Duas rodadas antes de terminar a fase de classificação, o Campeonato Paulista já tem seus oito finalistas. Como era fácil prever, lá estão os quatro grandes. Entram mais quatro “convidados”: Mogi Mirim, Bragantino, Guarani e Ponte Preta. Não é um anticlímax, um daqueles finais manjados que arruínam qualquer suspense? O que ainda pode se alterar nessas últimas rodadas são as colocações, que determinam quem joga contra quem nos jogos eliminatórios e concedem a única vantagem aos quatro primeiros, a do mando do campo. Quer dizer, um tédio só, como já se sabia, aliás, antes de a bola rolar no primeiro jogo.
Daí para a frente, surge outra aberração, a disputa de quartas de final e semifinais em jogo único para, em seguida, o mata-mata ser restabelecido para a disputa da taça de 2012. Quem bolou esse absurdo deveria ganhar um prêmio. Ou melhor, um antiprêmio, como ser obrigado a frequentar essas reuniões de cartolas por toda a eternidade. Ou ficar de castigo até apresentar uma proposta convincente para redesenhar o calendário futebolístico brasileiro em seu todo. Porque, claro, os campeonatos regionais são parte de um problema que é muito maior e desafia qualquer racionalidade, que é o calendário brasileiro.
O problema do Campeonato Paulista é mais político que logístico. A medida óbvia seria abaixar o número de clubes na divisão principal para dezesseis, embora haja quem fale em apenas 12. Mas como a federação faria para implantar medida tão impopular? Esse é o desafio, mesmo porque o desnível entre times aumentou demais e isso também compromete o interesse do campeonato. É raro que um grande encontre problemas ao jogar contra um pequeno, mesmo que seja no campo deste. Se o campeonato concentrasse na 1.ª Divisão apenas os melhores clubes do interior, a competitividade aumentaria.
Como enfrentar o desafio de desagradar aos que ficariam de fora? Bem, esse é um problema que não é nosso, da crônica, mas de quem ocupa o poder na Federação Paulista. Ossos do ofício, ônus do cargo, que exige decisões difíceis de tomar. O fato é que o campeonato não pode ter esse formato de coração de mãe, que pode satisfazer a alguns interesses, mas compromete o espetáculo na sua dimensão principal que é a de manter um certo equilíbrio.
Já que não se pode eliminar vários clubes, a solução talvez fosse reunir os competidores em grupos, tendo os grandes como cabeças de chave e fazê-los jogar entre si. Avançam apenas os primeiros, ou os primeiros e segundos de cada grupo, que disputam entre si em eliminatórias até chegar à decisão. Algo no modelo da Copa do Mundo. Alguém por certo vai dizer que os times mais fracos teriam carreira breve e logo seriam eliminados, ainda na fase de grupos. É verdade. Mas como alterar esse sistema que aí está, e desagrada a todos os observadores, sem que alguém se sinta prejudicado? Impossível, mas algo precisa ser feito para que o campeonato não caia em descrédito.
(Coluna Boleiros)
O Palmeiras está em primeiro lugar no Paulistão e todos conhecem a sua principal jogada, a bola parada de Marcos Assunção. Seja batendo um escanteio, chutando direto a gol ou cobrando faltas e levantando a bola para seus companheiros na área adversária, Assunção tem sido decisivo para o Palmeiras.
Embora nem todo mundo tenha o seu “Assunção”, o recurso tornou-se generalizado no futebol brasileiro. Não é de hoje, convenhamos. No passado recente, o São Paulo cansou de ganhar jogos – e títulos – com as bolas levantadas de Jorge Wagner. O técnico era Muricy Ramalho, hoje no Santos.
O curioso com a “bola parada” é que, quem sofre o gol costuma dizer que houve falha. Quem faz, elogia a habilidade técnica do cobrador ou o êxito da jogada ensaiada. No futebol, como em outras coisas da vida, as verdades são relativas. O que não quer dizer que não possamos ter algum ponto de vista objetivo para analisá-lo.
Em seu ótimo livro O Universo Tático do Futebol – Escola Brasileira, o técnico Ricardo Drubscky dedica um capítulo ao estudo da origem dos gols. Os gols podem acontecer de várias formas: por mérito tático de quem ataca, por jogadas individuais, por erros da defesa, etc. E também pelas benditas bolas paradas. Analisando gols de várias competições e cruzando resultados, Drubscky notou que 34,5% dos gols da Copa da França (1998) se originaram de bolas paradas. No Campeonato Brasileiro do mesmo ano foram 30%. E, na Copa da Coréia-Japão (2002), vencida pelo Brasil, 33,5% dos gols se originaram de jogadas desse tipo.
Números notáveis, não? E que, de certa forma, relativizam aquela certeza mais imediata – a de que só agora o futebol brasileiro resolveu apostar nesse tipo de jogada como forma de compensar sua deficiência técnica crescente. A ideia é que começamos a depositar nossa fé nas bolas paradas porque não sabemos mais trocar passes como antigamente e os craques que resolvem jogos sozinhos em lances geniais são cada vez mais raros nos nossos gramados. Quem há de negar essas evidências?
Mas cabe fazer outra pergunta: se isso acontece há mais tempo, por que só agora começamos a nos espantar? Tenho uma teoria: como todo mundo está jogando mais ou menos do mesmo jeito, o futebol caminha para uma monotonia progressiva. Acabamos nos habituando a ela. Ou seja, ficamos embotados. Antes era mais fácil distinguir escolas e tendências. Os ingleses davam chutões, os italianos eram implacáveis na marcação, os holandeses brilhavam no conjunto e os sul-americanos resolviam na base de individualidades insuperáveis. Na geleia geral do mundo globalizado tudo se misturou e qualidades se mesclaram.
Só despertamos do nosso sono quando algum time de exceção brilha nesse mundo cinzento. Há o caso breve do Santos do primeiro semestre de 2010 e o fenômeno mais permanente do Barcelona. Essas exceções, para serem exemplares, precisam encantar e vencer. Sem títulos, nada feito. Como os números sugerem, o mundo da bola anda chato há muito tempo.
O Barça é prova de que outro futebol é possível.
(Coluna Boleiros)
Amigos, claro que posso estar enganado, mas dois times me impressionaram nesta última rodada e acho que ambos têm cheiro e pedigree de campeão. Refiro-me, claro, a Vasco da Gama e São Paulo.
Ambos protagonizam, por caminhos diferentes, os jogos mais eletrizantes da rodada. O Vasco fez uma exibição sinfônica sobre o pobre Cruzeiro e o solista desse concerto foi Diego Souza, com três gols, um mais bonito do que o outro, o terceiro simplesmente de placa. Já no São Paulo, o que me impressionou foi a entrega, a disposição de buscar um resultado melhor depois de estar perdendo por dois de diferença, e no campo do adversário ainda por cima. Se Rivaldo tivesse acertado aquele toque por cobertura, e proporcionado a virada ao seu time, o jogo entraria para a épica do Morumbi. Mesmo o empate foi notável.
Os dois times, Vasco e São Paulo, mostraram categoria, recursos e, acima de tudo, alma – que é o que decide um jogo ou um campeonato. Não estou dizendo que basta ter alma para que um agrupamento de cabeças de bagre se torne campeão. Mas é preciso ter alma para que um bom time se erga acima de suas possibilidades e chegue ao título. Vasco e São Paulo insinuaram, nessa rodada, que têm essa característica. Se mantiverem a chama, acho que vão levar a disputa pelo título brasileiro de 2011 palmo a palmo, até o final.
Digo isso embora o Corinthians esteja em segundo lugar, um ponto acima do São Paulo e dois atrás do Vasco. Mas, sinto, não vejo no Corinthians a mesma disposição, o mesmo estado de ânimo férreo que pode conduzir ao título. Friamente falando, é claro que está no páreo, mas o time de Tite me parece burocrático demais para um verdadeiro campeão. Enfim, daí a importância do jogo de domingo próximo entre o Timão e o Vasco, em São Januário. A partida tem ar de decisão – uma das tantas decisões de que é tecido um campeonato por pontos corridos.
Se vencer, ou mesmo empatar, o Corinthians pode botar um pouco de água na fervura vascaína. Mas, se o Vasco vencer, abre vantagem considerável. E, quando digo vantagem, não me refiro apenas à pontuação, mas à força moral que exibiria diante dos concorrentes diretos. É jogo para não se perder de jeito nenhum.
De qualquer forma, no seu jeito marcha lenta, o Corinthians, com a sofrida vitória sobre o Bahia, se mantém no páreo. O próximo jogo será decisivo para avaliar melhor suas pretensões.
E, falando nisso, o que dizer das pretensões dos outros paulistas? Bem, o Santos mostrou, sábado contra o Figueirense, uma quase total incapacidade de criação. Colegas têm falado na dependência de Neymar. Claro, mas convém lembrar que o time também não tinha Ganso e nem Elano. Ninguém para criar. Limitou-se a chutões, ligações diretas e chuveirinhos – provas definitivas da insuficiência de criatividade. Muricy diz que não jogou a toalha. Parece cada vez mais óbvio que não conta mais com o título, mas precisa manter a motivação do time em velocidade de cruzeiro para não ser pego na pasmaceira quando tiver de jogar o Mundial no Japão em dezembro. Foi o que aconteceu com o Internacional de Porto Alegre no ano passado, com o desfecho que conhecemos.
E quanto ao Palmeiras? Pode-se perguntar como um time pode tomar um empate diante de um adversário com dois jogadores a menos. O Palestra realizou a façanha. Quando terminou o jogo, fiquei ligado na TV esperando a coletiva de Luis Felipe Scolari. E Felipão não decepcionou. Quando alguém lhe perguntou o que faltava ao Palmeiras, respondeu que talvez faltasse um bom técnico. Ironias à parte, a frase talvez revele o mal-estar existente no clube. O Palmeiras parece minado pelas disputas internas. Por isso a equipe mostra-se sem fôlego em campo. O time é apenas sintoma de um mal maior.
No filme Boleiros, do nosso colega de espaço Ugo Giorgetti, há uma cena muito interessante. Véspera de Palmeiras e Corinthians, o elenco alviverde vai para a concentração num hotel da capital. O garanhão da equipe se engraça por um mulherão (Marisa Orth), exemplar daqueles de parar o trânsito. O técnico do Palestra, interpretado por Lima Duarte, preocupado com o fôlego do seu atleta para o jogo do dia seguinte, chega-se à sirigaita e lhe diz: “A senhora não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians!”.
Pois é, quem não sabia, conheceu domingo o que é a rivalidade desse derby paulistano, que ainda vai render polêmica durante toda a semana. Foi uma partida elétrica e tempestuosa, já antecedida por discussões na escolha do árbitro, e assim continuou quando a bola começou a rolar. Não vou fazer aqui a apologia de lances ríspidos e nem discutir se as expulsões de Danilo e Felipão foram justas. Só lembro que elas aconteceram dentro de um clima de alta temperatura que só os grandes clássicos são capazes de oferecer. Tudo isso fruto de uma rivalidade que nasceu lá atrás e vem sendo passada de geração a geração como herança de pai para filho.
Por tudo isso, foi uma partida ótima para se assistir, mesmo para quem não torce para nenhum dos dois. Teve sabor até para o aficionado neutro, nem corintiano nem palmeirense, que pôde se aproveitar da emoção no que ela tinha de melhor, sem a contrapartida de tensão que um jogo desse tipo causa. Por isso, numa época em que o marketing tenta nos convencer de que devemos nos interessar mais por Real Madrid x Barcelona do que pelo nosso pobre futebol doméstico, continuo a achar que nossas rixas locais são insubstituíveis.
São elas que trazem ao espetáculo esse colorido emocional que as outras disputas não têm. Ou têm numa escala infinitamente menor. Falo de Corinthians e Palmeiras, e poderia estar falando de Vitória x Bahia, Flamengo x Vasco, Atlético x Cruzeiro, Grêmio x Internacional etc. Poderia incluir também todas as rivalidades menos badaladas, pouco midiáticas, que existem Brasil afora e levam seus torcedores ao abismo da paixão. E, por isso, contaminam os jogadores e tiram deles o que às vezes nem têm para dar. A magia do futebol depende dessa emoção sem igual e ela, em boa parte, se deve à rivalidade.
O problema será sempre dosar esse doce veneno, de modo que aqueça a disputa sem por isso transformá-la em incêndio – tanto fora como dentro de campo. É um fio de navalha, em que qualquer erro de medida pode se mostrar fatal. Pode-se especular se o Palmeiras errou um pouco a receita e botou mais pilha nos seus jogadores do que seria necessário. É possível, e claro que as expulsões de Danilo e de Felipão tiveram alguma coisa a ver com o desfecho da partida. Mas, como estamos falando de futebol, também é verdade que o Palmeiras, mesmo com dez em campo e sem técnico, jogou melhor e esteve mais perto de ganhar. Lutou com valentia, fato reconhecido até por sua exigente torcida, que aplaudiu o time derrotado nos pênaltis.
E assim chegamos a nova final alvinegra, outra rivalidade não menos histórica, que inclui tabus duradouros e goleadas humilhantes em seu retrospecto. Dois jogos para decidir quem será o campeão paulista, Corinthians ou Santos. Ida e volta, como deveria ter sido nas semifinais, pelo menos. Time por time, o do Santos está melhor neste momento mas, ao mesmo tempo, dividido entre o Paulistão e a Libertadores, caso passe hoje no México. Fosse o futebol uma disputa sem grande influência dos componentes emocionais, eu diria que é levemente favorito. Um tiquinho assim. Mas a gente sabe que, quando a bola começa a rolar, a rivalidade e a emoção passam a fazer seu trabalho de desmontagem dos prognósticos racionais.
Não seria difícil prever o tratamento diferenciado que Luiz Felipe Scolari recebe hoje de jogadores, dirigentes e da própria mídia. Fosse outro, com esse desempenho meio sem sal do Palmeiras na retomada do Campeonato Brasileiro (está há quatro jogos sem ganhar) e já veria, não digo o mundo cair sobre sua cabeça, mas, pelo menos, uma intensa formação de nuvens bastante carregadas na linha do horizonte. Cúmulos nimbos, como dizem os meteorologistas.
Não. Scolari segue tranquilo, surfando em popularidade. Aquele mesmo Ibope que o dava como favorito para assumir a seleção brasileira, à frente de Muricy e Mano. Sejamos justos. Felipão tem história para justificar essa benevolência. Campeão da Libertadores da América pelo Palmeiras, campeão do mundo em 2002, ótimo trabalho na seleção portuguesa, além de uma simpatia meio brusca, que passa credibilidade ante a opinião pública. É currículo.
Luiz Felipe não é uma celebridade vazia. Tem conteúdo. Mas é uma celebridade. E, no mundo atual, às celebridades tudo é permitido, ou quase tudo. Às celebridades, se pede que existam, se exibam e basta. No futebol, o buraco pode ser mais embaixo. De qualquer forma, ele tem um capital de popularidade de que nenhum outro técnico no Brasil dispõe. Apesar do começo tímido, mal começou a gastá-lo. E talvez logo seja recompensado pelos resultados, quando então poderá não apenas deixar de dilapidar o patrimônio como talvez aumentá-lo ainda mais.
Há motivos para pensar assim. De um lado, a competência técnica de Felipão. De outro, os jogos, este último em particular. O Palmeiras, embora não tenha vencido o Corinthians, jogou bem. Não sendo favorito, pois o Corinthians tem mais estrutura como time, o Palmeiras igualou as ações depois de ser dominado até tomar o gol. Poderia muito bem ter vencido a partida. Qualquer um dos dois, aliás, poderia ter levado a melhor nesse clássico tão igual. Por fim, devem chegar ao Palmeiras os tais reforços, para dar mais caldo ao cozido do chefe.
Mas não é isso que quero discutir e sim o limite da imunidade de algumas estrelas. Duas delas – Luxemburgo e Muricy – conheceram recentemente a cor do bilhete azul. E ambos no mesmo Palmeiras que hoje abriga Felipão. Quando foram demitidos o time ia mal, mas não em situação extrema, ameaçado, por exemplo, de ir parar na Segunda Divisão. Acontece que talvez não tenham se adaptado tão bem à nova política do Parque Antártica, sempre tão confusa e sinuosa que desnortearia um mestre da matéria como Nicolau Maquiavel. O Parque, com suas alamedas cheias de sussurros, teria mistérios mesmo para o florentino, autor de O Príncipe, esse clássico sobre a arte de governar em tempos difíceis. Tanto Muricy como Luxemburgo aparentemente foram devorados pelas intrigas palacianas de uma prosaica turma do amendoim.
Caíram como comuns mortais, embora façam parte do seleto clube dos intocáveis. Na verdade, Muricy já havia saído contra a vontade do São Paulo, isso depois de ser tricampeão brasileiro no Morumbi. Prova de que existem limites de durabilidade do material, mesmo para os mais badalados entre todos.
Vanderlei Luxemburgo é um que está sendo posto à prova em sua couraça de celebridade. Coleciona maus resultados no Atlético Mineiro e vê seu time vegetar na indesejável zona de degola. Domingo Luxa saiu vaiado de campo, depois de mais uma derrota do Atlético, desta vez para o arquirrival Cruzeiro. “Coisas da vida”, ele comentou. Mas deve ter pensado quanto ainda poderá resistir a uma campanha dessas.
A condição de celebridade pode blindar o treinador durante algum tempo. Ou mesmo durante muito tempo. Não para sempre.
As portas do paraíso
Vitória e Santos, São Paulo e Inter definem quarta e quinta-feira seus projetos de vida. A coisa atende pelo nome de Libertadores da América, esse torneio que se tornou o maior objeto de desejo dos clubes, jogadores, torcedores, aficcionados, curiosos, etc. Quem vencer, entre Santos e Vitória, leva a Copa do Brasil e já tem vaga assegurada para o próximo ano. Quem passar, entre São Paulo e Inter, disputa a final da Libertadores com o vencedor de Chivas e Universidad do Chile. É o paraíso. Durante muitos anos a Libertadores foi meio subestimada pelos brasileiros. De repente, entrou na moda. E na moda ficou. A vida é mutável. Às vezes, insondável.

Comemoração de gol dos jogadores do Santos
Como dizia o filósofo popular Vicente Matheus, “quem sai na chuva é pra se queimar”. Se os meninos do Santos comemoram seus gols com danças e outras alegorias, é lógico que tenham de aturar as alegorias e danças dos adversários quando sofrem gols. Faz parte do jogo. E, se estamos de acordo que a alegria e o bom futebol devem andar juntos, é justo que assim seja.
Mas quando digo isso suponho uma unanimidade sobre a alegria e o futebol bem jogado, e isso está longe de acontecer. É verdade que a maior parte dos torcedores e da melhor imprensa esportiva estão em estado de graça com o futebol alegre renascido entre nós. Mas sinto também um mal disfarçado rancor contra esse time jovem dos Santos. Como se não vissem a hora que esse pesadelo (na visão deles) tenha fim. Entre os jogadores adversários também é patente essa má vontade, o que é até explicável. Como de hábito, a exceção foi Marcos. Ao responder o que achava das firulas e comemorações, esse grande goleiro e enorme figura humana, respondeu: “Deixa, é a alegria do futebol, é assim que deve ser”. E acrescentou: “Para não ter a dança, é só não tomar gol deles”. Elementar, meu caro Marcos. O jogo é na bola e à bola deve se limitar.
Causa pasmo que os comentários depreciativos continuem, mesmo após o jogão de domingo entre Santos e Palmeiras. Ora, quem foi à Vila Belmiro, ou seguiu pela TV, assistiu a uma partida de alto nível, com sete gols, virada e alternativas no placar. Houve de tudo nesse jogo, capaz de satisfazer ao paladar do torcedor mais exigente – belas jogadas, gols, raça, emoção. O que mais se pode pedir do futebol? Eu não peço mais nada. Saí do estádio satisfeito. O Santos jogou o seu futebol e o Palmeiras reabilitou-se diante de um grande adversário.
A galera alviverde estava em festa. Comemorava feito louca, depois de haver pressentido o pior quando seu time perdia por dois gols e levava um vareio de bola. O começo em desvantagem, a virada, depois a agonia de tomar o empate e finalmente vencer quase no último minuto – esse tipo de vitória proporciona uma alegria sem paralelo, um estado de felicidade que transborda a individualidade e nos faz querer abraçar desconhecidos na arquibancada.
Do outro lado, testemunhei uma reação que poucas vezes se vê em estádios de futebol: a torcida do Santos, derrotada, levantou-se e aplaudiu de pé seus jogadores na saída do campo. Era o reconhecimento não apenas pela campanha vitoriosa do time até agora, como agradecimento pelo espetáculo que havia visto no gramado. E é isso mesmo. Um ganhou, outro perdeu, a vida segue. O que fica desse jogo é a lembrança do grande futebol praticado. Generoso, alegre, aberto, como foi a característica do futebol brasileiro antes de ser descoberto pelos retranqueiros, gurus da tática e apologistas da força bruta.
Por que esses bons jogos vêm se sucedendo no desprezado Campeonato Paulista? O comentarista Flávio Prado, da rádio Jovem Pan, formulou a resposta de maneira simples e elegante: “O Santos obriga os outros times a jogarem bem”. Límpida e cristalina verdade. O jogo mais aberto dá espaço para que o adversário também jogue. Mas é ainda mais do que isso. O estilo criativo, envolvente e moleque desperta no adversário um saudável espírito de competição. Deixa o adversário mordido e obriga-o a se superar. É da nossa experiência diária: se trabalhamos com gente criativa, sentimo-nos desafiados a criar. Se vivemos entre medíocres, a tendência é nos acomodarmos.
Por isso, entendo que só os espíritos mais tacanhos possam ficar incomodados com o estilo de jogo do jovem Santos, ou ficar ofendidos com as brincadeiras dos seus jogadores. Difícil acreditar que alguém não se encante com eles. Mas como tem chato demais no mundo, tudo é possível.
(Coluna Boleiros, 16/3/10)
Percebi comentários contraditórios a respeito do clássico Portuguesa x Santos. Alguns disseram que o espetáculo previsto dos meninos da Vila não se repetiu. As circunstâncias do jogo teriam conduzido a partida a uma zona de seriedade na qual não se admite espaço para firulas, etc. Porém, houve uma espécie de consenso ao se afirmar que a partida do Canindé havia sido a melhor até agora do Campeonato Paulista.
Acho válidas as duas análises, mesmo porque mantenho, como princípio de vida (e de colunista), não julgar os outros. Opinião é como cabeça – cada qual tem a sua e sabe o que dela faz; e ponto final. Não sou ombudsman da mídia dita especializada e me esforço por respeitar quem discorda de mim. Esta, aliás, é a única prática possível da liberdade, já que não existe vantagem alguma em respeitar quem pensa do mesmo jeito que nós. Difícil é aceitar o outro em sua diversidade, e no que ela nos contesta.
Dito isso, acrescento que, de minha parte, o gosto pelo espetáculo vem de outros aspectos e não necessariamente de um chapéu ou um gol espetacular. Claro, se vierem a finta desconcertante ou aquele gol de antologia, serão bem-vindos. Mas houve alguma coisa desse tipo entre Santos e Portuguesa? Não. O placar sequer foi dilatado – meros 1 a 1. Nenhum dos dois gols mostrou-se digno de uma placa no estádio. O da Lusa foi bem construído, e só. O do Santos aconteceu num bate-e-rebate comum, depois de muita pressão. De quem tanto se esperava, não veio grande coisa. Ganso esteve apagado. Robinho esforçou-se, mas não teve muito espaço. Neymar, tirando um ou outro lance isolado, não repetiu façanhas de jogos anteriores. E, no entanto, o espetáculo aconteceu. Por quê?
Talvez pela disposição das equipes. Mesmo marcado, e de maneira inteligente, o Santos não abdicou da sua melhor característica, a ofensividade. Pelo contrário. Quando as coisas não estavam dando certo, Dorival Jr. tirou um volante (Roberto Brum) e colocou um meia (Marquinhos). A opção deixou o Santos ainda mais vulnerável aos contra-ataques, mas aumentou a pressão em sua linha ofensiva. A Lusa jogou certo. Não optou por uma retranca mesquinha, mas já entrou sabendo que um time armado como o Santos deixa sempre espaços em branco na linha de defesa. Aproveitou-se disso e teve a partida nos pés em duas ou três ocasiões. Não matou, por isso tomou o empate. Foi essa dinâmica entre as duas equipes que pôs fogo no jogo e justificou o adjetivo “eletrizante” com o qual o caracterizaram. No final da partida, me lembrei de um verso do poeta português Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena/Quando a alma não é pequena”. O clássico foi ótimo porque os dois times pensaram grande.
E, por falar em grandes, a seis rodadas do término da fase de classificação, parece que a profecia inicial de que os quatro principais clubes do Estado iriam se classificar com facilidade para as semi-finais dificilmente irá se cumprir. Pelo menos um deve ficar fora. No momento, o Palmeiras está bem abaixo do G-4. Tem ainda chances de alcançá-lo. Mas o pior (dependendo do ponto de vista adotado) é que Botafogo e Santo André não parecem dispostos a vender barato essa vaguinha. Mal e mal, Corinthians e São Paulo estão chegando lá e, uma vez classificados, mesmo aos trancos, serão candidatíssimos ao título. Já o Palmeiras terá de ralar muito e vencer problemas internos para se poupar do primeiro vexame do ano.
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