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Luiz Zanin

25.agosto.2010 12:49:54

No balanço da crítica

Nossa amiga Ivonete Pinto fez um ótimo balanço do Festival de Gramado e do encontro dos críticos lá realizado, tudo no site da Associação dos Críticos do Rio Grande do Sul. Leia aqui. Também vale a pena dar uma passeada pelo resto do site e ler outros artigos de interesse de quem curte e pensa cinema.

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Vão aí, de forma meio esparsa e lacunar, algumas anotações sobre este recém-encerrado festival de Gramado.

Resultado das premiações: gostei, com ressalvas. No atacado, o júri foi bem. Premiou Bróder de maneira consistente (filme, diretor, ator para Caio Blat), apontando que algo diferente está acontecendo no cinema brasileiro. Bróder e 5 x Favela (que ganhou Paulínia e passou em Gramado fora de concurso) são filmes-sintoma desse novo estado de coisas. Que batizo de: “a perifa tomando consciência audiovisual de si mesma”.

Por outro lado, acho que o júri carregou demais nos prêmios a Não se Pode Viver sem Amor, de Jorge Durán, inclusive o de melhor roteiro, que na verdade é o que o filme tem de mais problemático. Ao mesmo tempo, o júri oficial ignorou o comovente Diário de uma Busca, de Flávia Castro, por sorte premiado pela crítica.

No aeroporto, fizemos amizade com um dos integrantes do júri e debatemos amplamente essa questão. Os argumentos dele não me convenceram. Suponho que os meus tampouco o tenham convencido. Mas houve diálogo, o que já é alguma coisa.

Já na categoria de longas estrangeiros, a premiação de Mi Vida con Carlos, o maravilhoso e comovente documentário de Germán Berger que resgata a memória do pai, morto pela ditadura Pinochet, compensa qualquer problema. Apenas um reparo: pena que um filme tão original quanto El Vuelco Del Cangrejo, da Colômbia, tenha sido ignorado.

Mas, no geral, a premiação foi boa. Embora confusa. Quem assistiu à cerimônia ficou com a impressão de que os troféus chamados de “Cidade de Gramado” foram atribuídos por um júri de estudantes. Não foram. Foi o próprio júri oficial quem indicou os vencedores em categorias como direção de arte, montagem, trilha, etc, como me informou o jurado que encontrei no aeroporto.

Ou seja, está tudo muito confuso. Sugestão para o próximo festival: que no catálogo constem quais são os prêmios e quem os atribui. De maneira clara, por favor. Não é a primeira vez que se fazem trapalhadas em Gramado por esse motivo. Com isso, o retrato final do festival fica um pouco borrado, o que não parece ser do interesse de ninguém. E menos ainda de quem está obrigado, por dever de ofício, a zelar pela clareza.

Houve também uma tremenda baderna de suportes. Alguns filmes se anunciavam como 35mm e batiam na tela como os mais reles dos digitais. Ok, havia digital de boa qualidade. Mas outros pareciam VHS doméstico. O digital chegou e ponto. Não adianta chorar pela película perdida, embora eu ainda ache que até agora é insubstituível, etc. Mas, do jeito que a coisa foi feita em Gramado, parece anarquia. Que pelo menos conste para o público em que suporte o filme foi captado e como será projetado. Transparência, por favor.

No balanço geral, a curadoria Sanz & Avellar fez bom trabalho. Os filmes estrangeiros foram, na média, superiores aos brasileiros. Mas, mesmo entre os brasileiros, alguns filmes “tortos”, porém de interesse, como O Último Romance de Balzac, de Geraldo Sarno, e Contestado, de Sylvio Back, justificaram a presença na seleção.

Além disso, na Mostra Panorâmica, houve alguns filmes muito estimulantes como A Última Estrada da Praia, de Fabiano Souza, livremente adaptado de O Louco de Cati, de Dyonélio Machado. O argentino Dois Irmãos, de Daniel Burman, também é muito legal, e Elvis e Madona, de Marcelo Lafitte, parece bem divertido em sua proposta anárquica. Terra Deu, Terra Come, de Rodrigo Siqueira, é um documentário fora de série, surpreendente, com um personagem como poucas vezes se vê na tela. Ex-Isto, de Cao Guimarães, talvez tenha sido o ponto mais alto desse festival. Não competiu – eu soube em off – porque já estava comprometido com a Première do Festival do Rio.

Este ano participei do júri da crítica que, em Gramado, é organizado pela Associação de Críticos do Rio Grande do Sul. Desde o ano passado eles estabelecem a participação de um número limitado de participantes. Este ano votaram Marcos Santuário, Marcus Mello, Marcelo Miranda, Francis Vogner, Celso Sabadin, Paulo Henrique Silva, Ismaelino Pinto, Jaime Costa e este que vos escreve. E que, aliás, não foi incluído nem no site nem no jornalzinho do festival, mas que lá esteve, discutiu e votou. As reuniões foram ok e as discussões e resultados, produtivos, a meu ver. Longa brasileiro: Diário de uma Busca; longa estrangeiro: El Vuelco Del Cangrejo; curta: Babás.

Houve também um encontro de críticos, do qual participei, com exposição sobre as experiências de cada um no trabalho escrito em papel (jornal), na internet (sites e blogs) e também no rádio. Acho que foi legal, como troca de experiências.

Alguns dos debates com diretores e elencos dos filmes foram bem estimulantes, em particular os de Cao Guimarães e de Flávia Castro. Mas não acompanhei a todos, por falta de tempo. O festival, como quase todos os outros, transformou-se em maratona. E o deste ano foi longo, nove dias, talvez longo demais.

Outro problema. Ficou mais difícil acompanhar as atividades depois que construíram um elefante branco chamado Expo-Gramado, um pavilhão fora da cidade onde acontecem os debates e coletivas de imprensa. É longe e difícil de chegar (fica no alto de um morro) e a condução esteve particularmente ruim este ano. Perdiam-se horas esperando carro. E nem havia a alternativa de se socorrer com os táxis porque eles são raros na cidade. Antes, os debates eram num prédio da Universidade do Rio Grande do Sul, no centro. Além de mais acolhedor, facilitava demais a vida dos festivaleiros. O monstrengo atual é frio, insalubre e fora de mão. Deveria ser abandonado em prol do festival e as atividades realocadas na Universidade. Seria um alívio para todos.

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Amigos, terminou o Festival de Gramado com a consagração de Bróder. Ganhou os troféus de melhor filme, diretor (Jeferson De) e ator (Caio Blat). É a vitória do cinema da perifa, sem qualquer paternalismo, pois feito com muita garra e arte. A lista completa está abaixo. Depois faço um balanço mais amplo do festival. Agora não dá. Estou no aeroporto de Porto Alegre e embarco daqui a pouco.

Categoria Melhor Longa-Metragem Brasileiro:

Melhor Fotografia: Luis Abramo (Não se pode viver sem amor)
Melhor Roteiro: Dani Patarra e Jorge Durán (Não se pode viver sem amor)
Melhor Atriz: Simone Spoladore (Não se pode viver sem amor)
Melhor Ator: Caio Blat (Bróder)
Melhor Diretor: Jeferson De (Bróder)
Prêmio Especial do Júri: O Último Romance de Balzac (Geraldo Sarno)
Melhor Filme: Bróder (Jeferson De)

Troféu Cidade de Gramado:

Direção de Arte – curtas: Vicente Saldanha (Amigos bizarros do Ricardinho)
Melhor Montagem – curtas: Paulo Sacramento (Ninjas)
Melhor Trilha Musical – curtas: Amigos bizarros do Ricardinho
Melhor Filme – curtas: Haruo Ohara (Rodrigo Grota)
Melhor Filme Mostra Panorâmica: Terra deu terra Come (Rodrigo Siqueira)
Melhor Longa Estrangeiro: El vuelco del cangrejo (Oscar Ruiz Navia)
Melhor Direção de Arte – longa brasileiro: Ana Dominoni (O último romance de Balzac)
Melhor Montagem – longa brasileiro: Quito Ribeiro e Jeferson De (Bróder)
Melhor Trilha Musical – longa brasileiro: João Marcelo Boscoli (Bróder) e John Ulhoa, Wilson Suroski, Rubens Jacobina e Diamantino Feijó (Ponto Org)
Melhor Filme – longa brasileiro: Diário de Uma Busca (Flávia Castro)

Prêmio da Crítica:

Melhor Curta-Metragem: Babás (Consuelo Lins)
Melhor Longa-Metragem Estrangeiro: El vuelco de cangrejo (Oscar Ruiz Navia)
Melhor Longa-Metragem Nacional: Diário de Uma Busca (Flávia Castro)
Prêmio Aquisição Canal Brasil (curta-metragem): Haruo Ohara (Rodrigo Grota)

Júri Popular:

Melhor Curta-Metragem: Ratão (Santiago Dellape)
Melhor Longa-Metragem Estrangeiro: Mi Vida Con Carlos (Germán Berger-Hertz)
Melhor Longa-Metragem Brasileiro: 180º (Eduardo Vaisman)

Categoria Curta-Metragem:

Melhor Fotografia: Carlos Ebert (Haruo Ohara)
Melhor Roteiro: Claudio Marques e Marilia Hughes (Carreto)
Melhor Atriz: Elisa Volpatto (Um animal menor)
Melhor Ator: Flávio Bauraqui (Ninjas)
Prêmio Especial do Júri: Os anjos do meio da praça (Alê Camargo e Camila Carrossine)
Melhor Diretor: Rodrigo Grota (Haruo Ohara)
Melhor Filme: Carreto (Cláduio Marques e Marilia Hughes) e Haruo Ohara (Rodrigo Grota)

Categoria Longa-Metragem Estrangeiro:

Melhor Fotografia: Miguel Littin (Mi vida com Carlos)
Melhor Roteiro: Pablo Meza (La vieja de atras)
Melhor Atriz: Alma Blanco (La Yuma)
Melhor Ator: Gabino Rodriguez (Perpetuum mobile) e Martin Piroyansky (La vieja de atras)
Melhor Diretor: Nicolas Pereda (Perpetuum mobile)
Prêmio Especial do Júri: La Yuma (Florence Jaugey)
Melhor Filme: Mi Vida Com Carlos (Germán Berger-Hertz)

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A crítica, que estava fazendo beicinho para a seleção de filmes deste ano, terminou o festival em estado de graça após a exibição de Ex-Isto, de Cao Guimarães. É, de fato, sublime.

Imagine uma situação interessante – o que teria acontecido caso René Descartes tivesse vindo ao Brasil com Maurício de Nassau? A hipótese serve de fio condutor a uma viagem que inclui o Amapá, Recife, Brasília. Pouco a pouco, o racionalista Descartes, que acreditava ser a razão um bem partilhado por todos, vê esse dom humano derretido pelo calor, pela cultura do país, por tudo enfim que contradiz a boa e velha lógica europeia.

Descartes é vivido pelo ator João Miguel, num filme que procura, de alguma forma, estabelecer não o contato, mas a fricção entre obras tão díspares como O Discurso do Método, do filósofo francês, e Catatau, o livro-rio de Paulo Leminski.

O resultado é brilhante, feito de ideias bem sacadas e imagens de grande beleza e impacto. O som, e a trilha sonora também são fundamentais para o filme.

Na apresentação, Cao pediu paciência ao espectador, preveniu que não se tratava de um filme narrativo e que as pessoas o acompanhassem com a atitude mental de quem faz uma viagem.

Perfeito. É uma viagem e tanto.

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O último filme da competição latina foi o nicaraguense La Yuma, da diretora Florence Jaugey, que, aprendo, é uma francesa radicada na Nicarágua. Aprendo mais: que este é o primeiro longa-metragem realizado no país em mais de 20 anos, o que explica muita coisa, inclusive a maneira um tanto ingênua como é realizado e interpretado.

Não falta, porém, algum frescor a essa história de uma “menina de ouro” da periferia nicaraguense. Assim como a protagonista do belo filme de Clint Eastwood, também a nossa Yuma quer se transformar em lutadora de boxe. Além das adversárias no ringue, enfrenta uma família cheia de problemas (padrasto alcoólatra e molestador da enteada), os marginais do bairro que, afinal, foram seus amigos de infância e a incompreensão social para com uma boxeadora.

Diferentemente da tragédia contada por Eastwood, a história nicaraguense se encaminha para outro desfecho, muito mais palatável, o que a torna circense – e no bom sentido do termo.

Acabei gostando, como se gosta dos objetos e das pessoas muito simples, ingênuas e que, por isso mesmo, mostram-se capazes de acrescentar alguma coisa às nossas retinas já tão fatigadas, etc.

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Celso Afonso Gay de Castro morreu em 1984 em Porto Alegre em circunstâncias misteriosas, baleado no interior do apartamento de um alemão que, depois, verificou-se ser um ex-oficial nazista. Aparentemente, se tratava de um assalto que não deu certo e Celso e seu comparsa morreram na ação, não se sabe como. O laudo concluiu que Celso se suicidou para não ser preso com a chegada da polícia. Mas um legista acha a hipótese improvável.

O ingrediente: Celso era um ex-militante político, que pegara em armas contra a ditadura militar, saíra do país, vivera muitos anos no exterior, e para cá retornara com a anistia.

O caso rende o belo documentário Diário de uma Busca, dirigido pela filha de Celso, Flávia Castro. Flávia vai, obviamente, em busca da memória do pai. É um filme de reconstrução. De si mesma, em especial.

Mas, ao fazê-lo, traz também de volta a memória de todo um tempo dilacerado, o tempo que lhe coube viver, como filha do guerrilheiro e asilada, pulando de país em país.

Para reconstituir seu drama familiar, e o drama de toda aquela época radical, Flavia entrevista parentes (a própria mãe, Sandra, é um dos personagens principais), policiais, companheiros de luta de Celso e seus colegas no jornal Zero Hora, onde Celso trabalhou na fase final da vida. Não poupa ninguém e muito menos o pai, que terminou desiludido com a política, convivendo com problemas de álcool e drogas.

Uma tragédia brasileira, sem final feliz e com um enigma longe de ser desvendado.

Filme tocante, meu favorito na luta pelo Kikito.

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Contestado – Restos Mortais. Eu, para ser franco, não botava a menor fé neste filme de Sylvio Back. Me diziam que era longo (2h35), com intermináveis depoimentos tipo talking heads, e ainda por cima, falas de médiuns que, supostamente estariam encarnando gente que morreu na guerra, entre 1912 e 1916. É para fugir, não é?

Não é não. A gente não pode ter preconceito. Os depoimentos são contraditórios e polifônicos. Ouve-se historiadores, gente simples, idosos que ouviram falar do conflito. A história é recuperada por fragmentos e, nesses, a lenda se mistura à explicação lógica, fornecida por estudiosos. Os médiuns (que eu não descarto serem atores interpretando um transe mediúnico) dão a esse mosaico uma dramaticidade que de outra forma ele não teria.

Enfim, o filme me tocou e me deixou perplexo com a história. Tem “defeitos”? Aos montes. Mas também muita vivacidade, energia e questões não resolvidas.

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Acabei de ver A Última Estrada da Praia, de Fabiano Souza. Baseado, livremente (e ponha liberdade nisso) na obra O Louco do Cati, de Dyonelio Machado, mostra um casal, um amigo de ambos e um tipo mudo numa viagem à praia. O filme tem vivacidade. Abusa de citações, o que é um cacoete de geração (pós-modernismo, Tarantino, etc.), uma espécie de piscadela de olhos aos amigos de cinefilia.

Tirando essas pequenas tolices, tem momentos muito bons, a começar pela abertura, cheia de impulso vital. Atinge o poético em alguns momentos, naquela desolada solidão das praias sulistas.

Em meio ao cinema que hoje se faz, certinho e sem sal, fico com este, cheio de “erros”, mas também cheio de tesão e vida.

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Mi Vida con Carlos foi o primeiro filme verdadeiramente ovacionado no Festival de Gramado. O documentário mostra a busca de um filho pela memória de um pai “desaparecido” durante a ditadura chilena.

German Berger, o diretor do documentário, é o filho; Carlos, o pai preso, torturado e morto no começo da ditadura.

O corpo nunca foi encontrado.

Mas Germán encontrou um jeito de sobreviver, honrar a memória do pai e emocionar a todos nós.

Os aplausos foram longuíssimos, na fria serra gaúcha.

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No centenário de Chico Xavier, a onda mística chegou a Gramado. Nada menos que quatro filmes se baseiam, explícitamente, no sobrenatural ou em mensagens do além.

O Último Romance de Balzac, de Geraldo Sarno, fala de uma obra supostamente psicografada do escritor francês.

Contestado – Restos Mortais, de Sylvio Back, incorpora (êpa!) depoimentos de médiuns sobre o conflito.

O documentário As Cartas Psicografadas de Chico Xavier mostra a dor de mães que perderam filhos e o consolo que encontram em missivas recebidas do além.

Ninguém Pode Viver sem Amor, de Jorge Durán tem como personagem um menino sensitivo, com o poder de chamar chuva em tempo de seca e de ressuscitar os mortos.

A era da racionalidade passou.

Daqui para a frente é o místico que está com tudo.

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