Em conversa com jornalistas, no último dia do festival, o coordenador do evento, Sérgio Fidalgo, reiterou o que já havia dito ao Estado dias atrás: tudo está em aberto para o próximo ano e o formato apresentado em 2012 pode ser modificado.
Tomara seja assim, pois, apesar da boa qualidade de alguns filmes, os problemas da fórmula adotada por Brasília ficaram visíveis. Primeiro, não se justifica a divisão rígida entre documentários e ficção numa época em que muitas obras são limítrofes entre gêneros. O caso simbólico aconteceu com Esse Amor que nos Consome que, na dúvida, inscreveu-se nas duas categorias. Foi selecionado como ficção, como poderia ter sido como documentário. Vários outros filmes estão no mesmo caso.
A divisão, parece, foi feita apenas para inchar o festival e atender às reivindicações de classe dos realizadores. Dessa maneira, segmentou-se entre ficção, documentários e animações (estes apenas como curtas). Houve prêmios para todos os lados e gostos. Na noite de encerramento, distribuíram-se nada menos que 70 troféus. Cada um recebido com o inevitável discurso de agradecimento. Imaginem o tédio da cerimônia. E houve quem sugerisse o televisionamento do evento. Quem veria tal espetáculo?
Com o inchaço de filmes e categorias, as obras deixaram de ser discutidas como se deve – característica mais marcante na tradição de um festival reflexivo e político como o de Brasília. Urge voltar à sua inspiração inicial.
A conclusão é de que falta curadoria ao evento. Um grupo de pessoas qualificadas, capaz de pensá-lo estrategicamente e em nome do seu único fim legítimo, a apresentação de uma amostragem de filmes que retrate tendências e sua discussão em profundidade. O festival está sem rumo e à mercê de grupos de pressão.
Marcelo Gomes, diretor de Era uma Vez Eu, Verônica
BRASÍLIA – Um festival com maioria de competidores pernambucanos só poderia dar mesmo um pernambucano como vencedor. O que ninguém esperava é que os ganhadores fossem dois, já que o júri, indeciso, resolveu dividir o prêmio principal entre Era uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes, e Eles Voltam, de Marcelo Lordello.
Mas os jurados, além da façanha de enfraquecer o prêmio principal, dividindo-o, ainda conseguiram promover a maior injustiça em festivais dos últimos tempos ao ignorar a interpretação de Hermila Guedes em Era uma Vez Eu, Verônica. Deram o prêmio de atriz à menina estreante Maria Luiza Tavares, de Eles Voltam, que, claro, tem qualidades, mas é ainda apenas uma garota promissora. Uma “esperança” para o futuro, como se diz na Europa. Hermila é atriz completa, e nunca esteve tão entregue a um papel como neste trabalho. Uma pena.
De qualquer forma, Era uma Vez Eu, Verônica ficou com o Candango de melhor filme, e os de ator coadjuvante (W.J. Solha), roteiro (Marcelo Gomes), fotografia (Mauro Pinheiro Jr.), trilha sonora (Tomas Alves Souza e Karina Buhr), além do prêmio do público. Premiação importante para um trabalho visceral, que contempla o mal-estar da juventude do Recife, mas o tempera com as forças da vida e do sexo. A própria cidade é vista sob ângulo múltiplo, palco da destruição causada pela especulação imobiliária, e também local da alegria, do carnaval e do frevo. A realidade tem muitas faces, parece nos relembrar esse belo filme. Ao receber seu prêmio, o diretor Marcelo Gomes o dedicou a Hermila, em evidente desagravo à sua atriz.
Coube a Eles Voltam, além da sua metade do Candango principal, o já citado de atriz (Maria Luiza Tavares), e os de atriz coadjuvante (Elayne Moura) e prêmio da crítica. Emocionado, o diretor Marcelo Lordello lembrou que Elayne mora num assentamento de sem terras. “A reforma agrária para valer é uma necessidade no nosso país”, disse. O filme tem essa virtude de colocar em contato personagens oriundos de classes diferentes, sem qualquer panfletarismo, de uma maneira poética muito tocante.
O estiloso e algo vazio Boa Sorte, meu Amor ficou com um inacreditável troféu de direção (Daniel Aragão), som, e a bizarra menção especial do júri ao ator veterano Carlos Mossy, que faz uma ponta inexpressiva no filme.
Esse Amor que nos Consome, de Allan Ribeiro, ficou com direção de arte (Gatto Larsen e Rubens Bardot), montagem (Ricardo Pretti). Trabalho interessante sobre um grupo de dança carioca, seus bastidores, seu processo de criação. Coube a Noites de Reis, de Vinícius Reis, o prêmio de ator, para Enrique Diaz.
A premiação de documentários também não se fez sem polêmica. O vencedor, Otto, de Cao Guimarães, foi vaiado pela plateia ao anúncio do prêmio. “É belo, porém narcísico”, era a acusação mais frequente ao filme, que acompanha a gravidez da mulher do diretor, Flor, e o nascimento do filho que dá nome ao documentário. Além de melhor filme, Otto levou os troféus de fotografia, trilha sonora, som. É uma bela peça cinematográfica, diga-se o que se disser.
Em seguida, veio o também muito bom Elena, com os troféus de direção (Petra Costa), direção de arte e montagem. Nesse trabalho corajoso, a diretora refaz a história de sua irmã, Elena, atriz que tenta fazer carreira no cinema dos Estados Unidos, fracassa e se mata em Nova York. Quando Elena morreu, Petra era apenas uma garota. A família tinha o hábito de se filmar, portanto ela dispunha de bom material em estado bruto para começar. Para enfrentar o tema complicado, dá a ele o ar de uma ficção em primeira pessoa, num intimismo doído que comoveu muita gente em Brasília.
Entre os curtas, venceu Vestido de Laerte, de Claudia Priscilla e Pedro Marques, tendo o cartunista Laerte, praticante do crossdressing, como personagem de estranha ficção. O ótimo A Mão que Afaga ganhou os prêmios de atriz, roteiro, montagem e também o troféu da crítica. Em mostra fraca, o prêmio de melhor animação ficou para Valquíria, de Luiz Henrique Marques.
Em decisão dividida (o que sempre enfraquece o festival) o júri decidiu rachar ao meio o candango principal e premiar Eles Voltam, de Marcelo Lordello, e Era uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes. Mas o maior absurdo do júri foi não ter premiado Hermila Guedes como melhor atriz. É uma omissão que ficará marcada na história do festival. Abaixo, a premiação completa. Meio troncha, para falar a verdade. Uma premiação bastante imprecisa, com pouca consistência interna.
45º FESTIVAL DE BRASÍLIA DO CINEMA BRASILEIRO
Prêmios
PRÊMIOS DO JÚRI OFICIAL
LONGA-METRAGEM DE FICÇÃO
Melhor filme – R$ 250 mil
“Eles voltam”, de Marcelo Lordello e “Era uma vez eu, Verônica”, de Marcelo Gomes
Melhor direção – R$ 20 mil
Daniel Aragão (Boa sorte, meu amor)
Melhor ator – R$ 5 mil
Enrique Diaz (Noites de Reis)
Melhor atriz – R$ 5 mil
Maria Luiza Tavares (Eles voltam)
Melhor ator coadjuvante – R$ 3 mil
W. J. Solha (Era uma vez eu, Verônica)
Melhor atriz coadjuvante – R$ 3 mil
Elayne Moura (Eles voltam)
Melhor roteiro – R$ 5 mil
Marcelo Gomes (Era uma vez eu, Verônica)
Melhor fotografia – R$ 5 mil
Mauro Pinheiro Jr. (Era uma vez eu, Verônica)
Melhor direção de arte – R$ 5 mil
Gatto Larsen e Rubens Bardot (Esse amor que nos consome)
Melhor trilha sonora – R$ 5 mil
Karina Buhr e Tomaz Alves Souza (Era uma vez eu, Verônica)
Melhor som – R$ 5 mil
Guga S. Rocha, Phelipe Cabeça, Pablo Lopes (Boa sorte, meu amor)
Melhor montagem – R$ 5 mil
Ricardo Pretti (Esse amor que nos consome)
Menção Especial do Júri
A menção especial do júri é dedicada a um artista múltiplo. Um ator que dirige, escreve e produz. Um ator que entrou para o imaginário do audiovisual brasileiro como ícone de um tipo de cinema que fazia humor sem o preservativo da hipocrisia e da caretice: Carlo Mossy, integrante do elenco de “Boa sorte, meu amor”.
CURTA-METRAGEM DE FICÇÃO
Melhor filme – R$ 20 mil
Vestido de Laerte, de Claudia Priscilla e Pedro Marques
Melhor direção – R$ 5 mil
Eduardo Morotó, Marcelo Martins Santiago e Renan Brandão (Eu nunca deveria ter voltado)
Melhor ator – R$ 3 mil
Everaldo Pontes (Eu nunca deveria ter voltado)
Melhor atriz – R$ 3 mil
Luciana Paes (A mão que afaga)
Melhor roteiro – R$ 3 mil
Gabriela Amaral Almeida (A mão que afaga)
Melhor fotografia – R$ 3 mil
Pedro Sotero (Canção para minha irmã)
Melhor direção de arte – R$ 3 mil
Fernanda Benner (Vestido de Laerte)
Melhor trilha sonora – R$ 3 mil
Pedro Gracindo e Victor Lourenço (Eu nunca deveria ter voltado)
Melhor som – R$ 3 mil
Felippe Schultz Mussel e Rodrigo Maia (Menino Peixe)
Melhor montagem – R$ 3 mil
Marco Dutra (A mão que afaga)
CURTA-METRAGEM DE ANIMAÇÃO
Melhor filme – R$ 20 mil
Valquíria, de Luiz Henrique Marques
LONGA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
Melhor filme – R$100 mil
Otto, de Cao Guimarães
Melhor direção – R$ 20 mil
Petra Costa (Elena)
Prêmio Especial do Júri
Um Filme para Dirceu, de Ana Johann
Melhor fotografia – R$ 5 mil
Cao Guimarães e Florencia Martínez (Otto)
Melhor direção de arte – R$ 5 mil
Filme “Elena”
Melhor trilha sonora – R$ 5 mil
O Grivo (Otto)
Melhor som – R$ R$ 5 mil
O Grivo (Otto)
Melhor montagem – R$ 5 mil:
Marília Moraes e Tina Baz (Elena)
CURTA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
Melhor filme – R$ 20 mil
A Guerra dos Gibis, de Thiago Brandimarte Mendonça e Rafael Terpins
Melhor direção – R$ 5 mil
Liliana Sulzbach (A Cidade)
Melhor fotografia – R$ 3 mil
Francisco Alemão Ribeiro (A Cidade)
Melhor direção de arte – R$ 3 mil
Natália Vaz (A Guerra dos Gibis)
Melhor trilha sonora – R$ 3 mil
BID (A Guerra dos Gibis)
Melhor som – R$ 3 mil
Cléber Neutzling (A Cidade)
Melhor montagem – R$ 3 mil
Eduardo Serrano (A Onda Trás, o Vento Leva)
PRÊMIO DO JÚRI POPULAR
Melhor longa-metragem de ficção – R$ 20 mil
Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes
Melhor longa-metragem documentário – R$ 15 mil
Elena, de Petra Costa
Melhor curta-metragem de ficção – R$ 10 mil
A mão que afaga, de Gabriela Amaral Almeida
Melhor curta-metragem documentário – R$ 10 mil
A ditadura da especulação, de Zé Furtado
Melhor curta-metragem de Animação – R$ 10 mil
O Gigante, de Luís da Matta Almeida
TROFÉU CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL – JÚRI OFICIAL
Melhor longa-metragem: R$ 80 mil
Parece que existo, de Mario Salimon
Melhor curta-metragem: R$ 30 mil
Meu amigo Nietzsche, de Fáuston da Silva
Melhor direção: R$ 6 mil
Fáuston da Silva (Meu amigo Nietzsche)
Melhor ator: R$ 6 mil
Bruno Torres (Sagrado coração)
Melhor atriz: R$ 6 mil
Gleide Firmino (A caroneira)
Melhor roteiro: R$ 6 mil
Fáuston da Silva e Tatianne da Silva (Meu amigo Nietzsche)
Melhor fotografia: R$ 6 mil
Vagner Jabour (Vida kalunga)
Melhor montagem: R$ 6 mil
Edson Fogaça (A jangada de raiz)
Melhor direção de arte: R$ 6 mil
Andrey Hermuche (A caroneira)
Melhor edição de som: R$ 6 mil
Dirceu Lustosa (Vida kalunga)
Melhor captação de som direto: R$ 6 mil
José Pennington (Zé do pedal)
Melhor trilha sonora: R$ 6 mil
Cláudio Macdowell (Parece que existo)
TROFÉU CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL – JÚRI POPULAR
Melhor longa-metragem: R$ 20 mil
Sob o signo da poesia, de Neto Borges
Melhor curta-metragem: R$ 10 mil
Meu amigo Nietzsche, de Fáuston da Silva
PRÊMIO AQUISIÇÃO CANAL BRASIL
O melhor curta de ficção ou animação em competição, selecionado pelo júri Canal Brasil, recebe o prêmio de aquisição no valor de 15 mil reais.
O Prêmio Aquisição Canal Brasil tem como objetivo estimular a nova geração de cineastas, contemplando os vencedores na categoria curta-metragem dos mais representativos festivais de cinema do país. Um júri convidado pelo Canal Brasil e composto por críticos e jornalistas especializados em cinema escolhe o melhor curta em competição, que recebe o troféu Canal Brasil e um prêmio no valor de R$ 15 mil. Além disso, o Canal Brasil exibe o curta vencedor em sua grade de programação e no site do canal www.canalbrasil.com.br), que no final do ano concorre ao Grande Prêmio Canal Brasil de Curtas-Metragens, no valor de R$ 50 mil.
Júri: Ismaelino Pinto, Marcos Petrucelli, Daniel Schenker, Marcos, Rodrigo Fonseca, Cid Nader e Michel Toronaga.
Filme: A mão que afaga, de Gabriela Amaral Almeida
PREMIO DA CRÍTICA – JÚRI ABRACCINE
O júri formado por membros da Associação Brasileira de Críticos de Cinema optou por escolher apenas um longa e um curta-metragem, sem distinção de gêneros. O júri foi formado por Daniel Schenker (do Rio de Janeiro), Marcelo Miranda (de Minas Gerais), Yale Gontijo e Guilherme Lobão (do Distrito Federal), Sérgio Rizzo (de São Paulo), Fatimarlei Lunardelli (do Rio Grande do Sul) e Marco Antônio Moreira (do Pará).
Melhor Curta-metragem – Troféu Candango
Pelo rigor estético na construção de uma atmosfera de estranhamento, pela dramaturgia precisa e pela sensibilidade no enfoque da solidão, o troféu Abraccine vai para…
“A mão que afaga”, de Gabriela Amaral Almeida (SP)
Melhor Longa-metragem – Troféu Candango
Pela habilidade em tornar expressivos os recursos estéticos na abordagem do amadurecimento de uma adolescente que entra em contato com um universo contrastante ao seu, o troféu Abraccine vai para…
“Eles voltam”, de Marcelo Lordello (PE)
PRÊMIO MARCO ANTÔNIO GUIMARÃES
Troféu Candango – Conferido pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro para o filme que melhor utilizar material de pesquisa cinematográfica brasileira
Filme: “Olho nu”, de Joel Pizzini
PRÊMIO CONTERRÂNEOS
Troféu oferecido pela Fundação CineMemória
Melhor Documentário do Festival
Entorno da Beleza, de Dácia Ibiapina
PRÊMIO ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo
Conferido pela ABCV – Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo a profissionais do audiovisual do Distrito Federal
Homenagem a Carlos Del Pino e Gustavo Miguel
Fazer cinema no Brasil é uma aventura. Mas isso seria ainda mais difícil se não existissem pessoas como Carlos Del Pino e Gustavo Miguel. Cada um, em seu tempo, garantiu a infraestrutura necessária para que muitas histórias saíssem do papel.
PRÊMIO TROFÉU SARUÊ
Conferido pela equipe de cultura do jornal Correio Braziliense.
Enquanto diversos programas de entretenimento se debruçam sobre o cotidiano braçal de empregadas domésticas, num plano rendido ao glamour e ao consumo fácil, uma visão diferenciada — plural e construída na união — se estabeleceu neste festival. Montando uma carga emocional única — aflorada em meio ao desgastante e pouco valorizado cotidiano de trabalho —, tanto a ilimitada entrega de intimidade, quanto o criativo processo fílmico saltam aos olhos em Doméstica. A equipe do Correio Braziliense atribui, portanto, o prêmio aos personagens — domésticas e realizadores — que compuseram o documentário de Gabriel Mascaro.
PRÊMIO VAGALUME
Troféu conferido por integrantes do projeto Cinema para Cegos
Melhor longa-metragem
Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes
Melhor curta-metragem
A mão que afaga, de Gabriela Amaral Almeida
No debate de Este Amor que nos Consome ficou claro o absurdo da distinção entre documentários e ficções adotada por Brasília este ano. O filme é um desses casos trangênicos, em que os personagens interpretam a si mesmos. Tamanha era a dúvida que o filme foi inscrito nas duas categorias.
Foi selecionado como ficção. Assim como poderia ter sido selecionado como documentário.
Aliás, ninguém agüenta mais essa discussão. Foi ultrapassada.
Num festival de bom nível, que termina hoje à noite com a entrega dos troféus Candangos, talvez seja temerário apontar favoritos. Mesmo porque, até o horário de fechamento desta edição, ainda faltavam alguns competidores a serem exibidos: três curtas e os longas Elena, de Petra Costa (documentário), e Este Amor que nos Consome (ficção), de Allan Ribeiro. Mesmo assim, pode-se dizer que Era uma Vez Eu, Verônica, de Marcelo Gomes (PE) entusiasmou o público a tal ponto que surge como um dos “premiáveis” mais fortes da seleção. Entre seus trunfos, Hermila Guedes, em estado de graça e entrega total à personagem, é tida como vencedora inquestionável do prêmio de atriz. Será injustiça se o júri não reconhecer o seu impressionante trabalho.
Ela vive a personagem do título, Verônica, médica recém-formada, com pai idoso e doente (W.J. Solha, também em atuação marcante) e namorado ocasional (João Miguel). Começando carreira no atendimento psiquiátrico em um hospital público no Recife, Verônica é um poço de dúvidas. Mas também de sensualidade, afeto e compreensão humana.
“Para construir essa personagem, entrevistei uma série de mulheres jovens para sentir o que as preocupava, como viam o mundo e a si mesmas”, conta o diretor. “Talvez todo esse material, que foi filmado, renda no futuro um documentário, se elas derem autorização para uso de imagem”, diz. Enquanto isso não acontece, essa imersão no imaginário feminino rendeu a Marcelo a construção de uma personagem de ficção extremamente convincente, com toda a ambivalência que é própria do ser humano, ainda mais na juventude, ainda em fase de definição de rumos.
Impossível não se apaixonar por Verônica. Ela sente todo o mal-estar de quem não sabe ainda por onde seguir, mas tem também todo o gosto pela vida. Gosto que se exprime na sexualidade que usa com muita liberdade. “Ela é uma mulher do presente, que se aproveita da nossa época mais liberal para o gênero feminino”, diz o diretor, que encontrou em Hermila uma atriz sem qualquer hesitação nas cenas, digamos, calientes. Ao mesmo tempo, ela é uma intérprete que pode mudar o rumo da história, com matizes de um rosto capaz de exprimir prazer e angústia, às vezes numa única tomada.
O filme, em sua simplicidade naturalista (“o naturalismo é a minha opção de cinema”, avisa Marcelo Gomes), é daquelas obras que têm camadas de interpretação. À primeira vista, é apenas a história de uma garota em busca do seu eixo. Visto mais de perto, traz também as contradições contemporâneas. A nossa vida é cheia de angústias, por um desempenho que parece fora de alcance e pela incompreensão dos outros; ao mesmo tempo, dispomos de liberdade individual que as outras gerações não conheceram. A própria cidade é retratada em suas ambigüidades. Recife está sendo destruída pela voracidade da especulação imobiliária. Mas continua sendo a fascinante cidade do carnaval e do frevo, das praias lindas e da sensualidade à flor da pele. A vida é composta por esses contrários, não por um lado só. Nesse sentido, Era uma Vez Eu, Verônica, parece mais complexo que outros ótimos filmes pernambucanos, mas que tocam quase exclusivamente a tecla da depressão.
Entre os documentários, Otto, de Cao Guimarães, continua na frente, embora Doméstica, de Gabriel Mascaro, tenha causado excelente impressão. O dispositivo é interessante: ele pede a sete adolescentes que registrem imagens e depoimentos das empregadas domésticas de suas casas. Com o material bruto, produz um filme bastante interessante sobre as ambíguas relações das famílias com suas empregadas.
A estratégia deu resultado. Com os jovens filmando suas foi possível captar uma relação de afeto entre elas e as famílias que, de outra forma, ficaria oculta. Mas Mascaro não se engana: “Esse afeto apenas disfarça e oculta a realidade de relações trabalhistas muito injustas nessa situação”, diz.
Nota
Olho Nu, de Joel Pizzini, sobre o cantor e ator Ney Matogrosso, foi muito aplaudido pelo público. O filme foi apresentado pela produtora Paloma Rocha, representando o ex-marido, que se encontra na Alemanha. Feliz, Paloma levou ao palco sua filha, Sara, produtora associada, que está grávida de um menino. Será bisneto do cineasta Glauber Rocha (1939-1981), o mais importante do país, e de quem Paloma é filha.
Conhecido como cineasta cabeça, o mineiro Cao Guimarães diz que seu filme Otto é muito simples: “Uma homenagem a minha mulher e meu filho”. A mulher, a uruguaia Florencia, ou Flor, estava no palco do Teatro Nacional na apresentação do filme. “O Otto ficou no hotel dormindo. Acho que não aguentou a emoção”, diz o diretor, rindo. Otto é um bebê de nove meses. E ainda vai levar algum tempo para se emocionar com o filme do pai.
O resto, a própria obra explica, na narração off do diretor. Cao estava em Montevidéu acompanhando a exibição de seu longa Andarilho, no Cine Casablanca. Além dele, havia uma única pessoa na plateia, uma mulher jovem. “Ela saiu exatamente na hora da melhor sequência do filme”, diz Cao. “Mas logo depois voltou: só tinha ido ao banheiro. Na saída, disse a ela que precisava assistir ao filme de novo, conversamos, fomos jantar juntos e tudo começou.”
De acordo com o diretor, foi muito rápido. Ficaram juntos e ela passou a viajar em companhia de Cao, em suas andanças pelo mundo exibindo sua obra (ele é cineasta e trabalha também com videoinstalações). Foram a Paris e lá ela se descobriu grávida. Em seguida, partiram para uma temporada em Istambul, onde Cao tinha exposição. Daí a presença das imagens dessas cidades no filme.
Obra que nasce sem querer, por assim dizer. “Eu não tinha ideia de que estava fazendo um filme. Ia filmando minha mulher, fascinado por esse processo da gravidez. Quer dizer, era um registro íntimo, pessoal, coisa de marido babão, mesmo”, brinca. “Mas ao voltar a Belo Horizonte, olhando o material, me dei conta da força das imagens e então o filme começou a nascer”.
O processo de edição foi o mais difícil. Colocar a música (sempre do grupo Grivo, que o acompanha em outros trabalhos), e dar a ele o formato que bateu na tela do Teatro Nacional e emocionou a plateia.
Otto é um filme não narrativo (como todos os outros do diretor). Não conta propriamente uma história, mas convida o espectador a imergir num mundo de sensações e ideias, cujo fundo filosófico ele é levado a entrever.
De um lado, temos a narração em off, bastante parcimoniosa, do próprio diretor. Por outro, as imagens cotidianas de uma mulher jovem, feliz e brincalhona, que segue com encanto as transformações em seu corpo. Por fim, a filmagem da natureza, do mar, das montanhas, dos rios, e também dos objetos mais banais, que ganham relevo e significado no olhar de Cao, compartilhado com o espectador. E o parto, registrado de modo poético.
Otto é um nome simbólico. Graficamente é composto por dois zeros e uma porta. É também um palíndromo – se escreve do mesmo nos dois sentidos.
O nome do filho constrói o filme, que começa e termina pelas mesmas cenas. Tudo é circular. O filho continua o pai. Tudo está em tudo, e esse é o sentido da nossa vida, como da nossa morte. “Como dizia Demócrito, o ser tem tanta realidade como o não-ser”, cita Cao Guimarães.
Otto é simples, profundo. E comovente.
Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão, é outro dos tantos competidores pernambucanos nesta edição do Festival de Brasília. Um projeto que se deseja ousado e diferente. A começar pela opção de filmagem em preto e branco. O filme abre com um longo plano em câmera parada no qual um pai conta para o filho as origens da família. É um introito à história de Dirceu, cujas raízes estão na elite latifundiária do Estado, cujo capital é reciclado na construção civil no Recife. Aliás, a família é dona de uma próspera empresa de demolição, atividade lucrativa em uma cidade que está sendo destroçada, como os cineastas locais não cansam de lembrar.
Dirceu apaixona-se por Maria, que tem a mesma origem mas é criatura de outra natureza. Sensível, cultiva a música, é misteriosa e independente. O caso de amor assimétrico comenta a também pouco harmoniosa modernização capitalista do Estado. Pena que o filme adote estética maneirista e estilosa, o que o enfraquece um pouco.
Com A Memória que me Contam, Lúcia Murat volta aos anos de chumbo e à sua própria experiência pessoal na luta armada. A personagem de que todos falam ao longo do filme é Ana (Simone Spoladore), que está à morte num hospital. Ana é inspirada na figura da guerrilheira Vera Lúcia Magalhães, que participou do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Depois foi presa e torturada. Em 1970, foi trocada, junto com outros 39 presos, pelo embaixador alemão Von Holleben. Nunca se recuperou por completo da tortura e sofria crises de psicose. Retornou ao Brasil com a Anistia e morreu de infarto em 2007, aos 59 anos.
Em 1988, Lucia Murat estreou com Que Bom Te Ver Viva, filme com depoimentos de mulheres torturadas durante a ditadura, intercalados com cenas ficcionais vividas por Irene Ravache. Em A Memória que me Contam, Irene Ravache volta à cena, como alter ego da cineasta. Sua personagem, também chamada Irene, é uma cineasta que tem de se confrontar com a morte iminente de sua grande amiga Ana e com a reavaliação da luta armada à luz de um país redemocratizado e que elegeu uma ex-guerrilheira e também vítima de tortura à Presidência da República.
Ou seja, “alguns de nós chegaram ao poder”, com se diz ao longo do filme. Mas o que restou daquela luta, daquele sacrifício e também dos equívocos todos cometidos nos anos rebeldes? Sem dúvida, é esse pesado e complexo balanço que o longa tenta realizar. Como o fardo é um tanto pesado, não espanta que o filme sofra entraves em certos momentos. Mais ainda porque a autora, se tem o privilégio de conhecer por dentro todo o processo, parece às vezes ter seus problemas de distanciamento.
Ao Estado, Lúcia disse que não se preocupou com a questão do distanciamento, ” mesmo porque isso seria impossível para quem viveu todo aquele processo tão intensamente quanto eu”. Acrescenta que procurou retratar alguns segmentos na história: ” A diretora representa as artes, há um ministro ex-guerrilheiro, os jovens que não viveram aquela época, mas recebem os seus ecos e consequências.” O ator Franco Nero vive um guerrilheiro italiano exilado no Brasil e que sofre um processo de extradição impetrado pela Itália.
Kátia Tapety tornou-se a primeira travesti a ser eleita para um cargo público no Brasil. Ele é vereadora numa pequena cidade no interior do Piauí e ganha agora esse documentário dirigido por sua conterrânea Karla Holanda. Um bonito filme, muito bem fotografado (pela craque Jane Malaquias), que acompanha o dia a dia dessa personagem simpática. Vemos seu cotidiano no trabalho duro da fazenda e também na cidade. O preconceito, a pressão familiar (“Meu pai dizia que filho homossexual tinha mais é de morrer”, ela conta) e social dão conta da vida difícil, que a personagem enfrenta com muita garra. Kátia é um filme simples, que passa longe do mergulho radical que o tema mereceria, mas mesmo assim é digno. E simpático, como a personagem. Mereceu os aplausos que ganhou do público de Brasília.
Pronto, começou a mostra competitiva do 45 Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, agora, como você sabe, no formato maratona, com dois longas e três curtas por noite. A sessão começou pouco depois das 19h e se estendeu até a meia-noite no Teatro Nacional. O segundo longa da competição (as ficções), será sempre prejudicado, pois pega já um público sem fôlego. Com o agravante, como foi o caso de Eles Voltam, de Marcelo Lordello, que exige do espectador mais que a atenção flutuante que é de praxe nas maratonas cinematográficas e outras competições de fundo.
O “x”da questão com o longa de Lordello é a narrativa nada convencional, o que em tese é muito bom. Será preciso, no entanto, por parte do espectador, certa paciência com a incerteza sobre o rumo da história. No princípio, o que se vê é um plano bastante geral de uma estrada, na qual um carro estaciona e dois adolescentes descem. São os irmãos Cris e Peu, que ficam à beira da estrada. Não se sabe direito o que aconteceu, mas eles ficam sozinhos. Peu decide procurar por alguém num posto de gasolina do qual ele tem vaga ideia da localização. Cris fica por lá, sozinha, até ser encontrada por um garoto que passa de bicicleta e decide ajudá-la. O resto da história será a trajetória da garota, uma longa volta para casa na qual ela convive com diversas pessoas que não pertencem à sua classe social.
A cada passo, ficamos sabendo um pouquinho mais sobre Cris e outros personagens, mas boa parte permanece no escuro. É um filme de matizes e tons cinzentos, com falas alusivas e diálogos naturalistas. Muitas vezes as tomadas são em tempo real. A questão social passa na contraluz, com a presença de um grupo de trabalhadores sem terra, cuja trajetória é restituída na fala de alguns personagens. Tudo é muito sutil. E o clima é de desencanto, sem tensão, sem pontos de ruptura, como a representar, na linguagem do filme, um certo mal-estar na cultura brasileira contemporânea. Não é a primeira vez que se sente isso. Lordello é do Recife. Parece fazer parte de uma geração que troca a exuberância da anterior (de Lírio Ferreira, Paulo Caldas e Claudio Assis) pela angústia existencial profunda, uma deprê federal. Como se Kierkegaard tivesse baixado nos trópicos.
Pernambuco, e, em segundo lugar, Rio, são os Estados dominantes nesta edição do Festival de Brasília. Sobrou pouco espaço para o resto do Brasil. Inclusive para os donos da casa, o que tem gerado protestos locais. Um desses revoltados é o do grande documentarista Vladimir Carvalho, paraibano de origem, mas residente em Brasília desde 1969. Em artigo explosivo no Correio Braziliense, intitulado “Fala Sério, festival”, Vladimir lamenta que só haja um curta-metragem candango entre os competidores deste ano.
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