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Luiz Zanin

Recebi esses comentários do antropólogo Felipe Lindoso sobre Xingu, o filme de Cao Hamburguer. Como os considero muito interessantes para nós, críticos, que costumamos discutir a questão estética, transformo-os em post. Leiam, pois valem a pena. 

 

 

“Prezado Zanin,

Demorei a ver o filme, e gostaria de compartilhar com você algumas observações.
Li o livro do orlando – afinal, sou antropólogo – e gosto muito. Mas o filme, no meu entender, transformou o relato de uma vida em um material sem força dramática. Acho que é um velho problema do cinema brasileiro, querer abarcar longas históricas e não sacar que a força dramática do filme vem do foco em determinados pontos da ação.
Dessa maneira, o Xingu na verdade poderia ser três filmes. O primeiro é o da transformação de três jovens urbanos em aventureiros e exploradores. Afinal, eles se alistam como analfabetos e peões e o filme corta depois para os irmãos como chefes da expedição. A dramaticidade dessa transformação foi jogada no lixo. Se o filme terminasse no encontro com os Kalapalo já seria um primeiro grande filme.
O segundo é o da criação do parque. Afinal, a façanha dos Villa Boas foi não apenas conseguir a érea, mas convencer etnias que, em alguns casos, eram inimigas, a estabelecer um modus vivendi no parque. Essa dinâmica se dilui no filme.
O terceiro filme seria o das contradições que eles têm que enfrentar: transigir para conseguir os objetivos maiores, abrir a base do Cachimbo para conseguir o parque; os dilemas de Leonardo, que reprime e esconde seu relacionamento com uma índia ao mesmo tempo que condenou o irmão; a própria história da paixão de Orlando e Marina.

Enfim, uma grande história que fica ótima no livro, pela sua forma, e que se dilui no filme, ao qual falta, no final das contas, densidade dramática.
Acho que o relativo fracasso de público se deve a isso. Como filme, é fraco.

Só complementando. Imagine se o Cao, no filme O Ano em que maus Pais… começasse contanto a militância do casal, passasse pela história do menino no Bom Retiro e ainda continuasse contando a morte dos militantes. Ficaria uma linguiça enorme e chata. O roteiro resolve tudo centrando no menino que ficaria com o avô e termina com a comunidade dos judeus do Bom Retiro, e o resto está implícito, não precisa ser contado ali.

Abraço”

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RECIFE – Não digo que a inteligência seja tudo na vida – ou mesmo no cinema. Às vezes até atrapalha. Mas é bom quando posta em prática, e da maneira como o faz Jorge Furtado em Até a Vista.

O curta-metragem, me informam, faz parte de uma série para TV a cabo. Algo como dez episódios, ou coisa assim, dirigidos por diretores conhecidos. Jorge é um deles.

A história é a de um candidato a cineasta que descobre uma boa história, escrita por um argentino. Vai até Buenos Aires, tentar comprar os direitos do livro e encontra a figura, um certo Borges Escudero. Este tem um pedido a fazer: cede os direitos em troca de uma viagem ao Brasil, para reencontrar uma certa pessoa que ele conheceu tempos atrás.

O pequeno filme é uma aula sintética de humor, amor e ternura pelos personagens. Não poupa, no entanto, alguma dose de ironia e distanciamento crítico, ao comentar as relações entre brasileiros e os vizinhos, as dificuldades dos cineastas, etc.

Enfim, há inteligência e humor, termos que se aproximam muito. Coisa rara hoje em dia. A ser saudada quando aparece. É um refresco.

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Como costuma acontecer (há exceções) as entrevistas coletivas fazem mais esconder o filme que revelá-lo. Foi o que se passou na coletiva de Paraísos Artificiais, de Marcos Prado. A autocongratulação entre atores, diretor e jornalistas pouco acrescentou à compreensão de um filme de proposta ousada, porém com problemas de decolagem, como acontece com certos aviões.

Prado tenta um mergulho no universo jovem, das drogas, das raves. (Bem, ele mesmo diz que o termo rave é inadequado, pois este designa uma festa por tempo limitado, enquanto o que os jovens frequentam os festivais de música eletrônica, vários dias, em regiões paradisíacas, festas muito intensas, com muita droga e bebida.)

Enfim, o filme se divide entre o Rio, nordeste brasileiro e Amsterdã, com a condução da protagonista Erika (Nathalia Dill), no papel de uma DJ.

O filme, cujo título se deve a Baudelaire, tem muitas cenas de sexo, entre homem e mulher e entre mulheres, uso de drogas e conflitos familiares. Não abandona, no entanto, apesar dessa “temática” forte, um certo plano de voo de baixa altitude, talvez com vistas a um diálogo mais fácil com o público. E também de baixa profundidade. De fato, a impressão que se tem é de superficialidade.

No entanto, é muito bem filmado – mais uma vez por Lula Carvalho, que trabalha muito e bem, seguindo os passos do pai o consagrado Walter Carvalho. Quer dizer, o filme tem qualidade, é muito bem filmado, mas ressente-se de uma visão um tanto epidérmica da juventude, de sua relação com as drogas ou com o sexo. No próprio debate foi abordado o tema da juventude, essa geração ultraplugada, que atende pelo nome de “geração T (de testemunha), que posta tudo no twitter ou no Face no momento mesmo que o está vivendo. Aconteceu na sessão do filme no Cine Teatro Guararapes. Acontece o tempo todo. Talvez se pudesse fazer uma relação entre essa sensação opressiva de viver um eterno presente e o uso de drogas, mas não se fez.

Muita coisa fica no ar e, no desfecho, que óbvio não citarei, tudo parece bem arrumadinho demais, todas as pontas são unidas e não se dá um respiro para que o espectador tire suas próprias conclusões. Por isso, por mais que o filme às vezes “ameace” ser bom, acaba não passando de um plano mediano.

Acho que foi pouco pensado.

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27.abril.2012 17:39:08

Girimunho

Duas velhas senhoras se tornam mais próximas quando o marido de uma delas morre. As mulheres interpretam os seus próprios papéis, quer dizer, empenham-se naquilo que no meio cinematográfico costuma se chamar de “autoficção”. Um termo que coloca sério problema para definir fronteiras entre o documentário e a ficção e tem se prestado mais a confusão que esclarecimento. Ao refazerem suas existências diante da câmera, estariam essas senhoras criando vidas novas ou se prestando a uma espécie de relatório etnográfico?

Talvez nada disso mais importe. Eduardo Coutinho, autor de Cabra Marcado para Morrer e Jogo de Cena, dois títulos referenciais  do cinema brasileiro, disse que nem podia ouvir mais falar nessa questão. Falso problema, segundo ele. Girimunho retoma tudo isso tomando por título esse termo já de ressonância roseana. Envolve o espectador no torvelinho do mundo das mulheres, sem explicitar o que é documental ou ficção. Inventa-se ou registra-se.?Tudo isso passa em especial pela fala e presença de de Bastú (Maria Sebastiana Alves), viúva de um certo Feliciano, e sua vizinha.

O filme é feito de palavras, mas também sons, silêncio, sombras. Aposta, em sua dimensão poética, no caráter sensorial do cinema, produzindo a imersão na magia sertaneja, numa localidade chamada São Romão, interior de Minas.

Nesse trabalho, os diretores Helvécio Marins e Clarissa Campolina aproximam-se do ar misterioso do conterrâneo ilustre da literatura, Guimarães Rosa, que encontrava na fala sertaneja a elaboração metafísica das grandes questões. Vida, morte, o passar do tempo, o aqui e o além. Problemas sem solução, porém impossíveis de serem evitados pelo pensamento humano, escandem-se poeticamente, não de forma racionalista ou expositiva. É a  filosofia que não diz seu nome, mas nem por isso é menos profunda.

Se Girimunho tem problemas de comunicação com o público mais amplo é porque este já está condicionado ao cinema linear e digestivo vendido pela publicidade. O fato de um filme como este e O Homem que Não Dormia estrearem no mesmo dia de um mega blockbuster como Os Vingadores não deixa de ser simbólico e interessante. São o minúsculo contraponto do cinema autoral brasileiro ao tsunami comercial de Hollywood. Tirem suas conclusões.

(Caderno 2)

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27.abril.2012 17:36:22

O Homem que Não Dormia

James Joyce dizia que Ulisses era seu romance diurno e Finnegans Wake seu romance noturno. Guardadas as imensas e devidas proporções, pode-se dizer coisa semelhante de Eu me Lembro e O Homem que não Dormia,de Edgard Navarro. O primeiro é o dia, o segundo, a noite; um é a vigília, outro o sono; um é a consciência, o outro o sonho – ou melhor, o pesadelo.

Talvez seja nessa medida e por esta razão que Eu me Lembro tenha sido amado e O Homem que Não Dormia desperte resistências, mesmo em quem se declara fã do realizador baiano, autor de um filme tão visceral quanto O Super-Outro, ícone da vanguarda baiana. Se em seu filme anterior Navarro havia posto a nu suas memórias, ternas e dolorosas, agora ele mergulha fundo, sem rede de segurança, em seus fantasmas. É empreendimento de alto risco – e o filme leva essa marca.

Daí que o vilarejo que serve de epicentro lembre Macondo ou Comala, as cidades míticas de García Márquez e de Rulfo. Cidades de sombras, mais que de seres reais, Na de Navarro comparecem um coronel, um padre sem vocação, um coronel, um estranho peregrino…enfim, uma série de tipos que expressam tanto a fantasmagoria pessoal do diretor quanto a tradição das lendas brasileiras. Impressiona a maneira como ideias ganham forma em imagens (a árvore que se desfolha de uma só vez é de antologia). Mas como Navarro provavelmente encarou O Homem que não Dormia como jorro do inconsciente não se deu ao trabalho de depurar mais a forma e dar-lhe estrutura.

Desse viés espontaneísta, o filme se ressente. É de uma coragem digna de nota; não deixa, porém, de expressar um caminho já percorrido, e talvez sem saída.

(Caderno 2)

 

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Quem se importa? É a interrogação (retórica) do filme de Mara Mourão, ao refazer a pergunta inglesa (who cares?) a respeito da desordem do mundo. A resposta será imediata: muita gente se importa com temas como a pobreza, a poluição, a falta de saúde, a injustiça. Essa gente que faz não age em nome de governos ou  ideologias políticas. São seres autônomos, que se organizam e tentam mudar as coisas. Em outra época, seriam chamados de filantropos; hoje escolhem a denominação de empreendedores sociais.

Onde agem? Em hospitais para crianças doentes, alegrando-as (é o caso do próprio marido de Mara, Wellington Nogueira e seu projeto Doutores da Alegria); é o caso do empresário criador de microcréditos para pessoas muito pobres, em geral à margem do sistema bancário. Outro, um médico, projeta um serviço de atendimento inédito na Amazônia, em lugares de difícil acesso. Outro brasileiro funda uma comunidade, na qual a pequena economia se retroalimenta e assim sobrevive. Uma norte-americana larga a carreira promissora e viaja mundo tentando dar assistência jurídica a pessoas injustamente presas; começa pelo Camboja e tenta chegar à China.

São todas iniciativas meritórias, sem dúvida. Quem pode ser contra a prática do bem? Às vezes, no entanto, as soluções parecem óbvias demais. O documentário contempla os sucessos, nunca os tropeços. Temos dificuldade em entender por que motivo, sendo tão evidentes e fáceis as soluções de certos problemas crônicos, eles ainda não foram resolvidos. É verdade também que muitos dos depoentes assumem um ar beatífico, típico dos gurus. A música e o quadro de fundo das entrevistas, decorado com revoadas de pássaros virtuais, não ajuda. Há música melosa. E vai por aí.

Nada disso no fundo é novo, mas pessoas de boa vontade são sempre bem-vindas. Ainda mais em tempo de individualismo atroz como “filosofia” de vida dominante. Esse empreendedorismo social, no entanto, deve ser compreendido. Ele parece fruto do desencanto com governos e ideologias de qualquer espécie. Baseia-se num voluntarismo do bem e volta as costas para qualquer política – a não ser as micropolíticas de intervenção local. Acredita piamente na ação em casos específicos e na multiplicação espontânea dos seus agentes, uma espécie de corrente que, em certo prazo, seria capaz de mudar o planeta. Não faz uma crítica estrutural do modelo econômico dominante, apenas deplora seus efeitos – como se uma coisa estivesse desligada da outra. Enfim, como definiu um desses personagens, o empreendedor social é um misto do capitalista ávido de lucro com Madre Teresa de Calcutá. É preciso ver se personagem tão contraditório para em pé.

 

 

 

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Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz  (Cinesesc, 15h), de Joel Pizzini, é um filme-colagem, ou filme-ensaio sobre este que foi um dos mais importantes realizadores brasileiros.

Rogério Sganzerla, cuja trajetória, durante muito tempo, parecia resumir-se à sua obra-prima, O Bandido da Luz Vermelha, ressurge aqui em toda a sua paradoxal integridade. Paradoxal, porque, no caso de Rogério, teríamos de falar de uma integridade estilhaçada, o que pode parecer uma contradição em termos, mas talvez seja a única forma de se aproximar desse artista genial.

De maneira acertada, Pizzini não tenta uma abordagem linear da trajetória de Sganzerla, mas trabalha sobre núcleos de concentrações dos interesses do cineasta. Tampouco convoca palavra de especialistas sobre a obra do autor ou especula sobre a psicologia do personagem. Trabalha com trechos de filmes do próprio Sganzerla, e também as inúmeras entrevistas que este concedeu ao longo da sua vida. Mr. Sganzerla é um filme de montagem e, em sua feitura, incorpora as ideias do personagem sobre o processo de edição. Poderíamos portanto dizer que não se trata de um filme sobre Sganzerla, mas um filme com Sganzerla.

Das aproximações pelos núcleos de interesse, destaca-se, em primeiro lugar, o fascínio por Orson Welles. Objeto de vários filmes de Sganzerla – inclusive do último, seu testamento, O Signo do Caos, a malfadada, porém muito simbólica passagem de Welles pelo Brasil em 1942 assombra, por assim dizer, toda a obra de Rogério Sganzerla.

Como se sabe, Welles veio ao Brasil em 1942, durante a 2.ª Guerra, como parte da “política da boa vizinhança” do governo americano. Sua missão: filmar o carnaval brasileiro. Só que Welles via muito mais do que isso. Interessou-se pelas favelas e pelo samba, e teve em Grande Otelo e Herivelto Martins seus cicerones na noite carioca. Interessou-se também pela expedição dos jangadeiros cearenses que navegaram de Fortaleza ao Rio para reivindicar direitos trabalhistas a Vargas. Welles quis refazer a chegada dos jangadeiros à Baía de Guanabara e um deles, Jacaré, afogou-se, em acidente pouco esclarecido. Welles jamais se recuperou desse golpe e o filme, chamado It’s All True (É Tudo Verdade), foi interrompido.

Esse episódio marca toda a vida de Orson Welles e o “filme brasileiro”, como ele se referia a It’s All True, restou como trauma, como ele diz em seu depoimento a Peter Bogdanovich. Sganzerla incorpora esse trauma do mestre e o retoma como reflexão sobre a realidade brasileira. Passa a vida escavando esse acontecimento, com suas implicações simbólicas para a cultura brasileira. É o cerne de Mr. Sganzerla, como foi o núcleo duro da obra do próprio diretor.

Em torno dele se organizam outros planetas do imaginário de Sganzerla, como o tropicalismo, a paixão pela música nacional e Oswald de Andrade. Nossos telescópios críticos ainda investigam essa galáxia de modo muito distante.

(Caderno 2)

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06.março.2012 08:37:04

Billi Pig

 

Billi Pig é a primeira incursão de José Eduardo Belmonte na comédia e também sua primeira aposta num filme que busca comunicação maior com o público. Não que seja nenhuma obra-prima, mas este diálogo de Belmonte com a chanchada apresenta atrativos que outras comédias brasileiras recentes em geral não têm.

Escapa ao modelo Globo de produção, o que já é um avanço. Não usa a grosseria como chamariz fácil. Nem por isso deixa de ser apimentado, que é sempre um condimento interessante para um filme que se propõe divertir. E, com isso, conserva, como uma espécie de ruído de fundo, a presença do coração selvagem de Belmonte, um diretor de fato subversivo em sua visão de mundo.

Desse modo, apesar do recurso fácil (e um tanto cansativo) do porquinho de plástico falante, Billi Pig apresenta bons momentos, em especial por conta do elenco afiado.

Milton Gonçalves dá um show como um falso padre priápico. Selton Mello está igualmente envolvente como o corretor de seguros picareta que tenta passar a perna em um bicheiro. Grazi Massafera, em sua estreia no cinema, não compromete como a perua gostosona com aspirações a atriz (talvez a natureza do papel a favoreça…). Otávio Müller é marcante como o poderoso chefão contraventor, que espera por um milagre para salvar a filha, assim como Murilo Grossi, que faz o seu truculento braço direito. Preta Gil está hilária como dona de uma funerária.

Enfim, o elenco é uma coisa boa de se ver e ouvir, e quem escolhe time dessa qualidade, mesclando veteranos a novatos, já sabe que o jogo vai fluir. Desde que haja uma direção cheia de empatia pelos personagens e pelas pessoas, o que parece ser uma marca registrada de Belmonte, cineasta conhecido como agregador.

Billi Pig é despretensioso, uma comédia sem qualquer veleidade intelectual aparente. Não tem a ambição de outros trabalhos do diretor como Subterrâneos, A Concepção, Se Nada mais Der Certo ou Meu Mundo em Perigo. Aposta no tom da chanchada, com pegada suburbana bastante interessante e uma piscadela à crítica social, cara ao diretor: que mundo é esse, afinal, em que trapaceiros tentam passar a rasteira em colegas?

Na percepção do desacerto geral do mundo entrevemos a assinatura de Belmonte, nessa obra muito mais comportada do ponto de vista estético do que as suas outras. O tom anárquico, se o termo cabe, fica no enredo, com seu apelo humorístico ao fantástico (o brinquedo que se torna um Grilo Falante da personagem de Grazi, Marivalda) e no tom de interpretação dos personagens, no seu timing. E, em especial, nessa familiaridade com os elementos populares brasileiros, em geral muito estranhos aos nossos cineastas classe média – a vida do morro e da periferia, um certo pragmatismo bem próprio de quem nada recebe de graça da vida, a esperança de levar vantagem em tudo, que se liga, por paradoxo, a certa solidariedade etc. É bom ver um filme que tenha não a Zona Sul como personagem, mas Marechal Hermes.

Enfim, em Billi Pig temos o Brasil real a impregnar o filme, e não de maneira artificial, apenas para constar. Com todos os seus defeitos (que existem), ele se salva por esse grau de autenticidade. Rimos pouco nessa comédia. Sorrimos muito. E, quando isso acontece, é de nós e para nós que estamos rindo e sorrindo. Como o fazemos quando nos reconhecemos em algo.

(Caderno 2)

 

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20.fevereiro.2012 11:41:31

Reis e Ratos

 

É difícil fazer uma sátira política. Mais ainda, fazer uma sátira política inteligente. E muitíssimo mais complicado é fazer uma sátira política inteligente que, ainda por cima, seja engraçada. Na verdade, a última qualidade, se presente, absolve a ausência de todas as outras. Mas o que dizer de uma sátira política pouco engenhosa e que deixa a plateia indiferente? É o caso de Reis e Ratos, do bom diretor Mauro Lima, de Meu Nome Não É Johnny.

Lima recria, em termos de paródia, o clima golpista que havia no País em 1963 e que levou à derrubada do governo no ano seguinte. De certa forma, trabalha com os elementos, alguns deles ao menos, que de fato estavam em jogo naquela situação: militares e civis interessados em se livrar do governo, adidos norte-americanos que davam subsídios à desestabilização, políticos e latifundiários também interessados em tirar sua casquinha, etc. Junta a isso  personagens fictícios que, infelizmente, são esculpidos a machadadas e tornam-se caricaturas.

Os vários núcleos da trama parecem tão fora de sincronia como as falas de alguns tipos que mimetizam personagens dublados (uma boa sacada, em tese). O que fica, então, são impressões desconectadas uma das outras. A dupla Otávio Müller, como major, e Selton Mello, um agente americano, torna-se responsável pelos poucos momentos interessantes do filme. Não são melhores porque, com o texto que tinham os atores, milagres não são permitidos. A presença em cena de Rodrigo Santoro, como o gigolô Roni Rato, só pode ser definida como penosa. Cauã Reymond tenta ser engraçado como o radialista metido a sensitivo, mas o papel não ajuda. E Rafaella Mandelli, bela estampa, parece meio perdida no papel de cantora gaúcha que se torna pivô da trama.

Reis e Ratos é um capítulo à parte na tragédia em que se tornou o gênero cômico no Brasil. Com raras exceções, ou se investe na grosseria como forma de buscar cumplicidade num público já anestesiado pela nota dominante da TV, ou, como é o caso de Reis e Ratos, aposta-se todo o capital sobre um elenco conhecido e descura-se tanto da carpintaria do texto quanto da qualidade de direção.

Os bastidores de 1964 costumam ser apresentados de forma grave no cinema. Já era hora de nos divertirmos com essa tragédia política, que, de fato, teve muito de farsesca, quando vista à distância. Mas não é ainda desta vez que fizemos essa catarse pelo riso.

(Caderno 2)

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Como em toda análise de números, podemos concluir que o copo está meio cheio ou meio vazio, dependendo do ângulo pelo qual se olha e da maneira pela qual se analisa.

No primeiro caso, cabe registrar que o número de ingressos aumentou muito de 2010 para 2011, e tem aumentado progressivamente de ano a ano, o que quer dizer que o negócio cinema melhorou. Boa notícia para os donos de salas, a ser atribuída, por certo, à melhoria da renda média do brasileiro, à entrada da classe C no circuito consumidor, etc. Mais gente tem grana para gastar com o lazer e parte desse dinheiro vai para o cinema.

No que toca ao cinema brasileiro, comemora-se o fato de sete filmes terem quebrado a barreira do milhão de espectadores. 2011 teria então escapado à sina de ter um ou dois blockbusters nacionais a puxar a fila e o resto da produção a vegetar em números desprezíveis. Certo.

Mas, olhando pelo lado vazio do copo, o número de ingressos caiu 30% em relação ao exercício anterior…justamente porque a produção de 2011 não dispunha desses blockbusters de 2010, o espírita Nosso Lar e, em especial, Tropa de Elite 2, só ele responsável pela venda de 11 milhões de ingressos. Comemora-se também o fato de termos chegado a 98 lançamentos em 2012, esquecendo-se de que boa parte desses filmes teve desempenho abaixo de pífio na bilheteria. Foram vistos pela família e círculo de amigos do realizador, se tanto.

Melhor então apurar a enumeração de dados pela análise de outras fontes. Olhando-se o repertório de filmes brasileiros lançados em 2011, vê-se uma quantidade razoável de títulos interessantes e dignos. Por outro lado, sobressaem na bilheteria quase só as comédias grosseiras e com elenco televisivo como Cilada.com e De Pernas Pro Ar. Dá para comemorar um fato desses? Filmes valiosos como Trabalhar Cansa e Riscado atraíram menos de 8 mil espectadores cada. Segundo dados do boletim Filme B, cerca de 20 longas-metragens tiveram menos de mil (mil!) espectadores. Os diretores se acham gênios e seus amigos estão de acordo. Só esqueceram de avisar o público. De outras onze produções nada se sabe pois as distribuidoras sequer informaram seus números.

O lado vazio do copo é alarmante. (Luiz Zanin)

 

 Abaixo, o informe da Ancine

 

 

Informe Anual da ANCINE mostra que público e renda cresceram em 2011

 

Sete lançamentos nacionais superaram a marca de 1 milhão de espectadores

 

 

Os números finais das bilheterias dos cinemas em 2011 confirmaram a tendência de alta verificada desde o início do ano no mercado brasileiro. O número total de ingressos vendidos chegou a 143,9 milhões, e a renda bruta nas bilheterias dos cinemas alcançou o valor de R$ 1,44 bilhão, estabelecendo novos recordes e colocando o Brasil entre os mercados cinematográficos mais importantes do mundo. Esses e outros dados integram o Informe Anual de Acompanhamento de Mercado de 2011, divulgado nesta segunda-feira pela ANCINE.

 

A bilheteria dos filmes brasileiros, com quase 18 milhões de ingressos vendidos e mais de R$ 163 milhões de renda bruta, ficou entre as três melhores dos dez últimos anos, em números absolutos.

 

“O número de filmes de longa-metragem brasileiros lançados, 99 no total, foi o maior dos últimos 10 anos”, sublinha o diretor-presidente da ANCINE, Manoel Rangel. “Também vale destacar que sete filmes brasileiros venderam mais de 1 milhão de ingressos, o que indica uma concentração menor de público em poucos títulos nacionais.”

 

O ano de 2011 também rendeu recordes para os filmes estrangeiros exibidos no Brasil. A renda bruta de bilheteria dos filmes estrangeiros foi de R$ 1,27 bilhão, tendo dobrado de valor em cinco anos. Isso reflete um crescimento do número de ingressos vendidos de cerca de 60% e um aumento do preço médio dos ingressos de 30%, no mesmo intervalo.

 

Em relação a 2010, a queda da bilheteria dos filmes brasileiros em cerca de 30%, tanto em termos de ingressos vendidos como em renda bruta, é resultado da ausência, em 2011, de megassucessos de bilheteria comparáveis a ‘Tropa de Elite 2’ ou ‘Nosso Lar’, maiores responsáveis pelos excelentes resultados no ano anterior. A participação dos filmes brasileiros no mercado de exibição em salas (market share) em 2011 ficou em 12,4%.

 

Três filmes brasileiros ficaram entre as 20 maiores bilheterias do ano: ‘De Pernas pro Ar’,  ‘Cilada.com’ e ‘Bruna Surfistinha’. Também se destacaram ‘Assalto ao Banco Central’, ‘O Palhaço’, ‘O Homem do Futuro’ e ‘Qualquer Gato Vira-Lata’, todos com resultados de público acima de um milhão de ingressos.

 

As distribuidoras brasileiras independentes mantiveram a sua tendência de crescimento, tendo assegurado uma participação de mercado de 27,5% no total de filmes exibidos e de 69,0% na exibição de filmes brasileiros.

 

O Preço Médio do Ingresso (PMI) foi de R$ 9,99, sendo que os filmes brasileiros apresentaram PMI de R$ 9,14 e os filmes estrangeiros apresentaram PMI de R$ 10,11. A diferença se explica pelo ingresso mais caro cobrado nas salas 3D, onde predominam lançamentos estrangeiros.

 

O Informe Anual consolida assim os dados de mercado no período de 31 de dezembro de 2010 a 5 de janeiro de 2012.

 

 

 

 

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