A Invenção de Hugo Cabret, indicado a 11 categorias ao Oscar mostra um Martin Scorsese ávido por novidades, aos 69 anos de idade. Mas esse filme é também como a consequência lógica do desenvolvimento da sua carreira.
Em termos de novos desafios, este é seu primeiro filme que poderíamos definir como dedicado ao público infanto-juvenil, e também o primeiro em que utiliza a técnica de 3D. Por outro lado, é como se fosse a consequência inevitável de uma vida dedicada ao cinema, à sua história, à preservação de obras ameaçadas, ao culto aos pioneiros.
A história de Hugo Cabret, baseada no livro de Brian Selznick (edição brasileira da SM, 2007) é como um presente oferecido a Scorsese, tantas são as conexões do material literário com a própria experiência de vida e de cinema do diretor.
A esta altura, acho que a maioria das pessoas já conhece os traços gerais da trama, sem mencionar detalhes capazes de estragar o prazer de quem for ver o filme pela primeira vez. Mas, enfim, vamos lá. O garoto que dá título à obra (interpretado por Asa Butterfield) perde o pai e passa a ajudar o tio alcoólatra na manutenção dos relógios de uma estação de trens em Paris. O pai (Jude Law) lhe deixou um autômato avariado que, ao que parece, é capaz de escrever. O desafio de Hugo é consertar o tal robô e receber a mensagem. Para isso, Hugo, que é muito engenhoso e bem dotado para as coisas mecânicas, “pede emprestadas” algumas peças de um velhinho, dono de uma loja de brinquedos (Ben Kingsley).
Pronto. O resto é com você, espectador. Prepare-se para ser levado a um mundo fantástico em que mecanismos sofisticados da relojoaria rivalizam, em complexidade, com os sentimentos humanos.
Que o mundo da técnica tem conexões com o universo dos afetos imaginários todo mundo sabe. Daí o fascínio pelos mecanismos dos relógios, que afinal medem o tempo, matéria da qual somos feitos – e desfeitos. Fascínio também pelos autômatos, esses seres construídos à imagem e semelhança do homem, que brinca de ser Deus. O autômato seduz, atrai e assusta. Seu caráter híbrido inquieta. E O Inquietante é a tradução que Paulo César Souza encontra para um texto clássico de Freud, Das Umheimlich, que tem sido traduzido como O Estranho, de maneira geral. O que importa é que Freud cita no texto os Contos Noturnos, de E.T.A. Hoffman, em especial a narrativa O Homem da Areia, no qual figura a boneca mecânica Olímpia, pela qual um jovem se apaixona. O autômato, estranho porque é humano e não é. É mecânico, mas pode parecer real.
Mistério dos autômatos, mistério ainda maior das imagens em movimento, do seu realismo que assustava as pessoas ao verem um trem que parecia avançar sobre elas. O cinema era uma magia, no sentido literal do termo. E Scorsese recorda, é claro, o primeiro homem a ter pressentido no cinema uma grande potencialidade ficcional. Um fabuloso meio de criar histórias, tanto plausíveis quanto perfeitamente imaginárias, isto é, absurdas e, no entanto, ganhando realidade quando projetadas numa tela. Estamos falando de Georges Méliès (1861-1938), o criador do cinema-espetáculo, autor de mais de 500 filmes, entre os quais o clássico Viagem à Lua.
A Invenção de Hugo Cabret é, assim, não apenas uma maravilhosa diversão para o público infanto-juvenil, num 3D que nunca se preocupa em ser exibicionista, mas também uma das mais bonitas homenagens que o cinema já prestou a si mesmo.
Em A Invenção de Hugo Cabret reencontramos Martin Scorsese e sua posição única entre os cineastas. Dos contemporâneos, ele é o que possui a maior erudição. Viu milhares de filmes, estudou-os, sofreu e amou com eles, tentou extrair suas lições técnicas e implicações éticas. Basta assistir a seus dois documentários consagrados ao cinema – um ao cinema norte-americano; outro, ao italiano – para ficarmos convencidos de que Scorsese ama, de fato, a arte que abraçou. Não aquele amor bobo, lacrimoso, pró forma. É um amante que conhece perfeitamente as manhas do seu objeto de desejo e não o ama menos por isso.
Desse modo, não poderia deixar de comemorar, no sentido profundo do termo, o criador de formas e ilusões que foi Méliès. A Invenção de Hugo Cabret é homenagem a outra invenção, aquela que seus próprios criadores, os Irmãos Lumière, haviam chamado de “sem futuro”, e, na verdade, se transformaria na grande arte do século 20. E, talvez, do século 21, mas isso ainda está em aberto.
(Caderno 2)
Quem tem alguma familiaridade com o beisebol (não é bem o caso deste crítico) deve aproveitar melhor este O Homem que Mudou o Jogo,de Bennett Miller. De fato, o filme se passa inteiramente nos bastidores desse popular esporte nos Estados Unidos e outros países. Mas, quer saber de uma coisa? Mesmo quem não distingue um home run de uma mera rebatida, pode perfeitamente curtir esse filme. Mesmo porque, mudando o que precisa ser mudado, o popular mutatis mutandis, o que Miller diz para o beisebol vale muito para o futebol. E, quanto a este, estamos em casa.
O caso é o seguinte. Billy Beane (Brad Pitt) é o diretor executivo de uma equipe mediana do beisebol, que acaba de perder seus três maiores astros para times mais ricos. Como fazer? Beane é um ex-jogador de sucesso, não se conforma apenas em competir. Quer vencer. Ou pelo menos chegar perto do título. Não tem grana para contratar grandes estrelas para brilhar no campeonato.
Qual o remédio? Cérebro. Em companhia de um nerd, Peter Brand (Jonah Hill), economista formado em Yale e que não entende coisa alguma de esporte, mas muito de matemática e de computadores, Beane começa a testar um novo modelo de jogo.
O que pode ser esse novo modelo? Ele se resume a algo mais simples de dizer que de fazer. Dividindo a estrutura do jogo em seus elementos, usando atletas pouco badalados, mas que tenham ótimas médias em tarefas particulares, consegue somar pontos e vencer as partidas. Em linguagem de futebol, seria formar um “time de operários”que, entrosado, poderia enfrentar os times estelares, os galácticos.
O interesse do filme vem do fato de mostrar que os jogos, em particular os jogos coletivos, são, antes de tudo, atividades cerebrais. É verdade que dependem de vários fatores difíceis de controlar, como o acaso e o talento individual de alguns jogadores privilegiados. Mas também é influenciado pelo sentido de organização, por estratégias e táticas que podem ser pensadas e analisadas e, em seguida, colocadas em prática. Pelo que se diz, o filme é baseado em caso real, uma verdadeira revolução esportiva operada por este homem obstinado.
E eis aí o homem, Brad Pitt, que vem encarando papéis interessantes em sua carreira e disputa o Oscar de melhor ator com O Homem que Mudou o Jogo. Está também em outro filme que concorre à estatueta, o grandioso A Árvore da Vida,de Terrence Malick. Mas é mesmo como o manager de O Homem que Mudou o Jogo que Pitt pode levar o prêmio para casa. Hill, ótimo como o nerd que o auxilia na tarefa, concorre ao Oscar de coadjuvante. Tem mais chance do que Pitt, neste outro jogo que é o da Academia de Hollywood.
Bennett Miller é o mesmo diretor de Capote (2006), ótima cinebiografia de Truman Capote, o escritor interpretado por Philip Seymour Hoffman, que levou um Oscar pelo trabalho. Agora Hoffman faz um pequeno papel como o técnico da equipe, subordinado de Brad Pitt, e levado à loucura pelas inovações do chefe. Como sempre, mesmo com poucas aparições em cena, Hoffman dá densidade ao papel. É outro elemento forte do filme.
Com tudo isso, é claro que, na disputa do Oscar, O Homem que Mudou o Jogo é tão azarão quanto o Oakland Athletics, time dirigido por Brad Pitt. Mas o filme tem fluência. Inteligente e seco como uma boa rebatida, mantém o interesse do espectador o tempo todo. Além disso, quando se faz um filme sobre um jogo não é apenas dele que se fala e sim de toda uma mentalidade a ele associada.
Um esporte popular, se soubermos enxergá-lo além de sua evidência, diz muito sobre a sociedade em que é praticado e apreciado. Nesse sentido, O Homem que Mudou o Jogo pode ser visto não apenas como um filme sobre determinado esporte, mas como alegoria da crise americana e suas possíveis alternativas. O título original diz muito mais que sua tradução brasileira – Moneyball (o subtítulo do livro em que se baseia, escrito pelo jornalista Michael Levis, é ainda mais explícito: A Arte de Vencer um Jogo Injusto). Ao tentar fazer mais com menos, Beane, que é personagem real, parece indicar uma saída – talvez utópica – não apenas para o esporte, mas para certa crise de valores, e não apenas econômicos. Vale também para o futebol, e outros esportes.
(Caderno 2)
Claro que O Artista é um objeto estranho no mundo do cinema. Francês, celebra a época de ouro de Hollywood e, com seu subtexto e desfecho esperançosos, chega envolto numa aura de inegável nostalgia.
Por que o sentimento nostálgico às vezes triunfa, nas vidas individuais e também na esfera coletiva? Porque alguma coisa (ou muitas coisas) no presente não nos agradam e então preferimos nos refugiar no passado, eleito em nossa fantasia como uma época de ouro perdida.
O Artista tem disso. Tem também algo mais, é verdade: instala-se naquela dobra da evolução do cinema que foi a difícil passagem do mudo para o sonoro. Etapa que destruiu muitas carreiras e enfrentou resistências em toda parte – menos entre o público, que prontamente adotou o “cinema falado” (de que fala Noel Rosa no samba que leva esse nome). Um gênio como Chaplin postergou o quanto pôde o uso de diálogos em seus filmes. E incontáveis atores e diretores não se adaptaram e tiveram suas carreiras destruídas. Billy Wilder, outro estrangeiro, fez o melhor filme (sonoro) sobre a destruição de pessoas causada pelo cinema falado – Crepúsculo dos Deuses, de 1950, com Gloria Swanson como protagonista e Buster Keaton fazendo uma ponta.
Michel Hazanavicius deve ter intuído que vivemos em época semelhante, embora aparentemente menos dramática. Tudo passa para o lado do digital, e o compartilhamento de arquivos, vulgo pirataria, ameaça o modelo de negócio com o qual os grandes estúdios se acostumaram. Astros de carne e osso temem ser substituídos por contrafações digitais, como o Gollun de O Senhor dos Anéis. A técnica de motion capture digitaliza movimentos de atores reais e os reprocessa em computador dando vida a protagonistas digitais, como em Tintim. Estamos na iminência de um mundo novo, que desagrada aos donos do mundo antigo e causa insegurança em muita gente. Quando o presente nos provoca calafrios, regressamos ao passado, como a um simbólico útero materno.
Por isso, o protagonista de O Artista é um certo George Valentin (Jean Dujardin, extraordinário), grande astro do cinema mudo, que arranca suspiro das fãs. Uma delas é Peppy Miller (Bérénice Bejo, mulher de Hazanavicius), que de fã se torna estrela e continua apaixonada pelo astro, logo em processo de decadência. Conhecem-se num momento divergente da vida dos dois – um está no topo e vai cair enquanto a outra sai do anonimato para a glória. No quadro de fundo, a passagem do sonoro para o falado, que se deu entre 1928 e o começo dos anos 1930.
O charme do protagonista (mesmo caído em desgraça), o frescor da estrela, magnificado por uma brejeira uma pintinha artificial, ideia do seu infeliz pigmalião, o pragmatismo dos produtores, simbolizado por um John Goodman brilhante – tudo isso e mais um cãozinho elétrico e fiel são ingredientes que, bem trabalhados e mesclados, fazem de O Artista um filme muito prazeroso. E que, claro, tem encantado plateias por onde passa e tornou-se o favorito ao Oscar com suas dez indicações. Terminamos de assisti-lo com inegável gosto e com uma também inevitável pergunta a martelar o cérebro: sim, mas, e daí?
(Caderno 2)
A “mensagem” de Histórias Cruzadas é tão boa e forte que a direção de Tate Taylor afrouxa e deixa a forma correr solta. Ou seja, preocupa-se mais com a história do que com a maneira de contá-la. Isso não costuma dar certo e, como já disse alguém debochado, cinema não é Correios & Telégrafos para entregar mensagens.
Isso posto, cabe dizer que Viola Davis, com sua discrição e dignidade, e Octavia Spencer, com sua graça e irreverência, fazem com que o filme seja, até certo ponto, bom de ver. Concorrem ainda para a qualidade o frescor de Emma Stone, como Skeeper, a mocinha branca que tenta ser jornalista e acaba envolvida com o projeto mais ambicioso de escrever um livro. E a maluquinha Celia Foote, vivida por Jessica Chastain, de A Árvore da Vida.
O livro de Skeeper, caso seja mesmo escrito, será bombástico porque desvendará o racismo da comunidade do Mississipi onde todas vivem. No caso, trata-se de fazer com que as empregadas domésticas falem de suas relações com as patroas. O que não é fácil, porque na racista América dos anos 1960, elas temem represálias. Mas esse também o é o tempo em que muitas consciências começam a despertar, o que beneficia o projeto de Skeeper. Ficasse nesses limites, e Histórias Cruzadas poderia ser um grande filme.
Acontece que Taylor começa a enredá-lo numa série de armadilhas que se apresentam pelo caminho. Uma delas, ao eleger uma socialite branca (Hillie, personagem de Bryce Dallas Howard) como protótipo da intolerância racial, o que permite despejar sobre ela a responsabilidade e aliviar a culpa coletiva. Segundo, valendo-se de um expediente escatológico (o espectador verá qual), que poderia ter presença apenas pontual e cômica, mas que, pela repetição, assume papel central na trama – o que é deplorável. Terceiro, e mais grave de tudo, o tom adocicado da linguagem cinematográfica, do uso da música, etc, fatores excessivos que levam o filme para o lado do melodrama, no que o gênero tem de pior. Ou seja, apelo fácil às lágrimas e pouco espaço concedido à reflexão.
Mas o fato é que essas atrizes são encantadoras. Salvam o filme do desastre
Não podia dar outra mesmo: numa lista que tinha Bruna Surfistinha e Assalto ao Banco Central, entre outros candidatos, o escolhido pela comissão foi mesmo Tropa de Elite 2, de José Padilha. Agora, o longa disputa uma das cinco vagas para a finalíssima do Oscar de melhor filme estrangeiro. A lista sai em janeiro.
Em alguns setores do cinema brasileiro existe essa obsessão com o Oscar. Como se precisássemos do aval da Academia de Los Angeles para nos sentirmos maduros e aceitos no mercado global.
Acho bobagem.
Você quer saber tudo sobre a crise econômica de 2008, inclusive os nomes de alguns figurões por ela responsáveis, e em geral poupados pela mídia? Se a resposta é sim, seu filme é Trabalho Interno, de Charles Ferguson, cotado como favorito para o Oscar de documentários. Se o seu negócio for apenas espetáculo cinematográfico puro, bem, nesse caso, a recomendação não pode ser tão enfática.
De fato, o filme começa como um exercício cinematográfico visualmente bem apurado, que conduz o espectador até a pequena Islândia. Mas essa imaginação visual desparece ao longo do filme, quando então Ferguson se concentrará no assunto sem qualquer preocupação de ordem estética. Passa então a acumular entrevista sobre entrevista, com enquadramentos semelhantes, e a desfilar dados e estatísticas – alarmantes. Quer dizer que o filme se torna monótono? Nada disso. A não ser que você não tenha qualquer interesse pelo mundo real, manterá os olhos pregados da tela. E conservará ouvidos bem abertos. O que lá se mostra e diz é do interesse de cada um de nós. Além de ser um dos filmes mais esclarecedores sobre a crise global de 2008, por meio dele o espectador terá uma visão de conjunto da estrutura do capitalismo mundial dos anos 1980 para cá.
Por que começa na Islândia? Porque esse pequeno país europeu, com sua população reduzida, boa seguridade social, baixos índices de criminalidade, educação de ponta, alta tecnologia, foi levado à bancarrota através de um processo pudicamente chamado de “desregulamentação”. Com a flexibilização de regras de investimentos, o que encheu os bolsos dos especuladores, o país foi à ruína. A Islândia era um país socialista? Nada disso. Capitalista, social-democrata. Porém representava, dentro do capitalismo, um sonho de desenvolvimento e bem-estar, ponto final de um processo civilizatório.
A Islândia será, portanto, uma espécie de estudo de caso ideal para entender como o capitalismo financeiro se descolou da base econômica real e desenvolveu-se de forma autônoma, tornando-se um cassino global. Ilha da fantasia virtual, o tal cassino produz efeitos que nada têm de virtuais; retornam ao mundo real e o degradam.
Algumas das constatações de Ferguson são acacianas. Outras nem tanto. Por exemplo, que o motor do desastre é a infinita ambição dos agentes econômicos, todo mundo sabe. Mas como domar esse impulso, se a própria natureza do sistema leva a ele e o estimula? Ferguson mostra como o mercado foi se tornando especulativo além da conta e sujeito a riscos até então inéditos, sob a desregulamentação iniciada nos anos 1980, os anos Ronald Reagan e Margareth Thatcher.
Menos óbvia é a promiscuidade revelada entre governos – em especial o dos EUA – e os especuladores. Além disso, o mundo acadêmico norte-americano, maior concentração dos prêmios Nobel de economia do planeta, parece colaborar alegremente com sua inteligência para os tubarões da especulação. Muitos deles são chamados a dar seus depoimentos. Alguns se recusam. Por fim, o próprio governo Barack Obama, saudado e badalado por seu progressismo em seu início, sai chamuscado. Alguns dos mesmos nomes que trabalhavam para Bush continuam a operar para Obama. Como se o “sistema” tivesse lógica própria e poder para atravessar governos de ideologias em aparência tão diferentes. O que Trabalho Interno sugere é que nada mudou e pessoas envolvidas na crise foram reconduzidas a cargos importantes depois que a poeira baixou.
A conclusão de Ferguson nem de longe poderia ser classificada de esquerdista ou qualquer coisa do tipo. Pelo contrário; no subtexto vem embutido um elogio ao capitalismo mais controlado, que se perdeu, segundo ele e muitos analistas, a partir da desregulamentação feroz dos mercados. Alimentado por uma ambição sem medidas, o sistema foi levado à beira da falência. E só foi salvo por uma injeção sem precedentes de dinheiro do governo – isto é, do contribuinte. No entanto, passada a tempestade, a bomba relógio foi montada, mais uma vez. O cassino global é conduzido com lógica própria e independe de governos. Ou conta com a conivência deles. É alarmante.
Menos que um remake do filme de 1969, Bravura Indômita, dos irmãos Coen, é uma leitura mais cerrada, mais rente ao texto do romance de Charles Portis, publicado em 1968 (e agora lançado no Brasil pela Alfaguara com o cartaz do novo filme na capa).
Basicamente, trata-se da mesma história filmada por Hathaway em 1969, um ano apenas após o lançamento do livro. Mas há diferenças importantes, em especial no epílogo, quando os Coen aproveitam de forma cinematográfica as excepcionais qualidades do texto de Portis. Aliás, eles são muito bons nisso: souberam tirar o sumo da literatura de Cormac McCarthy em Onde os Fracos Não Têm Vez, com o qual venceram o Oscar de 2008.
Críticos espertos já notaram diferenças sutis entre os dois filmes. Algumas cenas noturnas viraram diurnas e vice-versa. O tapa-olho, que estava na vista esquerda de John Wayne passa para a vista direita de Jeff Bridges. E assim por diante. Sinais. Que podem dizer muito ou coisa alguma porque, como se sabe, Ethan e Joel Coen são dois notórios brincalhões.
Jeff Bridges assume o personagem do justiceiro Rooster Cogburn, que coubera a Wayne no primeiro filme. Ele é contratado pela garota Mattie Ross para vingar a morte do pai, assassinado por certo Tom Chaney (Josh Brolin) de maneira covarde. Acontece que Chaney fugira para território indígena, onde a dupla o persegue. A eles junta-se o Texas Ranger LaBoeuf (Matt Damon), que será o extremo oposto de Rooster. Este é um velho beberrão, desbocado e impaciente. LaBoeuf é um dândi do oeste, sério e sedutor.
O espectador verá que parte do encanto do filme está nos diálogos afiados entre o irascível Rooster e a surpreendente garota Mattie (a estreante Haylee Steinfeld), dona de cabeça atrevida, raciocínio rápido e determinação de uma mula. No livro, ela é a narradora em 1ª pessoa. No filme, esse foco narrativo se dilui um pouco para ser restabelecido no desfecho, quando então ela se assume como narradora.
Outra parte significativa da sedução virá da filmagem enxuta e, desta vez, quase despida da famosa ironia dos Coen, traço de estilo que não passa pela garganta de críticos irritadiços. Há humor em meio à tragédia e aspereza, mas os Coen abdicam de seu viés estilístico para melhor se conformarem à inspiração de Portis. O filme ganha com isso. Dessa secura de linguagem, da própria aridez dos personagens, emergem migalhas de sentimentos que nascem entre eles ao longo da aventura. Até por serem raras e discretas, essas pepitas afetivas adquirem valor especial. Era assim, parecem-nos dizer os personagens, naquela época, 1880, naquela região e entre aquela gente. Integridade, poucas e certeiras palavras, lealdade sem qualquer ostentação, sentimentos sólidos porém camuflados pelo pudor. O melhor da América. Por isso, e por alguns outros motivos, um crítico como André Bazin podia escrever que o western era a melhor expressão da mitologia americana.
Discretos e sábios, os Coen fazem jus ao mito.
As bolsas de aposta do Oscar têm oscilado. Primeiro, era dada como certa a vitória de Rede Social, repetindo a premiação do Globo de Ouro. Em seguida, O Discurso do Rei subiu. Agora é tido como favorito, com suas 12 indicações. Depois de vê-lo, você provavelmente vai chegar à conclusão de que ele tem mesmo tudo para ganhar. O Discurso do Rei entra em cartaz sexta-feira.
O filme, baseado na história do rei George VI, ambienta-se na época mais crítica da história inglesa – e europeia – do século 20: o começo da 2ª Guerra Mundial. É esse pepino cósmico que George (Colin Firth) terá de segurar, pois seu irmão, a quem o trono seria destinado, abdicou para se casar com uma plebeia americana. Sobrou para George, que tem uma tremenda dificuldade para um político – é gago. Como, nesse momento de crise, impor respeito com seus discursos?
Dirigido de maneira convencional, porém segura, por Tom Hooper, O Discurso do Rei relembra esses fatos históricos – com a presença de outros personagens, como Winston Churchill – numa época em que o domínio da palavra ainda era fundamental para um líder. Em especial quando se tratava de insuflar confiança em uma nação que já percebia os difíceis anos que teria pela frente. Hoje, talvez uma campanha de marketing resolvesse. Naquele tempo, tinha de ser no gogó. Na base da eloquência.
Desse modo, O Discurso do Rei será um filme muito falado – ou balbuciado. Um dos seus encantos maiores reside no relacionamento entre George e seu terapeuta da fala, o australiano Lionel Logue (Geoffrey Rush). O encontro dos dois não se resume a uma relação médica (mesmo porque Logue não tinha diploma), mas a um encontro humano. E, como tal, feito de simpatias e repulsas, tolerâncias e impaciências, altos e baixos. Ainda mais quando um é um monarca cheio de problemas e o outro, um plebeu muito pouco convencional.
Podem-se encontrar limitações em O Discurso do Rei, mas não se pode negar que emociona.
Universo da dança e, dentro dele, uma questão complexa: para o ser humano ser completo, tanto na vida como na arte, precisa integrar sua parte obscura ao seu lado mais benigno. Eis aí o que está em jogo em Cisne Negro, filme que tem impressionado alguns críticos e provocado desdém em outros.
Foi assim ano passado em Veneza, onde concorreu sem nada ganhar. Nem mesmo aquela que parece seu grande trunfo, a atriz da hora Natalie Portman, obteve o prêmio de interpretação feminina. Enfim, o filme de Darren Aronofsky, que havia vencido o festival italiano no ano anterior com O Lutador (papel de Mickey Rourke), saiu de mãos abanando e foi relativamente ignorado pela crítica. Esse é apenas um sintoma, que deve ser relativizado. Grandes filmes às vezes passam despercebidos e mostram sua força depois.
Premiações à parte, há o filme. O que se pode dizer dele? Um grande tema, sem dúvida, desenvolvido através de uma história não propriamente original. Nina (Natalie) é ótima bailarina, porém desprovida de alma. Disputa o papel protagônico em O Lago dos Cisnes sob a batuta de um coreógrafo tirânico vivido por Vincent Cassel. Nina é virgem, vive sob o tacão da mãe castradora (Barbara Hershey). Thomas (Cassel) acha que o papel é de Nina, mas não está plenamente convencido. Entende que ela interpreta muito bem o cisne branco (puro). Mas e o cisne negro (a pulsão, o sexo, o incontrolável)? Disso, ele não tem segurança. Nem nós.
Natalie parece purinha demais para um papel ambivalente. Ou seja, há necessidade de que uma contradição se apresente para que a história possa seguir. E ela aparece sob a forma de Mila Kunis, beleza provocante, hormonal, sexuada e em tudo contrária a Natalie. As duas moças disputam o papel e outras coisinhas mais, como verá o espectador. O expediente é fácil – uma dinâmica de contrários que movimenta um filme com problemas de deslanchar.
Aronofsky, que havia feito um belo trabalho com O Lutador, tenta aqui impor uma linguagem cinematográfica que demonstre essa luta de contradições. O verbo “demonstrar” não está aí por acaso. É perceptível a preocupação do cineasta em passar visualmente a sua “mensagem” e, com tanta insistência, que acaba por prejudicar aquilo que tem a dizer. Diga-se de passagem, Aronofsky não é cineasta conhecido por sua sutileza. Basta lembrar de A Fonte ou mesmo de O Lutador, que tem muitas qualidades, mas não a do trabalho em entrelinhas ou com subentendidos. Com Aronofsky é tudo na lata, por assim dizer.
Para não deixar dúvidas, monta o visual com contrastes entre preto e branco, insiste no tom expressionista para demonstrar a confusão psicológica de Nina, e por aí vai. A grandiloquência do todo é compensada pela falta de tônus de algumas partes. Perde no conjunto. Mas tem Mila Kunis.
Talvez Inverno na Alma nem ganhe nada no Oscar. Mas o fato é que, com sua simples presença, eleva o nível da competição de 2011 – uma safra bastante fraca. Dirigido por Debra Granik, Inverno na Alma, pelo contrário, nada tem de frágil. Entra sem medo numa história dura como aço e aposta numa dramaturgia sem qualquer concessão.
O cenário destoa de todos os estereótipos associados aos Estados Unidos. Ao invés da terra das oportunidades, temos como cenário uma das regiões mais miseráveis do país, cuja população é afetada pela disseminação de uma droga fatal, a metanfetamina.
A história é a de uma garota, Ree (Jennifer Lawrence), que precisa desesperadamente encontrar o pai. Não se trata tanto de amor filial. É que Jessup, preso por trabalhar num laboratório da droga, foi libertado sob fiança e sumiu. Ree toma conta da mãe, incapaz, e de dois irmãos menores. A polícia lhe diz que se o pai não for encontrado, a família será despejada, pois a casa foi dada como garantia da fiança. Simples assim.
De modo que a busca de Ree nada terá daquela trajetória simbólica da procura pelo pai como em Paisagem na Neblina, de Theo Angelopoulos, ou Central do Brasil, de Walter Salles. É busca pela sobrevivência mesmo. Pau puro. E Ree mergulhará num pesadelo sem fim nos traços desse pai ausente. Com uma fotografia gélida e interpretação forte de Jennifer, Inverno na Alma traça um retrato implacável de certa ética utilitarista dos Estados Unidos. O ser humano, ali, é mero detalhe.
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