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Luiz Zanin

Deus sabe que é impossível assistir a tudo num festival. Ontem fiz um esforço de reportagem e fui ver os filmes pernambucanos à tarde no Cine Teatro Guararapes. Fui recompensado com dois bons curtas.

Corpo Presente, de Marcelo Pedroso. Ele é conhecido pelos cinéfilos como diretor de Pacific, um dos xodós de Jean Claude Bernardet. Nele, Marcelo trabalha com imagens tomadas por turistas numa viagem a Fernando de Noronha. Agora, o papo é outro e o trabalho com rituais da morte em tom inovador. Uma mesa de preparação de cadávereres e uma boa dose de ambiguidade. O corpo preparado é de um ser humano? Não dá para contar. Mas é um dos filmes mais inquietantes que vi nos últimos tempos. E de muito rigor formal. Que não se confunde com rigor mortis, por favor.

O outro é Zé Monteiro, o Homem que Venceu as 5 Mortes, de Wilson Freire. Lúdico, conta a história do sertanejo que quase foi levado pela indesejada das gentes varias vezes. A primeira de uma febre na infância; da última, ele escapou com algumas pontes de safena. Ate se transformar em artesão já idoso. É um jeito original de enfrentar tema batido, com muito humor, tom de cordel e algumas animações feitas em cima dos artesanatos de Zé Monteiro.

A pergunta de muitos espectadores e críticos ao final da sessão: por que esses filmes não estão na mostra principal?

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Como costuma acontecer (há exceções) as entrevistas coletivas fazem mais esconder o filme que revelá-lo. Foi o que se passou na coletiva de Paraísos Artificiais, de Marcos Prado. A autocongratulação entre atores, diretor e jornalistas pouco acrescentou à compreensão de um filme de proposta ousada, porém com problemas de decolagem, como acontece com certos aviões.

Prado tenta um mergulho no universo jovem, das drogas, das raves. (Bem, ele mesmo diz que o termo rave é inadequado, pois este designa uma festa por tempo limitado, enquanto o que os jovens frequentam os festivais de música eletrônica, vários dias, em regiões paradisíacas, festas muito intensas, com muita droga e bebida.)

Enfim, o filme se divide entre o Rio, nordeste brasileiro e Amsterdã, com a condução da protagonista Erika (Nathalia Dill), no papel de uma DJ.

O filme, cujo título se deve a Baudelaire, tem muitas cenas de sexo, entre homem e mulher e entre mulheres, uso de drogas e conflitos familiares. Não abandona, no entanto, apesar dessa “temática” forte, um certo plano de voo de baixa altitude, talvez com vistas a um diálogo mais fácil com o público. E também de baixa profundidade. De fato, a impressão que se tem é de superficialidade.

No entanto, é muito bem filmado – mais uma vez por Lula Carvalho, que trabalha muito e bem, seguindo os passos do pai o consagrado Walter Carvalho. Quer dizer, o filme tem qualidade, é muito bem filmado, mas ressente-se de uma visão um tanto epidérmica da juventude, de sua relação com as drogas ou com o sexo. No próprio debate foi abordado o tema da juventude, essa geração ultraplugada, que atende pelo nome de “geração T (de testemunha), que posta tudo no twitter ou no Face no momento mesmo que o está vivendo. Aconteceu na sessão do filme no Cine Teatro Guararapes. Acontece o tempo todo. Talvez se pudesse fazer uma relação entre essa sensação opressiva de viver um eterno presente e o uso de drogas, mas não se fez.

Muita coisa fica no ar e, no desfecho, que óbvio não citarei, tudo parece bem arrumadinho demais, todas as pontas são unidas e não se dá um respiro para que o espectador tire suas próprias conclusões. Por isso, por mais que o filme às vezes “ameace” ser bom, acaba não passando de um plano mediano.

Acho que foi pouco pensado.

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Olha aí, galera: o Festival de Filmes de Futebol anunciou seus concorrentes. Nem sempre o sucesso da bola nos pés se repete nas telas, mas têm surgido por aí filmes muito interessantes sobre o esporte que mais amamos. Vale a pena seguir. Abaixo, os selecionados para o festival, que acontece no Rio e em São Paulo.

O CINEFOOT – FESTIVAL DE CINEMA DE FUTEBOL será realizado no Rio de Janeiro, de 24 a 29 de maio, no cine Arteplex, Praia de Botafogo e de 31 de maio a 5 de junho, em São Paulo, no Museu do Futebol e no cine Reserva Cultural.

Ainda no Rio de Janeiro, o CINEFOOT realizará uma mostra não competitiva denominada PRORROGAÇÃO, de 31 de maio a 3 de junho, com uma programação específica, no Centro Cultural da Justiça Federal.

FILMES SELECIONADOS

1- RIO DE JANEIRO

Mostra Competitiva de Longa-Metragem:

1- BAHIA MINHA VIDA (de Marcio Cavalcante, BA, 2011)

2- COPA UNIÃO (de Diogo Dahl e Raphael Vieira, RJ, 2012)

3- FOOTBALL IS GOD (de Ole Bendtzen, Dinamarca, 2010)

4- MANYAS: LA PELICULA (de Andrés Benvenuto, Uruguai, 2011)

5- MENINOS DE KICHUTE (de Lucas Amberg, SP, 2010)

6- RAÇA RUBRO NEGRA – PULMÃO DA ARQUIBANCADA (de Marcel Costa e Pedro von Krüger de Freitas, RJ, 2012)

7- ROCK´N BALL (de Dmitri Prikhodko, Ucrânia, 2011)

8- SANTOS, 100 ANOS DE FUTEBOL ARTE (de Lina Chamie, SP, 2012)

9- SOBRE FUTEBOL E BARREIRAS (de Arturo Hartmann, Lucas Justiniano, José Menezes, João Carlos Assumpção, SP, 2011)

10- THE OTHER CHELSEA – A STORY FROM DONETSK (de Jakob Preuss, Alemanha, 2010)

2- RIO DE JANEIRO

Mostra Competitiva de Curta-Metragem:

1- DESATANDO NÓS (de Luciana Queiroz e Roberto Studart, BA, 2010)

2- ESPÍRITO SANTO F.C. (de Andre Ehrlich Lucas e Lucas Vetekesky, ES, 2011)

3- GAÚCHOS CANARINHOS (de Rene Goya Filho, RS, 2007)

4- HARAM (de Benoit Martin, França, 2010)

5- HOME AWAY (de Wassim Sookia, Ilhas Mauricio, 2011)

6- I DON’T BLAME THE BEAUTIFUL GAME (de Christopher Arccella, EUA, 2010)

7- LÄNDERSPIEL (de Sven e Nadine Schrader, Alemanha, 2011)

8- L´EQUIP PETIT (de Roger Gómez e Davi Resines, Espanha, 2011)

9- LIBRE DIRECTO (de Bernabé Rico, Espanha, 2011)

10- LOS CERVECEROS DE QUILMES (de Andreas Geipel, Franz Sickinger, Shooresh Fezoni, Alemanha, 2011)

11- TEMPI SUPLEMENTARI (de Margherita Ferri, Itália, 2012)

12- TRAINERBANK (de Martin Emmerting, Alemanha, 2010)

13- VAI PRO GOL (de Felipe D´Andrea, SP, 2012)

14- ZIMBÚ (de Marcos Strassburger Souza, SP, 2011)

3- SÃO PAULO

Mostra Competitiva de Longa-Metragem:

1- BAHIA MINHA VIDA (de Marcio Cavalcante, BA, 2011)

2- FOOTBALL IS GOD (de Ole Bendtzen, Dinamarca, 2010)

3- INSHALLAH FOOTBALL (de Ashvin Kumar, India / Inglaterra, 2011)

4- MENINOS DE KICHUTE (de Lucas Amberg, SP, 2010)

5- SANTOS, 100 ANOS DE FUTEBOL ARTE (de Lina Chamie, SP, 2012)

6- SOBRE FUTEBOL E BARREIRAS (de Arturo Hartmann, Lucas Justiniano, José Menezes, João Carlos Assumpção, SP, 2011)

4- SÃO PAULO

Mostra Competitiva de Curta-Metragem:

1- GAÚCHOS CANARINHOS (de Rene Goya Filho, RS, 2007)

2- HOME AWAY (de Wassim Sookia, Ilhas Mauricio, 2011)

3- I DON’T BLAME THE BEAUTIFUL GAME (de Christopher Arccella, EUA, 2010)

4- JUVENTUS RUMO A TÓQUIO (de Rogério Zagallo, Andrea Kurachi e Helena Tahira, SP, 2009)

5- LÄNDERSPIEL (de Sven e Nadine Schrader, Alemanha, 2011)

6- L´EQUIP PETIT (de Roger Gómez e Davi Resines, Espanha, 2011)

7- LIBRE DIRECTO (de Bernabé Rico, Espanha, 2011)

8- RIVELLINO (de Marcos Fabio Katudjian, SP, 2011)

9- SER CAMPEÃO É DETALHE: DEMOCRACIA CORINTHIANA (de Gustavo Forti Leitão e Caetano Tola Biasi, SP, 2011)

10- UM JOGO, UMA PAIXÃO (de Otávio Paranhos, SP, 2009)

11- VAI PRO GOL (de Felipe D´Andrea, SP, 2012)

12- ZIMBÚ (de Marcos Strassburger Souza, SP, 2011)

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Em cerimônia organizada 4ª feira na Cinemateca Brasileira, a organização do Cine PE Festival do Audiovisual (Recife, 26/4 a 2/5) anunciou seus competidores, em longa e curta-metragem. O diretor do festival, Alfredo Bertini, ressaltou que o formato deste ano será mais enxuto, “com um longa e três curtas por sessão, exceto um dos dias, que terá dois longas”. O festival se realiza no Centro de Convenções Guararapes, na divisa com Olinda, num auditório enorme, com cerca de 1500 lugares, invariavelmente tomados. É o festival de maior público do país, e o Centro de Convenções é apelidado de “o Maracanã dos festivais”. Após a cerimônia, a organização lançou o livro comemorativo das 15 primeiras edições. A deste ano será a 16ª deste que é um dos mais importantes eventos cinematográficos do calendário brasileiro.

 

 

MOSTRA COMPETITIVA DE LONGAS-METRAGENS

À Beira do Caminho (RJ) – Ficção
Direção: Breno Silveira

Boca (SP) – Ficção – 100’
Direção: Flávio Frederico

Corda Bamba, História de uma Menina Equilibrista (RJ) – Ficção – 80’
Direção: Eduardo Goldenstein

Estradeiros (PE) – Documentário – 79’
Direção: Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro

Jorge Mautner – O Filho do Holocausto (RJ) – Documentário – 93’
Direção: Pedro Bial e Heitor D’Alincourt

Na Quadrada das Águas Perdidas (PE) – Ficção – 74’
Direção: Wagner Miranda e Marcos Carvalho

Paraísos Artificiais (RJ) – Ficção – 96’
Direção: Marcos Prado

MOSTRA COMPETITIVA DE CURTAS-METRAGENS

A Fábrica (PR) – Ficção, Direção: Aly Muritiba, 15’
As Folhas (PB) – Ficção, Direção: Deleon Souto 14’
Até a Vista (RS) – Ficção, Direção: Jorge Furtado, 18’
Cesar! (SP) – Ficção, Direção: Gustavo Suzuki, 15’
Di Melo- O Imorrível (SP) – Documentário, Direção: Alan Oliveira e Rubens Passáro, 24’
Depois da Queda (MT) – Ficção, Direção: Bruno Bini, 17’
Dia Estrelado (PE) – Animação, Direção: Nara Normande, 17’
Garotas da Moda (PE) – Documentário, Direção: Tuca Siqueira, 20’
Isso não é o Fim (BA) – Ficção, Direção: João Gabriel, 15’30”
Maracatu Atômico – Kaosnavial (PE) – Ficção, Direção: Marcelo Pedroso e Afonso Oliveira, 20’
Km 58 (AL) – Ficção, Direção: Rafhael Barbosa, 20’
L (SP) – Ficção, Direção: Thais Fujinaga, 21’
O Descarte (PR) – Animação, Direção: Carlon Hardt e Lucas Fernandes, 15’
Quadros (PR) – Ficção, Direção: Sara Bonfim, 16’
Qual Queijo Você Quer? (SC) – Ficção, Direção: Cintia Domit Bittar, 11’15”
Sonhando Passarinhos (DF) – Ficção, Direção: Bruna Carolli, 12’
Na sua Companhia (SP) – Ficção, Direção: Marcelo Batista Caetano, 21’
Zuleno (PE) – Documentário, Direção: Felipe Peres Calheiros, 20’

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04.outubro.2011 15:04:44

Sem tempo para pensar

Acabou o Festival de Brasília, estou no aeroporto esperando o voo para São Paulo. Checo e-mails e vejo que amanhã começam as sessões de imprensa para a Mostra de São Paulo, que já tem coletiva marcada para sábado (sim, sábado!) de manhã. Um festival emenda no outro, uma mostra segue outra, como num continente único, sem definição, sem fronteiras, sem tréguas. Não temos tempo para pensar. E, no entanto, teimosamente eu penso. Logo, existo.

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O retrato de um sofrido rito de passagem adolescente, O Último Verão de La Boyita, da Argentina, foi o grande vencedor do 20.º Cine Ceará. A produção, dirigida pela cineasta Julia Solomonoff, recebeu o troféu Mucuripe de melhor filme e faturou ainda as estatuetas de som e montagem. É um bonito e delicado trabalho, que narra a perda da inocência de uma garota da cidade em um ambiente rural. A produção tem méritos e não se pode contestar sua vitória. A não ser que se considere que o júri, talvez, tivesse alternativas ainda melhores.

 

Por exemplo, o espanhol A Mulher Sem Piano, de Javier Rebollo, que ficou com os troféus de fotografia, roteiro e direção. É trabalho feito de silêncios e subentendidos e narra a pequena aventura noturna de uma dona de casa frustrada, em uma Madri solitária. Pode-se perguntar de que maneira pode um filme ter a melhor fotografia, o roteiro mais convincente, ser o mais bem dirigido e, ainda assim, não merecer o prêmio principal. Esse tipo de alquimia é recurso comum dos júris para dividir prêmios. Usual, embora questionável, pois afrouxa o rigor da premiação.

De qualquer forma, o perfil dos premiados mostra que houve divisão interna em torno desse dois longas, considerados os melhores da seleção proposta pelo festival a um corpo de jurados formado pelos cineastas Roberto Farias (presidente) e Miguel Mato, da Argentina; pelos produtores José Vargas (Colômbia) e Luis Reneses (Espanha), e pela crítica francesa Sylvie Debs.

Esse júri mostrou vocação distributivista ao premiar todos os concorrentes, com exceção do mexicano Alamar. Assim, o documentário Memória Cubana, de Alice Andrade, levou o Prêmio Especial do Júri e O Último Comandante, de Vicente Ferraz e Isabela Martínez, ficou com o troféu de ator, dividido entre Damian Alcázar e Alfredo Catania. Já o cubano Lisanka, de Daniel Diaz Torres, rendeu o prêmio de atriz a Miriel Cejas. O brasileiro Estrada para Ythaca, assinado em conjunto pelos diretores Guto Parente, Luiz Pretti, Ricardo Pretti e Pedro Diógenes, ganhou o troféu de melhor trilha sonora. Do Amor e Outros Demônios, de Hilda Hidalgo, recebeu o prêmio de direção de arte.

Como a seleção de concorrentes era boa, não se pode contestar a opção dos jurados pelos vencedores. Mas pode-se apontar uma tendência, além do distributivismo: a opção por obras mais lineares do ponto de vista estético. As produções mais ousadas ficaram em segundo plano. Estrada para Ythaca, um estimulante sintoma de renovação do cinema brasileiro, recebeu um mero troféu para trilha sonora. E o mix de documentário e ficção Alamar, de Pedro González-Rubio, teria saído de mãos abanando caso a crítica não lhe tivesse dado seu prêmio, reconhecendo nele a ousadia da proposta e a originalidade do olhar sobre a relação entre um filho e seu pai pescador num santuário ecológico mexicano. É obra que merece melhor visibilidade e discussão.

Entre os curtas, o cardápio não pareceu tão brilhante, mas havia bons concorrentes. O destaque foi para Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro, premiado como melhor filme pelo júri oficial e pela crítica. Faturou também os troféus de roteiro e ator. Ave Maria, Mãe dos Sertanejos, do pernambucano Camilo Cavalcante, ganhou o prêmio de direção e montagem. Ensaio de Cinema, registro entre o poético e o realista da dupla que prepara uma performance em sua casa, em Santa Tereza (RJ), foi o curta que encantou a todos, crítica e júri. Com justiça. Mas, da mesma forma, outras propostas originais, como A Amiga Americana, foram postas de lado, o que é pena.

Homenagem. A cerimônia de premiação foi simples e rápida. Contou ainda com a homenagem à atriz Patricia Pillar, que recebeu seu troféu das mãos do ator Salvatore Basile, italiano radicado na Colômbia que participou de filmes de Sergio Leone (Era uma Vez no Oeste) e Werner Herzog (Cobra Verde), entre muitos outros. Patricia, simpática e linda como sempre, ressaltou a importância de festivais ibero-americanos, que promovem integração entre povos de culturas irmãs, porém cinematograficamente desconectados por questões de mercado.

A noite de encerramento foi provavelmente a última realizada pelo festival no histórico Cine São Luiz. Um cinema bonito, grandioso, de outros tempos, mas ultrapassado do ponto de vista técnico. E, sobretudo, situado em local, a Praça do Ferreira, que a população de Fortaleza não considera seguro. Ano que vem, disse ao Estado o diretor do festival, Wolney Oliveira, o Cine Ceará muda-se para o não menos histórico Teatro José de Alencar. Um templo da música e da ópera que será adaptado a essa arte mais jovem, que é o cinema, a partir de 2011.

 

PRINCIPAIS VENCEDORES
FILME: O Último Verão de La Boyita

DIRETOR: Javier Rebollo (A Mulher Sem Piano)

FOTOGRAFIA: Santiago Racaj (A Mulher Sem Piano)

EDIÇÃO: Rosario Suárez e Andrés Tambornino (O Último Verão de La Boyita)

ROTEIRO: Lola Mayo e Javier Rebollo (A Mulher Sem Piano)

SOM: Lena Esquenazi (O Último Verão de La Boyita)

TRILHA ORIGINAL: Luiz Pretti e Uirá dos Reis (Estrada para Ythaka)

DIREÇÃO DE ARTE: Juan Carlos Acevedo, de Do Amor e Outros Demônios

ATOR: Damián Alcázar e Alfredo Catania (O Último Comandante)

ATRIZ: Miriel Cejas (Lisanka)

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: Memória Cubana, de Alice Andrade e Iván Napoles.

CURTA: Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro

(Caderno 2, 3/7/10)

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O Último Verão de La Boyita, da Argentina, ganhou o troféu Mucuripe de melhor filme no Cine Ceará. Faturou também os prêmios de som e montagem.

O espanhol A Mulher sem Piano ficou com fotografia, roteiro e direção.

O documentário Memória Cubana levou o Prêmio Especial do Júri

O Último Comandante ficou com o troféu de ator, dividido entre Damian Alcázar e Alfredo Catania.

O cubano Lisanka rendeu o prêmio de atriz a Miriel Cejas.

O brasileiro Estrada para Ythaca teve a melhor trilha sonora.

Do Amor e outros Demônios recebeu o troféu de direção de arte.

O único concorrente que nada recebeu do júri oficial foi o mexicano Alamar. Por sorte, recebeu o prêmio de melhor filme pela crítica.

Entre os curtas, o destaque foi para Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro, premiado como melhor filme pelo júri oficial e pela crítica.

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SAio daqui a pouco para o Cine São Luiz, na Praça do Ferreira, em Fortaleza, para a premiação do Cine Ceará. Foi uma bela seleção de filmes. Não sei o que vai dar na votação do júri, mas eu gostei muito do mexicano Alamar, do brasileiro Estrada para Ythaca e do espanhol A Mulher sem Piano. Mas algo me diz que Do Amor e Outros Demônios pode ter caído no gosto dos jurados. É só uma impressão. Vamos ver.

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FORTALEZA – A ideia de festivais como o Cine Ceará é propor alternativas à mesmice do circuito exibidor. Não está sozinho nessa missão. No amplo leque de festivais de cinema que formam o calendário brasileiro, cerca de 200, segundo as últimas estimativas, muitos se conformam em repetir títulos já batidos, ou apresentar “mais do mesmo”, produções que se acomodam na monotonia temática e estética palatável ao grande público. Mas festivais como o de Tiradentes e Brasília, para citar apenas dois, apostam no novo e no imprevisível, assim como o de Fortaleza.

Essa busca pelo diferente dá-se em dois níveis. Primeiro, pelo recorte ibero-americano, que privilegia títulos desprezados pelos distribuidores patrícios. Pudemos assim descobrir pérolas como o mexicano Alamar e o espanhol A Mulher sem Piano, que dificilmente chegarão ao circuito brasileiro, tolamente orgulhoso de ser um dos mais diversificados do mundo. Segundo, por um diálogo intenso com os institutos de cinema de Cuba, ou seja, o Icaic (Instituto Cubano del Arte y Industria Cinematograficos), e a Escuela de Cine y TV de San Antonio de los Baños. Wolney Oliveira, o diretor do festival, lá estudou. Só para avaliar a participação da Escuela no Cine Ceará, basta mencionar que nada menos que três longas são dirigidos por ex-alunos – El Último Comandante (Vicente Ferraz), O Amor e Outros Demônios (Hilda Hidalgo) e Memória Cubana (Alice Andrade). Daniel Diaz Torres, diretor de outro concorrente, Lysanka, é professor da Escuela.

Além disso, um grupo local, de jovens que formam a cooperativa Alumbramento, tomou de assalto o Cine Ceará. Além do notável longa-metragem Estrada para Ythaca, apresentou vários curtas-metragens na mostra competitiva, como A Amiga Americana, Cidade Desterro e Supermemórias. São projetos de risco, inovadores, preocupados com a pesquisa da linguagem cinematográfica.

Ou seja: o cinema não se resume à monotonia da distribuição comercial. O novo existe. Só precisa de oportunidades para aparecer.

(Caderno 2, 1/7/10)

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FORTALEZA – Com um filme intimista argentino (O Último Verão de La Boyita) e uma co-produção entre Brasil e Nicarágua de cunho político (El Ultimo Comandante), fecha-se o cardápio dos longas-metragens concorrentes do 20º Cine Ceará. Os prêmios do festival cearense serão anunciado hoje no Cine Sesc/São Luiz, em noite que promete, porque terá também a exibição fora de concurso do documentário Matar um Elefante, de Alberto Arce e Mohammad Rujailah, sobre o conflito no Oriente Médio. O diretor do festival, Wolney Oliveira, conta que ficou chocado ao ver esse filme, que traz imagens jamais vistas de combates entre israelenses e palestinos. “A maior parte das cenas é filmada do interior de uma ambulância, e nos sentimos em pleno campo de batalha”, diz.

Esse clima bélico prometido para a noite de encerramento contrasta com a delicadeza de O Último Verão de La Boyita, da argentina Julia Solomonoff. Obra de alma feminina, fala do rito de passagem da adolescência para a idade adulta, com a descoberta da sexualidade e dos mistérios das diferenças entre os sexos. Jorgelina (Guadalupe Alonso) passa férias na fazenda que o pai, médico em Buenos Aires, mantém no interior. Lá ela reencontra Mário (Nicolas Treise), filho de agricultores da região e seu companheiro de brinquedo. Mas o garoto parece doente, pois apresenta estranhos sangramentos quando anda a cavalo. Aliás, ele é excelente cavaleiro e prepara-se para disputar uma corrida local.

Julia, nesse que é seu segundo longa-metragem, trata desse assunto complicado com sutileza. Maneja uma câmera amiga, que passeia pelos detalhes do campo e desenha uma bucólica vida interiorana. Um verão intenso, com banhos no rio, cavalgadas e descobertas, tempo de angustia para o adulto em formação, ainda mais quando defrontado a uma sexualidade ambígua e, portanto, perturbadora. Nesse mundo de luz e sombras, pode-se dizer que a cineasta consegue, com simplicidade, colocar um olhar límpido, que clareia as coisas e as dispõe em seus lugares, sem, contudo propor soluções fáceis ou finais felizes artificiais. Um belo filme. “La Boyita”, para esclarecer o título, é apenas o trailer no qual a família se desloca pelo interior.

El Último Comandante, de Vicente Ferraz e Isabel Martinez, seria exibido após o fechamento desta edição. Fala de um tema explosivo, dentro do dogmatismo revolucionário da esquerda latino-americana. Seu personagem é um comandante sandinista que resolve abandonar a revolução nicaraguense e tornar-se professor de dança na vizinha Costa Rica. Ferraz já é conhecido do público brasileiro por seu documentário Soy Cuba – o Mamute Siberiano, que participou de festivais (venceu o de Gramado) e foi lançado em circuito comercial. Fala de um filme da era da Guerra Fria – Soy Cuba – dirigido na ilha de Fidel por um cineasta soviético. O filme havia caído no limbo até ser redescoberto por cineastas como Martin Scorsese e reconhecido como obra-prima.

(Caderno 2, 1/7/10)

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