RECIFE – Outro concorrente entre os longas-metragens foi o documentário Casa 9, de Luiz Carlos Lacerda, o Bigode. Evoca uma casa e um tempo. A casa, a de número nove em uma vila em Botafogo. O tempo: os anos loucos, pós AI-5, do desbunde e da contracultura. Passaram pela casa de Bigode gente como Jards Macalé, Naná Vasconcellos, Nelson Pereira dos Santos, Clarice Lispector e tutti quanti. Era o forum libertário em meio a um tempo obscuro. Um acerto do filme é entrevistar as pessoas “normais” que, na época, conviveram com os artistas. Vale pela ternura.
Qual a relação de um filme com a realidade? A pergunta está sempre presente – em geral de maneira implícita – a cada vez que imagens em movimento são projetadas sobre uma tela. E a questão se torna mais urgente, em particular, se essa obra se intitula um “documentário”. Queremos sempre saber se, em que medida, essas imagens dizem a “verdade” sobre o “real”. Por isso, de certa forma, o tema estará em discussão ao longo deste que é o mais importante festival de documentários do País, o É Tudo Verdade, criado e dirigido pelo jornalista Amir Labaki, e que começa hoje.
O festival, em sua 16ª edição, tem seu título inspirado no filme incompleto realizado por Orson Welles no Brasil, começa hoje com a exibição de The Black Power Mixtape, de Göran Hugo Olsson, sobre o movimento ativista negro nos Estados Unidos, no final da década de 1960, começo dos 70. Início estupendo, sem dúvida, mas apenas um aperitivo para o cardápio completo, que terá um total de 92 documentários vindos de 29 países diferentes. Entre eles, 18 brasileiros inéditos, prova de que o gênero se encontra em grande fase no País.
Como não se perder em meio à maratona? Amir acha que é melhor não opinar e nem eleger favoritos: “Todos esses títulos selecionados representam apenas 5% dos que se inscreveram; é um universo muito amplo, de modo que dar dicas seria um pouco como fazer a escolha de Sofia”.
Para quem não se lembra do filme A Escolha de Sofia, de Alan Pakula, nele, a personagem de Meryl Streep se vê obrigada a escolher entre dois filhos queridos, para salvar um e sacrificar o outro. Um dilema terrível, como o que acomete o diretor de um festival quando é convidado a optar entre títulos que selecionou para o evento.
Se o diretor, compreensivelmente, prefere não citar títulos favoritos, não se nega a discutir uma espécie de linha geral que passa entre que vai ser apresentado neste ano: “A novíssima safra me parece marcada por esta ênfase em captar sob a ótica privada as principais questões públicas, como o movimento pela democratização no Irã (A Onda Verde) e o fortalecimento do engajamento religioso (Posição entre as Estrelas), para ficar em apenas dois exemplos. É como se houvesse agora uma síntese dialética entre a tendência intimista que era marcante na década de 1990 e a retomada social e política que se seguiu ao 11 de setembro.”
Quer dizer: os cineastas voltaram a ter consciência de que não adianta as pessoas não se interessarem pela política, porque a política sempre se interessa por elas. Não é pouca coisa.
No ritmo trepidante da História
Angela Davis, Stokeley Carmichael, Malcolm X e Martin Luther King – os expoentes da luta dos negros norte-americanos pelos direitos civis estão presentes no filme de Göran Hugo Olsson, que abre o imenso painel documental proposto pelo – É Tudo Verdade de 2011.
Com imagens marcantes em preto e branco e um ritmo trepidante de apresentação, The Black Power Mixtape traz à memória o calor político dos anos 60 e 70, quando todas as soluções pareciam ao alcance de mãos que, muitas vezes, escolhiam a via da violência para alcançá-las. É interessante notar justamente a oposição entre o pacifismo de Martin Luther King e as propostas de luta armada de outras facções, como a dos Panteras Negras. É um filme que tem como seu grande mérito nos transportar para o clima de época, o que é sempre o desafio maior tanto do documentário como da ficção.
Essa sensação de captar os momentos em que a História parece fazer-se diante dos olhos do espectador se repete em diversos filmes desta mostra. Com a sucessão de revoltas no mundo árabe, ganham grande atualidade filmes como A Onda Verde, A Queda de um Xá e uma Odisseia Iraniana. Se o Irã de Amadinejad não deixa de causar preocupações no Ocidente, talvez esse conjunto de filmes traga um pouco de racionalidade à nossa percepção sobre o país. Neles temos, na sequência, o governo nacionalista de Mossadegh, a ascensão e a queda de do xá Rehza Pahlevi e as eleições presidenciais de 2009 – esta captada em depoimentos de personagens, mas também em postagens em blogs, no Twitter e no Facebook. Um grande arco histórico que coloca o país ora em sintonia ora em dissonância com os países dominantes, em especial com os Estados Unidos. Na contraluz, o fato inescapável de ser o Irã uma das maiores reservas de petróleo do mundo, o que, no fundo, explica tantas intervenções e tanta preocupação do Ocidente.
Igualmente tenso e participante é o trabalho da russa Marina Goldovskaya, que ganha retrospectiva e é uma das convidadas do evento. Em seus filmes, Marina acompanha de perto o esfacelamento do império soviético e o nascimento de uma nova ordem, com Boris Ieltsin, o que não se dá sem grandes turbulências. Em seu O Gosto Amargo da Liberdade, Marina traça um retrato tanto intimista quanto político de sua amiga, a jornalista Anna Politkovskaya, assassinada em 2006. Na época, Putin declarou que o crime seria solucionado e os culpados punidos, apesar de Anna ser notória inimiga do regime. Até hoje o assassinato não foi esclarecido. O documentário vale-se de filmagens e material de arquivo, registrando um país em permanente ebulição. Anna pagou caro ao denunciar as violações de direitos humanos cometidos por seu país na guerra da Chechênia.
“Na obra de Marina, o público vai encontrar um documentarismo quente, que registra o impacto sobre as pessoas comuns dos grandes movimentos da História (o fim da URSS, os primeiros passos da nova Rússia, de Ieltsin, Putin e Medvedev). Trata-se da primeira retrospectiva internacional mais ampla da obra de Marina, celebrando seu 70º aniversário.”, diz Amir Labaki. O Gosto Amargo da Liberdade terá sua estreia mundial no É Tudo Verdade.
Como de certa forma o País passou ao largo das grandes turbulências mundiais, o documentário brasileiro oferece um panorama diverso. “É um momento de renovação no Brasil, estilística, geracional e temática. A hegemonia da tradição dos grandes temas histórico-culturais e das grandes personalidades não é mais tão marcante. A permeabilidade maior às outras artes, não como tema, mas como estratégias de linguagem, se apresenta com nova força também na produção nacional”, explica Labaki.
Daí a presença de um filme como Assim É se Lhe Parece, em que Carla Gallo esmiuça o universo estético do polêmico artista plástico Nelson Leirner. Ou Aterro do Flamengo, em que Alessandra Bergamaschi monta sua câmera fixa na observação de um terrível fato do cotidiano e na reação das pessoas diante dele.
Circunstâncias políticas e históricas entram um tanto de viés num filme como Dois Tempos, em que Dorrit Harazim e Arthur Fontes revisitam a família do bairro da Brasilândia cujo cotidiano haviam registrado dez anos antes. É testemunho da ascensão do que se convencionou chamar de “nova classe média”, um fenômeno econômico dos anos Lula. E contingências histórico-sociais entram de maneira mais clara no tocante Vocacional, uma Experiência Humana, em que Toni Venturi relembra seu tempo de aluno em um dos Colégios Vocacionais, experiência pedagógica libertária liquidada pela ditadura.
Se no âmbito dos brasileiros a temperatura parece um tanto morna, ela deve ferver no debate de lançamento dos DVDs de dois documentários de Newton Cannito, Jesus no Mundo Maravilha e Violência S.A. (este em parceria com Eduardo Benaim e Jorge Saad). A começar pelo título da mesa – A Verdade É uma Farsa (dia 5/4, às 19h30, na Livraria Cultura do Shopping Villa Lobos) – da qual participam o diretor, o pesquisador Jean-Claude Bernardet e o apresentador Marcelo Tas.
A ideia dos documentários é apresentar assuntos dolorosos (no caso a violência urbana) sob o formato humorístico. Os filmes fascinaram estudiosos como Bernardet, mas também causaram repulsa em outras pessoas. Ao propor o tratamento paródico de uma situação que envolve ex-policiais adeptos da pena de morte, um palhaço e uma mãe que teve seu filho morto pela polícia, o documentarista expõe-se a opiniões controvertidas. Como a do cineasta Eduardo Escorel, que classifica a posição do cineasta, neste caso, como de “abuso de poder”. E a de Bernardet, que considera o filme Jesus no Mundo Maravilha inovador ao introduzir a ironia no domínio do documental e aceitar que vivemos de modo inescapável na sociedade do espetáculo.
São discussões polêmicas, que envolvem a ética do documentarista em relação aos seus personagens e prometem muito calor ao debate – e, com sorte, alguma luz também.
Meu amigo Zé José avisa que Geral, da diretora Anna Azevedo, ganhou como melhor curta-metragem no Cinéma Vérité, de Teerã, um dos mais importantes festivais de documentários do mundo. Já havíamos dado o prêmio da crítica no Cine PE a este belo filme sobre o futebol. Aliás, sobre as torcidas de futebol, uma delas em especial, a dos “geraldinos”, torcedores populares, que perderam seu lugar com a reforma do Maracanã.
Como poucos, o filme consegue captar a energia da galera, um dos fatores, senão o principal, que faz o futebol ser o que é. Fica como um belo documento para lembrarmos o que já foi um dia o futebol quando conseguirem elitizá-lo (e esterilizá-lo) por completo, processo já em curso.
Numa das cenas mais legais, um torcedor levanta o dedo para o céu e manda o Criador para aquele lugar. Alguma, Ele deve ter feito.
Parabéns, Anna.
FORTALEZA – Um Cine São Luiz cheio apenas pela metade depois da vitória do Brasil sobre o Chile, assistiu a uma ótima amostra do novo cinema espanhol – A Mulher sem Piano, de Javier Rebollo. Filme de corte minimalista, fala sobre a solidão de uma mulher de meia-idade, depiladora profissional, e que vive com um marido que não lhe dá a mínima bola.
Essa obra de planos parados, lenta, reflexiva e cheia de melancolia talvez não se adapte bem ao clima de Copa do Mundo. Mas quem deixou de ir ao cinema perdeu uma experiência rara, dessas iguarias para cinéfilos de fino trato. A Mulher sem Piano vale muito pelo rigor dos seus enquadramentos e sua decupagem. Vale pela utilização sempre surpreendente da música. Vale pela intensidade de sua personagem principal, Rosa (Carmem Machi). E vale ainda mais por aquilo que é sugerido e nunca dito diretamente. Quer dizer, exige do espectador participação para compreender aquele universo íntimo feminino.
Há um pano de fundo histórico, visível apenas por imagens de TV. O dia em que acontece a história é 16 de março de 2003, quando o primeiro-ministro de Portugal, José Manuel Durão Barroso, recebe Bush, e os então premiês Tony Blair, da Grã-Bretanha, e José Maria Aznar, da Espanha, para concertarem a aliança contra o Iraque. Fala-se das armas de destruição em massa (que, afinal, não foram encontradas) e no ultimato a Saddam Hussein. Os negócio escusos do grande mundo continuam enquanto Rosa dá seguimento à sua pequena vida.
Vida em crise, com marido indiferente, sexo limitado ao vibrador de estimação, conversas com as clientes. Rosa resolve mudar. Faz a mala e decide viajar, mas mesmo ela não poderia supor que tipo de viagem estaria iniciando no momento em que deixa a casa e se dirige à estação rodoviária de Madri. Lá encontra, por acaso, o polonês Rodek, minucioso, amante de consertar objetos quebrados, e que só espera ser preso pela polícia do seu país em função de uma dívida que não conseguiu pagar.
Se, com essa história, alguém espera ver um caso de amor convencional, pode desistir. Com seus planos parados e travellings lentos, Javier Rebollo recorta uma fatia de solidão urbana como há muito não se via. É filme que, por suas lacunas que falam muito, lembra o universo de Aki Kaurismaki em Um Homem sem Passado. Rosa parece uma mulher sem futuro. Mas ela também dá a impressão de que pode muito bem inventar alguma coisa de diferente para si.
Belo filme, já sério candidato ao troféu principal do Cine Ceará.
FORTALEZA – A noite de domingo no Cine Ceará foi inteira dedicada à ilha. O documentário Memória Cubana, de Alice Andrade, traz uma parte da história política do século através dos “noticieros”, os cinejornais que passavam nas salas de cinema informando a população do que ia pelo mundo. Já a ficção Lisanka, do diretor cubano Daniel Dias Torres, relembra um episódio marcante da história do século 20 – a crise dos mísseis, quando se esteve mais perto da catástrofe nuclear – através de uma espécie de comédia romântica de sabor caribenho.
É curioso, porque Daniel Diáz Torres, como tantos outros cineastas, também trabalhou nos noticieros do Icaic, o instituto de cinema criado pela revolução dos barbudos. “Naqueles tempos achávamos que o cinema podia de fato mudar a realidade e, em certo sentido, aqueles cinejornais ajudavam a mudá-la.” Tempos de utopia, reconhece Daniel, e talvez irrepetíveis. De qualquer forma, os noticieros viveram do início da revolução até final dos anos 90, quando então foram abandonados.
A prática dos noticieros, que eram semanais e depois viraram mensais, durando cerca de 15′ cada um, criou um extraordinário documento daquela época. Em Cuba e no mundo. Foi esse rico acervo que encantou Alice Andrade, que é filha do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, diretor de Macunaíma e Os Inconfidentes. “Havia 1493 edições de noticieros, cerca de 200 horas editadas”, conta Alice, que estudou em Havana e pesquisou no Icaic.
Um nome despontava em meio a esse mundos dos noticieros – o do documentarista Santiago Álvarez, um mestre reconhecido internacionalmente (há, no Brasil, um ótimo livro sobre Santiago, escrito pelo crítico Amir Labaki). São imagens preciosas, dos primeiros anos da revolução, com suas figuras maiores, Fidel, Che, Camilo, Raúl. Mas também gente do povo, no trabalho, em condições de vida difíceis. Os documentários são a favor, não raro panfletários, mas, pouco a pouco, aparecem os noticieros críticos, que falam dos problemas da burocracia e de outras mazelas da ilha. Talvez tenha sido por isso que foram postos de lado nos anos 90, “quando não havia muito interesse das autoridades em mantê-los dessa maneira”, diz Daniel. Esse aspecto crítico é contemplado no documentário de Alice Andrade, cuja maior virtude é a recuperação dessas imagens hoje pouco vistas.
Em Lisanka, o histórico aparece sob forma ficcional. A crise dos mísseis, de outubro de 1962, pôs o mundo à beira do holocausto nuclear. Aviões espias americanos descobriram que os soviéticos haviam instalado mísseis nucleares em Cuba, a 100 quilômetros da Flórida. Kennedy deu um ultimato a Krushev, então premiê soviético, e decretou bloqueio à ilha. Nesse clima de altíssima tensão, há uma tratorista cubana, a tal Lisanka do título, cujo coração balança entre dois cubanos e um soldado russo. “Queria marcar essa história com uma certa ironia, mas nunca com tom de burla, pois foi uma época dramática”, diz Daniel.
(Caderno 2, 29/6/10)
Amigos, estou embarcando para Fortaleza, onde vou, mais uma vez, cobrir o Cine Ceará. Abaixo, a matéria de apresentação que escrevi no Caderno 2 de hoje. Mando notícias de lá, inclusive da Copa, que continua a rolar, apesar de o cinema cobrar também seus direitos.
Em sua 20.ª edição, que começa nesta quinta, 24, à noite, em Fortaleza, com a exibição de Do Amor e Outros Demônios em première mundial, o Cine Ceará mantém-se no formato ibero-americano. “Essa fórmula veio para ficar”, diz seu diretor, o cineasta Wolney Oliveira. Não apenas porque se tornou importante via de divulgação da cultura cinematográfica da América Latina e da Europa ibérica no Brasil, mas pelas próprias raízes do diretor, pois Wolney é formado pela tradicional Escuela de Cine y TV de San Antonio de los Baños, que fica nas cercanias de Havana, em Cuba.
Essa opção pelos ibero-americanos garante ao Cine Ceará diversidade de filmes e ineditismo da maioria deles, desafio constante dos festivais brasileiros, em geral condenados a repetir títulos que já participaram antes de outros eventos do gênero, o que diminui seu interesse. Em Fortaleza, dos oito longas-metragens em concurso, cinco são completamente inéditos no Brasil. O filme de abertura, Do Amor e Outros Demônios, dirigido por Hilda Hidalgo, coprodução entre Costa Rica e Colômbia baseada na obra de Gabriel García Márquez, tem estreia mundial em Fortaleza. Serão vistos pela primeira vez no Brasil Alamar, do México, o espanhol A Mulher Sem Piano e os brasileiros El Último Comandante e Memória Cubana
Completam a seleção títulos que já participaram de outros festivais, como o argentino O Último Verão de la Boyita, o cubano Lysanka e o brasileiro Estrada para Ythaca. Wolney chama a atenção para algumas características deste filme, “o único 100%” brasileiro, já que os de Alice Andrade e Vicente Ferraz são coproduções. Estrada para Ythaca ganhou a Mostra Aurora, para diretores estreantes, no Festival de Tiradentes, em janeiro deste ano. Na sua ficha técnica aparecem quatro diretores – Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes – que fazem também parte do elenco. “O filme custou apenas R$ 2 mil”, diz Wolney. “E acredito nisso, porque os diretores são também os atores e rodaram tudo em câmera digital, uma dessas máquinas que tiram fotos mas também podem ser usadas numa filmagem.”
Milagres da tecnologia contemporânea. O diretor do festival viu o longa e garante que ele não perde em qualidade para outras obras filmadas em suporte digital. “É o que está acontecendo hoje; cada vez mais a tecnologia fica barata e os resultados, melhores”, diz. De modo que no Cine Ceará teremos em concurso obras que custaram de R$ 2 mil a alguns milhões de reais, como é o caso do filme de abertura, Do Amor e de Outros Demônios, baseado em obra de escritor famoso e captado em película 35 mm, ainda insubstituível em termos de qualidade, definição e matizes de cor.
Estrada para Ythaca promete levantar discussão sobre a possibilidade de se fazer obras relevantes com poucos recursos. Ganhou festival e teve boa repercussão crítica onde foi apresentado. Foi citado pelo crítico Pedro Butcher em artigo para a revista Cahiers du Cinéma sobre o cinema brasileiro contemporâneo.
As mostras paralelas prometem bons filmes e boas discussões. Uma delas Diásporas: as Fronteiras da Identidade selecionou duas produções brasileiras e quatro estrangeiras para falar sobre o universo da imigração e da cultura multinacional em curso.
Outra mostra lembra os 20 anos da Queda do Muro de Berlim e traz filmes curiosos a respeito desse fato histórico. Um deles, Coelho à Berlinesa, é muito interessante”, diz Wolney. Fala de uma colônia de coelhos que viveram sossegados e proliferaram alegremente nos arredores do Muro durante os anos da divisão entre as duas Alemanhas. “Com a queda, eles passaram a ser caçados e foram parar nos pratos dos alemães, em especial nos da ex-República Democrática Alemã.” Os coelhos germânicos são vítimas, até então desconhecidas, do fim da Guerra Fria.
Apenas um desfalque a ser registrado para a 20.ª edição do Cine Ceará. Seu presidente de honra, o cineasta argentino Fernando Birri, não virá: “Com seus 85 aninhos, Birri está ocupado na produção do seu próximo longa-metragem”, informou Wolney.
Os Longas Concorrentes
El Último Comandante (Brasil/Costa Rica)
Memória Cubana (Brasil/Cuba/França)
Estrada para Ythaca (Brasil)
O Último Verão de la Boyita (Argentina/França/Espanha)
Do Amor e Outros Demônios (Costa Rica/Colômbia)
A Mulher Sem Piano (Espanha/França)
Alamar (México)
Lisanka (Cuba/Venezuela/Rússia)
Sim, o Festival de Veneza (1-11 de setembro) terá Quentin como seu presidente do júri na competição principal, a do Leão de Ouro. Tarantino é frequentador de Veneza, apesar de nunca ter conseguido colocar um filme seu em competição. Foi chamado como curador de uma mostra de westerns spaghetti, ele que curte como ninguém a filmografia B. Era legal vê-lo à noite no Palácio dos Festivais, em sessões no fundo pouco badaladas, apresentando os filmes, vendo-os e depois conversando com o público. Uma figura simpática. E que, por falar nisso, acaba de ganhar uma análise brasileira de sua obra, O Cinema de Quentin Tarantino, de Mauro Baptista (Papirus Editora). Ainda não li, mas vou ler. Comento aqui depois.
Mas o meu xodó mesmo é Áurea, de Zeca Ferreira, história de uma cantora da noite carioca. É uma ficção, mas Áurea interpreta a si mesma. E canta Janelas Abertas, de Tom e Vinícius, divinamente. O filme promove a aproximação entre Áurea e Elizeth Cardoso, seu possível modelo, que gravou Janelas Abertas no LP Canção do Amor Demais. Do ponto de vista de cinema, o filme é muito bom, com suas imagens da noite carioca, e comove com a volta da cantora para casa, depois da jornada de trabalho na casa noturna. Há nele uma melancolia que todos os que um dia viveram na noite conhecem muito bem. Isso para dizer que o filme é de fato muito bom e muito rico. Agora, tudo isso, e mais Janelas Abertas, uma das músicas mais belas e pungentes da MPB, já chega a ser até demais. Lindo de morrer.
Faço de Mim o que Quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena, é uma imersão no universo da chamada música brega pernambucana. Cheio de malícia e energia, o filme traz personagens incríveis e monta muito bem seus depoimentos. Atua nessa área limítrofe entre o mau gosto e o kitsch, mostrando como as convenções estéticas podem ser bem questionáveis. A maneira como é feito o filme provocou boa reação até mesmo em quem não tem nada a ver com aquele universo e aquela música, e prefere Mozart a João do Morro – um dos ícones da estética brega. Os créditos finais, inscritos pelo corpo de uma dançarina são mais uma prova da criatividade hormonal dos cineastas. Fiquei fascinado pelo filme e ajudei a elegê-lo no prêmio Aquisição do Canal Brasil, do qual fazia parte do júri.
Geral, de Anna Azevedo, registra os últimos jogos em que o Maracanã dispunha dessa (péssima) acomodação, destinada aos torcedores menos favorecidos. Mas que eram também os mais alegres e inventivos. Os chamados “geraldinos” usavam fantasias, iam sempre com seus radinhos de pilha e torciam como loucos, pois seu envolvimento com o time do coração é algo visceral. O uso da câmera e do som são muito bons, transmitindo a sensação da galera ao espectador. Há alguns momentos hilários no filme. Um, quando um torcedor mostra como imita, à perfeição, o apito do juiz, e assim interfere no jogo para beneficiar seu time. Outro, quando um torcedor, desesperado com o que vê em campo, olha para o céu e manda o Senhor para aquele lugar. Não resisto à tentação de transcrever outra fala de um torcedor. É uma flamenguista, que grita a um jogador: “Esse é pior Flamengo da história; e você é reserva nesse time!”. Enfim, toda uma maneira de ver e sentir o futebol passa pelos rápidos 14’ deste filme. Incidentalmente, mostra outra coisa: esse é um tipo de torcedor que desapareceu dos estádios com a elitização do futebol. Não são apenas eles que perdem com isso. Somos todos nós.
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