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Luiz Zanin

FORTALEZA – Boa segunda noite de competição no Cine Ceará, apesar das cadeiras históricas do Theatro José de Alencar, que nos deixam descadeirados.

Curta: Querença, de Iziane Filgueiras Mascarenhas. A moça fez um discurso longo no palco (tinham de limitar o tempo, mas o filme é bom. Opressão das mulheres no cangaço, num caso de triângulo amoroso. Foto ótima, concepção um tanto convencional da narrativa, talvez um tanto longo para um curta (cerca de 20′).

Longa estrangeiro: o guatemalteco Distância, de Sergio Ramirez toca pela narrativa singela, com a história do pai separado da filha pela guerra civil e que se vai reunir com ela 20 anos depois. Um tanto tosco, é verdade, mas passa autenticidade, se você tiver paciência.

Futuro do Pretérito, de Ninho Moraes e Francisco César Filho. Filmaço esse documentário sobre o Tropicalismo, que se aproveita como linha condutora de um espetáculo de André Abujamra no Oficina. O Tropi está na moda. Em filmes como uma Noite em 67 e Tropicalismo, de Marcelo Machado, que abriu o É Tudo Verdade. Na polêmica entre Caetano Veloso e Roberto Schwarz. Aliás, o filme de ontem coloca matiz, ouvindo vozes dissonantes com as de Sérgio Carvalho, da Companhia do Latão, e do sociólogo e escritor Marcelo Ridenti. Ao abrir a música para o pop, o Tropicalismo não contribuiu para a massificação da arte, para sua mediocrização contemporâne?  A discussão é política, como se observou pelas ressonâncias entre Caetano e Schwarz. Mais capítulos pela frente, e esse Tropicalismo Now poderá contribuir para alimentá-los. O filme é energético e cheio de música e ideias. Bom demais.

 

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FORTALEZA

Mãe e Filha, filme de beleza intensa e muito pungente, comoveu ao público do Cine Ceará. Dirigido pelo cearense Petrus Cariry (filho do cineasta Rosemberg Cariry), Mãe e Filha coloca o universo sertanejo em diálogo com a escola russa de Tarkovski, Paradjanov e Sokúrov, influências reconhecidas pelo cineasta em conversa com o Estado.

A história é simples e densa ao mesmo tempo. Uma mulher (Juliana Carvalho), moradora em Fortaleza, regressa ao sertão para levar à sua mãe um triste presente – um bebê morto, que seria seu primeiro neto. A senhora (Zezita Matos) vive em meio às ruínas do que um dia deve ter sido seu palacete senhorial. A própria cidade está abandonada e corroída pelo tempo. Lembra um pouco o ambiente de Comala, de Juan Rulfo, em seu Pedro Páramo. Vive-se entre fantasmas, e com um morto para enterrar.

A filmagem foi feita na cidade fantasma de Cococi, no sertão do Inhamuns, onde Petrus já havia realizado o curta Dos Restos e da Solidões (2006), primeira etapa de uma trilogia involuntária em torno dessa cidade, abandonada por questões políticas e de vinganças entre famílias rivais. Há um drama familiar também em curso no tema proposto por Petrus. A mulher jovem é a figura racional, que deseja romper com uma ancestralidade já morta. A mãe é a preservação da tradição, junto com outros elementos míticos, representados, por exemplo, por quatro vaqueiros, que podem ser “lidos” como os cavaleiros do apocalipse, num universo assediado de religiosidade.

É um filme de múltiplas leituras, denso e rigoroso, como deseja seu diretor, um jovem cuja carreira deve ser acompanhada com atenção. O mais incrível é que Mãe e Filha foi feito com meros R$ 150 mil, filmado com uma câmera 7D, fotográfica, e montado em um notebook. “Queria fazer com orçamento mais folgado e em 35 mm, não deu, não ia ficar esperando e filmamos com o recurso que tínhamos; o filme é filho da tecnologia”. São caminhos que se abrem para o cinema.

O outro concorrente da noite foi o muito mais convencional Pássaros de Papel, do espanhol Emilio Aragon. Com uma história ambientada durante a Guerra Civil, pouco apresenta a mais do que já foi exaustivamente tratado pelo cinema. Mas é muito bem feito e agradou ao público.

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08.junho.2011 12:13:30

Ceará Ibero-americano

O Coro, do brasileiro Werner Schuman, dá início, na noite desta quarta-feira, 8, ao 21º Cine Ceará, que adotou, faz alguns anos, o formato ibero-americano em sua mostra competitiva de longas-metragens. Serão nove filmes em concurso, sendo três nacionais. Além do paranaense O Coro, concorrem aos troféus Mucuripe Mãe e Filha, de Petrus Cariry, e Homens com Cheiro de Flor, de Joe Pimentel, ambos do Ceará. O Brasil, portanto, será a força majoritária na mostra principal.

Divulgação
Divulgação
‘Os Últimos Cangaceiros’, remanescentes da luta no sertão

De outros países vêm Assalto no Cinema, de Iria Gomez (México), Bicicleta, Maçã, Colher, de Carles Bosch (Espanha), Boleto ao Paraíso, de Gerardo Chijona (Cuba), Língua Materna, de Liliana Paolinelli (Argentina), Pássaros de Papel, de Emilio Aragón (Espanha) e Todos Teus Mortos, de Carlos Moreno (Colômbia). Nove longas-metragens, de seis países diferentes, e todos inéditos no Brasil. Uma boa colheita.

Concorrem também 12 curtas-metragens, estes todos brasileiros, a maioria inédita, mas alguns deles já com passagem por outros festivais.

Para completar a programação do festival cearense, há mais dois longas-metragens, ambos fora de concurso. No encerramento, dia 15, será exibido Na Quadrada das Águas Perdidas, de Wagner Miranda e Marcos Carvalho, com Matheus Nachtergaele no elenco. O outro hors concours é assinado pelo próprio diretor do festival, Wolney Oliveira: trata-se de Os Últimos Cangaceiros que, de acordo com o cineasta, é o primeiro documentário em longa-metragem feito sobre o cangaço. Wolney entrevista remanescentes das lutas entre cangaceiros e volantes, gente que conheceu Lampião e Maria Bonita, Corisco e Dadá.

O festival, um dos mais importantes do calendário nacional, traz como diferencial em relação a seus pares o recorte ibero-americano, “exibindo filmes que talvez não tivessem vez no circuito comercial brasileiro”, como lembra Wolney Oliveira. A mostra procura se pautar pela busca da qualidade estética dos concorrentes, embora leve em conta o gosto do público na seleção.

Nesta edição, o Cine Ceará, depois de permanecer por muitos anos no Cine São Luiz, no centro de Fortaleza, vai mudar de casa. As sessões serão no histórico Theatro José de Alencar, que costuma ser palco de ópera e música erudita, mas que, durante uma semana, estará adaptado para receber o charme do cinema.

Outra novidade é que parte da programação será repetida na cidade de Juazeiro do Norte, que comemora cem anos de emancipação política. A extensão a Juazeiro se faz também pela temática adotada este ano pelo Cine Ceará – Religião e Religiosidade no Cinema. Afinal, Juazeiro do Norte é a terra de Padre Cícero.
LONGAS EM CONCURSO

Todos Teus Mortos - trailer
de Carlos Moreno (Colômbia) – ficção

Bicicleta, Maçã, Colhertrailer
de Carles Bosch (Espanha) – documentário

Boleto ao Paraíso - trailer
de Gerado Chijona (Cuba) – ficção

Homens com Cheiro de Florbastidores
de Joe Pimentel (Brasil) – ficção

Língua Materna -trailer
de Liliana Paolinelli (Argentina) – ficção

Mãe e Filha – trailer
de Petrus Cariry (Brasil) – ficção

O Coro -trailer
de Werner Schumann (Brasil) – ficção

Pássaros de Papel - trailer
de Emilio Aragón (Espanha) – ficção

Assalto no Cinematrailer
de Iria Gomez (México) – ficção



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O Último Verão de La Boyita, da Argentina, ganhou o troféu Mucuripe de melhor filme no Cine Ceará. Faturou também os prêmios de som e montagem.

O espanhol A Mulher sem Piano ficou com fotografia, roteiro e direção.

O documentário Memória Cubana levou o Prêmio Especial do Júri

O Último Comandante ficou com o troféu de ator, dividido entre Damian Alcázar e Alfredo Catania.

O cubano Lisanka rendeu o prêmio de atriz a Miriel Cejas.

O brasileiro Estrada para Ythaca teve a melhor trilha sonora.

Do Amor e outros Demônios recebeu o troféu de direção de arte.

O único concorrente que nada recebeu do júri oficial foi o mexicano Alamar. Por sorte, recebeu o prêmio de melhor filme pela crítica.

Entre os curtas, o destaque foi para Ensaio de Cinema, de Allan Ribeiro, premiado como melhor filme pelo júri oficial e pela crítica.

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SAio daqui a pouco para o Cine São Luiz, na Praça do Ferreira, em Fortaleza, para a premiação do Cine Ceará. Foi uma bela seleção de filmes. Não sei o que vai dar na votação do júri, mas eu gostei muito do mexicano Alamar, do brasileiro Estrada para Ythaca e do espanhol A Mulher sem Piano. Mas algo me diz que Do Amor e Outros Demônios pode ter caído no gosto dos jurados. É só uma impressão. Vamos ver.

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FORTALEZA – A noite de domingo no Cine Ceará foi inteira dedicada à ilha. O documentário Memória Cubana, de Alice Andrade, traz uma parte da história política do século através dos “noticieros”, os cinejornais que passavam nas salas de cinema informando a população do que ia pelo mundo. Já a ficção Lisanka, do diretor cubano Daniel Dias Torres, relembra um episódio marcante da história do século 20 – a crise dos mísseis, quando se esteve mais perto da catástrofe nuclear – através de uma espécie de comédia romântica de sabor caribenho.

É curioso, porque Daniel Diáz Torres, como tantos outros cineastas, também trabalhou nos noticieros do Icaic, o instituto de cinema criado pela revolução dos barbudos. “Naqueles tempos achávamos que o cinema podia de fato mudar a realidade e, em certo sentido, aqueles cinejornais ajudavam a mudá-la.” Tempos de utopia, reconhece Daniel, e talvez irrepetíveis. De qualquer forma, os noticieros viveram do início da revolução até final dos anos 90, quando então foram abandonados.

A prática dos noticieros, que eram semanais e depois viraram mensais, durando cerca de 15′ cada um, criou um extraordinário documento daquela época. Em Cuba e no mundo. Foi esse rico acervo que encantou Alice Andrade, que é filha do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, diretor de Macunaíma e Os Inconfidentes. “Havia 1493 edições de noticieros, cerca de 200 horas editadas”, conta Alice, que estudou em Havana e pesquisou no Icaic.

Um nome despontava em meio a esse mundos dos noticieros – o do documentarista Santiago Álvarez, um mestre reconhecido internacionalmente (há, no Brasil, um ótimo livro sobre Santiago, escrito pelo crítico Amir Labaki). São imagens preciosas, dos primeiros anos da revolução, com suas figuras maiores, Fidel, Che, Camilo, Raúl. Mas também gente do povo, no trabalho, em condições de vida difíceis. Os documentários são a favor, não raro panfletários, mas, pouco a pouco, aparecem os noticieros críticos, que falam dos problemas da burocracia e de outras mazelas da ilha. Talvez tenha sido por isso que foram postos de lado nos anos 90, “quando não havia muito interesse das autoridades em mantê-los dessa maneira”, diz Daniel. Esse aspecto crítico é contemplado no documentário de Alice Andrade, cuja maior virtude é a recuperação dessas imagens hoje pouco vistas.

Em Lisanka, o histórico aparece sob forma ficcional. A crise dos mísseis, de outubro de 1962, pôs o mundo à beira do holocausto nuclear. Aviões espias americanos descobriram que os soviéticos haviam instalado mísseis nucleares em Cuba, a 100 quilômetros da Flórida. Kennedy deu um ultimato a Krushev, então premiê soviético, e decretou bloqueio à ilha. Nesse clima de altíssima tensão, há uma tratorista cubana, a tal Lisanka do título, cujo coração balança entre dois cubanos e um soldado russo. “Queria marcar essa história com uma certa ironia, mas nunca com tom de burla, pois foi uma época dramática”, diz Daniel.

(Caderno 2, 29/6/10)

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24.junho.2010 18:35:36

Gabo no cinema

FORTALEZA – Daqui a pouco vou ao Cine São Luiz, onde começa o 20º Cine Ceará. Há as homenagens – ao cineasta peruano Francisco Lombardi e ao ator brasileiro Mauro Mendonça. Depois rola o filme – Do Amor e Outros Demônios, da estreante colombiana Hilda Hidalgo. Será que ela dá conta de levar o universo imaginário do seu conterrâneo às telas? Depois eu conto.

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24.junho.2010 08:52:16

Começa o Cine Ceará

Amigos, estou embarcando para Fortaleza, onde vou, mais uma vez, cobrir o Cine Ceará. Abaixo, a matéria de apresentação que escrevi no Caderno 2 de hoje. Mando notícias de lá, inclusive da Copa, que continua a rolar, apesar de o cinema cobrar também seus direitos.

Em sua 20.ª edição, que começa nesta quinta, 24, à noite, em Fortaleza, com a exibição de Do Amor e Outros Demônios em première mundial, o Cine Ceará mantém-se no formato ibero-americano. “Essa fórmula veio para ficar”, diz seu diretor, o cineasta Wolney Oliveira. Não apenas porque se tornou importante via de divulgação da cultura cinematográfica da América Latina e da Europa ibérica no Brasil, mas pelas próprias raízes do diretor, pois Wolney é formado pela tradicional Escuela de Cine y TV de San Antonio de los Baños, que fica nas cercanias de Havana, em Cuba.

Essa opção pelos ibero-americanos garante ao Cine Ceará diversidade de filmes e ineditismo da maioria deles, desafio constante dos festivais brasileiros, em geral condenados a repetir títulos que já participaram antes de outros eventos do gênero, o que diminui seu interesse. Em Fortaleza, dos oito longas-metragens em concurso, cinco são completamente inéditos no Brasil. O filme de abertura, Do Amor e Outros Demônios, dirigido por Hilda Hidalgo, coprodução entre Costa Rica e Colômbia baseada na obra de Gabriel García Márquez, tem estreia mundial em Fortaleza. Serão vistos pela primeira vez no Brasil Alamar, do México, o espanhol A Mulher Sem Piano e os brasileiros El Último Comandante e Memória Cubana

Completam a seleção títulos que já participaram de outros festivais, como o argentino O Último Verão de la Boyita, o cubano Lysanka e o brasileiro Estrada para Ythaca. Wolney chama a atenção para algumas características deste filme, “o único 100%” brasileiro, já que os de Alice Andrade e Vicente Ferraz são coproduções. Estrada para Ythaca ganhou a Mostra Aurora, para diretores estreantes, no Festival de Tiradentes, em janeiro deste ano. Na sua ficha técnica aparecem quatro diretores – Luiz Pretti, Ricardo Pretti, Guto Parente e Pedro Diógenes – que fazem também parte do elenco. “O filme custou apenas R$ 2 mil”, diz Wolney. “E acredito nisso, porque os diretores são também os atores e rodaram tudo em câmera digital, uma dessas máquinas que tiram fotos mas também podem ser usadas numa filmagem.”

Milagres da tecnologia contemporânea. O diretor do festival viu o longa e garante que ele não perde em qualidade para outras obras filmadas em suporte digital. “É o que está acontecendo hoje; cada vez mais a tecnologia fica barata e os resultados, melhores”, diz. De modo que no Cine Ceará teremos em concurso obras que custaram de R$ 2 mil a alguns milhões de reais, como é o caso do filme de abertura, Do Amor e de Outros Demônios, baseado em obra de escritor famoso e captado em película 35 mm, ainda insubstituível em termos de qualidade, definição e matizes de cor.

Estrada para Ythaca promete levantar discussão sobre a possibilidade de se fazer obras relevantes com poucos recursos. Ganhou festival e teve boa repercussão crítica onde foi apresentado. Foi citado pelo crítico Pedro Butcher em artigo para a revista Cahiers du Cinéma sobre o cinema brasileiro contemporâneo.

As mostras paralelas prometem bons filmes e boas discussões. Uma delas Diásporas: as Fronteiras da Identidade selecionou duas produções brasileiras e quatro estrangeiras para falar sobre o universo da imigração e da cultura multinacional em curso.

Outra mostra lembra os 20 anos da Queda do Muro de Berlim e traz filmes curiosos a respeito desse fato histórico. Um deles, Coelho à Berlinesa, é muito interessante”, diz Wolney. Fala de uma colônia de coelhos que viveram sossegados e proliferaram alegremente nos arredores do Muro durante os anos da divisão entre as duas Alemanhas. “Com a queda, eles passaram a ser caçados e foram parar nos pratos dos alemães, em especial nos da ex-República Democrática Alemã.” Os coelhos germânicos são vítimas, até então desconhecidas, do fim da Guerra Fria.

Apenas um desfalque a ser registrado para a 20.ª edição do Cine Ceará. Seu presidente de honra, o cineasta argentino Fernando Birri, não virá: “Com seus 85 aninhos, Birri está ocupado na produção do seu próximo longa-metragem”, informou Wolney.

Os Longas Concorrentes

El Último Comandante (Brasil/Costa Rica)

Memória Cubana (Brasil/Cuba/França)

Estrada para Ythaca (Brasil)

O Último Verão de la Boyita (Argentina/França/Espanha)

Do Amor e Outros Demônios (Costa Rica/Colômbia)

A Mulher Sem Piano (Espanha/França)

Alamar (México)

Lisanka (Cuba/Venezuela/Rússia)


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