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Luiz Zanin

Deus sabe que é impossível assistir a tudo num festival. Ontem fiz um esforço de reportagem e fui ver os filmes pernambucanos à tarde no Cine Teatro Guararapes. Fui recompensado com dois bons curtas.

Corpo Presente, de Marcelo Pedroso. Ele é conhecido pelos cinéfilos como diretor de Pacific, um dos xodós de Jean Claude Bernardet. Nele, Marcelo trabalha com imagens tomadas por turistas numa viagem a Fernando de Noronha. Agora, o papo é outro e o trabalho com rituais da morte em tom inovador. Uma mesa de preparação de cadávereres e uma boa dose de ambiguidade. O corpo preparado é de um ser humano? Não dá para contar. Mas é um dos filmes mais inquietantes que vi nos últimos tempos. E de muito rigor formal. Que não se confunde com rigor mortis, por favor.

O outro é Zé Monteiro, o Homem que Venceu as 5 Mortes, de Wilson Freire. Lúdico, conta a história do sertanejo que quase foi levado pela indesejada das gentes varias vezes. A primeira de uma febre na infância; da última, ele escapou com algumas pontes de safena. Ate se transformar em artesão já idoso. É um jeito original de enfrentar tema batido, com muito humor, tom de cordel e algumas animações feitas em cima dos artesanatos de Zé Monteiro.

A pergunta de muitos espectadores e críticos ao final da sessão: por que esses filmes não estão na mostra principal?

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O atual panorama de curtas-metragens dessa safra de Paulínia não parecia muito alentador. Muito bom-mocismo, algum chique fashion e estética ginasiana, ainda que de boa formatação técnica, dominavam o ambiente. Duas exceções, até agora: Tela, de Carlos Nader, e Qual Queijo Você Quer, de Cíntia Domit Bittar.

Em Tela, Carlos Nader relembra o tempo em que os exibidores, pressionados pela legislação, eram obrigados a a programar um curta antes da exibição dos longas-metragens. Para sabotar a lei, produziam eles próprios filmes horrorosos, que revoltavam o público. Num deles era visto um único plano, de uma plateia parada, pessoas imóveis sentadas nas poltronas de um cinema, olhando para a câmera. Uma espécie de Andy Warhol tupiniquim e oportunista. Nader brinca com a ideia e transforma o imobilismo num sutil jogo de espelhos entre tela e público.

Qual Queijo Você Quer? trabalha em registro mais simples, embora mais intenso. Mostra uma DR (discussão de relação) na terceira idade, magnificamente interpretada pelo casal de atores Henrique César e Amélia Bittencourt. Afonso pede que a esposa lhe compre um queijo e o simples fato desencadeia em Margarete uma crise de raiva, pela frustração da vida passada, que está terminando sem que os principais sonhos tenham sido realizados. Mas o que são os sonhos humanos, o que é uma vida, quais são os grandes projetos pessoais sem os quais não podemos dizer que vivemos por alguma coisa?

A diretora Cíntia Domit Bittar, muito jovem ainda, tem a sabedoria de não tentar responder a essas grandes questões, presentes na existência desde que o homem aprendeu que é mortal e deseja encontrar um sentido para sua passagem pela vida. Na cena doméstica, passam, em filigrana, essas grandes questões filosóficas. Intermináveis e irrespondíveis questões, que dá todo o sabor da nossa passagem pela vida. Apenas um reparo: o título do filme torna o desfecho meio óbvio.

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Na média, a seleção dos curtas-metragens foi fraca. Talvez não houvesse coisa melhor disponível, nunca se sabe. Fica a impressão de um momento de falta de inspiração neste formato tão propício ao risco e ao experimento.

Dito isso, alguns títulos parecem pelo menos bem interessantes. O vencedor Acercadacana, de Felipe Calheiros, é um deles. Tem qualidade cinematográfica, além do empenho político. Não se limita a denunciar a gravidade da situação da terra no Brasil, mas indica o desequilíbrio de poder envolvido na questão. Nesse sentido, é filme maduro feito por um jovem.

Muita gente ficou encantada com A Mula Teimosa e o Controle Remoto, de Hélio Vilela Nunes. O encontro entre dois meninos na fazenda, fihos, um do patrão e outro do empregado, é narrado com meios exclusivamente visuais, sem diálogos. Isso é crença poética no poder da imagem.

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A mostra de curtas-metragens continua a apresentar filmes interessantes, embora até agora nenhum pareça excepcional. Uma boa surpresa foi Acercadacana, de Felipe Calheiros (PE), sobre a extinção das pequenas propriedades na Zona da Mata de Pernambuco sob a ação das grandes usinas de cana de açúcar, produtoras de álcool.

O filme mostra como os pequenos proprietários foram sendo “convidados”, por meios nada civilizados, a deixar lotes de terras ocupados por suas famílias há várias gerações. Ouve personagens, a principal sendo Dona Maria Francisca, sertaneja disposta, que defende sua gleba de meio hectare como uma leoa. O mérito do filme não é apenas focar uma situação de injustiça, mas explicitar relações de poder presentes no conflito de forças desiguais. É filme político. Feito por jovem, o que significa que nem tudo está perdido.

Braxília, de Danyella Proença (DF), traz um personagem incrível da cidade – o poeta e agitador cultural Nicolas Behr. Com seus longos cabelos contraculturais, Behr veio de Cuiabá para Brasília nos anos 70 e mantém com a cidade um caso intenso de amor crítico. Acha que Brasília é uma utopia traída e toda vez que ela respira segundo sua inspiração original torna-se “Braxília”, um não-lugar feliz. Sua vocação melhor é a intervenção poética e o filme traduz graficamente essa disposição de espírito.

O outro filme da cidade, Falta de Ar, de Érico Monnerat, prefere voltar ao tempo da ditadura militar. Faz um paralelo entre um personagem que agoniza por problemas respiratórios e presos políticos torturados com a técnica do afogamento.

Matinta, de Fernando Segtowick, é o primeiro curta-metragem paraense a concorrer em Brasília e vem todo impregnado de espírito amazônico. Filmado na floresta, traz a lenda da Matinta-Perê (Matita, segundo outra variante), ser imaginário que pode adotar diversas formas ao atacar as pessoas. No elenco, a paraense Dira Paes, atriz global e musa do cinema independente brasileiro. O filme agrada pela singeleza de sua realização.

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Curtas. Angeli 24 Horas, de Beth Formaggini, conquistou o público de Brasília. Não apenas porque seu personagem é uma figuraça, o cartunista Angeli, mas porque o processo de construção do curta reproduz o frenético ritmo mental do artista. Angeli é visto no processo de feitura do seu cartum político diário para o jornal do dia seguinte. Nos intervalos, é entrevistado, evoca suas raízes (rapaz de classe média baixa, família de imigrantes italianos, garoto paulistano da Casa Verde) e seu processo de trabalho. É um intelectual punk e de alma proletária, esse criador de tipos como a Re Bordosa, os Scrotinhos e Bob Cuspe. Um tipo que “mata” suas criaturas quando essas passam a ser assimiladas pelo público. Esse furor rock”n”roll da mente de Angeli é captado na linguagem do filme, muito, muito bom de Beth Formaggini.

Contagem, de Gabriel Martins e Maurílio Martins, procura narrar, de forma circular, as desavenças amorosas de quatro personagens, que termina de maneira trágica. O filme tem qualidades, mas os diretores, iniciantes, ao invés de procurarem simplicidade, optaram por um rebuscamento formal que vai além do seu domínio técnico da linguagem. Passo maior do que a perna.

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Uma leitora deixou comentário no blog queixando-se de que eu não havia escrito nada sobre os curtas-metragens em meu balanço. Não é uma queixa isolada. Em seu blog, o cineasta Cavi Borges queixa-se de que os jornalistas não escrevem críticas sobre os curtas e nem vão aos debates com os curta-metragistas. Magoado, Cavi ainda diz que os jornalistas em festivais se julgam estrelas de primeira grandeza, com direito a mais brilho que os próprios cineastas que apresentam seus filmes. Não sei de onde ele tirou isso. Mas no geral as queixas procedem.

E, em tese, concordo com elas. Na minha opinião, os curtas-metragens deveriam ser objeto de crítica tão atenciosa quanto os longas. Precisamos saber por que isso não acontece.

Em Gramado, do jeito que foi este ano, é fácil entender: houve falta de espaço e tempo. Nos jornais, o espaço é físico, papel, por isso limitado. Mesmo para os longas. O que se faz, de maneira geral, é uma cobertura tipo diário. Você usa o espaço que lhe dão para dizer o que aconteceu no festival durante o dia anterior: os filmes apresentados, as entrevistas, as coletivas, o clima, etc. Como um diário de bordo, no qual só são possíveis alguns pitacos críticos. Fica difícil aprofundar alguma coisa.

Na internet, a coisa muda de figura. O espaço físico é ilimitado. Mas o fator limitante é o tempo. Gramado optou por uma programação massacrante. De manhã havia coletivas e debates. Às 14h começavam as sessões da mostra Panorama que, este ano, também foi competitiva. Às 17h, os curtas. Às 19h, o primeiro longa e, às 21h, o segundo. Não havia praticamente intervalos.

Veja o meu caso. Este ano, fui a Gramado para integrar o júri da crítica. Escrevi sobre o festival apenas no blog. Mas, mesmo assim,  senti enorme dificuldade em encontrar tempo para postar alguma coisa. Mesmo os comentários sobre os longas são sumários demais. São todos eles filmes sobre os quais ainda quero escrever, com mais calma, tempo e espaço.

Considero o festival uma primeira oportunidade para ver os filmes sobre os quais você terá de voltar no futuro. Inclusive revendo-os antes de escrever porque num festival os concorrentes são vistos em escala industrial, desumana e injusta. Qualquer diretor sabe disso. Expor seu filme em um festival é jogá-lo numa arena onde talvez seja apreciado por um espectador cansado e provavelmente já empanturrado por uma dieta cinematográfica das mais adiposas. Isso vale para o público, para a crítica e também para o júri.

Nesse sentido, o festival mais civilizado que conheço é o de Brasília. Nele, há apenas seis longas e doze curtas em concurso. Um longa e dois curtas por noite. Que são debatidos, à exaustão, no dia seguinte. E podem ganhar espaço melhor nos jornais, blogs e sites. Costumo cobrir Brasília há muitos anos e sempre procuro reservar aos curtas um espaço em minha matéria diária.

Em Gramado não dá, é quase impossível durante o festival. Em Veneza, para onde vou daqui a duas semanas, completamente inviável. A estrutura dos festivais leva a essas distorções. E os curtas acabam prejudicados.

Mesmo assim, convém dizer, lutando contra limitações de tempo e espaço, muita gente comentou os curtas em suas matérias, como foi o caso de Neusa Barbosa, que escreveu para o UOL.

Como consolo, se servir para alguma coisa, posso garantir que, no júri da crítica, usamos o mesmo tempo de discussão para os longas e para os curtas.

Discussão bem proveitosa, falando nisso.

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30.maio.2010 14:37:30

Curta nouvelle vague

São nove curtas-metragens muito diferentes entre si. Mas talvez encontrem um denominador comum no desejo explícito de inovar, algo típico daquela época. A maior parte deles, situa-se entre os anos 1957 e 1958, época da formação da nouvelle vague, quando o movimento se cozinhava numa vaga insatisfação com o cinema que se fazia então e uma indefinição em relação ao futuro. Três exceções: 24 Heures de la Vie d’um Clown, de Jean-Pierre Melville, é de 1946. L’Amour Existe (O Amor Existe), de Maurice Pialat, é de 1961. E Le Laboratoire de l’Angoisse (O Laboratório da Angústia), é ainda posterior, de 1971.

Qualidade à parte, o maior interesse histórico dessa coleção reside nesses filmes feitos nas vésperas da eclosão da nouvelle vague. Há dois de Godard: Tous les Garçons s’Appellent Patrick (Todos os Rapazes se Chamam Patrick), de 1957, e Charlotte et son Jules (Charlotte e seu Namorado), de 1958. São dois trabalhos de muito frescor. Fazem antever o cineasta que, dois anos depois, ficaria célebre com seu primeiro longa, Acossado, de 1960. São histórias de relacionamentos amorosos. No primeiro, o mesmo conquistador (Jean-Claude Brialy) paquera duas moças na mesma manhã sem saber que elas são amigas e moram juntas. No segundo, um tipo valentão (Jean-Paul Belmondo) passa uma descompostura na garota que mora com ele, numa espécie de monólogo cheio de graça e irreverência. Quem conhece bem o cinema francês estranha a voz de Belmondo. Mas, ao mesmo tempo, reconhece como familiar a voz que sai da boca do ator: é que Belmondo não estava em Paris na época da dublagem e teve de ser substituído pelo próprio Godard. Quando não havia recursos, se improvisava.

Em Une Histoire d’Eau (Uma História de Água), Godard e Truffaut assinam juntos a direção. Usando como pretexto uma inundação na região parisiense, contam a historia de uma garota que tenta chegar a Paris e se envolve com o rapaz que lhe dá uma carona. A criatividade dos cineastas faz com que aproveitem um fato, dando-lhe tratamento documental e, ao mesmo tempo, nele insiram uma trama ficcional.

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Mas o meu xodó mesmo é Áurea, de Zeca Ferreira, história de uma cantora da noite carioca. É uma ficção, mas Áurea interpreta a si mesma. E canta Janelas Abertas, de Tom e Vinícius, divinamente. O filme promove a aproximação entre Áurea e Elizeth Cardoso, seu possível modelo, que gravou Janelas Abertas no LP Canção do Amor Demais. Do ponto de vista de cinema, o filme é muito bom, com suas imagens da noite carioca, e comove com a volta da cantora para casa, depois da jornada de trabalho na casa noturna. Há nele uma melancolia que todos os que um dia viveram na noite conhecem muito bem. Isso para dizer que o filme é de fato muito bom e muito rico. Agora, tudo isso, e mais Janelas Abertas, uma das músicas mais belas e pungentes da MPB, já chega a ser até demais. Lindo de morrer.

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Faço de Mim o que Quero, de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena, é uma imersão no universo da chamada música brega pernambucana. Cheio de malícia e energia, o filme traz personagens incríveis e monta muito bem seus depoimentos. Atua nessa área limítrofe entre o mau gosto e o kitsch, mostrando como as convenções estéticas podem ser bem questionáveis. A maneira como é feito o filme provocou boa reação até mesmo em quem não tem nada a ver com aquele universo e aquela música, e prefere Mozart a João do Morro – um dos ícones da estética brega. Os créditos finais, inscritos pelo corpo de uma dançarina são mais uma prova da criatividade hormonal dos cineastas. Fiquei fascinado pelo filme e ajudei a elegê-lo no prêmio Aquisição do Canal Brasil, do qual fazia parte do júri.

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Geral, de Anna Azevedo, registra os últimos jogos em que o Maracanã dispunha dessa (péssima) acomodação, destinada aos torcedores menos favorecidos. Mas que eram também os mais alegres e inventivos. Os chamados “geraldinos” usavam fantasias, iam sempre com seus radinhos de pilha e torciam como loucos, pois seu envolvimento com o time do coração é algo visceral. O uso da câmera e do som são muito bons, transmitindo a sensação da galera ao espectador. Há alguns momentos hilários no filme. Um, quando um torcedor mostra como imita, à perfeição, o apito do juiz, e assim interfere no jogo para beneficiar seu time. Outro, quando um torcedor, desesperado com o que vê em campo, olha para o céu e manda o Senhor para aquele lugar. Não resisto à tentação de transcrever outra fala de um torcedor. É uma flamenguista, que grita a um jogador: “Esse é pior Flamengo da história; e você é reserva nesse time!”. Enfim, toda uma maneira de ver e sentir o futebol passa pelos rápidos 14’ deste filme. Incidentalmente, mostra outra coisa: esse é um tipo de torcedor que desapareceu dos estádios com a elitização do futebol. Não são apenas eles que perdem com isso. Somos todos nós.

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