ir para o conteúdo
 • 

Luiz Zanin

03.abril.2012 09:37:31

Os oito eleitos

Duas rodadas antes de terminar a fase de classificação, o Campeonato Paulista já tem seus oito finalistas. Como era fácil prever, lá estão os quatro grandes. Entram mais quatro “convidados”: Mogi Mirim, Bragantino, Guarani e Ponte Preta. Não é um anticlímax, um daqueles finais manjados que arruínam qualquer suspense? O que ainda pode se alterar nessas últimas rodadas são as colocações, que determinam quem joga contra quem nos jogos eliminatórios e concedem a única vantagem aos quatro primeiros, a do mando do campo. Quer dizer, um tédio só, como já se sabia, aliás, antes de a bola rolar no primeiro jogo.

Daí para a frente, surge outra aberração, a disputa de quartas de final e semifinais em jogo único para, em seguida, o mata-mata ser restabelecido para a disputa da taça de 2012. Quem bolou esse absurdo deveria ganhar um prêmio. Ou melhor, um antiprêmio, como ser obrigado a frequentar essas reuniões de cartolas por toda a eternidade. Ou ficar de castigo até apresentar uma proposta convincente para redesenhar o calendário futebolístico brasileiro em seu todo. Porque, claro, os campeonatos regionais são parte de um problema que é muito maior e desafia qualquer racionalidade, que é o calendário brasileiro.

O problema do Campeonato Paulista é mais político que logístico. A medida óbvia seria abaixar o número de clubes na divisão principal para dezesseis, embora haja quem fale em apenas 12. Mas como a federação faria para implantar medida tão impopular? Esse é o desafio, mesmo porque o desnível entre times aumentou demais e isso também compromete o interesse do campeonato. É raro que um grande encontre problemas ao jogar contra um pequeno, mesmo que seja no campo deste. Se o campeonato concentrasse na 1.ª Divisão apenas os melhores clubes do interior, a competitividade aumentaria.

Como enfrentar o desafio de desagradar aos que ficariam de fora? Bem, esse é um problema que não é nosso, da crônica, mas de quem ocupa o poder na Federação Paulista. Ossos do ofício, ônus do cargo, que exige decisões difíceis de tomar. O fato é que o campeonato não pode ter esse formato de coração de mãe, que pode satisfazer a alguns interesses, mas compromete o espetáculo na sua dimensão principal que é a de manter um certo equilíbrio.

Já que não se pode eliminar vários clubes, a solução talvez fosse reunir os competidores em grupos, tendo os grandes como cabeças de chave e fazê-los jogar entre si. Avançam apenas os primeiros, ou os primeiros e segundos de cada grupo, que disputam entre si em eliminatórias até chegar à decisão. Algo no modelo da Copa do Mundo. Alguém por certo vai dizer que os times mais fracos teriam carreira breve e logo seriam eliminados, ainda na fase de grupos. É verdade. Mas como alterar esse sistema que aí está, e desagrada a todos os observadores, sem que alguém se sinta prejudicado? Impossível, mas algo precisa ser feito para que o campeonato não caia em descrédito.

(Coluna Boleiros)

comentários (6) | comente

Amigos, Tite declarou que o título do Corinthians era inquestionável. Verdade pura. No sistema em que o Campeonato Brasileiro é disputado desde 2003, os títulos são sempre inquestionáveis, a não ser que haja a interferência de um fator externo, como já aconteceu. Comportando-se a arbitragem de maneira normal – isto é, sendo incompetente de maneira equitativa – quem somar mais pontos na última rodada é mesmo o legítimo campeão.

Essa é a maior virtude do sistema. Uma vez definido, ele é justo e sem margem para contestações. Também é um tanto abstrato – no bom sentido do termo. Ficamos procurando instantes marcantes e, de fato, encontramos às vezes esse ou aquele momento em que o título foi definido. Eu mesmo escrevi aqui sobre um desses momentos, quando Adriano marcou aquele gol contra o Atlético Mineiro. Mas, a bem da verdade, se o gol do Imperador foi decisivo, mais ainda o foram os de Liedson, diluídos ao longo de toda a competição.

Também me parece o grande acerto do ano a manutenção do técnico Tite nas horas difíceis, como a derrota para o Tolima na pré-Libertadores. Naquele momento pensei que o treinador não fosse sobreviver. Não estava errado. Baseava-me na tradição brasileira de sempre encontrar um bode expiatório para as derrotas. Mas Andrés me desmentiu e essa manutenção, contra toda a expectativa, revelou-se decisiva. Se o Corinthians tivesse mudado de técnico, ainda assim seria campeão? Não sabemos. Jamais saberemos, porque a pergunta é absurda, pura especulação. O que sabemos, sim, é que Tite ficou, montou um time nada brilhante, porém estável e conduziu-o ao título.

De certo modo, o time é o retrato perfeito do Campeonato Brasileiro de 2011. Ganhou na constância, na raça e no sufoco, como é da natureza do clube. Teve um oponente de valor, o Vasco, que trabalhou no limite máximo durante muito tempo e, na reta final, cansou. Não conseguiu definir na Sul-Americana, nem no Brasileiro. Mas fez um ano empolgante que, ao contrário do que andam dizendo, não entrará para a história. Entraria, caso viessem os dois títulos que completariam a tríplice coroa.

Os outros todos concorrentes ao título decepcionaram, cada qual à sua maneira. Para ficar nos paulistas: o Palmeiras colocou um pouco a cabeça fora d’água no final, mas seu balanço de ano é muito negativo. O mesmo se diga para o São Paulo que, a certa altura, pareceu engrenar e desandou. Tem de se repensar por completo. O Santos é um caso à parte, pois logo elegeu o Mundial como objetivo e largou o Brasileiro. Qualquer que seja o resultado do torneio no Japão, já contabiliza ano ótimo. Segurou Neymar e outros jogadores, voltou a ganhar uma Libertadores depois de 48 anos e reelegeu um presidente de ótima gestão. Preparou terreno para a comemoração do centenário em 2012.

Sócrates. Duas palavras sobre o Doutor, morto no dia da vitória do seu Corinthians. Foi dos maiores que vi jogar. Era um daqueles raros jogadores que introduziam o inesperado na rotina do jogo. Quer dizer, produzia com frequência momentos poéticos na prosa do cotidiano. Fosse por um passe de calcanhar, por um deslocamento inesperado em campo, um arremate a gol, sempre deixava a marca do seu estilo. Um atacante mais banal teria cruzado ou dado um chutão contra a meta italiana naquela partida triste de Sarriá. Ele fez o que não se esperava e colocou a bola no espaço entre o goleiro Zoff e o poste. Era original. Também o era fora de campo porque, numa profissão de alienados submissos, era barbudo, cabeludo e dono de aguda consciência social. Viveu como bem quis, digam o que disserem os moralistas de plantão. Que esteja em paz, porque muito deu em vida a todos nós, que amamos o futebol-arte e as ideias fortes.

(Esportes)

comentários (8) | comente

Amigos, também no futebol existe o pensamento politicamente correto, que, como vocês sabem, é composto de pequenas (e às vezes grandes) hipocrisias. Agora ele se manifesta quando alguns palmeirenses dizem pouco se importar em impedir o título do Corinthians. “Queremos apenas jogar bem e ganhar”, diz Felipão.

No outro lado da história, a mesma coisa. Luxemburgo também declarou que deixava para a torcida a possível satisfação de tirar o título do Vasco. Queria apenas jogar bem, etc. No caso do Flamengo, com a motivação adicional: está em jogo uma vaga na Libertadores. No Palmeiras, nem isso: a única recompensa é mesmo botar água no chope do principal adversário.

Todo mundo sabe disso. Mas não se diz. Não fica bem a profissionais dar mostras de tamanha passionalidade. Deixa-se essa manifestação emotiva para a torcida que, esta sim, é amadora e, como amadora, pode se deixar levar por arroubos da paixão, tanto positiva quanto negativa.

Os técnicos deram essas declarações diplomáticas e dificilmente os jogadores falarão de modo diferente. Dirão que manda a ética do esporte que se jogue a sério e assim por diante. Eu ficaria surpreso se algum deles confessasse o prazer que seria tirar o pão da boca de um rival próximo. Mesmo porque gente capaz de fazer isso, como Vampeta, Romário ou Edmundo já não está mais em atividade. Hoje predominam os bons moços, com suas frases sensatas e sem sal ditadas pelos profissionais do media training. Não declaram nada que possa comprometê-los no futuro que, como costumam dizer, a Deus pertence.

Diplomacias e pequenas hipocrisias à parte, o que não se pode deixar de reconhecer é o acerto de colocar os clássicos regionais na última rodada do campeonato. Se não, é possível que tivéssemos em 2011 um repeteco de outras edições, com times desmotivados e – pior – interessados em entregar o jogo para prejudicar o rival direto.

A sábia decisão de deixar os dérbis para o fim aquece o desfecho do campeonato à temperatura máxima. Isso por obra e graça da matéria-prima da qual são feitas todas as disputas: a rivalidade. Sem ela, todo futebol vira um casados x solteiros. Aliás, a comparação é injusta. Já vi muita gente sair estropiada depois desses rachas de fim de semana, regados a cerveja e churrasco. O bicho homem não gosta de perder. Quando o assunto é futebol, menos ainda. E só há uma coisa pior do que perder: é ver o seu rival ganhar. Curioso como uma atividade tão bela como o futebol se nutra (também) de instintos tão baixos.

Mas assim é a vida. Complexa e contraditória é a natureza humana. Porque se existe baixeza em desejar o pior para o seu rival, também há grandeza em reconhecê-lo em seus feitos legítimos. Assim como o torcedor já viu (e pode ter praticado) cenas de sadismo com o sofrimento alheio, também já testemunhou a generosidade. Por exemplo, quando nos compadecemos de um time rebaixado para a segunda divisão e nos sentimos solidários com a torcida machucada. Ou, quando aplaudimos uma bela jogada do adversário, reconhecendo-lhe a arte, mesmo quando é contra o nosso time. Vi Pelé ser aplaudido várias vezes por rivais derrotados. Vi a torcida santista homenagear Marcelino Carioca quando ele marcou um gol maravilhoso na Vila Belmiro, contra o Santos. Somos assim. Cheios de contradições e nuances. Por isso o futebol nos representa tão bem.

E, por isso mesmo, que me desculpem os corintianos, teria sido uma pena para um campeonato tão bom se tivesse terminado já no domingo. Seríamos privados da emoção maior da última rodada. Se o título vier para o Corinthians, que seja da maneira como eles parecem gostar, com o máximo de sofrimento. E se for para o Vasco, quer merecimento maior?

(Esportes)

1 Comentário | comente

Amigos, o cinema americano nos viciou no tema da segunda chance. Lembram da história clássica do xerifão, rápido como corisco no gatilho, que acabou vivendo seu mau pedaço de vida, aderiu ao jogo e ao uísque de milho, foi ridicularizado no saloon, mas um belo dia tirou a ferrugem do Colt e do amor próprio, liquidou o bandido e restabeleceu a moral da cidade, desaparecendo no horizonte enquanto a tela exibia o clássico pôr do sol e o inevitável The End? Quem não se emociona, embora tenhamos visto mil variantes da mesma coisa? Para não dizer que tudo isso é exclusividade dos gringos, a segunda chance é tema de um clássico da literatura brasileira, A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa, também levado ao cinema na genial recriação do diretor Roberto Santos. Como se lembram, também Matraga abusou da sorte, fez das suas e se deu mal. Mas no momento propício, comportando-se como herói, resgatou a sua moral. Teve a sua vez e a sua hora.

Se me perdoaram a literatice e menções ao cinema do parágrafo anterior, vocês já perceberam aonde quero chegar. Sim, porque o nosso glorioso Sport Clube Corinthians Paulista parece ter se especializado na arte de acolher personagens desacreditados que, vestindo sua camisa, veem chegar a sua hora e vez de maneira totalmente improvável. Resgatam-se perante a opinião pública e, acima de tudo, perante a si mesmos. Foi o caso de Ronaldo. Parece ser o caso de Adriano. Às vezes parece até má ficção. Mas tudo é verdade, como dizia um certo Orson Welles.

Falo, claro, do gol contra o Atlético Mineiro, o gol que todos comentam pelas repartições, pelas esquinas, botecos e mesas redondas. O gol salvador do Corinthians, que parecia destinado ao empate no Pacaembu e viu o Imperador renascer numa corrida pouco crível, receber a bola açucarada do Emerson Sheik, bola doce, mas ainda assim difícil, e colocá-la fora do alcance do goleiro Renan, no único e reduzido espaço disponível para fazê-la entrar na meta atleticana. Gol de quem sabe como tratar a bola e, portanto, dela recebe em troca afeto e carinho, mesmo que esporadicamente. O gol que, caso se confirme o favoritismo do Corinthians, será cantado nas rapsódias do Parque São Jorge como “o gol do título”.

Claro, essas coisas não resistem à menor análise racional. Quem for campeão, terá sido porque acumulou, ao longo do ano, ponto sobre ponto para que, na conta final, tivesse mais que todos os seus concorrentes, e não porque marcou um gol numa determinada partida aos 43 minutos do segundo tempo. O Corinthians não será exceção dentro dessa racionalidade do sistema de pontos corridos do campeonato. Haverá quem, com mais razão, cite aquela arrancada fulminante do início do campeonato, quando o time de Tite pôde forrar a poupança que o nutriu no tempo das vacas magras, no tempo dos altos e baixos da disputa.

Esse é o lado racional, que deve ser levado em conta. Porém, no futebol, como na vida, precisamos de outro tipo de narrativa, tão verdadeira, ou mais, quanto a frieza da análise lógica. É aqui que entram os heróis, essas pessoas predestinadas que, em algum momento, mesmo que seja apenas em um único e reles momento, brilham e realizam alguma coisa que parece acima do comum mortal.

É aqui onde entra Adriano Leite Ribeiro que, após sua façanha, lembrou-se de que havia um ano e cinco meses não balançava a rede. Tinha essa conta de cabeça, precisa. Devia refazê-la dia após dia. Somava sempre mais um dia de abstinência a todos os outros que compõem o longo estio do jejum, até que parecesse não ter mais fim. Para ele não foi apenas um gol. Foi uma libertação. Quando a segunda chance se apresentou, Adriano a ela se agarrou com a gana do herói. Com a obstinação de um náufrago.

(Esportes)

comentários (4) | comente

27.setembro.2011 12:21:20

Pintou o campeão?

Amigos, claro que posso estar enganado, mas dois times me impressionaram nesta última rodada e acho que ambos têm cheiro e pedigree de campeão. Refiro-me, claro, a Vasco da Gama e São Paulo.

Ambos protagonizam, por caminhos diferentes, os jogos mais eletrizantes da rodada. O Vasco fez uma exibição sinfônica sobre o pobre Cruzeiro e o solista desse concerto foi Diego Souza, com três gols, um mais bonito do que o outro, o terceiro simplesmente de placa. Já no São Paulo, o que me impressionou foi a entrega, a disposição de buscar um resultado melhor depois de estar perdendo por dois de diferença, e no campo do adversário ainda por cima. Se Rivaldo tivesse acertado aquele toque por cobertura, e proporcionado a virada ao seu time, o jogo entraria para a épica do Morumbi. Mesmo o empate foi notável.

Os dois times, Vasco e São Paulo, mostraram categoria, recursos e, acima de tudo, alma – que é o que decide um jogo ou um campeonato. Não estou dizendo que basta ter alma para que um agrupamento de cabeças de bagre se torne campeão. Mas é preciso ter alma para que um bom time se erga acima de suas possibilidades e chegue ao título. Vasco e São Paulo insinuaram, nessa rodada, que têm essa característica. Se mantiverem a chama, acho que vão levar a disputa pelo título brasileiro de 2011 palmo a palmo, até o final.

Digo isso embora o Corinthians esteja em segundo lugar, um ponto acima do São Paulo e dois atrás do Vasco. Mas, sinto, não vejo no Corinthians a mesma disposição, o mesmo estado de ânimo férreo que pode conduzir ao título. Friamente falando, é claro que está no páreo, mas o time de Tite me parece burocrático demais para um verdadeiro campeão. Enfim, daí a importância do jogo de domingo próximo entre o Timão e o Vasco, em São Januário. A partida tem ar de decisão – uma das tantas decisões de que é tecido um campeonato por pontos corridos.

Se vencer, ou mesmo empatar, o Corinthians pode botar um pouco de água na fervura vascaína. Mas, se o Vasco vencer, abre vantagem considerável. E, quando digo vantagem, não me refiro apenas à pontuação, mas à força moral que exibiria diante dos concorrentes diretos. É jogo para não se perder de jeito nenhum.
De qualquer forma, no seu jeito marcha lenta, o Corinthians, com a sofrida vitória sobre o Bahia, se mantém no páreo. O próximo jogo será decisivo para avaliar melhor suas pretensões.

E, falando nisso, o que dizer das pretensões dos outros paulistas? Bem, o Santos mostrou, sábado contra o Figueirense, uma quase total incapacidade de criação. Colegas têm falado na dependência de Neymar. Claro, mas convém lembrar que o time também não tinha Ganso e nem Elano. Ninguém para criar. Limitou-se a chutões, ligações diretas e chuveirinhos – provas definitivas da insuficiência de criatividade. Muricy diz que não jogou a toalha. Parece cada vez mais óbvio que não conta mais com o título, mas precisa manter a motivação do time em velocidade de cruzeiro para não ser pego na pasmaceira quando tiver de jogar o Mundial no Japão em dezembro. Foi o que aconteceu com o Internacional de Porto Alegre no ano passado, com o desfecho que conhecemos.

E quanto ao Palmeiras? Pode-se perguntar como um time pode tomar um empate diante de um adversário com dois jogadores a menos. O Palestra realizou a façanha. Quando terminou o jogo, fiquei ligado na TV esperando a coletiva de Luis Felipe Scolari. E Felipão não decepcionou. Quando alguém lhe perguntou o que faltava ao Palmeiras, respondeu que talvez faltasse um bom técnico. Ironias à parte, a frase talvez revele o mal-estar existente no clube. O Palmeiras parece minado pelas disputas internas. Por isso a equipe mostra-se sem fôlego em campo. O time é apenas sintoma de um mal maior.

comentários (3) | comente

No filme Boleiros, do nosso colega de espaço Ugo Giorgetti, há uma cena muito interessante. Véspera de Palmeiras e Corinthians, o elenco alviverde vai para a concentração num hotel da capital. O garanhão da equipe se engraça por um mulherão (Marisa Orth), exemplar daqueles de parar o trânsito. O técnico do Palestra, interpretado por Lima Duarte, preocupado com o fôlego do seu atleta para o jogo do dia seguinte, chega-se à sirigaita e lhe diz: “A senhora não sabe o que é um Palmeiras e Corinthians!”.

Pois é, quem não sabia, conheceu domingo o que é a rivalidade desse derby paulistano, que ainda vai render polêmica durante toda a semana. Foi uma partida elétrica e tempestuosa, já antecedida por discussões na escolha do árbitro, e assim continuou quando a bola começou a rolar. Não vou fazer aqui a apologia de lances ríspidos e nem discutir se as expulsões de Danilo e Felipão foram justas. Só lembro que elas aconteceram dentro de um clima de alta temperatura que só os grandes clássicos são capazes de oferecer. Tudo isso fruto de uma rivalidade que nasceu lá atrás e vem sendo passada de geração a geração como herança de pai para filho.

Por tudo isso, foi uma partida ótima para se assistir, mesmo para quem não torce para nenhum dos dois. Teve sabor até para o aficionado neutro, nem corintiano nem palmeirense, que pôde se aproveitar da emoção no que ela tinha de melhor, sem a contrapartida de tensão que um jogo desse tipo causa. Por isso, numa época em que o marketing tenta nos convencer de que devemos nos interessar mais por Real Madrid x Barcelona do que pelo nosso pobre futebol doméstico, continuo a achar que nossas rixas locais são insubstituíveis.

São elas que trazem ao espetáculo esse colorido emocional que as outras disputas não têm. Ou têm numa escala infinitamente menor. Falo de Corinthians e Palmeiras, e poderia estar falando de Vitória x Bahia, Flamengo x Vasco, Atlético x Cruzeiro, Grêmio x Internacional etc. Poderia incluir também todas as rivalidades menos badaladas, pouco midiáticas, que existem Brasil afora e levam seus torcedores ao abismo da paixão. E, por isso, contaminam os jogadores e tiram deles o que às vezes nem têm para dar. A magia do futebol depende dessa emoção sem igual e ela, em boa parte, se deve à rivalidade.

O problema será sempre dosar esse doce veneno, de modo que aqueça a disputa sem por isso transformá-la em incêndio – tanto fora como dentro de campo. É um fio de navalha, em que qualquer erro de medida pode se mostrar fatal. Pode-se especular se o Palmeiras errou um pouco a receita e botou mais pilha nos seus jogadores do que seria necessário. É possível, e claro que as expulsões de Danilo e de Felipão tiveram alguma coisa a ver com o desfecho da partida. Mas, como estamos falando de futebol, também é verdade que o Palmeiras, mesmo com dez em campo e sem técnico, jogou melhor e esteve mais perto de ganhar. Lutou com valentia, fato reconhecido até por sua exigente torcida, que aplaudiu o time derrotado nos pênaltis.

E assim chegamos a nova final alvinegra, outra rivalidade não menos histórica, que inclui tabus duradouros e goleadas humilhantes em seu retrospecto. Dois jogos para decidir quem será o campeão paulista, Corinthians ou Santos. Ida e volta, como deveria ter sido nas semifinais, pelo menos. Time por time, o do Santos está melhor neste momento mas, ao mesmo tempo, dividido entre o Paulistão e a Libertadores, caso passe hoje no México. Fosse o futebol uma disputa sem grande influência dos componentes emocionais, eu diria que é levemente favorito. Um tiquinho assim. Mas a gente sabe que, quando a bola começa a rolar, a rivalidade e a emoção passam a fazer seu trabalho de desmontagem dos prognósticos racionais.

comentários (8) | comente

bola

Nesse clima de tensão pré-Copa, alguém tem de pagar o pato e a bola Jabulani foi escolhida como a Geni da vez. Em caso de dúvida, jogue pedra nela, para não dizer outra coisa. Júlio César, Luiz Fabiano e até Júlio Baptista andaram falando mal da bola. Desvia, faz curvas inesperadas, é leve, parece comprada em supermercado, e vai por aí. A Jabulani foi responsável até por uma indelicadeza de Felipe Melo que, como todos sabem, é moço fino e sutil. E não é que ele deu de bico na boa educação ao dizer que a bola tradicional, a boa, é que nem mulher de malandro: apanha sem reclamar? Já a Jabulani, segundo Felipe, seria como patricinha. “Não quer ser chutada.” É mole?

No interior se diz que a viola é a desculpa do mau violeiro. Será que não é esse o caso criado em torno da Jabulani, palavra que, em zulu, quer dizer “celebrar”? Pode ser. Quando a gente lembra da infância, ou quando vai ao Museu do Futebol e vê aquelas bolas antigas, de capotão, e as chuteiras, que mais parecem botinas militares, não consegue evitar a impressão de que hoje em dia a frescura entre jogadores é generalizada. Boleiros do passado lembram que usavam camisas de algodão, que pesavam toneladas ao ficar encharcadas de suor. As bolas, em tarde de chuva, viravam balas de canhão, suplício das barreiras e dos goleiros. Pesavam como chumbo, assim como as velhas chancas de couro de boi. “Hoje as chuteiras são levinhas, parecem sapatilhas de dança”, elogiou certa vez o Rei Pelé, que alguma coisa deve entender do assunto.

No fundo, tudo parece falta do que fazer. Nos muitos momentos de tédio da concentração procura-se assunto para matar o tempo e busca-se chifre em cabeça de cavalo. Como já disse o nosso amigo Antero Greco, quando a bola de fato começar a rolar, todo esse papo furado será esquecido e iremos nos concentrar no que de fato importa, que são os jogos. Neles, a bola, propriamente dita, irá se portar direitinho, desde que bem tratada. Mesmo que seja a pobre e malfalada Jabulani.

Mais desculpas

Para alguns santistas não foi a bola e sim o juiz o culpado pela derrota para o Corinthians. Há motivo para reclamação no gol mal anulado de Marquinhos e talvez Edu Dracena tenha sido deslocado no lance do segundo gol. Mas são razões suficientes para explicar o 4 a 2? Não. É preciso lembrar que, no segundo tempo, o Corinthians jogou muito bem. Fechou espaços, marcou as estrelas do adversário e aplicou contragolpes certeiros. Foi eficiente. Reclamar de quê? A vitória do Corinthians foi límpida.

O que não quer dizer que tenha dominado o jogo do começo ao fim. Nada disso. O Corinthians fez um gol logo de cara, mas depois o Santos conseguiu acuá-lo em seu campo até o final do primeiro tempo. Forçou e, sem ser brilhante, construiu jogadas até empatar. Mas, ao fazê-lo, mostrou a sua já notória instabilidade e tomou um gol logo em seguida. Ao longo de praticamente todo o jogo, o Santos, por mérito do Corinthians, mas também por deficiência do seu sistema defensivo, viu-se obrigado a correr atrás do placar adverso. Não há time que aguente isso. Não todo o tempo. Ao tomar esse segundo gol, quando a reação parecia palpável, o Santos sentiu o golpe. Desmoronou, psicologicamente.

A partida foi importante para os dois times. Para o Corinthians, porque serviu para exorcizar de vez a desclassificação da Libertadores e para se reafirmar como time consistente, capaz de ganhar o Campeonato Brasileiro para não passar o centenário em branco. Para o Santos, talvez seja a ocasião para se repensar, pois ainda é tempo. O inegável brilho do setor ofensivo não pode esconder as muitas deficiências, em especial em seu sistema defensivo. Sem algum equilíbrio não se vai muito longe. Um pouco de realismo garante a fantasia.

(Coluna Boleiros, 1/6/10)

sem comentários | comente

Percebi comentários contraditórios a respeito do clássico Portuguesa x Santos. Alguns disseram que o espetáculo previsto dos meninos da Vila não se repetiu. As circunstâncias do jogo  teriam conduzido a partida a uma zona de seriedade na qual não se admite espaço para firulas, etc. Porém, houve uma espécie de consenso ao se afirmar que a partida do Canindé havia sido a melhor até agora do Campeonato Paulista.

Acho válidas as duas análises, mesmo porque mantenho, como princípio de vida (e de colunista), não julgar os outros. Opinião é como cabeça – cada qual tem a sua e sabe o que dela faz; e ponto final. Não sou ombudsman da mídia dita especializada e me esforço por respeitar quem discorda de mim. Esta, aliás, é a única prática possível da liberdade, já que não existe vantagem alguma em respeitar quem pensa do mesmo jeito que nós. Difícil é aceitar o outro em sua diversidade, e no que ela nos contesta.

Dito isso, acrescento que, de minha parte, o gosto pelo espetáculo vem de outros aspectos e não necessariamente de um chapéu ou um gol espetacular. Claro, se vierem a finta desconcertante ou aquele gol de antologia, serão bem-vindos. Mas houve alguma coisa desse tipo entre Santos e Portuguesa? Não. O placar sequer foi dilatado – meros 1 a 1. Nenhum dos dois gols mostrou-se digno de uma placa no estádio. O da Lusa foi bem construído, e só. O do Santos aconteceu num bate-e-rebate comum, depois de muita pressão. De quem tanto se esperava, não veio grande coisa. Ganso esteve apagado. Robinho esforçou-se, mas não teve muito espaço. Neymar, tirando um ou outro lance isolado, não repetiu façanhas de jogos anteriores. E, no entanto, o espetáculo aconteceu. Por quê?

Talvez pela disposição das equipes. Mesmo marcado, e de maneira inteligente, o Santos não abdicou da sua melhor característica, a ofensividade. Pelo contrário. Quando as coisas não estavam dando certo, Dorival Jr. tirou um volante (Roberto Brum) e colocou um meia (Marquinhos). A opção deixou o Santos ainda mais vulnerável aos contra-ataques, mas aumentou a pressão em sua linha ofensiva. A Lusa jogou certo. Não optou por uma retranca mesquinha, mas já entrou sabendo que um time armado como o Santos deixa sempre espaços em branco na linha de defesa. Aproveitou-se disso e teve a partida nos pés em duas ou três ocasiões. Não matou, por isso tomou o empate. Foi essa dinâmica entre as duas equipes que pôs fogo no jogo e justificou o adjetivo “eletrizante” com o qual o caracterizaram. No final da partida, me lembrei de um verso do poeta português Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena/Quando a alma não é pequena”. O clássico foi ótimo porque os dois times pensaram grande.

E, por falar em grandes, a seis rodadas do término da fase de classificação, parece que a profecia inicial de que os quatro principais clubes do Estado iriam se classificar com facilidade para as semi-finais dificilmente irá se cumprir. Pelo menos um deve ficar fora. No momento, o Palmeiras está bem abaixo do G-4. Tem ainda chances de alcançá-lo. Mas o pior (dependendo do ponto de vista adotado) é que Botafogo e Santo André não parecem dispostos a vender barato essa vaguinha. Mal e mal, Corinthians e São Paulo estão chegando lá e, uma vez classificados, mesmo aos trancos, serão candidatíssimos ao título. Já o Palmeiras terá de ralar muito e vencer problemas internos para se poupar do primeiro vexame do ano.

comentários (4) | comente

02.março.2010 09:40:52

Faltou um Zito

Domingo, na Vila, um torcedor um pouco mais veterano, suspirou: “Por isso é que aquele time dos anos 60 era grande; além de bom de bola, jogava com seriedade o tempo todo.” A bronca veio num momento do jogo em que o Corinthians já tinha perdido dois jogadores por expulsão e o jovem time do Santos, ao invés de aproveitar a oportunidade e meter uma goleada histórica, ficou tocando a bola de lado e fazendo firulas em campo.

Vamos dar o desconto: torcedor do Santos, em especial os que viram Pelé, Coutinho & Cia ao vivo e em cores, é rabugento mesmo. Nunca está satisfeito com nada, o que acaba ficando chato, pois, no limite, mostra-se incapaz de curtir a beleza deste time que surpreende a todos – até mesmo a este cronista que, no começo do ano, apontou o Santos como a quarta força do futebol paulista. Mea culpa, mas como adivinhar que time tão jovem daria liga em tão pouco tempo? Surpresas – agradáveis – do futebol.

Mas há um lado verdadeiro na bronca do torcedor – que, aliás, não foi exclusiva dele, pois uma boa parte da torcida que estava na Vila Belmiro se irritou durante os 20 minutos finais do jogo, quando o Santos tinha superioridade no marcador, dois jogadores a mais e deixou um Corinthians valente quase empatar o jogo. Eles exageraram e foram pouco objetivos. Teria sido um castigo cruel, mas talvez funcionasse como lição interessante para os meninos. E que lição é essa? Não se brinca impunemente com o futebol. Ou, como dizia certo técnico mal-humorado: a bola pune. Talvez naquele momento de dispersão, quando devia ir para cima do adversário enfraquecido e liquidar a parada, tenha faltado ao Santos um Zito, um grande comandante para botar ordem na casa e recolocar o time nos eixos quando começa a descarrilar.

Era o que fazia o capitão daquele time inesquecível. Cercado de cobras criadas por todos os lados, grande jogador ele próprio, cabia a Zito passar descomposturas em quem saísse da linha. O próprio Pelé ouvia de cabeça baixa o que o capitão tinha a dizer. Um líder desse tipo não inibe ninguém; pelo contrário, facilita a vida da molecada que encontra nele um ponto de referência, quase uma figura paterna. O problema é um só: onde achar um Zito hoje em dia?

Em falta de um líder dessa qualidade, o jovem Santos vai caminhar no fio da navalha: como encontrar o limite certo entre o talento, que produz o futebol arte, e a soberba, que pode botar tudo a perder? Ninguém deve podar a irreverência desses garotos, que estão jogando o fino da bola. Mas alguém tem de dizer a eles que o grande espetáculo precisa de uma conclusão à altura – a bola no fundo da rede. Caso contrário é só espuma. Cabe a Dorival Jr., que está fazendo um grande trabalho com esse time, explicar aos jovens esse fundamento maior do jogo. Você respeita um adversário quando faz nele o máximo de gols que puder.

INFÂNCIA BRASILEIRA

Além de Neymar, Ganso e André, outro menino chamou a atenção neste fim de semana: Wellington Silva, do Fluminense. O garoto fez um dos gols na vitória sobre o Friburguense e, na entrevista, chorava a ponto de dar dó. Minha mulher, ao ver a emoção do moleque, também puxou o lencinho. Enfim, era uma cena de novela mexicana – no bom sentido, é claro. Eu via no menino um pouco da fisionomia de Pelé quando surgiu, um pouco da de Robinho e também me comovi. Depois, a emissora informou que Wellington tem 17 anos, já foi comprado pelo Arsenal e segue para a Inglaterra quando completar 18. Nesse ponto, quem teve vontade de chorar fui eu.

(Coluna Boleiros, 2/3/2010)

comentários (10) | comente

Arquivo

Seções

Blogs do Estadão