Há uma sequência muito comovente de Isto não É um Filme, quando Jafar Panahi, confinado em seu apartamento em Teerã, delimita no piso, com fita crepe, as marcações do filme que tem na cabeça e não pode realizar. Panahi, quando esse “não-filme” foi realizado, estava em prisão domiciliar, aguardando o resultado do apelo à justiça.
Isto não É um Filme, correalizado com Mojtaba Mirtahmasb, tem esse tanto de astúcia e de protesto silencioso. “Não posso filmar”, diz Panahi, “mas ninguém me proibiu de ser ator”. Ele é, então, um ator de si mesmo. Um diretor, atingido pelo arbítrio que não lhe permite filmar, interpretando um cineasta que dirige um filme imaginário.
Há mais nessa estratégia, claro. Já que não pode sair, Panahi filma da janela a sua cidade. Como não pode se encontrar com quem quer, entretém-se conversando com o rapaz que vem buscar o lixo do edifício e pode trazer notícias de fora. E não importa muito saber se essa cena foi obra do acaso ou mais uma esperteza do diretor. Nesse discurso ficcional, mas perfeitamente dirigido à realidade iraniana, valem as invenções, as espertezas e as malícias para escapar à ordem autoritária, que a tudo invade. Oprimido, em seu canto, Panahi salva-se por sua arte.
É o que lhe resta e isso não lhe podem tirar.
Amigos, Cacá Diegues me enviou cópia da carta de Jafar Panahi, o maravilhoso cineasta iraniano, preso em seu país por delito de opinião. Vale a pena ler. E meditar sobre suas palavras.
“Julgar-nos é julgar todo o cinema social iraniano”
Tradução de Ana Luiza Baesso
Ilmo. Sr. Juiz, permita-me apresentar minha defesa em duas partes distintas.
Primeira parte: o que se diz
Nos últimos dias, revi vários de meus filmes preferidos da história do cinema, embora grande parte de minha coleção tenha sido confiscada durante o ataque à minha residência, ocorrido na noite de 19 de fevereiro de 2009. Na verdade, o Sr. Rassoulof e eu estávamos rodando um filme do gênero social e artístico quando as forças que alegavam fazer parte do Ministério da Defesa, sem apresentar nenhum mandado de busca oficial, a um só tempo nos prenderam, bem como a todos os nossos colaboradores, e confiscaram todos os meus filmes, que nunca me foram restituídos posteriormente. A única alusão feita a esses filmes foi a do juiz de instrução do processo: “Por que essa coleção de filmes obscenos?”
Gostaria de esclarecer que aprendi meu ofício de cineasta inspirado por esses mesmos filmes que o juiz chamava de “obscenos”. E, acredite, não sou capaz de entender como um adjetivo como esse possa ser atribuído a tais filmes, assim como sou incapaz de compreender como se pode chamar de “delito de opinião” a atividade pela qual hoje querem me julgar. Julgam-me, na verdade, por um filme que ainda
não tinha nem o seu primeiro terço rodado quando fui preso. O senhor certamente conhece a expressão que diz que pronunciar apenas metade da frase “não existe nenhum deus além do grande Deus” é sinônimo de blasfêmia. Então, como se pode julgar um filme antes mesmo que ele esteja pronto?
Não sou capaz de entender nem a obscenidade dos filmes da História do cinema nem a acusação que é proferida contra mim. Julgar-nos é julgar todo o cinema engajado, social e humanitário iraniano; o cinema que pretende se posicionar para além do Bem e do Mal, o cinema que não julga e que não se põe a serviço do poder e do dinheiro, mas que dá o melhor de si para apresentar uma imagem realista da sociedade.
Acusam-me de ter desejado promover o espírito de tumulto e de revolta. No entanto, ao longo de toda a minha carreira de cineasta, sempre me declarei um cineasta social e não político, dotado de preocupações sociais e não políticas. Nunca desejei atuar como um juiz ou um procurador; não sou cineasta para julgar, mas para fazer enxergar; não pretendo decidir pelos outros nem prescrever-lhes o que quer que seja. Permita-me repetir minha intenção de posicionar meu cinema para além do Bem e do Mal. Esse tipo de engajamento sempre custou caro a meus colaboradores e a mim mesmo. Sofremos os prejuízos da censura, mas é a primeira vez que se condena e prende um cineasta para impedi-lo de fazer seu filme. Também pela primeira vez é feita uma perquisição na casa do referido cineasta e sua família é ameaçada enquanto ele passa uma “estadia” na prisão.
Acusam-me de ter participado de manifestações. A presença de câmeras era vetada durante essas reuniões, mas não se pode proibir que cineastas participem delas. Minha responsabilidade enquanto cineasta é observar para, um dia, manifestar o que vi.
Acusam-nos de ter começado as filmagens sem solicitar a autorização do governo. Devo esclarecer que não existe nenhuma lei promulgada pelo Parlamento que se refira a tais autorizações. Na verdade, existem apenas circulares interministeriais, que mudam à medida que mudam os vice-ministros.
Acusam-nos de ter começado as filmagens sem apresentar o roteiro aos atores do filme. Nosso modo de fazer cinema, que recruta principalmente atores não profissionais, adota essa prática costumeiramente. Tal acusação me parece muito mais um produto do humor deslocado do que do setor jurídico.
Acusam-me de ter assinado petições. De fato, assinei uma petição na qual 37 dos nossos mais importantes cineastas declaravam sua inquietação quanto à situação do país. Infelizmente, em vez de ouvir esses artistas, acusam-nos de traição; e, no entanto, os signatários dessa petição são justamente as pessoas que sempre reagiram primeiro às injustiças do mundo todo. Como desejam que eles permaneçam indiferentes ao que acontece dentro de seu próprio país?
Acusam-me de ter fomentado manifestações no festival de Montreal; essa acusação não se baseia em lógica alguma, já que, enquanto diretor do júri, eu estava em Montreal havia apenas duas horas quando as manifestações começaram. Sem conhecer ninguém na cidade, como eu poderia ter organizado tais eventos? Talvez não se faça um esforço para lembrar mas, durante esse período, nossos compatriotas se reuniam a fim de manifestar suas exigências.
Acusam-me de ter participado de entrevistas com as mídias de língua persa de fora do meu país. Mas não existe nenhuma lei proibindo tal ato.
Segunda parte : o que eu digo
O artista representa o espírito observador e analista da sociedade à qual ele pertence. Ele observa, analisa e procura apresentar o resultado disso em forma de obra de arte. Como se pode acusar e incriminar quem quer que seja em função de seu espírito e de sua maneira de enxergar as coisas? Tornar os artistas improdutivos e estéreis é sinônimo de destruir todas as formas de pensamento e de criatividade. O ataque efetuado à minha residência e a minha prisão e a de meus colaboradores representam o ataque do poder contra todos os artistas do país.
A mensagem transmitida por essa série de ações me parece bem clara e triste: quem não pensa como nós se arrependerá…
Finalmente, gostaria também de lembrar ao Tribunal outra ironia que diz respeito a mim: o espaço dedicado a meus prêmios internacionais no museu de cinema de Teerã é maior que minha cela penitenciária.
Seja lá como for, eu, Jafar Panahi , declaro solenemente que, apesar dos maus-tratos que ultimamente tenho sofrido de meu próprio país, sou iraniano e quero viver e trabalhar no Irã. Amo meu país e já paguei o preço por esse amor. No entanto, tenho outra declaração a acrescentar à primeira: sendo meus filmes provas irrefutáveis disso, eu declaro acreditar profundamente na observância das leis “dos outros”, da diferença, do respeito mútuo e da tolerância – a tolerância que me impede de julgar e de odiar. Não sou tomado de ódio nem mesmo pelos meus interrogadores, porque reconheço minha responsabilidade para com as gerações futuras.
A História com “H” maiúsculo é muito paciente; as pequenas histórias passam diante dela sem se dar conta de sua insignificância. De minha parte, preocupo-me com essas gerações futuras. Nosso país está muito vulnerável e somente a instauração do Estado de direito para todos, sem nenhuma consideração étnica, religiosa ou política, pode nos preservar do perigo bem real de um futuro próximo caótico e fatal. Em minha opinião, a tolerância é a única solução realista e honorável a esse perigo iminente.
Com meus sinceros respeitos, Ilmo. Sr. Juiz
Jafar Panahi, Cineasta Iraniano
Meu amigo Zé José avisa que Geral, da diretora Anna Azevedo, ganhou como melhor curta-metragem no Cinéma Vérité, de Teerã, um dos mais importantes festivais de documentários do mundo. Já havíamos dado o prêmio da crítica no Cine PE a este belo filme sobre o futebol. Aliás, sobre as torcidas de futebol, uma delas em especial, a dos “geraldinos”, torcedores populares, que perderam seu lugar com a reforma do Maracanã.
Como poucos, o filme consegue captar a energia da galera, um dos fatores, senão o principal, que faz o futebol ser o que é. Fica como um belo documento para lembrarmos o que já foi um dia o futebol quando conseguirem elitizá-lo (e esterilizá-lo) por completo, processo já em curso.
Numa das cenas mais legais, um torcedor levanta o dedo para o céu e manda o Criador para aquele lugar. Alguma, Ele deve ter feito.
Parabéns, Anna.
Veneza – O festival começou com a homenagem ao grande Vittorio Gassman, morto há dez anos, e logo caiu na real, com a coletiva de Quentin Tarantino na condição de presidente do júri e a apresentação do primeiro concorrente, Black Swan, do também norte-americano Darren Aronofsky. Aliás, é praxe que Veneza seja dominada, na semana inicial, pelas delegações dos Estados Unidos, que depois migram em grupo para o Festival de Toronto, que colide com o de Veneza e tem a fama de ser melhor para os negócios.
Não que Tarantino ou Aronofsky não tenham nada a dizer. Pelo contrário. Mas Quentin, por exemplo, quando lhe perguntam sobre a ausência forçada do cineasta iraniano Jafar Panahi, impedido de viajar pelo governo do seu país, poderia ter respondido algo melhor do que um omisso “não comento questões políticas”. Presente na entrevista, o diretor do festival, Marco Müller, foi mais incisivo, embora diplomático. Disse que já há 15 dias sabia que Panahi, “amigo pessoal há muitos e muitos anos”, estava impedido de viajar. Havia um motivo concreto para Panahi estar em Veneza – a exibição do seu filme The Acordion, um curta-metragem. Ele é figurinha carimbada dos festivais de primeiro escalão e venceu o Leão de Ouro com O Círculo, uma denúncia da opressão à mulher iraniana. Opositor de Ahmadinejad, Panahi não pôde vir porque responde a processo e essa condição o impede de deixar o país. E assim, entre artistas perseguidos por delito de ideias e mulheres condenadas à lapidação, o governo iraniano constroi sua notoriedade internacional.
O resto foi um pouco morno, como costumam ser essas entrevistas, mesmo porque ninguém conhece ainda os filmes e, assim, todas as perguntas soam um tanto abstratas, assim como as respostas. No entanto, mesmo falando em tese, uma coisa interessante que Tarantino falou foi que costumava escrever sobre os filmes que via, maneira, segundo ele de entendê-los melhor. E que a condição de jurado era uma oportunidade para se aprofundar nessa tarefa. O trabalho crítico é isso, pensar através da escrita; escrever para entender, muito mais do que para comunicar, ou ditar (para não usar outro termo) regra, como em geral se pensa.
O cineasta Jafar Panahi foi solto sob fiança. Li a notícia no site da revista francesa Les Inrockuptibles. Leia aqui (em francês)
Leio que o cineasta Jafar Panahi foi detido em Teerã. Veja aqui. Para quem não lembra, ele é diretor de filmes como O Círculo (vencedor de Veneza) e Ouro e Carmim, entre outros. Tremendo cineasta. Mas, no caso, isso pouco importa. Interessa que foi preso porque se opõe ao presidente Ahmadinejad. Panahi já tivera problemas antes e fora impedido de ir ao Festival de Berlim. Agora está na cadeia. A notícia oficial diz que sua prisão não é “política”. Seria o que, então? A comunidade internacional tem obrigação de pressionar o governo iraniano em favor de Panahi. É o que se pode fazer diante do autoritarismo.
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