O romance O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, é um desses casos raros da literatura que se tornou referência imediata. Não é preciso ter lido o livro para conhecer, por ouvir dizer, a história do devasso que se conserva jovem em meio a uma vida de vício e crimes, enquanto um misterioso retrato, feito quando era jovem, envelhece e se degrada em seu lugar. Mesmo porque o cinema já se incumbiu de mostrar inúmeras vezes a história ao grande público, sendo a versão mais próxima de ser chamada clássica a de 1945, dirigida por Albert Lewin, tendo Hurd Hatfield como Dorian e Georges Sanders no papel do seu mentor, Lord Henry Wotton. A mais recente, agora em cartaz, é a de Oliver Parker com Ben Barnes como Dorian e o vencedor do Oscar, Colin Firth (de O Discurso do Rei), no papel de Wotton.
O que traz de novo essa versão atual? Muito pouco, em relação às outras – a não ser no aspecto tecnológico, com efeitos especiais um tanto acima do tom, aplicados ao fatídico retrato. No resto, respeita-se a época em que a história se passa, a soturna Londres do século 19, com suas tavernas escuras e prostitutas decadentes. Tudo cheirando a sordidez e pecado, como não poderia deixar de ser, pois, afinal, uma das muitas implicações da história é a de que acabamos pagando caro por todas as nossas transgressões. Wilde não era um moralista menor, mas sabia do falava, tendo sido condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados, por “atos imorais com rapazes”. O Retrato de Dorian Gray,escrito anos antes, funciona como uma espécie de premonição sobre a consequência dos prazeres carnais.
Na história, Dorian é o jovem provinciano que se muda para Londres depois de herdar uma fortuna. Nos salões mundanos, conhece Lord Wotton, que o adota como discípulo e prega que todos os prazeres carnais devem ser experimentados. Não se deve ter culpa e nem levar os outros seres humanos em grande consideração. Dorian mostra-se aluno melhor do que o mestre. Basil Hallward (Ben Chaplin) faz o seu retrato, que passa a envelhecer e a levar as marcas do vício, enquanto os anos passam e Dorian pinta e borda pelos bordéis do mundo sem que uma única ruga se instale em seu rosto.
Talvez a história ficasse ainda mais forte se Parker lhe desse a atualidade que ela de fato tem. No entanto, ele permanece numa leitura um tanto acadêmica, que nada avança em relação a outras versões. Esse caminho, meio burocrático, toma outra direção no desfecho e então flerta com o trash. A interpretação de Barnes (de As Crônicas de Nárnia) é plana e amorfa; a de Firth é elegante, e não disfarça uma atitude um tanto irônica em relação ao papel.
Inútil dizer que a história, uma síntese da aspiração à eterna juventude e do pacto demoníaco, serve perfeitamente para o nosso tempo de plásticas, botox e superficialidade.
Na linha seriado que vai ao cinema, a novidade da semana é O Besouro Verde, de Michel Gondry (diretor de Rebobine, por Favor), aventura em 3D que estreia hoje.
O enredo, os fãs já conhecem de longa data – o dono de jornal Britt Reid (Seth Rogen) decide lutar contra o crime organizado depois que seu pai é assassinado. Para ajudá-lo, arruma um fiel escudeiro, mestre em artes marciais, Kato (Jay Chou). A série existe, em forma radiofônica, desde os anos 1930. Nos anos 60, na TV, ficou famosa com o mitológico Bruce Lee interpretando o oriental bom de briga.
No filme moderno não temos Bruce Lee. Em compensação, há um dilúvio de efeitos especiais, que podem impressionar quem gosta de pancadaria, vidros quebrados e perseguições de carros. Do ponto de vista adulto e masculino, o melhor dos efeitos especiais é Cameron Diaz, na glória dos seus 30 e tantos anos, E no papel de uma secretária sexy e esperta.
Além de tudo isso, há o estilo meio ostensivo de Gondry presente na atual versão. O filme tem lá sua graça em alguns momentos. Pode divertir de forma moderada. O gosto de Gondry pelo estranho às vezes tira a história da rotina. Mas, claro, aqui ele não pode dar vazão à sua veia, digamos, “autoral”, porque o cinema de mercado não se permite certas brincadeiras, toleradas em produtos de orçamento modesto. Nesse caso, há muita grana em jogo e, dessa forma, o que sai dos eixos é cuidadosamente vigiado para que não extrapole. É um fator de limitação.
Há dois tipos de público para filmes-eventos, como é o caso da franquia Harry Potter: os devotos e os comuns. Os primeiros sabem tudo da série, leram os livros, dominam a terminologia, conversam entre si, formam grupos. Os outros, não fazendo parte da seita, vão ao cinema apenas em busca de um bom filme; querem somente se divertir, porque ninguém há de achar que vai fazer um pós-doutorado em humanidades ou mitologia ao assistir aos derivados dos livros de J.K. Rowling.
Aos primeiros, pouco se pode dizer, porque já estão imersos no universo protegido e reconfortante da história em série, uma espécie de líquido amniótico ficcional. Nenhum problema. Todos nós temos o nosso – é como um porto seguro psíquico, que nos protege de maneira um tanto precária do mundo real e da ação do tempo. No caso de Rowling, e seus filhotes audiovisuais, essa tela de proteção é formada pelo tecido ligeiro costurado pelas etapas da chamada “jornada do herói”, esquema que sempre rende dividendos. Aos fãs, basta, portanto, deixar-se levar por caminhos um dia já trilhados por Guerra nas Estrelas e O Senhor dos Anéis.
A versão contemporânea dessa estrutura que, dizem, está inscrita no inconsciente da espécie humana, tem de comportar outros ingredientes. E aqui a segunda parcela do público, aquela que não aderiu por antecipação, precisa ser conquistada. Sob a direção de David Yates, a trajetória de Harry Potter adquire um tom sombrio, coerente com o processo de amadurecimento dos protagonistas e o enfrentamento das contingências da vida (e da morte). Mas é preciso também ganhar pontos naquilo que se espera de um bom blockbuster, e assim haverá perseguições aéreas, ameaças de seres extraordinários (o melhor de todos é uma serpente gigantesca), lutas. Ação, numa palavra.
Tudo isso vem embalado numa atmosfera pesada, registrada em tons fotográficos ameaçadores. A forma escolhida (fotografia, música, visual) remete ao amadurecimento da trinca de heróis, uma angústia que corresponde ao preço a pagar pela perda da inocência.
Por outro lado, há um mundo externo ameaçador, cuja perturbação maior se expressa pela busca do poder e pela presença da morte. A tentação da leitura política de Harry Potter é sempre muito grande, ainda mais se lembrarmos de como foi feita em relação a outros produtos da indústria cultural. Mas também quem disser que encenação da complexidade do mundo (e da vida) no fundo é simplista, não estará errado. É um recurso ao mito, como forma de tocar o nosso inconsciente contemporâneo, mas usado com considerável polimento das arestas incômodas e trágicas da nossa condição.
Afinal, a mecânica do cinema-pipoca pede que a complexidade, se tiver de ser enunciada, seja negada em seguida. A parte obscura está sempre do lado de fora e, na eventualidade de se encontrar no interior do herói, poderá ser extirpada, como um tumor. Essa delimitação rígida de luz e trevas faz toda a diferença, para menos. Mas não é mau filme.
Um Novo Caminho foi a “tradução” encontrada no Brasil para Le Dernier pour la Route, filme de Philippe Godeau. Poderia, sem prejuízo, ser vertido para algo como “A Saideira”, não fosse o empenho moralizante com freqüência embutido na temática do alcoolismo. E isso, diga-se, num filme bastante límpido, que trata o problema do álcool sem qualquer viés moral, e o vê como um problema de dependência química e psicológica. Sobretudo como algo ligado à disfunção afetiva, como comprova a história de Hervé (François Cluzet) que tem tudo para ser feliz, mas destroi-se pela bebedeira contumaz.
Internado, ele irá conhecer uma mocinha problemática, bem mais jovem e complicada do que ele. O filme mostra o tratamento e os dramas pessoais em tom documental, bem despojado e isento. Nem por isso é menos envolvente. Beneficia-se da mão segura do diretor e, sem que isso pareça contraditório com o tema, a sobriedade de François Cluzet, ator de muitos recursos expressivos, que utiliza com economia.
(Caderno 2, 30/7/10)
A personagem é magnífica e existe na vida real. Waris Dirie foi uma das modelos mais requisitadas do mundo fashion durante os anos 1980 e 1990. Quem via aquela escultura de mulher não adivinhava o drama que vivera na infância, e que carregaria para a vida. Ela mesma veio a público para contá-lo. Em depoimento à revista Marie Claire, revelou que havia sofrido mutilação genital quando era uma menina de 3 anos de idade. Flor do Deserto, dirigido por Sherry Hormann, é o filme que vem para contar essa história de vida, e advertir para uma prática que, dizem os militantes que a combatem, continua a existir em vários países africanos.
Waris Dirie é interpretada pela também modelo e atriz etíope Liya Kebede, que esteve no Brasil para lançar a produção. O filme mostra a trajetória da moça que chega a Londres quase sem falar inglês, consegue emprego numa lanchonete e, descoberta por um fotógrafo de moda, tira a sorte grande ao se iniciar no milionário mundo fashion.Não sem alguns acidentes de percurso, pois vivia na ilegalidade, tinha o passaporte vencido e precisou se adaptar rapidamente aos usos ocidentais para vencer.
O filme é comovente, em especial porque a história o é. De fato, é impossível ficar indiferente a algumas cenas, tais como aquela em que a moça descobre que nem todas as garotas apresentam a mesma mutilação anatômica que ela. É a consciência da diferença e, no caso, de uma diferença para pior, infligida por um costume cruel.
No vai e vem entre a vida londrina e os flash-backs que levam a personagem de volta à Somália, cria-se um clima de suspense e desolação sobre o destino daquela criatura. Hormann trabalha com delicadeza nessa superposição das duas fases. Inclusive acrescentando algumas pitadas de humor, que ajudam a amenizar a narrativa. Algumas dessas tiradas humorísticas vêm, por exemplo, da outra personagem feminina, a companheira de quarto de Waris em Londres, vivida por Sally Hawkins, sempre muito engraçada, e, no final, bastante solidária com a candidata a modelo.
A presença dessa personagem ficcional explica-se pela necessidade de tornar suportável uma história sofrida demais. No entanto, esse lado “agradável” de Flor do Deserto não é capaz de tirar a força do depoimento que Waris Dirie colocou no livro agora transposto para as telas. Ele apenas torna suportável a denúncia que se deseja passar. E, para que passe, foi preciso incluir uma sequência bastante dura para o espectador, e, em particular, para a espectadora.
Talvez se pudesse pedir ao filme que aprofundasse um pouco a questão da mulher vista como ameaça sensual em determinadas culturas. Seria transformar o projeto em documentário? Não necessariamente. Apenas o tornaria ainda mais contundente.
Se fôssemos levar ao pé da letra algumas críticas recebidas por O Profeta em seu país, nos sentiríamos até meio constrangidos de gostar do filme de Jacques Audiard. Bem, pelo menos algumas críticas, já que outros amaram o filme e ficaram decepcionados quando ele recebeu apenas o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes de 2009. Queriam para ele a Palma de Ouro. A mais influente das revistas de cinema, os Cahiers du Cinéma, foi enfática na condenação. Dedicou-lhe quatro páginas de cerrada análise técnica e ética, e ainda uma menção no editorial do seu número de setembro de 2009.
O cuidado com que foi analisado leva a crer que O Profeta tenha provocado na França reação semelhante à causada no Brasil por Cidade de Deus. Como se lembra, o filme de Fernando Meirelles dividiu a crítica brasileira, foi exibido fora de concurso em Cannes e, dada sua repercussão, ganhou fama mundial.
Como Cidade de Deus, O Profeta é um filme do qual se pode dizer quase tudo ? menos que deixa as pessoas indiferentes. Esbanja fluência narrativa, boas interpretações, cenas de impacto. Tem clima e uma excelente história. Seduz o espectador, o que leva a crer que também possui um subtexto poderoso. Mas há a questão da forma: uma das principais acusações que lhe faz os Cahiers é de ser expressão do desejo de Audiard de fazer “cinema americano”. O engraçado é que, também aqui, o paralelo com Cidade de Deus pode ser feito. Não por acaso, um dos artigos elogiosos ao filme de Meirelles dizia que, por fim, o cinema brasileiro havia encontrado seu caminho ? ao fazer filmes que não fariam feio em Hollywood. Um primor de provincianismo.
Mas a questão, claro, não é essa. Há bons e maus filmes, europeus, americanos ou iranianos. E O Profeta, até por seu grau de sedução, parece tocar em pontos sensíveis do público. Mostra a ascensão de um pequeno marginal, Malik (Tahar Rahim) à condição de grande contraventor. No percurso, ele tem um mentor (Niels Arestrup), a quem obedece e depois destrona. Há um entrelaçamento familiar com a vida do crime ? com a família mafiosa, e depois com a família propriamente dita, na figura do companheiro que lhe deixa a missão de cuidar da viúva e do filho. Algo aí ecoa, vaza, do ambiente ítalo-americano de O Poderoso Chefão à realidade franco-árabe de O Profeta. São ressonâncias, não plágio ou imitação. Na intensidade dos gestos, no parricídio simbólico, na dialética entre violência e amizade, e mesmo em certo apelo místico, se jogam as apostas deste filme ambicioso de Audiard. Que ganha todas elas, com exceção da unanimidade crítica. Essa ninguém tem.
(Caderno 2, 18/6/10)
O Abraço Corporativo é filme satírico, que dá uma bordoada dupla. Atinge tanto as chamadas técnicas de gestão quanto a credibilidade da mídia. Parte de um pressuposto, facilmente comprovável: o mundo, como se sabe, vive à mercê dos picaretas, e o filme de Ricardo Kauffman não deixa de nos lembrar que nasce um otário a cada minuto. Pode-se argumentar que, em alguma medida, sempre foi assim, e que ao longo da história humana espertalhões encontraram espaço fértil para progredir graças à estupidez e não raro à cobiça alheia. Mas também se pode reconhecer que nunca antes na história da humanidade o campo foi tão fértil para os vivaldinos.
Assim, no vale-tudo contemporâneo, por que não admitir que um gesto de carinho pode ser benéfico ao clima empresarial? E por que não levar a sério um consultor de RH que propõe a assim chamada Teoria do Abraço? De acordo com a tese do consultor, um certo Ary Itnem, os abraços combateriam uma séria “doença” enfrentada pelas empresas, a “inércia do afastamento”, provocada pelo uso excessivo das novas tecnologias. Tudo isso parece meio idiota. Mas todos sabemos que no passado já nos venderam baboseiras ainda piores.
O problema é saber quem compra esse tipo de coisa. Então entra em cena o segundo termo da equação – a mídia, com seus problemas causados não apenas por ignorância, mas pelo culto à velocidade, essa falsa virtude da vida contemporânea. Sejamos novidadeiros, é a palavra de ordem nas redações. E isso significa ir atrás de qualquer coisa que pareça nova, e à toda pressa, porque se não dermos a notícia, o nosso concorrente a dará. É o que chamamos da obsessão do “furo”, jargão jornalístico para a notícia dada em primeira mão. Essa ideia fixa não raro leva à “barriga”, outro jargão, este para definir a notícia falsa que depois precisa ser desmentida.
No mundo acelerado da internet, a distância entre o furo e a barriga encurtou. O jornalista, espremido entre duas exigências contraditórias – a velocidade de publicar e a lentidão da apuração – não raro perde o jogo. A inteligência de Kauffman está em calibrar seu documentário (que é também uma história de ficção) sobre esses dois polos sensíveis da experiência contemporânea. Num mundo cada vez mais complexo, instável e de difícil decodificação, ele trabalha com uma espécie de redução ao absurdo, como nas demonstrações matemáticas. Quanto mais nos imaginamos “antenados”, “contemporâneos” e “científicos” em nossas vidas profissionais, mais nos aproximamos do equívoco. E, talvez, do ridículo. De maneira simples, às vezes até simplista, O Abraço Corporativo serve para nos abrir os olhos. Se é que ainda queremos enxergar alguma coisa.
(Caderno 2, 18/6/10)

Com Mademoiselle Chambon, o diretor Stéphane Brizé faz um registro amoroso da vida da província na França. Sim, é também, e principalmente, um filme de amor, mas que só ganha sentido quando se desenvolve num ambiente mais reservado do interior.
Um dos personagens, Jean (Vincent Lindon), é um pacato pedreiro. Casado, ele é bom pai (tem um filho), bom marido e ainda cuida do seu próprio pai, idoso. Brizé toma tempo para descrever o personagem. Por exemplo, quando Jean visita seu pai, preso a uma cadeira de rodas, e passa longo tempo lavando seus pés. É um ato de caridade e amor filial. Também é longa a sequência em que Jean, convidado pela professora do filho, fará uma palestra para os alunos, explicando em que consiste a sua profissão de pedreiro.
Sim, a professora. Ela é Véronique Chambon (Sandrine Kiberlain), mestra substituta, que passa um ano em uma cidade, depois arruma as malas e é despachada para qualquer outra região da França. Jean é a estabilidade; Véronique, a itinerância, a mudança permanente de lugar. Ela tem uma janela com defeito em casa e chama Jean para fazer a reforma. Ela toca violino; Jean gosta da música. Ele é enraizado no interior; ela provém da região parisiense. Todo um jogo de oposições, bem francês no caso, aí se insinua, em particular na dialética Paris versus provence. Na França, o que é a “provence”? Simples: tudo o que não é Paris. Toda uma experiência social se joga nessa dicotomia simples.
Jogada assim, essa oposição poderia fazer de Mlle. Chambon um filme-clichê. Não é assim. E não o é pela grande delicadeza com que Brizé aproxima esse par de contraditórios. Não há distância social na França entre um pedreiro e um professor. A distância entre os personagens talvez seja mais cultural. Mas, como se sabe, esta não é suficiente para anular uma atração mútua. O problema estará em outra parte e diz respeito à estabilidade, à disposição em assumir riscos e jogar tudo para cima para embarcar naquilo que, no fundo, é uma aventura.
Para interpretar esse impasse, Brizé conta com um par de ótimos atores. Em especial Lindon, que, com poucas palavras, mas muita expressão visual, transmite ao espectador todo o dilema que enfrenta. Para o cinema-clichê, o homem apaixonado é sempre alguém alegre, exultante. Em Mlle. Chambon vemos esse homem angustiado, dividido entre impulsos que se anulam mutuamente. De um lado, a vida que construiu e com a qual se sente feliz, mas talvez não de maneira integral. De outro, uma promessa de felicidade, mas que só se pode cumprir ao preço da infelicidade alheia. O filme funciona assim, entre a culpa e o desejo. Pode até parecer meio fora de moda, num tempo que acredita que todos os desejos podem ser satisfeitos sem qualquer entrave. Na verdade, não funciona desse jeito e as pessoas continuam a ter de fazer opções graves e dolorosas, vivam no interior ou na cidade grande. Esse delicado filme de câmera nos lembra dessa contingência.

O título filme é um evidente jogo de palavras com o filme de François Truffaut, O Homem que Amava as Mulheres, com Charles Denner no papel de conaisseur amoroso do sexo oposto. No caso, trata-se do contrário. Saído da imaginação do jornalista e escritor Stieg Larsson (1954-2004), este Os Homens que não Amavam as Mulheres entra em registro que nada tem a ver com atmosfera de sutil erotismo de Truffaut. Pelo contrário, nele tudo é um tanto exasperado, da atmosfera de pós-modernidade ao caráter (e mesmo ao físico) dos protagonistas.
A trama é tirada do primeiro volume da trilogia Millenium, escrita por Larsson, e que se tornou um bestseller mundial. Aqui mesmo, no Brasil, publicado pela Companhia das Letras, os livros chegaram quase a 300 mil cópias vendidas. No filme, Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) é um jornalista da revista Millenium (daí o título da série), que está sendo processado por um figurão em virtude de uma reportagem. Desempregado, Mikael aceita um trabalho freelancer muito bem remunerado: encontrar os traços de uma garota, Harriet, desaparecida há 40 anos. Na época, ela tinha 16 anos e fazia parte de uma família poderosa família sueca.
Na história, cruzam-se essas duas figuras, a do jornalista investigativo e a do detetive. Pelo menos no imaginário popular, são fronteiriças. Ambos correm atrás da “verdade”, mesmo que esta, como se sabe, tenha em geral vários rostos. Assim, apeado da sua posição na imprensa por uma acusação, Mikael buscará refúgio na atividade paralela. O interessante será a parceira que encontrará para sua aventura: a jovem Lisbeth Salander (Noomi Rapace), inteligência brilhante em informática, hacker contumaz, agressiva, corpo magro atravessado por piercings e tatuagens, bissexual e vivendo em liberdade condicional. Essa, a dupla. Um jornalista maduro e uma jovem transviada.
Não será a única das originalidades do filme nesse gênero batido, mas sempre na moda, o “policial” de tipo noir. Bastante fiel à trama original, o diretor dinamarquês de Os Homens que não Amavam as Mulheres, Niels Arden Oplev, segura com firmeza os desdobramentos de uma história que inclui crimes horrorosos, perversões sexuais de tipos variados e o passado nazista de parte das elites suecas. Não é pouca coisa para tratar, mas ele tem tempo para isso: nada menos de 158 minutos de filme. Que, diga-se, passam rapidinho, sem que se sinta.
Essa velocidade se deve tanto à intensidade da trama em si, quanto à maneira encontrada por Oplev para lhe ser fiel. Procura manter o essencial da narrativa, e, sem nenhuma preocupação em ser “autoral”, dirige de maneira competente e fluida. Os intérpretes ajudam. Têm carisma e levam no rosto (e no corpo) as marcas e asperezas da vida. Além disso, Oplev não se deixa levar por falsos pudores e põe em cena a crueza imaginada por Larsson em seu romance. Deu certo. Pelo menos na Europa, não decepcionou os fãs do livro e foi um sucesso de bilheteria. A questão é saber se no Brasil irá repetir o mesmo êxito nesse gênero tão associado ao cinema norte-americano.
Parece claro que tanto o escritor como o diretor que adapta o texto bebem na fonte generosa do noir – gênero que floresceu nos Estados Unidos, em especial durante os anos 1940 e 1950 e deixou obras-primas como O Falcão Maltês, O Segredo das Jóias e O Longo Adeus. Filmes de crimes, que colocam em cena muitas vezes um investigador particular e obedecem à regra de descobrir quem fez o quê. Mas essa linha de investigação por vezes aparece como secundária, mero pretexto de um cinema que deseja mostrar o desacerto da sociedade com o um todo e não apenas o de suas camadas marginais. O noir é datado, mas deixou descendências e desdobra-se em releituras como as de Polanski (Chinatown) ou Tarantino (Pulp Fiction).
Os Homens que não Amavam as Mulheres é filme que dá continuidade a essa tradição, em registro europeu. Ao buscar o paradeiro de alguém desaparecido, os “detetives” Blomkvist e Lisbeth acabam por expor alguns dos esqueletos zelosamente guardados no armário da milenar cultura européia, que produziu Bach, Beethoven, a Capela Sistina…e Auschwitz.

A constatação é evidente, quase acaciana, mas deve ser dita: o que há de notável no documentário de Nicolás Entel é o olhar sobre a vida de um notório criminoso pelo ponto de vista do filho. O depoimento de Sebastián Marroquín, nome adotado por Juan Pablo Escobar para reiniciar a vida, é muito forte. Costuma-se dizer que os filhos não podem pagar pelos pecados do pai. Mas o filme mostra que, na prática, essa transferência de culpa de fato acontece mais do que estamos dispostos a admitir.
Juan Pablo tinha apenas 16 anos quando seu pai, o meganarcotraficante colombiano Pablo Escobar, foi morto a tiros pela polícia. Na época, emocionado, o filho jurou vingança. Sua voz de adolescente está lá gravada por uma repórter que lhe dá a notícia e o entrevista no calor da hora. Mas a continuação de sua vida será um desmentido dessa ameaça juvenil. Para salvar-se com a mãe, Maria Isabel Santos, Juan Pablo foi obrigado a deixar o país e estabelecer-se em Buenos Aires. Mesmo lá teve problemas. Foi chantageado e chegou a ser preso. Maria Isabel também passou algum tempo na cadeia. Não se é filho ou viúva de Pablo Escobar impunemente.
Pecados de Meu Pai mescla essas entrevistas com material de arquivo. Ao lado do aspecto humano do caso, não deixa de documentar o processo de formação dos poderosos cartéis das drogas na Colômbia, país que chegou a exportar 80% da cocaína consumida no mundo. Em seu apogeu, Pablo Escobar, no comando do cartel de Medellín, dominava o país com seu poderio econômico. O fausto em que vivia é lembrado pelo filho e mostrado em imagens. Em sua propriedade, a Hacienda Nápoles, Escobar mantinha um zoo privado. Importava animais do mundo todo e pagava caro pelos espécimes. Não havia limites para gastos, pois o dinheiro das drogas fluía livremente. Com a fortuna, Escobar deitou raízes nas instituições do país. Políticos e juízes estavam em suas mãos. Criou-se até uma legislação especial para que não fosse deportado.
Quando começou a ser importunado pela Justiça, Pablo Escobar ainda dispunha de poder suficiente para projetar ele mesmo a cadeia onde iria cumprir pena, um palácio atrás das grades chamado La Catedral. O cinismo da coisa é de espantar. A gaiola de ouro de Escobar parecia símbolo de um poderio que jamais terminaria. Uma ilusão, é claro, pois até ele conheceu o declínio e, por fim, foi liquidado pela polícia quando estava foragido.
Juan Pablo, aliás, Marroquín, testemunhou tudo isso na condição de filho. Usufruiu o luxo e o poder. Sofreu na pele quando o traficante passou a ser perseguido pela polícia depois de um longo período de impunidade. Diz que aprendeu a lição de que o dinheiro da droga não valia nada quando estavam cercados num bunker. “Com milhões de dólares à disposição, não podíamos comprar sequer um quilo de arroz para matar a fome. Usávamos as cédulas para alimentar o fogo na lareira.” Depoimento poderoso, como disse, construído por experiências desse quilate.
Talvez o mais impressionante sejam os encontros de Marroquín com os filhos de homens assassinados por seu pai, como o ministro da Justiça Rodrigo Lara Bonilla e o candidato à Presidência da República Luis Carlos Galán. Certo, há o lado um tanto constrangedor dessas reuniões negociadas pela produção e registradas pelo documentarista. A câmera está lá e ninguém a ignora. Muito menos os filhos dos assassinados, hoje homens importantes na Colômbia. Mas, que diabo, apesar disso tudo, são cenas emocionantes. Afinal, para as câmeras ou não, é a reconciliação do filho do assassino com os filhos das vítimas.
(Caderno 2, 14/5/10)
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