ir para o conteúdo
 • 

Luiz Zanin

27.abril.2012 17:39:08

Girimunho

Duas velhas senhoras se tornam mais próximas quando o marido de uma delas morre. As mulheres interpretam os seus próprios papéis, quer dizer, empenham-se naquilo que no meio cinematográfico costuma se chamar de “autoficção”. Um termo que coloca sério problema para definir fronteiras entre o documentário e a ficção e tem se prestado mais a confusão que esclarecimento. Ao refazerem suas existências diante da câmera, estariam essas senhoras criando vidas novas ou se prestando a uma espécie de relatório etnográfico?

Talvez nada disso mais importe. Eduardo Coutinho, autor de Cabra Marcado para Morrer e Jogo de Cena, dois títulos referenciais  do cinema brasileiro, disse que nem podia ouvir mais falar nessa questão. Falso problema, segundo ele. Girimunho retoma tudo isso tomando por título esse termo já de ressonância roseana. Envolve o espectador no torvelinho do mundo das mulheres, sem explicitar o que é documental ou ficção. Inventa-se ou registra-se.?Tudo isso passa em especial pela fala e presença de de Bastú (Maria Sebastiana Alves), viúva de um certo Feliciano, e sua vizinha.

O filme é feito de palavras, mas também sons, silêncio, sombras. Aposta, em sua dimensão poética, no caráter sensorial do cinema, produzindo a imersão na magia sertaneja, numa localidade chamada São Romão, interior de Minas.

Nesse trabalho, os diretores Helvécio Marins e Clarissa Campolina aproximam-se do ar misterioso do conterrâneo ilustre da literatura, Guimarães Rosa, que encontrava na fala sertaneja a elaboração metafísica das grandes questões. Vida, morte, o passar do tempo, o aqui e o além. Problemas sem solução, porém impossíveis de serem evitados pelo pensamento humano, escandem-se poeticamente, não de forma racionalista ou expositiva. É a  filosofia que não diz seu nome, mas nem por isso é menos profunda.

Se Girimunho tem problemas de comunicação com o público mais amplo é porque este já está condicionado ao cinema linear e digestivo vendido pela publicidade. O fato de um filme como este e O Homem que Não Dormia estrearem no mesmo dia de um mega blockbuster como Os Vingadores não deixa de ser simbólico e interessante. São o minúsculo contraponto do cinema autoral brasileiro ao tsunami comercial de Hollywood. Tirem suas conclusões.

(Caderno 2)

sem comentários | comente

11.abril.2012 09:32:12

Jovens Adultos

Este Jovens Adultos, nova parceria entre o diretor Joson Reitmen e a roteirista Diablo Cody (ambos já haviam feito Juno), é um alívio para quem não suporta o discurso certinho do cinema americano atual.

A deusa Charlize Theron é escalada para fazer uma problemática escritora infanto-juvenil Mavis Gary, em crise com a proximidade dos 40 anos, com o trabalha e com os afetos. O que ela faz para combater a crise? Pensa em novas alternativas de vida? Nada disso, decide sair de Minneapolis rumo à pequena Mercury, onde seu ex-namorado de juventude casou-se e acaba de ser pai. Para agravar, a série que Mavis, escreve, chamada High School, está para ser “descontinuada”, pois os livros encalham. A cada frustração, Mavis amarra um porre. Bebe como marinheiro recém chegado ao porto, e combate ressacas com hectolitros de Coca-Cola.

Nada combina muito com o tom politicamente correto (mesmos as neuroses precisam sê-lo hoje em dia) dominante. E Mavis partirá para a provinciana Mercury, com seu cãozinho a tiracolo e disposta a reconquistar o ex-amado, Buddy (Patrick Wilson), brandindo todas as armas de que dispõem. Quem conhece a moça sabe que essas armas não são poucas ou fracas. Claro, no retorno, Mavis que, parece, nunca foi muito certinha, reencontra seus pais, antigos colegas de colégio, um entre eles especial, Matt (Patton Oswalt), vítima, muito anos atrás, de uma agressão homofóbica que o deixou com sequelas. Agora se dedica a destilar bebidas exóticas que, generoso, compartilha com a insaciável Mavis. Uma estranha relação de amizade se estabelece entre os dois. Relação feita de atração e repulsa, ao mesmo tempo. Ao mesmo, por parte dela.  Enfim, é um reencontro com o tempo perdido.

O que se tem em vista também é o contraste entre a cidade grande (supostamente cosmopolita) e a vida acanhada da cidade pequena. Mas esses contrastes são explorados de maneira amena, nunca caricata. Até, se pode pensar enfim, que a distância entre as duas realidades não é assim tão grande. Em todo caso, nenhuma das vidas que aparecem em Mercury são tão certinhas assim; e nem tão bizarras. São vidas com suas esquisitices, digamos assim, “normais”. É uma América meio fora do eixo essa que Diablo Cody e seu diretor Jason Reitman nos apresenta.

Da mesma forma que não exagera nessas dicotomias, Reitman tampouco leva o filme exageradamente para a comédia ou para o drama.Oscila de um lado a outro, o que é uma boa medida, porque também é assim a vida, nem só risos, nem só lágrimas. Nem só alegrias e nem apenas frustrações. O épico ou o trágico passam longe das pessoas normais, que apenas desejam um pouco de prazer, reconhecimento e felicidade. Tão pouco, mas tão difícil de obter. É só atrás disso que está Mavis. Na cidade grande ou na pequena cidade da sua juventude e memória.

Reitman, diretor também de Obrigado por Fumar e Amor Sem Escalas, optou por uma trajetória que evita a banalidade. Busca personagens e situações difíceis, cheias de arestas e vários ângulos de observação. É também hábil criador de clima. Trabalha na linguagem clássica do cinema, mas não permite que este caia na caretice. O estilo visual, a ambientação, a música, tudo conflui para uma certa instabilidade, que é exatamente a dos seus personagens.

(Caderno 2)

 

sem comentários | comente

Planeta Caracol e Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz vencem nas categorias principais

Principal evento dedicado à cultura do documentário na América Latina, o É TUDO VERDADE 2012 – FESTIVAL INTERNACIONAL DE DOCUMENTÁRIOS divulga nessa noite do sábado, 31 de março, os vencedores de sua 17ª edição.

O júri internacional foi formado pela professora e pesquisadora norte-americanca Betsy A. Mclane, pelo cineasta e diretor de fotografia Cesar Charlone e pelo documentarista israelense radicado nos Estados Unidos Micha X. Peled.

Os premiados dessa edição do É Tudo Verdade são:

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Melhor Documentário Longa-Metragem
Planeta Caracol, de Seung-Jun Yi

Melhor Documentário Curta-Metragem
Vovós, de Afarin Eghbal

Menção Honrosa
Queríamos Explodir o Vasa, de Idji Maciel e Simon Moser

COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Prêmio CPFL Energia É Tudo Verdade “Janela para o Contemporâneo” – Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz, de Joel Pizzini
Melhor Documentário Curta-Metragem
Ser Tão Cinzento, de Henrique Dantas

Menção Honrosa
A Cidade, de Liliana Sulzbach

Prêmio Aquisição Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem
Melhor Documentário
A Cidade, de Liliana Sulzbach

Prêmio Abraccine

Melhor Longa / Média-Metragem Competição Brasileira
Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz, de Joel Pizzini

Melhor Curta-Metragem Competição Brasileira
A Cidade, de Liliana Sulzbach

Prêmio ABD São Paulo de Melhor Curta-Metragem Brasileiro

Melhor Documentário
A Cidade, de Liliana Sulzbach

Menção Honrosa
Piove, Il Film Di Pio, de Thiago Brandimarte Mendonça

sem comentários | comente

 

Dino Cazzola – uma Filmografia de Brasília, de Andréa Prates e Cleisson Vidal, apresenta, em seu título e subtítulo, de maneira simples, seu personagem, seu tema e alcance.

Basta sabermos, como o filme logo de saída nos informa, que Dino Cazzola, para quem não o conhece, foi um cinegrafista de origem italiana, que veio para o Brasil, radicou-se na nova capital desde os seus primórdios e registrou-a, de todas as formas possíveis, com suas lentes.

Há, é bem verdade, um subtema, oculto, e que logo aflora, o da sempre problemática conservação do material fílmico no País. Ficamos sabendo que mais de 70% do que Cazzola filmou desapareceu, para sempre, por falta de conservação adequada. As imagens são dramáticas. Latas são abertas e os filmes vão sendo retirados. Alguns deles, ainda passíveis de restauro; a maior parte, perdida. “Lixo, lixo, lixo” vai repetindo a voz do especialista, com tonalidade desolada, a cada vez que examina o conteúdo de uma lata recém-aberta. De vez em quando, surge o ouro: o material é recuperável. Mas a desproporção entre o que se perdeu e o que ainda dá para salvar é muito grande. Enfim, para dar números à coisa: foram analisados 3 mil rolos de filmes, dos quais restaram 300 horas de material filmado entre as décadas de 1960 e 1970.

Então há esse lado, sempre a lamentar, do caráter perecível do material cinematográfico. O que se perde não tem volta. De maneira geral, os filmes que tratam desse assunto tem esse tom lamentoso, muitas vezes deixando de informar por que o material perdido não recebeu tratamento adequado enquanto era tempo. No caso de Cazzola,as latas  eram guardadas no sótão da casa do cineasta, conta seu filho.

Por outro lado, lamento à parte, há o que sobrou. E esta sobra constitui um acervo riquíssimo, que documenta a capital em várias de suas fases de existência, incluindo registros anteriores à inauguração, em 1960. O material bruto talvez não tivesse grande interesse, a não ser para especialistas. Mas, da maneira como foi manipulado e montado, torna-se fascinante porque conta uma história, a dessa cidade incrível, plantada no meio do nada, numa época em que ainda se era capaz de sonhar e pensar grande. Hoje, talvez Brasília não saísse do papel. Ou talvez sequer fosse cogitada.

Por isso mesmo são comoventes os registros das primeiras fases da construção, aqueles esqueletos de edifícios surgindo como espectros em meio ao cerrado. Aquilo foi uma aventura, da qual já se mostrou também o avesso no grande documentário de Vladimir Carvalho, Conterrâneos Velhos de Guerra, sobre os trabalhadores que construíram a capital e dela foram expulsos quando não eram mais necessários.

De modo que o desafio era dar ao material salvo a estrutura narrativa que o transformasse numa boa história. Como conta a pesquisadora Andréa Prates, as latas continham títulos secamente jornalísticos, como Construção do Eixo Norte-sul; Discurso de Tancredo Neves 1961; Construção da Catedral, etc. “Vamos filmar para a História”, dizia Dino, de acordo com o cinegrafista Paulo Guerra, que trabalhou com ele. Filmava tudo, guardava tudo e, sobre esse instinto cumulativo, os diretores se debruçam para, do material bruto, tirar o seu cerne.

E há a história do próprio personagem. Filho de uma cidadezinha ao norte de Milão, destruída pela guerra, Dino foi encontrado pelo exército brasileiro e veio morar no País. Aqui testemunhou a mais formidável construção do século 20. Vítima da guerra, aqui Dino Cazzola reconstruiu-se. Talvez por isso mesmo tenha se fascinado tanto pela obra de Brasília, a ponto de registrar-lhe todos os passos e etapas.

(Caderno 2)

comentários (4) | comente

W.E. parte de uma boa ideia: na história do rei que abdicou ao trono por amor, faltava o ponto de vista da mulher. “Falou-se muito de tudo a que Edward renunciou para ficar com Wallis; mas, de certa forma, a mulher foi esquecida. Ela também deve ter renunciado a muita coisa e esse é o lado que mais me intrigava nessa história”, afirmou Madonna no Festival de Veneza, onde seu filme foi considerado uma nulidade completa pela maior parte dos críticos.

Se você assistiu a O Discurso do Rei, sabe que o monarca gago assumiu o trono quando seu irmão, Edward VIII, renunciou para se casar com a divorciada norte-americana Wallis Simpson. Esse caso, chamado pelas revistas de celebridades da época de “o caso de amor do século”, é o tema escolhido por Madonna. W.E. são as iniciais de Wallis e Edward.

O filme usa um recurso narrativo para contar essa história. Trabalha em dois tempos, um no presente, com uma mulher mal-amada, Wally (Abbie Cornish), outro nos anos 1930, com o love affair entre Wallis (Andréa Riseborough) e Edward (James D’Arcy). Wally é casada com um psiquiatra alcoólatra e violento. O casal não tem filhos. A mulher consola-se num processo de identificação com Wally e tudo o que ela representa em termos do mito da renúncia amorosa. No passado, Wallis expressa o que sacrificou em termos pessoais para viver o seu caso real. O filme seria uma meditação sobre o preço que as mulheres pagam pelo amor. Simples assim.

Para desenvolver suas ideias a respeito, Madonna usa um visual kitsch, rebuscado ao nível do inverossímil, em que o preciosismo dos gestos ou cenários nunca é utilizado por seu valor narrativo. Mesmo porque não existe realmente um ponto de vista autoral no filme, mas apenas uma espécie de lamento da mulher independente diante dos fatos que narra.

Teme-se, assim, que a Wallis Simpson retratada seja apenas um anacronismo – alguém em seu tempo histórico, mas visto e julgado pelo olhar e valores do presente. Apenas que, para fazê-lo, Madonna usa outra personagem tão anacrônica quanto a do passado, Wally, humilhada e ofendida por um marido doente, buscando consolo num guarda de segurança russo. Não é à toa que o filme cause estranheza. Ele é estranho mesmo, em sua pretensão sem base sólida, com suas peças dispostas de maneira artificial, num formalismo frio que mais afasta que aproxima o espectador.

(Caderno 2)

comentários (2) | comente

29.fevereiro.2012 11:41:40

Entrevista

23.janeiro.2012 13:29:57

Os Descendentes

Os Descendentes, de Alexander Payne, é narrado em primeira pessoa, assim como o romance de estreia da escritora Kaui Hart Hemmings, que lhe dá origem.

Esse narrador é Matthew King (George Clooney, em um dos seus melhores papéis), herdeiro rico, com a mulher em coma e duas filhas que praticamente desconhece. A história é a da (penosa) reconstrução da estrutura familiar numa situação em que a mãe está à beira da morte.

A história se passa no Havaí, onde cresceu e vive a autora. A primeira providência é desmistificar o lugar como sinônimo do paraíso. Lá as pessoas vivem, sofrem, adoecem e morrem. Brigam entre si, como em toda parte. Traem-se, alimentam sentimentos mesquinhos em relação aos outros. Mas também se alegram, passeiam, amam, vivem. É um lugar entre outros. Só que bonito de dar gosto.

Mas, apesar das boas paisagens, Payne tem o cuidado de evitar padrão cartão postal. Afinal de contas, é mesmo a paisagem interna do protagonista, Matthew, Matt para os íntimos, que conta. Com seu ar de cinquentão charmoso, Clooney encarna com perfeição esse tipo obrigado a passar a limpo sua existência enquanto a mulher luta pela vida no hospital e ele tem de resolver se vende ou não uma grande propriedade à beira do mar da qual se tornou curador. O resto da família quer que ele venda, mas Matt não está seguro. Além disso, pairam dúvidas sobre a fidelidade da esposa moribunda.

Enfim, é um filme de crise e de redefinição de valores quando metade da vida já passou. O texto original leva em direção a situações potencialmente piegas, armadilhas evitadas com cuidado por Payne. Quando tudo está ficando muito solene, ele introduz o humor. Quando a emoção se faz presente, ele não a sublinha ainda mais, pois sabe que a fronteira com a pieguice está próxima. Ninguém precisa adicionar açúcar ao doce, como costuma fazer, por exemplo, Spielberg. Payne é mais contido. O espectador sensível agradece. Pode se emocionar sem ser feito de bobo.

comentários (7) | comente

Neste mundo de machos e fêmeas alfa, os muito tímidos também têm a sua hora e sua vez. Pelo menos no cinema. No cinema francês, diga-se. São eles os “heróis” deste Românticos Anônimos, um filme sutil, engraçado e de rara gentileza. Poderia ser definido como comédia romântica não fosse o gênero tão associado à bobajada sem tempero que costuma vir de Hollywood sob esse rótulo.

Mas, enfim, como classificar de outra forma o affaire entre Jean René (Benoît Poelvoorde) e Angélique (Isabelle Carré)? Ele é dono de uma fábrica de chocolates à beira da falência. Ela vai lhe pedir emprego, mas é tão travada que não consegue dizer que é dona de uma receita genial de chocolates e acaba contratada como representante comercial. Já pensaram uma criatura com pânico ao contato social no papel de vendedora? Já pensaram num travado profissional como Jean René, com Ph.D. em timidez, tentando fazer a corte à nova funcionária?

Eis aí a ciranda entre dois “perdedores”, nessa curiosa classificação contemporânea aos que não se adaptam à filosofia da vida como rinha de galos. Ciranda com todas as trapalhadas que se possa imaginar, mas sem qualquer recurso à apelação e muito menos à grosseria. O diretor Jean-Pierre Améris recusa qualquer solução fácil ou agressiva.

Românticos Anônimos faz parte daquela fração do cinema francês que não se preocupa em ser autoral, transmitir alguma grande “mensagem” ou debater um tema contemporâneo urgente. Centra-se nas relações humanas e no que elas têm de difícil e hesitante. É um filme quase fora do tempo, na contramão, em sua simplicidade. E muito gostoso, como um bombom feito de maneira artesanal.

sem comentários | comente

14.dezembro.2011 19:59:35

Desaparecidos

 

O filme já anda sendo chamado de A Bruxa de Blair nacional. Tem suas relações. Assim como o pseudodocumentário de Daniel Myrick e Eduardo Sánchez, Desaparecidos, de David Schurmann, tem aspecto deliberadamente tosco, de vídeo caseiro. A trama, por sua vez, é de horror juvenil, potencial receita de sucesso. Mas Schurmann reivindica uma originalidade no projeto de produção. A tal festa em Ilhabela, para a qual seis jovens protagonistas teriam sido convidados, teve convite de fato divulgado no Facebook por perfis falsos. Os atores levam no pescoço uma câmera pendurada, e seriam elas que teriam captado as imagens, depois montadas, etc.

Enfim, um cruzamento entre o cinema jovem e os reality show, com sua aura de “verdade”, sendo que ninguém desconhece o fato de que nada ali é verdadeiro. Tudo é jogo e representação, mas finge-se que é real, o que também pode servir como uma boa definição de arte séria, só que, no caso, não se trata bem disso. Acredita-se apenas que o espectador peça cada vez mais que o enganem. Não se sabe se quem nisso crê esteja totalmente errado.

Há um outro ponto importante no projeto. A ideia, esta sim bem interessante, de que tudo aquilo que se planta na internet passa por real. A geração Y não se questiona nem põe em dúvida aquilo que pesca na rede. O virtual é o real e vice-versa. Há, então, esse ponto inicial, que daria certo interesse ao projeto já que poucas discussões hoje parecem tão urgentes quanto a desse namoro letal com o mundo do simulacro, como diria Baudrillard. Isso, claro, compreende não só as conversinhas pelas redes, mas o uso viral para fins de publicidade.

Mesmo levando tudo isso em conta, ainda fica difícil aceitar a dramaturgia proposta, composta de gritos e caretas em tempo quase integral. O ponto de vista é sempre o dos jovens (com exceção óbvia do final) e sua aventura por uma Ilhabela noturna. Eles vão para a tal festa, e, alguns deles, resolvem dar uma espairecida numa cachoeira dos arredores, até que… bem isso fica para quem resolver se aventurar pelo longa. Porque é uma aventura mesmo.

(Caderno 2)

sem comentários | comente

09.dezembro.2011 10:46:11

Sequestro

Com Sequestro, o diretor Wolney Atalla pretende fazer um acompanhamento de perto deste que é um dos tipos de crimes mais temidos pela população. Até por essa densidade emocional, o tema merecesse, talvez, abordagem mais sóbria que sensacionalista.

O documentário segue a receita dos programas policiais mais barras pesadas da TV. Segue vários casos de investigação da divisão anti-sequestro da polícia paulistana, acompanha o drama dos parentes das vítimas, testemunha a negociação do resgate com os criminosos. Acompanha também o desfecho de alguns casos e registra o desespero das vítimas.

Como trabalha com imagens de alto impacto emotivo, não precisaria de maneira alguma dramatizá-las ainda mais. Ou turbiná-las com uma trilha sonora rebarbativa, que chantageia e joga com a emoção do espectador. À maneira televisiva, bastante tosca, aproxima a câmera em zoom dispensável na hora em que pressente a possibilidade de lágrimas. É um filme manipulador de emoções e não nega em momento algum esse DNA.

Nem por isso precisaria também chegar ao paroxismo de responsabilizar a antiga esquerda armada pela onda de sequestros operada agora por criminosos comuns. A esquerda, coitada, já tem problemas suficientes hoje em dia para responder por mais esta acusação. A tese é de que os bandidos comuns aprenderam a técnica na cadeia junto aos guerrilheiros presos por sequestros com motivação política, como o dos embaixadores de vários países nos anos da ditadura.

Enfim, o ponto de vista constante e único do filme é o da polícia e fixa-se em referências fortes, como um delegado de fina estampa e fala fácil, o maior dos candidatos a herói que o filme providencia ao seu público.

Apresentando Sequestro no Festival do Recife de 2010, Atalla debateu com os jornalistas. Quem fazia reparos pelas escolhas de linguagem adotadas recebia a resposta de que o filme não era sobre fotografia e nem sobre música. Óbvio. Mas a maneira como se fotografa, ou se coloca uma trilha sonora, ou se decupam planos e depoimentos, e como estes são montados, não é nunca neutra. Tudo determina opções de leitura do filme e a deste, claramente, leva numa direção não reflexiva e catártica. Parece uma espécie de versão documental bastante piorada da ficção Tropa de Elite. Quando alguém lhe perguntou quais eram suas referências cinematográficas, Atalla, respondeu que era o seriado 24 Horas. As palavras dizem tudo. Antes de ser “liberado”, o filme foi mostrado à cúpula da polícia.

Sequestro é o segundo filme de Wolney Atalla. Filho de usineiro, estreou com o documentário A Vida em Cana, na qual defende de maneira romântica o corte manual da cana de açúcar como expressão de não se sabe qual tradição brasileira; um trabalho brutal, que deveria, segundo ele, ser preservado como uma espécie de bem imaterial do País. Como contraponto dessa tese, veja-se o ótimo Acercadacana (assim mesmo, tudo junto), de Filipe Perez Calheiros, sobre a realidade da vida desses trabalhadores.

Não espanta, portanto, que responsabilize a oposição armada à ditadura militar por uma das mais pavorosas modalidades de crime do presente. Filmes se fazem na cabeça, antes de serem filmados.

(Caderno 2)

comentários (3) | comente

Arquivo

Seções

Blogs do Estadão