A coordenação do Festival de Brasilia (17 a 24 de setembro) anunciou mudanças para este ano.
Haverá duas mostras competitivas, de longas de ficção e longas documentais, com seis filmes cada uma e premiação própria.
Também os curtas serão separados em documentais e de ficção. Seis cada mostra e mais seis de animação.
Total: 12 longas-metragens e 18 curtas. E mais a Mostra Brasília, com a produção local.
Saiu o coordenador do festival, Nilson Rodrigues, que fez a edição passada e, em seu lugar, entrou Sergio Fidalgo. A assessora de cinema da Fundação Cultural é a cineasta Cibele Amaral.
O festival sai do Cine Brasília (em obras) e vai para o Teatro Nacional, onde antes só havia a sessão de abertura. Agora todas as sessões serão nesse teatro, de arquitetura linda e poltronas torturantes, cujo conforto rivaliza com o das poltronas de avião da classe econômica.
As “novidades”, no fundo, são retrocessos. Uma espécie de progresso para trás. Num tempo em que quase não se discute mais a diferença entre ficções e documentários, o festival separa as mostras, como se as fronteiras fossem evidentes.
E há a questão da overdose. Brasília se caracterizou, nos últimos anos, por ser uma mostra enxuta, com poucos filmes, que eram fruídos, decantados e debatidos com todo o rigor. Era o seu diferencial. Com as maratonas, isso vai se perder.
Continua abolido também o critério de ineditismo, outro ex-diferencial de Brasília, o que enfraquece o festival, ao contrário do que pensa o secretário de cultura do DF, o sr. Hamilton Pereira. Ninguém liga para filme velho. Por isso, e não por outro motivo, os festivais primeira linha de todo o mundo insistem no ineditismo. Veja lá se Cannes, Berlim e Veneza aceitam filmes já vistos, discutidos e criticados. De jeito nenhum. Brasília pensava grande e voltou a pensar pequeno.
Os prêmios em dinheiro continuam vultosos. Com o fim de Paulínia, festival liquidado pelo oportunismo político, voltam a ser os maiores do País. Como os filmes não precisam mais ser inéditos (basta que o sejam no DF), os cineastas estão esfregando as mãos de contentamento. Bom para eles.
Pior para o festival, que já foi o mais importante do País e está fazendo de tudo para deixar de ser, já faz alguns anos.
Vai acabar conseguindo.
“No Brasil proliferam festivais de cinema que projetam filmes para mil , duas mil pessoas, no máximo, e depois num acontece mais nada. Premiado ou não, o filme vai para uma prateleira a espera de um lançamento. Repercursão modesta que não ajuda, em nada, o lançamento comercial dos filmes. Bem diferente de Cannes, Berlim ou Veneza aonde o filme acontece internacionalmente.
Não é a toa que os distribuidores e grandes autores tem horror a festivais onde um grande filme pode ser canibalizado em detrimento de uma obra mais modesta que caia no agrado do jurí, da crítica ou do público, não necessáriamente dos tres juntos, E assim grandes autores e ótimos filmes passam ao largo dos festivais. Como estudioso do cinema brasileiro reflita porque os grandes lançamentos passam ao largo dos festivais, aqui. “Tropa de Elite”, “Central do Brasil” se legitimaram em Berlim
Considero que o fim desse ineditismo absolutamente desnecessário devolverá vida e glamour aos festivais, E poderão devolver o brilho aos filmes,muitas vezes vezes ofuscados por questões pessoais ou paroquiais. Essa renovação do espírito dos festivais começa por Brasília.
Só isso, visão de autor, produtor e distribuidor participante de muitos festivais e com alguma experiência no ramo.
Abraços
Silvio Tendler”
Mais um festival se foi. Estou no aeroporto em Brasília esperando voo para Sampa. Penso nos dias passados. O resíduo deles ainda precisa decantar. As primeiras impressões são contraditórias. Alguns filmes bons, outros meia boca, o que é normal. Tem uma coisa chata, que é o cara vazio e pretensioso e se acha melhor que os demais. A minha impressão é que essa atitude mental se reflete no cinema da pessoa. Sei lá. Patifes ainda podem fazer boa arte; tenho minhas dúvidas quanto aos idiotas.
Chata também foi a confusão causada pelo vazamento da premiação pelo UOL. A internet reforçou esse vício jornalístico infantil de “dar a notícia antes, a qualquer preço”. Há poucos anos, o furo era de um dia. Agora é de minutos, segundos. Um portal dá a matéria cinco minutos antes do outro e se acha o máximo, candidato a um desses inócuos prêmios de jornalismo.
Claro, já posso ouvir coleguinhas defendendo: informar o público o mais rápido possível é o nosso dever etc. Verdade. Em se tratando de um acidente, uma queda de presidente, uma epidemia, quanto mais pressa melhor. Mas, uma premiação de cinema? No que muda saber agora ou meia hora depois? O que altera na ordem do universo? Acho tolo, tolo, uma infantilidade mesmo.
E há o caso do embargo quebrado. Isso não se faz. Prejudica todo mundo, a começar pelo próprio festival que teve a sua festa de encerramento arruinada, esvaziada, ridicularizada. Quem ganhou com isso? O público é que não foi. Tanto não foi que as pessoas vaiaram, muitas foram embora se sentindo traídas. Ninguém vai a uma premiação se souber o resultado de antemão.
Algum idiota, neste momento, deve estar se achando o máximo, e que deu uma grande tacada ao quebrar o embargo. Acha que deu um furo, quando foi apenas traíra. Talvez um dia esse tipo de “jornalismo” entre em decadência. Mas confesso que não tenho muita esperança nisso.
Enquanto isso, convém desconfiar desses caras. Um embargo é um acordo de cavalheiros. Mas esse tipo de acordo só funciona quando existem cavalheiros dos dois lados.
Deu o que se esperava, e o favorito O Céu sobre os Ombros, do mineiro Sérgio Borges, venceu o Festival de Brasília. Abaixo, a lista completa dos ganhadores.
Longa-metragem em 35mm
Melhor filme – “O Céu Sobre os Ombros”, de Sérgio Borges
Prêmio Especial do Júri – Aos personagens/atores do filme “O Céu Sobre os Ombros”
Melhor direção – Sérgio Borges, por “O Céu Sobre os Ombros”
Melhor ator – Fernando Bezerra, de “Transeunte”
Melhor atriz – Melissa Dullius , de “Os Residentes”
Melhor ator coadjuvante – Rikle Miranda , de “A Alegria”
Melhor atriz coadjuvante – Simone Sales De Alcântara, de “Os Residentes”
Melhor roteiro – Manuela Dias e Sérgio Borges por “Céu Sobre os Ombros”
Melhor fotografia – Aluizio Raulino, por “Os Residentes”
Melhor direção de arte – Gustavo Bragança, de “A Alegria”
Melhor trilha sonora – Andre Wakko, Juan Rojo, David Lanskylansky e Vanessa Michellis por “Os Residentes”
Melhor som – Som Direto, Edicão de Som e Mixagem de “Transeunte”
Melhor montagem – Ricardo Pretti, de “Céu Sobre os Ombros”
Curta ou média-metragem em 35mm
Melhor filme – “Acercadana”, de Felipe Peres Calheiros
Prêmio especial do júri: “Braxília”, de Danyella Proença
Melhor direção – Gabriel Martins e Maurilio Martins, de “Contagem”
Melhor ator – Vinny Azar e Ícaro Teixeira, por “A Mula Teimosa e o Controle Remoto”
Melhor atriz – Dira Paes, de “Matinta”
Melhor roteiro – Danyella Proença, de “Braxília”
Melhor fotografia – Yuri Cesar, de “Cachoeira”
Melhor direção de arte – Maíra Mesquita, de “Fábula das Três Avôs”
Melhor trilha sonora – Puriki e índios do alto rio negro, de “Cachoeira”
Melhor som – Som Direto, Edicão de Som e Mixagem de “Matinta”
Melhor montagem – Paulo Sano de “Acercadana”
Curta-Metragem Digital
Melhor Filme – “Traz Outro Amigo Também”, de Frederico Cabral
Melhor Direção – Pablo Lobato, pelo filme “Queda”
Melhor Ator – Emanuel Aragão, por “Só Mais um Filme de Amor”
Melhor atriz – Ketellen Coutinho, por “Tempo de Criança”
Melhor Roteiro – Samir Machado de Machado, por “Traz outros Amigo Também”
Melhor Fotografia – Carol Matias e Elias Guerra, por “Entrevãos”
Melhor Direção De Arte – Daniel Banda, por “O Filho do Vizinho”
Melhor Trilha Sonora – Lucas Marcier, por “Tempo de Criança”
Melhor Som – O Grivo, por “Queda”
Melhor Montagem – Alberto Feoli, por “Traz Outro Amigo Também”
Os nomes dos contemplados saberemos hoje à noite quando forem distribuídos os Candangos, os troféus do Festival de Brasília, depois da exibição hors concours de Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra, em cópia restaurada. Quem vence? Difícil dizer.
Com o que foi apresentado até agora, os principais prêmios, entre os longas, podem se dividir entre Transeunte, de Eryk Rocha, e O Céu sobre os Ombros, de Sérgio Borges. Este último é um bom palpite para vencedor do festival. Agradou muito a uma parcela do júri.
Outro palpite, este para ator: além dos intérpretes de Amor?, Fernando Bezerra, que interpreta o aposentado em Transeunte, é favoritíssimo. Transeunte, além da direção de Rocha, tem na fotografia, de Miguel Vassy, outro ponto forte. Aliás, vários trabalhos mostraram fotografias inspiradas. Até mesmo o pretensioso e equivocado Os Residentes, apresenta um trabalho fotográfico dos mais interessantes, assinado pelo veterano Aloysio Raulino.
Entre os curtas, os melhores são A Mula Teimosa, Acercadacana e Angeli 24 Horas.
As histórias humanas de O Céu sobre os Ombros são tão incríveis que parecem inventadas por um roteirista de imaginação fértil. Uma delas é sobre uma transsexual, formada em psicologia, professora universitária e prostituta. Outra, mostra um adepto da seita Hare-Krishna, que também é líder da Galoucura, a fanática torcida organizada do Atlético Mineiro, cozinheiro de restaurante natural e atendente de telemarketing. A terceira é a de um angolano com veleidades literárias, escritor inédito, que nunca trabalhou em sua existência e pai de um filho deficiente.
Seres extraordinários, não porque tenham feito algo de tão grandioso assim, mas porque mantêm uma posição excêntrica em relação à norma e inserem-se no mundo social de maneira muito particular. O diretor, que integra a produtora mineira Teia, fez teste com uma série de possíveis personagens e escolheu aqueles que tivessem melhores histórias e também se relacionassem bem com a câmera. No filme, interpretam-se a si mesmos. E com muita convicção.
Desse modo, a transsexual Evelyn, o hare krishna Bogus e o escritor angolano Lwei Bakongo veem-se através dos papéis que vivem na tela. Este filme é um documentário sobre três pessoas um tanto fora do esquadro? Uma ficção sobre o lado B da sociedade? Sim, mas, mais provavelmente, desenvolve um processo que se pode chamar de autoficção, no qual as pessoas interpretam seus papéis sociais, não exatamente como eles são, mas como os percebem diante dessa testemunha nada imparcial que é o olho mágico da câmera cinematográfica.
Nesse retrato formado por autorretratos, existem muitos espaços em branco, vácuos que permitem a respiração das histórias. O bom cinema, como a boa música, é feito de lacunas, de pausas e tempos mortos. Essa noção de ritmo (porque é de ritmo que se trata) encorpa O Céu sobre os Ombros. É exatamente por não sabermos tudo sobre os personagens que eles adquirem espessura e consistência humanas.
Em patamar distinto trafega outro concorrente entre os longas-metragens, o também mineiro Os Residentes, de Tiago Mata Machado. Em registro sub-godardiano, costurado por uma infinidade de referências cinematográficas (Cassavetes, Eustache, etc.), o filme, com seu artificialismo, levou a platéia do Cine Brasília a tal exasperação, que, no meio da projeção alguém gritou: “Volta, Bressane”. A súplica se endereçava a outra das referências de Os Residentes, o cineasta Julio Bressane, o “sr. Brasília”, pois já venceu quatro vezes o prêmio principal. Bressane é conhecido por seus filmes tão obrigatórios como difíceis. Às vezes é complicado assimilá-los, mas a recompensa é grande. De Os Residentes e seus personagens ilustrativos de teses do diretor, sobra apenas a sensação de vazio.
A mostra de curtas-metragens continua a apresentar filmes interessantes, embora até agora nenhum pareça excepcional. Uma boa surpresa foi Acercadacana, de Felipe Calheiros (PE), sobre a extinção das pequenas propriedades na Zona da Mata de Pernambuco sob a ação das grandes usinas de cana de açúcar, produtoras de álcool.
O filme mostra como os pequenos proprietários foram sendo “convidados”, por meios nada civilizados, a deixar lotes de terras ocupados por suas famílias há várias gerações. Ouve personagens, a principal sendo Dona Maria Francisca, sertaneja disposta, que defende sua gleba de meio hectare como uma leoa. O mérito do filme não é apenas focar uma situação de injustiça, mas explicitar relações de poder presentes no conflito de forças desiguais. É filme político. Feito por jovem, o que significa que nem tudo está perdido.
Braxília, de Danyella Proença (DF), traz um personagem incrível da cidade – o poeta e agitador cultural Nicolas Behr. Com seus longos cabelos contraculturais, Behr veio de Cuiabá para Brasília nos anos 70 e mantém com a cidade um caso intenso de amor crítico. Acha que Brasília é uma utopia traída e toda vez que ela respira segundo sua inspiração original torna-se “Braxília”, um não-lugar feliz. Sua vocação melhor é a intervenção poética e o filme traduz graficamente essa disposição de espírito.
O outro filme da cidade, Falta de Ar, de Érico Monnerat, prefere voltar ao tempo da ditadura militar. Faz um paralelo entre um personagem que agoniza por problemas respiratórios e presos políticos torturados com a técnica do afogamento.
Matinta, de Fernando Segtowick, é o primeiro curta-metragem paraense a concorrer em Brasília e vem todo impregnado de espírito amazônico. Filmado na floresta, traz a lenda da Matinta-Perê (Matita, segundo outra variante), ser imaginário que pode adotar diversas formas ao atacar as pessoas. No elenco, a paraense Dira Paes, atriz global e musa do cinema independente brasileiro. O filme agrada pela singeleza de sua realização.
Muito se falou sobre reforma agrária no debate de Acercadacana. Mas veio à tona também a depredação das cidades brasileiras pela especulação imobiliária. Durante o debate, o diretor Felipe Calheiros falou de um interessante projeto coletivo que está sendo levado no Recife, uma das cidades-vítimas da predação. O projeto foi batizado de Torres Gêmeas e consiste no seguinte: artistas conhecidos e anônimos são convidados a enviar para o site www.projetotorresgemeas.wordpress.com imagens e vídeos mostrando intervenções imobiliárias desastrosas para a cidade. O material será editado e transformado em filme, sem que o montador saiba quem são os autores das imagens. O título vem da dupla de arranha-céus construída no bairro de São José, emblema da filosofia de expansão imobiliária adotada pela cidade.
Brasília continua seguindo uma chata tradição dos festivais: equipes enormes sobem ao palco para apresentar seus filmes, fala-se demais e abusa-se da paciência do público. Mas o recorde de falatório aconteceu com uma equipe reduzida, a do curta Acercadacana, de Felipe Calheiros. A personagem do filme, a agricultora Maria Francisca, que vê seu sítio ameaçado por uma usina de cana, transformou o palco do Cine Brasília em palanque. Ela tem toda razão em suas denúncias. Mas falou tanto e tanto que quase levou o público ao desespero.
Hollywood no Cerrado, dos professores da UnB Armando Bulcão e Tania Montoro, pode ser considerado o filme mais encrencado dos últimos tempos no Distrito Federal. Anunciado na programação do ano passado, não foi exibido. Neste ano, a mesma coisa. Estava programado para o Cine Brasília, mas será lançado apenas em DVD pois a cópia não ficou pronta. O tema é dos mais interessantes: atrizes de Hollywood que compraram fazendas em Goiás, nos anos 40 e 50, nas quais vieram residir na aposentadoria.
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