Lê-se de uma vez Monsieur Pain, de Roberto Bolaño (1953-2003), o que não chega a ser grande façanha. O livro tem apenas 140 páginas. Tamanho não é documento. Há textos de dez linhas que se arrastam. Com Bolaño tudo flui. Sua prosa corre como riacho. Rápida, leve, fresca. Esperta.
Assim, logo nos ambientamos com esse personagem. Acupunturista e estudioso em ciências ocultas em Paris, Pain é convocado por uma amiga à cabeceira de um moribundo internado em um hospital. Mas um grupo misterioso de pessoas (talvez espanhóis) impede que ele dedique seus cuidados ao doente, como lhe pedira a amiga, uma sedutora viúva, madame Reynaud. A história se passa na época da Guerra Civil Espanhola e o protagonista, que é também o narrador em primeira pessoa, lutou na Guerra Mundial de 1914-1918. Vive-se na Europa esse febril clima de entreguerras, com a suspeita de que o conflito entre republicanos e fascistas na Espanha serviria como um laboratório para a Alemanha nazista em seu plano de dominação.
O leitor esperto vai encontrar na Paris de Monsieur Pain, escrito no início dos anos 1980, ecos daquela cidade em que Julio Cortázar ambientou seu maior romance, O Jogo da Amarelinha, em 1963. Em especial naquilo que a velha Paris encarna de mistério e clima ligeiramente fantástico, noturno e chuvoso. Mas, claro, pode-se fazer mil aproximações para se chegar perto de Bolaño, e ele mesmo é um dos representantes desse pós-modernismo, que se nutre de referências variadas. O fato é que tem o fundamental para o grande escritor: voz própria e inconfundível já neste que é um dos seus primeiros romances.
Essa voz se ouve mesmo num texto breve, que não poderia ser chamado menor, dada a sua qualidade, mas que com toda a evidência não chega nem à perfeição de Noturno do Chile nem às alturas de Os Detetives Selvagens ou de 2666. Mas é livro escrito com poder de síntese, qualidade nem sempre cultivada por Bolaño. Seus Detetives Selvagens tem 620 páginas e 2666 quase chega a mil.
Numa pequena página introdutória, Bolaño fala do romance e de como, com ele, ganhou alguns dos seus primeiros prêmios literários (um dos quais em Toledo) numa época em que precisava desesperadamente deles, nem tanto por questões de prestígio literário, mas de sobrevivência pura e simples. Diz também que nunca “como naquela época se sentiu mais orgulhoso e mais infeliz por ser escritor”. Antítese que é puro Bolaño. E acrescenta que tudo (ou quase tudo) no romance é verdadeiro, a começar pela doença do poeta peruano Cesar Vallejo (1892-1938), mal atendido pelos médicos franceses, o atropelamento de Pierre Curie por um veículo puxado a cavalo na rue Delphine, alguns aspectos do mesmerismo e, segundo Bolaño, mesmo Pain seria real, tanto que é citado por uma certa Georgette, em suas “rancorosas, apaixonadas e inermes” memórias. Daí se vê a facilidade com que Bolaño mescla personagens (e fatos) reais a produtos exclusivos da sua imaginação.
Contudo, o que existe de reconhecível na rede de diálogos montada por Bolaño é a afinidade insuspeitada com a obra de Edgard Allan Poe, citado já em epígrafe, num diálogo de seu conto Revelação Mesmérica. Não escapa também ao leitor, além da já mencionada captação da atmosfera de Cortázar, o gosto pelos labirintos de Borges, o apego à trama detetivesca e o apelo aos elementos do fantástico como recursos para turbinar a narrativa.
Narrativa que avança célere à medida que Pain tenta atender o sul-americano doente, vê-se impedido de entrar no hospital, conhece alguns tipos suspeitos pela noite parisiense, anda em estranhos lugares e trava conhecimento com seres ainda mais bizarros. Tudo isso num clima que, sabiamente, boia indeciso entre o real e o onírico, deixando o leitor suspeitoso quanto à credibilidade do personagem, que narra em primeira pessoa.
Também como acontece com o Bolaño mais maduro, a narrativa de Monsieur Pain, embora lúdica, nunca é tola. Ou frívola. Grandes ideias e paradoxos humanos vão sendo destilados e debatidos por esses pequenos e grandes personagens que passam pela vida de um pobre-diabo, sustentado por uma pensão de Estado por sua participação na 1.ª Guerra, e que nunca parece saber exatamente o que acontece ao seu redor, ou consigo próprio, por mais culto que pense ser.
Aliás, em uma das passagens do livro, Pain refere-se à leitura “sempre tonificante” das Vidas Imaginárias, de Marcel Schwob. Vidas, as nossas próprias, que nos são concretas e palpáveis, mas que, vistas de outra perspectiva, parecem tão diáfanas e abstratas. Esse é um tema, em abismo, perseguido por Bolaño ao longo de toda a sua obra, e que já estava prefigurada neste inquietante e brilhante livro.
TRECHO
“Na quarta-feira 6 de abril, ao entardecer, quando eu ia saindo de casa recebi um telegrama da minha jovem amiga madame Reynaud solicitando minha presença em caráter urgente naquela mesma tarde no Cafe Bordeaux, localizado na rue de Rivoli, não muito longe da minha residência e a uma hora em que eu ainda, se me apressasse, podia chegar com pontualidade.
O primeiro sintoma da singularidade da historia em que eu acabava de embarcar se apresentou logo em seguida, quando desci a escada e cruzei, na altura do terceiro andar, com dois homens. Falavam espanhol, um idioma que não entendo, e usavam gabardines escuras e chapéus de aba larga que, por estarem eles num nível inferior ao meu, velavam seus rostos.
Pela meia penumbra comumente reinante na escada e devido também a minha maneira silenciosa de me movimentar, não se deram conta da minha presença ate ficarem frente a frente comigo, distantes tao só três degraus; então pararam de falar e, em vez de se afastarem para que eu pudesse continuar descendo (a escada e larga o bastante para duas pessoas, não para três), olharam-se um ao outro durante uns instantes que me pareceram fixos em algo como um simulacro de eternidade (devo insistir que eu estava alguns degraus acima) e depois pousaram, com extrema lentidão, seus olhos em mim.”
O problema da adaptação de textos literários é praticamente tão antigo quanto o cinema. Se este nasceu dividido entre o documental (Lumière) e a fantasia (Meliès), logo se colocou a questão ficcional como meta possível. Afinal, a “necessidade narrativa” parece uma pulsão humana que remonta aos primórdios da espécie quando as pessoas se reuniam em volta da fogueira para que alguém lhes contasse uma história.

Assim, nada mais natural que o cinema aplicasse seu potencial narrativo e se apropriasse de histórias já contadas. Isto é, consagradas pelo cânone de artes muito mais antigas, a literatura ou o teatro. Com muitos percalços, pois o raciocínio imediato – transpor uma história já pronta para tela – não leva em conta o essencial. Isto é, que literatura e cinema são dois modos de expressão diferentes, senão opostos. Num romance, não é tanto a “historinha” o mais importante, mas a maneira como é contada. Isto é, quais as metáforas, o tipo de narração, em primeira pessoa ou terceira, em estilo indireto livre, o uso pessoal do vocabulário, etc. Isto é, o estilo pessoal que modifica, a seu modo, os recursos da língua. No cinema, esses estilemas são de ordem audiovisual – fotografia, movimento de câmera, uso da música e da trilha sonora, direção de atores, etc., os elementos de construção que conformam um estilo.
Ou seja, quando se leva uma obra ao cinema está se fazendo menos uma adaptação do que uma verdadeira transposição de um meio a outro. É como se o filme negasse o livro para melhor encontrar sua tradução para este outro meio.
Observação que permite colocar o problema mais agudo das adaptações de obras literárias – a tal da fidelidade. Sempre existiu a preocupação em não “trair” a fonte literária original. Como se o diretor pagasse um tributo ao autor do livro e não quisesse decepcioná-lo com uma obra que não fizesse jus à sua fonte. E talvez essa preocupação tenha sido a principal razão de maus filmes baseados em livros ótimos e consagrados. Os casos mais flagrantes podem ser buscados na França dos anos 40 e 50, com suas adaptações de obras de prestígio como Madame Bovary, de Flaubert, ou O Diabo no Corpo, de Radiguet, procuraram ser tão intensamente “fiéis” que acabaram por desfigurar as obras de origem. O procedimento foi questionado pelos jovens críticos dos Cahiers du Cinéma, que, depois, se transformaram nos diretores da nouvelle vague. A crítica era a diretores como Autant-Lara ou Dellanoy que, ao tentarem respeitar em excesso as obras de origem, acabaram por traí-las, transformando-as em filmes pesados. Clouzot com O Diabo no Corpo, de Raymond Radiguet, e Dellanoy com O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo, para ficar em dois exemplos.
Não por acaso, um dos heróis cinematográficos da nouvelle vague foi Alfred Hitchcock, autor da boutade de que se grandes livros dão péssimos filmes, o melhor mesmo é filmar os maus livros. Alguma razão ele deve ter, não apenas pela sua versão de Os Pássaros, de Daphne Du Maurier. Basta pensar, por exemplo, no romance medíocre de Mario Puzzo, que deu origem a um extraordinário O Poderoso Chefão na leitura de Francis Ford Coppola. Exemplos são fáceis de encontrar.
Assim como é fácil encontrar exemplos de obras-primas muito bem transpostas para a linguagem do cinema. Para ficar na seara doméstica, podemos pensar em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que Nelson Pereira dos Santos transformou num dos títulos mais notáveis do Cinema Novo. Como? Incorporando na fotografia, na montagem e trabalho com o som a secura do ambiente e da vida que oprime a família migrante. Não interessava a Nelson captar a literalidade da trama, mas o espírito mais fundo da obra de Graciliano.
Outra obra-prima da literatura brasileira, Memórias Póstumas de Brás Cubas, fornece bom tema para análise, pois foi adaptada por dois diretores de tendência muito diversa – Julio Bressane e André Klotzel. O primeiro, de 1985, chamou-se Brás Cubas; o segundo, de 2001, tem por título Memórias Póstumas. Dividem ao meio até mesmo o título original do romance. Klotzel é mais literal; Bressane inventa a partir da obra. Para um romance de ruptura, para sua época, com procedimentos literários surpreendentes, a opção de Bressane parece mais fiel, pois se atém ao espírito da obra. Klotzel prestou mais atenção ao conteúdo, enquanto Bressane buscou a forma e reinventou-a na tela numa opção mais autoral.
E eu, que pensei que quando fechasse a última página do gigantesco romance 2666 teria esgotado o planeta Roberto Bolaño, estava enganado. O El Pais (leia) anuncia um inédito do escritor chileno, morto aos 50 anos em 2003. O livro chama-se Las sinsaborias del verdadero policia e está definido como um germem de 2666. Será lançado em janeiro do ano que vem. Bolaño parece inesgotável. Sorte nossa.
O projeto é obviamente desmesurado, para dizer tudo em uma só palavra: uma história completa da “inteligência brasileira”, cinco séculos de esforço cultural de um povo, acomodados em sete espessos volumes, mais de 4 mil páginas compactas. Falamos, já se sabe, da grande (e controversa) façanha intelectual do crítico Wilson Martins (1921-2010), agora reeditada pela UEPG (Editora da Universidade Estadual de Ponta Grossa).
Martins, crítico literário de vários jornais, 30 anos no Estadão, brasilianista na New York University e estudioso global da cultura, dá na História da Inteligência Brasileira o máximo de si, seu passo maior. Capta os primeiros sinais da inteligência nacional em 1555 “quando o padre Leonardo Nunes inicia os estudos rudimentares de latim no Colégio dos Meninos de Jesus, em São Vicente” e a dá seu trabalho por findo em 1960. Não porque a inteligência tenha sido abolida no começo da década mais convulsiva da cultura mundial no século 20, mas justamente porque se havia desenvolvido a tal ponto que ficava difícil acompanhá-la. Mesmo para um titã do pensamento, como alguns consideram Wilson Martins, com sua prodigiosa capacidade de leitura e não menos invejável disposição para a escrita.
Sobre essas qualidades, há controvérsias, como se costuma dizer, meio cinicamente, nas redações de jornais. Para se dar o justo valor da História da Inteligência Brasileira, não é preciso negar que nem todos apreciaram o esforço do crítico em dar conta dessa súmula tão heteróclita e complexa da aventura intelectual de um povo, que parece saída da pena de uma síntese de Bouvard e Pécuchet, os personagens de Flaubert empenhados em dominar o conhecimento completo do mundo.
Muitas foram as objeções ao projeto de Martins e à sua forma de concretizá-lo. Por exemplo, em 1979, o professor Silviano Santiago reconhece que a História é “em termos quantitativos, o empreendimento individual mais ambicioso redigido por um brasileiro”. Mas se queixa de que seu conceito básico é eurocêntrico e institucional: “Elitista e livresca, idealista e bacharelesca, a inteligência só se exprime em português correto e literário”. Assim, não é surpresa que a certidão de nascimento da cultura nacional seja assinalada por uma aula de latim. É que a “inteligência” de Martins se restringe ao mundo dos livros. Não pode assimilar ao projeto uma cultura autóctone e não-escrita, como a dos indígenas que aqui habitavam na chegada dos colonizadores. Santiago também se queixa da ausência de método numa história que se faz por acumulação e empilhamento. Nela, tudo cabe: “Antigos artigos de Martins são incorporados à “História” com a sem-cerimônia apontada no tocante ao aparato conceitual”.
José Guilherme Merquior foi outro pensador que fez restrições à História da Inteligência Brasileira. Merquior diz que chegou a saudar o projeto, mas decepcionou-se com o resultado: “Revela a mais aflitiva falta de familiaridade com a história do pensamento e as técnicas de análise ideológica”. Talvez para se vingar de Martins ter escrito mal de seus livros, Merquior aguça o florete e despacha o adversário com a frase lapidar: “Historiador das ideias, Martins não as tem”. Touché.
Essas considerações desfavoráveis não impediam que Martins tivesse seus admiradores entre intelectuais do porte de José Paulo Paes, do escritor Miguel Sanches Neto e do jornalista Paulo Francis. O volume e a ousadia do empreendimento faziam com que idiossincrasias de Martins fossem perdoadas, como por exemplo, o conservadorismo político e estético e a baixa estima que tinha por unanimidades nacionais como o poeta João Cabral de Melo Neto e o dramaturgo Nelson Rodrigues, a quem acusava de praticar uma “psicanálise de amador”. É bom lembrar que nem mesmo a morte, que no Brasil, de modo geral, encerra a polêmica em torno de um personagem, foi capaz de tirar o nome de Martins do centro da controvérsia. Prova disso foi o artigo quem Flora Sussekind analisa os obituários a ele dedicados e conclui pelo conservadorismo da crítica literária contemporânea. Deve-se lembrar que houve respostas ao ensaio de Flora, mostrando que, mesmo depois de morto, Martins continuou a despertar controvérsias.
E assim prosseguirá por algum tempo o balanço de sua memória, em especial por ocasião de algum relançamento importante, como é o caso desta História da Inteligência Brasileira. Deixando entre parênteses a impressão causada pelo porte do projeto, nota-se o princípio exaustivo que o inspira. Martins usa e abusa da paráfrase e da citação. Faz uma compilação imensa do que se publicou de época em época, períodos enfileirados como vagões de um trem, por uma cronologia obediente. A compulsão de obras não vem a seco. Treinado por uma disciplina do comentário, que ele praticou desde sempre em seus rodapés literários, Martins comenta, ironiza, polemiza. Como escrevia de maneira clara e direta, a prosa tem sabor. Falta-lhe a consciência metodológica que lhe permitiria interpretar com maior profundidade, contextualizar e tirar conclusões mais gerais. Mas História da inteligência Brasileira fica como testemunho e compêndio de uma época da nossa cultura. De várias épocas, na verdade.
Coube ao diretor brasileiro Fernando Meirelles fazer a melhor adaptação de uma obra de José Saramago para o cinema, Ensaio Sobre a Cegueira (2008), filme que participou do Festival de Cannes. Meirelles temia a reação do escritor, mas sossegou quando assistiu ao filme em sua companhia, em Lisboa. Saramago acompanhou a sessão sem dizer uma palavra e, no final, emocionado, agradeceu ao cineasta. Disse que se sentia tão contente quanto estava ao acabar de escrever o romance, talvez sua obra mais popular.
Na história do livro, filmada em São Paulo (na tela é uma cidade indefinida), uma estranha doença tira a visão das pessoas, com exceção da personagem de Julianne Moore. Na parábola de Saramago, e que Meirelles tenta mimetizar em termos de imagens, a tênue crosta de civilização não resiste à perda de um dos sentidos básicos do ser humano. No subtexto, nem tão sutil assim, o ser humano, alienado pela violência do capitalismo (não esqueçamos que Saramago era comunista), não consegue mais enxergar a sua condição de ser social. Por paradoxo, seria uma cegueira real que poderia levá-lo a enxergar de novo algo sobre si.
Não foi a única adaptação. Antes, em 2002, o francês naturalizado holandês George Sluizer já havia levado para a tela o romance Jangada de Pedra. O desafio era transformar em imagens outra das metáforas ferozes de Saramago ? a história fala de um estranho fenômeno sísmico que separa a Península Ibérica do resto da Europa. Portugal e Espanha, enfim sós, livres do peso europeu, saem navegando no Atlântico. O filme aposta no realismo mágico implícito no texto, mas não alcança seu propósito. Consta que o primeiro encontro entre Sluizer e Saramago não foi muito amistoso. O cineasta mostrou o roteiro ao escritor, que teria comentado: “Você não entendeu bem o que escrevi.” O script foi refeito, mas o resultado na tela reflete as dificuldades de produção. Não convence.
Existem outras adaptações, como Embargo, de Antonio Ferreira, baseado em Objeto Quase, e A Maior Flor do Mundo, de Juan Pablo Etcheberry, animação baseada em conto infantil do português. Mas Ensaio Sobre a Cegueira é, de longe, a mais interessante. Deve-se registrar que um texto de Saramago, o prefácio para o livro de fotos de Sebastião Salgado, Terra, inspirou o curta de Mauro Giuntini Por Longos Dias, uma visão histórico-poética das lutas do MST. Os militantes são vistos em sua vida cotidiana nos acampamentos até sua chegada a Brasília na Marcha pela Reforma Agrária, de 1997.
Saramago será personagem do documentário José e Pilar, produzido pela O2, empresa de Fernando Meirelles, e dirigido pelo português Miguel Gonçalves Mendes. Sua matéria é o cotidiano do escritor e sua mulher na ilha de Lanzarote. O filme tem pré-estreia programada para a Mostra de São Paulo, em novembro. Em Lisboa seria apresentado no dia 16 de novembro, aniversário de Saramago.
(Sabático Especial, 19/6/10)
Aos 87 anos, se foi o escritor português, prêmio Nobel de Literatura. Saramago tem grandes momentos como O Evangelho Segundo Jesus Cristo e outros menos bons, como A Caverna e Caim (o último), um tanto esquemáticos. Mas foi um belo escritor, bastante hostilizado por parte da crítica simplesmente por ser comunista. Essa discriminação ideológica não o faz melhor nem pior. Tem seu lugar garantido nas letras mundiais.
Em termos de cinema, devemos lembrar que duas de suas obras foram transpostas para a tela – Jangada de Pedra, por George Sluizer, e Ensaio sobre a Cegueira, por Fernando Meirelles. A de Meirelles é, de longe, a melhor. As duas histórias, fieis ao estilo mental de Saramago, baseiam-se em metáforas “duras”, às vezes até abusivas. Na primeira, a pensínsula ibérica descola-se do continente e sai navegando por aí. Na segunda, a humanidade é acometida de uma súbita cegueira e, nessa condição, entrega-se à barbárie.
Para Saramago, a humanidade está cega pela competição e pelo consumo. Perdeu-se de si mesma. Quem há de lhe tirar a razão?
Ando impressionado com a quantidade de artigos, matérias, colunas e reavaliações críticas elogiosas sobre a obra de Wilson Bueno, que morreu assassinado a semana passada.
Há muito se sabia que Wilson era excelente escritor. Bastava haver lido seu livro mais conhecido, Mar Paraguayo, para comprovar sua qualidade literária, pouco usual entre nós. No entanto, a cada novo lançamento, Wilson ganhava um destaque discreto, em nada condizente com seu talento, já provado, comprovado e amadurecido. Num mundo ávido por novidades, ou celebridades instantâneas, ele já não era notícia.
A morte lhe trouxe a aura que faltava. É curioso. É trágico. Lembro de Nelson Cavaquinho: “Me deem as flores em vida.”
Soube hoje de manhã que nosso amigo Wilson Bueno, o escritor paranaense, foi encontrado morto em sua casa, em Curitiba. Morreu assassinado, com uma facada no pescoço. Não se conhecem as circunstâncias do crime. Pode ter sido assalto. De qualquer modo, uma morte trágica, violenta, de um belíssimo escritor. Foi nosso colaborador durante muito tempo, no tempo em que eu editava o Cultura, e continuava a colaborar, com resenhas sempre criativas. Estava na recolha pois terminava seu novo livro, que entregou há pouco à editora. Fico com a lembrança do Wilson de Mar Paraguaio, um original romance escrito em portunhol. Foi filmado. Wilson tinha 61 anos.
Amigos, estou saindo agora para o recesso de Semana Santa. Volto apenas na segunda-feira. Até lá, vou curtir um pouquinho o litoral, ler e ver algumas coisinhas, de leve. Desejo Boa Páscoa a todos e até breve. Como presentinho, deixo uma reflexão que li em Vida de Moravia. Diz o autor de O Conformista:
“Nesse relacionamento com a literatura passei paulatinamente daquilo que a literatura diz para como o diz, embora permanecendo fiel à ideia inicial, isto é, à ideia de a literatura sempre ter de dizer alguma coisa externa à própria literatura”.
Acho que a reflexão serve também para o cinema. Pelo menos para o cinema, tal como eu o entendo. É isso. Abraços.
Para Flaubert, seriam necessários 80 anos para digestão de obras realmente inovadoras. Será chegado o tempo de compreender a obra de Joyce que põe o Ulisses no chinelo em termos de complexidade? Além do mais, parece que a edição disponível está cheia de erros, que agora estão sendo corrigidos. Leia notícia no El Pais. Convém lembrar que temos tradução brasileira assinada por Donaldo Schuler. Mas o Finnegans é traduzível?
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