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Luiz Zanin

09.abril.2013 11:05:27

O jogo do sobe e desce *

Domingo preparei-me para ver a Ponte Preta dar um baile no Palmeiras. Certo, há o peso da camisa e, entre os dois clubes, uma senhora diferença em termos de títulos ganhos. Para começar, o Palmeiras é octocampeão brasileiro. Nada menos. Mas, como diz o jargão, futebol é momento. E, no momento, a querida Macaca joga muito melhor. Aliás, acho que é o time mais acertado do campeonato. Mais que todos os chamados grandes. Palmeiras incluído.

Além do mais, o Palmeiras vem tendo uma trajetória das mais acidentadas. Irregular, apenas para usar um termo ameno. Ainda mais que entrava em campo no reduto adversário e sem alguns dos seus titulares. No entanto, o que se viu foi um time que mereceu amplamente a vitória por 2 a 1. Com ela, se credencia para o seu próximo compromisso, contra o Libertad, do Paraguai, na quinta, pela Libertadores.

Quem diria que, depois de goleado por 6 a 2 pelo Mirassol, o Palmeiras viveria a bonança atual? Ninguém, que eu saiba. A pergunta que o torcedor se faz, no entanto, é outra, e mantém viva uma ponta de desconfiança: até quando os bons tempos vão durar?

Ninguém pode responder ao certo. A julgar pelo que se viu no Moisés Lucarelli, o treinador Gilson Kleina encontrou uma formação bastante próxima do ideal (mesmo se admitirmos que o ideal só exista na nossa cabeça, nunca na vida real). Mas também não é preciso mistificar. O que vimos foi um time esforçado, com muita disciplina tática e aplicação.

Virtudes que anularam o melhor toque de bola da Ponte que, também vamos reconhecer, está acima dos outros mas não chega a ser nenhum Barcelona. Destaca-se, mas no nível médio pífio apresentado até agora pelo Paulistão.

Enfim, uma montanha-russa como a que tem sido vivida pelo Palmeiras só é possível num esporte como o futebol. Não é que não tenha lógica, mas a lógica do futebol parece ser diferente daquela do dia a dia, da chamada lógica aristotélica, que funda o nosso senso comum. O bom senso nos diz que um time melhor do que o outro sempre ganha. Pela experiência, que contradiz a lógica, sabemos que em geral isso acontece mesmo. Mas nem sempre. E vivemos na expectativa da exceção. Esperamos pelos casos, nem tão raros assim, em que um time superior perde de um inferior.

Mas mesmos esses termos – superior e inferior – são insatisfatórios. O que significam, de fato? Em geral, que um dos times tem jogadores mais famosos e bem pagos que o outro. Ou um técnico conhecido, já dono de vários títulos. Ou uma camisa de tradição. Pois bem, tudo isso pode ser anulado por um adversário de menos nome, que esteja num dia de sorte, ou tenha a inteligente humildade tática para anular o mais forte. O terrível, no caso do confronto de domingo, é que o Palmeiras tenha sido o azarão e não o contrário.

No entanto, é essa instabilidade que garante emoção ao futebol. Mesmo quando tão mal administrado como o nosso.

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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15.janeiro.2013 09:46:04

Chegou o Paulistão *

Para os fãs do futebol brazuca é como o fim de um exílio. Sábado começa, enfim, o Campeonato Paulista. Fim da estiagem futebolística. Sei, vão me dizer que os campeonatos europeus continuam à toda e que mesmo a Copinha já está rolando. Certo. Mas a Copinha, a meu ver, só começa a ficar interessante quando surgem os mata-matas. E, quanto aos europeus, tenho por eles uma curiosidade longínqua, de espectador, que não atenua de modo alguma minha fome de bola. Não têm sustância, como se diz no interior. Vejo, mas não me comove. Não é comigo.

Agora, quando entram em campo os quatro grandes de São Paulo, e também os times do interior, cujos nomes aprendi em criança, começo a me sentir em casa de novo. Sei também que todo ano é a mesma coisa e muita gente vai dizer que os Estaduais já não têm razão de ser neste mundo global, etc. Ficaram esvaziados, atrapalham a vida dos clubes, atravancam o calendário. Muito disso é verdade. Mas não toda a verdade, a meu ver.

A verdade da crítica está no inchaço desses campeonatos. Têm times demais, jogos em excesso, disparidade técnica gritante. É isso mesmo, e não há como lutar contra o óbvio. Deveriam ser enxugados, impiedosamente. A fórmula poderia ser mais sintética. Tudo isso de modo a encurtar o tempo de disputa. Seria melhor para o calendário brasileiro, que é mais mal planejado que o ornitorrinco.

O pior é que dos quatro grandes paulistas, três – Palmeiras, Corinthians e São Paulo – estarão envolvidos na Libertadores e, desse modo, sem cabeça para disputar o Estadual. O Corinthians deve começar com time reserva e os outros talvez sigam seu exemplo. O Santos, que não tem nada a ver com isso, pode se aproveitar e faturar o quarto título seguido, uma façanha que nem o time de Pelé conseguiu. Não é um desafio e tanto? E serviria como consolo pela ausência da Libertadores.

Mas, claro, o interesse geral de todas as torcidas é ver em campo jogadores como Neymar e Montillo, Ganso, Pato, e poucos outros, que podem dar à disputa o brilho extra dos craques. Entendo que, com exceção do Palmeiras, os outros grandes se reforçaram, mesmo com o São Paulo tendo perdido Lucas. Em condições normais, a disputa pelo título seria intensa. E melhor ainda se não tivéssemos uma longa primeira fase e todos os jogos fossem decisivos. Acho que a maioria das pessoas gostaria de ver um torneio Estadual sintético, que se resolvesse de maneira mais rápida.

E por que isso não acontece? Por razões políticas obviamente. Del Nero já declarou que não pretende mudar e que o Estado de São Paulo é grande demais para ter um campeonato só com 16 times. Precisa de 20. Precisa mesmo? Também necessita ocupar os clubes “menores” por um período tão longo? Será que essas razões políticas justificam o desinteresse dos grandes (ou de alguns deles) e o congestionamento do calendário? É o que se deveria pensar.

Em todo caso, mesmo com esses defeitos, o Campeonato Paulista mora no coração da torcida. Em especial no da torcida que aprendeu a gostar daquele futebol apimentado pelas rivalidades. Isso ninguém tira dos Estaduais. Para mantê-los, seria melhor que se ajustassem também aos novos tempos.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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02.janeiro.2013 09:33:29

A felicidade possível *

Primeira coluna de 2013. E o que este ano novinho em folha nos reserva em termos de futebol? Falemos dos times.

Seria chover no molhado (chuva benigna, criadeira, chuva de refresco e não de inundação) dizer que o Corinthians já põe o pé em 2013 nas melhores condições possíveis.

Depois do ano milagroso de 2012, mostra que não está a fim de dormir sobre glórias passadas, ainda que de passado recente. Quer mais, para o presente e para o futuro. Espera o estádio novo e entendo que é um dos favoritos à Libertadores de 2013. Pato, se vier, será um bônus, um plus, a cereja num bolo já bem recheado.

Outro que entra em 2013 cercado das melhores expectativas é o São Paulo. Ney Franco montou um time coerente e de jogo fluído. Se perdeu Lucas, o Tricolor tem em Ganso a grande esperança para a meia. Caso PH volte a mostrar o futebol que o consagrou em 2010 no Santos, o São Paulo ficará mais forte e a seleção agradecerá.

O Palmeiras é uma incógnita. Tem mostrado muita dificuldade em renovar o elenco. Precisa reforçá-lo para a missão esquizofrênica que tem pela frente: lutar na elite pela Libertadores e encarar a Série B com a obrigação de subir de imediato. Não pode sofrer o vexame de comemorar o centenário, em 2014, na Segunda Divisão. Até agora não mostrou que vai começar o ano com o pé no lugar certo. Precisa acertar passo com sua grandeza.

Outra dúvida é o Santos. Viveu um 2012 esquisito. Começou muito bem o ano do seu centenário com o tri paulista, a Recopa e uma bela comemoração. A meta era vencer de novo a Libertadores e reapresentar-se no Mundial de Clubes para apagar o vexame de 2011 com o Barcelona. Sabemos no que deu. Desclassificado pelo Corinthians, vegetou no segundo semestre, com presença medíocre no Campeonato Brasileiro. Vai viver só de Neymar? Tem mostrado dificuldades para contratar e é o único dos grandes paulistas ausente da Libertadores. Sinal amarelo.

Em termos de futebol sul-americano, entendo que o Brasil, até pelo momento econômico que atravessa, tende a se tornar hegemônico pelos próximos anos. Com “pibinho” e tudo, jogadores de países sul-americanos sem mercado na Europa vêm para cá. Tornamo-nos um polo de atração, pelo menos em nível local.

Já rivalizar com a Europa, como muitos andaram bravateando, são outros 500 mil euros. Com toda a crise do Velho Continente, os mega clubes continuam contratando e investindo. Para eles não há tempo ruim. Vivem numa economia paralela, o mundo maravilhoso do futebol, onde tudo é possível e o dinheiro jorra de fontes misteriosas. A economia inteira se contrai e sofre, da indústria aeronáutica ao vendedor de picolé. O futebol floresce. É o que os ingênuos chamam de “organização” europeia.

Já, nós, sul-americanos, temos de viver com a áspera realidade. E, a partir dos seus limites, desejar a todos um ótimo 2013.

* Coluna publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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20.novembro.2012 10:32:42

Na rota do iceberg *

Dizem os especialistas que uma falha apenas não basta para derrubar um avião ou afundar um navio. É preciso que várias delas aconteçam ao mesmo tempo e se aliem a erros humanos. Também acredito que uma só causa, por forte que seja, não explique o descenso de um dos gigantes do futebol. Estamos falando do Palmeiras, afinal um octocampeão brasileiro, time de passado invejável. Caiu. Pela segunda vez em dez anos.

Todos já falaram sobre o assunto e mesmo eu quando a queda era provável mas não consumada. E todos fomos unânimes em apontar a incúria administrativa como responsável pelo péssimo desempenho do time, que acabou por levá-lo ao buraco.

Não tenho a mínima intenção de livrar a cara dos dirigentes. São mesmo ineptos a mais não poder – e não apenas no Palmeiras. Além disso, mais usam os clubes (por motivos políticos, vaidade ou razões inconfessáveis) do que o servem. No Palmeiras, o caso fica pior pela interminável disputa interna, o que só agrava as incompetências. E não deixa que os competentes trabalhem, o que parece ter acontecido com Luiz Gonzaga Belluzzo, economista brilhante que simplesmente não conseguiu impor suas ideias no Parque Antártica.

A minha dúvida é se, por ineptos que sejam, esses dirigentes conseguiriam, sozinhos, derrubar um gigante. A minha impressão é que não. Embora sejam os principais responsáveis, pois afinal estão no “comando”, tiveram o auxílio de vários outros fatores para conseguirem levar o Palestra ao abismo.

É possível, também, que parte da torcida tenha dado a sua inestimável contribuição. Foi responsável pela perda de mandos na etapa crucial da decisão. Fazer ameaças num momento desses equivale a jogar um balde de gasolina para apagar o incêndio. Nada a ver com a torcida de verdade, essa que acompanhou e sofreu com o time, lágrima por lágrima. Esta estará lá, na série B, incentivando os jogadores para que o time esteja de volta à série A em 2014.

Há também o aspecto psicológico, aquele lance do “vamos fazer os pontos quando quisermos, etc”, depois da conquista da Copa do Brasil que garantiu a vaga na Libertadores. Esse otimismo simplório deve ter contaminado o elenco – que já não é dos melhores. Como se sabe, a pior coisa do mundo é aliar incapacidade a ego inflado. Essa mistura explosiva pode ter contribuído para o resultado final. Talvez a diretoria tenha imaginado um elenco que não existia na realidade. Os técnicos podem ter se enganado. E pode ser que o próprio elenco tenha participado dessa ilusão coletiva.

Há um aspecto perverso nessa valorização excessiva da Libertadores da América. Adoro o torneio e o acho o mais difícil do mundo, além de ter o nome mais bonito. Mas, que diabos, não é tudo na vida. O Palmeiras, com a vaga assegurada, deu o ano por ganho. Esqueceu do compromisso no Campeonato Brasileiro. Quando acordou, era tarde. Pior: pensou que, como já tinha a Libertadores, não havia nada a temer. Time que está na Libertadores não cai.

É aquela história de que também falam os entendidos: se não achassem o Titanic insubmergível, talvez ele tivesse chegado a Nova York.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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19.setembro.2012 10:10:09

Hora de união *

Tenho achado meio estranho o derrotismo que se apoderou do Palmeiras. Não que a situação seja boa. Pelo contrário. É ruim. Direi mais: péssima. Mesmo assim me recuso a acreditar que um clube desse porte possa jogar a toalha faltando ainda 13 rodadas a disputar. Ou seja, 39 pontos potenciais. Ninguém imagina que o Palestra vá ganhar todos os jogos. Nem a maioria deles. Mas por que não pode vencer e empatar o suficiente para se colocar na zona de salvamento, que muitos fixam nos 42 pontos ganhos?

Para fazê-lo, teria de faturar 22 pontos em 39 possíveis, ou seja, ter um aproveitamento de 56%, quando o atual é de 20 pontos em 25 jogos, 26,6%. Números. Dizem alguma coisa e, afinal, são eles que sagram o campeão e levam quatro clubes à Segundona. Mas, como devem ser interpretados esses números? Simplesmente assim: o Palmeiras deve mudar radicalmente de atitude se quiser livrar o pescoço.

A meu ver, tem condições para isso. E não se trata apenas da tradição da camisa, da história gloriosa, dos títulos conquistados. Afinal, desde que Nelson Rodrigues falou que uma camisa como a do Flamengo podia jogar sozinha, sabemos que afirmações desse tipo não passam de metáforas. Que, como todas as metáforas, têm sua dose de verdade, mas não podem ser levadas ao pé da letra.

A camisa é importante, mas o fundamental é saber quem a veste. Não adianta colocar num cabeça de bagre ou num jogador desmotivado a camisa que foi de Pelé. Ou de Ademir da Guia. Ou de Zico. Precisa do jogador. E o Palmeiras, se não é nenhum esquadrão, tampouco é time de dar pena. Pelo menos no papel. Tem jogadores de bom nível como Valdivia e Barcos. Conta agora com o retorno de Marcos Assunção, dono da “jogada única” que tem salvado o Palmeiras em muitas ocasiões. Não é time para o qual o treinador olha e coça a cabeça, sem opções. Não é um esquadrão, repito. Mas também não é o Íbis.

O que me ocorre é outra coisa: se alguma doença atinge o Palmeiras, ela é da alma. Não sei (e nem quero saber) nada dos bastidores alviverdes. Me poupem. Vejo de longe, como observador. E esse time que entra em campo me parece profundamente desequilibrado do ponto de vista psicológico. Está mal. E precisa reencontrar-se rapidamente se quiser escapar da degola. Repito: tem condições técnicas para isso. Falta-lhe centro, eixo, serenidade.

Uma campanha para salvar o Palmeiras deveria ter isso em mente: ao contrário de pressão, apoio e carinho. Pressão não resolve. É coisa de tolo achar que vai ameaçar dirigente ou mesmo jogador e as coisas vão melhorar. Se o time já está mal, pressionado, tende a piorar e não melhorar. Faz parte da nossa mentalidade contemporânea achar que com um pouco de terrorismo o desempenho do outro vai melhor. É justamente o contrário.

Os erros já foram cometidos, e não foram poucos. Mas não é hora de discutir a relação. É salvar-se, e deixar a pajelança para depois. Para isso, todos os alviverdes deveriam se unir, como não o fizeram até agora.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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31.julho.2012 09:24:38

A falta que ele faz *

Depois da suada vitória por 2 a 1 sobre a Ponte Preta, pediram para Muricy Ramalho avaliar a dimensão da falta que Neymar fazia ao time. Ele se limitou a responder ao repórter: “Você viu o jogo de hoje da seleção?”

Era só mesmo o que havia a dizer. Neymar deu o passe para o primeiro gol, de Pato; marcou o segundo de falta, e, de calcanhar, meteu para Oscar enfiar o terceiro. Uma atuação de craque, de um jogador sobre o qual sempre paira certa má vontade: “Cai-cai, some nas decisões, não sabe sair de marcação mais dura etc.” O pior cego é aquele que não enxerga mesmo, como dizia, creio, Millôr Fernandes.

Mas não foi só Neymar. Oscar, depois de um primeiro tempo meio sumido, resolveu aparecer no segundo, e também foi decisivo. Pato ressurgiu, com um jogo insinuante e decisivo. Apenas Ganso, que teve mais uma oportunidade, novamente decepcionou. Parece em dissintonia com o jogo, como se a bola o evitasse. Ou como se ele evitasse a bola – o que é mais provável.

Enfim, sem ser brilhante, a seleçãozinha, que tende a ser também a seleção principal, com alguns acréscimos, mostrou-se encorpada contra a Bielorrússia. Já qualificou-se para as quartas de final e está no bom caminho para o ouro olímpico. Se este virá, por fim, talvez nem os deuses do Olimpo possam dizer. Mas que, a esta altura, e com a desclassificação prematura da Espanha, tornou-se favorita, isso é inegável. Foi uma bela exibição. Tomara continue assim e que Mano Menezes persevere a ousadia das substituições e não se deixe levar por seu DNA retranqueiro.

Isso no futebol. Mas em outras modalidades a Olimpíada também acaba disputando a nossa atenção. Nenhum dos nossos jogos domésticos deve ter dado emoção semelhante às medalhas do judô e na natação. Nessa época, mesmo nós, que somos uma monocultura esportiva – só ligamos para o futebol -, começamos a dividir nossas mentes e corações e prestamos mais atenção às outras modalidades. Em especial quando rompem a barreira de descaso e conseguem trazer alguma medalha para o Brasil. Duvido que alguém não tenha se emocionado com a jovem judoca piauiense Sarah Menezes, que ganhou com tanta valentia a sua medalha de ouro.

Vila sem feitiço. E é até bom que a Olimpíada tire um pouco o foco do nosso futebol doméstico, que anda meio mal das pernas. Pelo menos entre os paulistas, porque os atleticanos, apesar do empate com o Flu, são só entusiasmo com o Galo. O São Paulo até que voltou à vida ao sapecar 4 a 1 no Flamengo. Corinthians e Palmeiras, já satisfeitos com a Libertadores garantidas (e mais ainda o Timão, com o Mundial em dezembro) voltam a patinar. O Santos suou sangue para vencer a Ponte, já no finzinho. Fui à Vila ver o jogo e o ambiente. Apenas 4 mil e poucos torcedores que, diga-se a verdade, incentivaram do início ao fim um time esforçado e sem inspiração. A falta de Neymar é imensa. Mas não sei se é só isso.

* Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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03.abril.2012 09:37:31

Os oito eleitos

Duas rodadas antes de terminar a fase de classificação, o Campeonato Paulista já tem seus oito finalistas. Como era fácil prever, lá estão os quatro grandes. Entram mais quatro “convidados”: Mogi Mirim, Bragantino, Guarani e Ponte Preta. Não é um anticlímax, um daqueles finais manjados que arruínam qualquer suspense? O que ainda pode se alterar nessas últimas rodadas são as colocações, que determinam quem joga contra quem nos jogos eliminatórios e concedem a única vantagem aos quatro primeiros, a do mando do campo. Quer dizer, um tédio só, como já se sabia, aliás, antes de a bola rolar no primeiro jogo.

Daí para a frente, surge outra aberração, a disputa de quartas de final e semifinais em jogo único para, em seguida, o mata-mata ser restabelecido para a disputa da taça de 2012. Quem bolou esse absurdo deveria ganhar um prêmio. Ou melhor, um antiprêmio, como ser obrigado a frequentar essas reuniões de cartolas por toda a eternidade. Ou ficar de castigo até apresentar uma proposta convincente para redesenhar o calendário futebolístico brasileiro em seu todo. Porque, claro, os campeonatos regionais são parte de um problema que é muito maior e desafia qualquer racionalidade, que é o calendário brasileiro.

O problema do Campeonato Paulista é mais político que logístico. A medida óbvia seria abaixar o número de clubes na divisão principal para dezesseis, embora haja quem fale em apenas 12. Mas como a federação faria para implantar medida tão impopular? Esse é o desafio, mesmo porque o desnível entre times aumentou demais e isso também compromete o interesse do campeonato. É raro que um grande encontre problemas ao jogar contra um pequeno, mesmo que seja no campo deste. Se o campeonato concentrasse na 1.ª Divisão apenas os melhores clubes do interior, a competitividade aumentaria.

Como enfrentar o desafio de desagradar aos que ficariam de fora? Bem, esse é um problema que não é nosso, da crônica, mas de quem ocupa o poder na Federação Paulista. Ossos do ofício, ônus do cargo, que exige decisões difíceis de tomar. O fato é que o campeonato não pode ter esse formato de coração de mãe, que pode satisfazer a alguns interesses, mas compromete o espetáculo na sua dimensão principal que é a de manter um certo equilíbrio.

Já que não se pode eliminar vários clubes, a solução talvez fosse reunir os competidores em grupos, tendo os grandes como cabeças de chave e fazê-los jogar entre si. Avançam apenas os primeiros, ou os primeiros e segundos de cada grupo, que disputam entre si em eliminatórias até chegar à decisão. Algo no modelo da Copa do Mundo. Alguém por certo vai dizer que os times mais fracos teriam carreira breve e logo seriam eliminados, ainda na fase de grupos. É verdade. Mas como alterar esse sistema que aí está, e desagrada a todos os observadores, sem que alguém se sinta prejudicado? Impossível, mas algo precisa ser feito para que o campeonato não caia em descrédito.

(Coluna Boleiros)

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21.fevereiro.2012 13:10:11

Futebol cabeça

O Palmeiras está em primeiro lugar no Paulistão e todos conhecem a sua principal jogada, a bola parada de Marcos Assunção. Seja batendo um escanteio, chutando direto a gol ou cobrando faltas e levantando a bola para seus companheiros na área adversária, Assunção tem sido decisivo para o Palmeiras.

Embora nem todo mundo tenha o seu “Assunção”, o recurso tornou-se generalizado no futebol brasileiro. Não é de hoje, convenhamos. No passado recente, o São Paulo cansou de ganhar jogos – e títulos – com as bolas levantadas de Jorge Wagner. O técnico era Muricy Ramalho, hoje no Santos.

O curioso com a “bola parada” é que, quem sofre o gol costuma dizer que houve falha. Quem faz, elogia a habilidade técnica do cobrador ou o êxito da jogada ensaiada. No futebol, como em outras coisas da vida, as verdades são relativas. O que não quer dizer que não possamos ter algum ponto de vista objetivo para analisá-lo.

Em seu ótimo livro O Universo Tático do Futebol – Escola Brasileira, o técnico Ricardo Drubscky dedica um capítulo ao estudo da origem dos gols. Os gols podem acontecer de várias formas: por mérito tático de quem ataca, por jogadas individuais, por erros da defesa, etc. E também pelas benditas bolas paradas. Analisando gols de várias competições e cruzando resultados, Drubscky notou que 34,5% dos gols da Copa da França (1998) se originaram de bolas paradas. No Campeonato Brasileiro do mesmo ano foram 30%. E, na Copa da Coréia-Japão (2002), vencida pelo Brasil, 33,5% dos gols se originaram de jogadas desse tipo.

Números notáveis, não?  E que, de certa forma, relativizam aquela certeza mais imediata – a de que só agora o futebol brasileiro resolveu apostar nesse tipo de jogada como forma de compensar sua deficiência técnica crescente. A ideia é que começamos a depositar  nossa fé nas bolas paradas porque não sabemos mais trocar passes como antigamente e os craques que resolvem jogos sozinhos em lances geniais são cada vez mais raros nos nossos gramados. Quem há de negar essas evidências?

Mas cabe fazer outra pergunta: se isso acontece há mais  tempo, por que só agora começamos a nos espantar? Tenho uma teoria: como todo mundo está jogando mais ou menos do mesmo jeito, o futebol caminha para uma monotonia progressiva. Acabamos nos habituando a ela. Ou seja, ficamos embotados. Antes era mais fácil distinguir escolas e tendências. Os ingleses davam chutões, os italianos eram implacáveis na marcação, os holandeses brilhavam no conjunto e os sul-americanos resolviam na base de individualidades insuperáveis. Na geleia geral do mundo globalizado tudo se misturou e qualidades se mesclaram.

Só despertamos do nosso sono quando algum time de exceção brilha nesse mundo cinzento. Há o caso breve do Santos do primeiro semestre de 2010 e o fenômeno mais permanente do Barcelona. Essas exceções, para serem exemplares, precisam encantar e vencer. Sem títulos, nada feito. Como os números sugerem, o mundo da bola anda chato há muito tempo.

O Barça é prova de que outro futebol é possível.

(Coluna Boleiros)

 

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27.setembro.2011 12:21:20

Pintou o campeão?

Amigos, claro que posso estar enganado, mas dois times me impressionaram nesta última rodada e acho que ambos têm cheiro e pedigree de campeão. Refiro-me, claro, a Vasco da Gama e São Paulo.

Ambos protagonizam, por caminhos diferentes, os jogos mais eletrizantes da rodada. O Vasco fez uma exibição sinfônica sobre o pobre Cruzeiro e o solista desse concerto foi Diego Souza, com três gols, um mais bonito do que o outro, o terceiro simplesmente de placa. Já no São Paulo, o que me impressionou foi a entrega, a disposição de buscar um resultado melhor depois de estar perdendo por dois de diferença, e no campo do adversário ainda por cima. Se Rivaldo tivesse acertado aquele toque por cobertura, e proporcionado a virada ao seu time, o jogo entraria para a épica do Morumbi. Mesmo o empate foi notável.

Os dois times, Vasco e São Paulo, mostraram categoria, recursos e, acima de tudo, alma – que é o que decide um jogo ou um campeonato. Não estou dizendo que basta ter alma para que um agrupamento de cabeças de bagre se torne campeão. Mas é preciso ter alma para que um bom time se erga acima de suas possibilidades e chegue ao título. Vasco e São Paulo insinuaram, nessa rodada, que têm essa característica. Se mantiverem a chama, acho que vão levar a disputa pelo título brasileiro de 2011 palmo a palmo, até o final.

Digo isso embora o Corinthians esteja em segundo lugar, um ponto acima do São Paulo e dois atrás do Vasco. Mas, sinto, não vejo no Corinthians a mesma disposição, o mesmo estado de ânimo férreo que pode conduzir ao título. Friamente falando, é claro que está no páreo, mas o time de Tite me parece burocrático demais para um verdadeiro campeão. Enfim, daí a importância do jogo de domingo próximo entre o Timão e o Vasco, em São Januário. A partida tem ar de decisão – uma das tantas decisões de que é tecido um campeonato por pontos corridos.

Se vencer, ou mesmo empatar, o Corinthians pode botar um pouco de água na fervura vascaína. Mas, se o Vasco vencer, abre vantagem considerável. E, quando digo vantagem, não me refiro apenas à pontuação, mas à força moral que exibiria diante dos concorrentes diretos. É jogo para não se perder de jeito nenhum.
De qualquer forma, no seu jeito marcha lenta, o Corinthians, com a sofrida vitória sobre o Bahia, se mantém no páreo. O próximo jogo será decisivo para avaliar melhor suas pretensões.

E, falando nisso, o que dizer das pretensões dos outros paulistas? Bem, o Santos mostrou, sábado contra o Figueirense, uma quase total incapacidade de criação. Colegas têm falado na dependência de Neymar. Claro, mas convém lembrar que o time também não tinha Ganso e nem Elano. Ninguém para criar. Limitou-se a chutões, ligações diretas e chuveirinhos – provas definitivas da insuficiência de criatividade. Muricy diz que não jogou a toalha. Parece cada vez mais óbvio que não conta mais com o título, mas precisa manter a motivação do time em velocidade de cruzeiro para não ser pego na pasmaceira quando tiver de jogar o Mundial no Japão em dezembro. Foi o que aconteceu com o Internacional de Porto Alegre no ano passado, com o desfecho que conhecemos.

E quanto ao Palmeiras? Pode-se perguntar como um time pode tomar um empate diante de um adversário com dois jogadores a menos. O Palestra realizou a façanha. Quando terminou o jogo, fiquei ligado na TV esperando a coletiva de Luis Felipe Scolari. E Felipão não decepcionou. Quando alguém lhe perguntou o que faltava ao Palmeiras, respondeu que talvez faltasse um bom técnico. Ironias à parte, a frase talvez revele o mal-estar existente no clube. O Palmeiras parece minado pelas disputas internas. Por isso a equipe mostra-se sem fôlego em campo. O time é apenas sintoma de um mal maior.

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No filme Boleiros, do nosso colega de espaço Ugo Giorgetti, há uma cena muito interessante. Véspera de Palmeiras e Corinthians, o elenco alviverde vai para a concentração num hotel da capital. O garanhão da equipe se engraça por um mulherão (Marisa Orth), exemplar daqueles de parar o trânsito. O técnico do Palestra, interpretado por Lima Duarte, preocupado com o fôlego do seu atleta para o jogo do dia seguinte, chega-se à sirigaita e lhe diz: “A senhora não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians!”.

Pois é, quem não sabia, conheceu domingo o que é a rivalidade desse derby paulistano, que ainda vai render polêmica durante toda a semana. Foi uma partida elétrica e tempestuosa, já antecedida por discussões na escolha do árbitro, e assim continuou quando a bola começou a rolar. Não vou fazer aqui a apologia de lances ríspidos e nem discutir se as expulsões de Danilo e Felipão foram justas. Só lembro que elas aconteceram dentro de um clima de alta temperatura que só os grandes clássicos são capazes de oferecer. Tudo isso fruto de uma rivalidade que nasceu lá atrás e vem sendo passada de geração a geração como herança de pai para filho.

Por tudo isso, foi uma partida ótima para se assistir, mesmo para quem não torce para nenhum dos dois. Teve sabor até para o aficionado neutro, nem corintiano nem palmeirense, que pôde se aproveitar da emoção no que ela tinha de melhor, sem a contrapartida de tensão que um jogo desse tipo causa. Por isso, numa época em que o marketing tenta nos convencer de que devemos nos interessar mais por Real Madrid x Barcelona do que pelo nosso pobre futebol doméstico, continuo a achar que nossas rixas locais são insubstituíveis.

São elas que trazem ao espetáculo esse colorido emocional que as outras disputas não têm. Ou têm numa escala infinitamente menor. Falo de Corinthians e Palmeiras, e poderia estar falando de Vitória x Bahia, Flamengo x Vasco, Atlético x Cruzeiro, Grêmio x Internacional etc. Poderia incluir também todas as rivalidades menos badaladas, pouco midiáticas, que existem Brasil afora e levam seus torcedores ao abismo da paixão. E, por isso, contaminam os jogadores e tiram deles o que às vezes nem têm para dar. A magia do futebol depende dessa emoção sem igual e ela, em boa parte, se deve à rivalidade.

O problema será sempre dosar esse doce veneno, de modo que aqueça a disputa sem por isso transformá-la em incêndio – tanto fora como dentro de campo. É um fio de navalha, em que qualquer erro de medida pode se mostrar fatal. Pode-se especular se o Palmeiras errou um pouco a receita e botou mais pilha nos seus jogadores do que seria necessário. É possível, e claro que as expulsões de Danilo e de Felipão tiveram alguma coisa a ver com o desfecho da partida. Mas, como estamos falando de futebol, também é verdade que o Palmeiras, mesmo com dez em campo e sem técnico, jogou melhor e esteve mais perto de ganhar. Lutou com valentia, fato reconhecido até por sua exigente torcida, que aplaudiu o time derrotado nos pênaltis.

E assim chegamos a nova final alvinegra, outra rivalidade não menos histórica, que inclui tabus duradouros e goleadas humilhantes em seu retrospecto. Dois jogos para decidir quem será o campeão paulista, Corinthians ou Santos. Ida e volta, como deveria ter sido nas semifinais, pelo menos. Time por time, o do Santos está melhor neste momento mas, ao mesmo tempo, dividido entre o Paulistão e a Libertadores, caso passe hoje no México. Fosse o futebol uma disputa sem grande influência dos componentes emocionais, eu diria que é levemente favorito. Um tiquinho assim. Mas a gente sabe que, quando a bola começa a rolar, a rivalidade e a emoção passam a fazer seu trabalho de desmontagem dos prognósticos racionais.

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