Hoje, de Tata Amaral, ganhou o 44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro ao evocar, de forma dura e criativa, as feridas deixadas pela ditadura militar. Mas a divisão de prêmios entre Hoje (que ganhou um total de cinco Candangos e mais o Prêmio da Crítica) e Meu País, de André Ristum (que levou quatro troféus e mais o Prêmio do Júri Popular) indica que houve cisão entre os jurados. Tanto assim que se Hoje venceu o festival, Meu País ficou com a melhor direção (Ristum).
Como se pode conceber que um filme considerado pelo júri como o mais bem dirigido não vença o festival? Acontece. É uma maneira de os jurados indicarem que ambos disputaram a primazia palmo a palmo. E se, no final, foi preciso optar por um deles, o preterido ficou logo atrás, perdendo por um triz.
Talvez indique outra coisa, mais profunda, e que seria um processo de mutação do próprio festival. Brasília sempre foi considerado o mais político dos festivais, com seu público universitário engajado, suas polêmicas, seu gosto pela invenção. Essa tendência ainda prevaleceu em 2011, mas já seguida de perto por outra, que contempla filmes mais intimistas, convencionais e socialmente descompromissados.
Fosse o Festival de Brasília dos velhos tempos, Hoje polarizaria com o também excelente, e engajado, Trabalhar Cansa. Mas este teve de se contentar com apenas uma estatueta – a de atriz coadjuvante, para Gilda Nomacce, de fato ótima. Mas é muito pouco para o filme da dupla Juliana Rojas & Marcos Dutra. Ainda mais em Brasília, onde em outros tempos um filme como esse receberia melhor tratamento. Talvez seja mesmo sinal de mudança de curso.
Outras alterações já aconteceram. Com a quebra da exigência de ineditismo, Brasília teve menor repercussão nacional, embora seu público local continue fiel. Promete-se mais para o próximo ano, e o que vem é preocupante. Fala-se em separar as competições entre ficção e documentário, indo na contramão da tendência mundial de eliminar fronteiras entre os gêneros. Fala-se também em aumentar o número de concorrentes, o que seria um desastre, pois tiraria uma das melhores características de Brasília – a concentração em poucos títulos, que são discutidos a fundo e explorados em suas nuances. Enfim, o formato enxuto é a melhor maneira de valorizar os filmes, sem jogá-los na vala comum do gigantismo. Caso essa ameaça se concretize, aliada à não exigência de ineditismo, Brasília passará a ser um festival como tantos outros que existem no País.
De qualquer forma, o júri acertou no atacado, premiando o melhor filme, Hoje, e lhe dando ainda troféus importantes como atriz (Denise Fraga), roteiro (Jean-Claude Bernardet, Rubens Rewald e Filipe Sholl), fotografia (Jacob Solitrenick) e direção de arte (Vera Hamburguer). E errou em alguns itens capitais, ao dar a direção para André Ristum e o prêmio de ator a Rodrigo Santoro, quando havia à disposição Marat Descartes, magnífico em Trabalhar Cansa.
O radical, porém confuso, O Homem que Não Dormia, de Edgard Navarro levou uma estatueta, a de ator coadjuvante para Ramon Vane, e o inovador porém redundante As Hiper Mulheres ficou com o prêmio de som. O fraco documentário Vou Rifar meu Coração foi o único a, justamente, deixar Brasília de mãos abanando.
Muito impactante o novo filme de Tata Amaral, Hoje. Reflexão sobre os resíduos deletérios da ditadura na figura de uma ex-miltantante (Denise Fraga), atormentada pelo passado. Na história, Vera (Denise) compra um apartamento novo com um dinheiro que, de certa forma, a deixa com a sensação de culpa perante o passado. A digestão dos anos de chumbo tem sido feita de maneira muito lenta, e tímida, no Brasil. “Hoje” é um filme de exceção. Teremos de falar muito sobre ele.
Na parte dos curtas, a melhor surpresa foi Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas, que exuma, de modo criativo, a história do filme Manhã Cinzenta e do seu diretor Olney São Paulo, que foi preso pela ditadura e morreu de câncer poucos anos depois de solto, com 42 anos de idade. Foi, de longe, o melhor programa da noite. O curta (quase um média, de 25 minutos) é envolvente do ponto de vista formal, mesclando imagens do filme de Olney tomadas em vários suportes com depoimentos sobre o caso. “Fiquei com medo no início da sessão que as pessoas não seguissem a história, mas acho que curtiram bem o filme”, disse Dantas.
De fato, em termos de cinema narrativo, Ser Tão Cinzento representa um risco. Afinal, poucas pessoas conhecem o caso que motivou o diretor a fazê-lo. A história é a seguinte: em 8 de outubro de 1969, um Caravelle foi sequestrado pelo grupo armado MR-8 e desviado para Cuba. Consta que um dos sequestradores teria levado a bordo uma cópia de Manhã Cinzenta, de Olney São Paulo, e promovido uma sessão durante o voo para o grupo de passageiros sequestrados. Como consequência, o cineasta, que não tinha nada a ver com o caso, foi preso e as cópias do filme, apreendidas e destruída.
Olney foi processado e torturado, até ser absolvido em 1972. Do filme, restou apenas uma cópia, escondida uma lata com título trocado na Cinemateca do Museu de Arte Moderna, no Rio, informou ao Estado o filho do cineasta, Olney São Paulo Filho. É a que existe. Manhã Cinzenta incorpora peças documentais a uma ficção à La Terra em Transe, inclusive com imagens da Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro.
No primeiro dia de competição, o público do Cine Brasília curtiu o documentário As Hiper Mulheres, que já havia sido exibido no Festival de Gramado. Riu muito em certos trechos da projeção e aplaudiu demoradamente no final. Em certo sentido, essa reação é uma surpresa, embora o filme tenha sido bem recebido também em Gramado.
Dirigido por Leonardo Sette, Carlos Fausto e Tukumã Kuikuro, Hiper Mulheres tem por tema um ritual de afirmação feminina nas tribos do Alto Xingu. Mas o filme não entrega seu propósito logo de cara. No início, se sabe apenas que se trata de um ritual de cânticos indígenas, que passa de geração em geração e tem de ser recuperado, justamente por uma índia que se encontra doente. Mais tarde, veremos que o ritual, de cantos belíssimos, se fundamenta na afirmação da sexualidade feminina. É um filme sobre a vida, memória e a transmissão problemática da tradição.
Filme, digamos assim, etnográfico, em geral tem dificuldade com o público, mas, neste caso, os diretores conseguiram dar uma dramaturgia interessante ao ritual mostrado. Do ponto de vista do público, o que conta a seu favor, além da beleza das imagens e da própria narrativa, é o conteúdo sexual embutido no tal ritual, o que o torna muito engraçado. As legendas também ajudam, traduzindo a linguagem indígena em termos coloquiais, o que contribui para aproximar a obra do público. Por fim, a edição é muito inteligente, dando uma dinâmica de ficção a um filme que teria aparência de documentário observacional, embora seja perceptível a encenação dos atores, representando seus próprios papeis. Aliás, Leonardo Sette ganhou o Kikito de montagem em Gramado.
A sexualidade é um tema um tanto proscrito nos filmes sobre índios. Talvez porque prevaleça a imagem inconsciente do bon sauvage, que não deveria ser “conspurcada” pela sexualidade. Na literatura é diferente. No romance Maíra, de Darcy Ribeiro, a sexualidade indígena, vista como tão natural, chama a atenção.
Também em Quarup, de Antonio Callado, há uma espécie de elogio à utopia sexual indígena. Mas, no cinema, esse aspecto é ocultado. As Hiper Mulheres nos devolve esse aspecto reprimido e o faz pelo ponto de vista feminino, o que o torna ainda melhor. Na primeira visão, o filme é impactante. Revisto, parece um tanto redundante em certas passagens.
Zé Dirceu apareceu de sopetão no Seminário Novas Perspectivas para o Cinema Brasileiro, hoje de manhã. Ontem, havia faltado à sua palestra. Dirceu falou uns 10 minutos e recordou sua relação com o cinema, que, segundo ele, vem desde os idos de 1968, quando ele era presidente da UEE (União Nacional dos Estudantes). Lembrou que, naquele ano de greve, a Faculdade de Filosofia da rua Maria Antonia transformou-se num fórum de cursos e de debates. E também de projeções de filmes e discussões cinematográficas. Isso tudo eu vi, quando era, na época, do movimento secundarista. Zé Dirceu lembrou também do tempo em que viveu em Cuba, no exílio, e trabalhou no Icaic, o Instituto de Cinema Cubano. Mexia com filmes brasileiros e de outros países e matava a saudade do País. “No exílio, se a gente não trabalhar muito fica louco”, disse. Foi um improviso simples e legal.
A má notícia veio logo em seguida. Cacá Diegues, que seria a atração agora à tarde, não veio. Diz que está doente, segundo me informou uma pessoa da assessoria de imprensa. O interessante é que Cacá e Zé Dirceu estiveram em campos opostos no malfadado debate sobre a Ancinav, projeto que acabou arquivado.
BRASÍLIA. Aplausos para mestre Vladimir Carvalho por seu Rock Brasília – a Era de Ouro, ontem no Teatro Nacional. Vaias para a ministra Ana de Hollanda que, pelo jeito, continua com a popularidade em dia. E longos discursos políticos, em especial na boca do apresentador José de Abreu. Teve de tudo um pouco na abertura ontem do 44º Festival de Brasília ontem à noite num superlotado Teatro Nacional.
O festival começa com um filme premiado em Paulínia, tem seus primeiros competidores com ar de coisa já vista (As Hipermulheres, Trabalhar Cansa,) e só na quinta-feira apresenta o primeiro inédito, Hoje, de Tata Amaral.
Além disso, entidades locais como a ABCV (Associação Brasiliense de Cinema e Vídeo) estão em briga com o festival e o cineasta Adirley Queirós retirou seu longa A Cidade É uma Só? da Mostra Primeiros Filmes.
A coisa está quente no Planalto.
BRASÍLIA – Amigos, cá estou para mais um Festival de Brasília, que cubro quase sem interrupções desde 1991. O “quase” fica por conta da edição de 2000, que não pude reportar para o jornal porque havia participado da comissão de seleção dos filmes – naquele tempo ainda se levava a sério esse tipo de prurido ético. Mesmo assim, acompanhei como observador esse ano que teve em Bicho de Sete Cabeças seu grande vencedor.
Tudo isso para dizer que, modéstia à parte, sinto-me em boa e confortável situação para acompanhar e avaliar esse festival que foi fundado em 1965, no tempo da ditadura, por ninguém menos que Paulo Emilio Salles Gomes, então professor da UnB. O festival atravessou todas as fases do cinema brasileiro moderno, a partir do Cinema Novo, e também enfrentou todas as suas vicissitudes – que não foram poucas e nem tênues.
Premiou filmes antológicos como A Hora e Vez de Augusto Matraga (Roberto Santos), Bandido da Luz Vermelha (Rogério Sganzerla) e Guerra Conjugal (Joaquim Pedro de Andrade). Em compensação, no início dos anos 1990, por força do desmanche provocado pela dupla de zaga Collor-Ipojuca Pontes, teve de aceitar em sua competição títulos inomináveis, pois não havia outros disponíveis. Com filme ou sem filme, Brasília afirmou-se na defesa intransigente do cinema nacional, mesmo quando era terrível e disseminado o preconceito contra essa produção. Mais do que é hoje, se isso é possível imaginar.
Na época, havia poucos festivais. Hoje eles proliferam. Há um em cada canto e nasce outro a cada dia. O de Brasília, (mal) posicionado no fim do calendário, viu-se progressivamente espremido por festivais concorrentes – os principais sendo o de Paulínia, com sua boa curadoria e poder econômico, e a Première Brasil, do Festival do Rio, com seu charme e poder de atração sobre os cineastas e produtores. Brasília acabou ficando com as sobras.
Agora em sua 44ª edição, apresenta modificações. Mudou o governo do DF, e mudou todo o estafe: da assessoria de imprensa à coordenação do festival, tudo é novo. A primeira dessas modificações foi na data. Passa de novembro para 26 de setembro a 3 de outubro. Antecipa-se à Première do Rio.
A segunda alteração importante foi no critério de seleção de filmes. Brasília, até o ano passado, dava preferência aos longas-metragens inéditos; agora a exigência foi abolida. Só não podem concorrer longas-metragens que tenham sido premiados como melhor filme em outros festivais.
A última alteração deu-se no valor do prêmio em dinheiro a ser atribuído ao longa-metragem vencedor: subiu de R$ 80 mil para R$ 250 mil.
Essas mudanças fazem sentido?
É verdade que o mais antigo festival do País andava sem rumo havia alguns anos. Com dificuldade em encontrar longas-metragens inéditos para sua mostra competitiva, ultimamente vinha selecionando quase que só documentários e, no ano passado, optou por uma competição praticamente exclusiva de novos diretores. Perdia, assim, a abrangência no âmbito do cinema de autor que, por muitos anos, o colocou na posição de principal festival de cinema brasileiro.
Ora, o festival de cinema de Paulo Emílio e Jean-Claude Bernardet não tem porque imitar o de Tiradentes, o de Paulínia, ou o festival de documentários É Tudo Verdade, muito bons todos eles em seus segmentos e com suas características, diga-se.
Brasília tem idade e experiência para reivindicar identidade própria. Não tem por que estar a reboque dos outros. No entanto, o que muda com a flexibilização do critério de ineditismo? Três dos seis competidores da mostra principal já passaram por outros festivais. De novidades, mesmo, apenas Hoje, de Tata Amaral, Vou Rifar Meu Coração, de Ana Rieper, e O Homem que Não Dormia, de Edgard Navarro. Os outros, Meu País e Trabalhar Cansa, além do filme de abertura, Rock Brasília, foram exibidos no Festival de Paulínia, e As Hiper-Mulheres, em Gramado. Mesmo o longa de Navarro já teve sessão pública em Salvador.
Com essa opção, Brasília 2011 começa com inevitável ar de déjà vu, sabor de prato requentado. A maior parte dos filmes já foi vista e apreciada pela crítica nacional. E daí?, pode-se perguntar. Para o público do festival, eles continuam inéditos. Verdade. Mas um festival de ponta pode se contentar com repercussão apenas local?
Enfim, é apenas uma experiência, que se dobra ao lobby dos cineastas, interessados em exibir seus trabalhos no maior número possível de festivais, mas tira de Brasília sua característica de lançador de filmes e de tendências. É uma decisão que precisa ser acompanhada em seus efeitos, mas tem todo o jeito de ser um senhor tiro no pé.
Tinha de ser assim? Quebrar o ineditismo para conseguir mais filmes de alta qualidade? Não necessariamente. Com sua tradição, seu alto prêmio em dinheiro e a nova posição no calendário, Brasília tinha cacife para fazer uma mostra de inéditos de boa cepa.
E por que não o fez? Com a palavra a comissão de seleção, que, como se sabe nos bastidores, dispunha de ótimas alternativas inéditas para preencher as seis vagas da competição principal. Um conhecido realizador e crítico de cinema carioca colocou numa rede social a frase que define tudo: “A Première Brasil tem uma imensa dívida de gratidão para com a comissão de seleção dos filmes de Brasília”.
Disse tudo. Para quem quiser entender.
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