É meio banal dizer que Paulo Vanzolini, morto aos 89 anos neste fim de semana, tenha sido um cronista de São Paulo. Foi mesmo. Mas por que essa cidade tão áspera, comporta poetas como ele e Adoniran Barbosa?
A verdade é que, para captar uma certa boêmia paulistana, de uma certa época ( digamos, anos 50 ou 60), é preciso escutar os sambas de Vanzolini. Volta por Cima, Samba Erudito, Ronda e tantos outros. Melodias simples, porém não banais. Letras secas, diretas, de um boêmio com diálogo com a cultura, com a ciência. Por mais que falemos mal de Sampa, talvez seja um dos poucos lugares onde um biólogo de renome internacional seja também um sambista de talento. É uma cidade de misturas interessantes, cuja grandeza foi criativa antes de se degradar nesse gigantismo bárbaro e de hoje.
Enfim, Vanzolini foi uma figuraça, um tipo raro. Conheci-o desde o tempo da USP, quando ele ia tomar seu uísque de fim de tarde num daqueles bares da Av. Waldemar Ferreira, na entrada da universidade, e que nós, etílicamente, freqüentávamos. A ordem era não mexer com ele, que tinha fama de mal humorado. Também varias vezes o havia visto no bar Jogral, de Luiz Carlos Paraná.
Quando o conheci pessoalmente, muitos anos depois, vi que esse mau humor era folclore. Foi numa entrevista, no Museu de Zoologia, dirigido por ele. “Sabe onde está o dinheiro do samba?”, me perguntou. E me levou até uma enorme estante de livros científicos. “Está todo aqui”, disse, com orgulho. Em que outro lugar do país, ou do mundo, um compositor empregaria o fruto financeiro de sua arte para adquirir uma biblioteca cientifica que, ainda por cima, passaria a pertencer a uma instituição pública?
Esse é apenas um aspecto do Vanzolini. Mas me tocou muito. Guardo dele essa pequena lembrança. Como uma jóia.
O documentário Jorge Mautner – o Filho do Holocausto já vem sendo testado em alguns festivais. Onde se deu melhor foi em Gramado no ano passado, no qual recebeu os prêmios de montagem, fotografia e roteiro. Agora, segue para a prova de fogo dos documentários, que é o circuito comercial. Tem tudo para se dar bem, guardadas as proporções de sucesso compatíveis com um documentário, mesmo se musical, o segmento que funciona melhor no Brasil. Somos um país musical, afinal de contas, e isso deve valer alguma coisa.
O retrato de Mautner, pintado por Pedro Bial e Heitor D’Allincourt, é tanto musical como cultural. O que é justo, dada a presença do personagem na vida de cultura do País que, em dada época, se confundia de maneira indissociável com a música e a questão política. Para simplificar, num primeiro momento pode-se dizer que Mautner foi, com colegas talvez mais famosos que ele, como Caetano, Gil, Mutantes e outros, um dos ícones da contracultura brasileira.
O documentário é hábil em conduzir a biografia do personagem, como se esta tivesse de desaguar, de forma inevitável, nessa figura emblemática dos anos 60 e 70. Filho de família judia fugida do nazismo (daí o subtítulo de Filho do Holocausto), com relações familiares um tanto complicadas no Brasil, fazendo com que a vida do menino se dividisse entre duas cidades (Rio e São Paulo) e dois pais (o natural e um padrasto) que, em dado momento convivem. Enfim, dá-se contexto tanto histórico como pessoal a este Jorge Mautner que seria parte importante do movimento contracultural brasileiro.
E este talvez seja outro trunfo do filme, comercialmente falando. Se podemos constatar que o engajamento político radical dos anos 60 caiu de moda como a calça boca de sino, deve-se reconhecer que a forma de contestação que o substituiu (já nos anos 70) continua em alta. Ainda soletra com clareza a sua poesia e é ouvida pela juventude contemporânea, uma vez que a rebeldia é uma espécie de esperanto do universo teen.
Daí a razão de sentirmos Caetano e Gil muito próximos, como se não tivessem atravessado os anos. E, de fato, não envelheceram; ou envelheceram bem, o que dá na mesma. São iguais aos jovens, apesar das cãs e óculos de leitura. Falam com eles no mesmo nível, às vezes com as mesmas gírias, e não como se recitassem uma sabedoria que só vem com a acumulação de décadas, rugas e cabelos brancos e que, no fundo, não serve senão aos velhos, já que os jovens preferem errar por conta própria. A rebeldia se situa mais na esfera da dúvida e da invenção do que na das certezas magistrais.
Se isso acontece com Caetano e Gil, acontece também com Mautner, que é índio da mesma tribo. E tanto são que estão juntos no único filme feito por Mautner, O Demiurgo,rodado em Londres em 1970, com sobras de negativo de Queimada, o clássico de Gillo Pontecorvo, segundo informa Pedro Bial. Vemos alguns trechos dessa obra underground, comentada na atualidade por seus atores, então jovens exilados em Londres. Todos cabeludos, todos malucos e alegres, praticando uma reviravolta de costumes que não se acomodava muito ao clima austero e verde oliva do Brasil.
Mas há Mautner. E sua trajetória pessoal na volta ao Brasil, na tentativa de levar uma vida “normal”, sem renunciar ao desbunde. A parte mais engraçada – e também reveladora – é o encontro de Jorge com sua filha Amora, hoje ocupando alto cargo na Rede Globo, diretora de novelas como a badalada Avenida Brasil. Rola certa cobrança: “Você sabe que esse nome me trouxe problemas, não é?”. Claro, os pais descolados podem achar lindo chamar a filhota de Amora, que não é a fruta, mas o feminino de Amor, mas, como se sabe, crianças são implacáveis com a diferença e Amora sofreu na escola. Ela se queixa de que o pai andava nu pela casa e ia buscá-la de sunga na porta do colégio. Tudo isso é engraçado, nota-se que está bem assimilado (a custa de muita psicanálise, admite a moça), mas mostra também como não é fácil ser filho de maluco-beleza. Uma geração ousa tudo, testa limites e vai até a beira do abismo; a geração seguinte dá um passo atrás e fica mais careta. É assim mesmo. Procede-se por reação, como numa espécie de equilíbrio, um sistema de freios e contrapesos da natureza. Senão, onde iríamos?
O fato é que Mautner foi ponta de lança de uma geração que empurrou as coisas adiante. Forçou limites e, com certeza, pagou seu preço por isso. Sempre se paga. Dessa fricção, anda-se um pouco mais à frente. Mautner, como outros, é um desbravador de caminhos. Mesmo que o filme não entre em detalhes mais íntimos, adivinha-se uma vida de grande riqueza pessoal, ao lado da realização artística.
Isso é balanço do passado e a contracultura, que se colocou a contrapelo do “sistema”, foi assimilada, como tudo é mastigado e deglutido pela indústria do espetáculo. Mautner, assim, como Caetano e Gil, souberam usar a seu favor essa lógica que faz do contestador de ontem uma atração do domingo à tarde. Nesse sentido, os tropicalistas foram muito realistas em sua decodificação das leis de mercado.
Mautner fez shows, gravou discos, foi ao Chacrinha, fez e faz parte do show biz brasileiro. Maracatu Atômico é sua obra-prima, Encantador de Serpentes (“Sobe cobra, a cobra não quer subir…”) é engraçada, e Lágrimas Negras, tocante. Foram e são tremendos sucessos. Sua parceria com o violonista Nelson Jacobina (morto pouco depois de terminado o filme) é coisa para durar na memória.
Alguns raros, privilegiados, escolhem um modo de vida e de arte que os condena à eterna juventude. Caso de Mautner.
Ao invés de quebrar a cabeça para encontrar um jeito sem pieguice de homenagear as mulheres em seu dia, que tal curtir essas imagens?
No princípio era o espanto, pai de toda a filosofia e toda a arte. O cineasta Eduardo Coutinho não deixa de se espantar com um fato básico: “A necessidade que as pessoas têm de se comunicar, falar com o outro, abrir-se”. É o que está na base do seu cinema. A necessidade vital de diálogo, “que leva as pessoas a dizerem coisas incríveis diante da câmera”. Só que, desta vez, além de falar, como em seus outros filmes, as pessoas também cantam. Surge então esse documentário intitulado, de modo singelo, de As Canções.
O método de pesquisa não diferiu muito do dos filmes anteriores de Coutinho, autor de um clássico como Cabra Marcado Prá Morrer e filmes recentes marcantes como Santo Forte e Edifício Máster. Os personagens foram selecionados em vários pontos da cidade do Rio de Janeiro, pessoalmente, através da internet e anúncios em jornais. A pergunta básica era: “alguma canção marcou a sua vida?”. Em caso positivo, a pessoa estaria disposta a cantá-la e dar seu depoimento para um filme?
A pesquisa durou dois meses, durante os quais 237 pessoas participaram e 42 chegaram a ser filmadas. Na montagem final, restaram 18 depoimentos-canções. Os personagens escolhidos têm de 22 a 82 anos de idade. Cantam canções de todo o tipo. De Noel a Chico Buarque, passando pelo inevitável Roberto Carlos. Canções de amor, de saudade, de dor de cotovelo. Todo um imaginário brasileiro romântico desfila por esses depoimentos musicais.
O dispositivo cinematográfico é ainda mais depurado que o do célebre Jogo de Cena, filme em que Coutinho misturava personagens anônimos e atrizes famosas que interpretavam suas histórias. Neste, o cenário era o palco de um teatro, com um fundo de poltronas. “Agora é ainda mais despojado. Uma cadeira preta contra um fundo preto. As pessoas entram, cantam, falam e depois saem de cena”, diz. “Comparado com As Canções, Jogo de Cena era um verdadeiro Titanic”, brinca. De fato, tudo é simplificado ao nível de uma pobreza franciscana. Do cenário à interpretação das músicas, sempre a capella, sem acompanhamento, vai-se ao osso das emoções humanas com pouquíssimos elementos técnicos.
Coutinho diz que selecionou os personagens tanto pelo canto (“Era preciso um mínimo de qualidade vocal”) quanto principalmente pelo depoimento no qual explicavam por que aquela era a canção da sua vida. “Não queria uma definição técnica ou intelectual. Se o cara dizia, por exemplo, que havia escolhido certa música porque ela tinha um intervalo de quarta muito bonito, estava eliminado de cara”.
Não contavam, portanto, razões estéticas racionalizadas, mas sim o impacto emocional que determinada canção teve sobre a vida de alguém e a maneira como essa pessoa relatava a experiência emocional.
Havia muito Coutinho notara a importância da música na vida das pessoas. Quem não se lembra daquele personagem de Edifício Máster que conclui seu depoimento interpretando My Way, a canção celebrizada por Frank Sinatra? (Na verdade, a letra inglesa é de Paul Anka, versão de uma composição francesa chamada Comme d’Habitude, de Claude François e Jacques Revaux). A sequência era tão forte que o cineasta, avesso a melodramas, evitou terminar o filme com ela. Também em Jogo de Cena, uma das entrevistadas se emociona às lágrimas ao cantar Se Essa Rua Fosse Minha, porque ela lhe lembra o pai. Portanto, a ideia ficou e ele resolveu circunscrever a sua pesquisa da intimidade a esse registro musical na biografia de cada um.
Depois de Jogo de Cena, considerado uma revolução no documentário brasileiro (colocando em questão a fronteira entre o cinema documental e o ficcional), Coutinho rodou Moscou, bastidores da montagem de uma peça de Checkov. O filme foi considerado um sintoma de impasse por vários críticos, incluindo pesos-pesados como Eduardo Escorel e Jean-Claude Bernardet, admiradores do cinema de Coutinho. As Canções seria uma resposta a isso?
“Jamais”, diz Coutinho, “embora depois de Jogo de Cena de fato tudo seja mais difícil para mim”. Esse filme parece uma espécie de limite, obra de inventor e mestre ao mesmo tempo, difícil de ser ultrapassada. “Mas de qualquer forma, As Canções retoma Jogo de Cena e, como ele, não quer passar qualquer tipo de mensagem a ninguém”. Ele brinca que uma de suas frustrações é que nenhum dos personagens elegeu como canção de sua vida Mensagem, celebrizada na voz de Isaurinha Garcia. Cantarola: “Quando o carteiro chegou e meu nome gritou com a carta na mão…”. Esta seria a única “mensagem” que Coutinho admitiria em seu filme. “Adoro essa música”, diz. Mas ela não pintou no repertório.
O que as pessoas cantam? De tudo, da bossa nova ao romântico, de Roberto Carlos a Noel Rosa. Nesse repertório diversificado surge em filigrana toda diversidade desse continente a que chamamos música popular brasileira. O brasileiro é um povo musical, que convive com a música o tempo todo, ouve, repete, cantarola. Com os amigos no bar ou sozinho, em casa, debaixo do chuveiro. Canta enquanto prepara uma refeição, passa roupa ou lava a louça. A música está presente do dia a dia. É amiga, amante, consolo, muleta ou fonte de catarse. É ponto de referência dos grandes momentos de uma vida.
Em geral, lembra momentos da vida amorosa. A música de dor de cotovelo expressa o momento em que pensamos que o mundo veio abaixo por um amor desmanchado. Lembramos de uma pessoa que partiu ou que morreu, e cuja memória ficou como que corporificada por aquela música. Cantamos para trazer de volta essa presença que já não é mais física e reside apenas na memória do afeto. “As mulheres evocam essa memória afetiva com muito mais força que os homens”, diz Coutinho. No entanto, há o caso do rapaz que se lembra da mãe e de uma determinada canção que ela gostava, e tenderíamos a chamar de brega, mas que leva o personagem às lágrimas.
Há mesmo muita emoção ao longo dessas Canções de Coutinho. A canção funciona como uma espécie de nó em torno do qual os afetos se cristalizam. São metáforas de significados múltiplos, pontos vivos na memória afetiva das pessoas. As Canções nos mergulha nesse complexo afetivo-memorialístico condensado às vezes numa única música. Todos nós, independente de sexo, classe social ou cultura, temos uma história musical e uma trilha sonora da nossa existência. “Para compor ou ouvir música não é preciso sequer ser alfabetizado”, lembra Coutinho. “É algo absolutamente democrático”.
Não por acaso um filme como este é feito no Brasil. Avesso a considerações de ordem geral, Coutinho admite que “a dinâmica cultural do Brasil se expressa mais que tudo através da música. Isto sim é extraordinário”. Como é extraordinário que alguém tenha tido a ideia de fazer um filme sobre isso. Em meio a tantos documentários musicais, este usa a música como meio para alcançar a subjetividade das pessoas. Elas falam, como nunca, através das trilhas sonoras de suas vidas.
(Caderno 2)
Roger Bastide (1898-1974) veio ao Brasil em 1938 para lecionar sociologia na então recém-criada Universidade de São Paulo. Aqui chegou para substituir ninguém menos que Claude Lévi-Strauss, o nome mais forte do estruturalismo. Como seu antecessor, Bastide também mergulhou de cabeça na cultura do país de adoção. Trazia na bagagem a formação humanística europeia, sedimentada na velha França e, em boa parte, usou-a para interpretar a cultura nova com a qual se deparava.
Visitou o País de alto a baixo, tentou entendê-lo e, sobretudo, escreveu muito sobre ele. Deixou livros fundamentais como Psicologia do Cafuné e Estudos Afro-Brasileiros. Mas também imprimiu sua marca em artigos para jornais, catálogos de exposição e revistas. Impressões do Brasil (Imprensa Oficial), com organização e prefácio de Fraya Frehse e Samuel Titan Jr. resgata esses textos há muito fora de circulação sob a forma de um livro luxuoso, com edição caprichada, papel de alta qualidade e muito bem ilustrado. É um prazer para o leitor voltar-se para o texto tão iluminador de Bastide, e sob condições tão atraentes.
Impressões do Brasil se compõe de onze artigos, de tamanhos variados. Há desde o artigo de jornal, breve (brevidade dos jornais de então, que podiam abrigar textos de até uma página, sem qualquer sentimento de culpa) até ensaios de maior fôlego, que eram publicados em capítulos, como as novelas de folhetim, com periodicidade semanal. Da coletânea constam quatro artigos originalmente publicados neste jornal: Igrejas Barrocas e Cavalinhos de Pau (1944), O Oval e a Linha Reta (1944), Ensaios de uma Estética Afro-Brasileira (1948-1949) e Estética de São Paulo (1951).
É curioso ver como os artigos, dispostos em ordem cronológica, testemunham o processo de ambientação do intelectual francês no Brasil. O primeiro, Pintura e Mística (1938) trata de uma questão mais geral, expressa pelo título, ou seja, de como a arte, em especial a pintura, aproxima-se da mística pela busca de restauração de uma unicidade perdida (uma representação da Queda, claro). Da mesma forma, no segundo, Presença da África (1940), é sobre um tema da pintura francesa – a presença de personagens oriundos das colônias na representação pictórica de grandes artistas – que ele se debruça.
Mas logo começam a surgir textos que mostram a profunda imersão de Bastide na cultura brasileira. E, no primeiro exemplar dessa espécie, Machado de Assis, Paisagista (1940), Bastide dá prova de leitura absolutamente original do nosso maior escritor. A singularidade de abordagem já vem explícita no título. Foi preciso uma sensibilidade outra, um olhar estrangeiro, para detectar um erro recorrente na análise de Machado, que o classificava como um mau paisagista, um escrito avesso à descrição de ambientes e do entorno físico das suas histórias. O engano tomou forma de anedota na frase famosa “As casas de Machado de Assis não têm jardim”. Pelo contrário, como mostra Bastide, a natureza está bem presente à narrativa machadiana, apenas que profundamente integrada à estrutura da trama. Basta pensar em um dos seus romances maiores, Dom Casmurro, necessariamente ambientado na cidade litorânea, que dá outro sentido aos “olhos de ressaca” de Capitu e inclui a possibilidade do mar revolto, que carrega Escobar e sela para sempre a dúvida em Bentinho. Hoje essa presença implícita da natureza na obra de Machado é quase um lugar-comum. Mas foi preciso um leitor francês para percebê-la e apontá-la a todos.
Essas sacadas se sucedem, de ensaio em ensaio. Em O Oval e a Linha Reta, Bastide discute a predileção de Lasar Segall pela linha curva. Como não era um formalista, não se contenta em detectar a persistência de uma escolha formal, mas mostra como era lhe era necessária para um determinado tipo de expressão. Havia ideias em jogo e estas pediam determinada forma e não o contrário. Luminosos também são os ensaios consagrados ao barroco (Igrejas Barrocas e Cavalinhos de Pau, A Volta do Barroco e Variações sobre a Porta Barroca) e também aquele em que Bastide evoca a sua cidade de adoção (Estética de São Paulo). Por fim, é no caudaloso Ensaio de uma Estética Afro-Brasileira que reencontramos Bastide em seu universo preferencial, uma mística que se aproxima da arte, sem que uma se reduza a outra.
Vejam que maravilha este vídeo.
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Foi mágica a noite de abertura do festival de documentários É Tudo Verdade. Plateia compacta no Espaço Unibanco da rua Augusta para ver Uma Noite em 67, dos estreantes Renato Terra e Ricardo Calil. Grandes e merecidos aplausos no final.
O filme é sobre o desfecho, em 21 de outubro de 1967, do III Festival da Record, no Teatro Paramount, rebatizado na época de Teatro Record Centro. Há quem diga que foi o festival dos festivais, o maior de todos. Foi o festival que consagrou Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, como vencedor. Foi o festival de Chico Buarque e Roda Viva. Foi o festival da “violada” no público, aplicada por Sérgio Ricardo, que não suportou as vaias ao seu Beto Bom de Bola. Foi o festival de Caetano Veloso, com Alegria, Alegria, e de Gilberto Gil, com Domingo no Parque. Foi o festival da MPB “pura” contra a guitarra elétrica. Um Fla-Flu.
O filme faz uma excepcional prospecção de imagens da época e acerta ao preservar as apresentações completas dos concorrentes, trazendo de volta todo um clima da plateia. Clima incandescente, para dizer o mínimo.
Traz também as entrevistas dos concorrentes, feitas pelos apresentadores Randal Juliano e Cidinha Campos nos bastidores. Há cenas da plateia, que aplaudia de maneira frenética os favoritos e vaiava, impiedosa, quem não gostava.
Acerta ao entrevistar, no presente, alguns dos protagonistas da época: Sérgio Ricardo, Caetano, Gil, Chico, Edu Lobo. São depoimentos preciosos, de reavaliação de um tempo quente e urgente e radical como aquele.
O festival expressou, e o filme contempla esse fato, cisões musicais importantes: de um lado a música politizada e “pura” em seu nacionalismo de esquerda: Ponteio, Roda Viva. De outro, a abertura criativa para o pop com Domingo no Parque e Alegria, Alegria. A raiz brasileira x a mistura eletrônica com o rock. Naquele tempo era uma coisa ou outra. Houve até uma passeata contra a guitarra elétrica, liderada por Elis Regina e da qual um constrangido Gilberto Gil participou.
O festival expressou também, mas nesse ponto o filme é menos incisivo, outra cisão que ocorria na sociedade brasileira entre o regime militar e a resistência a ele. O público dos festivais, pelo menos aquele que ia ao teatro, era, em sua maioria, universitário, de oposição ao regime. Canalizava (ou sublimava) sua energia nas canções que julgava melhor representar a sua luta, mesmo que os concorrentes não pudessem, de maneira maniqueísta, ser chamados como “reacionários”, como conviria a uma luta entre o “bem e o mal”. Edu ganhou porque Ponteio era mesmo ótima música, mas também porque continha uma “mensagem” revolucionária implícita em sua letra. Além disso, era nacionalista em seu arranjo e forma de expressão. Caetano e Gil não eram “entreguistas” em sua abertura para o pop. Mas não eram tão facilmente assimiláveis à “luta” como Edu e Vandré, por exemplo. Basta lembrar que, pouco tempo depois, Caetano e Gil foram presos e tiveram de seguir para o exílio.
Num festival seguinte, o III Festival da Canção, da Globo, a cisão ficaria ainda mais clara entre a engajada Prá não Dizer que não Falei de Flores, de Geraldo Vandré, e a linda canção do exílio Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim. A música de Chico e Jobim podia ser ótima e sofisticada, e era tudo isso mesmo, mas a de Vandré, em seus dois acordes, converteu-se na “nossa Marselhesa”, como bem a definiu Millôr Fernandes. Cresceu no seio do povo e passou a ser cantada em passeatas e atos públicos. Virou uma música de rua. Transformou-se num hino da resistência em tempos sombrios.
Os festivais, durante certo espaço de tempo, canalizaram paixões políticas expressas através da música. Tudo andava junto e nunca essa união entre cultura e política foi tão intensa. Foi um momento raro na história brasileira e os festivais, concebidos por empresários que queriam apenas garantir um bom show e ganhar dinheiro, se transformaram em outra coisa. Dá gosto reviver esse tempo, ainda que, no filme, talvez por receio de didatismo, essa ligação entre a arte e seu momento histórico não seja costurada por inteiro.
Som e bola – essa dupla de classe tinha tudo para dar certo no Brasil. E deu. A tabelinha está registrada em “Futebol no País da Música” (Panda Books) do jornalista Beto Xavier. Ao longo de 276 páginas, Beto, que cobriu como profissional inúmeros festivais da canção e é torcedor do Grêmio de Porto Alegre, refaz essa história feliz da música que comenta o esporte favorito dos brasileiros.
Uma relação que começou lá atrás, como ele registra em pesquisa que lhe custou 15 anos de trabalho, e aponta o choro “1 a 0″, de Pixinguinha, como uma espécie de marco inicial, não apenas pela importância da música em si, mas pelo fato de comemorar a primeira grande conquista internacional do Brasil. Com esse placar miúdo sobre o Uruguai, gol do mitológico Arthur Friedenreich, a seleção ganhou o Campeonato Sul-americano de 1919, em partida dramática no Estádio das Laranjeiras, que levou o País ao delírio. Comovido, Pixinguinha compôs a música em homenagem ao escrete e deu-lhe o apertado placar como título.
“1 a 0″ pode ser a pedra fundamental desse relação. Mas há quem diga que ela começou antes. “Há uma música chamada Amadores da Pelota, de 1912, cuja gravação se perdeu”, conta Beto em conversa com o Estado, “e não há certeza de que se referia mesmo ao futebol, pelo que pesquisei em arquivos.” Assim, pouco se conhece dessa pré-história da relação entre música e futebol no Brasil.
Em todo caso, a história, propriamente dita, é riquíssima, quase inesgotável, como testemunhou o pesquisador em seus vários anos de trabalho. “O livro cita mais de mil músicas relacionadas ao futebol, e isso porque nem prestei tanta atenção assim aos hinos dos times, porque senão o trabalho seria inesgotável”, diz. Isso porque o mais pobre dos times de esquina pode nem ter um jogo de camisas decente, mas tem seu hino. Como são milhares espalhados pelo País, seria inviável conhecê-los e listá-los. Mesmo alguns grande clubes têm mais de um hino, como é o caso do Santos, cuja música mais cantada pela torcida, Leão do Mar, sequer é o oficial do clube.
No capítulo hinos, claro, o destaque do livro vai para Lamartine Babo, que compôs a música-tema para cada um dos clubes do Rio de Janeiro, produzindo obras-primas em série. Lalá reservou o melhor de todos ao seu clube do coração, o América Futebol Clube. É um plágio, dizem.
A música dita erudita também não ficaria de fora do mundo da bola. Mesmo porque existe um vínculo de origem interessante entre os dois universos, com o casamento de Charles Miller, pioneiro do futebol no Brasil, e a pianista clássica Antonieta Rudge. Antonieta foi professora do compositor Gilberto Mendes (colunista do Estado), que criou uma magnífica peça de música contemporânea em honra ao seu time, chamada Santos Football Music.
Sim, há os hinos, marchinhas, frevos e peças eruditas que falam de futebol. Mas a pátria musical da bola seria mesmo o samba. “Não por acaso, essa relação se solidifica entre os anos 20 e 30, quando o futebol caminha para o profissionalismo, o samba vive sua época de ouro e a Rádio Nacional difunde ambos para todo o País”, explica Beto a respeito desse círculo virtuoso.
Como o samba e o futebol passam a ser as paixões nacionais, parece natural que conversem entre si. Mesmo o reticente Noel Rosa faz alusões – em Conversa de Botequim, quer saber do garçom “qual foi o resultado do futebol”. Noel não entregava seu time. Mas dizia torcer para o clube em que jogava Fausto, a Maravilha Negra. Ou seja, o Vasco. E assim todos os clubes ganharam músicas em homenagem. Mas, compreensivelmente, nenhum deles como o Flamengo no Rio, e o Corinthians em São Paulo.
Jogadores também foram lembrados, como Sócrates, Pelé, Garrincha, Júnior, Zico, Fio Maravilha. Muitos deles retribuíram a cortesia e tornaram-se cantores. Se não exibiam no gogó a mesma competência mostrada em campo, pelo menos deixaram seus registros vocais. O rei Pelé chegou a gravar com Elis Regina, rainha da MPB em sua época. Como Charles Miller e Antonieta Rudge na época clássica do futebol, Garrincha e a sambista Elza Soares sacramentaram em casamento a união simbólica entre música e futebol na era moderna.
Nem toda relação entre música e futebol teve final feliz. Em 1967, Sérgio Ricardo resolveu investir seu talento nessa área. Mas a indócil plateia do Festival da Record não tolerou seu Beto Bom de Bola e, com uma tempestade de vaias, o impediu de cantar. Revoltado, Sérgio quebrou o violão e o atirou à plateia. O ato entrou para a história dos festivais. E da música. Bola dividida também faz parte do jogo.
(Caderno 2, 22/3/2010)
Soube que Johnny Alf acaba de morrer. Tinha 80 anos. Grande perda. Johnny (na verdade, João Alfredo) foi uma espécie de precursor da bossa nova. Talvez sua música mais conhecida seja Eu e a Brisa, que, de fato, é maravilhosa. Mas tenho um carinho especial por Rapaz de Bem, com sua ginga maliciosa, letra com muito humor e uma harmonia imprevista, cheia de modulações.
Johnny ficou meio à margem da bossa nova porque simplesmente não estava no Rio quando ela eclodiu. Acho que já vivia e trabalhava em São Paulo. Foi aqui mesmo que o conheci, no começo dos anos 1990, morando na Mooca, quando o entrevistei para o lançamento de seu disco Olhos Negros. Um disco lindo, como outros. Delicado, músicas sofisticadas, para um país que já não era o nosso.
Lembro muito bem da entrevista, no apartamento modesto, com um quarto reservado aos ícones da sua devoção religiosa. Alf tocou piano depois da nossa conversa e me disse uma coisa surpreendente. Não tinha preconceitos musicais e gostava de ouvir rock de manhã. “Me deixa cheio de energia para o dia que começa”.
Johnny, pelo grande músico e compositor que foi, merecia um reconhecimento maior. Suas músicas quase não são tocadas e vivem apenas na nossa memória auditiva. Mas tudo isso, no Brasil, é chover no molhado.
Em todo caso, Johnny Alf deixa um legado de bom gosto e excelentes músicas. Outro dia, falando de José Mindlin e Walter Alfaiate, dizia que dois homens elegantes se iam. O mesmo vale para Johnny.
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