Só tenho uma previsão para as semifinais do Campeonato Paulista: se o Santos jogar com o descaso mostrado na partida com o Palmeiras, será eliminado pelo Mogi Mirim. O outro jogo não tem favorito, a não ser que se considere o Corinthians, neste momento, mais sólido do que o do São Paulo. Mas é um clássico, portanto…
Em todo caso, se o Santos jogar com a seriedade que não apresentou sábado, é possível pensar em novo clássico na decisão do título paulista. Um campeonato mal-ajambrado, mal pensado, mas que, no fim, acaba sendo legal porque seus protagonistas são times de tradição, rivais históricos, com muitos títulos no currículo e grandes torcidas a ampará-los. E tem o Mogi, que é um bem-vindo “intruso” nessa briga de cachorro grande.
Estranhamente, a disputa dos jogos finais dos campeonatos estaduais, a participação iminente dos grandes times brasileiros no mata-mata da Libertadores, a falta de rumo da seleção – todos esses assuntos quentíssimos ficaram fora de foco em função das vaias recebidas por Neymar no Mineirão. Colunistas ilustres andaram se perguntando se não era mesmo chegada a hora de o rapaz embarcar para a Europa, já que a torcida começava a pegar-lhe no pé sem descanso.
Analisaram até o prejuízo que isso poderia trazer para seus contratos publicitários. Francamente, acho meio falta de assunto e apenas me ocupo de tudo isso porque esses comentários, parece, falam menos sobre Neymar do que sobre nós mesmos.
Por que a torcida estaria vaiando? Bem, primeiro, é apenas parte da torcida que vaia. Até onde vi, as “neymarzetes” estavam lá no estádio, tietando o craque como sempre. A torcida do Santos abriu faixas em apoio ao craque, domingo na Vila. Mas, enfim, há gente insatisfeita. Por quê? Será que ele estaria jogando muito mal? Não parece. Quando não marca gols, dá passes certeiros para os companheiros marcarem. Esforça-se. Saiu do jogo do Mineirão contundido e fez questão de jogar contra o Palmeiras, mesmo usando uma proteção na coxa. Por que deveríamos nos queixar dele, ou nos decepcionarmos? Francamente não existe lógica nessa campanha contra o rapaz.
Ou existe talvez uma outra lógica, menos confessável. A mesma lógica que faz o público antipatizar com um ídolo a ponto de transformar seu amor em ódio. Poderíamos chamá-la de “lógica de Mark Chapman”, nome do assassino de John Lennon. Ou seja, a irresistível tentação de destruir o ídolo, quando ele parece atingir um ponto inalcançável para as pessoas comuns.
Neymar ganha demais. Aparece demais, fala-se demais nele. Tem carros demais, mulheres demais. Exerce um fascínio que o torna peça preciosa para a publicidade. Quando isso vira o fio, gera também uma montanha de ressentimento. Vaiar o ídolo, reduzi-lo a pó parece uma maneira (mesquinha, é verdade) de reduzi-lo a uma dimensão mais humana, mais mensurável por todos nós, “normais”.
Essa figura do ressentimento talvez seja ainda mais aguda num país com sérios problemas de autoestima, como o Brasil. Negar esse sentimento de inferioridade é tapar o sol com a peneira. Pensamos que o outro é sempre melhor do que nós. Para mostrar que somos bons, só provando lá fora. O êxito interno, além de nada querer dizer, pode gerar uma situação de estranheza.
Tom Jobim dizia que o brasileiro perdoa tudo, menos o sucesso. O êxito é tomado como insulto pessoal. É uma anomalia que alguém cobiçado no exterior opte por ficar aqui. Acaba gerando desconfiança (será tão bom assim?) e, no final, hostilidade.
Mas não é apenas isso. Se, em seu lugar, já teríamos ido embora há muito tempo, quem ele pensa que é teimando em ficar? Melhor do que nós? Vamos então vaiá-lo. Meus amigos, o Brasil talvez precise de uns mil anos de divã para melhorar sua cabeça.
* Coluna publicada no Esportes do Estadão
Nem no Brasil nem no exterior o futebol costuma ser bem tratado pela literatura. Não que não haja livros sobre futebol. Há, e muitos. O raro é que sejam bons. E mais raro ainda que dois ótimos exemplares sejam publicados quase ao mesmo tempo como Páginas sem Glória, de Sérgio Sant’Anna, e O Barça – Todos os Segredos do Medlhor Time do Mundo, de Sandro Modeo.
À parte a boa qualidade e terem o futebol como foco, são em tudo diferentes. Sant’Anna é um dos nossos melhores ficcionistas. Modeo, um jornalista italiano que costuma escrever sobre futebol, mas de maneira toda particular, evitando os clichês dos seus colegas de ofício.
Páginas sem Glória, na verdade, é um livro que inclui três relatos, entre eles o mais extenso – e o que nos interessa – e dá título ao volume. É tão superior aos outro dois, os contos Entre as Linhas e O Milagre de Jesus, que mereceria um volume autônomo. Pequeno, também, pois tem apenas 107 páginas. Mas elas estão entre o que de melhor já se produziu neste país tendo o futebol como tema. São, na verdade, páginas gloriosas.
Para traçar o perfil do seu personagem – o jogador José Augusto Fonseca, o Conde –, Sant’Anna se vale de memórias de infância e juventude e de toda a sua experiência como frequentador do assunto – é dele, também, outra excelente ficção sobre o jogo da bola, Na Boca do Túnel (in 22 Contistas em Campo, Flávio Moreira da Costa (org.), Ediouro).
Páginas sem Glória é narrado em primeira pessoa. O narrador conhece o Conde através de um tio que teria privado da intimidade do jogador. Paulista exilado no Rio, Zé Augusto era filho de família rica, pai advogado influente. Começou a brilhar em peladas de praia, foi notado por olheiros e levado para o Fluminense, clube da elite (estamos nos anos 50) no qual pouco fica devido à postura arrogante e indisciplinada. Vai parar no Bonsucesso, onde escreve essas páginas sem glória que dão título à novela.
A história – real – do futebol brasileiro é composta de personagens magníficos, desde os ídolos que deram certo, no campo e na vida, como Pelé e Zico, até os trágicos, como Garrincha e Heleno de Freitas. Na figura ficcional de Zé Augusto, vemos um pouco de cada um deles, e de nenhum. No universo ágrafo do futebol, o Conde era culto, refinado, educado. Vinha de família rica. Lembra em muitos aspectos, Heleno (que é citado no relato). Mas o destino do Conde nem de longe se assemelha ao trágico de Heleno que, depois de ter tido tudo, morreu louco num asilo de Barbacena, atingido pela sífilis.
O Conde talvez nem grande vocação para o futebol profissional tivesse, não fosse o toque de gênio que fazia, em duas ou três jogadas, o destino pender para o time cuja camisa vestia na ocasião. Não era atleta. Insubmisso e boêmio, mostrava um excesso de personalidade para as atividades de grupo. E o futebol, queira-se ou não, é uma prática coletiva. A desgraça do Conde, a sua híbris, é o excesso de confiança: um pênalti cobrado de forma tão surpreendente, com tanta categoria e sutileza, que faz a suspeita crescer sobre suas reais intenções.
O engenho e arte de Sérgio Sant’Anna permitem centrar sua narrativa não numa final de Copa do Mundo, mas num humilde Olaria e Bonsucesso na rua Bariri. Como a dar razão a Nelson Rodrigues, para quem as possibilidades dramáticas do jogo aparecem tanto num Brasil x Argentina que decide taça quanto na mais sórdida das peladas. É nesse ambiente suburbano que o Conde encontrará a sua hora da verdade. Atacante contra goleiro, touro contra toureiro, um lance único, único toque, estocada solitária, o tudo ou o nada.
Bem diferente é a narrativa futebolística de Sandro Modeo, que escreve para o Corriere della Sera e outros veículos. É autor de outro livro excelente, ainda não traduzido para o português, Il Alieno Mourinho (O Alienígena Mourinho), sobre o temperamental técnico do Real Madrid, tido por muitos especialistas como o melhor profissional do ramo no mundo, embora esteja em baixa no momento.
Modeo admira Mourinho porque o técnico português é figura intelectualmente destacada no mundo do futebol. Tem interesse por literatura, música, pintura e uma infinidade de disciplinas artísticas e científicas – e faz todo esse conhecimento confluir para a construção de um projeto para o futebol. Essa admiração é compreensível. De certa maneira, Modeo realiza, com a narrativa futebolística, o mesmo que Mourinho tenta fazer com o treinamento de uma equipe. Serve-se de uma série inesperada de referências de outras áreas do conhecimento humano para escrever sobre o esporte – e tentar, através desse cruzamento de saberes, iluminá-lo.
A bola da vez, digamos assim, é o Barcelona, atual fenômeno mundial do futebol. Na opinião quase unânime, o Barça é o melhor time da atualidade. Mas dizer isso seria pouco. É um dos melhores de todos os tempos e, talvez, o melhor de todos os tempos, como já andaram decretando por aí e por aqui. Não apenas por que tem em seu quadro o melhor jogador do mundo da atualidade, Messi, mas porque possui algo mais forte do que uma individualidade, ainda que genial – tem um conjunto que atua de forma coesa, precisa, e inusitada.
Como chegou a essa “forma perfeita”? Modeo ensaia vários ângulos de abordagem. Desde o histórico, associando-o a determinadas características especiais da Catalunha, até a explicação quântica, que explicaria como o Barça expressa o suprassumo do “futebol total”, expressão associada à famosa seleção holandesa dos anos 70. Todos atacam, todos defendem, todos atuam de forma integrada. Vale até para os monstros sagrados, como Crujiff, no passado, e Messi, no presente. Todos são solistas e acompanhantes, o todo é maior que a soma das partes. O livro de Modeo é esclarecedor, embora não evite o tom superlativo que acompanha em regra os textos sobre o Barcelona. Admiração é uma coisa; deslumbramento, é outra. Mas os méritos são muitos e a ótica interdisciplinar da abordagem enriquece a leitura do futebol.
Páginas sem Glória e O Barça são provas vivas de que o futebol, além de ser o esporte mais popular do planeta, pode dar origem a narrativas extraordinárias.
Trechos
Páginas sem Glória
“A cobrança foi uma obra-prima. O Zé tomou apenas três passos de distância, para não dar tempo ao goleiro de seguir seu raciocínio, ou , pelo menos, para simular isso; só olhou para o guardião no momento do chute, viu que ele mexeu levemente o corpo na direção do canto direito, para o qual fingia que iria, e iria mesmo, tentando enganar o Conde que, caminhando como iria chutar com a direita, só poderia chutar no canto direito da meta, pela posição de seu corpo e de seu pé, não houvesse ele, como o húngaro Puskas, maior craque da época, costumava fazer, trocado de pé no último instante, num indício indiscutível de que chutaria com o pé esquerdo no canto esquerdo do goleiro, que para lá se atirou, mudando sua intenção inicial, num reflexo perfeito”.
O Barça
“Como Bolt, como Federer, o Barça exaspera o adversário. Diante deste enxame – deste rebanho de pássaros – times poderosos, ou mesmo poderosíssimos, acabam ficando desorientados, gaguejantes, presos na rede hipnótica da posse de bola exemplar por precisão e ‘leveza’ (na conotação que Italo Calvino confere a esse termo no livro Lições Americanas – Seis Propostas para o Próximo Milênio). Ao adversários do Barça não conseguem entender por que as tentativas do ataque acabam desmoronando diante da oposição organizada de um grupo supostamente frágil, com a estrutura média abaixo dos outros times do mesmo nível. Eles experimentam um estupor parecido com aquele do grande físico Ernest Rutherford que lidando com as ‘poderosas’ partículas alfa desviadas por uma finíssima lâmina de ouro afirma: ‘É como se a artilharia de uma fragata fosse neutralizada por um lenço de papel’. E justamente, em consideração dos estados e das dinâmicas da matéria, o Barça parece, nos momentos melhores, uma equipe ‘quântica’ em comparação com os times baseados em leis da física ‘clássica’, como a gravidade”.
Serviço: O Barça – Todos os Segredos do Melhor Time do Mundo, de Sandro Modeo (Editora Qualitymark)
Páginas sem Glória, de Sérgio Sant’Anna (Editora Cia das Letras)
Veneza. Amigos, aqui da Europa acompanho como posso o futebol brasileiro. Vendo as notícias e assistindo a um ou outro jogo pela internet. Antigamente (quer dizer, uns 15 ou 20 anos atrás), quem estava no exterior ficava por fora do Brasil. A imprensa europeia pouca bola nos dava, só abrindo exceção quando acontecia alguma catástrofe. A comunicação com o país era por carta ou telefone. A primeira lenta e não muito frequente na nossa tradição de pouca escrita. O telefone, impraticável por causa do preço. Estávamos isolados. Vivendo na França, fiquei sabendo da morte de Elis Regina meses depois, e isso porque minha irmã me fez o favor de avisar, por carta.
Pensando nisso, outro dia me lembrei de um personagem do Jô Soares. Aquele do último exilado brasileiro que, quando lhe contavam o que acontecia por aqui, invariavelmente perguntava, com ar choroso: ” Vocês não querem que eu volte?” Tão absurdas lhe pareciam as notícias nacionais que soavam como piadas de mau gosto. Melhor continuar no exílio, apesar das saudades.
Tive vontade de me queixar como o exilado do Jô quando soube, pela internet, que a seleção brasileira vai de novo jogar amistosos e desfalcar os clubes de seus jogadores. Assim, vai esvaziar um clássico que poderia ser vibrante, um Santos x São Paulo que será disputado sem os principais nomes dos dois times. É inacreditável! Depois de sangrar os clubes por um tempão durante a Olimpíada, mal acabam os jogos de Londres e já começam esses malfadados amistosos. Ok. São datas FIFA, mas será que não poderia haver uma certa compreensão? Será que jogadores como Neymar e Lucas ainda precisam ser testados? Precisam? Então tudo bem: que as rodadas do Campeonato Brasileiro sejam suspensas para evitar prejuízo aos clubes e torcidas. Até quando os clubes vão aceitar esse tipo de coisa passivamente?
Ou pior: até quando vão se acumpliciar com a CBF? A entidade parece bem segura de que não tem nada a temer dos clubes. Estes teriam, no fundo, todo interesse em que seus jogadores sejam convocados, pois a vitrine da seleção os expõe e valoriza no mercado internacional da bola. Por isso mesmo, outro dia, José Maria Marin cantou de galo: ” Se algum clube não quiser mais ter seus jogadores convocados, que me mande um pedido por escrito, que sou até capaz de atender”. É mole?
Mas o que me intriga mesmo não é a falta de piedade da CBF com os clubes. Ou a cumplicidade mal disfarçada dos clubes que possuem jogadores selecionáveis com a CBF. Afinal, ninguém tem dó de ninguém e todos buscam seus interesses imediatos, sem pensar no médio e muito menos no longo prazo.
O que me intriga é o descuido da CBF com o campeonato que ela própria organiza. Aquela que deveria ser a sua principal atração, seu cartão de visitas, é atirado às urtigas, tratado como torneio de várzea chinfrim, ao invés de ser valorizado e vendido a todo o mundo. Como fazem os europeus, que de bobos não têm nada.
Não poderia haver lugar mais adequado. Nesta quinta-feira, 31, às 19h30, no Auditório Armando Nogueira, no Museu do Futebol, será dado o pontapé inicial para o 3.º Cinefoot. Sim, o Festival de Cinema de Futebol, criado e dirigido pelo fluminense doente Antonio Leal. Refeito da desclassificação do seu time diante do Boca Juniors, Leal já pôs em campo o festival em sua cidade, o Rio. Agora é a vez de São Paulo.
E, nada melhor para começar do que uma homenagem ao aniversariante do ano, o Santos Futebol Clube. Na sessão inicial, dois títulos se referem ao alvinegro (e agora azulão) da Vila Belmiro - Canal 100: Santos Tricampeão e o Milésimo Gol, e Cem Anos de Futebol Arte, de Lina Chamie. Para completar, Canarinhos Gaúchos. Prestigiando a sessão de abertura, uma presença ilustre – o ex-jogador checo Josef Jelinek, que enfrentou o Brasil na final da Copa de 1962. Vencemos por 3 a 1. Sem Pelé. Mas com Garrincha, Didi e Vavá.
O festival vai de quinta, 31 a 5 de junho e divide-se entre dois campos: terá sessões no Museu do Futebol e no Reserva Cultural, o cinema do ex-jogador do Olympique de Marseille e hoje são-paulino Jean-Thomas Bernardini.
São duas casas naturais para abrigar um festival de filmes de futebol – o belo museu dedicado ao esporte e o cinema cujo dono um dia abandonou os gramados depois de romper os ligamentos do joelho.
O Cinefoot tem também a missão combater a ideia de que futebol e cinema não casam. Ou, pelo menos, não casam bem. Se, de fato, é difícil imitar na tela as emoções de um jogo ao vivo, a verdade é que não faltam bons filmes sobre o esporte mais popular do mundo.
Para prová-lo, o Cinefoot escalou uma bela seleção de filmes atuais e outros nem tanto. Uma grande pedida deve ser o inédito Meninos de Kichute, de Lucas Amberg; Rivellino, de Fábio Katudjian, é um filmaço.
São apenas dois exemplos entre vários outros, de longa e curta-metragem, de ficção ou documentais, brasileiros e estrangeiros. Com essa pausa no Brasileirão, quer programa melhor? E é tudo de graça.
CINEFOOT
Museu do Futebol. Pça. Charles Muller; Reserva Cultural. Av. Paulista, 900. Grátis. Até 5/6. www.cinefoot.org
Amigos, não sabem do meu constrangimento ao dar esse título a um espaço dedicado à arte do futebol, à beleza do jogo da bola. É chato, No entanto, de vez em quando o futebol nos traz esse tipo de coisa, a morte estúpida de um torcedor numa dessas brigas recorrentes entre rivais.
Não sei se existe alguma solução imediata para essa barbárie. Se houver, entendo que passe por uma visão realista das coisas e não por mistificações.
Por exemplo, tendemos a dizer que a violência no futebol é um fenômeno contemporâneo e que antes as torcidas conviviam harmoniosamente. Não é verdade. Nunca foi assim e quem frequenta estádios há mais tempo sabe disso. Um certo grau de hostilidade entre as torcidas sempre existiu. Há registros de brigas e violências que remontam aos anos 1920 ou 1930.
É bem possível, porém, que tudo tenha piorado à medida que o próprio mundo social se exacerbou. O nosso tempo pode ser saudado por vários progressos indiscutíveis, mas dificilmente o será por sua tolerância. O impulso tribal, presente em diversas intolerâncias mundo afora está presente também no futebol, que não existe fora das sociedades humanas e suas imperfeições.
É muito provável, também, que agrupar torcedores em entidades rivais, as tais torcidas “organizadas”, só contribua para turbinar esse sentimento tribal, com todas as suas consequências.
A violência no futebol é um fenômeno universal e não apenas brasileiro. Cabe lembrar que a “civilizadíssima” Europa, também sofreu bastante com ela. Pelo menos até colocar em prática uma série de medidas draconianas, que acabaram com a ação dos hooligans. Hoje, vemos pela TV jogos sendo disputados em estádios sem alambrados. Para invadir um campo o fanático não precisa nem pular uma cerca. Mas sabe que as consequências serão pesadas.
Outro aspecto em que evitamos pensar diz respeito à natureza do futebol e dos jogos em geral. Costumamos considerá-los sob os aspectos favoráveis como união dos povos, escolas de vida, benefícios à saúde, fontes de beleza, emoção, etc.
Tudo isso é verdade. Mas não podemos esconder a sua outra natureza, a de serem uma espécie de sublimação do combate. A cada vez que uma equipe enfrenta outra, para valer, está travando nada menos que uma guerra simbólica, na qual o que importa é vencer – dentro das regras, é claro. Muitas vezes, no furor do combate, essa guerra extrapola seu caráter simbólico e descamba para o real. Dentro e fora do campo. É quando jogadores trocam botinadas, um craque como Zidane dá uma cabeçada no peito de Matterazzi numa final de Copa do Mundo, e é quando uma torcida entra em combate físico com a sua rival.
Afinal, o futebol é um jogo, que desperta tanto o nosso impulso pela beleza quanto nossos instintos menos nobres. É preciso que o jogo se limite ao campo do simbólico, no qual não produz danos maiores do que a frustração com uma derrota e a exposição à chacota adversária. Como fazê-lo? Não existem fórmulas, mas entendo que uma legislação dura com delinquentes tenha de se associar a estratégias para desenvolver a civilidade e espírito desportivo das torcidas.
* (Coluna Boleiros)
Estava vindo para o jornal e ouvia a Rádio Estadão ESPN no rádio do carro. Entrevista com Daniel Carvalho, um dos “camarões”do técnico Luiz Felipe Scolari. Bem, se você chegou ontem do planeta Urano, convém esclarecer: “camarão” é como o Felipão resolveu chamar os jogadores diferenciados, aqueles que chegariam para resolver os problemas do Palmeiras. O técnico já estaria cansado de feijão com arroz, e precisaria de ingredientes mais refinados para fazer uma escalação cordon bleu, para continuar na metáfora culinária.
Pois bem, gracinhas à parte, o camarão Daniel Carvalho, vindo do CSKA, chegou meio robusto. Parecendo um lagostim, ou mesmo uma verdadeira lagosta. E era exatamente sobre isso que ele falava aos repórteres da Estadão-ESPN. De como saíra magrinho do Internacional, dez anos atrás, e de como encorpara, por conta de umas injeções aplicadas pelos médicos russos. Em uma palavra, havia tomado anabolizantes. E então vinha a parte mais grave da entrevista: “Como lá não existe exame antidoping, não havia problema”.
Ou muito me engano, ou existe aí um fato gravíssimo, que coloca em risco a saúde dos jogadores. Se é verdade mesmo que não existe exame antidoping, as portas estão abertas para esse processo artificial de fortalecimento muscular, com todas as conseqüências para a saúde que acarreta. Sem querer, talvez apenas desejando explicar para a torcida e a imprensa a massa corporal avantajada, Daniel pode ter mexido com um vespeiro daqueles. Pode ter aberto a Caixa de Pandora aquela que, na mitologia, contém todas as pragas do mundo.
Mesmo porque, instigado pela reportagem, Daniel foi além e citou vários colegas que teriam ficado estranhamente fortes em suas passagens pela Europa. Os dois Ronaldos, Pato, Robinho e outros teriam sido submetidos a tratamentos semelhantes, para encarar o vigor do futebol europeu. Bom, essa é a parte menos substantiva da entrevista, mesmo porque envolve outras pessoas, que teriam de ser ouvidas. No entanto, Daniel já foi suficientemente eloqüente quando falou, com toda a propriedade, de si mesmo, do seu corpo e de como ele foi submetido a um tratamento a base de hormônios para ganhar massa. “Quando cheguei, eles me acharam muito fraquinho, franzino”, disse. Daí as tais injeções. Será que a Fifa, que mete o bico em tudo o que se relaciona com o futebol, não tem nada a dizer sobre isso. Em particular sobre a ausência de exames antidoping? Ou é um daqueles casos sobre os quais ninguém quer saber muito, porque pode atrapalhar os negócios?
Público
Enquanto isso, os campeonatos regionais sofrem com a ausência de público. Todos eles? Mais ou menos. Se o Paulista e o Carioca trabalham no vermelho, o mesmo não pode ser dito do Campeonato Pernambucano. O jogaço entre Sport 4 x 3 Náutico levou mais de 26 mil pessoas à Ilha do Retiro. Clássico é clássico. Teremos coisa semelhante por aqui quando começarem os nossos clássicos, ou essa fórmula da Federação Paulista será capaz de desidratar até mesmo rivalidades seculares?
(Coluna Boleiros)
Obs: o homem já recuou e ficou o dito pelo não dito. Aconselho a quem não ouviu, que dê uma conferida na entrevista, para ver se fica alguma margem para dúvida. Aqui.
Afinal, somos dálmatas ou vira-latas? Pergunto assim, de supetão, mal refeito daquele jogo entre Santos e Barcelona. Nesse período de entressafra do futebol esperava ver discussão mais produtiva sobre esse jogo altamente simbólico. Verdade que num primeiro momento todos os comentaristas falaram sobre o assunto. Dos derrotistas de véspera aos triunfalistas pró-Barcelona, a turma do “Eu não disse?”.
Analistas de outras áreas se aventuraram no tema, tão grande pareciam as consequências da surra aplicada pelo Barça. Francisco Bosco, de O Globo, chamou de Complexo de Dálmata a afirmação (a frase é de Guardiola) de que o Barcelona se limitara a atuar da mesma forma que os brasileiros faziam no passado. A nomeação da nova síndrome psíquica brazuca – que dá título à coluna de Bosco – seria glosa e inversão do famoso “complexo de vira-latas”, expressão de Nelson Rodrigues para definir o ancestral sentimento de inferioridade nacional em relação a estrangeiros.
Assim, ao contrário da inferioridade atávica, a nossa soberba futebolística seria tamanha que, mesmo ao levar uma surra, dizemos que o adversário nada mais fez que aplicar a nós mesmos o remédio que nos era próprio, ainda que no passado. O objetivo da coluna seria mostrar como é pífia essa ilusão de precedência, para então defender a absoluta originalidade do Barcelona.
A coluna de Bosco mereceu comentário de José Miguel Wisnik, no mesmo diário. Torcedor do Santos, Wisnik é um dos mais sofisticados intelectuais brasileiros, sendo autor de uma obra referencial sobre futebol chamada Veneno Remédio. Na coluna, Wisnik fala de um jogo assustador, inventado pelo Barcelona, uma monstruosidade tática capaz de atacar o tempo todo sem jamais se expor ao adversário. Virtualmente imbatível, o Barcelona seria o atual paradigma do futebol.
O Barça faria a síntese entre o futebol de prosa europeu e o futebol de poesia sul-americano, negando, na prática, a famosa dicotomia de Pier Paolo Pasolini, feita sob inspiração do escrete brasileiro de 1970. A seleção causou ao cineasta, poeta e ensaísta Pasolini impressão semelhante à provocada pelo Barcelona hoje em dia em todos nós. Aquela seleção era inimitável (como reunir em outro time Tostão, Pelé, Gérson, Rivellino, etc?), assim como o Barcelona é inigualável (como encontrar outros como Messi, Xavi e Iniesta?).
Mas a seleção de 1970, tida como imbatível e moderna, pode ter produzido, por reação, a revolução tática de Rinus Michels, criador da Laranja Mecânica. Sim, a temível Holanda de 1974, que colocou o Brasil na roda, encantou o mundo e perdeu a final para a Alemanha. Michels encontrou a fórmula de bater o Brasil, sem retranca ou pontapés. Só na bola. Ora, a Laranja Mecânica, todos sabemos, é mãe do atual Barcelona. O futebol total é invenção da Holanda de Michels, que depositou seu DNA na Catalunha através de Johan Cruyjff, em especial. O resto é história, da qual fazemos parte.
Daí que, a meu ver, não somos dálmatas ou vira-latas. Somos apenas uma potência futebolística em momento de baixa imaginação tática e entressafra de talentos.
(Boleiros, Caderno de Esportes, 17/1/2012)
Amigos, vamos dizer logo de cara: não havia a menor chance de o Santos derrotar o Barcelona. O desnível tático e técnico é abissal. O Barcelona igualou, no campo, o Santos ao Al-Sadd. Engoliu os dois da mesma forma. Parecia jogo de time de primeira divisão contra aspirantes da quarta. Mesmo no mais imprevisível dos esportes coletivos, que é o futebol, podemos dizer que, em dez jogos, o Barça ganharia os dez. Em cem, ganharia os cem. Poucas vezes, no futebol profissional, vi desnível parecido. Então, é preciso reconhecer o mérito do Barcelona e do seu jogo preciso, belo e implacável.
Não dava mesmo para ganhar. Mas há derrotas e derrotas. A do Santos foi a do pior tipo: derrota sem qualquer resistência, sem luta, sem briga, no melhor sentido do termo. O time já entrou em campo vencido e, em nenhum momento, chegou a ameaçar o adversário.
Para dificultar um pouco as coisas para o Barcelona faltou talvez ao Santos um jogador desses que não aceitam a derrota de jeito nenhum. Lembro de um Zito, que impunha respeito ao próprio Pelé. Lembro de Almir Pernambuquinho, a alma do Santos na conquista do bicampeonato diante do Milan em 1963. Pelé estava contundido e Almir entrara em seu lugar. Ouvira dizer que Amarildo, jogador do Milan, falara que Pelé estava em decadência. “Não se diz isso do Rei”, rosnou Almir. E, na primeira dividida com Amarildo, deixou claro que aquele era um jogo de vida ou morte. Amarildo sumiu em campo.
Ok, hoje as coisas não são mais assim. Todo mundo é amiguinho e tiete, e coisa e tal. Só faltou pedirem autógrafo aos jogadores do Barcelona, ou talvez nem isso tenha faltado. O fato é que não havia em campo (ou fora dele) alguém que lembrasse aos jogadores do Santos que aquilo era uma disputa de título mundial. Parecia uma partida amistosa, um casados x solteiros de luxo, um daqueles jogos de fim de ano, “Amigos do Messi x Amigos do Neymar”. Coisa assim. Festiva. Leve. Uma brincadeira.
De resto, cabe ao Santos se preparar melhor para o próximo ano. Continuar o trabalho iniciado, reforçar seus pontos frágeis e dispensar quem não tem apreço pela camisa do clube. Deve lutar pela Libertadores e voltar ao Mundial mais “sábio”, segundo as palavras de Neymar. Enquanto isso, é bom aprendermos a lição, junto com o craque santista: vamos colocar as barbas de molho para 2014 porque o futebol sul-americano não está com nada. Depois de décadas de modelo extrativista-exportador, chegou ao fundo do poço e não consegue mais enfrentar os europeus. São cinco títulos mundiais consecutivos para os clubes do Velho Continente. As duas últimas participações brasileiras foram vexatórias: a desclassificação do Internacional pelo Mazembe e a humilhante goleada sofrida pelo Santos. Vamos repensar a vida?
Férias
A bola para e eu também. Desejo a todos um Feliz Natal e ótimo 2012. Esta coluna retorna dia 17 de janeiro. Até a volta.
Amigos, a vida é uma ironia. Quis o destino que um antigo Menino da Vila estivesse no caminho do Santos Futebol Clube em sua tentativa de conquistar o terceiro mundial. Refiro-me, claro, a Nelsinho Baptista, capitão do time campeão paulista em 1978, no qual tinha como companheiros Juari, Pita, Nilton Batata e outros cobras. Naquele tempo, Nelsinho ostentava vasta cabeleira. Muitos anos depois, com juba mais modesta, teve passagem medíocre pelo Santos, agora como treinador. Não deixou saudades. Estava no comando daquele time de 2005, goleado por 7 a 1 pelo Corinthians, placar que ainda incomoda os torcedores. Muito se falou, na época, que os jogadores haviam facilitado tamanha goleada para derrubar o técnico. Como sabemos, coisas assim não acontecem…
Como treinador do Kashiwa Reysol, Nelsinho tentará botar água no chope santista. Já andou dizendo por aí que fará de tudo para evitar a final tida pela maioria como certa, entre Santos e Barcelona. Quer ele próprio enfrentar o time de Messi. Coisas da vida, minha nega, como diz o grande vascaíno Paulinho da Viola. Claro, o Santos tem um time muito melhor do que o Kashiwa, dirigido por Nelsinho, mas o Inter também era infinitamente superior ao Mazembe, ou alguém duvida disso?
De qualquer forma, faz bem Muricy em colocar as barbas de molho e concentrar-se nesse primeiro jogo. Humildade e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, no futebol ou em qualquer outra atividade deste mundo povoado por seres mortais e falíveis. Teve a oportunidade de ver as fraquezas do Kashiwa, mas também seus méritos, como a velocidade e o preparo físico. Está certo o Muricy. Não adianta nada ficar pensando no Barcelona se, antes, existe esse desafio a ser transposto.
O prudente Muricy também não se poupou de alguma polêmica no Japão, ao elogiar os técnicos do Barcelona e do Real Madrid, mas fazendo uma ressalva: de acordo com ele, Guardiola e Mourinho só poderiam ser considerados nota 10 depois de vencerem um campeonato no Brasil. Em sua coluna, Tostão considerou o comentário presunçoso. Não entendo dessa forma. Muricy não quis ser antipático, mas apenas chamar a atenção para a dificuldade do trabalho dos técnicos em país imediatista como o Brasil, que não dá tempo para planejamentos e costuma resolver qualquer tropeço pela demissão do treinador.
Além disso, o comentário de Muricy pertence àquela categoria interessante das coisas indemonstráveis. É tão provável Mourinho ou Guardiola virem a treinar um clube brasileiro quanto Messi jogar no Corinthians ou no Palmeiras, no futuro imediato. E, no campo das possibilidades alucinadas, por que não pensar o que seria do Barcelona caso disputasse a Libertadores da América? Teria tanto sucesso quanto na Europa? Sem qualquer menosprezo, tanto pelo Barcelona quanto pela inteligência do leitor ou dos fãs alucinados do Barça, pode-se imaginar perfeitamente que passasse pela fase de grupos e depois se enrolasse no primeiro mata-mata, diante, digamos, da altitude e de um Once Caldas da vida. Quem poderia dizer que isso é impossível? Essa palavra, amigos, não existe no futebol.
(Esportes)
Amigos, Tite declarou que o título do Corinthians era inquestionável. Verdade pura. No sistema em que o Campeonato Brasileiro é disputado desde 2003, os títulos são sempre inquestionáveis, a não ser que haja a interferência de um fator externo, como já aconteceu. Comportando-se a arbitragem de maneira normal – isto é, sendo incompetente de maneira equitativa – quem somar mais pontos na última rodada é mesmo o legítimo campeão.
Essa é a maior virtude do sistema. Uma vez definido, ele é justo e sem margem para contestações. Também é um tanto abstrato – no bom sentido do termo. Ficamos procurando instantes marcantes e, de fato, encontramos às vezes esse ou aquele momento em que o título foi definido. Eu mesmo escrevi aqui sobre um desses momentos, quando Adriano marcou aquele gol contra o Atlético Mineiro. Mas, a bem da verdade, se o gol do Imperador foi decisivo, mais ainda o foram os de Liedson, diluídos ao longo de toda a competição.
Também me parece o grande acerto do ano a manutenção do técnico Tite nas horas difíceis, como a derrota para o Tolima na pré-Libertadores. Naquele momento pensei que o treinador não fosse sobreviver. Não estava errado. Baseava-me na tradição brasileira de sempre encontrar um bode expiatório para as derrotas. Mas Andrés me desmentiu e essa manutenção, contra toda a expectativa, revelou-se decisiva. Se o Corinthians tivesse mudado de técnico, ainda assim seria campeão? Não sabemos. Jamais saberemos, porque a pergunta é absurda, pura especulação. O que sabemos, sim, é que Tite ficou, montou um time nada brilhante, porém estável e conduziu-o ao título.
De certo modo, o time é o retrato perfeito do Campeonato Brasileiro de 2011. Ganhou na constância, na raça e no sufoco, como é da natureza do clube. Teve um oponente de valor, o Vasco, que trabalhou no limite máximo durante muito tempo e, na reta final, cansou. Não conseguiu definir na Sul-Americana, nem no Brasileiro. Mas fez um ano empolgante que, ao contrário do que andam dizendo, não entrará para a história. Entraria, caso viessem os dois títulos que completariam a tríplice coroa.
Os outros todos concorrentes ao título decepcionaram, cada qual à sua maneira. Para ficar nos paulistas: o Palmeiras colocou um pouco a cabeça fora d’água no final, mas seu balanço de ano é muito negativo. O mesmo se diga para o São Paulo que, a certa altura, pareceu engrenar e desandou. Tem de se repensar por completo. O Santos é um caso à parte, pois logo elegeu o Mundial como objetivo e largou o Brasileiro. Qualquer que seja o resultado do torneio no Japão, já contabiliza ano ótimo. Segurou Neymar e outros jogadores, voltou a ganhar uma Libertadores depois de 48 anos e reelegeu um presidente de ótima gestão. Preparou terreno para a comemoração do centenário em 2012.
Sócrates. Duas palavras sobre o Doutor, morto no dia da vitória do seu Corinthians. Foi dos maiores que vi jogar. Era um daqueles raros jogadores que introduziam o inesperado na rotina do jogo. Quer dizer, produzia com frequência momentos poéticos na prosa do cotidiano. Fosse por um passe de calcanhar, por um deslocamento inesperado em campo, um arremate a gol, sempre deixava a marca do seu estilo. Um atacante mais banal teria cruzado ou dado um chutão contra a meta italiana naquela partida triste de Sarriá. Ele fez o que não se esperava e colocou a bola no espaço entre o goleiro Zoff e o poste. Era original. Também o era fora de campo porque, numa profissão de alienados submissos, era barbudo, cabeludo e dono de aguda consciência social. Viveu como bem quis, digam o que disserem os moralistas de plantão. Que esteja em paz, porque muito deu em vida a todos nós, que amamos o futebol-arte e as ideias fortes.
(Esportes)
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