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Luiz Zanin

Depois de oito anos de poder, Marco Müller não é mais diretor do Festival de Veneza, o mais antigo do mundo. Foi substituído por Alberto Barbera,  que volta à mostra depois de tê-la dirigido de 1998 a 2002.

Sem Müller, talvez o Brasil tenha alguma chance de voltar a competir. Durante sua gestão, não apenas o Brasil mas o cinema latino-americano como um todo foi ignorado. Talvez Barbera abra mais os olhos para o resto do mundo e não apenas nas direções prediletas de Müller: Ásia, Estados Unidos, Europa.

O engraçado é que se especula, na imprensa internacional, que Müller estaria indo para a direção da Festa de Cinema, de Roma, festival jovem, concorrente de Veneza e que havia sido esnobado, sistematicamente, pelo ex-diretor. Se for verdade, Müller vai para o cargo de Piera Detassis, antiga diretora da revista Ciak, do grupo de Berlusconi.

Conheci Piera em 1991, quando ainda era apenas repórter da Ciak, num making of do filme de Polanski, Lua de Fel. Ela, o saudoso Marco Melani e eu formávamos a trinca latina, a desafiar o poder anglosaxão no navio onde se realizam as filmagens entre Veneza, Istambul e Atenas.

A seu convite, depois da viagem, visitei a redação da Ciak, em Milão. Era, já naquela época, pessoa de grande capacidade.

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A Dangerous Method aborda com precisão, sensibilidade e compreensão seu tema, os anos de solidificação da psicanálise, envolvendo um trio de personagens, Freud, Jung e Sabina Spielrein. Sigmund Freud (Viggo Mortensen) inventou a psicanálise. Carl Gustav Jung (Michael Fassbender) foi um dos seguidores de Freud, era tido como seu sucessor, mas romperam e ele trilhou caminho próprio. Sabine (Kiera Knightley) é menos conhecida. Russa, internada na clínica de Zurich onde Jung trabalhava, foi sua paciente, depois amante, e voltou para a Rússia onde desenvolveu extensa carreira como analista, até ser fuzilada junto com dois filhos, pelos nazistas.

O que se pode dizer do filme é que Cronenberg coloca entre parênteses seu gosto pelo grotesco e o dirige da forma a mais sóbria possível. Capta um momento preciso da aventura psicanalítica, quando a teoria já não era mais novidade, porém enfrentava ainda (como enfrenta até hoje) resistência em setores da medicina. Freud quer limitá-la ao campo científico. Jung tem tendências místicas, que procuram relativizar o fator sexual, para Freud a pedra fundamental do edifício teórico. Rompem. Entre os dois, Sabine, que representa, para Freud, o mistério feminino, e para Jung o desafio da própria sexualidade. Talvez outra atriz, com mais sex appeal, funcionasse melhor. Mas esse é um detalhe. O filme é tratado de maneira límpida, luminosa, com imagens como as de um quadro de Vermeer.

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30.agosto.2011 02:18:31

Diário de Veneza 2011

Já em Veneza. Para mais um festival, depois daquela viagem estafante, que envolveu troca de avião em Frankfurt, barco, táxi até o hotel. Quase 24 horas de porta a porta.

Encontro Veneza sob um calor africano, ar parado, ventiladores ligados a noite toda, pernilongos (zanzare) fazendo a festa com a carne da gente.

Fuso horário (5 horas de differença) também fazendo efeito. Acordo subitamente e nada mais de sono. Ainda é muito cedo para fazer o credenciamento. Daqui a pouco tomo o café da manhã e dou um pulo no Palazzo para ver em que situação está. Quem já viu, diz que as obras continuam. O novo edifício não pode ir adiante porque encontraram amianto nas fundações do antigo. Enquanto não puderem remover o elemento tóxico, nada feito. Veremos.

A boa notícia é que à tarde haverá cabine do novo filme de Frederick Wiseman, Crazy Horse. Estou curioso. Mas antes há já alguns filmes para ver, que, para falar a verdade, são a única coisa de fato que interessa num festival de cinema.

Bem, enfim, esse post rápido era só para dar um toque: as notícias vão começar a aparecer neste blog. E, claro, no Caderno 2.

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O Festival de Veneza divulga que Marco Bellocchio receberá um Leão de Ouro pela carreira na edição de 2011. Justo? Justíssimo. Mais do que isso, é uma reparação a um cineasta que tem sido muito maltratado em seu país. Em 2003, Bellocchio concorreu com seu maravilhoso filme político Bom Dia, Noite, e perdeu para o limitado Brokeback Mountain, o dos caubóis gays de Ang Lee. Há um desnível abissal entre os dois filmes, mas o júri entendeu de outra forma. Ano passado, Bellocchio esteve em Veneza com Sorelle Mai, um filme doméstico e cheio de inventividade, que passou fora de concurso e foi visto por pouca gente.

Veneza, sob a batuta de Marco Müller, acende uma vela para os asiáticos (o diretor do festival é especialista em China) e outra para os americanos, que garantem astros e estrelas na passarela. Enquanto isso, a América Latina é esquecida e a produção local se faz representar por concorrentes pífios. Os grandes – Bellocchio entre eles – estão relegados ao segundo plano. E já perceberam.

Tanto assim que filmes excepcionais como Vincere, de  Bellocchio, Gomorra, de Garrone, ou Il Divo, de Paulo Sorrentino, foram apresentados no arquirrival de Veneza, o Festival de Cannes. A revista Cahiers du Cinéma considerou Vincere um dos melhores filmes do ano. Também está no festival francês a nova produção de outro dos ícones da Bota, Nanni Moretti. São os franceses que reconhecem o cinema italiano no que ele ainda tem de grande. Aos 70 anos, Bellocchio é um dos maiores cineastas em atividade no mundo. Mas na Itália, como em outros países, santo de casa não faz milagre.

Enquanto isso, Veneza agoniza sob o peso de suas idiossincrasias. O Leão especial seria uma espécie de autocrítica dos organizadores? Parece que sim. Mas isso eles não admitirão jamais.

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Como se poderia prever, a ressaca de Veneza veio acompanhada de choro e ranger de dentes, como nos versos de Dante Alighieri. Nem tanto pela desastrada presidência do júri de Quentin Tarantino, como pelo fiasco dos quatro títulos italianos, ignorados pelos jurados.

Aproveitando a onda, os jornais de segunda-feira desancaram a organização do festival e a infra-estrutura montada no Lido para receber essa que é uma das principais manifestações artísticas da Europa. Da curadoria da mostra aos hoteleiros e donos de restaurantes venezianos (que cobram os olhos da cara aos visitantes), todos receberam o que lhes era devido. Até mesmo o jornal local Il Gazzettino traz artigo feroz, assinado na capa por Tiziano Grazziotin, com um título ameaçador: “O Lido não merece este festival”.

Quem saiu em defesa de Tarantino foi o cineasta italiano Gabriele Salvatores (de Mediterrâneo), seu subordinado no júri. Salvatores jura que Quentin teve lá seus excessos mas não se conduziu de maneira despótica e mostrou-se disposto a ouvir os outros. Diz que Somewhere, o filme de Sofia Coppola vencedor do Leão de Ouro, não impressionou tanto a princípio mas depois foi subindo no conceito de Tarantino e, por extensão, no dos outros jurados. Acabou por se impor.

Mas, ao defender o seu presidente (e, no fundo, a si mesmo), Salvatores jogou gasolina na fogueira. Quando lhe perguntaram por que os filmes da casa não haviam sido levados em conta, ele respondeu que o cinema italiano havia perdido a faculdade de se comunicar com espectadores estrangeiros. “Não emociona mais”, disse, sem meias palavras. Citou La Solitude dei Numeri Primi e disse que teve de explicar a lógica dos personagens aos outros jurados. De Noi Credevamo, o épico histórico de Mario Martone sobre o Risorgimento, disse que poderia ser compreendido por um garoto de ginásio na Itália mas parecia impenetrável a quem não conhece a história do país. Finalizou com uma estocada: “Espero que esse momento inspire uma reflexão do cinema italiano sobre si mesmo”.

O próprio Salvatores dá início a essa reflexão: “O nosso cinema tem dois pais poderosos que precisa, não digo matar, mas superar – o neorrealismo e a comédia à italiana”. De acordo com o diretor, a influência da escola do pós-guerra e o sucesso do gênero que internacionalizou o cinema da Bota funcionam mais como inibição do que como inspiração para os cineastas contemporâneos. Pode até ser. Mas o fato é que os melhores filmes italianos recentes não foram mostrados em Veneza, como são os casos de Vincere, de Marco Bellocchio, Gomorra, de Mateo Garrone, e Il Divo, de Paolo Sorrentino.

Mesmo na presente edição de Veneza, um filme original como Sorelle Mai, de Bellocchio, não estava em concurso. E o único título da casa que provocou polêmica e já foi vendido para vários outros países – Vallanzasca, de Michele Placido – também não disputou os troféus da competição principal. Ou seja, há algum problema com a curadoria, que manda títulos medianos para a mostra competitiva mais importante e distribui os outros pelas demais seções.

Aliás, houve quem se queixasse do excesso de filmes italianos presentes no festival – ao todo, contando com os quatro que disputaram o Leão de Ouro – havia nada menos que 41 participantes.

Um excesso, a julgar pela qualidade apresentada. Vozes dissonantes foram ouvidas. Por exemplo, a do produtor Domenico Procacci que atesta a saúde do cinema italiano com números: “Temos 34% do mercado interno e, com todo o respeito pelo júri, a palavra final quem dá mesmo é o público”. O discurso é o de sempre, seja na Itália, seja no Brasil. Já o crítico Paolo Mereghetti, do Corriere della Sera, acha que esse número grande serve mais para dispersar do que para chamar a atenção sobre os filmes da Itália.

Também nos números se refugiou a dupla diretiva de Veneza (Paolo Baratta, presidente da Bienal, e Marco Müller, diretor do festival), na coletiva dada no dia seguinte à premiação. “Vendemos 13% a mais de ingressos em relação a 2009”, comemora Müller. E isso, ele ajunta, num ambiente ainda tocado pela crise mundial e prejudicado pelas obras do novo Palácio do Cinema. A dupla exulta ainda a boa cobertura da mídia (“inclusive do exterior”), reflexo do maior número de jornalistas credenciados – mais de 3.400, no total.

De fato, a sensação de quem cobre o festival é de que há sempre mais gente e tudo está mais apertado, agitado e desconfortável. Entrar em determinadas sessões é uma experiência similar a pegar o metrô na Praça da Sé às seis horas da tarde. Ou seja: desconforto não pode ser tomado como índice positivo, mas apenas como superlotação, falta de respeito pelo público, desorganização. Há várias causas para isso. Por causa das obras, por exemplo, fecharam uma das salas, mas o número de pessoas e de filmes em circulação apenas aumentou.

Esse atropelo todo não condiz com a lenda de glamour do mais antigo festival do mundo. Nem combina com o enorme buraco (já o chamam de Ground Zero de Veneza) aberto defronte ao Cassino (No artigo citado, Grazziotin o chama de “símbolo de uma Itália que não progride). Combina menos ainda com o fechamento do mitológico Hotel Les Bains (o tal de Morte em Veneza), que, quando for reaberto, será transformado em condomínio fechado, para milionários. Para o ano que vem, preveem-se também reformas e fechamento do Hotel Excelsior, que é a sede do festival e onde um prato de espaguete pode chegar a cem euros.

Enfim, sem o Les Bains, sem o Excelsior, afogado em meio a um canteiro de obras, o “chique” de Veneza anda seriamente comprometido. Tanto ou mais do que a qualidade dos filmes, italianos ou não, esse é um sinal claro de que o festival está em crise.

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A maior parte das pessoas pensa que um grande festival, como o de Veneza, é uma competição entre os melhores do mundo e que a nata do cinema de autor estará representada em sua principal competição. Chato dizer, mas não é bem assim. Festivais se tornaram plataformas importantes de ressonância midiática e, portanto, sujeitos a pressões de todo o tipo, em especial as de ordem econômica. Cinema é dinheiro.

Basta lembrar que a Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica (o nome completo do Festival de Veneza) teve este ano orçamento de 12 milhões de euros, dos quais sete vêm do governo italiano e cinco têm de ser buscados entre patrocinadores. Estes desejam ver suas marcas vinculadas aos astros e estrelas, segundo a lei da publicidade. Daí a necessidade de providenciar celebridades para dar entrevistas e brilho ao desfile pelo tapete vermelho. Elas são garimpadas entre os famosos locais e europeus mas, de preferência, entre norte-americanos, astros globais por força da indústria planetária de Hollywood. Isso vale para Veneza, Cannes e Berlim.

Se é preciso cortejar os americanos, também se faz necessário prestigiar a turma da casa, daí a quantidade de italianos em disputa, mesmo que a qualidade seja insuficiente. Essa necessidade ditou a criação de um segmento destinado unicamente a eles — o Contracampo Italiano — para garantir exibição e um prêmio certo. Mas há também o gosto pessoal do diretor da mostra, Marco Müller, romano e formado na cultura oriental. Müller tem obsessão pela Ásia. Por isso não existe Veneza sem muitos chineses, japoneses, asiáticos de maneira geral. Fora a questão pessoal, há aí uma jogada de ordem política, num período em que a geografia econômica mundial se inclina cada vez mais para a China. As mesmas razões explicam a sistemática ausência em Veneza de representantes da América do Sul, continente ainda fraco na diplomacia cinematográfica mundial.

Com todos esses interesses agindo ora em sintonia ora em contradição, mesmo assim Veneza conseguiu realizar uma mostra de bom nível artístico. Não ótimo. Apenas bom. Não se viu nenhum título excepcional, desses que dão a impressão de que vão mudar a história do cinema. Talvez eles não existam mais, como pontificou o espanhol Álex de la Iglesia, e estejamos condenados a repetir e a misturar indefinidamente o que já conhecemos.

De qualquer forma, mesmo que com variações mínimas, alguma novidade e emoção surgiram em títulos como Post Mortem, Ovsyanki e Venus Negra, para citar como exemplos. Em seu processo de reciclagem desvairada, o próprio Balada Triste de Trompeta, de Iglesias, não deixa de ser bem interessante. O fato é que, mesmo com sua curadoria cheia de compromissos e em aparência estagnada, Veneza em 2010 não fez mais do que refletir a crise de criatividade do cinema mundial contemporâneo.

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Somewhere, de Sofia Coppola, ganhou o Leão de Ouro do 67º Festival de Veneza. O anúncio foi feito pelo presidente do júri, Quentin Tarantino, sob vaias na sala de imprensa, que assistia à cerimônia em circuito fechado. O filme de Sofia é ok. Mas, de fato, um Leão de Ouro é excessivo. Foi uma “tarantinada” inequívoca, sob a complacência dos outros membros do júri. Tarantino ainda emplacou um Leão de Ouro Especial pelo conjunto da obra para o cineasta Monte Hellman, que foi quem o lançou na carreira de cineasta. Um Leão para sua ex-namorada; outro para seu primeiro protetor. Não está mal, não é?

A premiação seguiu contemplando o gosto de Tarantino. O inventivo Balada Triste de Trompeta (Espanha) deu o prêmio de direção a Alex de la Iglesia, que ainda foi agraciado com o troféu de melhor roteiro, também escrito por ele.

Outro filme, Essential Killing, venceu o prêmio Especial do Júri e também deu a Vincent Gallo o troféu de melhor ator. GAllo não apareceu para recebê-lo. Já a melhor atriz foi Ariane Labed pelo filme grego Attenberg. Ela, de fato, é uma gracinha no papel de uma moça de 23 anos, ainda virgem e que descobre os fatos da vida. Original e tocante.

O favorito dos críticos, o russo Ovsyanki (Almas Solitárias), teve de se contentar com a Osella de contribuição técnica (fotografia), para Mikhail Krishman. Merecia melhor sorte.

Já Post Mortem, do chileno Pablo Larraín, um mergulho original no Chile de Pinochet, foi completamente esquecido. Assim como foram esquecidos outros bem votados pela crítica e pelo público como o chinês La Fossé e o francês Venus Negra.

Para resumir: a atuação de Quentin Tarantino na presidência do júri foi o que dela se esperava. Um fiasco.

Abaixo, a premiação

Leão de Ouro para melhor filme: Somewhere, de Sofia Coppola
Leão de Prata para melhor direção: Álex de la Iglesia, por Balada Triste de Trompeta (Espanha)
Prêmio Especial do Júri: Essential Killing de Jerzy Skolimowski (Polônia)
Coppa Volpi melhor ator: Vincent Gallo por Essential Killing
Coppa Volpi melhor atriz: Ariane Labed por Attenberg
Prêmio Marcello Mastroianni (ator ou atriz revelação): Mila Kunis por Black Swan
Osella de contribuição técnica (fotografia): Mikhail Krishman por Ovsyanki (Rússia)
Osella melhor roteiro: Álex de la Iglesia por Balada Triste de Trompeta (Espanha)
Leão de Ouro pela carreira: John Woo
Leão de Ouro Especial: para Monte Hellman
Orizzonti
Prêmio Orizontti melhor longa-metragem: Verano de Goliat (Nicolas Vereda)

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Dificilmente os últimos três filmes exibidos mudam o panorama da premiação em Veneza, mas nunca se sabe. São eles o interessante metafilme Road to Nowhere, de Monte Hellman; Drei, do alemão Tom Tykwer; e Barney’s Version, de Richard J. Lewis.

Deles, o mais autoral é o de Hellman, que volta à direção depois de 22 anos ausente. Um jovem diretor é convencido a fazer um filme sobre um caso criminal real e vê-se em meio a um jogo de espelhos em que representação remete para o real e vice-versa. É engenhoso embora o recurso ao metafilme (o filme dentro filme) às vezes pareça um tanto abusivo. Cheio de referências (inclusive a Hitchcock), Road to Nowhere coloca o espectador num labirinto. Qualidade à parte, deve-se recordar que Monte Hellman foi o produtor que lançou o jovem Tarantino, hoje consagrado e presidente do júri em Veneza.

Drei mostra Tom Tykwer em seu estilo preciso, às vezes pensado demais – o que lhe traz certa frieza. É conhecido aqui em Veneza desde que apresentou seu Corra, Lola, Corra, em 1998. Aqui é a história de um triângulo amoroso, cheio de simetrias, pois os dois homens transam com a mesma mulher e, entre si, mantêm algo mais que uma bela amizade. Não deixa de ser interessante, não deixa de ser libertário, é bem construído e tudo o mais. Talvez muito limpinho e artificial, acaba por se esterilizar.

Já Barney’s Version, de Richard J. Lewis, é cinema comercial de qualidade, com a grife Paul Giammatti, ator indie por definição. Ele é Barney Panofsky, que enfrenta uma acusação de homicídio e vê sua vida passar em flashback, inclusive sua grande história de amor por Miriam (Rosamund Pike). Dustin Hoffman, como pai de Barney e policial aposentado dá show com seu personagem meio cafajeste e engraçado. Feito em tom satírico e auto-irônico, Barney’s Version desaba depois para uma feitura melodramática próxima do piegas.

A mudança de registro não lhe faz bem. É um bom programa. Aquela atração de qualidade para o sábado à noite, papo com amigos, comer uma pizza depois etc. A pergunta que não pode calar é: o que faz na competição de um festival como Veneza, do qual se espera aquele algo mais do cinema?

Desse modo, se não houver grande surpresa, o Leão de Ouro deverá ficar entre alguns dos favoritos apontados até agora. Isto é, entre o russo Ovsyanki, o chileno Post Mortem, o chinês Detective Dee – este tido como aquele que pode conciliar exigências “artísticas” de alguns jurados e o gosto pessoal do presidente do júri.

Há quem fale em outro chinês, La Fossé, pela importância da sua denúncia política na China dos anos 1960. É o que estaria mais próximo de uma unanimidade da crítica, segundo a votação do boletim da Variety. Já Detective Dee aparece como o favorito do público, na votação online.

Os quatro italianos participantes (La Pecora Nera, La Passione, Noi Credevamo e La Solitudine dei Numeri Primi) devem passar longe do Leão e beliscar talvez um ou outro prêmio secundário. A Itália não vence o seu festival desde 1998, quando Gianni Amelio ganhou como Cosí Ridevano.

As minhas estrelinhas.

Aí embaixo, você encontra as minhas cotações dos filmes que vi ao longo do festival.

Competição

Black Swan: **
Norwegian Wood: ***
La Pecora Nera: **
Miral: **
Happy Few: **
Somewhere: ***
Ovsyasnki (Silent Souls): ****
La Passione: **
Potiche: ***
Post Mortem: ****
Meek’s Cutoff: **¹/²
Detective Dee: **¹/²
Essential Killing: ***
La Fossé: **¹/²
Promises Written in Water: *
Balada Triste de Trompeta: ***
Noi Credevamo: ***
Attenberg: **
Vênus Negra: ***
13 Assassinos: **
La Solitudine dei Numeri Primi: ***
Drei: **
Road to Nowhere: ***
Barney’s Version: **¹/²

Outras seções

Profumo di Donna: *****
Vittorio Racconta Gassman – una Vita da Mattatore: ***
Guest: ****
A Letter to Elia: ****
Jianyu (Reino dos Assassinos): **
Sorelle Mai: ****
Lope: **

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Esse parece que foi selecionado para agradar a Tarantino: Treze Assassinos, de Takashi Miike, é um daqueles filmes de samurai, dirigido por um cineasta cult e refilmado de um “clássico” do gênero, filmado nos anos 1960. Dificilmente, um filme como este estaria num grande festival. Mas, além da presença de Tarantino na presidência do júri, há também o gosto pessoal do diretor da Mostra de Veneza, Marco Müller, um fanático pela cultura oriental e que não tem qualquer preconceito contra o cinema de gênero, como tem mostrado nos últimos anos. Desde que, é claro, ele venha da Ásia.

O próprio Takashi Miike é consciente de que vive uma situação excepcional e fez questão de agradecer, publicamente, ao festival por haver selecionado seu trabalho que, assim, pode ter uma divulgação maior no Ocidente. Não que histórias de samurais nos sejam estranhas, desde que Kurosawa se tornou um nome de culto.

Mas, aqui a questão é outra. A ênfase é muito maior nas lutas do que no próprio contexto de época, ou nas determinações psicológicas dos personagens. Há uma trama política, mas que se apresenta por fiapos. Um nobre samurai, Shimada, recebe o encargo de assassinar o senhor feudal Naritsugu, famoso por sua crueldade. A ele se juntam doze homens determinados e o grupo parte para uma missão que parece um tanto suicida.

E também um tanto subversiva, no fundo. Trata-se, no caso, de matar um detentor do poder, ainda que esse poder seja considerado ilegítimo. Miike preocupa-se em desfazer equívocos: “Sou contrário ao terrorismo, mas tudo depende da época, e das circunstâncias. Essa história não é ambientada tanto tempo atrás. Era quando viviam nossos bisavós. É uma ficção, mas não apenas. Busquei, de forma fiel, o ambiente daquela época. Os jovens japoneses de hoje não imaginam a época em que viviam nossos pais ou avós, em que ordens eram cumpridas e não desobedecidas. Então, um tirano podia ter poder absoluto”.

O filme tem qualidades, é bonito visualmente e se enquadra em certo realismo. Os personagens não flutuam no ar ou sobem pelas paredes como lagartixas, como nos filmes do gênero contemporâneos. Mas as lutas são excessivas. Cansam, pela repetição.

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A Itália termina sua participação em Veneza com um belo filme – La Solitudine dei Numeri Primi (A Solidão dos Números Primos), de Saverio Costanzo. É o quarto concorrente italiano na mostra principal e talvez seja aquele com maiores chances de ganhar algum prêmio. Conta uma história de amor entre dois seres pouco adaptados às normas, Alice e Mattia. A trama os acompanha ao longo de 20 anos de vida, da infância à juventude, e foi tirada de um romance famoso por aqui, de mesmo título, escrito por Paolo Giordano. Um best-seller, garantem os locais.

Alice e Mattia (interpretados já adultos por Luca Marinelli e Alba Rohrwacher) têm sua vida reconstruída de maneira fragmentária. A ideia de Costanzo é mostrar com idas e vindas a trajetória dos dois outsiders, marcados por tragédias pessoais na infância – um tombo de esqui que deixou Alice com defeito numa perna, a perda da irmã gêmea num acidente por parte de Mattia. A maneira como Costanzo constrói essa história é interessante, evitando a cronologia óbvia e apostando na fragmentação da narrativa. “O relato do livro é mais linear, mas por uma questão de linguagem cinematográfica preferi a alternância de tempos”, diz o diretor. O outro motivo: “Como foi um livro muito lido, presumi que todos já conheciam os elementos principais da história; preferi então me concentrar mais no ‘porquê’ do que no ‘como’.” Ou seja, conhecidos os fatos, busca a motivação dos personagens.

O filme é também um tour de force dos atores. Marinelli engorda e Alba emagrece ao longo do processo. Como se suas tragédias pessoais se inscrevessem em seus corpos. Costanzo disse que insistiu nesse tipo de realismo porque “o corpo é o único elemento político-ideológico do mundo de hoje e a ‘destruição’ do próprio corpo, a pequena revolução que alguém é capaz de fazer hoje em dia”. Daí as tatuagens, piercings e outras intervenções no corpo próprio. É o que também acontece no filme. Mattia corta sua pele à faca; Alice, além da cicatriz da cirurgia na perna, tem uma tatuagem que precisa remover. São as pequenas marcas revolucionárias do nosso pobre tempo.

E o título? Expressa uma definição da aritmética. Um número primo é aquele divisível apenas por um ou por si mesmo; não é divisível por outros. Essa metáfora matemática serve para dizer que Mattia e Alice só podem esperar a salvação em si mesmos ou, melhor ainda, um do outro. Com tudo o que têm de patético, os dois personagens parecem também bastante comoventes.

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