pelo rigor matemático dos passes retilíneos e as triangulações com que seus praticantes se aproximam do gol adversário. Pode ser belo, também.

O futebol-arte venceu em inúmeras ocasiões e perdeu em outras. Para ficar apenas na seleção brasileira, ganhou nas Copas de 1958, 1962 e 1970. Perdeu na de 1982, com aquela maravilhosa equipe de Sócrates, Falcão, Zico & Cia derrotada pela Itália de Zoff, Paolo Rossi e Gentile. Não era mau time, esse da Itália, e acabou campeão do mundo. Jogava seu futebol de prosa com extrema eficiência. O problema é que essa derrota brasileira funcionou como argumento definitivo para os defensores do futebol de resultado. Como se, em uma única partida, o futebol-arte tivesse ruído e sido condenado à obsolescência para todo o sempre. A partida, jogada no Estádio de Sarriá, em Barcelona, foi um divisor de águas, senha para uma nova mentalidade que ganhou corpo com a vitória do futebol pragmático da seleção brasileira em 1994, da qual fazia parte o técnico Dunga.

E não é que, quando se supunha morto e enterrado, o futebol-arte revive? E, além de reviver, passa a ganhar títulos? É o caso da seleção da Espanha que, com seu jogo vistoso e ofensivo, torna-se campeã da Eurocopa em 2008. Caso do Barcelona, atual campeão europeu de clubes. E do Santos, com seus moleques geniais, que se aproximam do primeiro título de suas vidas profissionais. Sem nunca ter morrido de fato, o futebol-arte reaparece e, para surpresa de muitos, mostra-se eficiente e vencedor. Sugerindo que talvez não haja contradição entre um certo romantismo e a obtenção de resultados. Como se para fazer boa prosa fosse também preciso ter alguma queda pela poesia.

Talvez por isso uma eventual convocação dos meninos do Santos, Neymar e Paulo Henrique Ganso, não seja propriamente uma concessão feita ao clamor público, mas necessidade prática para Dunga. Isso se quiser ganhar a Copa da África. Com futebol-arte, que é como nós preferimos.

comentários (4) | comente

22.março.2010 16:06:34

O som e a bola

1977 - Pelé no Cosmos de Nova2 York - o mundo é uma bolaSom e bola – essa dupla de classe tinha tudo para dar certo no Brasil. E deu. A tabelinha está registrada em “Futebol no País da Música” (Panda Books) do jornalista Beto Xavier. Ao longo de 276 páginas, Beto, que cobriu como profissional inúmeros festivais da canção e é torcedor do Grêmio de Porto Alegre, refaz essa história feliz da música que comenta o esporte favorito dos brasileiros.

Uma relação que começou lá atrás, como ele registra em pesquisa que lhe custou 15 anos de trabalho, e aponta o choro “1 a 0″, de Pixinguinha, como uma espécie de marco inicial, não apenas pela importância da música em si, mas pelo fato de comemorar a primeira grande conquista internacional do Brasil. Com esse placar miúdo sobre o Uruguai, gol do mitológico Arthur Friedenreich, a seleção ganhou o Campeonato Sul-americano de 1919, em partida dramática no Estádio das Laranjeiras, que levou o País ao delírio. Comovido, Pixinguinha compôs a música em homenagem ao escrete e deu-lhe o apertado placar como título.

“1 a 0″ pode ser a pedra fundamental desse relação. Mas há quem diga que ela começou antes. “Há uma música chamada Amadores da Pelota, de 1912, cuja gravação se perdeu”, conta Beto em conversa com o Estado, “e não há certeza de que se referia mesmo ao futebol, pelo que pesquisei em arquivos.” Assim, pouco se conhece dessa pré-história da relação entre música e futebol no Brasil.

Em todo caso, a história, propriamente dita, é riquíssima, quase inesgotável, como testemunhou o pesquisador em seus vários anos de trabalho. “O livro cita mais de mil músicas relacionadas ao futebol, e isso porque nem prestei tanta atenção assim aos hinos dos times, porque senão o trabalho seria inesgotável”, diz. Isso porque o mais pobre dos times de esquina pode nem ter um jogo de camisas decente, mas tem seu hino. Como são milhares espalhados pelo País, seria inviável conhecê-los e listá-los. Mesmo alguns grande clubes têm mais de um hino, como é o caso do Santos, cuja música mais cantada pela torcida, Leão do Mar, sequer é o oficial do clube.

No capítulo hinos, claro, o destaque do livro vai para Lamartine Babo, que compôs a música-tema para cada um dos clubes do Rio de Janeiro, produzindo obras-primas em série. Lalá reservou o melhor de todos ao seu clube do coração, o América Futebol Clube. É um plágio, dizem.

A música dita erudita também não ficaria de fora do mundo da bola. Mesmo porque existe um vínculo de origem interessante entre os dois universos, com o casamento de Charles Miller, pioneiro do futebol no Brasil, e a pianista clássica Antonieta Rudge. Antonieta foi professora do compositor Gilberto Mendes (colunista do Estado), que criou uma magnífica peça de música contemporânea em honra ao seu time, chamada Santos Football Music.

Sim, há os hinos, marchinhas, frevos e peças eruditas que falam de futebol. Mas a pátria musical da bola seria mesmo o samba. “Não por acaso, essa relação se solidifica entre os anos 20 e 30, quando o futebol caminha para o profissionalismo, o samba vive sua época de ouro e a Rádio Nacional difunde ambos para todo o País”, explica Beto a respeito desse círculo virtuoso.

Como o samba e o futebol passam a ser as paixões nacionais, parece natural que conversem entre si. Mesmo o reticente Noel Rosa faz alusões – em Conversa de Botequim, quer saber do garçom “qual foi o resultado do futebol”. Noel não entregava seu time. Mas dizia torcer para o clube em que jogava Fausto, a Maravilha Negra. Ou seja, o Vasco. E assim todos os clubes ganharam músicas em homenagem. Mas, compreensivelmente, nenhum deles como o Flamengo no Rio, e o Corinthians em São Paulo.

Jogadores também foram lembrados, como Sócrates, Pelé, Garrincha, Júnior, Zico, Fio Maravilha. Muitos deles retribuíram a cortesia e tornaram-se cantores. Se não exibiam no gogó a mesma competência mostrada em campo, pelo menos deixaram seus registros vocais. O rei Pelé chegou a gravar com Elis Regina, rainha da MPB em sua época. Como Charles Miller e Antonieta Rudge na época clássica do futebol, Garrincha e a sambista Elza Soares sacramentaram em casamento a união simbólica entre música e futebol na era moderna.

Nem toda relação entre música e futebol teve final feliz. Em 1967, Sérgio Ricardo resolveu investir seu talento nessa área. Mas a indócil plateia do Festival da Record não tolerou seu Beto Bom de Bola e, com uma tempestade de vaias, o impediu de cantar. Revoltado, Sérgio quebrou o violão e o atirou à plateia. O ato entrou para a história dos festivais. E da música. Bola dividida também faz parte do jogo.

(Caderno 2, 22/3/2010)

comentários (5) | comente

02.março.2010 09:40:52

Faltou um Zito

Domingo, na Vila, um torcedor um pouco mais veterano, suspirou: “Por isso é que aquele time dos anos 60 era grande; além de bom de bola, jogava com seriedade o tempo todo.” A bronca veio num momento do jogo em que o Corinthians já tinha perdido dois jogadores por expulsão e o jovem time do Santos, ao invés de aproveitar a oportunidade e meter uma goleada histórica, ficou tocando a bola de lado e fazendo firulas em campo.

Vamos dar o desconto: torcedor do Santos, em especial os que viram Pelé, Coutinho & Cia ao vivo e em cores, é rabugento mesmo. Nunca está satisfeito com nada, o que acaba ficando chato, pois, no limite, mostra-se incapaz de curtir a beleza deste time que surpreende a todos – até mesmo a este cronista que, no começo do ano, apontou o Santos como a quarta força do futebol paulista. Mea culpa, mas como adivinhar que time tão jovem daria liga em tão pouco tempo? Surpresas – agradáveis – do futebol.

Mas há um lado verdadeiro na bronca do torcedor – que, aliás, não foi exclusiva dele, pois uma boa parte da torcida que estava na Vila Belmiro se irritou durante os 20 minutos finais do jogo, quando o Santos tinha superioridade no marcador, dois jogadores a mais e deixou um Corinthians valente quase empatar o jogo. Eles exageraram e foram pouco objetivos. Teria sido um castigo cruel, mas talvez funcionasse como lição interessante para os meninos. E que lição é essa? Não se brinca impunemente com o futebol. Ou, como dizia certo técnico mal-humorado: a bola pune. Talvez naquele momento de dispersão, quando devia ir para cima do adversário enfraquecido e liquidar a parada, tenha faltado ao Santos um Zito, um grande comandante para botar ordem na casa e recolocar o time nos eixos quando começa a descarrilar.

Era o que fazia o capitão daquele time inesquecível. Cercado de cobras criadas por todos os lados, grande jogador ele próprio, cabia a Zito passar descomposturas em quem saísse da linha. O próprio Pelé ouvia de cabeça baixa o que o capitão tinha a dizer. Um líder desse tipo não inibe ninguém; pelo contrário, facilita a vida da molecada que encontra nele um ponto de referência, quase uma figura paterna. O problema é um só: onde achar um Zito hoje em dia?

Em falta de um líder dessa qualidade, o jovem Santos vai caminhar no fio da navalha: como encontrar o limite certo entre o talento, que produz o futebol arte, e a soberba, que pode botar tudo a perder? Ninguém deve podar a irreverência desses garotos, que estão jogando o fino da bola. Mas alguém tem de dizer a eles que o grande espetáculo precisa de uma conclusão à altura – a bola no fundo da rede. Caso contrário é só espuma. Cabe a Dorival Jr., que está fazendo um grande trabalho com esse time, explicar aos jovens esse fundamento maior do jogo. Você respeita um adversário quando faz nele o máximo de gols que puder.

INFÂNCIA BRASILEIRA

Além de Neymar, Ganso e André, outro menino chamou a atenção neste fim de semana: Wellington Silva, do Fluminense. O garoto fez um dos gols na vitória sobre o Friburguense e, na entrevista, chorava a ponto de dar dó. Minha mulher, ao ver a emoção do moleque, também puxou o lencinho. Enfim, era uma cena de novela mexicana – no bom sentido, é claro. Eu via no menino um pouco da fisionomia de Pelé quando surgiu, um pouco da de Robinho e também me comovi. Depois, a emissora informou que Wellington tem 17 anos, já foi comprado pelo Arsenal e segue para a Inglaterra quando completar 18. Nesse ponto, quem teve vontade de chorar fui eu.

(Coluna Boleiros, 2/3/2010)

comentários (10) | comente

Arquivo

Seções

Blogs do Estadão