Amigos, não sabem do meu constrangimento ao dar esse título a um espaço dedicado à arte do futebol, à beleza do jogo da bola. É chato, No entanto, de vez em quando o futebol nos traz esse tipo de coisa, a morte estúpida de um torcedor numa dessas brigas recorrentes entre rivais.
Não sei se existe alguma solução imediata para essa barbárie. Se houver, entendo que passe por uma visão realista das coisas e não por mistificações.
Por exemplo, tendemos a dizer que a violência no futebol é um fenômeno contemporâneo e que antes as torcidas conviviam harmoniosamente. Não é verdade. Nunca foi assim e quem frequenta estádios há mais tempo sabe disso. Um certo grau de hostilidade entre as torcidas sempre existiu. Há registros de brigas e violências que remontam aos anos 1920 ou 1930.
É bem possível, porém, que tudo tenha piorado à medida que o próprio mundo social se exacerbou. O nosso tempo pode ser saudado por vários progressos indiscutíveis, mas dificilmente o será por sua tolerância. O impulso tribal, presente em diversas intolerâncias mundo afora está presente também no futebol, que não existe fora das sociedades humanas e suas imperfeições.
É muito provável, também, que agrupar torcedores em entidades rivais, as tais torcidas “organizadas”, só contribua para turbinar esse sentimento tribal, com todas as suas consequências.
A violência no futebol é um fenômeno universal e não apenas brasileiro. Cabe lembrar que a “civilizadíssima” Europa, também sofreu bastante com ela. Pelo menos até colocar em prática uma série de medidas draconianas, que acabaram com a ação dos hooligans. Hoje, vemos pela TV jogos sendo disputados em estádios sem alambrados. Para invadir um campo o fanático não precisa nem pular uma cerca. Mas sabe que as consequências serão pesadas.
Outro aspecto em que evitamos pensar diz respeito à natureza do futebol e dos jogos em geral. Costumamos considerá-los sob os aspectos favoráveis como união dos povos, escolas de vida, benefícios à saúde, fontes de beleza, emoção, etc.
Tudo isso é verdade. Mas não podemos esconder a sua outra natureza, a de serem uma espécie de sublimação do combate. A cada vez que uma equipe enfrenta outra, para valer, está travando nada menos que uma guerra simbólica, na qual o que importa é vencer – dentro das regras, é claro. Muitas vezes, no furor do combate, essa guerra extrapola seu caráter simbólico e descamba para o real. Dentro e fora do campo. É quando jogadores trocam botinadas, um craque como Zidane dá uma cabeçada no peito de Matterazzi numa final de Copa do Mundo, e é quando uma torcida entra em combate físico com a sua rival.
Afinal, o futebol é um jogo, que desperta tanto o nosso impulso pela beleza quanto nossos instintos menos nobres. É preciso que o jogo se limite ao campo do simbólico, no qual não produz danos maiores do que a frustração com uma derrota e a exposição à chacota adversária. Como fazê-lo? Não existem fórmulas, mas entendo que uma legislação dura com delinquentes tenha de se associar a estratégias para desenvolver a civilidade e espírito desportivo das torcidas.
* (Coluna Boleiros)
Estava vindo para o jornal e ouvia a Rádio Estadão ESPN no rádio do carro. Entrevista com Daniel Carvalho, um dos “camarões”do técnico Luiz Felipe Scolari. Bem, se você chegou ontem do planeta Urano, convém esclarecer: “camarão” é como o Felipão resolveu chamar os jogadores diferenciados, aqueles que chegariam para resolver os problemas do Palmeiras. O técnico já estaria cansado de feijão com arroz, e precisaria de ingredientes mais refinados para fazer uma escalação cordon bleu, para continuar na metáfora culinária.
Pois bem, gracinhas à parte, o camarão Daniel Carvalho, vindo do CSKA, chegou meio robusto. Parecendo um lagostim, ou mesmo uma verdadeira lagosta. E era exatamente sobre isso que ele falava aos repórteres da Estadão-ESPN. De como saíra magrinho do Internacional, dez anos atrás, e de como encorpara, por conta de umas injeções aplicadas pelos médicos russos. Em uma palavra, havia tomado anabolizantes. E então vinha a parte mais grave da entrevista: “Como lá não existe exame antidoping, não havia problema”.
Ou muito me engano, ou existe aí um fato gravíssimo, que coloca em risco a saúde dos jogadores. Se é verdade mesmo que não existe exame antidoping, as portas estão abertas para esse processo artificial de fortalecimento muscular, com todas as conseqüências para a saúde que acarreta. Sem querer, talvez apenas desejando explicar para a torcida e a imprensa a massa corporal avantajada, Daniel pode ter mexido com um vespeiro daqueles. Pode ter aberto a Caixa de Pandora aquela que, na mitologia, contém todas as pragas do mundo.
Mesmo porque, instigado pela reportagem, Daniel foi além e citou vários colegas que teriam ficado estranhamente fortes em suas passagens pela Europa. Os dois Ronaldos, Pato, Robinho e outros teriam sido submetidos a tratamentos semelhantes, para encarar o vigor do futebol europeu. Bom, essa é a parte menos substantiva da entrevista, mesmo porque envolve outras pessoas, que teriam de ser ouvidas. No entanto, Daniel já foi suficientemente eloqüente quando falou, com toda a propriedade, de si mesmo, do seu corpo e de como ele foi submetido a um tratamento a base de hormônios para ganhar massa. “Quando cheguei, eles me acharam muito fraquinho, franzino”, disse. Daí as tais injeções. Será que a Fifa, que mete o bico em tudo o que se relaciona com o futebol, não tem nada a dizer sobre isso. Em particular sobre a ausência de exames antidoping? Ou é um daqueles casos sobre os quais ninguém quer saber muito, porque pode atrapalhar os negócios?
Público
Enquanto isso, os campeonatos regionais sofrem com a ausência de público. Todos eles? Mais ou menos. Se o Paulista e o Carioca trabalham no vermelho, o mesmo não pode ser dito do Campeonato Pernambucano. O jogaço entre Sport 4 x 3 Náutico levou mais de 26 mil pessoas à Ilha do Retiro. Clássico é clássico. Teremos coisa semelhante por aqui quando começarem os nossos clássicos, ou essa fórmula da Federação Paulista será capaz de desidratar até mesmo rivalidades seculares?
(Coluna Boleiros)
Obs: o homem já recuou e ficou o dito pelo não dito. Aconselho a quem não ouviu, que dê uma conferida na entrevista, para ver se fica alguma margem para dúvida. Aqui.
Afinal, somos dálmatas ou vira-latas? Pergunto assim, de supetão, mal refeito daquele jogo entre Santos e Barcelona. Nesse período de entressafra do futebol esperava ver discussão mais produtiva sobre esse jogo altamente simbólico. Verdade que num primeiro momento todos os comentaristas falaram sobre o assunto. Dos derrotistas de véspera aos triunfalistas pró-Barcelona, a turma do “Eu não disse?”.
Analistas de outras áreas se aventuraram no tema, tão grande pareciam as consequências da surra aplicada pelo Barça. Francisco Bosco, de O Globo, chamou de Complexo de Dálmata a afirmação (a frase é de Guardiola) de que o Barcelona se limitara a atuar da mesma forma que os brasileiros faziam no passado. A nomeação da nova síndrome psíquica brazuca – que dá título à coluna de Bosco – seria glosa e inversão do famoso “complexo de vira-latas”, expressão de Nelson Rodrigues para definir o ancestral sentimento de inferioridade nacional em relação a estrangeiros.
Assim, ao contrário da inferioridade atávica, a nossa soberba futebolística seria tamanha que, mesmo ao levar uma surra, dizemos que o adversário nada mais fez que aplicar a nós mesmos o remédio que nos era próprio, ainda que no passado. O objetivo da coluna seria mostrar como é pífia essa ilusão de precedência, para então defender a absoluta originalidade do Barcelona.
A coluna de Bosco mereceu comentário de José Miguel Wisnik, no mesmo diário. Torcedor do Santos, Wisnik é um dos mais sofisticados intelectuais brasileiros, sendo autor de uma obra referencial sobre futebol chamada Veneno Remédio. Na coluna, Wisnik fala de um jogo assustador, inventado pelo Barcelona, uma monstruosidade tática capaz de atacar o tempo todo sem jamais se expor ao adversário. Virtualmente imbatível, o Barcelona seria o atual paradigma do futebol.
O Barça faria a síntese entre o futebol de prosa europeu e o futebol de poesia sul-americano, negando, na prática, a famosa dicotomia de Pier Paolo Pasolini, feita sob inspiração do escrete brasileiro de 1970. A seleção causou ao cineasta, poeta e ensaísta Pasolini impressão semelhante à provocada pelo Barcelona hoje em dia em todos nós. Aquela seleção era inimitável (como reunir em outro time Tostão, Pelé, Gérson, Rivellino, etc?), assim como o Barcelona é inigualável (como encontrar outros como Messi, Xavi e Iniesta?).
Mas a seleção de 1970, tida como imbatível e moderna, pode ter produzido, por reação, a revolução tática de Rinus Michels, criador da Laranja Mecânica. Sim, a temível Holanda de 1974, que colocou o Brasil na roda, encantou o mundo e perdeu a final para a Alemanha. Michels encontrou a fórmula de bater o Brasil, sem retranca ou pontapés. Só na bola. Ora, a Laranja Mecânica, todos sabemos, é mãe do atual Barcelona. O futebol total é invenção da Holanda de Michels, que depositou seu DNA na Catalunha através de Johan Cruyjff, em especial. O resto é história, da qual fazemos parte.
Daí que, a meu ver, não somos dálmatas ou vira-latas. Somos apenas uma potência futebolística em momento de baixa imaginação tática e entressafra de talentos.
(Boleiros, Caderno de Esportes, 17/1/2012)
Amigos, vamos dizer logo de cara: não havia a menor chance de o Santos derrotar o Barcelona. O desnível tático e técnico é abissal. O Barcelona igualou, no campo, o Santos ao Al-Sadd. Engoliu os dois da mesma forma. Parecia jogo de time de primeira divisão contra aspirantes da quarta. Mesmo no mais imprevisível dos esportes coletivos, que é o futebol, podemos dizer que, em dez jogos, o Barça ganharia os dez. Em cem, ganharia os cem. Poucas vezes, no futebol profissional, vi desnível parecido. Então, é preciso reconhecer o mérito do Barcelona e do seu jogo preciso, belo e implacável.
Não dava mesmo para ganhar. Mas há derrotas e derrotas. A do Santos foi a do pior tipo: derrota sem qualquer resistência, sem luta, sem briga, no melhor sentido do termo. O time já entrou em campo vencido e, em nenhum momento, chegou a ameaçar o adversário.
Para dificultar um pouco as coisas para o Barcelona faltou talvez ao Santos um jogador desses que não aceitam a derrota de jeito nenhum. Lembro de um Zito, que impunha respeito ao próprio Pelé. Lembro de Almir Pernambuquinho, a alma do Santos na conquista do bicampeonato diante do Milan em 1963. Pelé estava contundido e Almir entrara em seu lugar. Ouvira dizer que Amarildo, jogador do Milan, falara que Pelé estava em decadência. “Não se diz isso do Rei”, rosnou Almir. E, na primeira dividida com Amarildo, deixou claro que aquele era um jogo de vida ou morte. Amarildo sumiu em campo.
Ok, hoje as coisas não são mais assim. Todo mundo é amiguinho e tiete, e coisa e tal. Só faltou pedirem autógrafo aos jogadores do Barcelona, ou talvez nem isso tenha faltado. O fato é que não havia em campo (ou fora dele) alguém que lembrasse aos jogadores do Santos que aquilo era uma disputa de título mundial. Parecia uma partida amistosa, um casados x solteiros de luxo, um daqueles jogos de fim de ano, “Amigos do Messi x Amigos do Neymar”. Coisa assim. Festiva. Leve. Uma brincadeira.
De resto, cabe ao Santos se preparar melhor para o próximo ano. Continuar o trabalho iniciado, reforçar seus pontos frágeis e dispensar quem não tem apreço pela camisa do clube. Deve lutar pela Libertadores e voltar ao Mundial mais “sábio”, segundo as palavras de Neymar. Enquanto isso, é bom aprendermos a lição, junto com o craque santista: vamos colocar as barbas de molho para 2014 porque o futebol sul-americano não está com nada. Depois de décadas de modelo extrativista-exportador, chegou ao fundo do poço e não consegue mais enfrentar os europeus. São cinco títulos mundiais consecutivos para os clubes do Velho Continente. As duas últimas participações brasileiras foram vexatórias: a desclassificação do Internacional pelo Mazembe e a humilhante goleada sofrida pelo Santos. Vamos repensar a vida?
Férias
A bola para e eu também. Desejo a todos um Feliz Natal e ótimo 2012. Esta coluna retorna dia 17 de janeiro. Até a volta.
Amigos, a vida é uma ironia. Quis o destino que um antigo Menino da Vila estivesse no caminho do Santos Futebol Clube em sua tentativa de conquistar o terceiro mundial. Refiro-me, claro, a Nelsinho Baptista, capitão do time campeão paulista em 1978, no qual tinha como companheiros Juari, Pita, Nilton Batata e outros cobras. Naquele tempo, Nelsinho ostentava vasta cabeleira. Muitos anos depois, com juba mais modesta, teve passagem medíocre pelo Santos, agora como treinador. Não deixou saudades. Estava no comando daquele time de 2005, goleado por 7 a 1 pelo Corinthians, placar que ainda incomoda os torcedores. Muito se falou, na época, que os jogadores haviam facilitado tamanha goleada para derrubar o técnico. Como sabemos, coisas assim não acontecem…
Como treinador do Kashiwa Reysol, Nelsinho tentará botar água no chope santista. Já andou dizendo por aí que fará de tudo para evitar a final tida pela maioria como certa, entre Santos e Barcelona. Quer ele próprio enfrentar o time de Messi. Coisas da vida, minha nega, como diz o grande vascaíno Paulinho da Viola. Claro, o Santos tem um time muito melhor do que o Kashiwa, dirigido por Nelsinho, mas o Inter também era infinitamente superior ao Mazembe, ou alguém duvida disso?
De qualquer forma, faz bem Muricy em colocar as barbas de molho e concentrar-se nesse primeiro jogo. Humildade e caldo de galinha nunca fizeram mal a ninguém, no futebol ou em qualquer outra atividade deste mundo povoado por seres mortais e falíveis. Teve a oportunidade de ver as fraquezas do Kashiwa, mas também seus méritos, como a velocidade e o preparo físico. Está certo o Muricy. Não adianta nada ficar pensando no Barcelona se, antes, existe esse desafio a ser transposto.
O prudente Muricy também não se poupou de alguma polêmica no Japão, ao elogiar os técnicos do Barcelona e do Real Madrid, mas fazendo uma ressalva: de acordo com ele, Guardiola e Mourinho só poderiam ser considerados nota 10 depois de vencerem um campeonato no Brasil. Em sua coluna, Tostão considerou o comentário presunçoso. Não entendo dessa forma. Muricy não quis ser antipático, mas apenas chamar a atenção para a dificuldade do trabalho dos técnicos em país imediatista como o Brasil, que não dá tempo para planejamentos e costuma resolver qualquer tropeço pela demissão do treinador.
Além disso, o comentário de Muricy pertence àquela categoria interessante das coisas indemonstráveis. É tão provável Mourinho ou Guardiola virem a treinar um clube brasileiro quanto Messi jogar no Corinthians ou no Palmeiras, no futuro imediato. E, no campo das possibilidades alucinadas, por que não pensar o que seria do Barcelona caso disputasse a Libertadores da América? Teria tanto sucesso quanto na Europa? Sem qualquer menosprezo, tanto pelo Barcelona quanto pela inteligência do leitor ou dos fãs alucinados do Barça, pode-se imaginar perfeitamente que passasse pela fase de grupos e depois se enrolasse no primeiro mata-mata, diante, digamos, da altitude e de um Once Caldas da vida. Quem poderia dizer que isso é impossível? Essa palavra, amigos, não existe no futebol.
(Esportes)
Amigos, Tite declarou que o título do Corinthians era inquestionável. Verdade pura. No sistema em que o Campeonato Brasileiro é disputado desde 2003, os títulos são sempre inquestionáveis, a não ser que haja a interferência de um fator externo, como já aconteceu. Comportando-se a arbitragem de maneira normal – isto é, sendo incompetente de maneira equitativa – quem somar mais pontos na última rodada é mesmo o legítimo campeão.
Essa é a maior virtude do sistema. Uma vez definido, ele é justo e sem margem para contestações. Também é um tanto abstrato – no bom sentido do termo. Ficamos procurando instantes marcantes e, de fato, encontramos às vezes esse ou aquele momento em que o título foi definido. Eu mesmo escrevi aqui sobre um desses momentos, quando Adriano marcou aquele gol contra o Atlético Mineiro. Mas, a bem da verdade, se o gol do Imperador foi decisivo, mais ainda o foram os de Liedson, diluídos ao longo de toda a competição.
Também me parece o grande acerto do ano a manutenção do técnico Tite nas horas difíceis, como a derrota para o Tolima na pré-Libertadores. Naquele momento pensei que o treinador não fosse sobreviver. Não estava errado. Baseava-me na tradição brasileira de sempre encontrar um bode expiatório para as derrotas. Mas Andrés me desmentiu e essa manutenção, contra toda a expectativa, revelou-se decisiva. Se o Corinthians tivesse mudado de técnico, ainda assim seria campeão? Não sabemos. Jamais saberemos, porque a pergunta é absurda, pura especulação. O que sabemos, sim, é que Tite ficou, montou um time nada brilhante, porém estável e conduziu-o ao título.
De certo modo, o time é o retrato perfeito do Campeonato Brasileiro de 2011. Ganhou na constância, na raça e no sufoco, como é da natureza do clube. Teve um oponente de valor, o Vasco, que trabalhou no limite máximo durante muito tempo e, na reta final, cansou. Não conseguiu definir na Sul-Americana, nem no Brasileiro. Mas fez um ano empolgante que, ao contrário do que andam dizendo, não entrará para a história. Entraria, caso viessem os dois títulos que completariam a tríplice coroa.
Os outros todos concorrentes ao título decepcionaram, cada qual à sua maneira. Para ficar nos paulistas: o Palmeiras colocou um pouco a cabeça fora d’água no final, mas seu balanço de ano é muito negativo. O mesmo se diga para o São Paulo que, a certa altura, pareceu engrenar e desandou. Tem de se repensar por completo. O Santos é um caso à parte, pois logo elegeu o Mundial como objetivo e largou o Brasileiro. Qualquer que seja o resultado do torneio no Japão, já contabiliza ano ótimo. Segurou Neymar e outros jogadores, voltou a ganhar uma Libertadores depois de 48 anos e reelegeu um presidente de ótima gestão. Preparou terreno para a comemoração do centenário em 2012.
Sócrates. Duas palavras sobre o Doutor, morto no dia da vitória do seu Corinthians. Foi dos maiores que vi jogar. Era um daqueles raros jogadores que introduziam o inesperado na rotina do jogo. Quer dizer, produzia com frequência momentos poéticos na prosa do cotidiano. Fosse por um passe de calcanhar, por um deslocamento inesperado em campo, um arremate a gol, sempre deixava a marca do seu estilo. Um atacante mais banal teria cruzado ou dado um chutão contra a meta italiana naquela partida triste de Sarriá. Ele fez o que não se esperava e colocou a bola no espaço entre o goleiro Zoff e o poste. Era original. Também o era fora de campo porque, numa profissão de alienados submissos, era barbudo, cabeludo e dono de aguda consciência social. Viveu como bem quis, digam o que disserem os moralistas de plantão. Que esteja em paz, porque muito deu em vida a todos nós, que amamos o futebol-arte e as ideias fortes.
(Esportes)
Amigos, também no futebol existe o pensamento politicamente correto, que, como vocês sabem, é composto de pequenas (e às vezes grandes) hipocrisias. Agora ele se manifesta quando alguns palmeirenses dizem pouco se importar em impedir o título do Corinthians. “Queremos apenas jogar bem e ganhar”, diz Felipão.
No outro lado da história, a mesma coisa. Luxemburgo também declarou que deixava para a torcida a possível satisfação de tirar o título do Vasco. Queria apenas jogar bem, etc. No caso do Flamengo, com a motivação adicional: está em jogo uma vaga na Libertadores. No Palmeiras, nem isso: a única recompensa é mesmo botar água no chope do principal adversário.
Todo mundo sabe disso. Mas não se diz. Não fica bem a profissionais dar mostras de tamanha passionalidade. Deixa-se essa manifestação emotiva para a torcida que, esta sim, é amadora e, como amadora, pode se deixar levar por arroubos da paixão, tanto positiva quanto negativa.
Os técnicos deram essas declarações diplomáticas e dificilmente os jogadores falarão de modo diferente. Dirão que manda a ética do esporte que se jogue a sério e assim por diante. Eu ficaria surpreso se algum deles confessasse o prazer que seria tirar o pão da boca de um rival próximo. Mesmo porque gente capaz de fazer isso, como Vampeta, Romário ou Edmundo já não está mais em atividade. Hoje predominam os bons moços, com suas frases sensatas e sem sal ditadas pelos profissionais do media training. Não declaram nada que possa comprometê-los no futuro que, como costumam dizer, a Deus pertence.
Diplomacias e pequenas hipocrisias à parte, o que não se pode deixar de reconhecer é o acerto de colocar os clássicos regionais na última rodada do campeonato. Se não, é possível que tivéssemos em 2011 um repeteco de outras edições, com times desmotivados e – pior – interessados em entregar o jogo para prejudicar o rival direto.
A sábia decisão de deixar os dérbis para o fim aquece o desfecho do campeonato à temperatura máxima. Isso por obra e graça da matéria-prima da qual são feitas todas as disputas: a rivalidade. Sem ela, todo futebol vira um casados x solteiros. Aliás, a comparação é injusta. Já vi muita gente sair estropiada depois desses rachas de fim de semana, regados a cerveja e churrasco. O bicho homem não gosta de perder. Quando o assunto é futebol, menos ainda. E só há uma coisa pior do que perder: é ver o seu rival ganhar. Curioso como uma atividade tão bela como o futebol se nutra (também) de instintos tão baixos.
Mas assim é a vida. Complexa e contraditória é a natureza humana. Porque se existe baixeza em desejar o pior para o seu rival, também há grandeza em reconhecê-lo em seus feitos legítimos. Assim como o torcedor já viu (e pode ter praticado) cenas de sadismo com o sofrimento alheio, também já testemunhou a generosidade. Por exemplo, quando nos compadecemos de um time rebaixado para a segunda divisão e nos sentimos solidários com a torcida machucada. Ou, quando aplaudimos uma bela jogada do adversário, reconhecendo-lhe a arte, mesmo quando é contra o nosso time. Vi Pelé ser aplaudido várias vezes por rivais derrotados. Vi a torcida santista homenagear Marcelino Carioca quando ele marcou um gol maravilhoso na Vila Belmiro, contra o Santos. Somos assim. Cheios de contradições e nuances. Por isso o futebol nos representa tão bem.
E, por isso mesmo, que me desculpem os corintianos, teria sido uma pena para um campeonato tão bom se tivesse terminado já no domingo. Seríamos privados da emoção maior da última rodada. Se o título vier para o Corinthians, que seja da maneira como eles parecem gostar, com o máximo de sofrimento. E se for para o Vasco, quer merecimento maior?
(Esportes)
Amigos, o cinema americano nos viciou no tema da segunda chance. Lembram da história clássica do xerifão, rápido como corisco no gatilho, que acabou vivendo seu mau pedaço de vida, aderiu ao jogo e ao uísque de milho, foi ridicularizado no saloon, mas um belo dia tirou a ferrugem do Colt e do amor próprio, liquidou o bandido e restabeleceu a moral da cidade, desaparecendo no horizonte enquanto a tela exibia o clássico pôr do sol e o inevitável The End? Quem não se emociona, embora tenhamos visto mil variantes da mesma coisa? Para não dizer que tudo isso é exclusividade dos gringos, a segunda chance é tema de um clássico da literatura brasileira, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, também levado ao cinema na genial recriação do diretor Roberto Santos. Como se lembram, também Matraga abusou da sorte, fez das suas e se deu mal. Mas no momento propício, comportando-se como herói, resgatou a sua moral. Teve a sua vez e a sua hora.
Se me perdoaram a literatice e menções ao cinema do parágrafo anterior, vocês já perceberam aonde quero chegar. Sim, porque o nosso glorioso Sport Clube Corinthians Paulista parece ter se especializado na arte de acolher personagens desacreditados que, vestindo sua camisa, veem chegar a sua hora e vez de maneira totalmente improvável. Resgatam-se perante a opinião pública e, acima de tudo, perante a si mesmos. Foi o caso de Ronaldo. Parece ser o caso de Adriano. Às vezes parece até má ficção. Mas tudo é verdade, como dizia um certo Orson Welles.
Falo, claro, do gol contra o Atlético Mineiro, o gol que todos comentam pelas repartições, pelas esquinas, botecos e mesas redondas. O gol salvador do Corinthians, que parecia destinado ao empate no Pacaembu e viu o Imperador renascer numa corrida pouco crível, receber a bola açucarada do Emerson Sheik, bola doce, mas ainda assim difícil, e colocá-la fora do alcance do goleiro Renan, no único e reduzido espaço disponível para fazê-la entrar na meta atleticana. Gol de quem sabe como tratar a bola e, portanto, dela recebe em troca afeto e carinho, mesmo que esporadicamente. O gol que, caso se confirme o favoritismo do Corinthians, será cantado nas rapsódias do Parque São Jorge como “o gol do título”.
Claro, essas coisas não resistem à menor análise racional. Quem for campeão, terá sido porque acumulou, ao longo do ano, ponto sobre ponto para que, na conta final, tivesse mais que todos os seus concorrentes, e não porque marcou um gol numa determinada partida aos 43 minutos do segundo tempo. O Corinthians não será exceção dentro dessa racionalidade do sistema de pontos corridos do campeonato. Haverá quem, com mais razão, cite aquela arrancada fulminante do início do campeonato, quando o time de Tite pôde forrar a poupança que o nutriu no tempo das vacas magras, no tempo dos altos e baixos da disputa.
Esse é o lado racional, que deve ser levado em conta. Porém, no futebol, como na vida, precisamos de outro tipo de narrativa, tão verdadeira, ou mais, quanto a frieza da análise lógica. É aqui que entram os heróis, essas pessoas predestinadas que, em algum momento, mesmo que seja apenas em um único e reles momento, brilham e realizam alguma coisa que parece acima do comum mortal.
É aqui onde entra Adriano Leite Ribeiro que, após sua façanha, lembrou-se de que havia um ano e cinco meses não balançava a rede. Tinha essa conta de cabeça, precisa. Devia refazê-la dia após dia. Somava sempre mais um dia de abstinência a todos os outros que compõem o longo estio do jejum, até que parecesse não ter mais fim. Para ele não foi apenas um gol. Foi uma libertação. Quando a segunda chance se apresentou, Adriano a ela se agarrou com a gana do herói. Com a obstinação de um náufrago.
(Esportes)
Amigos, depois de ver os jogos dessa rodada lembrei uma frase de Winston Churchill. Esse velho guerreiro, que conduziu seu país à vitória contra os nazistas na 2ª Guerra Mundial, disse um dia, entre uma baforada e outro do seu charuto de Havana: “A democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros conhecidos”. Bola na rede. Nada é conforme os nossos ideais, nos lembra Churchill. E, como a perfeição não é mesmo deste mundo, somos obrigados a escolher entre os males o menor. No caso de Churchill, a democracia, com todas as suas imperfeições, já bastante conhecidas entre nós, mas ainda assim sempre preferível aos despotismos de qualquer natureza. No nosso terreno, meros e mortais amantes do futebol, a disputa por pontos corridos, que com os seus defeitos, ainda é superior aos acidentes dos outros sistemas de disputa.
Digo isso porque, após ver os jogos, ao vivo ou em gravações, fiquei convencido de que o melhor time do Brasil não será o campeão do ano. Isso, contrariando todas as nossas convicções (minhas também) de que o sistema por pontos corridos é o mais justo, por premiar a regularidade e o desempenho ao longo de toda a competição e não apenas em seus momentos mais decisivos.
Em Uberlândia, o ainda favorito ao título, o Corinthians, deixava de abrir vantagem na conquista pela taça ao empatar, de modo medíocre, com o América Mineiro, o último colocado da tabela e virtual rebaixado. A uns 600 e tantos quilômetros de Uberlândia, o Santos derrotava o Vasco da Gama na Vila Belmiro. Vasco, que é o mais direto concorrente do Corinthians pelo título. Em andamento lúdico, de brincadeira mesmo, o Santos transformou um jogo em tese sem interesse para ele em importante treino para o Mundial. E assim fazendo, venceu, com futebol bonito e convincente. Futebol de campeão, diria um desavisado.
Com Neymar mais uma vez em estado de graça e Ganso voltando com bom desempenho, o Santos sobrou em campo. O placar poderia ter sido maior caso os companheiros de Neymar não desperdiçassem inúmeras chances proporcionadas pelos passes do garoto. E pelos toques de Ganso, com a técnica intacta, embora sentindo falta de ritmo.
Enfim, o melhor time do campeonato estava jogando, sem qualquer chance de título, em sua casa, na Vila Belmiro. Derrotava um dos sérios candidatos, o Vasco, enquanto outro, o Corinthians, afundava diante do lanterna.
E por que o Santos, que é sabidamente o melhor time do campeonato, não vai vencê-lo? Ora, por razões que todos conhecem. Ressaca da Libertadores, muitos desfalques, abusos das seleções (principal e sub-20), etc. Há outro fator. O Santos jogou a toalha cedo demais. Se tivesse duas vitórias a mais, a esta altura do campeonato ainda estaria disputando o título. E, como voltou a jogar bem (porque nem sempre o melhor time é o que está jogando em nível acima dos outros), poderia atropelar na reta final e ganhar seu nono troféu de campeão nacional. Abandonou a disputa quando ainda estava dentro dela, e sem sabê-lo. Também, como poderia adivinhar a incompetência crônica dos primeiros colocados?
Essa consideração seria uma defesa dos mata-mata contra o sistema de pontos corridos? Nada disso. O sistema de pontos corridos é pedagógico. Obriga os clubes a uma certa disciplina de contratações e gestão ao longo do ano. Time que dilapida seus recursos e vende seus atletas a preço de banana no meio do ano não tem vez nesse sistema.
Para que ele fosse mais efetivo, porém, seria preciso certa colaboração da CBF. Em especial na feitura do calendário, que pior não poderia ser. Com os times se dividindo entre várias competições e os melhores cedendo jogadores para os tolos amistosos da seleção, enquanto o campeonato continua a ser jogado, é impossível qualquer planejamento sério. Ainda que isso não venha a acontecer, o sistema de pontos corridos continuaria a ser o mais justo. Mesmo que premie o time que fez mais pontos, e não necessariamente o melhor.
(Esportes)
Daqui para frente será assim: a dez rodadas do final, a cada semana teremos uma decisão, coisa normal para campeonato tão equilibrado. Na semana passada, por exemplo, o empate com o Vasco teve, para o Corinthians, o valor de uma final. Nunca saberemos o que teria acontecido caso fosse o Vasco o vencedor – o que, àquela altura, parecia o resultado mais provável. Mas se pode dizer que teria disparado na liderança, e ganharia ali uma força moral difícil de ser contestada.
Ora, isso não ocorreu e a resistência do Corinthians em São Januário foi heroica. Agora, o panorama mudou. Eu diria que se inverteu. Cheio de moral, o Corinthians atropelou o Atlético Goianiense. Não foi uma simples vitória. Foi uma daquelas vitórias sem contestação, definitivas, acachapantes. Já andam dizendo que foi uma vitória de campeão. Em compensação, no Sul aconteceu o contrário – foi o Vasco o atropelado pelo Internacional. Qual o efeito dessa derrota sobre o moral dos vascaínos? A esta altura, ninguém pode responder. Mas podem estar certos de que os gurus de São Januário trabalharão nesta semana para que o estrago não se alastre para o resto da campanha.
A reta final não permite erros, e esse é o aspecto que teremos de observar nos principais candidatos. Todos erraram, e muito, até agora. Qualquer que seja o campeão – e, em tese, existem cinco ou seis postulantes ao título – terá de exibir nessa arrancada uma regularidade que não mostrou ao longo do torneio. Quando cumprimentarmos o campeão, qualquer que seja ele, teremos de dizer que ele reuniu todos os méritos, etc e tal, mas também que superou uma campanha marcada pelos altos e baixos. Nenhum dos times escapa a essa condição.
O atual líder é o maior exemplo: começou como um furacão, com um rendimento de Barcelona, e depois foi perdendo a voracidade. Aconteceu até uma coisa interessante com o Corinthians. Perdeu tanto fôlego, tanto conjunto que, a certa altura, e meio indevidamente, já era meio considerado carta fora do baralho, embora, mesmo em sua má fase, não tenha caído tanto na tabela. E este, talvez, tenha sido o seu grande mérito. O de se conduzir em uma fase ruim sem transformá-la em crise e, ao perder a liderança, nunca ter se afastado do topo. Assim, quando o período mau passou, como parece ter passado, em dois botes o Corinthians conseguiu retomar a liderança. O desafio, agora, é não mais perdê-la. Ou seja, manter uma regularidade positiva durante os dez jogos que restam. O que talvez seja o mais difícil. Mas quem disse que ganhar campeonato é fácil?
De qualquer forma, a hora é de concentração – pelo menos entre aqueles que desejam alguma coisa (título, ou Libertadores) e os que não desejam o rebaixamento: ainda vai haver muita luta no andar de baixo, uma disputa negativa que, não raro, é mais emocionante que a que se trava pelos primeiros lugares.
Tudo isso para dizer duas coisas. Primeiro, que parece lamentável dois clubes como Palmeiras e Santos já estarem alijados dessa festa toda, e com tanta antecedência. O Santos ainda tem a desculpa do Mundial de clubes em dezembro, a vaga garantida para a Libertadores, etc. Mas deveria seguir o exemplo do Vasco e ambicionar mais. A modéstia do Palmeiras é que me preocupa. O reflexo dessa situação foi a feiura do clássico na Vila Belmiro, numa partida indigna da tradição desse confronto.
Segundo, espera-se, talvez contra toda a possibilidade, que haja bom senso da CBF e nos próximos amistosos da seleção não desfalque os times que estejam disputando o título ou vagas na Libertadores.
O Campeonato Brasileiro é bom demais para ser tratado com tanta indiferença pela entidade que deveria zelar pela sua qualidade.
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