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Luiz Zanin

Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz consegue traduzir, em sua linguagem, a forma mesma de ver o mundo do homenageado. Será preciso dizer que, sem abdicar de sua linguagem própria, Joel Pizzini, para falar de Sganzerla, torna-se sganzerliano.

Primeiro, por renunciar a qualquer tentativa de narratividade; opta, ao contrário, pela fatura de um filme-colagem, como era a forma de pensamento predominante fragmentária, e explosivamente criativa, do autor de O Bandido da Luz Vermelha.

E a menção a essa obra-prima do cinema nacional torna-se oportuna para lembrar que a trajetória de Rogério não se resume a essa pseudobiografia de um personagem real, o assaltante João Acácio. O Sganzerla de todas as fases de sua vida ganha espaço nesse documentário tanto amoroso quanto rigoroso com o personagem. Tenta, à sua maneira estilhaçada de elaborar conceitos, mostrar as principais linhas de força da ação de Rogério. Por um lado, a mensagem longínqua da antropofagia oswaldiana. Por outro, a obsessão com Orson Welles e sua caótica passagem pelo Brasil. Por fim, o diálogo e filiação com o cinema dito marginal naquilo que ele teve de mais criativo. Rogério está no filme.

(Caderno 2)

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14.maio.2012 11:26:43

Mautner

A contracultura está na moda. Ou voltou à moda. Na verdade, talvez, nunca tenha saído de cena. A mensagem libertária do final dos anos 60, início dos 60 provavelmente ainda não deixou de fazer sentido e talvez faça até ainda mais. Tem sobrevivido em seus cultores mais notáveis e midiáticos, como Caetano, Gil, talvez Zé Celso e agora coloca em cena a figura de Jorge Mautner, neste belo documentário de Pedro Bial e Heitor D’Allincourt.

Não que Mautner fosse uma figura menor. Nada disso. Apenas, talvez, fosse ofuscado pelo brilho excessivo de outros. O filme o repõe em seu lugar. E, na verdade, encontra um lugar para Mautner, não apenas na vaga contracultural, mas na própria cultura brasileira, em um dos seus aspectos fortes – a diversidade étnica, o melting pot causado pela quantidade e qualidade dos imigrantes que por aqui se encontraram.

Mautner é um deles. De família já mista (judeu austríaco com católica) é um legítimo filho do Holocausto, como está no subtítulo da obra. Seus país vieram ao Brasil expulsos pela guerra e pela perseguição aos judeus. Jorge, o garoto, nasceu no barco. A família se estabeleceu no Rio mas, com o divórcio dos pais, o menino veio para São Paulo, para morar com a mãe e o padrasto. Em São Paulo, cidade de imigrantes de todos os cantos do mundo, caiu num caldeirão cultural ainda mais diversificado.

O trabalho com material de arquivo, para evocar esses anos em transe da humanidade, é muito bom. Nos joga em cheio no rumor da História e relembra que as pessoas, mesmo as mais criativas, levam essas marcas do seu tempo. Não numa relação direta de causa e efeito, é claro, mas esses artistas, como antenas da época, absorvem essas marcas, de uma maneira ainda mais visível e contundente. Mautner expressou seu tempo não apenas em, versos e músicas, mas no cinema. É roteirista de Jardins de Guerra, de Neville D’Almeida e dirigiu em Londres, o malucaço O Demiurgo, feito com sobras de negativo de Queimada!, de Gillo Pontecorvo, como informou Pedro Bial.

Transformada em característica de geração, a contestação vinha da música, dos filmes, mas também do comportamento. Uma vida “à margem do sistema”, como se dizia na época. E que não se dava sem conflitos, tanto com as autoridades constituídas, quanto com as gerações seguintes. Um dos trechos mais reveladores é o encontro de Jorge Mautner com sua filha, Amora, hoje uma conhecida atriz e diretora de TV da Globo.

Na conversa, ela cobra o pai. “Esse nome me custou muita gozação na escola”. Inútil dizer que havia a vantagem de não ter nenhuma coleguinha com o nome igual ao seu. Há uma fase da vida em que as pessoas não querem se diferenciar, querem ser iguais às outras. E filha de maluco beleza sofre. Ela se queixa também de que o pai andava nu pela casa. É engraçado, mas se você for pensar bem, não deixa de ser curioso. Uma geração rompe com tudo, ou quase tudo; a seguinte recupera valores. E assim caminha a humanidade, como diz o título daquele filme.

Dessa fricção, anda-se um pouco mais à frente. Mautner, como outros, é um desbravador de caminhos. Mesmo que o filme não entre em detalhes mais íntimos, adivinha-se uma vida de grande riqueza pessoal, ao lado da realização artística.

(Caderno 2)

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13.maio.2012 13:25:14

Uma Longa Viagem

 

 

De maneira um tanto esquemática, costuma-se dizer que a juventude radical dos anos 60/70 tinha duas alternativas – as armas ou as drogas.

Ambas conviveram na mesma família, a da cineasta Lúcia Murat, e este é o núcleo duro do seu belíssimo documentário Uma Longa Viagem, que entra agora em cartaz depois de vencer o Festival de Gramado de 2011.

A própria Lúcia Murat lutou contra a ditadura e pagou caro por isso. Foi presa e torturada. Mas o personagem mais evidente do filme não é a cineasta e sim seu irmão, Heitor, que foi mandado para o exterior pela família para protegê-lo de um possível envolvimento com a luta armada. É de Heitor a “longa viagem” de que fala o título. Há ainda outro irmão presente na narrativa, o médico Miguel. Mas está presente de maneira discreta, apenas pela narrativa de Lúcia e algumas fotos.

Quem toma a frente é Heitor, entrevistado pela irmã. Ele, e seu “duplo”, interpretado pelo ator Caio Blat, ao ler as cartas que o andarilho enviava à sua família, em especial à mãe. É um recurso interessante, funcional e bastante tocante, afinal de contas. Caio lê as cartas, como se as estivesse escrevendo.  Ao fundo, imagens “em transparência”, evocando os lugares de que fala, alguns exóticos. A técnica foi inspirada pelo curta-metragem Superbarroco, de Renata Pinheiro. A atmosfera assim criada, pela leitura das cartas e pelas imagens em sobreposição, beira ao onírico, mais que ao realístico.

E, de fato, as viagens de Heitor tinham esse caráter de um sonho um tanto desesperado, mas cuja profundidade quase nunca aparece na narrativa das cartas – muito bem escritas, vívidas, mas destinadas mais a sossegar a família do que esclarecer exatamente o que ele estava passando. Esse sentido se completa pelo que fala, com a dicção um tanto prejudicada talvez pelos medicamentos, mas com a inteligência intacta de quem andou muito, muito viu e tanto experimentou. Tudo é expresso com um invejável senso de humor, que contamina (de maneira positiva) o filme do princípio ao fim.

É bom que haja esse tempero, mesmo porque Uma Longa Viagem traz também passagens pouco agradáveis, como a memória dos tempos de cárcere de Lúcia. Ou os episódios de internação de Heitor, como consequência provável de suas trips prolongadas. Há também o elemento deflagrador do filme – o luto pela morte prematura do irmão Miguel, um médico abnegado, cheio de consciência social.

Nesse ambiente, tanto emocional como rigoroso, se estabelecem as maneiras muito diferentes de resistir contra a ditadura e que se deram no interior de uma mesma família: a resistência pelo trabalho social; o confronto armado, a adesão à contracultura. Racionalizadas, essas opções cobririam quase o espectro completo das formas possíveis de sobrevivência em tempos ruins. Pois é claro que, falando de pessoas particulares, Uma Longa Viagem trata de toda uma época da história recente brasileira, uma fase de ruptura, cujas consequências ainda estão presentes na vida de todos e não apenas nas de seus protagonistas.

 

(Caderno 2)

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Quem se importa? É a interrogação (retórica) do filme de Mara Mourão, ao refazer a pergunta inglesa (who cares?) a respeito da desordem do mundo. A resposta será imediata: muita gente se importa com temas como a pobreza, a poluição, a falta de saúde, a injustiça. Essa gente que faz não age em nome de governos ou  ideologias políticas. São seres autônomos, que se organizam e tentam mudar as coisas. Em outra época, seriam chamados de filantropos; hoje escolhem a denominação de empreendedores sociais.

Onde agem? Em hospitais para crianças doentes, alegrando-as (é o caso do próprio marido de Mara, Wellington Nogueira e seu projeto Doutores da Alegria); é o caso do empresário criador de microcréditos para pessoas muito pobres, em geral à margem do sistema bancário. Outro, um médico, projeta um serviço de atendimento inédito na Amazônia, em lugares de difícil acesso. Outro brasileiro funda uma comunidade, na qual a pequena economia se retroalimenta e assim sobrevive. Uma norte-americana larga a carreira promissora e viaja mundo tentando dar assistência jurídica a pessoas injustamente presas; começa pelo Camboja e tenta chegar à China.

São todas iniciativas meritórias, sem dúvida. Quem pode ser contra a prática do bem? Às vezes, no entanto, as soluções parecem óbvias demais. O documentário contempla os sucessos, nunca os tropeços. Temos dificuldade em entender por que motivo, sendo tão evidentes e fáceis as soluções de certos problemas crônicos, eles ainda não foram resolvidos. É verdade também que muitos dos depoentes assumem um ar beatífico, típico dos gurus. A música e o quadro de fundo das entrevistas, decorado com revoadas de pássaros virtuais, não ajuda. Há música melosa. E vai por aí.

Nada disso no fundo é novo, mas pessoas de boa vontade são sempre bem-vindas. Ainda mais em tempo de individualismo atroz como “filosofia” de vida dominante. Esse empreendedorismo social, no entanto, deve ser compreendido. Ele parece fruto do desencanto com governos e ideologias de qualquer espécie. Baseia-se num voluntarismo do bem e volta as costas para qualquer política – a não ser as micropolíticas de intervenção local. Acredita piamente na ação em casos específicos e na multiplicação espontânea dos seus agentes, uma espécie de corrente que, em certo prazo, seria capaz de mudar o planeta. Não faz uma crítica estrutural do modelo econômico dominante, apenas deplora seus efeitos – como se uma coisa estivesse desligada da outra. Enfim, como definiu um desses personagens, o empreendedor social é um misto do capitalista ávido de lucro com Madre Teresa de Calcutá. É preciso ver se personagem tão contraditório para em pé.

 

 

 

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Planeta Caracol e Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz vencem nas categorias principais

Principal evento dedicado à cultura do documentário na América Latina, o É TUDO VERDADE 2012 – FESTIVAL INTERNACIONAL DE DOCUMENTÁRIOS divulga nessa noite do sábado, 31 de março, os vencedores de sua 17ª edição.

O júri internacional foi formado pela professora e pesquisadora norte-americanca Betsy A. Mclane, pelo cineasta e diretor de fotografia Cesar Charlone e pelo documentarista israelense radicado nos Estados Unidos Micha X. Peled.

Os premiados dessa edição do É Tudo Verdade são:

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Melhor Documentário Longa-Metragem
Planeta Caracol, de Seung-Jun Yi

Melhor Documentário Curta-Metragem
Vovós, de Afarin Eghbal

Menção Honrosa
Queríamos Explodir o Vasa, de Idji Maciel e Simon Moser

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Prêmio CPFL Energia É Tudo Verdade “Janela para o Contemporâneo” – Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz, de Joel Pizzini
Melhor Documentário Curta-Metragem
Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas

Menção Honrosa
A Cidade, de Liliana Sulzbach

Prêmio Aquisição Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem
Melhor Documentário
A Cidade, de Liliana Sulzbach

Prêmio Abraccine

Melhor Longa / Média-Metragem Competição Brasileira
Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz, de Joel Pizzini

Melhor Curta-Metragem Competição Brasileira
A Cidade, de Liliana Sulzbach

Prêmio ABD São Paulo de Melhor Curta-Metragem Brasileiro

Melhor Documentário
A Cidade, de Liliana Sulzbach

Menção Honrosa
Piove, Il Film Di Pio, de Thiago Brandimarte Mendonça

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Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz  (Cinesesc, 15h), de Joel Pizzini, é um filme-colagem, ou filme-ensaio sobre este que foi um dos mais importantes realizadores brasileiros.

Rogério Sganzerla, cuja trajetória, durante muito tempo, parecia resumir-se à sua obra-prima, O Bandido da Luz Vermelha, ressurge aqui em toda a sua paradoxal integridade. Paradoxal, porque, no caso de Rogério, teríamos de falar de uma integridade estilhaçada, o que pode parecer uma contradição em termos, mas talvez seja a única forma de se aproximar desse artista genial.

De maneira acertada, Pizzini não tenta uma abordagem linear da trajetória de Sganzerla, mas trabalha sobre núcleos de concentrações dos interesses do cineasta. Tampouco convoca palavra de especialistas sobre a obra do autor ou especula sobre a psicologia do personagem. Trabalha com trechos de filmes do próprio Sganzerla, e também as inúmeras entrevistas que este concedeu ao longo da sua vida. Mr. Sganzerla é um filme de montagem e, em sua feitura, incorpora as ideias do personagem sobre o processo de edição. Poderíamos portanto dizer que não se trata de um filme sobre Sganzerla, mas um filme com Sganzerla.

Das aproximações pelos núcleos de interesse, destaca-se, em primeiro lugar, o fascínio por Orson Welles. Objeto de vários filmes de Sganzerla – inclusive do último, seu testamento, O Signo do Caos, a malfadada, porém muito simbólica passagem de Welles pelo Brasil em 1942 assombra, por assim dizer, toda a obra de Rogério Sganzerla.

Como se sabe, Welles veio ao Brasil em 1942, durante a 2.ª Guerra, como parte da “política da boa vizinhança” do governo americano. Sua missão: filmar o carnaval brasileiro. Só que Welles via muito mais do que isso. Interessou-se pelas favelas e pelo samba, e teve em Grande Otelo e Herivelto Martins seus cicerones na noite carioca. Interessou-se também pela expedição dos jangadeiros cearenses que navegaram de Fortaleza ao Rio para reivindicar direitos trabalhistas a Vargas. Welles quis refazer a chegada dos jangadeiros à Baía de Guanabara e um deles, Jacaré, afogou-se, em acidente pouco esclarecido. Welles jamais se recuperou desse golpe e o filme, chamado It’s All True (É Tudo Verdade), foi interrompido.

Esse episódio marca toda a vida de Orson Welles e o “filme brasileiro”, como ele se referia a It’s All True, restou como trauma, como ele diz em seu depoimento a Peter Bogdanovich. Sganzerla incorpora esse trauma do mestre e o retoma como reflexão sobre a realidade brasileira. Passa a vida escavando esse acontecimento, com suas implicações simbólicas para a cultura brasileira. É o cerne de Mr. Sganzerla, como foi o núcleo duro da obra do próprio diretor.

Em torno dele se organizam outros planetas do imaginário de Sganzerla, como o tropicalismo, a paixão pela música nacional e Oswald de Andrade. Nossos telescópios críticos ainda investigam essa galáxia de modo muito distante.

(Caderno 2)

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Um longo programa de filmes de Andrés Di Tella – Reconstituição do Crime da Modelo, Macedônio Fernández, Montoneros, uma História e Golpes de Machado – será seguido por um debate com o cineasta, no CCBB, mediado pelo diretor do Festival É Tudo Verdade, o crítico Amir Labaki. Ver estes filmes proporciona uma experiência cinematográfica singular. Conversar com seu autor deverá ser muito interessante. Di Tella é aquele tipo de cineasta que não conhecemos e, depois de ver sua obra, nos perguntamos o que andamos fazendo até agora para ignorá-lo.

Montoneros, por exemplo. Seria um filme a mais do rico manancial do cinema de denúncia que nossa vizinha, a Argentina, muito mais do que nós, tem se incumbido de criar, como que tentando digerir a tragédia da ditadura militar? Em certo sentido, sim. Mas a história do grupo armado  é filtrada quase exclusivamente pelo ponto de vista de uma de suas militantes, Ana, o que dá tom intimista ao relato.

Na contracorrente da tendência a ampliar os limites tanto do heroísmo quanto da vitimização dos protagonistas da luta armada, o longo depoimento de Ana, entremeado aos   de seus ex-companheiros,  surpreende pela franqueza. Ela se refere, em especial, ao estranho sentimento de culpa por haver saído viva de uma situação em que a maioria morreu. Pelo mesmo motivo, acabou vista por seu ex-marido como traidora.  Como se fosse traição sair com vida da sinistra Esma (Escola de Mecânica da Armada), que servia de base para interrogatório e tortura. Esses tempos terríveis emergem com grande força de verdade desse filme que nunca tenta coroar personagens com a aura da perfeição e também não disfarça o terrível período histórico de que foram protagonistas.

Mais interessante ainda é Hachazos (Golpes de Machado), trabalho de 2004 que repõe em cena a figura de Claudio Caldini, cineasta experimental, autoexilado durante dez anos na Índia. Tido como excêntrico, ou louco, Caldini agora trabalha como caseiro numa chácara em General Rodríguez, subúrbio de Buenos Aires. A narração (feita pelo próprio diretor) diz que todas as posses de Caldini cabem em sua maleta de couro. Ou seja, suas anotações, papéis espalhados e, acima de tudo, seus filmes, dos quais vemos alguns trechos.

O curioso é que, em Golpes de Machado, o próprio Di Tella assuma uma linguagem cinematográfica mais experimental, como se dialogasse diretamente com o material de que é feita, não apenas a obra, mas a personalidade do seu entrevistado. Ficamos sabendo que essa  afinidade com o sistema do outro não se dá por acaso: “Caldini foi o primeiro cineasta que vi em ação”, diz Di Tella. Vemos o resultado dessa parceria. Um dos filmes de Caldini mostra uma mulher sendo enterrada viva (“Num tempo em que muitos na Argentina recebiam sepulturas anônimas”, diz a voz em off). Quem joga a terra sobre o corpo é ninguém menos que Andrés Di Tella, então um garoto, servindo de assistente a Caldini.

Golpes de Machado não realiza apenas o ato caridoso de exumar todo um ramo da cinematografia argentina sepultado,  o experimental, através de um dos seus representantes. É também uma maneira de reorientar o trabalho do próprio Di Tella pela volta a uma de suas raízes. “Depois deste filme, não farei mais cinema do mesmo jeito”, ele diz. É para se acreditar. De certa forma Montoneros e Golpes de Machado mostram duas reações possíveis à ditadura militar. Antagônicas? Complementares?

(Caderno 2)

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Dino Cazzola – uma Filmografia de Brasília, de Andréa Prates e Cleisson Vidal, apresenta, em seu título e subtítulo, de maneira simples, seu personagem, seu tema e alcance.

Basta sabermos, como o filme logo de saída nos informa, que Dino Cazzola, para quem não o conhece, foi um cinegrafista de origem italiana, que veio para o Brasil, radicou-se na nova capital desde os seus primórdios e registrou-a, de todas as formas possíveis, com suas lentes.

Há, é bem verdade, um subtema, oculto, e que logo aflora, o da sempre problemática conservação do material fílmico no País. Ficamos sabendo que mais de 70% do que Cazzola filmou desapareceu, para sempre, por falta de conservação adequada. As imagens são dramáticas. Latas são abertas e os filmes vão sendo retirados. Alguns deles, ainda passíveis de restauro; a maior parte, perdida. “Lixo, lixo, lixo” vai repetindo a voz do especialista, com tonalidade desolada, a cada vez que examina o conteúdo de uma lata recém-aberta. De vez em quando, surge o ouro: o material é recuperável. Mas a desproporção entre o que se perdeu e o que ainda dá para salvar é muito grande. Enfim, para dar números à coisa: foram analisados 3 mil rolos de filmes, dos quais restaram 300 horas de material filmado entre as décadas de 1960 e 1970.

Então há esse lado, sempre a lamentar, do caráter perecível do material cinematográfico. O que se perde não tem volta. De maneira geral, os filmes que tratam desse assunto tem esse tom lamentoso, muitas vezes deixando de informar por que o material perdido não recebeu tratamento adequado enquanto era tempo. No caso de Cazzola,as latas  eram guardadas no sótão da casa do cineasta, conta seu filho.

Por outro lado, lamento à parte, há o que sobrou. E esta sobra constitui um acervo riquíssimo, que documenta a capital em várias de suas fases de existência, incluindo registros anteriores à inauguração, em 1960. O material bruto talvez não tivesse grande interesse, a não ser para especialistas. Mas, da maneira como foi manipulado e montado, torna-se fascinante porque conta uma história, a dessa cidade incrível, plantada no meio do nada, numa época em que ainda se era capaz de sonhar e pensar grande. Hoje, talvez Brasília não saísse do papel. Ou talvez sequer fosse cogitada.

Por isso mesmo são comoventes os registros das primeiras fases da construção, aqueles esqueletos de edifícios surgindo como espectros em meio ao cerrado. Aquilo foi uma aventura, da qual já se mostrou também o avesso no grande documentário de Vladimir Carvalho, Conterrâneos Velhos de Guerra, sobre os trabalhadores que construíram a capital e dela foram expulsos quando não eram mais necessários.

De modo que o desafio era dar ao material salvo a estrutura narrativa que o transformasse numa boa história. Como conta a pesquisadora Andréa Prates, as latas continham títulos secamente jornalísticos, como Construção do Eixo Norte-sul; Discurso de Tancredo Neves 1961; Construção da Catedral, etc. “Vamos filmar para a História”, dizia Dino, de acordo com o cinegrafista Paulo Guerra, que trabalhou com ele. Filmava tudo, guardava tudo e, sobre esse instinto cumulativo, os diretores se debruçam para, do material bruto, tirar o seu cerne.

E há a história do próprio personagem. Filho de uma cidadezinha ao norte de Milão, destruída pela guerra, Dino foi encontrado pelo exército brasileiro e veio morar no País. Aqui testemunhou a mais formidável construção do século 20. Vítima da guerra, aqui Dino Cazzola reconstruiu-se. Talvez por isso mesmo tenha se fascinado tanto pela obra de Brasília, a ponto de registrar-lhe todos os passos e etapas.

(Caderno 2)

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Um documentário musical brasileiro dá partida num evento que traz mais de 80 filmes, de 27 países, sendo 25 em estreia mundial. Trata-se de Tropicália, de Marcelo Machado que será exibido hoje para convidados do 17.º É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. Em sua versão carioca, o É Tudo Verdade também vai de musical. Só que lá o tom muda um pouco com Jorge Mautner – O Filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, que inicia o programa. O festival se desenvolve paralelamente nas duas cidades, de hoje (em São Paulo) e amanhã (no Rio) até dia 1.º de abril. Posteriormente, haverá itinerância da mostra em Brasília e Belo Horizonte.

Há muito que descobrir ao longo desses dias de festival. E, claro, entre as surpresas que sempre existem, estão os programas incontornáveis, as obras dos mestres. Como são os casos do novo filme de Werner Herzog, Into the Abyss, sobre a pena de morte, e o do norte-americano Frederick Wiseman, Crazy Horse, sobre o cabaré parisiense.

Também não dá para perder a apresentação do clássico dos clássicos do documentário nacional, Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, na cópia por fim restaurada pela Cinemateca Brasileira. A reapresentação do filme será acompanhada de dois debates e de uma mostra com sete títulos do diretor, chamada Coutinho – A Caminho do Cabra. Pode-se prever que esse evento, com a presença do cineasta e debatedores, será um momento histórico deste festival.

O É Tudo Verdade não poderia começar melhor em termos de história. Tropicália é um filme empolgante, e, à melhor maneira dos grandes documentários, deixa um resíduo de reflexão considerável a ser assimilado pelo espectador. Daí ser muito restritiva a definição de “documentário musical” aplicada ao filme de Marcelo Machado. Sem deixar de sê-lo, Tropicália vai além.

Servindo-se de uma pesquisa de imagens primorosa, coloca o movimento tropicalista no interior de contexto histórico muito bem definido – e fora do qual ele talvez não fizesse tanto sentido.

Contexto definido e datado: o próprio Caetano Veloso, em imagens à TV portuguesa, entrevistado por Raul Solnado em 1969, diz que naquele tempo o tropicalismo já era coisa do passado. Fora, então, uma breve e luminosa primavera, cozinhada em 1967 e que desandara pouco após o AI-5, texto autoritário que colocara toda a criatividade nacional em estado de sítio. Na época da entrevista a Solnado, Caetano e Gil estavam no exílio, a caminho de Londres, onde ficariam até que houvesse clima para voltar.

Podemos ter lido livros e mais livros sobre a história do movimento, conhecermos as músicas de cor e sabermos as inúmeras teorias sobre sua importância na linha evolutiva da MPB. Não importa. Alguma coisa diferente o filme nos traz, e o faz pela força das imagens e dos sons. Pela emoção. Pela maneira como é pensada toda essa lisérgica ciranda entre pessoas, um clima de época efervescente, posturas políticas diversas, temperamentos opostos – tudo isso jogado no caldeirão de um clima febril, em que tanto a redenção como o abismo pareciam a um passo.

O filme faz viajar no tempo aqueles que o viveram e produz uma espécie de nostalgia do não vivido entre os mais jovens.

(Caderno 2)

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17.março.2012 20:31:32

Rauuuuul…

Raul, o Início, o Fim e o Meio não é apenas mais um documentário musical. O filme de Walter Carvalho faz imersão total no personagem e no clima de época. Vê-lo é experiência radical, tanto para fãs do Maluco Beleza quanto quem pensava não ligar muito para ele.

De início, o que nos envolve é a riqueza do material recolhido. Imagens pouco vistas de Raul, da juventude à decadência, se sucedem pelo filme. Mas a qualidade (e raridade) dessas imagens seria apenas uma virtude isolada do filme, caso elas não fossem potencializadas por uma montagem de fato lisérgica.

Temos, então, na tela, a dinâmica dessa vida tão intensa, queimada em meros 44 anos, e mostrada desde a pulsão extrema da juventude até os movimentos pesados e hesitantes da precoce decadência física.

E, sim, no tempo do politicamente correto, em que se varre o polêmico para debaixo do tapete para se fingir que não existe, nada é poupado de uma biografia feita de extremos. Do envolvimento com o ocultismo ao convívio com as drogas, tudo se fica sabendo neste filme adulto, sem lições moralizantes, que acredita no discernimento do espectador.

Há depoimentos surpreendentes pela franqueza. De longe, o que mais chama a atenção é o de Paulo Coelho. Mesmo quem está acostumado a tratar o escritor com certo desprezo intelectual, deverá reconhecer sua coragem ao assumir que foi ele sim quem apresentou as drogas a Raul, do ácido lisérgico aos cogumelos alucinógenos. Só se arrepende da cocaína, droga do diabo, droga do capitalismo. Há o momento curioso quando uma mosca começa a atormentar o entrevistado em sua casa em Genebra. “Engraçado, aqui não tem mosca”, diz Coelho, como a sugerir que, da conversa, havia surgido a mosca que poderia cair em sua sopa, segundo a canção famosa. Ou seja, havia surgido o espírito de Raul, o malucão que morreu jovem, enquanto seu parceiro de músicas e trips envelhece na riqueza de uma carreira consolidada. Ato contínuo, com um movimento inesperado, o mago dá cabo da intrusa.

Em meio a muita música, depoimentos fortes de amigos, parceiros e ex-mulheres e, acima de tudo, com uma pegada roqueira, Carvalho coloca seu filme em sintonia com o espírito anárquico do personagem. Usa Raul Seixas como linguagem cinematográfica nesse filme engraçado e comovente, de tom sempre jovem e contestador. Como Raul.

(Caderno 2)

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