JOÃO PESSOA
Amigos, estou em João Pessoa, onde participei do 7º Fest Aruanda. Neste festival, a Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) deu seus primeiros prêmios oficiais. Abaixo, seguem os contemplados e as justificativas para os prêmios.
Resultado do primeiro júri Abraccine, no 7º Fest Aruanda, em João Pessoa (PB)
melhor curta-metragem: pela maneira poética como articula na própria forma do filme o seu conteúdo, captando a atmosfera do Brasil profundo, o prêmio Abraccine de melhor curta-metragem vai para Ensolarado, de Ricardo Targino.
melhor longa-metragem: Pelo modo como alia emoção e riqueza do material coletado na reconstrução da trajetória de um ídolo popular, o prêmio Abraccine de melhor longa-metragem vai para Raul, o Início, o Fim e o Meio, de Walter Carvalho.
Votaram os críticos João Batista de Britto (PB), Wills Leal (PB), Renato Félix (PB), Orlando Margarido (SP) e Luiz Zanin (SP).
JOÃO PESSOA
Segue aí abaixo a premição do 6º Fest Aruanda. Foi bem legal. Acompanhei como convidado e participante – estive em duas mesas de discussão: uma sobre a nouvelle vague, outra sobre a crítica cinematográfica. Foram ótimas. Conheci muita gente boa por aqui. Reforcei laços de amizade com os que já conhecia. Ampliei meus horizontes e tive momentos de muita alegria, infelizmente meio raros em minha cidade de origem. Convivi com Linduarte Noronha, cujo filme-manifesto do cinema moderno brasileiro empresta seu nome ao festival. Aruanda, o filme, completa 50 anos em 2010. É fundamental.
A temporada, enfim, foi ótima. Depois do festival, estiquei dois dias no Tambaú, que é um dos mais belos hoteis brasileiros, senão o mais belo. Um requinte de inteligência arquitetônica de Sérgio Bernardes. Quando se compara com a brutalidade da arquitetura atual, fica-se chocado. O hotel é dos anos 70. Em muitos sentidos, o País regrediu. Na arquitetura, isso é óbvio.
Enfim, seguem aí os prêmios.
MOSTRA COMPETITIVA
- MELHOR SOM: 1.21
- MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: Guto Teixeira (O acaso e a borboleta)
- MELHOR FOTOGRAFIA: 1.21
- MELHOR MONTAGEM/EDIÇÃO: É muita areia pro meu caminhãozinho
- MELHOR ROTEIRO: Los Minutos, Las Horas
- MELHOR ATRIZ: Laura De La Uz, Por Los Minutos, Las Horas
- MELHOR ATOR: Gatto Larsen, Por Ensaio De Cinema
- MELHOR DIREÇÃO: Allan Ribeiro, Por Ensaio De Cinema
- PRÊMIO RODRIGO ROCHA DE MELHOR CURTA UNIVERSITÁRIO: Feliz Desaniversário
- TROFÉU NEPPAU MELHOR CURTA PARAIBANO: O Contador de Filmes
- MELHOR DOCUMENTÁRIO PARAIBANO: Menino Artífice
- MELHOR CURTA EXPERIMENTAL: 1.21
- MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO: O Acaso e a Borboleta
- MELHOR DOCUMENTÁRIO: É Muita Areia Pro Meu Caminhãozinho
- MELHOR FICÇÃO: Ensaio de Cinema
- JÚRI POPULAR: Menino Artífice
- JÚRI POPULAR MELHOR CURTA NACIONAL: Eu Não Quero Voltar Sozinho
- JÚRI POPULAR MELHOR LONGA NACIONAL: Uma Noite em 67
- TROFÉU BNB DE MELHOR FILME COM TEMÁTICA NORDESTINA: Vela ao Crucificado
MELHOR PEÇA PUBLICITÁRIA
All Star, da Universidade Mackenzie de São Paulo
- MELHOR INTER PROGRAMA
Nipon, da Universidade Federal da Bahia
- MELHOR REPORTAGEM DE TV UNIVERSITÁRIA
Carreiras, da Universidade Mackenzie de São Paulo
- MELHOR PROGRAMA DE TV UNIVERSITÁRIA
Quarto Mundo Invertido, da Universidade de São Paulo (Usp)
- MELHOR DOCUMENTÁRIO PARA TV UNIVERSITÁRIA: Rainhas, da Tv Usp
- MELHOR REPORTAGEM DE TV UNIVERSITÁRIA: Carreiras, da Universidade Mackenzie de São Paulo
O júri ainda outorgou menções honrosas para Babau Para Todos, da Universidade de Fortaleza (UNIFOR) e Programa Invertido, da Universidade Mackenzie de São Paulo.

Os antigos excluídos se incluíram a si mesmos e triunfaram em Paulínia. 5 x Favela, o coletivo em que moradores de comunidade olham para sua própria realidade, ganhou o prêmio de melhor filme, além vários outros troféus incluindo o do público. Bróder, pungente retrato do Capão Redondo, dirigido pelo cineasta Jeferson De, recebeu três prêmios do júri oficial e mais o troféu da crítica.
O curta-metragem Eu Não Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, que trabalha um tema gay, emplacou a tríplice coroa: melhor filme pelo júri oficial (além de roteiro), prêmio do público e prêmio da crítica. Ao receber um dos troféus, o diretor brincou: “É uma contradição um filme gay levar tantas ‘meninas’ para casa”, alusão ao nome do troféu de Paulínia, Menina de Ouro.
Nos prêmios dados aos documentários, a mesma tendência. O mais premiado, com os troféus de melhor filme e direção, foi Leite e Ferro, de Cláudia Priscilla, um retrato do universo das detentas que amamentam seus bebês na prisão. E Lixo Extraordinário, vencedor do prêmio do público, aborda o cotidiano dos habitantes do lixão carioca Jardim Gramacho sob a ótica do badalado artista plástico Vik Muniz, também ele oriundo da periferia.
Enfim, nunca a perifa, sob suas várias vertentes, esteve tão na fita quanto nesta 3ª edição do Festival de Paulínia. Mas, para provar que não havia preconceitos contra brancos e heteros, e nem contra o riso e a leveza, o júri oficial premiou de maneira consistente a ótima comédia romântica e dramática de Flávio Tambellini, Malu de Bicicleta, que levou as estatuetas de direção, ator (Marcelo Serrado) e atriz (Fernanda de Freitas). O filme é basedo no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva, colunista do Estado, e conta a história de um paquera paulista que, atropelado no sentido físico e metafórico por uma ciclista carioca, transforma-se em apaixonado monstro de ciúmes. Essa versão bem-humorada de Otelo é bem divertida, além de sutil.
Não existia, portanto, nada de explicitamente ideológico na predisposição dos júris. Apenas o desejo de premiar aqueles filmes que lhes parecessem os melhores entre os concorrentes. Coincidiu de encontrar entre eles ótimas amostras de um cinema que, pela primeira vez, tem no excluído não apenas seu tema, mas agora o agente e testemunho de si mesmo.
Quem expressou muito bem essa situação inédita foi o cineasta Jeferson De, que o ator Jonathan Haagensen chamou de “Spike Lee brasileiro”: “A gente começou a década com Cidade de Deus, e os negros que estavam lá, na frente das câmeras, passaram para trás”, disse. Verdade. De protagonistas, como são no filme famoso de Fernando Meirelles, os negros e favelados foram “promovidos” a cineastas e passaram a mostrar a sua realidade sob sua ótica, com sua linguagem e em seus próprios termos. É um movimento que vai além do âmbito cinematográfico e deve ser avaliado no nível da sua repercussão social. Paulínia teve a sensibilidade de flagrar esse momento. Premiá-lo significa dar-lhe destaque e realçá-lo diante do público.
Esse é o sentido maior deste festival que, como todos, teve também seus percalços. Um em especial, a presença na competição de um filme como a comédia Dores & Amores, sem qualquer condição de figurar na mostra oficial de um festival nível A. Foi um vacilo da curadoria. Que precisa ficar esperta, pois sempre existe quem se prontifique a fazer generalizações e condenar o festival em seu todo a partir de um único passo em falso. O projeto de Paulínia é muito sério e não pode abrir flancos para a ação do jornalismo marrom. Por sorte, o júri corrigiu esse tropeço principal, e outros menores, e simplesmente limou da premiação os concorrentes mais toscos. Preferiu concentrar prêmios nos filmes que realmente valiam a pena.
O resultado, em si, foi correto, sem ser brilhante. Por exemplo: Bróder e 5 x Favela são obras muito equivalentes, tanto do ponto de vista da qualidade como da proposta. Poderiam ser equilibradas, por exemplo com um prêmio de direção a Jeferson De. Tivesse agido dessa forma, o júri explicitaria melhor uma tendência subjacente ao festival. O retrato ficaria mais nítido.
Algo semelhante pode ser dito sobre os documentários. Leite e Ferro é ok, um bonito filme, talvez um pouco refém a mais do encanto das personagens para se tornar consistente de verdade. Talvez não seja tão superior assim a Uma Noite em 67 ou a Programa Casé, ambos baseados em rica pesquisa de material histórico e de muito diálogo com o público. Ou mesmo São Paulo Companhia de Dança, um estudo empenhado sobre o corpo humano, a música e a dança. Os três foram solenemente ignorados.
Mesma objeção para a premiação de curtas-metragens. É compreensível que Eu não Quero Voltar Sozinho tenha caído no gosto do júri oficial, do público e de parte significativa da crítica. Tem qualidades para isso. A sofisticada animação Tempestade foi premiada com o troféu de direção para César Cabral, o que lhe caiu bem. Mas um filme tão sensível e belo como o mineiro Ensolarado, de Ricardo Targino, foi ignorado. Está na seleção oficial de Locarno, onde talvez tenha melhor sorte que em seu próprio país.
No todo, fica a lembrança de um belo festival que, ao mesclar mesclar obras autorais a outras de maior diálogo com o público, acabou por detectar uma tendência importante da cultura brasileira: a autonomia audiovisual de camadas antes excluídas. Revelar e premiar essa vertente em seu nascedouro é, de fato, o que importa. O resto é frivolidade.
(Caderno 2, 24/7/10)
Quem foi embora de Paulínia antes do final perdeu uma emocionante sessão, a última dos filmes concorrentes. O documentário Lixo Extraordinário teve acolhida calorosa por parte do público, e o mesmo aconteceu com o longa de ficção Bróder. Festivais precisam ser vistos do começo até o fim, antes de serem julgados, de maneira sumária. O resto é irresponsabilidade. Mas, vamos aos filmes.
Bróder, de Jeferson De, ambienta sua história na dura realidade do Capão Redondo. Três amigos de infância, Jaiminho (Jonathan Haagensen), Pibe (Silvio Guindane) e Macu (Caio Blat), vivem de maneira diferente: Jaiminho é um jogador de sucesso, que atua na Espanha e espera ser convocado para a seleção brasileira; Pibe formou-se em direito e tenta iniciar a carreira a duras penas; Macu está enterrado até o pescoço no mundo do crime.
Sem qualquer paternalismo, mas também sem atenuar conflitos, Jeferson De formula um retrato complexo da periferia paulistana. A violência está lá, mas sem o banho de sangue associado ao favela movie. A esperança também está, mas não à maneira um tanto piegas dos filmes-ONG. Há a pulsão da perifa, que encanta e também assusta, mas ela não é filtrada pelo olhar branquinho e de classe média que tende a ser preconceituoso e moralista. Há, no filme, a sinceridade de quem de fato mergulhou naquele mundo e procurou entendê-lo. Sem preconceitos. Com ternura e também com rigor. Gol de placa, Jeferson.
Posso estar enganado, mas acho que Bróder é sério candidato a vencer o festival.

Com o documentário Programa Casé e a ficção Malu de Bicicleta, o Festival de Paulínia teve uma boa sessão na noite de terça-feira. O primeiro resgata a figura de Ademar Casé, pioneiro do rádio e do show biz no Brasil. O segundo é uma divertida comédia romântica, que fala de relacionamentos amorosos com graça e sensibilidade, com roteiro baseado no romance homônimo de Marcelo Rubens Paiva. Luiz (Marcelo Serrado) é um empresário mulherengo até ser atropelado (no sentido literal e no metafórico) por uma bela ciclista, a tal Malu (Fernanda de Freitas). A partir de então, passa a ser consumido pelo ciúme. Bons diálogos, elenco afiado, humor sutil – eis aí os elementos que tornam muito agradável ver este filme de Flávio Tambellini.
Casé – você conhece esse nome através da atriz epresentadora Regina Casé, da TV Globo. Ela é neta de Ademar Casé e mulher do diretor do filme, Estevão Ciavatta. Esteve em Paulínia para debater o filme, mesmo porque participa dele falando do avô. E quem foi esse avô da Regina? Um homem pobre, porém cheio de energia, que nasceu no interior de Pernambuco, passou fome no Recife e resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro. Acabou por se aproximar de um meio de comunicação nascente, o rádio, que iria ter profunda importância na formação da cultura popular brasileira, da música em particular. Pelo Programa Casé passaram nomes como Dorival Caymmi, Noel Rosa e Carmem Miranda. Casé também veiculou os primeiro jingles e ganhou muito dinheiro. Quando, em 1950, a TV surgiu no país, Casé passou-se para o novo veículo. Foi um pioneiro.
Regina guarda boas lembranças do avô: “Ele era muito terno, embora um homem autoritário, alguém que veio de baixo e se tornou rico; ele valorizava muito isso”, disse, em conversa com o Estado. Regina conta que, na época em que o avô era vivo, ela ainda não havia estourado na Rede Globo e era apenas a atriz do grupo Asdrubal Trouxe o Trombone. “E isso dá dinheiro?”, o avô lhe perguntava, em tom crítico. Era um empresário, um self made man brasileiro e acreditava no sucesso. Não tinha nenhum pudor em mostrar o sucesso que havia conseguido. Quando se tornou um empresário de êxito, voltou pela primeira vez à sua terra natal, Belo Jardim, e mandou embarcar o seu automóvel, um Packard último tipo, para passear seu sucesso diante dos conterrâneos. Parecia-lhe natural mostrar os signos exteriores de quem havia vencido na vida.
O importante é que, pela trajetória de Casé, passa todo um período vital da música e da cultura do País, ilustrada por imagens de época, garimpadas por Ciavatta. Há imagens em movimento de Ademar Casé, mas que são só apresentadas depois de uma meia hora de filme. “Queria sugerir que estava tratando de alguém cuja cara ninguém conhecia; mas, depois, mostramos as imagens domésticas de Casé, captadas por uma câmera que ele mesmo havia comprado para a família”. Um belo documentário, esclarecedor e amoroso.
(Caderno 2, 22/7/10)
Os debates têm fluído normalmente aqui no festival. A exceção foi o de ontem, sobre o filme Dores & Amores, de Ricardo Pinto e Silva. O diretor revoltou-se contra o tom que considerou “inquisitorial” dos jornalistas e o bate-boca redundou num animado Fla-Flu entre críticos, o pessoal da mesa (diretor e atores) e algumas poucas pessoas da plateia que juraram ter curtido o filme. Depois revelou-se que eram amigos ou faziam parte da família do diretor, mas isso pouco importa. O que interessa, a meu ver, é a dificuldade, sempre renovada, de aceitarmos o debate crítico sem por isso nos encaminharmos para uma espécie de pugilato intelectual. Da polêmica pode nascer a luz. Ou apenas calor, dependendo do ânimo dos oponentes. Todo mundo gosta de ser elogiado. Mas as obras (filmes, livros, etc) que se tornam públicas estão sujeitas à crítica. É só isso.
Desenrola, de Rosane Svartman, entra no filão do filme sobre adolescentes, que já conta com alguns bons títulos recentes como Antes que o Mundo Acabe, de Anna Luiza Azevedo, Os Famosos e os Duendes da Morte, de Esmir Filho, e As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzky. Desenrola não destoa desse bom conjunto, embora aposte mais na vertente “filme de praia, aventuras de verão”, tipicamente carioca. Visto por esse ângulo, funciona, e até que bem. Tem clima e graça.
A história é da garota Priscila (Olivia Torres), de 16 anos, que quer ter a primeira transa e escolhe o surfista gostosão da praia. Mas quem está a fim dela é um tipo meio desajeitado e gordinho, o Boca, também virgem. O filme é engraçado, despretensioso e leve. Não dramatiza as situações às vezes angustiantes do despertar da sexualidade adulta.
É, enfim, superficial o bastante para pleitear um espaço no circuito e interessante o suficiente para participar de um festival de cinema como o de Paulínia. É agradável como um picolé de limão.
Na competição entre documentários, Paulínia tem mostrado concorrentes interessantes. Leite e Ferro, de Claudia Priscilla, é um sensível retrato das presidiárias que têm filhos pequenos e amamentam na prisão. Um tanto refém das suas personagens, Claudia poderia ter ido mais fundo em histórias de vida no mínimo contraditórias. São Paulo Companhia de Danças, de Evaldo Mocarzel, faz um estudo composto só de imagens e sons, um belo retrato dessa arte em que o corpo é o próprio instrumento e a obra.
Já As Cartas Psicografadas de Chico Xavier entra no filão aberto pelo centenário do médium de Uberaba. Trabalha com a dor humana – mães que perderam seus filhos e foram a Chico Xavier para tentar entrar em contato com eles. A leitura das cartas, supostamente psicografadas, torna o filme uma experiência repetitiva. Fica o respeito por pessoas que só encontraram algum conforto na convicção de que a morte não é o fim de tudo. Essa atenção pode ser a base para a piedade, mas não é suficiente para o bom cinema.
(Caderno 2, 20/7/10)
Com a exibição especial de O Beijo da Mulher Aranha, de Hector Babenco, começa nesta quinta, 15, a nova edição do Festival de Cinema de Paulínia, cidade situada na região de Campinas, a cerca de 100 km da Capital. Há vários motivos e datas redondas para esta homenagem a Babenco. O Beijo da Mulher Aranha faz 25 anos. Rendeu ao ator William Hurt um prêmio de interpretação masculina no Festival de Cannes e foi o único filme latino-americano selecionado para a seção Cannes Classics 2010, evento do festival francês deste ano. Além disso, completam-se agora, dia 22, 20 anos da morte de Manuel Puig, autor do romance original, argentino de nascimento, como Hector Babenco.
A cerimônia de abertura acontece no Teatro Municipal de Paulínia, aquela incrível casa de espetáculos pousada, como uma nave espacial, logo na entrada dessa cidade de pouco mais de 70 mil habitantes, porém muito bem dotada de recursos econômicos. O teatro é uma joia. O festival, que chega à terceira edição, é outra. No congestionado calendário dos festivais de cinema no brasileiro, encontrou de pronto um lugar de destaque.
Prova disso é a seleção de filmes que apresenta para este ano. Das seis obras de ficção concorrentes, apenas 5 x Favela – Agora por Nós Mesmos, não é completamente inédita. Passou no Festival de Cannes. O resto é matéria-prima desconhecida. Quase a mesma situação para os seis documentários da mostra competitiva: apenas Uma Noite em 67 já foi visto pelo público paulistano, na abertura do Festival É Tudo Verdade, dedicado ao gênero documental.
Além desses longas em competição, Paulínia apresenta também seu concurso de curtas-metragens, com sete concorrentes nacionais e mais seis regionais. Nas mostras paralelas, alguns títulos recentes, como É Proibido Fumar e Salve Geral, ao lado de dois filmes que dão seguimento à homenagem a Hector Babenco – Pixote in Memorian, de Felipe Briso e Gilberto Topczewski, e Coração Iluminado, do próprio Babenco.
O festival, como todos os eventos do gênero, comporta ainda oficinas, debates, e mesas-redondas em sua programação. Os filmes serão debatidos com o público na manhã seguinte à exibição. Paulínia também será sede de um encontro nacional de críticos de cinema, que será realizado no sábado, dia 17.
Mas as atenções se concentram mesmo é na seleção de filmes em competição. Nesse aspecto, há o lado artístico e o lado comercial da coisa. Esses concorrentes disputam a nada negligenciável soma de R$ 650 mil em prêmios, o que faz de Paulínia um atrativo e tanto para diretores e produtores. O melhor longa-metragem de ficção leva R$ 150 mil. Já o melhor documentário fica com R$ 50 mil. Há prêmios em dinheiro para atores, atrizes, direção, fotografia, montagem e outras categorias.
O lado artístico, filtrado pela boa curadoria do diretor do festival, Ivan Melo e do crítico Rubens Ewald Filho, aponta para uma tendência já desenhada em edições anteriores – a diversidade. Paulínia tem uma filosofia de trabalho própria. Não se limita a filmes de maior empenho artístico e tampouco se fecha a eles. Também não discrimina obras de apelo mais popular, que busquem o diálogo com o público. Qual será o nível desses selecionados. Não se pode falar sobre filmes que não se viu, mas, a julgar pelo perfil dos diretores, esse padrão misto não será alterado.
O festival vai até dia 22, quando se encerra com a distribuição dos prêmios, precedida pela exibição, fora de concurso, de outro inédito, 400contra1 – Uma História do Crime Organizado, de Caco Souza.
(Caderno 2, 15/7/10)
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