Não podia dar outra mesmo: numa lista que tinha Bruna Surfistinha e Assalto ao Banco Central, entre outros candidatos, o escolhido pela comissão foi mesmo Tropa de Elite 2, de José Padilha. Agora, o longa disputa uma das cinco vagas para a finalíssima do Oscar de melhor filme estrangeiro. A lista sai em janeiro.
Em alguns setores do cinema brasileiro existe essa obsessão com o Oscar. Como se precisássemos do aval da Academia de Los Angeles para nos sentirmos maduros e aceitos no mercado global.
Acho bobagem.
Não tem para ninguém – o grande filme estrangeiro do ano foi Vincere, do italiano Marco Bellocchio. No âmbito nacional, não se pode falar de 2010 sem citar o capitão Nascimento. Aliás, o tenente-coronel Roberto Nascimento, de Tropa de Elite 2, que já levou 11 milhões de brasileiros ao cinema. Bateu o antes imbatível recorde de Dona Flor e seus Dois Maridos com seus 10,7 milhões de espectadores conseguidos em 1976.
Vincere e Tropa de Elite 2: como aproximá-los? Bem, isso não é necessário. A única coisa que têm em comum é serem notáveis, e por motivos diferentes. Um entra na conta de 2010 por sua excepcional qualidade artística – poucas vezes se viu na tela tamanha articulação entre vida pessoal e história política como neste relato sobre a amante de Mussolini, por ele abandonada ao tomar o poder.
Tropa 2 está presente não apenas por seu grande sucesso de público, como por sua correspondente repercussão social. Uma coisa não depende necessariamente da outra. Um filme como Titanic pode levar 16 milhões de pessoas às bilheterias e não mexer com nada que nos diga respeito. Tropa de Elite, à sua maneira, toca em temas fundamentais como a segurança pública, desnível social, tráfico e corrupção. Um diálogo entre ficção e realidade se deu com a guerra aos traficantes do Complexo do Alemão, ocorrido com o filme já em cartaz. E, goste-se de José Padilha ou não, deve-se reconhecer que evoluiu muito de Tropa de Elite 1 para o 2.
Claro, houve muito mais do que Tropa de Elite 2 no cinema nacional e mais do que Vincere no internacional.
O sucesso do filme de Padilha é, em boa parte, responsável pelo desempenho acima da média do cinema brasileiro no ano. Ele próprio faz parte de um processo mais amplo. Com a bonança econômica, as pessoas têm mais dinheiro para o entretenimento. Vão mais ao cinema, o que já está provocando aumento do número de salas no País, atualmente com 2.500. É pouco. Existe ainda muito espaço para crescer. Estas salas têm de ser preenchidas com bons filmes, ou filmes de apelo popular, e eles estão chegando, sob várias formas. Por exemplo, um fenômeno de 2010 foi o filão espírita, em especial com Chico Xavier, de Daniel Filho, e Nosso Lar, de Wagner de Assis, que, juntos, levaram 7,5 milhões de pessoas aos cinemas. A reação católica, que se esperava com Aparecida, o Milagre, de Tizuka Yamazaki, não se deu. Em começo de carreira, Aparecida não promete ir longe. Na semana de estreia obteve a pífia média de 186 espectadores/sala.
Números à parte, 2010 assistiu a uma interessante tentativa de diálogo com o público adolescente. Filmes como Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, Antes que o Mundo Acabe, de Anna Luiza Azevedo, e As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky, acertaram em cheio ao supor um espectador teen que espera se divertir mas também deseja ser respeitado em sua complexidade. Não arrebentaram na bilheteria. Por outro lado, a comédia jovem Muita Calma Nesta Hora, de Felipe Joffily, superou com folga o milhão de espectadores.
Se houve espaço para grandes sucessos e filmes em busca de segmentos específicos, mantiveram-se também as frestas para o cinema dito de autor, mais experimental e exigente. São os casos de A Alma do Osso, de Cao Guimarães, Acácio e A Falta que me Faz, ambos de Marília Rocha, O Amor Segundo B. Schiamberg, de Beto Brant. São títulos pequenos, “miúras”, como se diz, e de apelo restrito, embora indispensáveis do ponto de vista artístico. Nesse segmento desponta um título excepcional como Viajo Porque Preciso, Volto porque Te Amo, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz.
Já filmes como É Proibido Fumar, de Anna Muylaert, Os Inquilinos, de Sérgio Bianchi, Sol do Meia-Dia, de Eliane Caffé, e O Grão, de Petrus Cariry, são excelentes e buscam conciliar qualidade com legibilidade mais ampla. O fato de terem ido mal de bilheteria deveria ser matéria de estudo de mercado. Algo anda errado com o lançamento desse tipo de obra. Virtudes não lhes faltam. Falta é público.
Documentários nacionais também deram sua contribuição à qualidade cinematográfica do ano. Para citar apenas dois, e que têm por tema a música popular brasileira: O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira, e Uma Noite em 67, de Renato Terra e Ricardo Calil. Lírio, em linguagem poética e ritmada, redescobre o compositor Humberto Teixeira (parceiro de Luiz Gonzaga em Asa Branca e tantos outros clássicos), tendo como cicerone a filha do compositor, a atriz Denise Dummont. Uma Noite em 67 nos leva aos tempos dos grandes festivais de música a um deles em particular, o da Record, que consagrou Ponteio, de Edu Lobo, interpretado por ele e por Marília Medalha. Foi também o festival da cisão entre a música “autêntica”, de raízes brasileiras, como o próprio Ponteio e Roda Viva, de Chico Buarque, e o nascente Tropicalismo, com Domingo no Parque, de Gilberto Gil, e Alegria Alegria, de Caetano Veloso. Cisão artística e cisão política, na véspera do AI-5 – os festivais e este, em particular, expressavam nas músicas e na plateia aquilo que queriam calar na sociedade. O filme melhora a cada vez que é revisto.
Assim como o cinema nacional, também o internacional teve seus arrasa-quarteirões e seus miúras. Bons filmes da Argentina continuaram a chegar, como são os casos de Dois Irmãos, de Daniel Burman, O Segredo dos Seus Olhos, de Juan José Campanella, e Abutres, de Pablo Trapero. O cinéfilo brasileiro teve também o privilégio de ver dois novos Woody Allen – Tudo Pode Dar Certo e Você Vai Conhecer o Homem de Sua Vida. Detratores podem dizer que de novo eles nada têm, apenas mais do mesmo, Allen reciclado ainda uma vez. Dizia-se o mesmo a cada novo filme de Fellini e a cada novo disco de Frank Sinatra. Novidadeiros se esquecem de que grandes artistas se reinventam no mesmo.
O ano cinematográfico viu também a chegada de filmes dos grandes mestres como Belle Toujours, de Manoel de Oliveira, O Escritor Fantasma, de Roman Polanski, Ilha do Medo, de Martin Scorsese, e Tetro, de Francis Ford Coppola. Nenhum deles decepcionou, embora fosse grande a tentação de comparar essas produções atuais com as que fizeram no passado. Esse tipo de saudosismo crítico costuma idealizar o passado e empalidecer o presente.
Menção particular a Film Socialisme, diagnóstico impiedoso de uma Europa em ebulição, dirigido por um octogenário Jean-Luc Godard com a força e a ousadia de um menino. Godard continua, em seus filmes reflexivos, a trabalhar na forma e a pensar o mundo de maneira original. Nada mais avançado, esteticamente, bateu nas telas do cinema este ano.
Entre o cinema-pipoca que se pretende sério, os destaques ficam para A Origem, de Christopher Nolan, e Rede Social, de David Fincher – que devem bombar no Oscar. O primeiro parte de uma ficção interessante, uma aventura no interior da mente e dos sonhos. Quanto mais se pensa nele, mais ele se esvazia, até virar um pastel de vento. Rede Social parece mais persistente na memória. Talvez por referir-se a fenômeno contemporâneo da internet, a rede de relacionamentos Facebook, com seu meio bilhão de usuários e valendo US$ 25 bilhões no mercado. Cifras. Mas o que parece mesmo decidir o jogo a seu favor é o personagem que intriga, Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), nerd genial, emocionalmente tapado. Vidas sem sentido, cultura universitária americana elevada a padrão universal, bilhões de dólares extraídos do nada pelo capitalismo virtual – tudo isso produz um inquietante estudo sobre o vazio, cômico e aterrorizante. Mais fascinante ainda porque é um estudo sem tese e sem demonstração nítida, elaborado como que à revelia do diretor. Um círculo desprovido de centro.
Fincher chegou a dizer que Zuckerberg seria um Charles Foster Kane do nosso tempo. Pobre tempo, somos forçados a concordar.
Acabei de receber a carta aberta de José Padilha, na qual ele expressa sua neutralidade no segundo turno da eleição presidencial. Eis a íntegra:
“Parafraseando o filósofo americano Henry David Thoreau, gostaria de esclarecer que eu não pertenço a nenhum partido, grupo político, agremiação, sindicato ou lista de apoio a candidatos, na qual eu não tenha me inscrito voluntariamente; e que ao contrário do que certos sites e tweets têm afirmado, e do que consta em lista de apoio enviada por um grupo que apóia a candidata do PT para os grandes jornais brasileiros, eu não aderi a candidato algum nesta eleição pelos motivos explí¬citos em Tropa de Elite 2. É uma pena que a falta de crítica e de compromisso com a verdade esteja sendo a principal marca dos dois lados desta campanha presidencial. Um desrespeito ao eleitor brasileiro.”
José Padilha, diretor de Tropa de Elite 2
É um senhor deslocamento na visão de mundo de José Padilha. Se em Tropa de Elite o capitão Nascimento deplorava a “turma dos direitos humanos”, em Tropa de Elite 2 o agora tenente-coronel Nascimento, lotado na Secretaria de Segurança Pública, acaba por se aliar a um desses estranhos espécimes – um defensor empedernido dos valores constitucionais para todos. Sinal dos tempos? Sabedoria na assimilação de críticas? Evolução de conceitos?

Há de tudo um pouco nessa reversão de expectativas de um filme para outro. E a boa notícia é que a dose de complexidade adicionada à receita não foi capaz de afastar o público dos cinemas. Pelo contrário. Em seu primeiro fim de semana, Tropa de Elite 2 levou consideráveis 1,25 milhão de espectadores às 703 salas onde foi exibido. Hoje atinge cerca de 3 milhões, em números ainda não oficiais. É, já, um fenômeno de bilheteria. Ainda que não dê para dizer até onde possa chegar, tem tudo para se tornar o maior sucesso do cinema brasileiro desde o início dos anos 90, época da chamada “Retomada”. A denominação se aplica ao reinício da produção nacional, interrompida durante alguns anos pelo desmanche do setor durante o governo Collor.
Sucesso à parte, talvez seja interessante, a esta altura do campeonato, comparar um filme com o outro, mesmo porque ambos dizem respeito à questão da segurança pública, tema que mereceria ser melhor debatido na véspera do segundo turno – caso a polêmica religiosa concedesse alguma trégua. Lembremos que, apesar do sucesso de público, o primeiro Tropa de Elite gerou muita polêmica. O pensamento de direita brasileiro, sempre expedito em levar água para seu moinho, aplaudiu um filme que “tratava bandido como bandido e mocinho como mocinho”.
Ou seja, elogiava uma corporação que botava para quebrar, sem qualquer tipo de consideração legal ou moral. Críticas vindas do outro extremo do espectro político encontraram na obra traços de autoritarismo. Muita gente não economizou no adjetivo e chamou o filme de fascista, com certa liberalidade terminológica. E isso não apenas no Brasil. Como Tropa de Elite recebeu um dos principais prêmios internacionais de cinema – o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2007 -, gerou discussão internacional. A revista norte-americana Variety, tida como a bíblia do cinema de entretenimento, foi uma das que viram, embutida na poética do filme, ideias que não desagradariam a Benito Mussolini e seus camisas-negras. A prestigiosa Cahiers Du Cinéma seguiu na mesma direção e chamou o filme de “execrável”, indigno de crítica mais extensa. Entendeu que a premiação em Berlim era das mais equivocadas.
O interessante é que o presidente do júri em Berlim era o cineasta franco-grego Costa-Gavras, paladino do cinema de denúncia, que pode ser chamado de tudo, menos de direitista e menos ainda de fascista. Devem-se a ele títulos tidos como de esquerda como Z, Estado de Sítio e Missing.
Enfim, o filme provocou polêmica que, por sorte, comportou matizes entre as posições mais extremadas. De qualquer forma, era perceptível que o personagem do capitão Nascimento (Wagner Moura) despertava uma espécie de reação catártica na maior parte do público. Na figura do justiceiro implacável e incorruptível, ele parecia ir ao encontro de aspirações latentes no público, a principal delas a solução do problema da violência urbana através de um aumento da repressão, mesmo que ao arrepio da lei. Algumas cenas de tortura, como o uso de sacos plásticos para provocar asfixia, são mostradas de maneira explícita. O batalhão dirigido por Nascimento, o Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais), aparece na história como incorruptível. Tudo o mais lhe é perdoado em troca dessa confiabilidade moral, sentida pelo público como moeda rara na república brasileira.
A identificação com o personagem é reforçada por uma narrativa em off, onipresente, que não deixa grande espaço para reflexão. Além disso, o filme, muito bem realizado, vale-se de bordões que se tornaram populares (“Pede pra sair” é um dos mais lembrados). Tudo conduz a uma relação de fascínio com a obra, dificultando a percepção de conclusões políticas problemáticas e eventuais inconsistências. Se havia uma moral da história em Tropa de Elite 1, ela poderia ser resumida na concepção de Washington Luís sobre a questão social como caso de polícia.
Antes de lançar Tropa de Elite 2, Padilha deu algumas entrevistas preparatórias. Fazia parte da estratégia de lançamento criar, ou ampliar, a expectativa do público pela chegada da continuação às telas. O primeiro da série já havia feito 2,4 milhões de espectadores, além de ter sido impiedosamente pirateado. Números informais (e dificilmente comprováveis) garantem que o público total teria chegado a 11 milhões de pessoas.
Ao preparar o lançamento do segundo filme, o cineasta batia numa tecla sistemática. De acordo com ele, haveria no Brasil duas posições dominantes, e insuficientes, a respeito da segurança pública: “A esquerda acha que tudo depende da solução da desigualdade social; a direita entende que o caminho é o aumento da repressão; nenhuma das duas dá conta da questão da segurança”. Tropa de Elite 2 viria explorar uma espécie de terceira via entre as duas visões de mundo. Querendo “mostrar por que as coisas acontecem desse jeito”, Padilha opta pelo caminho do meio, o da suposta sabedoria. Ao fazê-lo, realiza o contrário do que em geral fazem os cineastas brasileiros. Estes, ao receber alguma opinião desfavorável, colocam-se na defensiva e procuram desqualificar o interlocutor. Padilha pode não gostar de críticas, mas as assimila e, a partir delas, enriquece a sua leitura do real.
Não era impossível, mas exigia certo esforço defender Tropa de Elite 1 de acusações vindas de setores progressistas. É verdade que o capitão Nascimento já dava indícios de uma personalidade conflitada – tinha dúvidas, insônia, angústias e colocava em perigo sua vida pessoal. Era ainda pouco ao lado da convicção com que exercia a truculência no combate à criminalidade.
Esses pequenos desconfortos do capitão eram quase nulos se comparados à verdadeira iniciação à complexidade da vida a que se vê submetido o tenente-coronel Nascimento. Quando “cai para cima” e troca a farda pelo terno e gravata de subsecretário, ele terá de conviver com um ativista de direitos humanos. Mais do que conviver, porque Fraga (decalcado de Marcelo Freixo, deputado eleito pelo PSOL-RJ), interpretado por Irandhir Santos, irá se casar com sua ex-mulher e criar seu filho, um adolescente agora rebelde que questiona os métodos violentos do pai. Mais ainda: será apresentado a um sistema de ideias contraditórias que terá de levar em conta na hora de interpretar a realidade e, em particular, a questão da segurança.
Tropa de Elite 2 já foi comparado, com bons motivos, aos filmes políticos italianos das décadas de 60 e 70, como os de Elio Petri (Investigação de um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita, 1970) e Damiano Damiani (O Dia da Coruja, 1967). Como neles, Nascimento parte do particular e estende-se ao geral. À medida em que avança em sua investigação, mais podre e complicado o mundo se apresenta. O truculento e simplório capitão vai se sofisticando. Descobre que o combate ao tráfico talvez não possa se limitar à prisão ou morte do traficante.
Aprende o papel das milícias no controle dos morros. Nota a cumplicidade da banda podre da polícia com a mídia sensacionalista e o governo do Estado. Nota como tudo isso se associa entre si e forma um complexo difícil de ser desfeito.
Nascimento chama de “o sistema” essa rede de relações espúrias. A aliança do crime com comunicadores venais, políticos corruptos e com o próprio aparelho do Estado forma algo impessoal, que cresce, progride e se defende com lógica própria, como um organismo autônomo, independente de quem sejam seus agentes em determinado momento. Estes entram, saem, são eliminados quando já não se mostram úteis e o “sistema” cuida da própria sobrevivência. Entre o relativo primarismo do primeiro filme e a (também relativa) sofisticação intelectual do segundo há, de fato, uma diferença e tanto.
Ela não se expressa de maneira mais completa porque o diretor não consegue abandonar de todo sua vocação cartesiana de simplificar o que lhe parece complexo. Nesse ponto, a diferença entre ele e os cineastas políticos italianos parece significativa. Nestes, a ascensão rumo às fonte originais do mal (porque é dele que se trata) se dá numa atmosfera de opacidade crescente, porque, por mais que se diga, a transparência não é uma das características da engrenagem política. Em Tropa de Elite 2, não é assim. Aliás, é exatamente o contrário: à medida em que Nascimento progride em sua compreensão do mundo, este se torna cada vez mais claro e límpido, como se, ao final, ele pudesse dispor de uma visão absoluta do social a partir do seu ponto de observação privilegiado.
Para que isso seja possível, todos os elos devem parecer muito evidentes e às vezes as relações se tornam mecânicas e caricatas, de tão explícitas. O desejo de compreender incorre no pecado da simplificação extrema e, portanto, da perda de matizes e do sentido da real complexidade das coisas. Por outro lado, ao se tornar porta-voz de um sentimento generalizado que tem a política na conta de irremediável antro de corrupção, Padilha perde a oportunidade de discuti-la a fundo. Se a segurança, afinal de contas, é uma questão política, sua solução possível seria apenas e tão somente política. Mas, como contar com ela, se a política é vista como intrinsecamente corrupta e portanto incapaz de voltar-se contra si mesma? A presença em cena de um ou outro homem decente, como Fraga (e até mesmo o arrependido Nascimento), parece pouco para arranhar, mesmo que de leve, o tal sistema.
Em Tropa de Elite 2, Padilha denunciou a política e os políticos. Faltou-lhe ser, de fato, um artista político, alguém que compreenda a enormidade do problema que se propôs discutir. Esse salto, ele ainda não deu. Quem sabe no Tropa de Elite 3?
(Aliás, 17/10/10)
Leio que Tropa de Elite 2 arrebentou na bilheteria do fim de semana. Foi visto por pelo menos 1,25 milhão de pessoas na abertura – o recordista anterior, Chico Xavier, teve 585 mil no primeiro fim de semana. A largada faz prever uma carreira excepcional dessa continuação da história do capitão Nascimento, dirigida por José Padilha. Abaixo, mais algumas palavras sobre o filme.
Ninguém, espera-se, vai negar o mérito cinematográfico dessa mistura de thriller político, drama policial e filme de máfia. Com alguns bambas nos créditos técnicos (Lula Carvalho na fotografia, Daniel Rezende na montagem, Braulio Mantovani no roteiro, elenco de ponta), e ele mesmo regendo o coro, José Padilha apresenta um filme forte, de impacto, feito para incomodar, provocar reações, favoráveis ou contrárias. Ninguém que o veja há de ficar indiferente – o que, confirmado, será grande feito numa época em que quase tudo cai no vazio.
Essa força de Tropa de Elite 2 vem de sua qualidade de espetáculo cinematográfico mas, também, de um aumento de complexidade do personagem principal. Se no Tropa 1, o então capitão Nascimento ainda era um personagem um tanto plano (apesar de algumas crises de consciência), aqui ele ganha mais arestas. Promovido a tenente-coronel e transformado em subsecretário de Segurança do Rio de Janeiro, Nascimento (Wagner Moura) terá de reavaliar algumas de suas certezas e inclusive reconsiderar o tipo humano que mais parece desprezar, um militante dos direitos humanos – Fraga, na ótima interpretação de Irandhir Santos. Nascimento terá ainda de encarar o conflito com o filho adolescente.
Para adensar também sua trama, Padilha busca pontos de contato na realidade – Fraga é inspirado em Marcelo Freixo, deputado do PSOL que presidiu a CPI das milícias no Rio; a jornalista vivida por Tainá Müller é uma referência clara ao repórter assassinado Tim Lopes, e por aí vai. Esses pontos de contato com o real são explicitados desde o início, quando se avisa que aquela é uma obra de ficção, mas que se parece demais com a realidade.
Então, que ninguém se iluda. Tropa de Elite 2 pode ser um filmaço etc., mas sua vocação maior é ser um comentário ácido sobre o País, visto por um dos seus ângulos mais frágeis, a segurança pública. Pode ser visto como fecho de um tríptico sobre o tema. Em seu primeiro longa-metragem, o documenário Ônibus 174, Padilha mostrava como se fabrica um criminoso pé-de-chinelo como Sandro Nascimento. Em Tropa de Elite 1, examinava as entranhas de uma corporação policial. Agora, deseja ir muito além e fala da promiscuidade entre o crime organizado e a máquina do Estado. Chama de “sistema” a essa aliança espúria e apresenta seu diagnóstico – a cabeça da serpente deve ser buscada na esfera política.
Ou seja, para quem lhe cobrava por uma falta de contextualização em Tropa 1, Padilha responde indo do microuniverso do crime ao macro da política em Tropa 2. No entanto, o didatismo da narração em off e um certo cartesianismo o impedem de dar conta da complexidade do tema. Não raro recorre a clichês (os policiais corruptos, o jornalista venal, etc.). E o uso hábil de bordões de linguagem e violência buscam a catarse do público. Muito mais do que a reflexão. Cai num impasse – se o problema da segurança é político, apenas uma resposta política pode enfrentá-lo. Mas como esperá-la, se o sistema político é visto como corroído por dentro? Nesse sentido, o sobrevoo da câmera sobre Brasília pode ser uma catarse a mais proposta ao público – nesta época de descrédito e pessimismo em relação à atividade política.
PAULÍNIA
Gostei. E o público de Paulínia, este primeiro público de convidados, também gostou. Aplaudiu bem no final. Filme forte, bem feito, com cenas de impacto. Gostei, mas em termos. Sinto falta da mesma coisa que sentia em relação ao Tropa de Elite 1: um pouco de sutileza, mais senso de nuance, respeito pela complexidade das coisas. Padinha gosta de simplificar, o que é ok. Só que perde em profundidade. Mas o filme impressiona em vários momentos. Aqui em Paulínia foi aplaudido durante a projeção algumas vezes. Em especial numa hora em que o agora coronel Nascimento cobre de porrada um desafeto e o ameaça de morte. Uma moça ao meu lado, muito bonita e bem vestida, aplaudia freneticamente. As pessoas gostam desse tipo de coisa.
A novidade, em relação ao filme anterior, é que este apresenta a conexão do crime organizado com os estratos mais altos da sociedade – com o poder político. Dessa forma, ao chegar à Secretaria de Segurança do Rio, Nascimento (Wagner Moura) descobre que lá reside o centro do “sistema”, como ele chama. Quer dizer, Padilha quer ampliar seu espectro de diagnóstico. Se em Ônibus 174 ele se colocava no ponto de vista do marginal, e em Tropa de Elite 2 no ponto de vista da polícia, agora busca a motivação política – quer dizer, da busca pelo poder – como a fonte maior do tráfico, dos crimes, do dinheiro que circula; em suma, do Estado.
Numa época de descrédito com a política, não poderia faltar o sobrevoo da câmera sobre Brasília para sugerir que a cabeça da serpente está sempre um andar acima do que se supõe. Aliás, Padilha não sugere nada. Diz explicitamente, à sua maneira. Ao vê-lo, talvez o público não ganhe muito em compreensão, mas desafoga mágoas e frustrações.
Dentro desses limites, o filme funciona. Mix de drama policial, thriller político e filme de máfia, deve fazer sucesso.
PAULÍNIA – Já estou aqui em Paulínia esperando pela sessão de Tropa de Elite, opus 2, do mesmo diretor, José Padilha, autor também de Ônibus 174.
A sessão será daqui a pouco, às 21h (sem contar atrasos) no suntuoso Teatro Municipal da Cidade, apenas para convidados.
Padilha inova no lançamento. Ao invés de mostrar o filme para a imprensa nas chamadas “cabines”, sessão fechadas para jornalistas, faz apenas essa única pré-estreia, para convidados, aqui em Paulínia. E por quê? Para evitar que o filme seja pirateado, como aconteceu com o primeiro da série.
E por que Paulínia? Porque a produção tem grana do polo de cinema da cidade e reza o contrato que, em havendo verba local, 40% da produção tem de ser rodada na chamada RMC (Região Metropolitana da Campinas) que se compõe de 19 cidades, Paulínia entre elas. Além de fomentar a capacidade local de produção, Paulínia também se reserva a honra da pré-estreia. Quem quiser ver o filme antes da estreia, terá de se deslocar até aqui. Esperam-se jornalistas de todos os cantos do país.
Para a cerimônia de apresentação, teremos a presença de diretor, do fotógrafo Lula Carvalho, do montador Daniel Resende, além, claro, do elenco, a começar por Wagner Moura que faz o capitão Nascimento. Além dele, seu Jorge, Maria Ribeiro, Milhen Cortaz etc. Deve ser uma grande noite.
O filme entra em cartaz na sexta. Aqui em Paulínia, ele será exibido no Teatro Municipal, com ingresso a R$ 1 (um real).
Padilha tem falado muito sobre o filme. Hoje à noite veremos o que o filme tem a dizer.
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